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Full text of "Revista Lusitana"

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THE UNIVERSITY 
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1,161—0-1096 



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I 



REVISTA LUSITANA 



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Arohivo de estudos pMlologieos e etimológicos 
relativos a Portugal 



PUBLICADO 



com a collaboraçâo dos especialistas portugueses 
e a de alguns estrangeiros 



J. Leite de Vàsconcellos 



Medico pela Btcbola do Porto, Profèaaor na Bibliotheca Nacional de Lisboa 
o Comer Tador da metma Bibliotheca 



VOL. III 



PORTO 

LIVRARIA PORTUENSI 

DE 

LOPES & C* 
Saecestores de Ciarei * C* 

1895 



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Porto : Typ. A. F. Vuconoelloa, Sá Noronha, 51 



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CONTOS POPULARES PORTUGUESES 

(CoUigidos da tradição oral) 



I 

O PRINC1PE-POMBO 

Estava um dia uma princeza á janella a pentear-se com um pente 
«Toiro; vae, vem de lá um pombinho branco e leva-lhe o pente. No 
outro dia estava ella outra vez á mesma janella a pôr no cabello um 
laço de fita azul, quando vem o mesmo pombinho e lhe foge com a 
fita também. No outro dia, áquella hora, pôs-se a princeza á janella á 
espera do pombinho: não appareceu. No outro dia a mesma coisa: não 
appareceu! Ficou a princeza muito triste e apaixonada por não tor- 
nar a ver o pombinho, e deitou-se na cama com a cabeça tapada, sem 
querer ver ninguém nem dar uma falia a pessoa nenhuma. Vae o rei, 
como visse a filha tão doente, mandou logo chamar os cirurgiões (sur- 
giões) todos do seu reino, mas nenhum lhe soube dar com a cura; e 
depois então o rei pôs um decreto que toda a pessoa que fosse capaz 
de lhe dar saúde, se fosse homem casaria com ella, e se fosse mulher 
que a faria muito feliz. Vieram príncipes, fidalgos, marqueses, que to- 
dos elles queriam ver se davam com o mal da princeza para depois 
casarem com ella, mas ella cada vez estava peor. 

Bem, estavam as coisas nisto, quando um dia se encontraram na 
rua duas velhas (e uma d ? ellas levava um pão debaixo do braço) e 
vae diz assim uma para a outra: «O' fulana, aonde vaes tu?» — «Eu 
vou ao palácio do rei, porque has de ter ouvido dizer que está a prin- 
ceza muito doente e não quer ver ninguém, e depois eu, como sei 
muitas historias muito bonitas, vou ver se lh'as conto para ella se 
distrahir, que talvez assim ella se ponha boa e posso eu vir a ser 
muito feliz». 

Deixemos agora a velha que foi para o palácio e vamos a ver o 
que succedeu á outra que levava o pão. Foi ella andando por alli fóra, 
e depois tinha de descer por uma ladeira muito Íngreme, e vae cahiu- 
Ibe o pão e foi a rolar pela ladeira abaixo. Ella pega a correr atrás 
do pão, e quando chegou ao fundo da descida havia lá uma quinta 
muito bonita, e a velha disse assim: «Ora esta! já agora vou ver o 
fim disto». Quando chegou lá mais adeante, estava uma fonte d'agua 
e vem um burrico com umas cangalhas de prata, e vae os barris sal- 

H£V. lusit , vol. ih, fase. 1. 1 



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2 



STA LUSITANA 



taram das cangalhas abaixo e foram-se encher v ,em ninguém 
lhe tocar. 

Depois de cheios tornaram a saltar para cima u cangalhas e o 
burrico foi-se andando. A velha estava toda embasbacada de ver um 
caso d'aquelles, mas como estava com muita sede quiz beber uma pin- 
guinha d'agua; mal ella se chegou á fonte, a agua estremeceu e ouvi- 
ram-se umas vozes que diziam assim: «Ai que me mexem! — Quem é? 
— E' a velha? — Pancada nella!» E era pancada para cima da velha 
que eu sei cá, tudo sem ella ver ninguém. Vae ella não teve remédio 
senão tirar-se, e pegou em si e disse assim: «Ora esta! nunca tal me 
succedeu um caso (Testes, mas já agora vamos a ver no que isto vae 
dar». E despois foi andando atrás do burro. 

Lá mais adeante estava um palácio muito bonito e o burrico en- 
trou pelo palácio acima e a velha atrás d'elle, e despois o burro en- 
trou numa cozinha muito grande e a agua que elle trazia foi-se vasar 
na talha sem ninguém lhe pegar. E a velha cada vez mais pasmada! 
Depois principiou a olhar á roda e viu muitos lumes accesos e muitas 
carnes a assar e muitos petiscos de toda a qualidade a fazerem-se ao 
lume, e vae ella diz assim: «Estão aqui tantos assados; vou comer 
um bocadinho». Mal ella tocou na carne, a carne estremeceu e houve 
uma voz que disse assim: «Ai que me mexem! Quem é? E' a velha? 
Pancada nella!» E de todas as bandas cahiam pancadas para cima da 
velha, que ella não teve remédio senão se tirar. Foi mais adeante e 
viu uma casa onde estava uma mesa posta com muito bons petiscos, 
mas a velha nem lhe tocou. Para quê? Para levar mais pancada? De- 
pois, mais adeante viu um quarto onde estava uma cama e uma com- 
moda, tudo muito bem arranjado, e vae a velha diz assim: «Já agora 
hei-de vêr quem dorme aqui esta noite». — Metteu-se debaixo da cama 
e assim que deu meia-noite num relógio que havia no quarto, ella 
vae, vê vir pelo ar uma bacia d'agua e poisar-se no chão sem nin- 
guém lhe tocar, e no mesmo repente vê vir um pombinho branco. 
Depois o pombinho foi, banhou-se, banhou-se e fez-se num rapaz 
muito lindo. Fez-se num rapaz muito lindo, e ao depois abriu uma 
gaveta da commoda e vestiu-se, e depois tirou uma chave d'um co- 
frezinho que tinha em cima da commoda e abriu outra gaveta e tirou 
de lá um pente d'oiro e uma fita azul e pôs-se a dizér assim: 

«Ai pente, pente, 
Fita da mesma sorte, 
Quem me déra agora vêr 
Quem d'amores está morta!» 

Disse isto tres vezes, depois esteve alli muito tempo, muito tem- 
po, e depois foi-se deitar. A velha estava morta por se tirar d'alli, 
mas não teve remédio senão deixar-se ficar. 

De manhã, antes do sol nascer, vem outra vez a bacia pelo ar e 
pôs-se no chão sem ninguém lhe tocar. 



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CONTOS POPULARES PORTUGUESES 



3 



O príncipe levantou-sc e foi outra vez tirar da gaveta o pente e 
a fita e esteve muito tempo a olhar para cila, e disse tres vezes: 

«Ai pente, pente, 
Fita da mesma sorte, 
Qaem me déra agora vêr 
Quem demores está morta!» 

Depois banhou-se na bacia d'agua, fez-se num pombinho e fugiu. 
A velha sahiu debaixo da cama c disse assim: «Ora esta! isto é que 
estava um caso bonito para contar áprinceza; nunca tal me succe- 
deu uma partida d'estas! Vae a velha pegou em si, voltou pelo cami- 
nho por onde tinha vindo; depois foi ter ao palack) do rei, e diz as- 
sim a sentinella: «O que quer você aqui, sua velha?» — Diz ella: «eu 
venho ver se dou saúde á princeza». — «Você está doida, mulher? 
Você não sabe que quem lá for e não der saúde á princeza que leva 
a cabeça fóra e é posta acolá espetada á porta da casa da guarda? 
Olhe que quantidade delias que já lá estão! Veja se quer ir para lá 
também — (e era a verdade, que a casa da guarda já tudo eram ca- 
beças). Tantos fidalgos, e pessoas maiores que você, que já lá tem 
ido e não tem feito nada, e quer você agora saber mais do que ellas! 
Ande lá, mulher, não seja doida, vá para casa e deixe-se de tolices». 
— Diz a velha, assim: «Não me importa de morrer; também já estou 
d'esta edade, não faz falta que eu morra; deixe-me ir, deixe-me ir!» 
Depois a sentinella foi ter com o rei e disse-lhe assim: «Saiba V. M. 
que está lá em baixo uma velha que diz que quer dar saúde á prin- 
ceza». — Disse o rei assim: «Já agora faça-se a vontade á velha; as- 
sim como assim a princeza tem de morrer. . . deixa-a lá». 

Quando a sentinella trouxe esta resposta á velha, ella ficou con- 
tentíssima, e depois levaram-na ao quarto da princeza. Ella entrou, 
fechou a porta por dentro e depois foi direita á cama da princeza e 
fez-lhe uma grande cortesia, mas a princeza nem sequer voltou a ca- 
beça. A velha, o sentido com que ia era quando ella chegasse ao si- 
tio onde lhe tinham dado as pancadas, de fazer então rir muito a 
princeza, aonde fosse que lhe désse saúde. Chega-se a velha ao pé da 
cama, senta-se e principia assim: 

«Ora minha menina, venho contar-lhe um caso muito engraçado 
que me succedeu hontem. ía eu por uma ladeira abaixo, cahiu-me o 
meu pãozinho e foi a rolar por alli fóra. Eu pego em mim, vou atrás 
d'elle, e ao fundo da ladeira fui dar a uma quinta e vi lá um burri- 
nho com umas cangalhas de prata e o burrinho estava-se a encher 
~numa fonte ; eu vou para beber uma pinguinha d'agua. . . vae a agua 
estremeceu e disse assim: «Ai que me mexem! Quem é? E' a velha? 
Pancada nella!» e principiam a malhar em mim e eu sem ver nin- 
guém— não ouve, menina? menina, não ouve?» Mas a princeza não 
fez caso nenhum nem nunca respondeu coisissima nenhuma. A velha, 
coitada, que tinha feito conta com aquillo para fazer rir a princeza, 



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por ser o ponto que mais graça tinha, ao ver cTella, em toda a histo- 
ria, cahiu-lhe o coração aos pés, pensando já que ia a morrer, e quasi 
que nem teve coragc para continuar, mas por fim, como já tinha prin- 
cipiado, sempre achou que era melhor acabar e disse assim: « Depois, 
menina, vae eu vou atrás do burrico e entrou num palácio e subiu 
por uma cozinha dentro e os barris principiaram a despejar-se por si 
na talha sem ningi^em lhe tocar, e estavam lá muitas carnes ao lume e 
eu vou a tirar um bocadinho e vae a carne estremeceu e disse assim: 
«Ai que me mexem!» Quem é? E ? a velha? Pancada nella!» Não 
ouve, menina? Menina, não ouve?» — A princeza nem sequer voltava 
a cabeça. A velha já estava certa de que a matariam, e o resto con- 
tou-o só por contar: — «Depois, menina, entrei num quarto aonde es- 
tava uma cama e «ma commoda e escondi-me debaixo da cama, e as- 
sim que deu a meia-noite entrou um pombinho branco.» — Assim que 
a velha fallou no pombinho, logo a princeza destapou um bocadinho 
da testa. — «E depois, menina, veio uma bacia pelo ar e poisou-se no 
chão sem ninguém lhe pegar, e o pombo banhou-se nella e logo alli se 
fez num homem; depois tirou uma chave d'um cofre e abriu uma ga- 
veta e tirou d'ella um pente e uma fita azul e pôs-se a dizer assim: 



Assim que a princeza ouviu fallar no pente e na fita descobriu 
a cara toda, e disse assim para a velha: 

«Conta velha, conta, que estou gostando de te ouvir!» 

E ella já muito contente da sua vida: «Depois menina — elle 
disse aquillo tres vezes — depois esteve um bocado a scismar e d'ahi 
foi deitar-se na cama. Ao amanhecer levantou-se e tornou a tirar o 
pente e a fita e disse as mesmas palavras, depois banhou-se, fez-se 
num pombo e fugiu, e depois eu, menina, como vi que era um caso 
muito bonito para lhe contar, pedi licença ao seu papá e é por isso 
que eu vim aqui». 

Ainda a velha não tinha acabado, que a princeza já tinha jj&ltado 
da cama abaixo e principiado a vestir~se, e quando ella acabou, dis- 
sc-lhe assim: «O' velha, eu muito gostei de ouvir o que tu contaste; 
quero que me leves ao sitio onde te aconteceu isso». A velha não ca- 
bia em si de contente. E vae a princeza disse assim: «Agora, escuta 
cá, velha. Vês ahi essa campainha? E' para dar signal ao meu pai de 
que melhorei. Tu agora toca a campainha. Depois ha-de vir o meu 
pai e ha-de ficar muito contente de me ver boa, e ha-de-te offerecer 
grandes recompensas, mas tu dize assim: «Só o que queria, era que 
V. M. dê licença para que a sua menina vá dar um passeio commigo 
só». O rei ha-de dizer que isso é que não, e depois tu tanto hás de 



«Ai pente, pente, 
«Fita da mesma sorte, 
«Quem me dera agora ver 
«Quem d'amores está morta!» 



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pedir até que elle diga que sim, e depois hás de me então levar ao 
tal sitio que tu dizes». 

A velha assim fez; tocou a campainha, acudiu o rei e quando 
viu a filha a pé e vestida não coube em si de contente e mandou to- 
car grandes musicas no palácio e grandes festejos por aqui e por 
acolá, e depois disse assim para a velha: a O' velha, o que queres tu 
que te eu dê? Dize, que tudo quanto pedires te darei». — Respondeu 
a velha: «Saiba V. M. que eu não quero nada d'esta vida senão que 
V. M. deixe a menina ir dar um passeio coramigo». — «Ai, isso é que 
não! Tudo quanto queiras menos isso; a minha filha d'aqui não sae». 
— «Era só por um migalhinho, disse a velha, a gente voltava logo; 
não ha-de acontecer mal nenhum á menina». — «Nada, nada, não pôde 
ser!» — ((Ora essa! Nem eu sei o que me parece issq em V. M.! Então 
depois de eu fazer o que fiz e de não querer acceitar coisa nenhuma, 
V. M. dá-me uma resposta d ? essas?» — A velha tanto fez e tanto 
disse, que ao final o rei se resolveu a deixá-la sahir com a princeza. 

Bem, a velha e mais a princeza pegaram em si e lá vão ellas 
por ahi fóra. Quando chegaram á quinta, estava lá o mesmo burrico a 
encher-se na fonte, e diz assim a velha para a princeza: — «Vê, me- 
nina? Lá está o burrico que lhe eu dizia; agora quer ver a segunda 
coisa?» — Chegou-se á fonte e ia para beber, mas a agua estremeceu 
e disse: tAi que me mexem! Quem é? E' a velha? Pancada nella!» 
A princeza, vendo as pancadas que a velha estava levando, riu-se 
muito, e depois disse assim para ella: «Tira-te lá, velha; deixa-me 
agora ver eu». E chegou-se também á fonte. Quando a princeza se 
chegou á agua, a agua estremeceu e disse: «Ai que me mexera! Quem 
é? A princeza, a noiva do príncipe? Deixa-a mexer que tudo é d'ejla». 
A princeza p a velha ficaram pasmadas ambas de ouvir aquillo. Fo- 
ram andando e a princeza não cabia em si de contente por amor 
d'aquella palavra «da noiva do príncipe», e pelo caminho já não fazia 
senão rir. Entraram no palácio pela cozinha dentro e lá estava já o 
burrico a vasar a agua e o lume a arder e os guisados a fazerem-se, 
e iam-se aquellas carnes virando d'um lado para outro sem ninguém 
lhe bulir. Disse a velha para a princeza: «Olhe, quer vêr, menina?» 
Mas, mal a velha tocou no assado, logo a carne estremeceu: «Ai que 
me mexem! Quem é? E' a velha? Pancada nella!» A princeza tam- 
bém quis experimentar, e a carne para ella disse ò mesmo que tinha 
dito a agua: «Ai que me mexem! Quem é? A princeza, a noiva do 
príncipe? Deixa-a mexer, que tudo é d'ella!» 

Depois foram á casa onde estava a mesa posta e comeram e nin- 
guém lhes fez mal, e depois a princeza disse assim: «Agora quero que 
me leves ao tal quarto». E depois ella péga e diz: «Varao-nos escon- 
der debaixo da cama». A' meia-noite vem o pombinho branco e d ? alli 
a nada a bacia d'agua muito direitinha por alli fóra e o pombinho 
banhou-se e fez-se num príncipe. Depois foi ao cofre, pegou na chave, 
abriu a gaveta, tirou o pente e a fita e pôs-se a olhar muito para as 
duas coisas e disse tres vezes: 



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RRV18TA LtfSITANA 



«Ai pente, pente, 
Fita da mesma sorte, 
Quem me déra agora ver 
Quem demores está morta!» 



Ao depois foi-se deitar. 

Ficaram as duas alli toda a noite muito bem caladinhas. 

Muito bem caladinhas, e ao outro dia antes do sol nascer, vem a 
bacia, como na véspera, e o príncipe levantou-se e foi outra vez olhar 
para a fita e para o pente e disse outras tres vezes : 



Mas no comenos, quando elle ia a saltar para dentro da bacia 
para se fazer em pombo, vae appareceu-lhe a princeza mais a velha 
e quebrou-lhe o encante (sic). Elie então ficou muito contente e con- 
tou-lhe que estava alli . encantado até que uma princeza lhe appare- 
cesse no momento quando elle fosse para saltar na agua, e que aquel- 
las vozes que se ouviam e aquillo que fazia mover as coisas sem se 
ver ninguém eram os seus creados que estavam encantados com elle 
e que agora ficavam também desencantados. 

Bem, estavam todos então muito contentes. Mas depois é que foi 
o bom. A velha, já muito afflicta por se ter demorado tanto, queria-se 
ir embora, mas a princeza já estava tão namorada do príncipe que 
não queria ir por coisa nenhuma. Ao final fez um bilhete e mandou a 
velha levá-lo ao rei e que lhe contasse tudo. 

Ficou o rei muito sastefeito e ao depois foi com a velha aonde 
estava a filha e o genro, e ao depois casaram-se e ficaram vivendo os 
dois alli mesmo e a velha também, porque a princeza nunca a desam- 
parou. 



Era um rei que tinha tres filhos, e os conselheiros um dia disse- 
ram para elle: «Seria bom que V. M. se resolvesse a dizer qual dos 
seus filhos quer que reine por sua morte, que V. M. já está com essa 
edade e ninguém tem a vida na sua mão». O rei, como tinha a mes- 
ma amizade aos tres príncipes, não sabia qual deveria escolher, e en- 
tão os conselheiros deram-lhe este conselho: «Mande V. M. aos seus 
tres filhos que lhe tragam cada qual o copo mais lindo que poder en- 
contrar, e aquelle que trouxer o melhor será o herdeiro». — Agradou 



«Ai pente, pente, 
Fita da mesma sorte, 
Quem me déra agora ver 
Quem d'amores está morta!» 



II 



A GAITA 



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CONTOS POPUUftKS PORTTTGUKSfiâ 



este conselho ao rei, que logo mandou chamar os príncipes e lhes disse 
tudo quanto os conselheiros recominendavani. 

Ora os dois príncipes mais velhos tinham cada qual a sua namo- 
rada, e como ambas ellas tinham grandes guarda-loiças cheios de ri- 
cos copos, logo se lembraram de lh'os ir pedir, mas o mais novo, que 
nâo tinha namorada, não sabia onde havia de ir buscar o d'elle. Pe- 
gou em si e foi por alli fóra muito triste, aonde foi dar a uma casa. 
Bateu á porta e quem lh'a veio abrir foi uma macaca. «O que quer 
vm.?» disse-lhe a macaca. O príncipe, todo admirado d'ouvir fallar a 
macaca, disse assim para ella: «O' minha senhora, eu sou um prín- 
cipe e somos tres irmãos, filhos do mesmo pai, e o rei nosso pai man- 
dou-nos á procura de um copo assim e assim e eu não sei onde hei-de 
ir buscar o meu». — Vai a macaca que era a dona da casa, disse as- 
sim para outra (porque naquella casa não havia senão macacas): «O' 
macaca fulana, dá cá d'alli o caqueiro dos pintos!» — «O caqueiro dos 
pintos! disse o príncipe para comsigo, estou bem arranjado se vou' 
apresentar ao meu pai em vez do copo o caqueiro dos pintos». — Vai 
a macaca deu-lhe uma coisa embrulhada, sem que elle visse o que 
era, e disse-lhe assim: t Agora leve vm. isto ao seu pai, mas não des- 
embrulhe pelo caminho, senão pôde ser a sua desgraça; pelo resto 
respondo eu». 

O príncipe agradeceu e pôs-se a caminho com o presente das 
macacas na mão. Pelo caminho ia dizendo: «Ora esta! Se isto que 
eu aqui levo será o caqueiro dos pintos? Estava capaz de o desem- 
brulhar. . .», mas como a macaca lhe tinha recommendado tanto que 
não, elle não abriu o embrulho. 

Quando chegou ao palácio já lá estavam os dois irmãos com lin- 
díssimos copos que lhe tinham dado as namoradas d'elles. Chega o mais 
novo e entrega o embrulho ao rei, e quando se foi a abrir, appareceu o 
copo mais rico que se podia encontrar, muito mais rico que os outros 
dois. Era elle quem tinha vencido. Mas os dois príncipes mais velhos 
ficaram tão cheios de raiva e de inveja que o rei, para os sossegar 
d'aquelle desespêro em que os via, disse que já agora aquella vez não 
ficaria valendo, e que agora é que havia de valer; que daria o reino 
ao que trouxesse a toalha mais rica. 

Os dois maig velhos foram logo ter com as namoradas, que tinham 
tudo quanto é bom, e logo alli lhe deram umas toalhas que eram uma 
belleza, e o mais novo também se lembrou logo das macacas. Foi lá, 
bateu á porta e a macaca perguntou-lhe o que tinha. «Ai, minha se- 
nhora, venho muito ralado por causa d'isto assim e assim a. Eoontou- 
lhe tudo. «Não tem duvida, disse a macaca; ó macaca fulana, traze cá 
a rodilha da chaminé». A macaca trouxe um embrulho muito bem 
embrulhadinho, e a que era a dona da casa deu-o ao príncipe e disse-lhe 
isto: «Agora veja lá, tenha sentido, não abra pelo caminho nem deixe 
abrir, e se encontrar os seus irmãos, e que elles queiram ver o que 
vm. leva, não consinta, senão é para sua desgraça». 

Foi-se o príncipe muito satisfeito. Lá pelo caminho encontrou os 



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8 



fcfcViSTÀ LÍJSITAÍU 



dois irmãos que lhe tinham vindo fazer uma espera para o matar se 
elle tivesse arranjado toalha melhor que as d'elles. O príncipe não lhes 
queria deixar ver o que trazia, mas elles então deitaram-se ao irmão 
e tiraram-lhe á força o presente das macacas. Depois abriram e ap- 
pareceu a toalha mais rica d'este mundo. Vendo isto, o mais velho 
encheu-se de raiva e atirou-se ao irmão e matou-o. 

Depois pegaram nclle, abriram uma cova alli ao pé, enterraram- 
no e foram-se embora. Foram-se embora e quando chegaram ao palácio 
apresentaram as suas toalhas, mas o mais novo é que não appareceu. 
O rei esperou, esperou dias, semanas, meses, mas não veio ninguém, já 
se sabe, e todos diziam que com certeza o príncipe tinha perdido a 
vida lá por fóra. 

Bem. Passou-se nisto muito tempo. Entre este tempo, lá no sitio 
onde estava enterrado o príncipe foi crescendo um cannal de cannas, 
que sahiam dos dentes d'elle, e quando ellas já estavam grandezitas, 
passa um dia por alli um pastorinho com as suas ovelhas. Disse o pasto- 
rinho assim: «Olha que bellas cannas para gaitas; vou çortar uma». 
Cortou uma das cannas e pelo caminho adeante principiou a fazer-lhe 
os buraquinhos. Depois da gaita prompta, pôs-se a tocar nella; vai prin- 
cipia a sahir da gaita uma vozinha muito fina e muito triste que can- 
tava assim: 



O pastor ficou muito admirado e disse assim: «O' que caso tão 
raro ! Se eu fôr á cidade com as minhas ovelhas e esta gaita, todos me 
hão de querer ouvir e ganharei muito dinheiro». Pega em si e entra 
pela cidade dentro a tocar na gaita. 

Quando o pastorinho passou pelo palácio do rei, estava um cama- 
rista á janella, e como ouvisse aquella musica tão bonita foi chamar 
o rei, e o rei mandou chamar o pastorinho e disse-lhe que tocasse na 
sua presença. Pega o pastorinho a tocar e a gaita a cantar: 



Disse o rei: «Deixa-me experimentar a mim agora;» pegou na 
gaita e pôs-se a tocar; vai a voz principia a dizer assim: 



«Tocae, meu pastorinho, 
Tocae com valor : 
O meu irmão mais velho 
Foi o meu matador». 



cToeae, meu pastorinho, 
Tocae com valor: 
O meu irmão mais velho 
Foi o meu matador». 



«Tocae 6 meu pàizinho, 
Tocae com valor: 
O meu irmão mais velho 
Foi o meu matador». 



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ÔONtOS ÊOÊULÀRES ÍORTtJGtfRSRS 



O rei, ouvindo que a voz lbe chamava pàizinho, logo se lembrou 
que o filho mais velho tivesse morto o mais novo, que não apparecia 
havia tanto tempo. Mandou-o logo acordar (porque era de manhã 
muito cedo) e trazer á sua presença; depois disse-lhe que pegasse 
naquella gaita e que tocasse. O príncipe obedeceu, mas a voz que 
sahia da gaita d'esta vez disse assim: 

«Tocae, 6 meu irmão, 
Tocae, com valor: 
Tocae, 6 meu irmão, 
Fostes o meu matador». 

O rei, ouvindo aquillo, mandou ao filho que confessasse, mas elle 
não quis. Então o rei perguntou ao pastor onde é que elle tinha 
achado aquella canna; o pastorinho contou-lhe tudo e depois o rei foi 
com elle 90 logar onde estava enterrado o príncipe. Cavaram no cannal 
das cannas e acharam lá o corpo do príncipe todo inteirinho e são, e 
dos dentes é que nasciam as raizes cPaquellas cannas. Vendo isto, o 
irmão mais velho não ponde mais negar, e o rei mandou-o matar. E 
acabou-se. 

III 

O PALACIO ENCANTADO 

Era uma vez uma mãe e uma filha que eram muito pobrezinhas. 
A mãe ia á esmola e a filha ficava em casa, e d'alguma coisa que a 
mãe arranjava assim lá por fóra é que ellas viviam. Diz um dia a fi- 
lha á mãe: cNós aqui não ganhamos nada: o melhor é irmos para ou- 
tra terra». — A mãe não queria e respondeu-lhe : «Ora, eu já estou 
d'esta edade, já não aguento uma viagem ; vamos nós antes vivendo 
como temos vivido até aqui». — Mas a filha tanto fez que a mãe no 
fim sempre consentiu. 

Consentiu e pegaram em si e foram andando, andando, até que 
chegaram a uma terra aonde viram um palácio todo fechado e com 
escriptos. Diz a filha assim para a mãe, diz: «Como aquelle palácio 
não tem gente, talvez nos deixem lá ficar de noite. Vamos perguntar 
quem é que tem as chaves». Quem tinha as chaves era um çapateiro 
que morava defronte, e diz o çapateiro assim para a rapariga: 

«Aquelle palácio deixou-o um fidalgo para os pobres lá irem dor- 
mir, Mas anda lá coisa má, e quem lá entra de noite com vida, ao ou- 
tro dia vem a tumba buscá-lo morto». — Diz a rapariga: 

«Não tem dúvida; se morrermos, morremos. Assim como assim, 
mais vale morrer do que viver nesta penúria». — Ora esquecia-me de 
dizer que a mãe da rapariga era surda, de maneira que não ouviu o 
que o çapateiro disse á filha. A filha então, para a mãe não ter medo, 
não lhe disse nada da coisa má que andava no palácio, e só lhe disse 



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Revista lusit aKa 



que o palácio o tinha deixado um fidalgo para os pobres lá dormirem 
de noite. 

Foram as duas e abriram a porta do palácio. Logo no primeiro 
quarto onde entraram viram um oratório com muitos santinhos e diz 
a filha assim para a mãe: «O' minha mãe, vá-se vm. deitar, que eu 
fico aqui a rezar as minhas orações». Diz a mãe: «Pois sim». E foi-se 
deitar. Ficou a rapariga a rezar, a rezar e á meia noite ouviu de re- 
pente muito barulho ás portas e ás janellas. A rapariga vae, abre 
uma janella para ver o que era aquillo, e vê um preto com duas espa- 
das na mão, que lhe disse: «Abre-me a porta e deixa-me entrar, que 
vamos jogar a espadeirada». A rapariga deixou entrar o preto e de- 
pois fechou a porta do quarto aonde a mãe estava a dormir para ella 
não ouvir; o preto deu-lhe uma espada e ficou com a outra para si e 
d'ahi começaram a jogar a espadeirada ambos dois, a rapariga e o 
preto. D'alli a um bocado a rapariga corta a cabeça ao preto. Depois 
pegou nelle e escondeu-o para a mãe não ver, e foi-se deitar muito 1 
sossegada. 

Assim que a mãe acordou pela manhã, disse para a filha: «O* fi- 
lha, eu agora vou á esmola, mas tu não me envergonhes; deixa-ta es- 
tar em casa e não sáias para banda nenhuma, emquanto eu não ve- 
nho». A filha disse que sim. Mal a mãe sahiu, veiu a tumba para le- 
var a mãe e a filha, mas o que levou foi o preto. O çapateiro e toda 
a gente da rua ficaram muito admirados d'aquillo, porque era a pri- 
meira vez que tal succedia. 

A' noite voltou a mãe e comeram ambas do que ella trouxe. De- 
pois disse a filha assim: «Olhe minha mãe; vá-se vm. deitar, que 
ha-de vir cansada; eu fico a rezar as minhas orações». — «Pois sim. 
filha». Quando deu a meia noite vieram dois pretos, e cada um trazia 
a sua espada na mão. 

Vae a rapariga principiou a brigar com elles e cortou a cabeça 
a um ; d'alli a bocado cortou a cabeça ao outro. Ficaram ambos mor- 
tos; a rapariga escondeu-os e foi-se deitar. De manhã, depois da mãe 
sahir, veiu a tumba e levou os dois pretos. 

Na outra noite vieram tres pretos e foi a mèsma coisa. A rapa- 
riga matou-os todos tres. 

A' quarta noite foram quatro os pretos que vieram, cada um com 
a sua espada. A rapariga brigou com elles e foi-os matando todos até 
não ficar senão um. Esse que ficou disse então assim para a rapariga: 
«Agora façamos pazes. D'aqui por deante não virá mais ninguém ter 
comtigo e já que tens tanta coragem ficarás sendo a dona d'este pa- 
lácio e de tudo quanto eu agora te vou mostrar. (Porque ellas ainda 
não tinham passado da primeira casa e o mais do palácio estava fe- 
chado á chave). Vae o preto pegou num grande molho de chaves que 
trazia, abriu uma porta e mostrou-lhe um quarto cheio de louças 
muito ricas e disse-lhe assim: «Isto tudo fica sendo para a menina e 
para sua mãe». 

Abriu outra e era um quarto cheio de moveis muito ricos: «Isto 




CONTOS POPULARES PORTUGUESES 



tudo etc.» Depois viram um quarto cheio de dinheiro em cobre e elle 
disse-lhe a mesma coisa. 

Depois outro cheio de prata e no fim de todos um quarto cheio 
de oiro. Chegado alli disse-lhe o preto: « Agora não ha mais riquezas. 
Tudo quanto a menina viu é para si e sua mãe, mas não lhe diga 
nada a ella senão passado um anno e um dia. Ágora passe muito 
bem, que nunca mais cá virá ninguém incommodá-la». 

Ora bem. Foi-se embora o preto e as duas ficaram vivendo no 
palácio. No outro dia depois disto a mãe tornou a ir á esmola. En- 
tretanto a filha foi á casa do cobre e tirou um pataco. A' noite ella 
deu o pataco á mãe e disse-lhe que fosse comprar de comer. A velha 
ficou muito pasmada e disse assim: a Oh filha, d'onde é que tu foste 
buscar este dinheiro? Então eu não te tinha dito que não sahisses de 
casa? Ai filha, vê lá o que fazes, não me envergonhes!» — «Deixe 
estar minha mãe, não se afflija que o dinheiro é meu e não o roubei 
a ninguemi. No outro dia a mesma coisa. A mãe outra vez muito af- 
flicta, mas a filha lá a contentou. Assim foram vivendo muito tempo. 
A mãe todos os dias ia pedir esmola e a filha todos os dias tirava 
aquelle pataco do thesouro que era d'ella, já se sabe. 

Bem. Quando estava fazendo um anno, a rapariga um dia, como a 
mãe a importunasse muito, não se poude suster que não lhe contasse 
tudo. Vae a mãe teve um tal susto que cahiu para a banda como 
morta e esteve uns poucos de dias muito doente. Depois d'ella boa, a 
filha foi com ella correr o palácio todo e mostrar-lhe aquellas rique- 
zas que eram tódas d'ellas, aonde chegaram também a um quarto com 
uma janella que estava fechada. A mie foi abrir a janella, e quando 
ella foi a abrí-la, cahiram uns poucos de limões para dentro de casa. 
Era um limoeiro que estava da parte de fora muito chegado á casa, e 
quando a velha abriu a janella um dos ramos que estava mais encos- 
tado entrou e cahiram os limões. Diz a velha: «O* filha vamos a ver 
o que se vê d'esta janella». O que havia de ser? Era o jardim do rei! 
E o que haviam de ellas ver no jardim do rei? A rainha numa es- 
tufa a brincar com um preto! Diz a mãe: «Oh filha, que raiva que 
me está a metter vêr a rainha brincar assim com um preto! Sabes o 
que eu estava capaz de fazer? Era de arrumar com um d'estes limões 
á cabeça do preto!» Vae, pega num limão e atira; mas, por desgraça, 
se havia de acertar no preto, acertou na cara da rainha e tirou-lhe 
um olho. Vae a rainha, quando sentiu aquillo, julgou que era o preto, 
pega nelle por um braço, e foi fechal-o numa casinha que havia na 
estufa, para que ninguém soubesse que elle alli tinha estado com ella, 
e depois pôs-se a gritar. Pôs-se a gritar e acudiu logo o rei e toda a 
gente do palácio. O rei perguntou quem é que tinha feito aquillo, mas 
a rainha só disse que viera um limão pelo ar e que lhe tinha cegado 
o olho, mas nunca disse nada do preto, já se sabe. Procuraram por 
toda a parte, mas no jardim não estava mais ninguém e disseram os 
conselheiros: «Só se foi d'aquella janella acolá, mas aquillo é um pa- 
lácio onde não mora ninguém e ha annos que alli se não vê uma ja- 



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hr vista lítsitana 



uella aberta». Fizeram- se muitas indagações e soube-se das duas mu- 
lheres que estavam no palácio havia quasi um anno. Ora logo que se 
soube d'isto resolveu o rei ir elle mesmo saber se tinham sido ellas. 
Para isso esperou por uma noite bem invernosa, vestiu-se de pobre- 
zinho e foi bater á porta do palácio. «Quem é?» perguntaram-lhe el- 
las de dentro. — «Sou um irmãozinho, respondeu o rei, e pedia ás se- 
nhoras que me dessem agasalho por esta noite». Ellas disseram-lhe : 
«Entre, irmãozinho, entre. Ha-de cear comnosco. Nós vivemos aqui 
muito sós, ainda bem que vm. nos vem fazer companhia». Depois 
arranjaram um borrego e fizeram uma ceia muito boa. Sentaram-se 
á mesa e depois puseram-sc a conversar : «Então, irmãozinho, que no- 
vidades ha?» — «A novidade que ha é que a rainha cegou d'um olho 
por causa d'um limão que lhe atiraram e o rei anda em diligencias 
para saber quem é que cegou a rainha». Diz d'alli a mãe: «Olhe, eu 
lhe conto como isso foi. Fui eu que vi da minha janella a rainha a 
brincar com um preto e fez-me aquillo tanta raiva que quis atirar 
com um limão á cabeça do preto, mas acertei na da rainha e sem 
querer lhe vasei um olho». — «O' senhora não diga similhante coisa; 
que o rei, se. o sabe, manda-a matar!» — «Não me importa, que eu não 
digo senão a verdade, tanto que o preto ainda está fechado na es- 
tufa». 

Bem. Ao outro dia foi-se o pobrezinho, e assim que elle se foi 
bate um creado do rei á porta com ordem para ellas o acompanha- 
rem á presença de S. M. «Para quê? disseram ellas?» «E* porque as 
senhoras são accusadas de terem cegado a rainha». «Ai filha, diz a 
mãe, se seria o pobrezinho que nos atraiçoou?» — Não tiveram remé- 
dio senão ir á presença do rei e ahi tornaram a contar tudo. 

Diz o rei assim, diz: «Bem, se o preto lá estiver, disseram as se- 
nhoras a verdade, se não, vão a morrer». A rainha não queria dar 
as chaves nem que a matassem, mas afinal não teve outro remédio. 
Foram á estufa e lá acharam o preto meio morto de fome, e pegaram 
nelle e enforcaram-no. Depois o rei perguntou á rapariga o que que- 
ria fazer á rainha. «Quero que da pelle d'ella se faça um tambor e 
dos ossos uma cadeira para eu me assentar». Mataram a rainha e o 
rei casou com a filha da pobre. 



Era uma vez um cozinheiro, que estava sem commodo havia uns 
poucos de dias. Pôs-se a caminho, a ver se achava amo e foi bater á 
porta d'um gigante. Veiu o gigante ver quem era. «0 ? sr., eu vinha 
ver se v. s.* não precisava de um cozinheiro. . .» — «O* homem, pa- 



HISTORIA DE UM COZINHEIRO 



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CONTOS POPULARES PORTtJGUESkS 



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rece que adivinhaste! Hoje mesmo se foi embora o meu cozinheiro. 
Então o que sabes tu fazer ?• — «Saberá v. s.* que sei fazer muito bons 
petiscos. . . » — «Isso mesmo é que eu quero, que da panella da carne 
já eu estou farto. Está dito, fico comtigo; mas olha que o costume da 
minha casa é este: Comer, vestir, calçar; mas dinheiro não t'o posso 
dar, e passado um anno tens de te ir embora». — «Não tem dúvida, 
fico por esse ajuste». 

Bem. Ficou o rapaz em casa do gigante, e o gigante muito sas- 
tifeito com elle. Passado um anno, diz o gigante assim para elle: 
a Olha que amanhã tens de te ir embora, que faz um anno que estás 
em minha casa». — «O* senhor, não me despeça; o que ha-de ser de 
mim, se eu não tenho para onde ir!» — «O' homem, ainda que eu qui- 
sesse não posso ficar comtigo, senão veem por ahi e matam-me!» — 
«Ai sr., não me ponha fóra, e demais a mais sem ordenado!» — «Já 
te disse que não posso deixar-te ficar, nem dar dinheiro, mas toma lá 
este livro que é o mais que te eu posso dar, e olha que já não vaes 
mal servido. Em querendo comer bate no livro, que tudo quanto lhe 
pedires elle t'o apresentará». Vae o rapaz no outro dia pôs-se a ca- 
minho com o livro. Foi andando por alli fóra, e, quando já ia farto 
de andar, lembrou-se de bater no livro. Logo alli appareceu uma mesa 
posta. Comeu e foi-se embora, aonde elle vinha entrando por uma ci- 
dade e reparou que na cidade estava tudo de luto. Vae, encontrou 
uma velha á porta da casa, e perguntou-lhe o que era aquillo. Diz a 
velha: «Pois vm. não sabe? E' que o Imperador da Rússia (sic) 
costuma todos os annos ir a uma nação e levar comsigo uma prince- 
za, e este anno tocou a vez á Princeza d'este reino. Amanhã é que é 
que elle deve vir e por isso é que o reino está de luto».— Bem. Disse 
isto a velha ao rapaz e elle emquanto ia andando por alli fóra ia 
scismando se haveria meio de salvar a Princeza. Foi ao palácio real e 
pediu para fállar ao Rei. Diz a sentinella: «Hoje não falia aqui nin- 
guém a S. M. nem amanhã tãoponco». O rapaz sempre teimou. Ao fi- 
nal a sentinella foi ter com o Bei, mas elle mandou dizer que estava 
muito triste e não podia dar attenção a ninguém; que voltasse outro 
dia. Diz o rapaz para a sentinella: «Vá dizer a S. M. que o negocio 
que aqui me traz não consente demora, que é um negocio da maior 
importância mesmo para S. M., e que o tratado que eu lho venho pro- 
por ou ha-de ser agora mesmo ou não temos nada feito». O Rei, á 
vista disto, sempre admittiu o rapaz. Vae elle diz assim para o Rei: 
«Saiba V. M. que eu venho aqui a ver se V. M. quer que eu faça com 
que a Princeza não seja levada pelo Imperador da Rússia». — «O* ho- 
mem, disse logo o Rei, se tu fôres capaz d'isso, dou-te a minha filha 
em casamento! Mas como ha-de ser isso se o Imperador da Rússia 
vem já amanhã?» — «Não tem dúvida. Isso fica por minha conta». 

Bem. Ficaram nisto. O Rei chamou os conselheiros e contou-lhes 
o caso, e depois mandou que guardassem muito bem o rapaz, não 
fosse elle algum embusteiro, e que tomassem sentido elle não fugisse. 

Bem. Foi o dia passando e o rapaz deixando-se estar. A' noite o 



14 



REVíèTA L081TANA 



Rei estava muito zangado e disse para os conselheiros: «Esta bom; 
elle enganou-me; mas não lhe ha-de servir de muito: amanhã vai a 
morrer». 

Quando era meia noite o rapaz pediu licença para sahir. Pediu 
licença para sahir, e mal se viu fora do palácio bate no livro e diz 
assim: «Quero que se fórme á roda d'oste palácio uma muralha tão 
'alta, que ninguém de lá possa ver o que se passa aqui fóra». No 
mesmo instante appareceu o palácio rodeado de uma enorme muralha. 
Vae torna a bater no livro e a dizer: «Quero que aqui á beira-mar 
se fórme uma torre com soldados, artilheria e todos os pertences de 
um castello». Logo appareceu tudo conforme elle tinha mandado. 

Bem. De manhã quando o Rei acordou e que chegou á janella a 
ver ém que paravam as coisas não viu nada nem o mar nem coisa 
nenhuma por causa da muralha que lhe tapava a vista, já se sabe. 

Pôs-se a esfregar os olhos, chamou os conselheiros e perguntou- 
lhes o que viam? Mas elles responderam que não viam nada senão 
uma grande muralha que cercava o palácio por todos os lados. Fica- 
ram todos muito pasmados, já se sabe, e á espera do que iria succeder. 

Nisto vera o Imperador da Rússia num navio pelo mar fóra, mas 
como era de manhã cedo vinha a dormir. O capitão que vinha a guiar 
o navio, mal viu aquella fortaleza á beira-mar foi acordar o Impera- 
dor, mas elle não quiz acreditar e disse: tlsso não é possível; se eu 
ainda ha quinze dias por aqui passei e não vi similhante coisa, como 
pode lá ser que agora esteja lá um castello como o que dizes». Como 
o capitão teimasse o Imperador sempre se foi levantando e quando 
viu que era verdade ficou muito zangado e mandou deitar um escaler 
ao mar com quatro soldados dentro e que fossem ver o que era 
aquillo. Quando chegaram perto da torre principia a artilheria de lá 
a jogar, os soldados que lá estavam apontaram a artilheria sobre el- 
les c foi o escaler ao fundo mais os quatro soldados que iam nelle. 
Quando o Imperador da Rússia viu isto disse para o capitão: «Está 
bom; já vejo que não é possivel rompermos para deante. Voltemos 
para trás». E foram-se embora todos muito cheios de medo. 

Foram-se embora e voltaram para a Rússia. Ora o Imperador ia 
furioso por lhe ter escapado a Princeza e não havia coisa que o con- 
solasse. Um dia que elle andava a passear todo triste no seu jardim 
chega-se a elle uma velha e diz-lhe: «Porque é que V. M. anda tão 
triste? Conte-me V. M. os seus pezares, que talvez eu lhe possa dar 
remédio». — «Tira-te d'ahi, mulher; ao meu pezar ninguém pode dar 
remédio». — «Quem sabe, real senhor? conte sempre; pôde ser que eu 
possa dar-lhe conselho. . . » «Oh mulher; sóme-te da minha vista e não 
me tentes mais; não sei onde estou que te não mato já!. . . » A velha 
não teve medo e tanto teimou com elle que elle lhe disse tudo. Disse 
tudo e vae péga a velha assim para elle : 

«Olhe, não sabe V. M. o que é isso? Isso é um cozinheiro que 
tem um livro e em elle batendo no livro, apparece logo tudo quanto 
elle pedç, Foi elle que na noite passada formou essa torre. Agora está 



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C0NT03 POPULARES PoRTOtíUESKS 



elle casado com a Princeza, mas se V. M. quizer eu sou capaz de lhe 
tirar o livro e assim se acabará o poder que elle agora tem, e poderá 
V. M. então apossar-se da Princeza». Disse o Imperador: «Ai mulher, 
se tu fosses capaz d'isso, eu dava-te tudo quanto me pedisses!» 

«Pois mande V. M. apromptar uma embarcação e dê-me fatos de 
fidalga e creados e creadas, que pelo resto fico eu». 

(Ora esta velha erp bruxa e era a mesma que o cozinheiro tinha 
encontrado á porta da cidade). 

Fez-se tudo quanto ella tinha pedido ao Imperador e passados 
alguns dias a velha embarcou num rico navio com muita creadagem 
como se fosse alguma grande fidalga. Ora ella calculou as coisas de 
maneira que chegou á terra aonde estava o cozinheiro (que agora era 
Príncipe, já se sabe) justamente numa occasião quando elle tinha par- 
tido para uma grande caçada que devia durar uns poucos de dias. 
Desembarcou e foi apresentar-se á porta do castello dizendo á senti- 
nella que era uma tia do Príncipe e que vinha a dar-lhe os parabéns 
pelo seu casamento. 

A Princeza — que estava sózinha em casa com os seus creados, já 
se sabe — logo que soube isto desceu ao encontro d'ella e reeebeu-a 
com muitos mimos. «Oh minha tia; seja muito bemvinda! Que pena o 
meu marido não estar em casa!. . . Eu não sabia que elle tinha uma 
tia: não sei como elle nunca me fallou em si ... » 

«E* que elle não me vê ha muito tempo e talvez me tivesse es- 
quecido, que eu ha muitos annos que estou vivendo na Inglaterra». 

Bem, ficou a Princeza toda crente no que a velhaca da velha lhe 
disse e fez-lhe muita festa. A' tarde disse a Princeza para a velha: 
«Agora em que quer a minha tia entreter-se esta tarde?» 

«Ai minha sobrinha, o que eu mais gosto é de ler. A Princeza 
foi logo buscar quantos livros havia na casa mas ella a todos dizia 
que não era d'esses que ella gostava. «Ai, lá na Inglaterra é que ha 
uns muito bons que eu muito gosto de ler. São uns livrinhos peque- 
nos, assim e assim, e principiou a descrever o livro do encanto; 
d'esses é que gosto. Se a menina tivesse d'esses, é que era bom». 

«Ai minha tia, já sei o que é; o meu marido tem um livro des- 
ses, mas não sei se elle o levaria comsigo; que elle sempre o traz 
comsigo e até de noite o deixa ficar debaixo do travesseiro. Vou ver 
se elle o deixaria lá. . . » 

Por desgraça o cozinheiro tinha deixado naquelle dia o livro do 
encanto, e a Princeza foi acha-lo debaixo do travesseiro e foi toda 
contente entrega-lo á velha. 

«Ora ainda bem, minha tia; muito estimo poder dar-lhe um dos 
taes livros; que fortuna elle deixa-lo em casa!» 

«E* destes mesmo; muito obrigada minha sobrinha». 

Ao outro dia a Princeza queria que a tia ficasse até á vinda do 
marido, mas a velha disse que não podia de maneira nenhuma demo- 
raf-se tanto e que tinha de partir naquelle mesmo dia. Despediram-se 
com muita amizade, verdadeira da parte da Princeza o fingida da 



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R8VJ8TA LUSITANA 



parte da velha, e esta partiu com o livro de quo a Princeza não tor- 
nou mais a lembrar-se. 

Passados dias, volta o cozinheiro, quero dizer o Príncipe, e a 
primeira coisa que fez foi perguntar pelo livro. 

cAi, não sabes, diz-lhe a Princeza, esteve cá a tua tia, a mar- 
queza de tal parte, e levou-o por esquecimento». — tQual tia, qual 
marqueza? Eu tenho lá tia nenhuma! Conta-me já o que isso foi!» 

Quando a Princeza lhe acabou de contar o succedido, o rapaz 
logo comprehendeu que o tinham logrado e como elle sem o livro não 
era nada temeu-se do que ia succeder e achou que o melhor era aba- 
lar. Pegou em si, desalvorou. 

D'alli a nada chega o Imperador da Rússia a quem a velha já 
tinha ido levar o livro. Quando a Princeza o vê vir de repente pelo 
mar fóra, pegou a chorar, mas que remédio teve ella senão ir com 
elle para a Rússia. 

Bem. Agora deixemos a Princeza lá na Rússia e vamos a ver o 
que foi feito do cozinheiro. 

Foi andando por alli fóra e como não tinha aonde ir, voltou para 
casa do gigante. Bateu á porta ; veiu o gigante, e ficou muito conten- 
te de o ver. €01á, homem; então tu por aqui! Então que fizeste ao 
livro?» 

«Oh senhor, deixe-me; se soubesse a desgraça que me aconte- 
ceu ...» 

«Já sei, já sei, homem; então agora que queres?» 

«Queria que o patrão me tomasse outra vez por cozinheiro». 

«Olha, está a calhar; hontem mesmo se foi o meu cozinheiro em- 
bora. Tu já sabes o costume da minha casa : comer, vestir, calçar, or- 
denado é que não, e ao fim d'um anno tens de te ir embora». 

Bem. Ficou o rapaz em casa do gigante. Passado um anno, diz o 
gigante para elle: 

«Agora tens de te ir embora». 

«Nada, d'esta vez é que me não vou». 

«Não ha remédio, homem; se veem por ahi e que ainda por cá te 
vejam, matam-me». 

«Mas o que hei-de eu comer quando me fôr embora, se o patrão 
me não dá ordenado?» 

«Deixa estar, homem; eu alguma coisa te hei-de dar». 

Bem, assim que chegou o outro dia, diz-lhe o gigante assim : 

«Agora, olha; péga num sacco, e vae ao jardim, e a coisa mais 
ruim que lá achares, mette-a no sacco e leva-a; e contenta-te, que já 
não vaes mal servido». 

Vae o rapaz foi ao jardim e estavam lá ricos vasos de oiro e de 
prata, e lá mettido a um canto estava um gato muito magro e muito 
lazarento. 

«Bem, disse o rapaz, a coisa mais ruim que eu aqui vejo é este 
gato; parece que o que devo levar é isto». 

Metteu o gato no sacco, deitou-o ás costas e pos se a caminho. 




CONTOS POPULARES PORTUGUESES 



17 



Pôs-se a andar, a andar, e passado certo tempo deu-lhe a fumo. 
«Bom, agora o que ha-de ser de mim; da outra vez ainda eu tinha do 
comer, agora nem para mim nem para este pobre alimal; sempre gos- 
tava de saber para que meu amo quis que eu levasse isto». 

Mal elle pôs o sacco no chão, o gato fugiu e metteu-se pelo sil- 
vado dentro. «Bom, agora nem gato, nem nada!». D'alli a um instan- 
te appareceu outra vez o gato e trazia uma lebre na boca. O rapaz, 
quando viti isto, ficou muito contente, açcendeu lume, assou a lebre e 
comeu elle mais o gato. Depois tornou a caminhar e foi assim an- 
dando muitos dias, até que chegou lá a uma terra. Ora onde havia de 
elle estar sem o saber? Na Rússia! Estava na Rússia e aconteceu 
passar mesmo junto do iardim do Imperador, e lá o viu a passear a 
elle mais á Princeza. A Princeza mal deu com os olhos nelle também 
logo o conheceu, e o Imperador, percebendo que aquelle é que era o 
marido da Princeza, que lhe tinha feito tanto mal, mandou-o logo 
prender e que o mettessem num calabouço. 

Disse o rapaz assim para o Imperador: «Ao menos deixe-me le- 
var commigo o meu gatinho». — «Pois sim, homem, leva-o lá, e, se qui- 
seres mais, d'esses gatos tenho eu alli ás dúzias». — «Nada, não se- 
nhor, eu não queria senão este, que é um alimalzinho a quem tenho 
muita amizade». Pegou pois o rapaz no gato ás costas dentro do seu 
sacco e d'ahi levaram-no preso por ordem do Imperador e foram-no 
metter numa masmorra no mesmo castello que elle tinha mandado 
fazer lá na terra da Princeza. 

Bem. Estava elle então na masmorra, e havia lá muitos ratos. 
Mas o gato pegou a matar nelles que era um gôsto, e d'alli a uns 
dias não havia já quasi (caje) nenhuns. 

Uma vez estava o rapaz alli sentado todo triste, chega-se ao pé 
d'elle um grande rato e principia a fallar assim para elle: «Eu venho 
aqui pedir a V. A. que faça favor de mandar prender o seu capitão». 

— «Quem é o meu capitão?» diz o rapaz. — «E' o seu gato que tem 
dado cabo da minha tropa caje toda e se V. A. não o manda pren- 
der, estou aqui estou sem soldados nenhuns». 

«Bem, disse o rapaz, eu prendo o meu capitão comtanto que tu 
me faças uma coisa que te eu vou dizer». — «Diga V. A.» — «E' que 
me ponhas para aqui o livro que o Imperador da Rússia me roubou». 

— «Está dito. Serão cumpridas as ordens de V. A.!» Vae o rato prin- 
cipiou a gritar: «O' 16 da l. a !» «Proinpto, meu capitão!» Era um ra- 
tinho que logo alli appareceu. «O' 17 da 2. a !» «Prompto, meu capitão!» 
Era outro ratinho. «O' 18 da 4. a !» Bis. O 18 da 4. a não apparecia. 
Finalmente lá veio a coxear, cora o nariz todo esfolado, e pediu des- 
culpa de não ter respondido logo: «E' que eu estava atrás do pé da 
mesa a roer um osso e com a pressa dei esta pancada no nariz!» Ora 
este rato era um soldado velho, muito atilado, e por isso chamavam- 
lhc: «O Petrano». Vae o capitão dos ratos disse assim para elle: 
«Pois sim, perdôo-te comtanto que me ponhas aqui o livro que o Im- 
perador da Rússia tem debaixo da cabeceira. Vão vòcés todos tres, 

rev. lusit., vol. ih, fase. 1. 2 



18 



REVISTA LUSITANA 



cseondam-se no quarto do Imperador e de noite quando elle estiver a 
dormir, ponha-se um aos pés. outro á cabeceira e outro agarre-se ás 
torcidas da lamparina. Depois, o que estiver aos pés principia a fa- 
zer-lhe còzigas, e, quando elle se fôr a voltar, tu, Petrano, tiras-lhe o 
livro debaixo do travesseiro emquanto o que tiver ficado ao pé da 
lamparina puxa pelas torcidas e foge com ellas». Vac os ratos assim 
fizeram. O 18 da 4 a pôs-se aos pés, o 17 da 2. a agarrou-se ás torci- 
das e o Petrano quando o Imperador se voltou com as cozigas tirou o 
livro e depois abalaram todos apagando-se a luz, já se sabe. O Impe- 
rador, percebendo que lhe tinham tirado o livro, quis accender a luz 
para vêr o que era, mas como o rato lhe tinha levado as torcidas não 
poude, e até virem os creados já os ratos iam longe. 

Bem. Deixemos lá agora o Imperador da Rússia todo desespe- 
rado por lhe terem levado o livro e vamos a vêr o que foi feito do 
rapaz que estava na masmorra. Mal os ratos voltaram e que lhe en- 
tregaram o livro elle deu ordem ao gato para não lhes tornar a fazer 
mal; o capitão dos ratos agradeceu muito e retirou-se. Depois o ra- 
paz, mal se viu só, bateu no livro e disse: t Quero sahir já (Testa pri- 
são». Depois, quando se viu livre bateu outra vez no livro e disse: 
«Quero já aqui um escaler com quatro pretos todos armados com suas 
espadas». Appareceu logo alli o escaler. Depois disse assim para os 
pretos: «Vocês, vão já á Rússia, ter com o Imperador, vocês amea- 
cem-no e obriguem-no a entregar a Princeza e depois tragam-m'o 
aqui preso». 

Os pretos assim fizeram. D'alli a nada voltaram com a Princeza 
e com o Imperador da Rússia amarrado no escaler. Depois o Príncipe 
mandou que lhe amarrassem aos pés uma bala de 18 (?) e que o ati- 
rassem ao mar. Os pretos assim fizeram. Depois, o Príncipe e a Prin- 
ceza foram dar parte ao pae e á mãe d'ella do que tinha succedido, 
houve muita festa p'rá festa, e ficaram todos vivendo juntos e muito 
felizes. 



Cecília Schmidt Beanco. 



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C0B80 DR LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA 



19 



CURSO 

DE 

LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA 1 



LIÇÃO INAUGURAL 



Summário 

I. O que é lingua archaica. — Importância do estudo da língua portuguesa 
ar ch ai ca, e razão d 'este curso. 

II. Necessidade de fazer algumas considerações preliminares. — A Lusitâ- 
nia. — Esboço histórico: a) Lusitânia prehistorica, — e tradições até hoje; b) Lu- 
sitânia protohistorica, — elementos ethnicos, tribus, costumes, religiões (conce- 
pções, culto, sacerdócio) ; c) Lusitânia romana, — epochas históricas roais impor- 
tantes; romanização. 

III. Latim vulgar em geral, e da Lusitânia em particular. Fontes para o 
seu estudo. 

IV. História externa da lingua portuguesa: origem; português prehistorico, 
protohistorico, archaico e moderno ; português litterario, e popular com os diale- 
ctos.— Epilogo. 

Meus senhores: 

I 

Quando se observa uma lingua num longo decurso da sua evolu- 
ção, nota-se que ella, de certo ponto para além, offerece um aspecto 
geral que difere do d'esse ponto para cá: é a tal aspecto que se 
chama — lingua archaica. 

Assim nos mais antigos tempos do latim dizia-se loumen ejous 
por lúmen ejm; optumus e tnaxumus (ainda nas inscripções posterio- 
res, etc.) por optimus e máximas ; humo por homo (vestígio ainda em 
humanus); 8 por r em certas circumstancias, de que ainda restão na 
lingua clássica honos (Cicero), arbos (Vergilio), etc; dacrima e din- 
gua por lacrima e lingua; havia um caso locativo, de que na lingua 
clássica ficou representação em ruri, domi } postri-die, etc.; em vez de 
Mi dizia-se olli (ainda como resto em Vergilio) ; na l.« declinação ha- 

* Na Academia de Estudos Livres, de Lisboa, em 1891. — A l. a parte does- 
ta lAção foi já publicada na Revista de Coimbra (n • 11) e na Revista de Portugal 
(vol. iv, pag. 313 sqq), mas, como estas Revistas acabarão, não forâo publicadas 
as restantes três partes. — Contrariamente ao meu costume, não dou neste traba- 
lho indicações bibliographicas, pelo simples motivo de qne eUe representa, com le- 
ves alterações de redacção, o discurso tal qual, regulando me pelos apontamentos 
que de ante-mâo tinha tomado, o pronunciei. 



20 



REVISTA LUSITANA 



via ura genetivo em -as, conservado posteriormente ^mpaterfamilias; 
a 3." declinação tinha uma desinência do accusativo plural em -eis 
(=\s, ainda em Nepos, etc: classis = classes); a 4.* um genetivo em 
-uis em vez do clássico -ws; emprega vão-se fórmas verbaes particula- 
res, e fazião-se certas construcções que depois desapparecêrão do uso 
normal, e só esporadicamente se encontrão, como parturibat (Phedro) 
c fjus rei ergo (Livio, — preposição com genetivo). A este propósito 
ba linguas que divergem mais do que outras nos seus vários períodos. 
O francês antigo offerece ainda casos, como li murs (nominativo sing.l 

10 mur (caso obliquo do sing., — a forma do substantivo prevaleceu), 

11 mur (nom. plur.) e les murs (caso obliquo do plur., — fórma que 
igualmente prevaleceu): o que, com muitas outras particularidades, 
leva os pbUologos a considerá-lo como lingua em separado. Pelo 
contrário o italiano (toscano) não tem essas grandes divergências; 
quem souber sufficienteraente a lingua de hoje, entende Dante sem 
difflculdade. Já o hespanhol antigo (castelhano) differe mais do mo- 
derno do que respectivamente o italiano. Semelhantes differenças exis- 
tem no português. 

Eu denomino português archaico a lingua que começa a transpa- 
recer debaixo das fórmas do latim bárbaro do scc. rx, e chega até o 
sec. xvi. Então principia o período moderno. 

As sciencias attingirão na actualidade tamanho desenvolvimen- 
to, que não se considera hoje como regularmente instruido quem pelo 
menos não possuir os rudimentos das Sciencias Naturaes, da Mathe- 
matica, da Historia, etc. Ora. com relação á Glottologia, a cada passo, 
tanto escrevendo, como fallando, os homens mais eminentes, que não 
são especialistas do assumpto, commettem inexactidões, e não se pe- 
jão de a tratar ex cathedra. Como a linguagem é um phenomeno 
nosso, todos se julgão com direito de a discutir e interpretar. O facto 
observa-se ainda com mais evidencia no povo, porque raras terras ha 
cujo nome se não explique por uma lenda ou por outro meio phantas- 
tico: Penajoia chama-se assim, porque uma rainha, que passou alli a 
cavallo, deixou cahir uma joia ao chão, e o animal pôs o pé na joia. 
Nos próprios selvagens ha tendência para fazer d'estas etymologias. 
Archivar isto tem importância para a Ethnographia, porque se reúnem 
assim elementos de apreciação do espirito do povo ; mas é triste quan- 
do os homens de lettras aproveitão taes explicações, e as dão nos 
seus livros como verdades philologicas. Todos os livros que em Por- 
tugal se tem escrito sobre chorographia, e em que se pretende expor 
a origem dos nomes dc logarcs, estão cheios de erros semelhantes. 
Noutros paises existem igualmente muitos trabalhos no mesmo géne- 
ro; e já o abuso remonta á antiguidade. Com a Glottologia succede o 
mesmo que com a Medicina: não ha ninguém que não ensine receitas 
aos outros, por isso que a doença é um estado pelo qual se passa fre- 
quentemente, e porque a vida, de que a doença constitue uma phase 
anormal, também nos pertence. D'aqui vem o dizerem os hespanhoes 
que 



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CtfRSO DÈ LÍNflfÍA PORTÍÍGUfíSA AftCHAÍCA 



De medico, poeta y loco 
Todos tenemos un poeo . . . 

lista, a que podemos juntar gramático. Mas, já que as sciencias pros- 
perão, e estabelecem em bases cada vez mais solidas os seus metho- 
dos, necessitamos de as acompanhar, e não devemos só guiar-nos pela 
nossa opinião subjectiva. 

Tendo eu sido convidado pela Academia de Estudos Livres para 
aqui dar algumas lições publicas, em fórma de curso seguido, escolhi 
para assumpto o estudo da nossa lingua archaica, tanto porque elle 
me é predilecto, como porque tem as seguintes utilidades: 

1) Utilidade para o conhecimento geral dos documentos antigos. 
Nestes documentos está contida quasi toda a nossa existência 

íntima medieval: a organização politica, e as relações dos diversos 
poderes sociaes entre si; a vida dos castellos e dos mosteiros; a fa- 
mília com os seus usos; a casa e o campo com as suas particularida- 
des, Possuímos numerosos documentos d'esta espécie, alguns já dados 
á estampa, outros conservados inéditos nos archivos públicos. No sé- 
culo passado houve dois eruditos prestimosos, o frade Viterbo e João 
Pedro Ribeiro, que d'elles tiraram grande auxilio para a Historia e 
para a Philologia, estabelecendo o ultimo ao mesmo tempo as bases 
críticas da Diplomática. No actual século Herculano coordenou com 
taes documentos boa parte da sua monumental Historia de Portugal) 
e ainda recentemente Telles se está servindo com muito proveito o 
sr. Gama Barros para a sua Historia da administração publica em Por- 
tugal nos sec. XII a X V, que é sem duvida neste sentido a obra mais 
importante que entre nós se tem publicado depois da de Alexandre 
Herculano. 

2) Utilidade para a apreciação da litteratura. 

Tomada em sentido muito lato, e pelo seu lado exterior, a pala- 
vra litteratura abrange tudo quanto se escreve ou tem fórma fixa 
.oral: um testamento, uma procuração, um aviso, um annúncio, um 
rol, — e ao mesmo tempo os contos, os provérbios, as canções e xaca- 
ras que andão na boca do povo são litteratura; é assim que dizemos 
litteratura latino-barbara, querendo significar os nossos mais antigos 
documentos, em que se achão muitos espécimes da natureza dos que 
primeiro enumerei, — c dizemos litteratura popular, querendo designar 
os segundos, ainda mesmo antes de passados á escrita. Tomada em 
sentido menos lato, litteratura comprehende apenas as obras em que 
ha propriamente lucubração do espirito, e são as sciencias, as artes, 
as bellas-lettras. No sentido estricto porém, que é o seu sentido usual, 
por litteratura entende-se a litteratura amena (poesia, romance, folhe- 
tim), a história e a polygraphia (oratória, cartas, etc.),— - isto é, as 
bellas-lettras, em que ha principalmente preoceupação de fórma e de 



fcÉVlSfA LÚ3ITÁNÁ 



imaginação. A História, tal como hoje se concebe, está a passar da 
terceira classe para a das sciencias. 

Em qualquer dos sentidos que se tome a palavra litteratura, já dos 
primeiros cinco séculos da nossa existência politica, como nação, her- 
dámos abundantes exemplares, quer em prosa, quer em verso. Não é 
possivel, nem necessário, fazer aqui agora o inventario d'isso tudo: 
basta que me refira aos monumentos poéticos contidos nos Cancionei- 
ros chamados da Vaticana, de Colocci-Brancuti e da Ajuda, onde, ao 
lado da influencia da França (sobretudo provençal), se manifesta uma 
corrente popular portuguesa, ainda hoje conservada na tradição oral 
de Tras-os-Montes, como direi a seu tempo; basta que lembre os iVo- 
biliarios, o Amadis de Gaula, as traducções e outras obras da livraria 
dos monges de Alcobaça, archivadas hoje na Bibliotheca Nacional e 
na Torre do Tombo, e os primeiros ensaios propriamente históricos 
publicados nos Portugália; monumenta, etc. Esta é a litteratura pelo 
menos dos séculos xm e xiv, na parte prosaica da qual predomina, 
como era natural, o elemento ecclesiastico. Do sec. xv temos o rico 
Cancioneiro de Garcia de Resende, a encyclopedia de D. Duarte, as 
novellas da Tavola Redonda e as notáveis Chronicas de Fernão Lo- 
pes e seus successores,— alem de muitos outros trabalhos meudos. 
No sec. xvi já a lingua oferece em geral os seus caracteres actuaes: 
ainda assim ha auctores, como Gil Vicente, que em parte pertencem ao 
período archaico. Nas obras de Gil Vicente a lingua portuguesa apre- 
senta dois aspectos: o aspecto popular na bôca de certas personagens 
villãs, como pastores, serranos, lavradores; o aspecto litterario na 
bôca das personagens cultas. E' uma distineção capital que importa 
tomar em consideração ao citar ou ler o nosso malicioso cómico. 

Sem alguns conhecimentos philologicos, não poderá ser rigorosa- 
mente comprehendida toda essa vasta litteratura, em que ha muitos 
vocábulos, sons, fórmas e expressões que destoão por completo da lin- 
guagem actual. A falta d'esses conhecimentos tem sido causa de que 
várias edições de antigos livros, modernamente feitas, contenhão ver- 
dadeiros contra-sensos. O estudo e meditação da litteratura archaica 
não compete só aos historiadores e críticos de profissão, compete a 
toda a gente que quiser ter consciência da sua nacionalidade: o poeta 
e o romancista, que ignorão o seu passado litterario e as tradições 
pátrias, para só buscarem alimento espiritual e inspiração nas littera- 
turas estrangeiras, falseião a arte; e os indivíduos que de propósito 
e caso pensado sorriem dos venerandos velhos que escrevêrão na 
idade-media e lançárão os fundamentos e as bases de todo o traba- 
lho futuro, e por tanto preparárão o campo litterario que hoje culti- 
vamos, são perfeitos abortos da natureza, indignos da consideração, 
porque esta não ha-de tributar-se a quem calca aos pés a sociedade, 
e atira com o desprêso ás gerações de que descende. 

3) Utilidade para o ensino grammatical. 

Com quanto a grammatica que se ensina na instrucção primaria 



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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA AftOHAlCA 



e secundaria seja prática, isto é, seja a da lingua considerada apenas 
no sen estado actual, todavia o conhecimento da lingua archaica tor- 
na-se necessário, porque certos factos da actualidade só se podem ex- 
plicar bem pela lingua antiga, que é a origem da de hoje. Se se no- 
tar ás crianças que havia outr'ora um artigo e pronome lo e la, cor- 
respondentes aos modernos o, a, ellas comprehenderão como hoje se 
diga ainda pelo, pela, amá-los, vê-las, etc., em que não ha, como absur- 
damente ás vezes se escreve, e ainda em parte se ensina nas aulas, 
simples mudanças euphonicas de r em l. Sabendo-se que muitos no- 
mes, que hoje acabam em -ão, acabavam noutro tempo em -om, como 
lição liçom, coração coraçom, firmidão fermidom, e que as segundas 
pessoas pluraes dos verbos que hoje terminam em -aes, etc., termina- 
vão até o sec. xv-xvi em -ades, etc, — não parecerá estranho que ao 
sing. d'esses nomes em -ão correspondão hoje geralmente plur. cm 
-ões, e que essas fórmas verbaes acabem no plur. em -aes (com e). 
Também ás vezes se escreve que fugace (fugaz), atroce (atroz), felice 
(feliz) são fórmas poéticas com paragoge (!) não sei de quê ; que imigo 
é outra fórraa poética com pura syncope de ni; e que implo, por ím- 
pio, tem deslocamento de accento. Tudo isso são inexactidões: fugace, 
atroce e felice tanto se usavão na prosa como no verso, e não passão 
de latinismos introduzidos na lingua litteraria, e que alem d'isso tem 
os superlativos fugacíssimo, etc; imigo é outra fórma da prosa antiga, 
palavra formada pelo povo (inimigo: inemigo: irCmigo: Imigo, como se 
lê nos doe. ant.) e não pelos poetas; implo é formado de pio e im 
(in), dentro já do português, sendo pelo contrário ímpio o latim im- 
píus. Muitos mais exemplos se poderião dar de como a grammatica 
antiga explica a moderna, e tudo isto muito elementarmente, sem la- 
tim nem apparato philologico, ao alcance das crianças de 10 annos, 
cuja instrucção assim se fortifica, e cuja intelligencia assim se desen- 
volve, porque mais vale uma razão clara e convincente do que muitas 
regras sêccas. 

4) Utilidade para a orthographia. 

Ha linguas com orthographias muito complicadas, como o inglês 
e o francês ; mas quem as escreve tem em geral normas por onde se 
regula. Nós porém somos um povo quasi sem orthographia: cada um 
escreve de seu modo, e ainda um mesmo individuo representa ás ve- 
zes a mesma palavra por maneiras differentes. Todavia dentro das 
regras que são claras e reconhecidas não se devia errar. Para que 
escrever luzitano com z, se a fórma primitiva tem s ? Para que escre- 
ver Cardozo, se ésta palavra é apenas na origem um nome commum, 
cardoso, que vem de cardo com o suffixo -oso e não -ozo (lat. -osusjf 
Para que escrever Affonseca, em vez de Afonseca, se esta palavra é 
formada de Fonseca e não de Affonso? Um s e um c (ç) em português 
tem diferente origem, e por isso não se pódem usar á vontade. Os 
nossos antigos escrevião Sintra e Buçaco, e é assim que hoje se deve 
escrever, porque o s na primeira palavra eo^na segunda aceusão 



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ÊÉVTSf A LÚSlf ANÁ 



diversa origem, isto é, que o S de Sintra não provém de c, e que o 
ç de Buçaco não provém de s. O uso de lettras dobradas ou singelas 
também não é indifferente, depende do etymo. Isto pôde parecer 
ocioso, e muita gente chama a isto frioleiras, mas ou bem que nós 
nos havemos de entender ou não: quando ha normas para as coisas, 
devemos segui-las; proceder á toa é que é disparate. 

O estudo da lingua antiga auxilia a orthographia moderna : deve 
escrever-se pêssego, ansioso, etc., porque era assim que dantes se es- 
crevia, e porque essas palavras vem respectivamente do lat. per si - 
cus, e anxiosus (i. é, x = cs, — suppondo-se para ansioso um pri- 
mitivo ânsia), em ambas as quaes ha s, ao qual a consoante anterior 
foi assimilada. Para as escrever com c é que não ha fundamento de 
espécie alguma. 

A' Academia das Sciencias pertence regularizar a orthographia 
portuguesa. 

5) Utilidade pari firmar o sentimento da nacionalidade. 

O primeiro dever do cidadão é amar a sua pátria, e defender a 
integridade do território. Isto é uma verdade evidente. Todos os ho- 
mens sãu irmãos, por isso todos se devem amar: a humanidade é uma 
familia, c a terra uma pátria commum. 

Mas, sem que se destruam os laços universaes que resultão da 
comraunidade do berço, — por isso que todos os seres semelhantes 
tendem por natureza uns para os outros — , e sem que se atfrouxem 
os da communicabilidade social, ha nesta família ramos secundários 
em que os laços da afttnidade são successivamente mais estreitos, e o 
amor se manifesta por isso com mais força. Assim os brancos ligão-se 
melhor entre si do que com povos de outra côr: aqui temos um des- 
ses grupos secundários. Os brancos da mesma ou semelhante civili- 
zação estão no mesmo caso em grau maior: por exemplo os povos 
neo-latinos, e entre estetf ainda os do ramo occidental, como mais 
próximos. Por fim chegamos á noção da pátria propriamente dita. 
Naturalmente os portugueses se amarão mais entre si do que por 
exemplo amarão os franceses, os hespanhoes, os italianos, de todos os 
quaes difierem na lingua, nos caracteres, nos costumes, etc. 

Para este amor concorre de um lado, como disse, a affinidade 
natural, pois nos sentimos inclinados para quem possue feições seme- 
lhantes ás nossas, ou comnosco habita dentro das mesmas fronteiras, 
alimentando na alma o mesmo ideal; do outro concorre o interesse 
prático da vida, pois do bem dos outros depende também o nosso. 
Ora este amor pátrio, este sentimento da autonomia nacional, será 
tanto mais íntimo e duradoiro, quanto maior for a consciência que 
d'elle haja. 

D'entre os diversos elementos que concorrem para constituir uma 
nacionalidade, a lingua é um dos de maior valor, porque faz que 
aquelles que a fallão traduzão por fórma semelhante a communidade 
do sentimento, o que avigora este. E já na antiguidade assim se jul- 



r 



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ÓÍJftSO DK LltfGUA POftTttátíRSA AftCHAlCA 2f> 



gava. A palavra bárbaro o mostra. O estudo theorico de uma língua 
assegura-nos melhor na posse d'ella. E como uma língua não teve 
sempre a fórraa que nos apresenta em dado momento, mas teve ou- 
tras que explicão esta, fica entendido que o conhecimento das pha- 
ses antigas da língua portuguesa, habilitando-nos, como disse ha pou- 
co, para nos inteirarmos melhor da lingua moderna, fortalece ipso 
facto o sentimento nacional. 

O amor da pátria e da lingua sempre caracterizou os antigos 
portugueses. O bello idioma luso foi exaltado em prosa e verso. No 
sec. xvi escreveu João de Barros o Dialogo em louvor da nossa lin- 
guagem. Ferreira de Vera os Breves louvores da lingua portuguesa, 
Magalhães de Gandavo o Dialogo em defensam da mesma lingoa; no 
sec. xvii Severim de Faria, e Sousa de Macedo produzirão trabalhos 
no mesmo sentido; no sec. xvm Filynto Elysio cantou-a num poema! 
Todos os nossos mais notáveis escriptores se esforçárão por a escre- 
ver bem. 

Hoje, porém, os escriptores novos sorriem da poeira dos séculos, 
e dizem que os clássicos cheirão a mofo, como se áquelles que se de- 
dicão a um mester não fosse obrigação sua aperfeiçoarem-se nelle! 

O desprêso que actualmente se nota pela lingua é um triste 
symptoma da decadência geral do espirito patriótico, e é mais por 
isso do que por outro motivo que eu o lamento. 

Alem doesta causa ha ainda outras que concorrem para que a lin- 
gua se não estime. Uma d*ellas é a ignorância. Ao passo que cm alguns 
países adeantados, como a Allemanha, o ensino da lingua materna se 
ministra durante uns poucos de annos nas aulas, em Portugal a nossa 
legislação apenas lhe concede nos lycens um anno lectivo e parte de 
outro, isto é, uma escassa meia-duzia de meses! Se se accrescentar a 
isto, de um lado a pouca preparação que os alumnos levão da instru- 
cção primaria, e do outro a má vontade d'elles, vê-se como effecti vã- 
mente a lingua portuguesa não deve ser bem sabida d'aquelles que 
escrevem. Digo má vontade, porque entre nós não ha hábitos de es- 
tudo. Para os estudantes as aulas são uma maçada; os lentes uns ma- 
çadores. Estuda-se só para se passar no exame; e quer-se o exame 
para se obter um curso que habilite a ter um emprego em que se ga- 
nhe muito, e se não trabalhe nada. Este é o ideal da maioria. Mas ai 
do povo que não aspira senão á satisfação dos prazeres grosseiros da 
vida! 

Outra causa que contribue para a decadência da nossa lingua 
litteraria é a lingua francesa, que, pelo seu uso cá, ora insensivel- 
mente, ora de propósito, se vae infiltrando na nossa : insensivelmente, 
porque ella está sempre presente ao nosso espirito, e, em virtude do 
pouco conhecimento clássico da nossa, sobrepõe-se a esta; de propó- 
sito, pelo pedantismo dos que julgão que só o que vem de fóra agra- 
da. Uma occasião vi num jornal (Teste cidade a seguinte notícia: 
«Hontem já era difficil alugar uma carroagem mais limpa, porque 
quasi todas estavam tomadas para hoje fazerem o bosqde e a Avkni- 



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RB VISTA LUSITANA 



DA.i Fica a gente a scismar na habilidade d'estas carroagens qne fa- 
zem Avenidas e bosques! E sabem o que no caso presente significava 
fazer o bosque ? Significava — ir para o Campo-Grande! A's vezes dá-se 
o caso de um jornal estar em contradicçâo comsigo mesmo. Li ha 
tempos no artigo principal de um: c altas questões de interesse pú- 
blico, de subida importância para todos os qne prezam acima dk tudo 
a autonomia da patria» ; ao mesmo tempo que isto se dizia na pri- 
meira columna, logo adeante, no noticiário, ao fazer-se a lista das pes- 
soas qne tinhào andado a passear na Avenida, repetia-se umas pou- 
cas de vezes a expressão madame e mademoiselle com referencia a se- 
nhoras portuguesas! O jornalista não comprehendia que desvirtuar a 
lingua, mascarando-a de estrangeirismos, era attentar contra essa 
apregoada autonomia da patria, que elle com tanta eraphase defendia 
poucas linhas antes! 

O uso de madame e mademoiselle já dura ha uns annos, e parece 
que se vae generalizando, para o que também contribue a vaidade fe- 
minina, que assim adquire mais uns ares de exótica, em harmonia 
com a sentença vergiliana: varíum et mutabile semper femina. Censu- 
rando eu uma vez um jornalista meu amigo que também assim escre- 
via, elle respondeu-me — que isto era gentil. Eu deixei-o, porque não 
podia discutir com quem imaginava que havia gentileza em encher 
de remendos uma lingua rica. Nós já tínhamos no nosso vocabulário 
a palavra madama f que é igualmente de importação francesa; mas, 
pois que se applica com frequência em sentido um tanto depreciativo, 
não agrada commummente aos ouvidos. Como porém com o tempo, em 
virtude das leis da lingua, madame virá, se se mantiver, a transfor- 
masse outra vez em madatna, ahi estamos nós cabidos em contradi- 
cçâo, ou então ha-de a alta aristocracia ficar igualada á classe burguesa. 

Não obstante ésta invasão constante da lingua francesa na por- 
tuguesa, parece comtndo intuitivo que, se somos portugueses, e se 
Portugal tem uma lingua litteraria sua, devemos fallar e escrever 
português ! E nós, que mostramos tanta propensão para copiar tudo o 
que vem de fóra, só não imitamos os estrangeiros no respeito que el- 
le8 tributão ás respectivas línguas nacionaes. Neste desleixo, Lisboa 
sobresae, como capital que é. Vae a gente por essas ruas, e não só 
nos artefactos, como nos títulos, imagina ás vezes que está num bairro 
de Paris: são as bijouterias, as conferçõea, os restaurants, os ateliers, 
os salões (!) de Imrbear. De modo que ao cahos da orthographia jun- 
ta-se também o do vocabulário e do phraseado. 

Se todavia quisermos ser povo autónomo, temos de pugnar pela 
integridade dos diversos elementos da nacionalidade, que se não reduz 
só ao território: temos de dar impulso e caracter ás artes e ás indus- 
trias; e de contribuir para que nos nossos hábitos, litteratura e lin- 
gua não ofereçamos um quadro hybrido, mas sim ofereçamos um ge- 
nuinamente português. Sem isto nem a integridade do território, nem 
a paz, nem a riqueza pública servem de nada. Precisamos de harmo- 
nizar tudo. 



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CURSO DE LINOUA PORTUGUESA ARCHAICA 



E se na nossa vida histórica ha algum momento de provação em 
que se torne necessário reatar e segurar fortemente todos os vinca- 
los da nação, é sem duvida este. Em vez de federações phantasticas 
com povos estranhos, contenhamo-nos nós aggregados moralmente, 
cônscios de um mesmo grande ideal! — Mas não vem agora ao meu 
intento dizer mais no assumpto. 

6) Utilidade para desarraigar a opinião db que a língua ar- 
cha1ca é rude e irregular. 

E'sta opinião anda não só na mente de qnasi todos, mas tem-se 
escrito innúmeras vezes, e até em compêndios 'escholares. 

Por exemplo, num que conta pelo menos 12 edições, lê-se que a 
antiga lingua portuguesa «é barbara, irregular, inintelligivel ás ve- 
zes e com rudez de pensamentos», e que a versificação da epocha é 
«dura e sem nenhum conhecimento da arte». Com relação & segunda 
affirmação, bastava o autor do livro dar-se ao trabalho de contar os 
versos e as syllabaa de qualquer poesia antiga, para ver a falsidade 
da sua proposição; é alem d'isso hoje conhecido um Tratado de poé- 
tica hiso-provençal, certamente anterior ao sec. xv, o qual foi desco- 
berto com o Cancioneiro Colocci-Brancuti de que ha pouco fallei. 
Aquellas tão temerárias affirmativas não pertencem ainda assim ao 
autor do compendio: são já referidas em segunda mão! 

Noutro compendio escholar, que pelo menos conta 8 edições, lê-se 
também: que a lingua primitiva de Portugal é o resultado de uma 
mistura das linguas céltica, phenicia, grega, romana, gótica, árabe, 
etc.. chamando-se romance c porque nella sobresahia o romano corrom- 
pido!» E acerescenta-se que continuou trude e incerta nas fórmas» 
até que no sec. xv tomou «um caracter particular que se distingue 
das outras linguas». Parece que o autor admitte que até o sec. xv a 
lingua portuguesa não tinha existência própria! E obras, assim anti- 
scientificas, percorrem umas poucas de gerações escholares, sem go- 
vernos nem professores as varrerem por uma vez da testada das au- 
las! A extraordinária opinião de que a lingua portuguesa archaica 
é rude e barbara refuta-se a piiori e a posteriori. A refutação a pos- 
teriori da-la-hei no decurso das rainhas lições. A refutação a iwiori 
da-la-hei agora aqui. 

O estudo scientifico que se tem feito de muitas e variadas lin- 
guas mostra que todas ellas são regulares na sua evolução; e a sim- 
ples reflexão nos diz que uma lingua, já que serve para traduzir o 
pensamento do povo que a falia, é perfeita e boa. Tanto mérito tem 
a este propósito o grego de Homero como o quimbundo da Africa. Na 
própria lingua do povo, que ás pessoas superfíciaes se affigura como 
caprichosa e irregular, descobre a anályse mais ligeira regras con- 
stantes e certas. A linguagem é um producto do homem e que obe- 
dece ás mesmas leis a que obedece a natureza e as sociedades: como 
ha-de pois ser errada? Logo, a lingua portuguesa archaica, por isso 
que é lingua, está nas mesmas condições que as mais, 



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RRVISTA LtTSlf AKÁ 



O chamar-se-lhe rude e barbara resulta de que, como offerece fór- 
mas anteriores ás de hoje, e outras que differem das que nós usamos, 
embora semelhantes ás vezes a ellas, nos parece ser a nossa língua 
em lábios de quem a não faltyt bem. Se um português antigo pudesse 
resuscitar, e ouvimos fallar, a lingua de hoje produzir-lhe-hia um ef- 
feito análogo a esse, e diria que ella era o mesmo que nós dizemos 
que é a lingua portuguesa na bôca dos pretos. 

Assim, em resumo, o estudo da nossa lingua archaica offerece as 
seguintes vantagens: para a leitura dos documentos antigos; para a 
apreciação da litteratura pre-classica; para o ensino consciencioso da 
grammatica prática; para o conhecimento da orthographia; para ar- 
raigar o sentimento da nacionalidade e o amor pátrio; para destruir 
o preconceito de que a lingua portuguesa nos seus períodos primeiros 
é irregular e barbara. O que tudo constitue ao mesmo tempo um ele- 
mento de educação liberal. 

Tantas vantagens justificão pois o vir eu occupar-me d'este as- 
sumpto. 



Como no decurso das minhas lições tenho de empregar uma te- 
chnica especial, fallando constantemente de latim vulgar, latim bár- 
baro, lingua litteraria, lingua popular, dialectos, etc, vou agora dar 
aqui, como preliminar, umas noções summarias de historia da lingua 
portuguesa, em que determine a accepção d'essas expressões todas. 

A lingua portuguesa é na sua essência uma evolução da lingua 
latina. As provas d'este facto são de ordem philologica; mas elle tem 
uma base histórica. Aquellas provas i-las-hei indicando nas minhas, 
lições successivas, á medida que isso se torne necessário; na pre- 
sente occasião quero só insistir na base histórica, e no aspecto ex- 
terno do facto. 

A base histórica fundamental está na conquista e dominação ro- 
mana da península ibérica, e em especial da Lusitânia. Achamo-nos 
por tanto em pleno cyclo lusitanico, e merece a pena entrar em algu- 
mas considerações particulares. 

Quando se emprega a palavra Lusitânia, é necessário explicar o 
seu sentido, porque ella designou vários territórios segundo os tem- 
pos. Anteriormente a Estrabão (que escreveu no sec. i da E. C), os 
Lusitanos ficavão ao N. do rio Durius (h. Doiro), e occupavão a re- 
gião que no tempo d'aquelle geographo pertencia aos Oallaicos. Para 
elle, porém, a Lusitânia tinha por limites meridionaes o Tagus (h. 
Tejo), occidentaes e septentrionaes o Oceano, orientaes a terra dos 
Carpetanos, Vettones, Vacceus, Callaicos e outros povos menos im- 
portantes, posto que muitos AA. contemporâneos de Estrabão denomi- 
nem também Lusitanos todos esses povos. Depois da segunda divisão 



II 



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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA 



ofticial da Ibéria cm provindas romanas (em tempos de Augusto ou 
Tibério) chainou-se Lusitânia á província entre a fronteira da Betica 
(rio Ana, h. Guadiana) e o curso do Durius até á foz, comprehendendo 
pois o Algarve, quasi todo o Alemtejo, a Estremadura e a Beira, e 
estendendo-se ainda pela Hespanhá, onde estava Emerita Augusta (h. 
Merida). 

Attendendo pois a que, com excepção de um pequeno território 
betico no Alemtejo, alcm-Guadiana, o conjuncto dos dois paises Gal- 
liza e Portugal, que ethnologica e linguisticamente se não podem se- 
parar, teve em diversas epochas o nome de Lusitânia, eu aqui, como 
em diversos estudos meus, eraprégo por commodidade essa palavra 
para designar de modo geral, á falta de outra melhor, e a flm de 
evitar periphrases, a epocha antiga de Portugal e Galliza. 

Não ha, bem sei, rigor chronologico-geographico, mas também o 
Portugal de hoje não é o mesmo do do tempo de D. Affonso Henri- 
quez, e raro será o país em cuja história se encontre esse rigor em 
todas as epochas: c comtudo não deixão de se empregar os nomes 
geraes dos paises. N 

O que em parte motivou aquellas mudanças de limites da Lusi- 
tânia seríão, de um lado, migrações e por ventura conquistas, e do • 
outro affinidades ethnicas e geographicas que permittião agrupar sob 
uma mesma designação muitos povos. A importância d'estas affinida- 
des manifesta-se eloquentemente na lingna, que, como veremos, se 
constitue uniforme, apenas com as variedades dialectaes, embora den- 
tro de um typo commum, desde o mar da Galliza até o do Algarve. 

A historia da Lusitânia, divide-se em tres grandes epochas: pre- 
historka, protohistorica, e histórica propriamente dita. 

As fontes para o estudo d'ellas são as seguintes, umas directas, 
outras indirectas: os monumentos contemporâneos; os auctores anti- 
gos (e seus commentadores), que não só tratão da Lusitânia, mas da 
Ibéria toda; a tradição que se manteve até hoje, quer em fórma de 
costumes, superstições, etc, quer em fórma de linguagem. Hão-de 
ainda acerescentar-se os estudos anthropologicos. 

Com relação aos monumentos, estes podem estndar-se: in loco 
(como as antas, os castros, os templos, os cemitérios, etc); nos tra- 
balhos archeologicos, raappas e estampas (bibliographia) ; nos museus. 
Para certos períodos são os monumentos o nosso único meio de infor- 
mação. Apesar do vandalismo que diariamente destroe verdadeiras 
preciosidades archeologicas, e de ainda não termos um museu nacio- 
nal digno doeste nome, ha todavia nas differentes províncias do nosso 
país muitos e muitos materiacs aproveitáveis. 

Com relação aos auctores, são principalmente os gregos e roma- 
nos os que me importa considerar, embora também os haja para o 
período bárbaro e para o período arábigo, que já porém em parte 
pertence á historia de Portugal. Entre os AA. que escrevèrão em 
grego mencionarei por ex. Estrabão (que se aproveitou, como elle con- 
fessa, de muitos trabalhos anteriores), Ptolemeu, Marciano de Hera- 



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REVISTA LUbITANA 



cleia, Polybio, Diodoro Siculo, Appiano, Dion Cássio; entre os que 
escrevêrâo em latim, Avieno (que parece ter aproveitado as noticias 
contidas em um antiquíssimo périplo), Justino (que resumiu Trogo 
Pompeu), Pomponio Mela (natural da Betica), Plinio, Marcial (tam- 
bém natural da Hispânia), Tito Livio, Silio Itálico, Suetonio, — alem 
do livro De béllo Hispaniensi composto por um official de Julio Ce- 
sar, e dos Itinerários, etc. De todos estes AA., ha uns que dão par- 
ticularmente informações geographicas, como Ptolemeu, Marciano, 
Mela, e os AA. dos Itinerários; ha outros cujos testemunhos utilizão 
sobre tudo á historia politica e ás instituições sociaes, como Livio e 
os historiadores que o seguirão (Valério Máximo, Floro, Eutrópio, 
etc.), Appiano, o A. De béllo hispaniensi; outros, finalmente, em que, 
ao lado de indicações de toda a ordem, se encontrão preciosas indica- 
ções ethnographicas, por exemplo, Estrabão, Silio Itálico, etc. 

Com relação á tradição, muitos factos modernos, de caracter so- 
cial, ha no nosso pais, que remontão á antiguidade romana e pre- 
romana. A' lingua já me referi: o português é, como disse, a lingua 
dos Romanos, apenas modificada, em virtude da acção de diversas 
circumstancias; alem disso ha no nosso onomástico ainda vestígios 
das línguas faltadas pelos povos preromanos, como Cale (na palavra 
Portu-gal), Olisipo, Ebora, Conimbriga, Limia, Vácua, etc. O exame 
scientifico do onomástico lusitano foi já iniciado entre nós pelo Sr. F. 
Adolpho Coelho. — Se agora nos voltarmos para o campo das crenças 
populares, usos, etc, encontramos igualmente muitos restos do passa- 
do. Ao pé de Bencatel, no Alemtejo, appareceu ha alguns annos uma 
ara votiva dedicada a duas divindades fontanárias; não muito longe 
d'esse local ha duas Fontes Santas, e a uma d T ellas, consagrada á 
Virgem, concorre o povo da província, e mesmo de fóra, cora grande 
devoção: estamos pois, pela comparação com outros muitos factos da 
mesma natureza, auctorizados a ligar umas ideias com outras, e a 
ver nas Fontes Santas a continuação de um culto pagão christiani- 
zado, tanto mais que pelos antigos códigos da Igreja se prohibia a 
veneração das fontes; mas aqui o poder da tradição foi superior ao 
da lei. Usa-se em Lisboa um amuleto de marfim ou de osso, com- 
posto de uma figa e um comicho, com uma abertura ao centro, para 
andar suspenso; como posso provar pela comparação com vários amu- 
letos romanos, uns descobertos cá, outros fóra, este relaciona se com 
elles. A trilha, instrumento agrícola de Tras-os-Montes, corresponde 
ao tribidum romano, tal como o descreve Varrão, e esta correspon- 
dência dá-se tanto no nome, como na fórma. O carro alemtejano tem 
também todas as parecenças com o carpentum. — Os costumes mo- 
dernos explicão-se pois muitas vezes pelos antigos; comprehende-se, 
por tanto, como do exame e comparação d'aquelles possamos ás ve- 
zes chegar a elucidar o passado. 

Com relação á parte anthropologica, os dados por ora não são 
muitos. Ha apenas alguns estudos realizados ácerca de vários esque- 
letos prehistoricos. 



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Passemos uma vista d'olhos por todas aquellas tres epochas em 
que dividi a história da Lusitânia, 

I. — Época prehistorica. 

Impossível me fora, não só tratar agora dos principaes pontos 
d'este assumpto, mas sequer esboçar a história dos diversos períodos, 
— paleolithico, neolithico e dos metaes. 

Os primeiros homens que habitarão estas paragens vivião vida 
rude e selvagem: os seus instrumentos erão de pedra e de osso; 
para morada aproveitavão muitas vezes as grutas naturaes; como 
louças tinhão grosseiros vasos de barro. Foi só depois de longos 
séculos que as commodidades da vida vierão a pouco e pouco, que 
os animaes fprao domesticados, que se cultivárão as terras, e o uso 
do metal se generalizou. Os antigos geographos que tratarão da 
Ibéria attribuem ainda a muitas tribus peninsulares uma civilização 
verdadeiramente rudimentar, como era por exemplo a dos monta- 
nheses da Lusitânia, no dizer de Estrabão. 

O nosso país está cheio de antiguidades prehistorícas, umas já 
estudadas, outras ainda virgens. A cada passo se encontrão mambas, 
antas, antéllas e grutas, que são monumentos d'essas idades. Aqui no 
Sul, pelo menos desde o Mondego até o Algarve, o povo recolhe com 
muita estimação as pedras de raio, nome com que elle denomina cer- 
tos instrumentos neolithicos que acha no solo, nas lavouras; no Norte 
do pais chamão-se em geral pedras de raio os crystaes de rocha, e é 
talvez por esse motivo que não se conhecem d'aquella região tantos 
instrumentos neolithicos como do Sul. A superstição das pedras de 
raio tem origem mythica; mas o povo apropriou-a, por um processo 
natural, e que aliás é universal, a esses pequenos monumentos pre- 
históricos. 

As províncias portuguesas menos exploradas são a Beira e Tras- 
os-Montes; as melhor exploradas são a Estremadura, o Entre-Douro- 
e-Minho, o Alemtejo e o Algarve, ácerca da ultima das quaes já ha 
um mappa archeologico organizado pelo sr. Estácio da Veiga. 

Assim como o povo applicou aos instrumentos neolithicos ideias 
que se ligão com os mythos da trovoada, assim também revestiu de 
poéticas lendas de Moiras encantadas as grutas prehistorícas e as 
antas. 

Uma adaptação semelhante se deu com ésta palavra, que, tendo 
evidentemente origem no latim antae, foi imposta a monumentos 
muito mais antigos. E como do singelo tumulo dos nossos avós o nome 
ás ve^es se estendeu ao campo em que elle estava, tornado mais tarde 
povoação, offerece-nos hoje o nosso onomástico denominações como 
Anta, Antas, Anta Cova, Antas do Meio, Antetta, Antinha, Antéllas, 
etc. Talvez pertença á mesma classe Antão e Antões, pois, assim como 
se fez o deminutivo antella e antinha, também se podia ter feito 
o augmentativo antão. 



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RKVISTÀ LUSITANA 



O povo assenhoreou-se das antas, não só para nellas evocar 
na noite do S. João a formosa Moira de cabellos d'oiro, resplande- 
centes ao luar, mas ainda, como numa ao pé de Pinhel, poder, por 
meio de uma prova pelo fogo, conhecer de ante mão o futuro da co- 
lheita próxima. 

D'este modo. já pelas crenças populares, já pelos vocábulos avul- 
sos, a tradição vincula-nos ao passado, c nós devemos dizer com or- 
gulho, porque nisso se affirma o progresso do homem, que somos em 
linha recta, polo menos moralmente, os descendentes dos selvagens 
que ha milhares de annos vagueavão pelas margens do Tejo e do 
Mondego, perseguindo as feras com armas de pederneira. 

II. — Epocha protohistorica. 

Denomino assim a epocha comprehendida entre a prehistoria e 
a vinda dos Romanos para a Lusitânia. Das tres grandes epochas 
da historia lusitanica é esta a menos conhecida. 

Em toda a faxa occidental da Ibéria havia nos tempos pre-roma- 
nos muitas populações que constituião gentes, populi e civitates, e vi- 
vião em oppida, vúH, etc., para me servir das expressões consagradas 
pelos auctores romanos, posto que ellas nem sempre sejão rigorosas. 
Erão os Lusitanos, os Turdetanos, os Callaicos, os Bracaros, os (4ro- 
vios, os Turdulos, etc. Combinando diversos elementos, parece que as 
denominações da primeira serie denotavão agrupamentos, por ven- 
tura federações, de caracter successivamente menos geral. Plinio, por 
exemplo, diz que os Lusitanos constituião uma das gentes peninsula- 
res; o mesmo A. distingue entre populi cantabricos e civitates canta- 
bricas. Mas ás vezes também confunde. Iguaes informações se podem 
colhêr em Tito Livio. Assim gentes serão de modo geral as federações 
maiores; populi e civitates federações gradualmente menores, embora 
autónomas entre si. Também temos algumas escassas notícias á cerca 
de gentilitates na península. 

Não é meu intento mencionar aqui todas as tribus da Lusitânia. 
Algumas d'ellas devião, pelo menos em parte, proceder das popula- 
ções prehistoricas ; outras devião ter diversa origem, pois a peninsula 
foi invadida por Phenicios, Celtas, Gregos, Carthagineses, etc, — ha- 
vendo-se alguns doestes povos, como os Celtas, ligado intimamente 
com as populações indígenas, limitando-sc outros a colonizações e fe- 
derações no littoral, ou próximo. 

A respeito dos Celtas temos provas positivas de que elles ha- 
bitavão mais ou menos por toda a Lusitânia: havia Célticos na me- 
sopotâmia formada pelos rios Tagus e Ana; havia-os desde o cabo 
Nerio até o rio Limia, os quaes, segundo o próprio Estrabão, serião 
próximos parentes dos das margens do Ana, — correndo in loco, para 
explicar este parentesco, uma tradição oral que Estrabão refere, re- 
vestida de circurastancias lendárias e maravilhosas, e por tanto sem 
inteira fé histórica. 



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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA 



Os Phenicios predominavão no Sul: O geographo grego Es- 
trabão diz mesmo que elles constituiâo a base da população turde- 
tanica. 

Com relação aos Gregos, podemos aeceitar que elles, pelo me- 
nos, dominárão também no Sul, mas o que os AA. antigos dizem da 
estada d'elles na Galliza e no Minho não merece credito, pois se funda 
em etymologias populares; a comparação que Estrabão faz, de um lado 
entre as hecatombes e cerimonias matrimoniaes dos Lusitanos, e do 
outro entre costumes da Grécia, creio ser meramente accidental, e 
não de parentesco directo, pois também o mesmo A. compara costu- 
mes de cá com costumes assyricos. 

Algumas das povoações em que vivião as tribus lusitanicas ainda 
hoje nos são conhecidas, em ruinas que d'ellas restão. Refiro-rae aos 
crastos ou castros, crastéllos, crestins, castêllos, castêllos, cividades, cer- 
cas, citanias, etc, nomes synonimos com que o povo as denomina. Os 
sete primeiros nomes tem evidentemente origem latina; o ultimo 
julgo que também é latino, ainda que revela feição semi-erudita, 
mesmo na sua fórma mais vulgar, — citâina, que é como se diz no 
districto de Braga. Pertence ao Sr. F. Martins Sarmento a glória de 
haver tornado bem claro o que são os nossos castros, em virtude das 
explorações archeologicas a que á sua custa procedeu, sobretudo em 
Sabroso e na Citania de Briteiros, dois castros typos, o primeiro como 
pre-romano, o segundo como luso-romano. Os castros são em geral 
montes fortificados, passando-lhes muitas vezes um rio ou ribeiro ao 
sopé: de modo que d'elles podemos dizer como, a propósito da Itália, 
dizia Vergilio: 

Tot congesta manu praeruptis oppiÂa saxis 
Fluminaque antiquos subterlabentia muros. 

A palavra castro, com as suas synonimas, tornou-se nome gené- 
rico, em substituição dos nomes indígenas. A razão disto está cm que 
— castrum, d'onde provciu castro ou (rasto, tinha entre os Romanos 
a significação de «logar fortificado». Muitos dos castros continuarão a 
viver na epocha romana e post-romana, outros forão abandonados, 
passando-se para outras localidades as povoações que os habitavão. 

A's multíplices designações modernas de castro, cividade, etc, é na- 
tural que na origem correspondessem accepçoes diversas: assim castro, 
já vimos que provém de castrum; quanto a castêllo e castêllo pro- 
vém de castellum, palavra que significa «posto militar fortificado», já 
de caracter permanente, já passageiro, ás vezes dependente de uma 
cidade vizinha; cividade provém de civitas (i. é, civitate-), que, 
com quanto tivesse a princípio a accepção moral de «communidade de 
cidadãos», etc., adquiriu também, principalmente depois da epocha de 
Augusto, o sentido de urbs, isto é, «cidade materialmente considera- 
da» ; os deminutivos cresteúo, ercstim, etc, significão quer novas po- 
bkv. r.usiT., vol. ih, fase. 1. 3 



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REVISTA LUSITANA 



voações derivadas dos castros, quer povoações realmente menores que 
estes; citania parece-nie estar por *civitatania ou *civitata- 
n e a , palavra correspondente a civitatanus (de civitas, como oppidanus, 
de oppidum, e vicanus, de vicus); a palavra cerca provém de circa. 

Assim pois estes diversos nomes, após haverem-se tornado syno- 
nimos na lingua moderna, correspondem a castrum, castellum, etc, e 
provavelmente também em parte a oppidum, vicus, urbs. E' curioso 
que estes tres nomes se não tenhão conservado em Portugal, o que 
aliás se explica pela generalização de castrum e castellum, e porque 
no latim vulgar civitas substituiu urbs, etc; apenas na Galliza ha 
Vigo, na epocha romana Vicus Spacorum, denominação em que clara- 
mente entra o latim vicus, como em Vicus Veracyrorum, etc. Os 
Lusitanos não vivião só em castros; temos conhecimento de outros 
centros de habitação, e alguns até célebres pela sua opulência. Em 
vários castros, como na Citania de Briteiros, as casas tinhão ás ve- 
zes fórma arredondada, uso conhecido noutras nações. 

Os povos da Lusitânia constituião, como disse, tribus indepen- 
dentes umas das outras, e que não raro vivião entre si em guerra, 
mas que, na occasiâo do perigo commum, ás vezes mais ou menos 
se união e combatião juntas, como vemos no tempo de Viriato. 
A' cerca do seu governo e organização social é difficil entrar em rai- 
nudencias, nem isso me pertence aqui; direi no emtanto que na His- 
pânia, como consta de varias passagens, havia reis, posto que nem 
sempre seja cousa apurada quando é que os AA. se referem a reis 
propriamente ditos, ou a simples magnates, generaes, etc. 

Em virtude da pluralidade dos povos que habitavão esta faxa 
occidental, e das circumstancias topographicas e physicas, resulta que 
na epocha de que me estou oceupando temos de considerar aqui vá- 
rias civilizações. Uns povos erão extremamente bárbaros, como os que 
vivião insulados nas montanhas; outros, como os do Sul, erão regu- 
larmente civilizados. Certas particularidades que Estrabão refere dos 
montanheses não differem essencialmente do que se sabe de outros 
povos em condições sociaes semelhantes, como por exemplo os Gallos. 
A archeologia, que deve ser sempre invocada quando se trata de 
ethnographia antiga, completa frequentemente as notícias ministra- 
das pelos geographos e historiadores. 

Estrabão, ao passo que mais de uma vez commemora a grande 
rudeza de costumes de certas tribus lusitanicas, e em geral ibéricas, 
pinta-nos em compensação á cerca da Turdetania um quadro de cores 
muito lisongeiras e suaves. Parte do nosso país estava comprehendido 
na Turdetania, e é por isso que aqui fallo d'ella. Os Turdetanos erão 
considerados como os povos mais illustrados da península. Estrabão, 
segundo resulta do confronto que fiz de passagens suas, distingue 
nclles duas civilizações: uma, a dos que possuião uma litteratura poé- 
tica numa lingua nacional ; outra, a dos que se havião romanizado, a 
ponto de trocarem o seu idioma próprio pelo latira. Estes últimos erão 
principalmente os ribeirinhos do Betis (h. Guadalquivir). O geogra- 



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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA 



pho, ao que parece, falia dos primeiros como seus contemporâneos: 
por tanto as duas civilizações coexistião ainda no sec. i da E. C. 
Quero chamar particularmente a attençâo para o seguinte, que julgo 
importante, e vem a ser: que o facto da civilização- turdetana se deve 
explicar, sobretudo, pela acção dos Gregos e Phenicios, que estancia- 
rão pelo Sul, — sendo essa mesma civilização um auxiliar que facilita- 
ria a precoce implantação dos romanos ahi; e que a coincidência de 
apparecerem no Sul do nosso país inscripções pre-romanas e moedas 
com caracteres especiaes, chamados ibéricos, de provável origem phe- 
nicia, com a notícia ministrada por Estrabão, á cerca de uma littera- 
tura nacional da Turdetania, onde, segundo elle, havia elementos 
ethnicos da Phenicia, leva a inferir que a lingua d'esta litteratura 
poderia ser a mesma que está escrita com os ditos caracteres. O que 
se não pôde concluir é que esta lingua fosse do systema phenicio. 

* 

Direi algumas palavras á cerca das religiões da Lusitânia, pois, 
no esboço da história social de um povo, este elemento não deve ser 
de modo nenhum omittido, principalmente com referencia á antigui- 
dade, em que quasi todos os actos da vida, ainda os mais vulgares, 
estavão impregnados de espirito religioso. Digo religiões, e não reli- 
gião, porque, assim como o povo não era unitário, também não havia 
uma só crença. Em rigor, devia tratar da de cada grupo social em 
particular; mas, por commodidade, abrange-las-hei primeiro num todo, 
que irei a pouco e pouco delimitando, — e occupar-me-hei successiva- 
mente: d) das concepções fundamentaes ; b) das formas do culto; c) 
do sacerdócio. Está claro que tratarei de tudo succintamente. 

d) Concepções. 

Um dos elementos mais importantes das religiões antigas era o 
culto da Natureza, — divinizada nas suas forças: as águas, a atraos- 
phera, os astros, os seres vivos (vegetaes e animaes), os relevos do 
solo, etc. 

Segundo uma tradição muito antiga, haveria no Promontório 
Sagrado (Algarve) um santuário de Héracles, que porém já tinha 
desapparecido no sec. i da E. C. Héracles talvez aqui signifique o 
mesmo que Melcarth, deus phenicio. O geographo Estrabão trans- 
mittiu-nos á cerca d'este Promontório outras noticias curiosas, como as 
que se referem á santidade do logar, onde á noite os deuses se reunião 
em sabbat ou assembleia, e onde se realizavão certas cerimonias. Infe- 
lizmente o texto estraboniano é muito lacónico, e alem d'isso offerece 
difficuldades de leitura; mas talvez as tradições do Promontório Sa- 
grado se possão relacionar com um culto de divindades marítimas ou 
correlativas. A veneração do logar inanteve-se até hoje na designação 
de Cabo de S. Vicente. 

Além d'este cabo outros havia também sagrados. Os AA. antigos 



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&EV1STA LUSITANA 



fallão-nos do Promontório da Lua, que era, segundo creio, o Cabo da 
Roca. Esta relação da lua com um cabo nada tem de estranho, pois 
as divindades sideraes andão muitas vezes associadas ás marítimas. 
Em verdade a lua presta grandes serviços aos navegantes; por isso 
era natural venerarem-na nos pontos que mais entrão pelo mar den- 
tro. Na Itália também havia um Lunae Promunturium. E' curioso 
que tenhão apparecido junto de Collares, segundo André de Résende, 
inscripções romanas consagradas ao Sol e á Lua; com quanto tenhão 
um cunho muito romano, talvez possão representar a romanização de 
um culto indígena. Outros povos da península veneravão os astros, 
como os Celtibericos e os seus vizinhos do Norte, que celebravão dan- 
ças em honra da lua-cheia, costumes que tem análogos nos selvagens 
da Africa e da America. Os cultos astrolatricos mantiverão-se até 
hoje na tradição popular; as antigas legislações da nossa Egreja re- 
ferem-se também a elles, condemnando-os. 

E' provável que em outros muitos cabos e pontas, onde moderna- 
mente se venerão imagens christãs, houvesse outr'ora santuários pa- 
gãos. 

Do culto dos promontórios e do do ceu, passarei agora para o dos 
rios e das fontes. Na antiguidade corria nos povos da beira do Lima 
uma superstição de que as aguas d'este rio produzião o esquecimento 
do passado, havendo mesmo uma lenda popular para explicar a super- 
stição. O nome antigo do rio era Limia; parece que para o povo 
esta palavra continha ainda clara a ideia de t esquecimento», pois os 
AA. gregos e latinos a traduzem respectivamente por Lethe e Obli- 
vio, que nunca forão porém nomes do rio, como erradamente se tem 
supposto. Como é que o rio produzia o esquecimento? A julgar do 
texto, era atravessando-o. Como no emtanto os povos limitrophes ti- 
nham de o atravessar a cada passo, que meios empregavão elles para 
evitar o esquecimento? Podemos raciocinar aqui por analogia cora o 
que sabemos á cerca das cerimonias de outros povos na occasiâo da 
travessia das águas tidas por santas. Como se considera offensivo 
invadir os domínios da divindade, fazem-se-lhe sacrifícios, levão-se- 
Ihe oferendas, etc. No Limia succederia pois o mesmo: quem se su- 
jeitasse aos ritos expiatórios e propiciatórios, passava incólume. Sem 
se admittir isto não se pôde explicar a manutenção da superstição, 
pois ou o rio nunca seria passado, o que se torna incrível, ou as pri- 
meiras travessias, independentes de cerimonial, a destruirião logo, o 
que está em desaccôrdo com os factos. O Limia era por tanto um rio 
santo, como ainda hoje no nosso país ha muitos, segundo a crença 
popular. 

A julgar por uma inscripção romana achada nos subúrbios do 
Porto, parece que o rio Durius (h. Doiro) foi também diviniza- 
do; e igual conclusão se tem tirado a respeito do rio Tâmega, por 
causa de uma inscripção consagrada ao deus Tameobrio ou Tameo- 
brigo. 

Se em relação aos rios, os factos que apresentei são em parte hy- 



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CURSO DK LÍNGUÁ PORTUUUtíjáÀ AHCHAICA 



potheticos, temos, em relação ás aguas thermaes de Vizella, um facto 
positivo, pois cTessa região possuímos inscripções da epocha romana 
consagradas ao deus Bormanico, que era um deus tutelar d'ellas. Este 
culto foi posteriormente, como creio, romanizado, pois ha outra inscri- 
pção de Vizella em que figurão vários deuses de procedência romana, 
entre os quaes Esculápio, deus também da saúde; tal inscripção é 
verdadeiramente paníhea. 

Quem rebuscar nas lendas da Igreja, e nas tradições populares, 
encontrará muitos e muitos vestigios do culto pagão das fontes. A 
inscripção de Bencatel, a que me referi ha pouco, dedicada a Fonta- 
nus e Fontana, com quanto de procedência romana, revela, quanto a 
mim, um culto pre-romano alli localizado ; esta inscripção èpro salute, 
e por tanto aquelles deuses entrão na categoria dos deuses tópicos 
curandeiros, que erão muito numerosos na Lusitânia. 

Depois do culto das águas fallarei do da terra. Segundo uma no- 
ticia dada por Justino, que, como se sabe, resumiu Pompeu Trogo, ha- 
via nos confins da Gallaecia um monte santo, a propósito do qual o 
povo tinha várias superstições, em parte ligadas com as trovoadas. 
Ao mesmo tempo que os AA. nos fallão do Promontório da Lua, a 
que acima me referi, fallão também do Monte da Lua, que era, como 
se julga, a Serra de Sintra ou Cintra, onde a lua devia ter um^culto. 
Denominações análogas se encontrão na geographia de outros povos, 
por exemplo Mons Sacer na Itália, Mons Veneris na Hespanha. O 
nosso onomástico offerece também exemplos de antigos cultos, como 
Monsanto, serra aqui mesmo ao pé de Lisboa, e por tanto não longe 
do Monte da Lua, a ser exacta a identificação indicada acima; tam- 
bém se hão dado os nomes Monção e Buçaco como equivalentes de 
Monte santo e Monte sacro, mas taes equivalências não se podem ad- 
mittir, por estarem em desaccôrdo com a phonetica. Tenho algumas 
razões para poder relacionar com os cultos chtonicos o deus Endovel- 
lico, que tinha um fanum venerabilissimo no alto de um monte, ao pé 
de Terena, no Alemtejo. 

As inscripções latinas da epocha romana ministrão muitos nomes 
de deuses pertencentes á região de que mò estou occupando; infeliz- 
mente grande parte dos nomes são de leitura duvidosa. Outros, de lei- 
tura certa, como Bandua, Nabia, Edovius, Aernus, Coronus, Cusune- 
neoecus, Durbediais, são porém de caracter desconhecido, ou pelo me- 
nos muito incerto. Tanto em alguns de taes nomes, como nos outros 
de leitura duvidosa, observa-se um facto philologico curioso, que logo 
tornarei a lembrar, e vera a ser a frequência do suffixo -aecus, com as 
suas variantes -ecus e -aegus. 

Fallando dos povos montanheses ao N. do Tagus, na Lusitânia, 
diz Estrabão que elles veneravão o deus Ares. Este nome grego en- 
cobre-nos aqui um deus indígena da guerra, o que realmente convém 
a povos guerreiros como erão os Lusitanos. Talvez deus da guerra 
seja também aquelle a quem é consagrada uma ara que está no Mu- 
seu do Carmo, em Lisboa, e cujo nome, segundo a minha leitura, é 



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38 



ÉttVlSTÁ LUSlf AKA 



Ârus. A' mesma classe pertencerá ainda a figura representada no fra- 
gmento de uma patera de prata achada ha annos no concelho da 
Maia, e onde o nomo do deus parece começar por SAVR. . . . Quando 
os Romanos introduzirão a sua religião nas Hispanias, derão-se os 
seguintes factos: ou os deuses indígenas fleárão com os nomes que ti- 
nhão, como se vê em todos os nomes bárbaros que citei ; ou os nomes 
romanos se substituirão aos indígenas, como creio succedeu com 
Fontanus-Fontana e com os da inseri pção panthea de Vizella; ou os 
nomes romanos forão collocados ao lado dos das divindades indígenas. 
l)'este ultimo caso ha uma inscripção curiosa em que se lê Cososo deo 
Marti suo, onde, se a leitura está boa, Cososo parece representar ou- 
tro deus da guerra. 

Não menos notável também é a dea Adaegina Turibrigensvi 
Prosérpina-, que tinha o seu culto na zona geographica do rio Ana. 
Era uma divindade tópica identificada com Prosérpina; numa inscri- 
pção d'ella parece haver o vestígio de uma devotio ou maldicção. 

Devo mencionar neste logar várias classes de divindades, que, 
por causa talvez do seu caracter vago e indefinido, forão pelos Ro- 
manos assimiladas aos Lares, aos Génios, etc., isto é, ás divindades 
inferiores do seu Pantheon. Temos por exemplo, entre as primeiras, 
os Lfcres Cerenaeci, L. Ceceaeci, L. * Cusicelenses, L. Turolici, L. 
*Pindanetid, etc. Como os diversos suffixos dos nomes bárbaros o 
dão a entender, todos estes Lares erão provavelmente deuses tópicos, 
— deuses protectores de localidades ou povos. Ha também uma in- 
scripçâo consagrada aos deuses Lares da gentilidade dos Gapeticos. 
As inseri pções oiFerecem-nos ainda os Lares vkorum. — Uma classe 
vizinha dos Lares tópicos são os Génios: uma inscripção menciona 
por exemplo um Genius munmpu; outra um Génio dos (L)oncobri- 
censes. A's vezes porém será difrteil distinguir, em certas inscripçoes 
de significação vaga, quaes as divindades meramente indigenas c 
quaes as romanas. — Uma inscripção da Tarraconensc, onde se lê La- 
ribus et (Tu)telae génio l(ociJ), é mais um argumento a favor da 
identificação que acima fiz dos Lares com as divindades tópicas. 

São bastante frequentes nos paises célticos umas divindades se- 
cundarias chamadas nas inscripçoes Matrcs, Matrae, etc. Pelos seus 
attributos, ellas devem eonsiderar-se como deusas campestres, mas o 
seu poder cstendia-sc ás vezes a uma cidade, a uma região, etc. Nesta 
faxa do occidente da península hispano-lusitanica apparecem-nos ellas 
como protectoras de um vasto território, pois existe uma inscripção 
consagrada ás Mães Gallcga*, — Malribus Gallaeás. 

Tão vagos erão para os próprios Romanos os scuf Génios, que 
em certas fórmulas se dizia Sive deus sive dea, sive mas sive femina; 
também numa inscripção de Portugal se lê simplesmente Dls Dea- 
busq( lie) Coniumbric(ensibus). 

Estas classes de divindades locaes, que receberão tanta vida da 
parte dos Romanos, mantiverão-se até hoje na tradição popular. To- 
das as terras tem um santo padroeiro, que é o representante do ge- 



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dUÍtòO 1>E LÍNGUA l^OttTCtfUtíSÁ ÁttCHAlCÁ 



39 



nitis hei; ás vezes dá-se o caso de, ao lado do santo, existir também 
nma tradição pagã, annexa a uma figura de pedra, que, segundo o 
povo, symboliza a povoação. 

b) Formas do culto. 

Em relação a templos, já acima me referi ao fanum de Endo- 
vellico, que ficava distante da povoação a que pertencia; como os 
d'este não conheço outros vestígios na nossa archeologia. Logar sa- 
grado parece que era também Panoias, perto de Villa-Real de Tras- 
os-Montes, onde existem ainda muitas inscripções, etc. 

Uma aedkula muito interessante conserva-se em Braga no t Quin- 
tal do Idro» (i. é, ídolo), dentro de um tanque; mas, graças á incúria 
indígena, está prestes a perder-se! Nas inscripções de Endovellico 
falla-se também dé ura aededum, palavra que é, sem duvida, synonima 
de aediculum ou aedicida. 

Os povos pre-romanos da Lusitânia tinhão pouca tendência para 
representar os seus deuses por imagens : d'ahi vem o dizer Estrabão 
que os Gallaecos não tinhão deuses, quando elle queria dizer sòmente, 
segundo o meu entender, que não tinhão idolos; de outro modo as pa- 
lavras do geographo estavão em desaccôrdo com os facto^, pois existe 
nas inscripções da Gallaecia menção de muitos deuses. 

Sob a influencia principalmente dos Romanos, consagravão-se aos 
nossos deuses oferendas ou donaria, que consistião em aras, estatue- 
tas, figuras de animaes, etc. ; as aras sobretudo são muito numerosas. 
Ainda hoje nas aldeias, e mesmo nas cidades, certos santuários de de- 
t^ção estão cheios de ex-votos, — painéis, figuras de cêra, de madeira 
ou de prata, tranças de cabello, etc. 

Segundo as noticias transmittidas pelos AA. antigos, os Lusita- 
nos em alguns pontos fazião sacrifícios humanos; de sacrifícios de 
animaes também temos noticia, e esses devião ser mais vulgares; Es- 
trabão falia mesmo de hecatombes. 

Nos túmulos era costume gravar symbolos, como o suástica, e 
collocar estatuas de guerreiros ou de animaes; estes tinhão certa- 
mente caracter sagrado, sendo talvez como que uma espécie de totens 
das tribus. 

c) Sacerdócio. 

O homem nem sempre se dirige á divindade directamente; ás 
vezes recorre a terceira pessoa, que é o sacerdote. De sacerdotes lu- 
sitanos temos escassas notícias. Estrabão falia de haruspices que 
observavão as víctimas com o fim de tirarem presagios. Ha ainda ou- 
tras passagens referentes á adivinhação por meio das chammas e das 
aves. Junto do fanum de Endovellico é provável que houvesse somnio- 
rum interpretes, pois das inscripções consta que os doentes que invo- 
cavão o deus se regulavão por sonhos que este lhes enviava. Também 
Suetonio conta que na Cantábria, alem de um sacerdote de Juppiter, 
que interpretava os oráculos do deus, havia uma fatídica puella, 



4o 



kKVlbTA LUSITANA 



que eui certa circumstancia annunciou um prodígio; prophetizas se- 
melhantes teríamos nós também na Lusitânia, a julgar por analogia. 
São por ventura outra cousa as modernas t mulheres de virtude»? 
Não devemos considerar os sacerdotes da Lusitânia, pelo menos os 
das tribus mais barbaras, senão como tim mixto de nevropathas, cu- 
rôes e impostores: os adivinhos e bentos modernos podem dar uma 
ideia d'ellcs. 

Vê-se, em resumo, que a religião depende das variedades do meio 
e do grau de civilização: sanguinária nas tribus mais guerreiras; 
chtonica nas montanhas; aquática junto das fontes e dos rios; sideral, 
etc. á beira-mar. Como desenvolvimento de concepções naturalísticas 
primitivas, as divindades são em grande parte tópicas, e attribue-se- 
lhes era especial o poder de curar doenças. 

Apesar de eu desejar ser breve, dei a este ponto mais desenvol- 
vimento do que d que bastava para o meu fim; é que eu tinha predi- 
lecção por elle. 



Para cômpletar o assumpto devia ainda fallar de muitos outros 
factos da vida dos Lusitanos, taes como as suas armaduras, os seus 
festins, os seus meios de commercio, o seu modo de trajar, a sua me- 
dicina, as suas leis, etc, mas tudo isso me levaria muito longe, e eu 
teria de fatigar por muitas horas a attenção d'aquelles que me dão a 
honra de me ouvir. 

IJI. — Epocha histórica (luso-romana). 

Passarei agora a occupar-me da romanização da Lusitânia, do 
que direi pouco, já por falta de tempo, já por isso serem factos mais 
conhecidos do todos. 

Como vimos, os últimos povos, cm data, que tinhão vindo para a 
península antes dos Romanos forão os Carthagineses. No anno de 228 
A. C. fizprão os Romanos com os Carthagineses um tratado em que 
estes se obrigavão a não passar o Ebro. Sagunto, cidade Romanis 
arnica, foi porém no anno de 219 accomettida por Annibal, general 
carthaginês; apesar de os Romanos o intimarem para que se absti- 
vesse da guerra, e de mandarem embaixadores a Carthago, a cidade 
foi tomada, e os Saguntinos recebêrão de Annibal os maiores tormen- 
tos. Em virtude d'isto marchou para a Hispânia no anno de 218 Cn. 
Cornélio Scipião, a quem posteriormente veiu juntar-se seu irmão 
Publio. A principio os Romanos derrotárão os seus inimigos, mas a 
final os dois Scipiões forão mortos, vindo para cá depois P. Cornélio 
Scipiâo-junior, que tomou Carthagena com ouro e muitos reféns, pren- 
deu o carthaginês Mágon, irmão de Hásdrubal, restituiu ás famílias 
hispânicas os prisioneiros que cstavão cm poder dos Carthagineses, 
e venceu e afugentou Hásdrubal. E' com estes feitos de Scipião que 



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OURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARO HA IC A 



propriamente começa na península o domínio romano: «quare oinnes 
fere Uispaniae uno animo ad eum transierunt». 

Depois os Romanos continuarão na sua obra de conquista, que 
não se realizou de uma vez, mas lentamente, e ás vezes com muita 
resistência dos povos de cá, apesar do texto que acabei de citar. Até 
197 a Hispânia continuou em estado de guerra; nesse anno foi divi- 
dida em Ulterior e Citerior, cada uma governada por seu pretor. O 
território que hoje constituo Portugal e Galliza pertencia á Ulterior. 

Em 150, em virtude de uma perfídia do procônsul Sergio Sulpi- 
cio Galba, forão mortos muitos mil Lusitanos: isto exaltou os ânimos 
dos povos, que, commandados por Viriato, começárão a guerrear gran- 
demente os Romanos (150-140). Em 140 Viriato fez as pazes com o 
procônsul Fabio Serviliano para salvar o exército doeste; mas no 
mesmo anno o procônsul Servilio Caepio, successor de Serviliano, re- 
começou a guerra na Hispânia Ulterior, e fez que Viriato fosse as- 
sassinado á traição. Viriato, que, no dizer de Floro, passou de caça- 
dor a salteador e de salteador a general, tornou-se assim um symbolo 
da independência nacional, e da sua tradição heróica proveiu, por in- 
fluencia da erudição da Renascença, uma fonte de lendas, que tem, 
nos tempos posteriores, passado como verdades históricas. 

Em 138-137 Décio Junio Bruto venceu os Callaicos; á memoria 
d'este general andão ligadas várias tradições curiosas. 

Em 134 Scipiâo o Africano-junior foi nomeado para a Hispânia; 
tomou Numancia, conquistando definitivamente o centro da península. 

Roma não deixou de continuar a mandar generaes e funeciona- 
rios. Por causa das contínuas oppressões, os Lusitanos pedirão o au- 
xilio de Sertório, que já tinha estado na península. De Sertório dei- 
xou-nos Plutarcho uma interessante biographia, que contribuiu para 
que depois do sec. xvi, sob o influxo dos nossos eruditos, se originas- 
sem algumas lendas, d'esta vez localizadas em Évora. Metello Pio 
combateu Sertório com pouca felicidade. Em 77 veiu Perpenna com 
certo número de cohortes combater ás ordens de Sertório; a inveja, 
que é inseparável das acções humanas, e que ás vezes corroe mesmo 
a alma dos mais fortes, foi a causa de que Perpenna assassinasse 
Sertório, por occasião de um festim; em breve porém Pompeu o ven- 
ceu e matou. 

Em 60 Julio Cesar submetteu os Lusitanos, ao N. do Tagus, fa- 
zendo-os tributários. Em 55 Cn. Pompeu Magno obteve as duas His- 
panias, e a península tornou-se o theatro da lucta entre Cesar e Pom- 
peu, lucta formidável e longa, que só terminou com a batalha de 
Munda, em que Cesar levou a palma aos filhos de Pompeu. 

Com a vinda de Augusto, que subjugou os Cantabros, victória a 
que Horácio allude nas suas odes, ficou assegurada a paz na penín- 
sula durante muito tempo. Este facto marca uma era notável na his- 
toria das Hispanias. 

Depois a península foi dividida em tres províncias: Tarraconen- 
se, Betica e Lusitânia; a primeira e a ultima a cargo do imperador, 



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fcKVlSTA LUSITANA 



a segunda a cargo do senado. Os governadores das províncias sena- 
toriaes erão pro cônsules; os das imperiaes legati Augusti As provín- 
cias dividião-se em certas circumscripções denominadas conventus. 
A Lusitânia romana comprchendia os conventus emeritense (Eme- 
rita), pacense (Pax Julia), escallabitano (Scallabis, h. Santarém). O 
território da nossa Bracara Augusta constituia também o conventus 
hracaraugustanus, mas este pertencia á Tarraconense. Havia alem 
disso colónias, municípios, etc. As fórmas da organização politica va- 
riárão bastante, segundo as epocbas. 

Os Romanos iinpuscrão a sua magnifica civilização á península; 
d'ella innumeros restos materiaes existem ainda em toda a parte, 
tanto em Portugal como na Hespanha. Esta imposição foi lenta; um 
dos meios pelos quaes ella se operou foi pela fusão com os indigenas. 
Tal fusão observa-se por exemplo: nos castros, onde a civilização ro- 
mana coexiste a par da indígena; nas denominações das divindades e 
das terras, pois a um nome peninsular junta-sc ás vezes um latino, 
como em Adaegina Proseririna, Bracara Augusta; nas fórmas do culto 
religioso; nas inseri pçoes bilingues dos cippos e das moedas, etc. 

O Sul e o Oriente forâo os pontos romanizados primeiro: assim 
a Lusitânia meridional offerece-nos já desde o sec. i, como vimos, um 
aspecto inteiramente romano, ao passo que ainda nos séculos n e m 
o interior e o Norte da península tem cunho indígena, revelado em 
muitas particularidades. A romanização completa pôde datar-se do 
sec. in. 

Ainda hoje o Norte e o Sul de Portugal divergem bastante: o 
Sul tem mais uniformidade entre si do que o Norte (Entre-Douro-e- 
Minho e Tras-os-Montes) ; a Beira constitue um meio-termo. Isto obe- 
decç principalmente ás condições geographicas: o Norte, com as suas 
montanhas e os seus valles fundos, delimitados por numerosos rios, 
tem tendência pafa o status in quo; o Sul, com o seu clima suave, a 
sua boa posição á beira-mar. mais perto dos grandes centros civiliza- 
dos da antiguidade, attrahiu desde muito cedo viajantes e povos na- 
vegadores. 

Foi sobre o paganismo luso-romano que se implantou o christia- 
nismo; dos municipios romanos provém os nossos concelhos. A acção 
de Roma foi grandiosa, profunda; mas nem tudo quanto havia antes 
d'ella se extinguiu: os costumes, o onomástico, as tradições, o léxico, 
etc, ahi estão constantemente a attestar persistências antigas. 



O facto mais importante da acção romana que me importa agora 
notar é o da propagação do latim. 

Como os povos pre-romanos erão muitos, várias devião ser tam- 
bém as línguas indigenas cá falladas. D'estas línguas temos notícias 
dadas pelos AA., e d'ellas nos rcstão também alguns vestígios no 



III 



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CUESO DÊ LINGtfA POETUG0ESA ARCHAÍCA 



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onomástico. Sem fallar do phenicio e de outras línguas das colónias 
históricas, pode admittir-se que havia na península pelo menos duas 
classes de línguas nacionaes: a céltica, que tinha muita extensão; e 
o proto-basco, ou aquella de quê o basco moderno é representante. 

Com a implantação da civilização romana, desapparecêrão todas 
as línguas da península, exceptuando o proto-basco. Seja qual for a 
explicação do phenomeno, elle é innegavel. O texto de Estrabão, a 
que ha pouco me referi, em relação á substituição da língua turde- 
tana pela latina, não soffre dúvidas; alem disso, de certa epocha em 
deante, os AA. latinos deixão de se referir ás línguas indígenas : se 
algumas havia, como o proto-basco, estavão circumscriptas. As legen- 
das das moedas, a princípio em caracteres locaes, vão também a pouco 
e pouco sendo escritas com caracteres romanos. As inscripções em 
língua latina enxameião todo o território peninsular. Ora, se o latim 
toma tamanho predomínio, o que coincide com o predomínio da civi- 
lização geral romana, e se depois dos Romanos não veiu mais povo 
nenhum cuja lingua pudesse ter produzido o português e o hespanhol, 
bastavão as simples considerações históricas, para fazer suspeitar que 
estas línguas modernas tem origem no latim. Mas a glottologia prova 
esse. facto coma 2 -(-2 = 4. No decurso d'estas lições veremos isso 
em relação ao português. 

O latim fallado pelo povo romano tem na sciencia, entre outros, 
o nome de latim vulgar. Este latim é-nos conhecido pelas cacogra- 
phias das inscripções, pelas informações dos grammaticos e outros 
AA., pela anályse das línguas românicas. Ha trabalhos scientificos 
sobre elle, como os de Schuchardt, Corssen, Grõber, etc. Com o tem- 
po, o latim vulgar differença-se cada vez mais da lingua escrita. Nas 
diversas províncias do império constituem-se assim variedades diale- 
ctas, que, comquanto sejão ainda a princípio latim propriamente dito, 
são porém a base das línguas românicas. E' muito difficil dizer quando 
acaba uma lingua e começa outra que provém d'aquella. As causas 
d'estas variedades do latim vulgar são, por exemplo : a tendência na- 
tural que tem todos os povos para alterar a linguagem; o novo meio; 
as linguas pre-latinas; a deminnição da cultura romana. Pelo que se 
observa na acquisição individual de uma lingua pôde comprehender-se 
como é que um povo poderá também aprender uma nova: assim os 
portugueses, ao principiarem a estudar o francês, o hespanhol e o 
italiano, substituem os sons tt, j e ci respectivamente por iú, g e oci: 
isto é, representão sons exóticos pelos que mais se lhes aproximão 
na lingua materna. As alterações que sem dúvida se davão ao pri- 
meiro contacto dos indígenas com os Romanos, em breve, ao fim de 
algumas gerações, por influencia das crianças, que estão aptas para 
aprender qualquer lingua, deixavão de se dar, e os povos indigenas 
achavão-se por assim dizer insensivelmente a fallar latim. 

Os plebeísmos ministrados pelas inscripções romanas da Lusitâ- 
nia não são em geral próprios nossos, apparecem noutras partes; to- 
davia alguma particularidade podem ter. Eis alguns exemplos epigra- 



44 



REVISTA LUSITANA 



phicos para amostra: na phonetica, — olmpone&is, ara (por aram), 
vota (por votum), Cladius, quot, Vernada, Primitios (por Primitivus), 
bivit, conlabsos, Ninpae (por Nt/mpJme); na inorphologia, — hic moni- 
mentté8 (onde se vê o género nentro substituído pelo masculino, facto 
que se tornou geral) ; no léxico, — lama, aedeolum. Quem fazia as in- 
scripções tinha de ordinário alguma cultura, por isso não está sempre 
nellas a lingua genuína do povo; assim como, na escrita, a um erro 
de orthographia chamamos lapsus calami, podíamos dar um nome se- 
melhante aos jJescuidos e incorrecções dos canteiros. Quando a evo- 
lução do latim vulgar da Lusitânia, se adcantou em extremo, tor- 
nou-se latim lusitanico propriamente dito. 



O latim lusitanico é a base do português prehktorico, que nós 
poderemos apreciar quasi só por inducção. As Inscripções christãs- 
latinas, do sec. v em deante, poucos elementos dão para a glottologia. 

A evolução do latim lusitanico e do português pre-historico não 
se fez entregue só a si mesma, e sob as causas que indiquei acima. 
Primeiro sentiu-se nella a influencia das línguas dos Bárbaros e a in- 
fluencia litteraria da Igreja e das escholas; depois, em seguida ao 
sec. vm, a influencia do vocabulário árabe. Outras influencias se ma- 
nifestárão posteriormente. E' por isso que, na anályse etymologica 
dos vocábulos, achamos uns obedecendo a umas leis, outros obede- 
cendo a outras: isto resulta de que cada um dos grupos provém de 
sua epocha ou de sua região, e não de que haja derogação das leis 
phoneticas. Assim o latim macula deu de um lado rnaVia e mancha, 
e do outro lado mágoa e macula. 

Do sec. ix em deante restão-nos muitos documentos em latim 
bárbaro, por meio dos quacs podemos apreciar o estado da nossa lin- 
gua. E' á lingua, que vae d'essa epocha até o sec. xii, ou um pouco 
adeante, que chamo português protohistorico. O latim bárbaro era 
a lingua em que se escrevia na idade média: mistura de formas lati- 
nas com fórmas romances, formas romances alatinadas, formas latinas 
romançadas. A sua barbárie ou a sua relativa correcção dependia do 
grau de instrucção do clérigo, do notário ou do curioso que o escre- 
via. Nos documentos monásticos da Terra da Maia é que parece que 
se encontrão barbarismos em maior numero. O latim bárbaro, apesar 
da sua barbárie, não se deve ainda assim suppôr sempre uma lingua 
completamente artificial e irregular. Elie não era um producto isola- 
do : era obra de umas poucas gerações ; por tanto obedece em parte a 
algumas leis. Certas fórmas tornárão-se tradicionaes, e, com quanto á 
primeira vista pareção representar a influencia da phonetica local, 
ellas encontrão-se não só no latim bárbaro de Portugal, mas no de 
outras nações. 

Não se deve confundir o latim bárbaro com o baixo-latim e o la- 
tim vulgar. O latim bárbaro (empregado nos documentos, etc.) é uma 



IV 



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CtJBSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA 



45 



lingua puramente escrita, não fallada, mas onde a influencia românica 
é, como disse, muito pronunciada, o que faz d'elle uma lingua sui ge- 
nerisj o baixo-latim é a ultima degeneração da lingua litteraria, e 
serve ainda de instrumento á litteratura da decadência; o latim vul- 
gar é uma lingua viva, orgânica. 

Do sec. xn temos já documentos escritos em português. Estão 
publicados alguns, mas com incorrecções. Eu descobri um, ainda iné- 
dito, que publicarei a seu tempo. Desde que a lingua portuguesa co- 
meçou a escrever-se, estabeleceu-se uma tradição litteraria, e distin- 
guírão-se na lingua duas correntes: a corrente popular, que existia já 
antes, e a corrente litteraria ou erudita,- que appareceu então clara- 
mente pela primeira vez. Elevada á altura de lingua nacional, e ao 
mesmo tempo de lingua litteraria, o português recebeu da parte dos 
escritores a nobre qualificação de dinguu ladinlia*, como quem dis- 
sesse «lingua derivada do latim*, — expressão que encontrei, por 
exemplo, num manuscrito do sec. xv. Tenho, pois, de me occupar se- 
paradamente dos dois aspectos ou phases da lingua: lingua litteraria 
(escrita), e lingua popular (oral). 

O gallego e o português constituião a principio uma só lingua, 
mais ou menos uniforme; depois do reconhecimento official da auto- 
nomia de Portugal, a lingua de cá e a de lá forão scparando-se gra- 
dualmente, mas não tanto, que o parentesco intimo não seja ainda 
hoje reconhecido sem custo. Em virtude de considerações que fiz nou- 
tra parte, o gallego deve entrar na carta dialectologica portuguesa 
como um co-dialecto. 

1. Lingua litteraria. 

A nossa lingua litteraria admitte duas grandes divisões geraes: 
lingua archaica e lingua moderna. A lingua litteraria archaica começa 
no sec. xu e dura até o sec. xvi, podendo Gil Vicente e Sá de Miran- 
da, por exemplo, estabelecer a transição d'ella para a lingua littera- 
ria moderna, que dura por tanto desde aquella data até hoje. A lingua 
archaica admitte sub-divisões, conforme os períodos, mas não me é 
possivel agora neste logar indicá-las. 

Muitos caracteres distinguem a lingua archaica da moderna, uns 
puramente grammaticaes, outros de léxico, porque muitas palavras 
usadas outr'ora desapparecêrão da circulação. Como caracteres pho- 
neticos temos por exemplo: a distineção entre s e ç, e entre s inter- 
vocalico e z; a diferença entre ch e x; o uso de -om pelo moderno 
-ão em formas da 3.* declinação, como sermom, açom, e nas termina- 
ções verbaes como prometerom, começarom, quiseram, onde em latim 
havia -unt; temos o hiato entre vogaes que depois se contrahírão, 
como caente, maestre, creer, poboo, geeral, phenomeno de que ainda 
hoje se mantém vestígios na pronúncia vulgar; temos a manutenção 
de nasaes em casos em que posteriormente desapparecêrão ou dérão 
origem a novos sons, como pfor, pessõa, vto, testpmõya, Edõya (h. Ida* 



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46 REVISTA LUSITANA 

í 



nka); temos grupos de eo e ea, onde o e, por ser tónico e pre-voca- 
lico, se ditongou posteriormente, como creo, meo, cea, hoje creio, meio, 
ceia; temos a terminação -vil ou -bil por -vel, como razoavU e em Ca- 
mões ainda terribã, onde talvez influísse o latim terribilis. Como ca- 
racteres morphologicos notarei: nos verbos as terminações -ades, 
edes, -ides, -ade, -ede, -ide, como atnades, devedes, fugides, etc., termi- 
nações ainda conservadas hoje em formas em que o d é precedido de 
nasal, ou que, com a suppressão do d, se confundiriáo com outras, 
como vindes, vedes, sede, poude, ide (não obstante ler-se irvos nos 
quinhentistas); notarei um participio em -udo da 2/ conjugação, 
como recebudo, tendo, ainda hoje representado no substantho com- 
mum conteúdo e no nome próprio Temudo, quo é erro escrever com 
h; notarei fórmas verbaes avulsas como sia (h. era), estê (h. esteja), 
fezeste, pugi, querría (quereria), os participios do presente em -nie, 
como amante (por amando), de que a expressão moderna «tirante isto» 
etc., conserva vestígio; notarei o género masculino dos nomes ter- 
minados em -agem, como linhagem, linguagem, ainda mantido agora 
em personagem, palavra que também pode ser feminina; notarei os 
adjectivos uniformes em -es, como português, ainda mantido no 
adverbio portuguesmente, em vez de portttgiiesamente, segundo a regra 
geral; notarei os nomes em -or, como senhor, também uniformes, 
como em mia senhor, no Cancioneiro da Vaticana; notarei o plural ra- 
zoains de razoavd, etc. etc. Como caracteres syntacticos temos, por 
exemplo, a variabilidade do participio na conjugação periphrastica, 
como em aver jurada, e o pleonasmo da negação em «ninguém não 
levar». A menção do léxico archaíco não teria fim. 

Em virtude das influencias sociaes, a lingua é constantemente 
enriquecida de vocábulos, o que ás vezes porém lhe altera a feição. 

Tem-se attribuido grande importância á acção dos Franceses na 
occasião da constituição da monarchia portuguesa; esta importância 
é exaggerada, todavia na nossa lingua ha palavras de origem fran- 
cesa muito antigas, como chapéu, charrua, framboesa, etc., e na litte- 
ratura dos Cancioneiros também se nótão palavras povençaes. 

Com as traducções do latim, que começárão muito cedo, e que 
ti verão muito fervor nos sec. xiv e xv, introduzirão-se muitos latinis- 
mos no português: o que foi devido á necessidade de representar as 
novas ideias (por exemplo certas ideias abstractas) por palavras no- 
vas, mas para o que também concorreu o luxo da erudição e a com- 
modidade de quem escrevia. Palavras taes como politica, tíieologal, não 
podião de modo algum ter origem popular. Aqui está uma razão de 
a lingua apresentar fórmas que obedecem a leis diversas, e fórmas di- 
vergentes: assim em nedeo e nítido, ambas do latim nitidus, temos 
duas epochas da historia da lingua muito distantes uma da outra. 

No sec. xvi a influencia dos eruditos, que como que alatinarão a 
lingua, foi extraordinária. Esta influencia manifestou-se de varias ma- 
neiras: introduzindo-se vocábulos e construcçõcs novas; fazendo-se 
retomar uma fórma mais latina a palavras que já a tinhão perdido 



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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA 



47 



com a evolução natural da lingua, do que resultou que, por exemplo, 
em vez dos vocábulos archaicos zeo, iffante, meor, etc. tenhamos hoje 
zelo, infante, menor, etc ; alterando-se a orthographia, e não raro con- 
comitantemente a pronúncia, havendo, em virtude do primeiro facto, 
AA. que em logar de esse, escrever, paciência, constância, reino, escre- 
vião epse, escrepver, pacientia, constantia, regno ! Assim a Igreja e a 
litteratura influião muito. Quanto mais auctoridade tinhâo os AA., 
mais profunda era a acção d'eíles. Do vocabulário camoniano, etc. se fi- 
zerão já listas. Ao mesmo tempo que a influencia se dava na gram- 
matica e no léxico, dava-se também no estylo. 

Uma lingua que desde muito cedo tem influído na nossa é a hes- 
panhola. Muitos vocábulos vem por intermédio dos dialectos da raia. 
Também se não ha-de esquecer a influencia da litteratura, do sec. xv 
ao xvn, tendo, como tivemos nos sec. xvi eocvn tantos AA. que escre- 
verão em hespanhol. 

Por causa das conquistas dos portugueses nos paises extra-euro- 
pêus, a nossa lingua enriqueceu-se igualmente. Com as novas raças, 
cujo sangue veiu misturar-se ao nosso, e com os novos productos ar- 
tísticos e naturaes, vierão também novos vocábulos. 

No sec. xvi a lingua apparece-nos já quasi como hoje: isto re- 
sulta, em parte da evolução natural ; em parte da influencia dos erudi- 
tos, influencia que não tem cessado até hoje, pois que, num país pe- 
queno como o nosso, a acção da lingua litteraria na popular é muito sen- 
sível. Os graramaticos não exercerão acção evidente : basta notar que 
a primeira grammatica, que ó a de Fernão de Oliveira, nunca teve 
2.* edição, senão neste século, c como curiosidade bibliographica; da 
segunda grammatica, que é a de João de Barros, só se fez 2. a edição 
no sec. passado. No sec. xvi ha ainda formas como liía, algiía, bua, 
mi, moura, que toda a gente conhece de Camões. 

No sec. xvn a litteratura esteve em grande decadência; mas não 
devemos suppor por isso que a lingua soffreu muito, pois são coisas 
differentes o estylo e a grammatica. Neste século introduzem-se po- 
rém bastantes gallicismos, por causa das guerras de D. João iv, em 
que os franceses lhe prestárão auxilio. Nos séculos seguintes, em que 
as nossas relações intellectuaes com a França forão tão assignaladas, 
maior tem sido a acção do francês, o que tanto no sec. xvm como 
no xix tem motivado reparos e censuras da parte dos escritores ver- 
náculos e dos patriotas. EfFectivamente é uma falta de dignidade mas- 
cavar de propósito a lingua com estrangeirismos desnecessários. 

No sec. xvm os escritores tentão, no estylo, imitar o classicismo 
quinhentista; a lingua propriamente dita é com leve differença como 
a de hoje; a própria orthographia aproxima-se bastante da actual. 
Por influencia do theatro introduzírão-se no nosso vocabulário alguns 
italianísmos. O desenvolvimento das sciencias physico-naturaes e ma- 
thematicas contribue para o augmento do léxico (grecismos, etc); 
ésta influencia vinha porém já de longe, pois desde o sec. xyi que pos- 
suímos litteratura scientifica. 



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fcKVISTA LUSITANA 



No léxico da lingua moderna é cada vez mais pronunciada a in- 
fluencia do francês; do inglês também recebemos certa quota; as ou- 
tras línguas modernas influem menos. Não se pôde negar alguma 
acção do estylo francês no nosso; sem fallar dos exaggeros dos ro- 
mancistas da eschola realista, por toda a parte se vê que a nossa 
lingua vae perdendo aquella amplidão de phrase, aquella complexi- 
dade syntactica, que caraterizavão um Barros ou um Àrráiz. Sem 
embargo, já no sec. xvn Antonio VieSra usava e abusava do es- 
tylo cortado e symetrico. No verso tornárão-se hoje intoleráveis cer- 
tos vocábulos que ainda nos árcades tinhão voga, como natura, Ím- 
pio, e os adjectivos em -ace, -oce (fugace, atrocej, etc. ; formas mesmas 
como 8oidão e perla, ainda usadas por Garrett, raro as empregará um 
poeta actual, O estylo poético adquire cada vez mais a naturalidade 
da prosa. O jornalismo, com a sua litteratura ligeira, e o theatro, 
com a sua pronúncia afectada, contribuem bastante para a alteração 
da lingua. Aqui em Lisboa é frequente ouvir dizer êrôi (heroe) e 
mi-nis-tro, porque assim se diz no theatro de D. Maria, quando a pro- 
núncia normal d^quellas palavras é irói e menistro. A orthographia 
é que levou os cómicos àquellcs erros. E' também por influencia da 
orthographia que se diz Catharina em vez de Caílierina (Cath'riva), 
orthographia e pronúncia antigas, como bem o mostra o anagramma 
Nathercia. 

2. Lingua popiãar. 

Ha razões para crer que a lingua não foi formada no Norte, e 
depois propagada para o Sul com a reconquista do território aos Ára- 
bes. De facto o latim estava por toda a parte, e os Árabes erão to- 
lerantes para permittirem o uso do romanço. Que no Sul, antes das 
conquistas de D. Alfonso Henriquez, se fallava já português e não 
hespanhol infere-se do onomástico, como Tejo e Lisbõa^qnQ obedecem 
á phonetica portuguesa e não á hespanhola; vocábulos, como indés e 
caivêra, usados nos dialetos do Sul, não pódem ter provindo de vocá- 
bulos análogos do Norte, o que parece levar a concluir que elles se 
formárão directamente do latim local. Uma excepção notável é a pa- 
lavra Mértola, que, devendo vir de uma fórma *Mirtula, mantém o l 
contrariamente ás leis da lingua portuguesa; mas essa palavra, como 
Mértola fica na raia, pôde explicar-se por intermédio de um antigo 
dialecto raiano de transição. 

A lingua antiga constituía dialectos segundo as regiões. O nosso 
conhecimento dos dialectos antigos é restricto. Gil Vicente é o auctor 
que melhor representa a lingua popular do sec. xvi; Sá de Miranda 
e outros AA. ministrão-nos também alguns dados. Anteriormente ao 
sec. xvi podemos colhêr elementos nos documentos latino-barbaros o 
noutros. Do sec. xvn em deante podemos utilitar os orthographos, 
que, ao passo que condemnão as formas populares, as vão enumeran- 
do, e podemos utilizar a litteratura de cordel e os diálogos popula- 
res introduzidos pelos AA. dramáticos etc. nas suas obras. Já alguns 



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CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA ARCHAICA 



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AA. antigos estabelecem diferenciações dialectaes, como Fernão de 
Oliveira no sec. xvi, Viterbo e Argote no sec. xvm. Argote foi o pri- 
meiro que esboçou, embora imperfeitamente, um quadro geral da dia- 
lectologia portuguesa. Ao rebuscar nos documentos, encontra-se por 
exemplo tombro e adernas como formas trasmontana e estreraenha do 
sec. xv; chavádego e molete como fórmas interamnenses do sec. xvi. 

Do sec. xv em deante a lingua portuguesa experimentou uma 
notável expansão, indo constituir alem-mar os dialectos insulanos o 
os ultramarinos (creoulos, etc). No Brazil a própria lingua litteraria 
tomou uma feição especial. 

As relações dos dialectos continentaes modernos com os antigos 
são muito difflceis de apreciar. Aqui referir-me-hei pois sómente aos 
dialectos modernos. 

A linguagem que se falia no país não é uniforme por todo elle. 
Já nos meus opúsculos sobre a Dialectólogia Portuguesa, e na Retnsta 
Lusitana me tenho occupado dos fallares nacionaes, que constituem 
co-dialeetos, dialectos, sub-dialectos e variedades. Os co-dialectos são, 
alem do gallego (fallando na Galliza), o mirandês, o riodonorês e o 
guadramilês. Os dialectos são no Norte o interamnense e trasraontano, 
no Centro o beirão, no Sul o constituido pelos fallares da Estrema- 
dura, Alemtejo (com Olivença, na Hespanha) e Algarve. Os sub-dia- 
lectos e variedades são divisões dos dialectos. Não posso aqui entrar 
em explanações, porque já tenho cansado demasiadamente os meus 
amáveis ouvintes. 

Como noutros paises succede, as variações dialectaes da nossa lin- 
gua correspondem ás variações ethnicas, geographicas, sociaes, etc, 
sem que por ora se possa sempre precisar o grau de dependência em 
que as primeiras estão para com as segundas: assim entre o Tâmega 
e o Corgo falla-se uma linguagem; para lá do Tua falla-se outra; o 
Doiro separa em certos pontos o dialecto beirão do interamnense; no 
Alemtejo, como houve talvez menos grupos ethnicos primitivamente, c 
como ha menos ondulações de terreno, e uma unidade de costumes 
mais pronunciada do que, por exemplo, em Tras-os-Montes, não te- 
nho encontrado tantas variações dialectaes como nesta ultima provín- 
cia, exceptuando a zona comprehendida entre Fundão e Portalegre, 
zona que aliás geographicamente também offerece factos especiaes; 
o vocabulário da gente baixa da capital é muito mais culto do que o 
de qualquer outra terra do país. 

Nunca se estabelece passagem brusca de um dialecto para outro ; 
entre elles fleão linhas de transição, como se observa por exemplo na 
linguagem de Rèsende, que tem phenomenos da Beira e phenomenos 
do Entre-Douro-e-Minho. 

Algumas pessoas podem admirar-se de eu empregar a palavra 
dialectos applicada ás variações da nossa lingua, que são pequenas em 
relação, por exemplo, aos paióis franceses ou suissos e aos dialetti 
italianos; mas, em primeiro logar, a palavra já foi usada por gram- 
maticos do século passado; em segundo logar, a questão não é de 

KKY. lusit., vol. in, fase. 1. 4 



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REVISTA LUSITANA 



grau, é de essência. Ora ha differenças essenciaes das falias de umas 
regiões para outras, differenças que, embora ás vezes possão passar 
despercebidas a certos observadores, são no entanto perfeitamente 
claras para o philologo. Também o vulgo confunde com frequência 
duas rochas, dois metaes ou duas doenças que para um geólogo, um 
mineralogista ou um medico differem por completo entre si. Alem 
d'estas considerações geraes, temos ainda os dialectos gregos, aos 
quaes ninguém, desde a antiguidade, recusou ainda esse nome, e que, 
comtudo, segundo creio, não se afastarão mais uns dos outros do que 
os meus queridos dialectos portugueses l . 



Assim, depois de ter demonstrado aos Srs. a importância do es- 
tudo do português archaico, de os ter levado numa pequena digres- 
são pela antiga Lusitânia, com o fim de lhes expor mais conve- 
nientemente a implantação do latim no nosso território, o de os ter 
feito assistir um momento á origem e expansão histórica do idioma 
que falíamos, resta-me, ao concluir, manifestar os meus ardentíssimos 
desejos de que todos se interessem por estes assumptos, tão novos, 
tão importantes e tão curiosos, embora difficeis, — com o que contri- 
buiremos também, para que, como disse com vehemencia o nosso 
grande poeta e patriota Almeida Garrett: 



i A distribuição dos dialectos do continente português foi mostrada num 
mappa geograpbico manuscrito que fiz de propósito, e que foi o primeiro que se 
fez a respeito dos dialectos de Portuçal. Este mappa esta publico na Chorographia 
de Portugal illustrada, do meu amigo Ferreira Deusdado, Paris 1893, mappa 
correspondente á pag. 16 (texto).— Sobre a classificação dos nossos dialectos vide 
RtvUta Lusitana, i, 191 sqq., e mais recentemente o meu opúsculo Sur le diale- 
cie. portugais de Macao, Lisbonnc 1K92, pag. 5-0. 



Não se acabe 

A lingua, o nome português na terra! 



Disse. 



J. Leite de Vasooncbllos. 



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CIGANOS PORTUGUESES DOS FINS DO SEC. XVI 



CIGANOS PORTUGUESES 

DOS FINS DO SEC. XVI 



Os documentos qae adiante se publicão, relativos uns directa ou- 
tros indirectamente aos ciganos, são copia dos registos dos 24 livros 
das legitimações e perdões da chancellaria de D. Filippo i, conser- 
vados no Real Archivo da Torre do Tombo. 

A orthographia não é alterada, as abreviaturas são desenvolvi- 
das entre parentheses ; tornou-se também necessário empregar a pon- 
tuação quasi abolida pelos escrivães. 

L— Dom Phillippe Etc. faço saber q(ue) João Chachiro, E Mar- 
cos órfão, e An(onio) Fer(nande)z preto, m(orado)res no lugar de ga- 
fete, me enviarão dizer p(er) sua petição, Que jndo hú Mardou 1 
G(onça)l(ve)z, Sebastião Diaz, Cortes e Fr(ancis)co Mendez, siganos, 
é companhia Doutros ao dito* lugar, estando elles pacíficos, E p(or) 
liurare sua faz(end)a do q(ue) lhe vião fazer, p(or) seré Mujtos, 
a Rançarão todos hus contra os outros e da briga sajra ferido na ca- 
beça o Mardou G(onça)l(ve)z, ho sebastião diaz cõ hua pedrada na 
cabeça, eoutra no Rosto, eo mesmo a Cortes. E p(or) seré sãos se 
aleijão ne desformidade, lhe p(er)doarão como constauão dos p(er)dões 
q(ue) apresentauão, pedindome q(ue) ouuese a tudo resp(ei)to, E lhe 
p(er)doase aculpa do caso; e R(eceberi)am M(erce). E visto seu Re- 
q(ue)rim(en)to e hú pareçe cõ hú meu pase, ey p(or) bê e me p(ra)z 
se asy he e mais não ha, De p(er)doar aos sop(lican)tes a culpa do 
ferim(en)to f(ei)to aos çiganos de q(ue) faz menção, v(is)to o q(ue) 
alegão, e p(er)dão Das partes e pagarão cada hú v c reis p(ar)a a pie- 
dade, e p(or) os pagare ao esmoler vos mando Etc. na forma. EIRej 
noso s(enh)or o mandou p(e)los doutores M(elchi)or do Amaral e An- 
t(oni)o da Gama Etc. G(asp)ar Velho a fez e lix(bo)a a xiiij de Março 
De m v° lxxx9. 

(D. Felipe i, Liv. i de Legitimações e perdões, 11. 121). 

H— Dom Fellipe etc. Faço saber que Fr(ancis)co Fer(ei)ra, 
m(orad)or no lugar dallmoster termo da villa de sãtatem, me eraviou 
dizer que elle serujra de allcajde no dito lugar ho ano de ojtenta e 
tres, ou t(em)po que na verdade se achar, e ora p(eso)as suas jmjgas 
o forão acusar as devasas Janejrjnhas, que na dita viÚa se tirão pelo 
Juis dizendo que elle sup(lican)te prédera hús ciganos, e os tornara 

i A* margem : asy o dizia. 



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REVISTA LUSITANA 



a soltar c lho tomara pejtas, pesas de pano, mãtoes 1 ; e prendera ou- 
tras mais p(eso)as e as soltara sem mãdado do Juis por lhe darem 
dadiuas e gejras de serujço e que no ano de ojtenta e hú hú (sic) 
R(odrig)o Rombo que no dito lugar seujra (sic) de Juis, se quejxara 
delle sup(lican)te de palavras que lhe disera em hna ausência, que se 
o topara elle Juis cortado a sua parojra, lhe quebrara hú corno na 
cabeça, e outras pallavras Injuriozas e elle Juis fisera hú auto delle, 
e ho mãdara ao dito Juis de sãtarem que pronuciasse (con)tra elle 
como fose Just(iç)a, e ora lhe era mãdado, que se liurase das ditas 
cullpas, pedindome lhe perdoasse as ditas culípas; e v(is)to seu Reque- 
rimento e hú pareçe com hú meu pasc, ey por bem, se asy he 
como ho sup(licante) dis he his mais não ha de lhe perdoar a cullpa, 
que cometeo sendo allcajde de soltar o cigano pelo modo que decla- 
ra, e asi as pallavras que dise em ausência do Juis por lhe cortar 
sua parejra, v(is)to o perdão da parte Imformação que se ouue p(e)lo 
C(orreged)or da coraarqua, e pagara dous mill r(ei)s p(cr)a as des- 
p(e)sas da mesa do despacho e por quãto os já pagou a Sallvador 
Mendes vos mãdo etc. na forma. ElÍRej nosso s(enh)or ho mãdou 
p(e)los doutores Damjão d'A guiar e Jeronjmo P(erei)ra de Sa etc. 
Cristouão Calld(ei)ra o fes em Lix(bo)a aos trjnta de out(ub)ro de m 
b° lxxxbij (1587) lucas v(iei)ra o fes esqreuer. 

(D. Felipe i, Liv. i de Legitimações e perdões, fl. 374 v.). 

III. — Dom Felype Etc faço saber que Afonso F(e)r(nandc)z, 
m(orador) na uyla De segura, me enuyou dizer per sua petyção q(ue) 
na devasa q(ue) os yuizes da dita uyla tirarão, o culparão dizendo 
q(ue) yndo os syganos pelo campo, ele sup(lican)te lhes tomara duas 
buras e hú pouquo de fato, de que fora preso pelo dito caso, E es- 
tando preso, fogira pela porta sem quebrar feros nem romper parede, 
e per q(ue) ele sup(lican)te hera home pobre, e tinha molher e filhos, 
me pedia, lhe perdoase a culpa da dita fogida; e reçeberya mercê. E 
visto seu requerim(en)to e hum pareçe com hú meu pase, ey por bem 
e me praz se asy he como diz e mais não ha, de lhe perdoar a culpa 
da fogida da cadea, de q(ue) faz mésão pela man(ei)ra q(ue) declara 
visto o que alega e paguara quoatro çentos r(ei)s p(ar)a as despesas 
da mesa do despacho dos desembargadores do paço, e por quanto os 
tem paguos ao recebedor das ditas despesas como se uyo per hú sen 
C(onhecimen)to e por outro do escrjuão de sua reçeyta de como nela 
la ficão carcgados, vos mãodo etc na forma. Elrey noso s(e)nor ho 
mãodou pelos doutores Yeronymo Pereyra de Sa c Belchyor do Ama- 
ral (Christ)ovão Cald(ei)ra a fez em Lyx(bo)a ha quinze de mayo de 
mil c quynhentos e oytenta e nove. Luquas Vyeira a fez escrever.= 
Leva a clausula q(ue) tomara carta de seguro dentro em trynta dias. 

(D. Felipe i, Liv. i de Legitimações e perdões, fl. 441.) 

i Mantoes, pl. de manto ou montol, «vestido de mulher» segundo o Diccio- 
nario de Moraes. 



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CIGANOS PORtUGtiESES DOS Í*INS DO SÊC. XVI 



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IV. — Dom Felype etc. Faço saber que Antonyo Diaz, morador, 
em Vyla Nova da Era me emvyou dizer por sua petição, que auera 
seis meses pouquo mais ou menos, que elle seruja de alcayde e car- 
sereyro na dite vyla, e tendo presas tres molheres syguanas, por se 
dizer, que erão culpadas no ftírto de tres buros, forão sente nçeadas 
em pena de asoutes com baraço e pergão e tres anos de degredo pera 
angola, e depões de feita axecuçâo dos asoutes, baraço, e pregão em 
todas tres, lhe fogira hua delas da corente onde estauão todas, es- 
coando hua o pe do trebelho, e isto de noite andando elle sup(lican)te 
vygiando a tera, e as outras duas estauão ora na uyla de Santarém 
na cadea, pera yr comprir o degredo, e ele sup(lican)te a fora buscar 
loguo por muitas partes dalcnteyo; e pagara a outro orne, que tam- 
bém a fora buscar loguo por m(ui)tas partes sem a achar, e por que no 
caso não ouuera, nem auya parte, por que os donos dos ditos buros 
os acharão, e dyserão que não queryão das ditas presas cousa algua, 
e na dita vila não avya cadea senão a dita casa do alcaide e carce- 
reyre, e ya se fizera ha dita emxecusão do baraso, pregão e açoutes, 
e ele sup(lican)te era orne m(ui)to pobre e casado careguado de filhos, 
me pedia, auendo a tudo respeito, lhe perdoase a culpa da fogida da 
dita presa, e mandase que contra ele se não procedese; e reseberja 
merse, e visto seu requerjm(en)to e hú parese com ho meu pase, ey 
por bem, e me praz se asi he como diz, e hy mais não ha, de lhe per- 
doar a culpa de lhe fogir a syguana sendo carsereiro, pelo modo que 
declara, visto o que alegua e a ynformação do C(orregod)or da co- 
marca, e paguara mil r(ei)s pera a piedade, e por os ya ter paguos 
ao recebedor de minha esmolarja, a que ficão careguados em receita 
pelo eserjuão de seu carguo se ujo tem per seus asinados, vos mãodo 
etc. na forma. Eli Rey noso S(e)nor o mãodou pelos doutores Melchjor 
dAmarall e Lourenço Corea. Fr(ancis)co de Pauja a fez em lyx(bo)a, 
aosonze de yulho de mil e quinhentos oytenta e noue e eu fr(ancis)co 
nunez de pauya a fiz escrever. 

(D. Felipe i, Liv. i de Legitimações e perdões, fl. 449 v.). 

V. — Dom felyppe etc. Faço saber que João G(onça)l(ve)z Sain- 
cho, m(orad)or na ujla de segura, me emvyou dizer por sua pitição, 
que estamdo elle preso na cadea da dita vyla por se dizer, que elle 
com outros saltarão no termo delia em campo com hu sigano, e lhe 
tomarão duas bestas, e o Roubarão de m(ui)to fato, e estando emtre- 
gue ao cac(erei)ro e trazendoo solto sem feros lhe fogira pela porta 
sem Romper parede, e yuntam(en)te fogira também hu A(fon)so F(er- 
nand)iz que estaua preso pclla mesma culpa, e ya ouuera perdão da 
dita fogida, e por q(ue) ele sup(lican)te se querya lyurar, me pedia 
ouuese por bem de lhe perdoar a culpa da dita fogida. E R(eceberia) 
M(ercê), e visto seu requerym(en)to e hú parese com hú meu pase, 
ey por bem, e me praz, se asy he como diz e mais não ha, de lhe 
perdoar a culpa de fogir da cadea pelo modo que declara, vysto o que 
alegua, e paguara quatrocentos r(ei)s pera as despesas do despacho 



54 



REVISTA LUSITANA 



dos desembarguadores do paço, e por quanto os ya pagou ao resebedor 
do dito d(inliei)ro como se uyo por hú seu c(onhecimen)to, e por outro 
do escryuão de sua receyta de como nella ficão caregados, vos raãodo 
etc. na forma. Eli Rey noso s(e)nor ho mãodou pellos doutores Da- 
myão dAgujar, e Jeronymo P(erei)ra de Sa etc. (Christ)ovão Cald(ei)- 
ra a fez em Lyx(bo)a a quatro de set(emb)ro de mil e quinhentos 
oytenta e noue. João da Costa a fez escreuer. = Leua a clausula q(ue) 
tome carta de seguro em trimta dias. 

(D. Felipe i, Liv. i dc Legitimações e perdões, fL 467.) 

VI. — Dom ftlipe etc. Faço saber q(ue) João Diaz natural da Villa 
de Beringel, e preso na cadea da vylla d' Alcácer do Sal me emuiou 
dizer per sua petição, q(ue) estando preso como estaua, hus ciganos e 
outros minarão e Romperão neste anno de nouenta e sinco a dita ca- 
dea e delia fogirão algus presos, q(ue) logo na noyte em q(ue) fogi- 
rão, tornarão a ser presos e metydos na dita cadea, tirando hu dos 
ditos syganos, que depois fora preso nesta cidade de lix(bo)a, do qual 
Rompim(en)to da cadea se tirara devassa sem embargo delle sop(li- 
can) te não fogír nem sayr da dita cadea, antes ficar quieto nella, o 
culparão com os maes, e o mandauão liurar e per q(ue) era pobre, e 
o sostentaua a my(sericordi)a, e auia m(ui) 10 t(em)po q(ue) estaua 
preso, e se não podia liurar, me pedya lhe perdoasse a culpa q(ue) 
desião ter no RompimCen)* 0 da cadea, avendo Resp(ei)to a não fogir 
delia, e ser pobre, da qual culpa era mãodado liurar, E R(eceberia) 
mercê. E v(is)to seu Requerim(en)to e hfi parece cõ hu posse, ey per 
bem se assy he como o sop(lican) 10 dis e mais não ha, de lhe perdoar 
a culpa de não descobrir a fogída dos presos pollo modo q(ue) decla- 
ra, v(is)to o q(ue) alega e a ymformação do ouuidor da coraarqua, e 
pagara mil reis para as dcsp(es)as da casa do desp(ach)o, e per os 
ter pagos ao Resebedor dos ditos dcsp(es)as como se uio per hu seu 
c(onhecimcn)to e per outro do escriuão de seu cargo vos mãodo etc. 
na forma. EIRey nosso s(e)íior o mãodou pellos doutores damyão 
daguiar, etc. e Jerónimo P(e)r(eir)a de Saa etc. Francis) 00 de Pauia 
a fez en Lix(bo)* a tres de nouembro de mil e quinhentos noueta e 
sinquo, e eu Francis)™ Nunes de Pauia a fiz escreuer. 

(D. Felipe i, Liv. v de Legitimações e perdões, fl. 143). 

VII. — Dom Felipe, etc. Faço saber q(uc) Belchior Bugalho, 
m(orad) or na Villa de Sousel, me emviou dizer per sua petição q(ue) 
seruindo de alcayde e cac(e)r(eir)° na dita uilla tinha preso em seu 
poder quatro presos, e hua noute do mes de set(emb)r° de nouenta e 
sinco, as duas oras depois de mca noyte lhe minarão a cadea, e ouvindo 
o Rebolisso dos presos acodira a dita cadea, e a achara minada, e ao 
tal t(em)po era fogido hu sigano, q(ue) estaua preso por sfc dizer fur- 
tar hu cauallo, e bradara a minha Vos, e acodindo gemte estrouara a 
fogida aos outros, q(ue) na dita cadea estauão, e logo como fora ma- 
nham se fora em busca do sigano que lhe auia fogido, e o achara, e 



CIGANOS PORTUGUESES DOS FINS DO SEC. XVI 



55 



o prendeo, e ora o tinha preso na dita cadea como se podia ver da 
çertidão q(ue) apresentou; e me pedia auemdo Respeito ao assyma 
dito, e ser casado cõ sete f(ilh)°* lhe perdoasse a culpa q(ue) nisso ti- 
uera, e R(eceberi)a mersse; e v(is)to seu Requerira(en) to e hu parece 
cõ hu passe, ey por bem, e me pras de perdoar ao sop(lican) te a culpa 
da fogida do preso sigano de q(ue) faz meção pollo modo q(ue) o de- 
clara, v(is) to o que alega, e isto liurem(cn)te auendo Resp(ei) to a o 
premder per sua emdustria vos mâodo etc. na forma. EIRey nosso 
s(enh)or o mãodou pollos doutores Damião daguiar, e Dyogo Uaraeira 
etc. Amt(oni) 0 Francis) 60 de Pauia a fez em Lix(bo)* a dezaseis de 
dez(emb) ro de mil quinhentos nouenta e sinco, Fr(ancis)co Nunez de 
Pauia a ffez escrever. 

Leua clauzulla q(ue) este perdão lhe não vallera chamãodosse o 
dito presso a ordens ou a ymmonidade de ygr(ej) a . 

(D. Felipe i, Liv. v de Legitimações e perdões, fl. 211). 

Vm. — Dom Felipe, etc. Faço saber q(ue) Sebastião de Mid(ei)- 
r 0 *, m(orad) or na Villa de Ferre(eir)* do Cãopo de Ourique me emviou 
dizer por sua petição, q(ue) sendo elle alcaide e carcereiro na dita 
Villa o anno passado de 592 sendo-lhe emtregue preso hu Grabyel de 
Sousa, cigano per culpa de ser achado com hu pouquo de fato furtado 
q(ue) poderia valer mil r(ei)s, lhe fogira da cadea, da qual culpa da 
fogida tinha perdão, de que eu lhe fizera mercê, c fogindo lhe da ca- 
dea fora tras elle, e se acolhera a ygreja da dita Villa, e sobira ao 
telhado delia, e elle sop(lican) te lhe Requerera q(ue) se desese do te- 
lhado, e se desse a prisão, e elle o não quisera fazer, e per não que- 
rer decer ne tornarse a prisão, elle sop(lican) to lhe tirara cõ híla pe- 
dra de q(ue) o ferira, e lhe fizera nódoas de q(uc) loguo fora são, e 
desaparecera da ygreya, e elle sop(H)(can)te se poscra em livramten) 10 , 
e fora citado per éditos, e ávido por sitado, e lamcado de parte, e o 
feito se persegia, per parte da yust(iç) a ; E por q(ue) era pobre, e ti- 
nha molher e f(ilh)os q(uc) manter, e andava amorado me pedia ou- 
uesse por bem de lhe perdoar algfia culpa, se a no caso tiuera, per 
q(uan) 10 o dito cigano fora o era são sem aleiyão, e sem desformidade 
e apresentava certidão dos termos é q(ue) estaua o feito, e R(eceberia) 
m(ercê); e v^s) 10 seu Requerim(en)to, c hu parece cõ ho meu passe, 
ey per bem, e me praz, se asi he como o sop(li)can) te diz, e mais não 
ha de lhe perdoar a culpa do ferimento da pedrada e nódoas, de q(ue) 
faz menção polo modo q(ue) o declara, v(is) to o q(ue) alegua, e pa- 
gara 500 r(ei)s para a piaded em Lix(bo) a a dous dabril de 593. E 
per q(ue) elle tem pagos os ditos. 500. r(ei)s ao Resebedor do d(i- 
nhei)r° aplicado a piedade a q(ue) ficão caregados em Reseita pollo 
escrivão de seu cargo como se vyo per seus asinados per tãoto vos 
raãodo, etc. na forma. EIRey o mãodou pollos doutores Belchior dama- 
ral e Damião daguiar, etc. Francis) 00 Nunes de Pauia o fez em Lix- 
(bo)* aos oyto de mayo de mil 594. 

(D. Felipe i, Liv. vi de Legitimações e perdões, fl. 248). 



56 



REVISTA LÚSITAÍÍA 



IX. — Dom Felipe etc. Faço saber q(ue) Vasquo Diaz, m(orad) or 
na Villa dArraolos me emuiou dizer per sua petição, q(ue) sendo elle 
cac(erei)r° na dita Villa o anno de nouemta, e tendo nella presos na 
cadea de baixo e a bom rrequado tres siganos q(ue) andavão vadios 
pollo Eeyno, e hu escravo per nome Andre pollo furto de hua eguoa 
e de certo d(inhei)r° de seu s(enh)or, o p(adr) e Manoel Diaz q(ue) lhe 
fora tomado na continente q(ue) o furtara e fiquara emtregue o d(i- 
nhei)r° a seu dono e a eguoa, os ditos presos lhe fogirâo hua noite 
de tempestade minando a cadea sem culpa do sopílican)* hua das noi- 
tes do fim de dezembro do dito anno ; e per q(ue) elle sopClican)* 6 ti- 
nha feito deligencias polias terras vezinhas sem os poder prender, 
nem achar como constaua das certidõis e estromten)* 0 q(ue) offerecia, 
me pedia lhe perdoasse a culpa de lhe fogirem os ditos presos, o Rc- 
seberia mercê; e v(is) to seu Requerimten) 10 e hu parece co hu passe, 
ey per bem, e me praz se assy he como diz, e mais não ha, de lhe 
perdoar a culpa de lhe fogirem os prezos sendo cac(erei)r°; v(is) to o 
q(ue) alegua e ymformação q(ue) se oue pollo c(orreged) or da co- 
marqua, e pagara mil r(ei)s p(ar) a as despes)** da mesa do despa(ch) 0 
do desembargo do paço, e por q(uan) to os ya pagou ao resebedor do 
d(inhei)r° das ditas desp(es)as como se vio per hu seu co(nhecimen)to 
vos mãodo etc na forma. EIRey nosso s(enh) or o mãodou pollos doutores 
Belchior d Amaral e Damjão d Aguiar etc. Christouão cald(ci)r* a fez 
cm Lix(bo)a vinte seis dout(ubr) 0 de mil 594 Lucas Vieyra a fez 
escrever. 

(D. Felipe i, Liv. vi de Legitimações e perdões, fl. 345). 

X. — Dom Felipe etc. Faço saber que M(anu) el da Costa,' m(ora- 
d) or na cidade de Portalegre me êviou diser que o ouuidor do priorado 
do Crato o premdera na dita villa do Crato por ser culpado é hu fe- 
rimento que fora feyto a llujzote cigano no termo da dita villa, Imdo 
o Juis de fora da dita cidade com gente de pee e de cauallo a pena- 
da e que elle sup(lican) te entraua em segiraento do dito cigano e dou- 
tros de sua companhya, e elle sup(lican) t0 se liurara do dito caso, e 
per sentença da Rolação sairá solto e lyure, e estaua nella preso per 
m(anda) d0 do dito ouujdor que lhe dera hOa herdade sua no termo da 
dita villa por prisão, da quall se sahira e fora a dita cidade de Porta- 
legre e outras partes, e sendo achado menos o dito ouvidor fizera au- 
tos e aos xiiii d(ias) do íues de março pello encontrar no campo dentro 
das terras da dita herdade o premdera e o emtreguara ha hu t(abeli) am 
Sebastyão Moutel e de sua mão fogyra não estando ajmda peguado 
nelle nem fazemdo outra allegua Registencia, e o d(i)to t(abeíli)* m lhe 
tjnha p(er) doado, me pedya lhe p(er) doase a cullpa que tynha nas 
ditas duas fogydas, vtis)* 0 ser livre do caso primcipall, E R(ecaberia) 
Mercê; E v(is)to seu Requerimento e hu parece com ho meu pase ey 
por bem e me praz de p(er)doar ao supílican)* ha cullpa de se sajr 
da prisão, e de fogir dos maãos do t(abelli) am . pollo modo que declara, 
v^is)* 0 ho que halegua, e o p(er)dão do t(abeli) ftm , e paguara nyll r(ei)s 



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y DIÁLB0T0S TRASlfONTÁNOS 



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para as despesas da casa do despacho que paguão R/* delias he forão 
sebrelle per seu scripvam correguados e Recepta vos mando etc na 
forma. El Rey ho mandou pellos doutores Amt(oni) 0 da Guarna lie 
Damjam dAguiar. Belchior pinto a fez é lix(bo)* aos xxx d(i)as do 
mes dabrill de m. b c . lxxxvij João da costa a fez escrepver, 
Leua clausola que tome carta de seguro em xxx d(ias). 

(D. Felipe i, Liv. vh de Legitimações e perdões, fl. 52 v.). 

(Continua). 

P. d' Azevedo. 



DIALECTOS TRASMONTANOS 

(Contribuições para o estudo da Dialectologia Portuguesa) 



V 

LINGUAGEM POPULAR DA JUNQUEIRA 

A Junqueira é uma povoação próxima da Matella (vid. Dial 
trasm., i). Na occasião em que fui á Matella, uma mulher da Jun- 
queira ditou-me a seguinte xácara: 

1. Indo eu por hi l a baixo 

A saber dos meus amores, 

Incontrei * um laranjal 

Carregadinho de flores. 
5. Deitei-me á sombra d'elle, 

P'ra que me num 9 queimasse o sol. 

Lá pio meio da noute 

Oubi cantar o reiooinól 4 . 

— Reixinol que tão bem cantas, 

i Na Beira também se diz p'r' hi a baixo. Propriamente deye eecrever-se i, 
pois que é o lat. i b i , com prothese de a. 

* Vid. Dial. trasm,, i, 8. 

s Jb. f i, 17. A fórma num é também muito commum na Beira. Vem da arch. 
nom, em próclise. 

* = roixinol. Parece haver influencia de rei, do mesmo modo que no hesp. 
mod. ruUehor (ant. rp»ehol f rosehorj houve influencia do nome próprio Bui, pedido 
pela terminação -sehor. — A fórma reixinol apparece também noutros pontos : 
vid. Trad. pop. de Portugal, § 295. 



ÍOCViSf A LUSITANA 



10. Adonde fostes 1 aprender? 

— Ós palácios da rainha, 

D'onde o rei stubàiscreber 8 . 

O rei 'staba na baranda 8 , 

E a rainha no quintal: 
15. Atiraba-se um ó ótro 4 

Com pedrinhas 5 de cristal. 

Stabão colhendo laranjas, 

Do seu rico laranjal : 

As agras a Untem 6 
20. E as doces a rial, 

Aquellas mais bonitinhas 
22. Diz 7 qu' erão para el-rei jêntar s . 



Tanto pelo que se vê do texto e das notas, como pelo que eu 
pude observar directamente, a linguagem da Junqueira não differe, 
ou, se differe, é em pouco, da da Matella. 



E' Chayes, como se sabe, uma villa sobre o Tâmega, no Norte 
de Tras-os-Montes, a poucas legoas da raia gallega. Corresponde á 
antiga Aquae Flaviae. — Nunca fui a Chaves, mas, tendo fallado por 
vezes em 1885 com um homem natural de lá, e qup a esse tempo es- 
tava doente no Hospital da Misericórdia do Porto, que eu então fre- 
quentava como estudante, observei nelle a maior parte dos factos que 
constituem este artigo; os outros obtive-os de diversas proveniências. 



1. O e tónico tem o valor do e mirandês (e hespanhol), que eu 
designo aqui por è, — ex.: sèmos, esta, bès, comèu, morreu, sempre, 
tlmpo, òrèlha, bUho, etc. Este som do è fica entre é e ê normaes 
portugueses, e é muito vulgar na raia trasmontana. 

i 

1 = fotte, muito coramum no país todo, assim com -* analógico. 
8 Lêde sta-bài êcrc-ber (= estava a escrever). 
8 b = v. Vid. Dial. traem., i, 12; cfr. supra, oubi, no verso 8. 
* Vid. Dial. traem., i, 1. 

5 Com o e surdo. Na Beira- Alta, por ex. : diz-se phdrinha. 

6 Vid. not. 7. 

7 O povo costuma empregar muito a fórma impessoal diz no sentido de diz- 
se (lat. dicitur, etc). 

8 —jantar. Também se usa na Bei ra -Al ta. — Lat. jentare. 



VI 



LINGUAGEM POPULAR DK CHAVES 



A) Phonologia 



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DIALECTOS TUÁ81I0NTAN0S 



59 



2. a) O ditongo litterario ú soa aqui âi, como na Beira- Alta, por 
ex.: râi (=ra). 

b) Igualmente a -em litterario (tónicò) corresponde aqui -ãi, como 
na Beira-Alta, por ex.: bãi (=bem), tãi (—tem), ãi (=em). Esse di- 
tongo ãi é âi nasal. Cfr. Dtal. trasm., iv, 15. 

3. O o tónico creio ter também o valor do o mirandês e caste- 
lhano, por ex. : òrUha, òsso, òbo, pòbo. Como fiz com o l, represento-o 
aqui por ò. O som ô supponho não existir popularmente em Chaves, 
como decerto também não existe ê. 

4. a) As nasaes não tem a gutturalidade das do Minho; são-no 
como na Beira-Alta, — por ex.: campo, irmã., irmãs, irmão, irmãos. 

b) As vogaes antes de consoante nasal são nasaladas, como em 
grande parte do país, — por ex.: nino. 

c) Em hòme perdeu-se a nasalidade final, o que succede frequen- 
temente no Norte do reino (nas syllabas com e átono). 

d) Os seguintes factos, porém, que recolhi, mostrão que en (em) 
átono tende a tornar-se in (im), por ex.: dizim, bindèr, timporada, 
fázim. 

5. O ditongo litterario ou é constantemente substituído por õu, 
— ex.: mouco, papoula, cansou, acfiõu-a, sou, õu, matou. Este phe- 
noraeno, que eu notei também nos arredores de Bragança, é muito 
característico do Norte trasmontano. — Cfr. adeante. — Sobre o valor 
do ou cfr. Gonçalves Vianna in Bev. Lusit., i, 162 e 224. Este som 
estende-se á Beira-Baixa: vid. A. Alves in Bev. Lusit., n, 241. 

6.. Existe o som ch, por ex.: em chúiba, — o que é característico 
dos dialectos do Norte do Mondego. 

7. Não posso assegurar se existe ç ao lado de s, com quanto te- 
nha notadas nos meus apontamentos as seguintes palavras : sòco e ça- 
patos. O que só posso assegurar é que pelo menos existe o som do s 
(i. é, s reverso da Beira-Alta). E' todavia muito provável que os dois 
sons existão. 

8. O som v é substituído por J, facto corrente na raia trasmon- 

tana. 

9. Nos dissyllabos la e òa não se evita o hiato pela intercalação 
de uma vogal, como succede em muitos pontos do país: assim temos 
em Chaves cèa (=ceia), mias (= meias), aldèa (= aldeia), dhçt (=dê); 
até mesmo ouvi achha (=achei-a). Igualmente boa, abòa, e não, como 
por exemplo, em Mondim da Beira, bôua. De facto, se em Chaves o o 
se ditongasse neste caso em ou, teríamos, em virtude do § 5, õu; por 
tanto não pôde ter havido illusão acústica na observação de bòa e 
abòa. 

10. Temos s impuro no principio das palavras: strila, sprito, stá. 
Este facto é corrente no Minho. 

11. Diz-se anindastes e ane fostes tu a par de ancCindastes e ande 
fostes tu, por onde andaste, etc. Temos de considerar aqui dois factos. 
O primeiro é que ande está rigorosamente por aonde (pronunciado 
*aõde) e não por onde, reduzindo-se aon (* ão) a an (S) na próclise, como 



60 



REVISTA lusitana 



succedeu com mão em mancheia, tãobem em também, etc. O segando fa- 
cto é a assimilação do d á nasal precedente, do que resultou n, por ser 
n o som nasal que ha mais semelhante a d; este facto tem parallelos 
noutros pontos do país, por exemplo no Sul, onde ouvi inàgóra (=inda 
agora), etc. 



12. Adjectivos. — O adjectivo sò é biforme, contrariamente ao que 
succede na lingua litteraria: temos pois em Chaves, como em grande 
parte da raia trasmontana, sò e sua, correspondentes ao lat. solus, 
sola. Cfr. abo e abòa. 

13. Números. — O plural de anel, funil, guarda-sol, é respectiva- 
mente anães, funiles, guarda-soles, talvez porque aquellas palavras 
recebão um -e de encosto, analogamente ao que succede em muitos 
pontos do país, — anele, funíle, guarda-sõle, vindo então os pluraes a 
ser regulares. Quintal faz no plural quintaíles, representando eu por 
1 um l gutturalizado, devido á influencia do a. — Em vez de maçã 
ouvi fiação, com o plural analógico maçõis; mas será isto um facto 
geral, ou devido a alguma influencia individual (do Minho) £ 

14. Pronomes. — Diz-se mõu, tõu, sõu (por meu, teu, seu), quer em 
próclise, quer absolutamente, como : tõu pai, sou pai, é môu. Isto é, 
temos em mõu, tõu, sou o mesmo som que em mouco, notado no § 5. 
Para não ter dúvida na pronúncia, mandei pronunciar ao mesmo tem- 
po, de um lado mõu e mouco, e do outro lado mõu e comlu (§ 1), ha- 
vendo igualdade no primeiro caso, e perfeita distineção entre ou e èu 
no segundo. — Estes pronomes devem explicar-se por *moii, *tou t 
*sou, pois em mirandês temos tou e sou, sobre os quaes vid. o meu 
Dial. mirandês, pag. 20. 

15. Verbos. — Eis várias flexões avulsas : 

a) Ser faz sèmos, sèdes, são (por somos, sois, são). Slmos segue a 
analogia da 2.* conjugação (temos, vemos, etc); sèdes segue a analogia 
de sèmos. E' todavia interessante verificar-se aqui a existência do d 
archaico na 2. a pessoa do plural. A fórma semos é vulgar no país. 

b) O verbo querer, proclitico, tem a fórma quês, na 2. a pessoa do 
singular do presente do indicativo, como em: quês ir (= queres ir); 
cfr. Dial. beirões, vi, pag. 15. Ésta fórma quês existe também na lin- 
gua archaica, e o Sr. Adolpho Coelho, nas Questões da ling. port., i, 
419, explica-a por syneope intervocalica do r de queres, estabelecendo 
comparação com mãe — madre, coew£r0 = coriandrum, e proa = 
prora; mas nem a explicação, me parece boa, nem os factos compa- 
rados são análogos. Sobre a fórma mãe vid. a minha Evolução da lin- 
guage, pag. 74, onde tentei uma explicação. Em coriandrum e 
prora, o r cahiu respectivamente por dissimilação. — A fórma quês 
vem de qxier^s por assimilação do r ao s (absorpção) ; a fórma queres, 
por queres (syneope), ainda hoje se diz. 

c) Sobre dízim e fâzim, vid. § 4-cif. 

d) Sobre comlu, morrèu, etc, vid. § 1. 



B) Morphologia 



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DIALECTOS TRASMONTANOS 



61 



e) O presente do conjunctivo de dar é dia (§ 9). Também a um 
meu condiscípulo de Alijó ouvi «p'ra que se dm» (—dê), e creio ter 
ouvido ésta fórma noutras localidades. O a final talvez seja devido a 
alguma analogia. / 

f) Diz-se mixo (= mexo). Deve expliear-se por influencia de mi- 
xer (= mexer), pois um e átono ao pé de x palatiza-se. E* assim tam- 
bém que se diz em alguns pontos acoméde-se, por influencia de acome- 
dar-se (dissimilaçáo de accornmodar-se), considro por influencia de con- 
siderar (== considerar), etc. Quero dizer: segundo as leis da lingua, 
mexo, accommôde-se e consiãé>'o não podiâo de modo algum tçr dado 
directamente mixo, acoméde-se e considro, por serem tónicas as vogaes 
é e ó, e por isso resistentes; mas em mexer, accommodar-se e conside- 
rar o caso muda completamente de figura, porque essas vogaes são 
átonas, e por tanto sujeitas a quédas e a mudanças, conforme os ca- 
sos. — Isto são factos elementares de glottologia, mas não faz mal in- 
sistir nelles. 

16. Partículas. — Cito aqui advérbios e interjeições: 

a) Diz-se ande c ane por aonde (através do *ãoãe) em próclise: 
vid. § 11. Eis outro exemplo ffic' and 1 ó Porto», por tfica ao pé do 
Porto» ; aqui and! tem o mesmo valor que no Minho em phrases aná- 
logas. 

b) cFni pY àlá* (=para lá). A fórma alá é corrente na raia, e 
também existe em gallego. 

c) Desantão (com e surdo) = desde então. 

d) Como advérbios de quantidade: tantinho e manto. 

e) ido (adv. interrogai), tonde?». Do arch. tdlo = ubi illum 
(* ub'lu-) % Fórma mui usada em Tras-os- Montes. 

f) Éch ou éche (com ch, não x) é uma interjeição que corres- 
ponde a é verdade, etc. Exemplos: «Eu tenho e tu não, écfc/»; «A*/ 
tu não foste». 

O) Vocabulário 

Abòa, avó: cfr. § 12. — As fórmas archaicas erão avoo e avoa, 
como no hesp. abado e abada, respectivamente do lat. *aviólus e 
* a vi o la. Em gallego também ha avoa: vid. Valladares, Dic. gaU., s. v. 

Abundar, trazer. — Ex.: tabonda cá esse pau!». Do lat. abun- 
dara tendo porém havido grande desvio de sentido. 

Alà, lá.— De a + ta = lat. (il)lac. 

Aláijado, aleijado. — O português aleijar formou-se sobre alei- 
jão, i. é, alejão a-lejão, do lat. laesion^m, onde si intervocalico deu 
normalmente j, como em arch. cajom = (oc)casionem. O i desen- 
volvesse entre e e j, por influencia da palatal, facto corrente na 
lingua. 

And', aonde. — Vid. § 11. 

Anibôstre, amigo. — Ex.: tF. é munto anibestre de F.» [?|. 
Anta, certo peixe do Tâmega. 
Antão, então. — Vid. desantão. 



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REVISTA LUSITANA 



Binder, vender.— Vid. §§ 4rd e 8. 

Boura, pancada. — Esta palavra não a ouvi; foi um amigo quem 
m'a comraunicou. Deve porém ser btiura, em virtude do § 5. 

Oadòlo, pedra de açúcar K 

Oadúlo, terra encoscorada com a geada. 

Capucha (com ch, não x), chalé. — Os povos serranos da Beira- 
Alta, usão uma espécie de manto, que cobre a cabeça e parte do cor- 
po, substituindo assim o chapéu, — e também se lhe chama capucha. 
De cap(a) -ucha. Sobre o sufflxo -itdw, -a, vid. Revista Litsti.j n, 
271; sobre a etymologia de capa, vid.: Diez, Etym. Wõrterb., i, s. v. 
cappa; e Kõrting, Lat- Wórt., s. v. cappa. 

Oaraohat, caramba! — A fórma caratnba veiu-nos do hespanhol; 
párece ter dado caracha por simples troca da terminação -amba por 
-acha, em virtude de euphemismo: cfr. Diacho por Diabo. Efectiva- 
mente o suffixo -acho, -a, aqui tem valor depreciativo: cfr. Rev. Lusit., 
ii, 272. 

Oarambélo, gêlo. — Cfr. Dial. trasmont., i, Vocab., s. v. 

Oaròlo *, pedaço de pão. — Na Beira- Alta também se diz tum 
carolo de pão», significando um pedaço de pão de milho sem côdea. 

Oarpins, meias curtas (de homem). — Ad. Coelho, Dic. etym., deri- 
va esta palavra de crepins (de crepe). 

Ohúiba, chuva. — Do lat pluvia. A fórma chuiba representa 
a arch. chuiva, fórma anterior de chuva. 

Oibo, bocadinho. Ex.: tum cibo de pão». — Na Beira- Alta tam- 
bém se diz assim, e tum cibinho». 

Oortínlia, terra de semeadura, cercada de parede. Cfr. Viterbo, 
Elucidário, s. v. — De córte (cfr. Viterbo, ib., s. v. cortinhal), do lat. 
cohortem (cortem). A palavra coriínha é também usada no Baixo- 
Minho. 

Des, desde. — Vid. desantão. 
* Desantão, desde então. — A fórma des (com e surdo) é vulgar 
hoje em certos compostos, como desonte (desde ontem), etc., e é ar- 
chaica: lat. de ex. Antão também é muito vulgar (Beira, etc.) = arch. 
entam = arch. entom <lat. in tum. 

Eido, logar.— Creio que se diz, mas não affianço (porque neste 
ponto os meus apontamentos estão incompletos): cFoi ao vento — Per- 
deu o eido*, — rima infantil correspondente a 



muito usada noutras partes (cfr. Rev. de glottolog. e de ethnolog., pag. 
48). O etymo de eido é o lat. adi tum: vid. D. Carolina Michaélis, 

1 Segundo as minhas notas, nesta palavra ouvem- se dois 11, sendo o primeiro 
gutturalizado. 

2 Faço a respeito doesta palavra a mesma observação que na nota a cadolo. 



tFoi ao vento — Perdeu o assento» 
e «Foi ao ar — Perdeu o logar 9 



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DIALECTOS TRASMONTANOã 



Studien zu Hisp. Wortdeut., § 16. — Esta palavra usa-se no Minho, 
e ein gallego, onde significa : cterreno cerrado y cercano á la casa de 
su duerio», e tsitio qualquiera que no se quiere expresar» (VaDada- 
res, Dic. gallego, s. v.). A ultima significação parece ser correspondente 
á que o vocábulo tem em Chaves; a primeira significação existe no 
Minho. Na Beira- Alta conheço a palavra apenas no onomástico. 

Endo, logar. Ex.: «fui ao endo*, «fui áquelle endo* (creio que não 
ha confusão com eido). — Terá alguma relação com a fórma ant. ende, 
que significa d'ahi, etc? 

Qalafura, buliçoso. — Cfr. gallego gaUarufa e gallaroufa: «agi- 
tação, barulho, algazarra» (Valladares, í>ic. gall.-casb., s. v.). 

Indar, andar. — Será fórma commum? 

Ingaliar, pegar ao soco.— Cfr. gallego galear, que significa 
«gallear, alzar la voz com amenazas» (Valladares, ib., s. v.). O radi- 
cal é evidentemente gallo-, 

Inxações, injecções. — Por etymologia popular. 

Jarmim, jardim.— Por influencia de jasmim? 

Jolho, joelho. — Ésta fórma assenta immediatamcnte na archaica 
geolho. Em gallego também ha jollo (e gioullo) : vid. Valladares, Dk. 
gall.-cast, s. v. jdlos e giouUos. O etymo é o lat. genuculum *, que 
deu successi vãmente : * geolho > geolho > giolho >jolfio. 

Lameiro. — Perdeu-se-me a nota em que tinha a significação d'esta 
palavra, mas creio que lameiro significa o mesmo que na Beira- Al ta, 
i. é, «um campo á beira do rio, onde se cria successivamente herva 
para o gado e milho» (um prado natural). De lama -}- -eiró. 

Mação, maçã. — Assim se diz no Minho. Será geral em Chaves? 

Majar ioo, mangerico. — A fórma primitiva é majarico; do 
\J major ana -f- -ico ? Sobre majorana cfr. Kõrting, Latetnisch-romaniches 
Wõrterb., § 493. 

Mandil, avental.— O etymo d'esta palavra é árabe. Ainda hoje 
temos o ditado: 

Em Abril 
Agoas mil, 

Coadas por um mandil. 

Miola, tutano. — Na Beira- Alta também se diz miólas, mas no 
sentido de pão de milho. Do lat. medulla, através de *meola. 
Manto, muito. — Vulgar no país. 

Nino, ninho. — Parece ser troca do suffixo: -ino por -inho. (Nos 
meus apontamentos tenho nota de que o i de nino é nasalado). 

Nísoarro, cogumello. — Na Beira- Alta, etc. diz-se míscaro (e 
também já ouvi miscarro). De al-miscar. O o final explica-se como 

1 Por gmiculum. O deminuiti vo genuculum, ou antes genuclum, encon - 
tra-se no verbo congenuclare, citado por Nonius : cfr. Diez, Gr. 4. I» rom. i, 
14 ; Bréal & Bailly, Dict. eft/m. lat, s. v. geriu. 



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EB VISTA LUSITANA 



em BUaro = Victor: Dial. interamn., in, 22. A mudança de m em n é 
mais difflcil de explicar: cfr. porém nespra (nespera) do lat. *mesp'la 
(de mespilum); também em fr. nefle, it nespola, hesp. nespera: o 
que leva a crer que neste caso n por m remonta ao latim vulgar. 

Palhito, palito. — Influencia de palha; concorreria também o 
facto de os dentes se poderem espevitar com uma palha, como muitas 
vezes se faz. < 

Pantalònaa, calças. — Também se usa noutros pontos da raia. 
Do hesp. pantalon (pL pahtalones). Cfr. Kõrting, Lat-Wõrt, § 5861 e 
8913: a palavra provirá de Pantaleorij nome próprio tornado com- 
mum, facto de que ha muitos exemplos nas línguas. 

Pinasoo, pino para jogar. — De pino -{--asco. — Cfr. Kõrting, 
Lat.-Wôrt, § 6147. 

Pitar, traçar. 

Pòta, cântaro de barro. — Fiminino de pote. 

Poula. (Encontrei esta palavra num jornal da localidade, o qual 
porém se me extraviou. Supponho significar «terreno para pasto de 
gado». Lat pabulum). 

Repòlga, cogumelo que se cria nos castanheiros. Do [/repullulare, 
isto é, de *repullicare (cfr.repullescere)> «repolgar. A' mesma 
família pertence repolho. O p intervocalico não abrandou em 6, se- 
gundo a regra, por causa de re-, cuja funcção como prefixo se fazia 
ainda sentir: cfr. receber de recipere (que, se não fosse isso, de- 
via dar rezcber), a par de concipere 1 percipere 9 etc. 

Sòa, fem. de só. — Do lat. sola. Cfr. § 12. 

Stauladas, (stau-la-das), pàuladas. 

Tamaninho, um bocadinho. — De tamanhinho; o nh parece que 
deu n por dissimilação (nh-nh). 

Tantinho, um tanto, um pouco. Ex.: *Tantinho de pão». — Te- 
nho ouvido ésta palavra em muitos pontos de Tras-os-Montes. 

Timporada, temporada. — Cfr. § 4— d. 

Ulo, «onde?». — A' lettra: «onde o?». Cfr. § 16 — e. 



Os factos precedentes não são bastantes para se poder caracte- 
rizar com elles perfeitamente a linguagem de Chaves; todavia alguns 
encontramos que a fazem entrar no sub-dialecto raiano. Da anályse 
de maior número de factos havião de certamente resultar mais analo- 
gias com o gallego do que aquellas que citei. Alem da vizinhança da 
Galliza, existião outr'ora relações sociaes muito íntimas entre esse 
país e o território português fronteiro : ainda no sec. xvi o Castello de 
Picona (na (xalliza) pertencia ao senhorio de Montalegre, e pagava 
fóros ao senhor de Chaves *. 

* Vid. Viterbo, Elucidário, s. v. caêttUaiico ; e cfr. também b. v. cesteiro e 
jugada inteira. 



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DIALECTOS TRASMONT A NOS 



65 



vn 

UNGUAGRM POPULAR DK V1LLARANDELL0 

Esta povoação fica no concelho de Val-Paços. Sobre a linguagem de 
Val-Paços vid. Bev. Lusit, n, 255 sqq. (artigo do Sr. Joaquim de Cas- 
tro Lopo). O que adeante vou dizer é extremamente pouco, pois, como 
a respeito de muitas outras terras me succede, baseio-me em aponta- 
mentos tomados avulsamente e ao acaso, segundo as occasiões. 

1. O o tónico aberto é exactamente como em Fornos (Freixo-de- 
Espada-á-Cinta) : vid. Dial. trasmont, m, § 1. 

2. Distingue-se 8 de ç, também como em Fornos, etc.: vid. Dial. 
trasmont, m, § 2; e cfr. Lopo, in Bev. Lusit., u, 255. 

3. Ouvi dizer rão em vez de rã (cfr. Dial. trastnont, vi, vocabul., 
s. v. mação), mas irmã (e João). 

4. Verbos. Diz-se fái (por faz) e hái (por ha, impessoalmente), 
formas correntes na raia. 

5. Pronome possessivo. Diz-se (segundo as informações que 
tenho) tmow pai», «íow pait. t»ow pai» (com o feminino miiúia, tua, 
sua): cfr. Dial. trasmont., vi, 14. 

6. Usa-se, como em Chaves (Dial. trasmont, vi, § 16-e) a fórma 
ulo, mas, segundo as informações que me derão, ulo parece correspon- 
der a elle, por ex.: «q'é ftuloU, tq'é ftulaH, em interrogações. — 
Em Gil Vicente também apparece ulo (ullo) ; essa fórma é vulgar na 
raia trasmont ana e minhota: vid. Dial. interamnenses, vin, pag. 21. 

7. Vooabulos avulsos : f tirão (como em Amarante) significa 
«mercado pequeno», dando -se o nome de feira a um grande; matriar 
diz-se de uma ferida que suppura (matriar ==materiar, pois que na 
linguagem vulgar matéria é synonimo de pus). 

vm 

LINGUAGEM POPULAR DE VIMIOSO 

Fallando em Agosto de 1888 com um soldado natural da villa de 
Vimioso, observei o seguinte. 

A) Phonologia 

1. O e aberto e fechado do português ordinário pronuncia-se em 
Vimioso com um só som, intermédio entre o nosso é e ê, isto é, com 
o som do e hespanhol. O mesmo succede com o o, que é também igual 
ao o hespanhol. Não ha differença pois nas vogaes tónicas de pêra, 
phna, pldra, pè, èle, èla, èsse, issa, etc., e nas de ;>ò, pòdre, pòbre, pòço. 

RBV. LUSTT., VOl. III, faSC. 1. 5 



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HJ5VISTA LUSITANA 



(Este facto foi também verificado por outras pessoas que assistirão á 
conversa). — Cfr. Dial trasmont., iu, § 1, etc. 

2. O en (em) atono pronuncia-se como no Porto e em Miranda, 
isto é, com e surdo, ex. : pZnsamhito, sVntimànto. 

3. Ás nasaes não tem a gutturalizaçâo do Minho, são pronuncia- 
das como em Lisboa, ex.: cpto, irmy (cfr. adeante, x, 5-a). Ao mesmo 
tempo que ouvi a pronúncia do soldado de Vimioso, ouvi a de gente 
de Lisboa que estava ao pé, e confrontei uma pronúncia com a outra. 

4. O ditongo ou pronuiicia-se bn, ex.: <nwuro, pessõua, deixõu (i. 
é, daixõu, vid. § 6), soa, etc., — com um u muito distincto. Cfr. Dial 
trasmont., vi, 5. 

5. No fim das palavras -em soa êim (i. é, ci nasal) nos verbos: 
còrrêim (= correm), fúgéim, etc. O soldado syllabou clarissimamente 
fú-gêim. — Nos substantivos o -em desnasaliza-sc : home, Urgi (=vir- 
gem, vid. § 8); onte. 

6. O -em tónico dá -âl (i. é, âi nasal), como em Lisboa e na Beira- 
Alta: bintâl, tdí (=tem). Da mesma maneira ci dá âi, como em râi, 
sai (=rei, sei). 

7. O -ao conserva-se: andarão. 

8. O -e atono depois da palatal dá -í: fwji, bírgí. 

9. Não existe o som ú do Fundão. O u tem o valor normal por- 
tuguês. 

10. O v é geralmente substituído por b, como em bhúio ( = vi- 
nho), ttba ( = uva), etc. Diz-se varba ( = barba), por dissimilação. 

11. Differençarse ch de x, como em todo o Norte. 

12. Differença-se / de ç (tendo ç o valor que tem no Porto, e/o 
valor que tem na Beira) : çapato, fapo. A mesma distincção ha entre 
z e/intervocalico: zelo, dezde, coifa. No fim de palavra e antes de con- 
soante surda osé attenuado, como em caspa. — Esta distincção entre 
/ e ç , de um lado, e / intervocalico e z, do outro, tenho-a observado 
cm toda a raia, desde o Minho até Almeida (na Beira-Baixa). 

13. Não existe l gutturalizado. O soldado dizia cuVpa, sil e ba, cai*do, 
com o mesmo l que em lata. (Este facto foi observado por várias pes- 
soas. Com l ú quero apenas indicar que o l soa como em lata, etc.). No 
fim diz-sc mie, qnintale, com um <* de encosto, como no geral do país. 



1 4. Diz-se tibo (por teve), fórma que tenho ouvido noutros pontos. 

15. Em pausa, diz-se mia, tki, siu; mas em próclise ha tendên- 
cia para dizer moa, toa, sou, ex.: tmõu pai», *tm prinio*. Cfr. Dial 
trasniorit., vi, § 14. — Esta variação phonetica dos pronomes possessi- 
vos conforme a sua posição na phrase dá-se noutros pontos do país. 



Purfalha, migalha de pão. — Alteração phonetica de farfalha ; 



B) Morphologia 



O) Vocabulário 



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DIALECTOS TRÁ8M0NTAN0S 



o a deu e, por dissimilação (*f&rfdOia; cfr. selada, etc.), e depois w, 
por influencia da labial vizinha. 

Lourigão, ratazana. 

Orelhada, bofetada. — De orelha. 



IX 

LINGUAGEM POPULAfi DE BRAGANÇA 

O moderno termo Bragança está em vez de *Brigantia, atra- 
vés de Bregança, que Viterbo cita no Eltwidario. Quando em 1884 
estive era Tras-os-Montes ouvi muitas vezes dizer ao povo dos arre- 
dores da cidade Brègança (com e aberto). Todavia Bragança já appa- 
rece em • documentos do tempo de D. Sancho 1.° l ; eu tenho encon- 
trado em vários documentos antigos ora Bergança, ora Bargança. 

0 pouco que se segue colhi-o numa noute que passei em Bra- 
gança, em 1884. 

A) Notas grammatioaes 

1. Existe o ditongo ia em fria (=frio), tia ( = tio), pia (=pio), 
palavras que são por éonsequencia monosyllabicas. Este ditongo é 
análogo ao dos verbos fugia, carpiu, etc. 

2. Diz-se vinder, pintiar, etc.; isto é, en (era) atono dá in (im): 
cfr. Dial trasmont., v, § 4-d. Será phenomeno commum? 

3. O o é aberto em porco, ôbo ( = ovo) e ôsso, como acontece em 
toda a raia trasmontana. Este o tem provavelmente o valor do o hes- 
panhol, já notado acima: Dial. trasmont, vm, 1. 

4. Distingue-se ch de x. 

5. Num epitaphio, no cemitério da cidade, encontrei dest? (=des- 
tricto) e administrativo, onde se observa a dissimilaçâo de i-i, a qual 
é geral no reino. 

6. Verbos. Dar faz dárão (por dérão); o pret. da 1* conj. re- 
gular é cm -érão, como casérão-sc (=casárão-se). Parece que também 
se diz dou por deu. 

7. Usa-se a phrase «ir and' 6 Sr. F.», que significa «ir a casa do 
Sr. F.». Cfr. Dial. minhotos, i, § 14. 

B) Vocabulário 

Alustres, relâmpagos. — Já o P. e Carmelo, no seu Compendio 
de Orthographia, Lisboa 1767, pag. 516, traz o termo alastro como 
popular, sem porém dizer de que região. Em mirandês diz-se rdisto e 
rdistrar; em gallego (Dicc. de Pinol, s. v.) lôstrego. — A fórma bra- 
gançana assenta no lat. *lustrum (cfr. lustrare); para o gallego 

1 Viterbo, Elucidário, s. v. Bemquerença. 



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RR VISTA LUSITANA 



tem de se admittir *lustricus; nas mirandesas parece ter havido 
influencia de lista e listra. 

Bragançano, de Bragança. — Esta fórma representa a anterior 
de braganção, usada na litteratura antiga: vid. o meu art Notas de 
onomatólogia portug., in Bev. de estudos livres, i, 42-43. 

Oasula, gancho de ferro no mangual ou malho. 

Oerdeiro (masc), cerejeira. — Na Beira- Alta diz-se cerdeira 
(fcin.). Este nome cerdeira existe também no onomástico e em gallego. 

Gogo, pedra. — Conheço este termo noutras localidades. 

Mangueira, cabo do mangual. 

Meã, uma das correias do mangual. 

Mirandelo, de Mirandella. — E' assim que os de Bragança cha- 
nião aos habitantes de Mirandella («os mirandelos»). Não é este o 
único caso de o nome da terra, tornado masculino, fazer de nome pá- 
trio ou gentílico; os nossos antigos também diziáo os Japòes\ etc. 

Pinchar. — Este verbo é transitivo, ex.: «o burro pirwliou o 
dono», i. é: atirou com o dono ao chão. Sobre jjinch ar, cfr. Cornu, Die 
Portuff. Sjrrache, § 136 (ainda que o etyino *pessulare, que elle 
dá, é difficil de justificar). 

Pírtigo, a parte batente do mangual (i. é, a extremidade). 

Raparigo, menino de collo. — Também em Miranda. 

Ribeiro, variedade de trigo. Synonimo de serôdio e tremês. 

Rôr, grande quantidade. Ex.: tc'um ror de coisas». —Formado 
de (horjror, em próclise. Muito vulgar no reino. 

Serôdio. — Vid. ribeiro. — De serotinus (* serbdvo). 

Sidouro, correia do mangual. 

Terra, região. Ex. « Terra de Bragança», * Terra quente» ^Mi- 
randella), € Terra de Vinhaes».— Era uma designação geographica 
muito usada antigamente. Já num doe. do sec. xni (Elucidário de Vi- 
terbo, s. v. Aziníioso) se lê: «terra de Bragança e Miranda». Esta 
designação encontra-se ainda hoje noutros pontos do Norte, ex. : « Teri a 
da Feira», « Terra da Maia». 

Tremês. Vid. ribeiro. — De *trimensis. 

Ulo. Na expressão «q'é d'ulo?» ( = que é d'elle), usada na Lom- 
bada, c. de Bragança. Cfr. Dial. trasm., vn, 6, e vi, 16-/". 

E a isto se reduz o que por ora tenho a respeito da linguagem 
moderna de Bragança. — Dizem-me que em Outeiro, c. de Bragança, 
ha algumas particularidades de linguagem dignas de nota. — O conce- 
lho de Bragança é um dos mais importantes do reino quanto á glot- 
tologia, pois nelle se fallão, alem do português popular, ou diale- 
cto geral trasmontano, dois idiomas que não são propriamente o por- 
tuguês, mas seus co-dialectos : refiro-me ás falias de Riodonor e Gua- 
dramil. — Era viagens de reconhecimento dialectologico, que em 1883 
e 1884 fiz pela província de Tras-os-Montes, colhi bastantes elemen- 
tos, que successi vãmente irei publicando. — Um doe. do sec. xv, citado 
no Elucidário de Viterbo, s. v. estremo, diz: «...os de Bragança, 



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DIALECTOS TítASMOÍíTÁNOS 



69 



como gente simples e de estremo». Isto significa que Bragança, pela 
sua posição geographica, e pelas condições sociaes dos povos do con- 
celho, está em circurastancias especiaes: taes circumstancias refle- 
ctera-se admiravelmente na linguagem. 



X 

LINGUAGEM POPULAR DE CASTRO D J AVELLÃS 

Castro d^vellãs, ou co Crasto», como lá dizem, fica ao pé de 
Bragança. Estive lá em princípios de Setembro de 1884. Quem sae 
de Bragança segue primeiro por uma estrada macadam, depois atra- 
vessa uns montados de mato; a poucos passos avista a povoação ro- 
deada de campos frescos e verdejantes, com um riacho pelo meio, 
atravessado por um pontão; á entrada do log&r encontra uma fonte, 
do systema trasmontano. O logar é pequeno e de casas humildes. O 
arvoredo vicejante que as cobria, quando cu lá fui, fez-me comparar 
aqnelle sítio, assim bruscamente risonho entre as agruras selváticas 
da província, com uma paisagem minhota. Tanto eu me julgava por 
um momento, não nas margens de Fervença, mas nas do Ave ou do 
Limai Castro d'Avellãs possue uma igreja antiga, a porta de cujo 
adro está ladeada por dois leões de pedra, a respeito dos quaes ura 
padre velho, que parochiava a freguesia, me contou uma lenda *. No 
adro havia uma inscripção romana funerária, que hoje está, segundo 
creio, no Museu de Guimarães. — Em Castro d'Aveílãs ou nos seus 
arredores existem outros restos de antiguidades, que já tem sido as- 
sumpto de estudos especiaes, que não vem aqui a propósito especi- 
ficar. 

Na minha curta visita pude observar alguns phenomenos de lin- 
guagem. Ei-los. 

A) Phonologia 

1. Existe um o tónico muito mais aberto que em mirandês: fôme, 
hóme, óbo, bós (=vós). A forma óbo, com o mais ou menos aberto, é 
característica da raia trasmontana e de certas localidades da Beira. 
Ouvi porém um o menos aberto no ditongo ai e ou; boi, anãmi. Fica 



1 E' a seguinte: Outr'ora, num castello vizinho, que hoje já não existe, um 
fidalgo entregou a mãe á fúria de dois leões. Depois, arrependido do matricidio, 
confessou -se aos frades do Crasto, e foi condemnado por elles a encerrar- se vivo 
num tumulo, levando coinsigo um fio do cabello da mãe, o qual immediatamente 
se transformou numa grande cobra que o matou lá dentro. O tumulo mostra-se 
ainda a um canto da igreja, e a memoria dos leões perpetua- se nos inoffensivos 
monos de pedra que hoje guardão o adro. — E' esta talvez uma das muitas lendas 
nascidas para a explicação de monumentos cuja significação se perdeu. A' cerca 
do cabello mudado em cobra, cfr. IVad. pojt. de Portugal, % 282-,;, e Yevons, Plu- 
tarcWs Horn. Quest, p. lxxxix. Já Medusa, etc. tinhão cobras na cabeça. 



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REVISTA LUSITANA 



pois estabelecida diferença: de um lado, entre simples o, do outro 
entre oi e ou. No ditongo ou a subjunctiva u é pouco distincta. 

2. O e é aberto em tésto (= testo). 

3. Existe o ditongo âu com á claro, ex.: máu. — O ditongo eiem 
rei soa éi (e não di): réu — Existe o ditongo íu em riu (=rio), tiu 
(=tio); é o mesmo ditongo que lá se ouve em fugiu. 

4. As vogaes o e e, quando tónicas e nasaes, são fechadas, ex.: 
bénto, fônte, mônte, pôtUe. Cfr. porém no § 1 : hóme, fáme. 

5. a) As nasaes não são gutturalizadas, como no Minho; são pelo 
contrário sumidas; se as indicássemos, invertendo as vogaes, teríamos, 
por ex. : Cypo, syto, cyo, myo, brio, mgte, etc. Cfr. Dial. estremenhos, i, 
pag. 6. Em cyo, myo, etc, o o é pouco distincto. 

b) A terminação tónica -em soa -ãi, como em Lisboa e na Beira- 
Alta: bâi (com â) =bem; tãi = tem. Palavras que rímão com mãi. 

c) Nas ligações de nasaes com vogal, como em bãi alto, iia, etc., o 
hiato não se annulla com a intercalação de um n guttural, facto que 
se dá noutros pontos de Tras-os-Montes e em certos locaes do Mi- 
nho: cfr. Dial. interamn., vi, pag. 14. 

d) Em gêrãro, têrdro, hônlra, em vez de genro, tenro, honra, está 
intercalado um l gutturalizado, que ás vezes, porém, é pouco perce- 
ptível. Este phenomeno que é vulgarissimo nos fallares estremenhos 
(cfr. Dial estrem., i, pag. 10, § v), pôde parecer extraordinário aqui 
nos arredores de Bragança; mas eu sem dúvida alguma o observei, e 
comigo o observárão as pessoas que me acompanhavão, e cuja atten- 
ção chamei para elle. — Na ligação de outras vogaes com r não o ob- 
servei : irmã Rosa, um rato, um rio. 

e) O en (em) atono ouvi-o pronunciar como êm, ex. lêmbrar. Mas 
parece que a pronúncia offercce variantes, pois nas minhas notas te- 
nho indicado o valor de ã ou um valor vizinho: pfear (= pensar). 

f) Parece que as vogaes antes de consoantes nasaes são nasa- 
lizadas, pois nas minhas notas tenho fmnos (= fomos), e a termina- 
ção -ynJio, e -ynJia (cfr. adeante, § 13). " 

6. Existe o som ch, como em todo o Norte, ex. : chabe, cacho. 

7. O v é substituído por b, se não sempre, pelo menos ás vezes: 
ábo (—ovo) etc. 

8. Existe ç e / reverso; mas quanto a ser ç o de Lisboa ou 
o do Porto faço a mesma observação, que fiz in Dial. trasmont., vi; 10. 
Provavelmente é o ç do Porto. Assim temos : çapato e fapo. No fim de 
palavra junta-se um e de encosto: luze, cruze, rapace, beze (=vez); 
portuguefe, me/e (=mês). Temos pois as seguintes correspondências: 



Por commodidade typographica, represento nas outras partes d'es- 
te trabalho o som / por s, sendo porém s intervocalico a sonora do /. 



Ç 

f 



z 

f intervocalico. 



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DIALECTOS TftASMONTANOS 



9. O lat -ic(u)lu- deu -êUio: berméttio, etc. — A terminação lit- 
teraria -enho (-enha) soa -atilio (=-anha), ex.: lanha (= lenha), tanho 
(= tenho). 

B) Morphologia 

10. Artigo b pronome: 

a) O artigo indefinido é um com o fem. tia. 

b) O pronome pessoal é el com o plural éis. Cfr. Dial trasnwnt., 
i, 14. — Como o pronome elle perdeu o e final, o plural formou-se por 
analogia com os nomes acabados em -el. E' pelo mesmo motivo que 
na Estremadura dizem vais (pl. de valle, cuja pronúncia vulgar é vai) 
e em Lisboa dizem Rilhafáis (= Eilhafolles, por influencia de folie, 
cuja pronúncia vulgar é foi). 

c) O pronome possessivo é mêu, etc. 

11. Partículas. 

a) Diz-se acá, como em gallego e como noutras partes da nossa 
raia. Ex.: «trái aquillo pYòcá». Nesta phrase temos àcá, por causa 
da crase do a fechado de p'ra com o a também fechado de acá. 

b) Diz-se num (em próclise) por não. Ex.: *nnm dou fé». 

c) Diz-se así (i. é, aft), que é fórma archaica. 

12. Fórmas vrrbaes: 

a) Existe a fórma impessoal hai. Cfr. Dial. trasm., i, 16. No plu- 
ral, em próclise: hã-cTir. 

b) O verbo trazer tem a fórma trai (por traz e traze, i. é, no 
pres. indic. e no imper.). 

c) De ser: eu foi *, tu fustes, el foi, nós fumos, bós fustis, eis 
fórum. Nós sámos (por somos). 

d) De ir: bós idi% éis í/õo (quasi bã o). 
p) De sfor: no conj. stéijamos, fórma vulgar em todo o país. 
f) Verbos regulares: 



andei 2 labrêi 2 (= lavrei) 

andéste 8 labrêste 3 

andou 4 lábrôu 4 

andemos labrêmos 

andéstis labréstis 

andêrum labrêrum. 

g) As 2. 81 pessoas do plural acabão pois em -i.<?, como: fustis, 
idis, andéstis. — As 3.** pessoas pl. do preter. acabão cm -eram (com 
um e muito claro, e a nasal um pouco, — vid. § 5-a), como: andêrum, 



i Aqui ouvi o o mirandês: fui (diverso de fui): vid. Flores mirandezas, 
pag. 32. 

* -éi, nào -aí: vid. § 3. 

5 Assim tenho nas minhas notas, e não -stes (cfr. porém § 12 c, fustes), 

* -ou com a subjunctiva u pouco distincta: cfr. § 1. 



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REVISTA LUSITANA 



jantêrum, limpérum, dérum, ou antes andéru, etc. — No imperfeito é 
-álamos e não (como noutros pontos de Tras-os-Montes) -abámos: as- 
sim acabábamos. 
13. Derivação: 

Formão-se deminutivos por meio do suffixo -anho (cfr. § 5-/). Ex. : 
carranho (carro), çapatanho (çapato), pedrariha (pedra). Qualquer 
d'aquellas palavras rima respectivamente com bánho, castanha, lavúia 
(lenha), tanho (tenho). — Este suffixo -ardio deve explicar-se talvez 
por -etúio (cfr. § 9), do lat -íneus. 



15. Phrasks : 

Num m'adbinha (por *não me lembra». Adbinha = adivinha). 
Num dou fé (por «não dou relação, noticia»). 

16. Vocábulos: 

Diantéiro, adeantado. Ex.: to relógio anda dianteiro*. 

Ih lgança, Bragança. — Cfr. Dial. trasm., ix, introd. 

Do pouco que fica exposto, vê-sc que a linguagem de Castro 
d'Avellãs, como a de Bragança, offerece caracteres do que chamo 
isub-dialecto raiano»: cfr. §§ 1, 2, 8, 11-c, 12, etc. 



Carragosa fica perto de Bragança. Numa rápida passagem por 
lã, na occasião cm que fui a Bragança e Castro de Âvcllãs, pude co- 
lher os seguintes factos, graças á bondade do Reverendo Parocho da 
freguesia. 

1. Phonbtica: 

a) Na ligação a ágxva não ouvi o i que na Beira, etc. se costuma 
intercalar para evitar o hiato. 

b) O v 6 substituído por b: bi ( = vi), Birgem, etc. Igualmente 
se diz braba, entraba, onde elle porém é etymologico. 

c) Diz-se bãi (=bem): cfr. Dial trasm., x, 5-fc. 

i Por cueirinhos. 

* Por Belém. O e mudou se em a, por influencia do l. 



O) Faotos diversos 



14. Cantiga popular: 



Cala, cala, meu menino, 
Q'a mãizinha logo bãi: 



Foi lebar os colèirinhos 1 
A' fôntinha de Balãi *. 



XI 



LINGUAGEM POPULAR DE CARRAGOSA 



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DIALECTOS TRASMONTANOS 



73 



d) A mesma differônça que em Castro d'Avellãs notei, de um 
lado entre ç— f } e do outro entre z—f intervocalico, notei-a na Car- 
ragosa: cfr. Dial trasm., x, 8. 

2. Flexões: 

a) Verbos: fostes, fumos (cfr. Dial trasm., x, 12-c);/át, trâi, 
hái (cfr., id., i, 16; e x, 12-a-b). — Não se diz binhera nem andibera, 
como noutros pontos. 

b) O plural do pronome d é éis: Dial trasm., x, 10-6.— Ha um 
pronome indefinido ritum e niua: Cfr. em Viterbo, Éluc., 8. v. nemíi 
(sec. xrv) e niú (sec. xiv), que hão-de ler-se nm e rifà (ou niii). A ori- 
gem é ne(c) unus> *neuno> *neum. Por influencia do n inicial 
desenvolveu-se uma nasal no e. Cfr. também itaL are. neuno, mod. 
niuno, hesp. are. nenguno, mod. ninguno; gallego nengun e ningun 
(Valladares, Dicc. gall., s. v.); asturiano ningun e dengnn 1 (Rato y 
Hévia, Vocabul bable, s. v.). 

c) O artigo indefinido fem. sing. é na. 

d) O deminutivo de marúiâ é manhaninha, e o de fonte é fonte- 
zinha (mas éstas duas formas encontrei-as nuns versos populares). 

3. Phbases: 

a) «Fostes a Vinkaes*?* j simiflcâo . €est * ehrio ^ 
«Molhastes-te ontem?») 81 ^ nmcao - €eòtaò e0 ™>?>- 

b) «Não 3 nVaeórdot (náo me recordo). 

c) Para indicar onde mora qualquer pessoa diz-se assim, por ex.: 
t João dó Souto», «João dá Fonte», o que se deve explicar por «d'ao 
Souto», «d'ó Fonte», onde a preposição a indica o sitio: cfr. em 
Lisboa «aos Anjos», «a Campolide», etc Nos outros casos diz-se em 
Carragosa, v. g. «campo do rio» (e não dó). 

d) «Fostes guardar as éguas» é ir a uma festa, e não jantar lá. 

e) Nomes de campos: Tràlatúda (onde parece entrar a preposi- 
ção trás = t r a n s ) , Fonte relheiro. 

4. Vocábulos: 

Apôr, attribuir. Num verso: «fázem-no mal, e ap&f-m'o a mim». 
De a-jxJr ; ou apponere. 

Oàntigo, cantiga. — A palavra cântigo (masc.) é esdrúxula, = lat. 
canticum. Em gallego também se diz cántiga (esdrúxula), mas a 
palavra é feminina 4 . O português cantiga mal pôde explicar-se por 
cántiga, por causa do deslocamento do accento; eu creio que cantiga 
é um substantivo verbal de *cantigar (*canticare, sobre canti- 



i Dengun pôde ser dissimilaçào de * nengun. 

* Villa em Tras-os- Montes. Esta phrase é uma espécie de apodo. Ha ou- 
tras semelhantes : assim Celorico da Beira tinha outr'ora o nome de Celorico dos 
Bêbado» ou C. Bêbado (que se encontra em doe. ant.) ; ainda ás vezes hoje se diz 
assim por sátvra aos naturaes da villa, mas estes respondem que é Celorico dos 
bêbados gue vão de fora para lá. 

9 Nas minhas notas tenho não, mas a pronúncia vulgar é certamente num. 

* O asturiano offerece igualmente cántica e cántiga* : vid. Rato y Hévia, 
Vocabulário bable, 1891, s. v. 



74 



REVISTA LUSITANA 



cum); cfr. descante, de descantar. Não se pôde pensar num deminu- 
tivo *cantícula, porque o í é breve, e daria e. 

Oortinha, campo junto da povoação. Cfr. Dial trasm., vi, Vocab. 

Devesa, matta. 

Impalvurída, impalvur&da. Estas fórmas entrão nuns versos 
populares, na expressão : agua impalvurida e impàlvurada (i. é, tuJrva 
de pó). O etymo está em pulverem, i. é, pulverata, com o pre- 
fixo -in. O suffixo -ida é pedido unicamente pela rima. A evolução 
foi: *impulvurada (infl. do v) > * impelvtirada (diss.) > impàlvurada 
(infl. do l). 

Isoadal, campo que produz herva na primavera. 

Lameiro, campo só com herva para o gado e não destinado a 
sementeira de pão. Produz na Primavera e no Outono. D'aqui a ex- 
pressão lameiro dJontono. 

Palheiro, casa para guardar palha. — Esta palavra tem outras 
significações em português; por isso a ponho aqui. 

Regada. Parece que significa certa espécie de campo. Esta pa- 
lavra colhi-a nuns versos pop.: tfazem-na cama naquella regada*. 

Sequeiro, sítio par* recolher a lenha perto da casa. Em alguns 
pontos de Tras-os-Montes tem o nome de várdia. 

Terra, campo não murado. 

Uva, cacho de uvas. Ex.: cdá cá uma uva*. O mesmo noutros 
pontos da província. 

Lisboa, Julho de 1893. 



Recolhidas em Aldeia de Santa Margarida, concelho de Idanha-a-Nova 



Em certos dias da quaresma, especialmente na semana santa, 
percorrem as ruas, a altas horas da noite, alguns indivíduos, encom- 
mendando as almas. Chegando a qualquer largo param, tocam uma 
campainha, e em seguida cantam em estylo plangente: 



J. Leite de Vasconcellos. 



ALGUMAS TRADIÇÕES POPULARES 



i 



RNCOMMENDAB AS ALMAS 



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ALGUMAS TRADIÇÕES POPULARES 



75 



O' almas que estaes dormindo 
Nesse somno tão profundo, 
Lembrae-vos que podeis estar 
Amanhã no outro mundo. 



Um dos encommendadores pede vários padre-nossos, pelos que an- 
dam sobre as agoas do mar, pelos parentes de cada tim, etc. 



n 



O BRLOCISSIMO 



Também durante as sextas-feiras da quaresma percorrem as ruas 
grupos de rapazes e raparigas cantando o bellocissimo, cuja letra é a 
seguinte: 



O' Belocissimo O' Belocissimo 

Senhor Jesus Christo, Senhor Jesus Christo, 

Pela vossa morte e paixão. Pelos divinos cravos. 

O' Belocissimo O' Belocissimo 

Senhor Jesus Christo, Senhor Jesus Christo, 

Pela vossa c'roa ^espinhos, etc. 



e por esta fórma vão enumerando os martyrios de Christo. 



m 



ALVIÇARAS 

Na madrugada de sabbado de alleluia vão-se dar as alviçaras 
(boas-festas) á Senhora da Granja e á Senhora das Dores, e por fim 
ao vigário da freguesia, cantando-sc cantigas allusivas á Resurreição, 
com acompanhamento de violas, guitarras e adufes. 

ftecordo-me que, á porta do vigário, se costuma cantar: 

Acorde, senhor vigário, 
Que já dá o sol na cruz: 
Venha dar as boas festas 
Ao Coração de Jesus. 

O parocho costuma oferecer nesta occasião vinho e fructas seccas. 



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REVISTA LUSITANA 



IV 



SERRAÇÃO DA VELHA 



No dia conhecido geralmente por esta designação, percorrera as 
ruas grupos de rapazes já um pouco embriagados, carregando com 
um enorme cortiço. Chegando á porta das mulheres mais idosas põem 
o cortiço no chão, e, fingindo que estão serrando a velha que se sup- 
põe estar dentro do cortiço, gritam com toda a força : ai a nossa avó, 
ai a nossa avô F.... 



E' costume ir chorar o entrudo á porta de indivíduos que se sabe 
não gostarem que se lhes falle nalguns pontos ridículos da sua vida. 
E' claro que esté costume provoca muitas vezes scenas de pugilato. 

Os choradores d'entrudo são dois ou tres ; para reforçarem a voz 
servem-se d'uma espécie de trombetas feitas de cabaças. 

Trava-se entre elles o seguinte dialogo, ou análogo: 

— O' amigo F. (nome de pessoas com que se quer gracejar), 
estás tu lá ou não? 

— Onde ha de elle estar, senão sentado ao seu lume, a conver- 
sar com a mulher e com os filhos. 

Todos. — E' verdade, é verdade! 

— O 7 amigo, lembras-te ainda de quando mataste o porco? 

— Pois não ha de estar lembrado, se até, sem elle saber, lhe 
roubaram o rabo do porco no dia da matação. 
Todos (rindo): — E' verdade, é verdade! 



Deita-se fóra o entrudo, á meia noite de 3.» feira, disparando ti- 
ros, queimando bombas e atirando á rua com vasos de barro. 



ldanha-a- Velha, insignificante povoação distante poucos kilo- 
metros de Santa Margarida, foi, segundo a tradição, a pátria do rei 



V 



CHORAR O ENTRUDO 



VI 



DEITAR FÓRA O ENTRUDO 



vn 



LENDA DE 1DANHA-A-VELHA 



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ALGUMAS TRADIÇÕES POPFLARES 



77 



Wamba, e sabe-se que foi uma grande cidade; porém foi tal a quan- 
tidade de formigas que alli appareceram num certo anno, que as crean- 
ças, apenas nascidas eram logo accomettidas por enormes chusmas 
(Testes insectos, comendo-lhes os olhos e matando-as instantanea- 
mente. Resolverão então os habitantes abandonar a cidade e irem 

s estabelecer-se no sitio onde hoje é a villa de Idanha-a-Nova *. 

Os poucos que ficaram apresentam hoje um aspecto doentio, de- 
vido ás febres endémicas que alli grassam; por terem o ventre proe- 

' minente e o estomàgo muito desenvolvido são conhecidos pelo nome 
de íeibedos de Idanha-a-Velha». 



VIII 

LENDA DO REI WAMBA 

Wamba foi escolhido para rei quando andava lavrando os seus 
campos. Quem lhe deu a noticia foi sua mulher na occasião em que 
lhe apresentava para o jantar um gallo guisado com arroz. Elie não 
deu credito a tal noticia e disse: «quando este gallo cantar, serei eu 
rei de Portugal». O gallo saltou de entre o arroz e começou a cantar 
como se estivesse de excellente saúde. 

Outro prodígio não menos notável precedeu a acclamação de 
Wamba: a vara da aguilhada com que conduzia os bois cobriu-se de 
flores viçosas 2 . 



i [Já na antiguidade se encontrão nos povos ibéricos tradições populares 
análogas a esta. Avieno, no seu poema Orae maritimae, v. 156, falia dos Oes- 
trymnicos, que tiverao de sahir do seu país pela abundância das serpentes : 

Post multa serpens effugauit Íncolas. 

Estrabão, Geographia, m, v, 2, conta que, em virtude de grande número de 
coelhos que se criárâo nas ilhas Baleares, os habitantes se virão na dura necessi- 
dade de buscar o auxilio dos Romanos. — J. L. dk V.]. 

* [Sobre o florescimento da aguilhada e factos análogos, cfr. as minhas 
Trad. pop. de Port., pag. 105. Esta tradição já remonta a antiguidade : Silio Itá- 
lico, Punicorum, xvi, 587-589; Ovidio, Metam, xv, 560 sqq. 

A resurreiçâo do gallo em circumstancias parecidas, é também referida em 
coutos populares nossos, que tenho ouvido. Uma vez o milagre realizou-se estando 
uns padres a jantar em dia de confissões; um d'elles disse que seria mais fácil re- 
suscitar e cantar o gallo que estava na mêza, já cozinhado, do que salvar- se certo 
penitente, — e immediatamente o gallo se ergueu na travessa e cantou. — Sobre 
este milagre vid. : 

a) F. J. Child, The English and Scottish popular Battads, Boston, Parte l. - , 
pag. 233, n.<> 22 (Stephen and Herod), e Parte 6.-, pag. 502; 

ò) H. Gaidoz, in Mélusine, vi, 24 e 25 (o qual cita também o auctor supra- 
mencionado). 

Nestes dois AA. se achâo reunidos muitos elementos comparativos para o 
estudo do milagre, o qual tem sido muitas vezes tratado na litteratura oral e es- 
crita de varias nações, e é já referido numa interpolação de dois manuscritos gre- 



78 



REVISTA LU8ITANA 



Parece que, também segundo a lenda, a mulher d'este rei lhe 
não foi de grande fidelidade, porque consta que elle proferira um dia 
estas terríveis palavras: 

Saiba Deus e todo o mundo 
Que o rei Wamba que é cornudo. 



IX 

LENDA DA MATA E DA TORRE 

À pequena distancia de Santa Margarida ha as insignificantes 
povoações da Mata da Rainha e da Torre. A tradição explica a ori- 
gem d'estes nomes pela seguinte fórma: 

c Havia um rei mouro que tinha uma filha muito formosa. Dois 
príncipes a pretendiam, mas, tendo o rei mouro os dois pretendentes 
em grande estima, e, não sabendo por qual d'elles se havia de resol- 
ver, encarregou um de fazer uma mina (escavação subterrânea para 
se encontrar um veio de agua) e ao outro mandou-o fazer uma torre, 
promettendo a filha como premio ao que primeiro concluísse o tra- 
balho. 

Succedeu porém que ambos concluíram o trabalho ao mesmo 
tempo, e, correndo a dar a noticia ao rei, chegaram também ao mesmo 
tempo ao palácio. 

— Torre feita, diz um. 

— Agoa á porta, diz o outro. 

— Filha do rei morta, acerescenta o rei. 

Metteram a pobre menina num cortiço e serraram-na pela cin- 
tura. 

Quando ouviu a sentença do pai, diz a tradição que ella excla- 
mára: 

Na Torre fui creada 
Na Mata me matarão; 
Pois a minha formosura 
Foi a minha perdição. 



gos do chamado Evangelho de Nicodemos (a The ultímated source of the miracle 
of the reanimated cock is an ioterpolation in two late Greek manuscripts of the 
so-called Gospel of Nicodemus». — Child, op. cit., Parte i, p. 239). 

Sem embargo, a existência histórica de Wamba, rei wisigodo da Hispânia, é 
indiscutível ; a fixação da sua lenda em Idanha tem também tal ou qual base his- 
tórica, pois diversos reis wisigodos cunhárâo moeda em Egitania (ldanha). A 
fórma mais antiga do nome Idanha foi *Igaeditania, correspondente ao da 
<'civitas» dos Igaeditani, mencionados in Õ. I. L., 11, p. 49.; mas o nome que 
apparece nas moedas wisigodas é EGITANIA a par de ECITANIA, com C por 
G, como ó vulgar nas legendas e inscripçòes. — J. L. or V.]. 



■ JBJU JBLWB.J m* 



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ALGUMAS TRADIÇÕES POPULARBS 



79 



X 

XACARA DA CAPTIVA 



Captivaram-mò dos mouros 1 
Entre la paz e la guerra, 
Levaram-me a vender a Sales 
O' que mala terra! 
Não houve mouro nem moura 
Que por mim una blanca dera, 
Houve só um perro mouro 
Que por mim cem doblas dera. 
Dava-me uma má vida 
Una má vida mui perra, 
De dia moía o cravo 
E de noite la canela. 
Punha-me um freio na bocca, 
Para que não comesse d'ella. 
Quis Deus a minha fortuna 
Dar com una ama mui bella, 
Quando o mouro ia á caça, 
Punha-me ella á sua mesa, 



Também me dava bom vinho 
Por uma garrafa francesa; 
Deitava-me no seu colo 
E me catava a cabeça. 
Muitas vezes me dizia : 
— Vae christã á tua terra. 
— Como hei de ir, senhora, 
Se me falta la moeda? 
Metteu a mão á fraldiqueira 
E cem moedas me dera. 
— Quando te vires em braços 
D'essa doce companhia, 
Diz-lhe que eu te resgatei 
E por ti fico captiva; 
E se lá a achares morta 
Volve logo á Turquia, 
E vem a pagar affectos 
De quem tanto te queria. 



XI 

XACARA DAS DUAS IRMÃS CAPTIVAS 



O' mouro, se fores á caça, 
Traze de lá uma captiva, 
Que seja de bom sangue 
Senhora de mais valia. 
Chegou o mouro da caça 
Mui contente á maravilha, 
Ajoelhou a christã 
Para onde o sol nascia. 
— Bemdito sejaes, Senhor, 
Bemdita a Virgem Maria, 
Inda hontem era condessa, 
Hoje escrava de cozinha. 
Se a moura estava pejada 
A captiva também ia; 
Logo foi por Deus servido 
Parirem ambas num dia. 
Lisboa. 



— Se tu quiseres, christã, 
Trocar-me a tua cria. . . 

— Isso é que eu não faço, 
Isso é que eu não fazia. 

— Dize, captiva, como queres, 
Que se chame a tua filha. 

— Seja Maria das Flores 
Como uma mana que eu tinha, 
Que m'a roubaram os mouros 
Dia de Paschoa florida, 
Quando ella colhia flores 
Num jardim que meu pai tinha. 

— Vinde abraçar-me, captiva, 
Que sois uma mana minha. 

— Essa Maria das Flores 
Sou eu que tanto vos queria 

A. Alfredo Alves. 



* [Creio que deverá ser: «capti varam- me-loê Mouros». — J. L. i>k V.]. 



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REVISTA LUSITANA 



MISCELLANEA 



I 



NOTAS AÇORIANAS 



1. Formas dialectaes 



Aoegado, soccgado* Explica-se, creio ca, por dissimilação de 
syllabas das fórmas asessegado, assossegado, cujos primitivos asessego 
e assossego se encontram, por exemplo, em Sá de Miranda 105 22, 
107 289 (ed. da Snr. a D. Carolina Michaêlis). Cf. necidade vulgar por 
necessidade (nos Açores.) 

aoooméda-te, accomóda-te. Em logar de accomodar diz-se aque- 
modar ou accotnedar por dissimilaçáo; o e da última fórma tornou-se 
aberto sob a influencia do accento tónico, como se fosse radical *. Cfr. 
alemtej. vévem (por vivem), que assenta em vevia, fórma esta que ap- 
parece por ex. no Cane. da Vatic. n.°* 515 12; vevi 545 18, 537 5, 



aloáoia, acácia. Haverá aqui influencia de palavras árabes, 
alparda, á noute. 

antanoe, então. Cf. antão e o archaico entonces. 

Badanella, Magdalena. Cf. Moudanella, = Moudalena, Cornu, in 
Grundriss, p. 728. Temos aqui mais um exemplo da troca entre b e m 
que se encontra em casos como Belchior, busaranho. rebocar e outros. 
Cf. Cornu, ib., p. 751. Vede, também, o seguinte. 

bilhafre, milhafre. 

ooivas, couves. Também commum em Portugal. 

dançarmos = dançámos. Por analogia, como me fez observar 
o snr. J. Leite de Vasconcellos, de dançáramos, por serem idênticas as 
fórmas da 3.» p. plur. do pret. perf. e do pret. mais-que-perf. Vulga- 
rissimo nos Açores. 

diente, diante. Vulgar no continente. 

esoorçoado, descorçoado. Facto análogo a espedir por despedir, 
fórma archaica muito commum. Cf., por ex., Cane. da Vat 854, 9, t se 
mh auv' a espedir*. Nos Açores ha também espedida por despedida. 
Veja-se ainda J. Leite de Vasconcellos, Dial. Interamn., vu, p. 31; viu, 
p. 15; e istruir por destruir, Dial. Extrem., i, p. 33. 

espadaria, hospedaria. Ha aqui influencia do s na vogal átona 
precedente e assimilação de vogaes (e — a). 

J Explicação do anr. J. Leite de Vasconcellos. 



648 6. 



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MISCELLANEA 



estirada, estrada. 

flnlquito, faniquito. Por assimilação de a átono a i, como por 
ex., em piniguado por paniguado. Cf. Cornu, in Orund., i, p. 738. 

fosques, fósforos. Conhece-se também em Portugal. 

inzuneiro, onzeneiro. Troca de vogaes átonasjcomo, por ex., 
em imbiffo por umbigo, etc. Cf. R. Gonçalves Vianna, Études de grawr 
rnaise portugaise, Louvain, 1884.]. Usadissimo nas ilhas dos Açores. 

ofeoiente, sufflciente. 

ouvisto, ouvido, por analogia com insto. Cf. Cornu, Grundrm, 
i, 803. 

puze, pois. Cf. J. Leite de Vasconccllos, Dial beir. v-vj, p. 6, 7. 
ralo,-a, raro; cf. Cornu, Gr., i, p. 761, e ràlidade; J. Leite de 
Vasconcellos, Dial. Extrem,, r, p. 36. 
repá, rapaz. 

sebandlja, sabandija. Cf. sevandijado, Dial Extrem., i, p. 36. 
tâussa, taxa (Fayal). Cf. Bev. Lus., i, p. 51, e Cornu, Gr., i, 
p. 728 toassar, taxar. 

o urrei, o rei, pela repetição do artigo. 



Publicarei aqui uma seguidilha que dizem as crianças na ilha do 
Fayal, quando brincam juntas, e a que se chama aravenga l . 



1 Devo-a á obsequiosidade do iilustre litterato açoriano, o Ex. mo Snr. Ernes- 
to de Lacerda de Lavallière Rebello, da Horta, Ilha do Fayal. 

2 Esta mudança de pessoa é bastante commum na poesia popular de todos 
os povos. Cf. um bello artigo de Jacob Grimm, in Ktcinere Schriften ; e J. Leite 
de Vasconcellos, Dial. algarvios, i, p. 18. 

REY. LUSIT., VOl IIT, faSC 1. 6 



2. Poesia popular 



Já não quero, já não quero 
amores com frade máu; 
já morreu o Catimbau, 
sua mãe o vae carpindo. 
Juro que lhe vae referindo 
a mana com seu rigor. 
Alfinetes são amores; 
d'isso lhe darás boa prova, 
Maria da Venda Nova, 
que imprimis formosura. 
Só os patifões tem ventura, 
ventura os patifões tem, 
que te tratam com desdém. 
Também trago o meu arado, 
debaixo do meu capote;* 
também os homens honrados 
tocam na zangariana. 



São bons homens de Vianna, 

morando ao pé do rio, 

que de inverno faz frio, 

e de verão calma vae. 

O' homem, se tens de andar, andar, 

serão, tirai-vos 8 do caminho, 

cabeça abaixa e focinho. 

O' homem, o rosto alevanta, 

que o vinho é coisa santa, 

e com elle me governo 

na maior parte do inverno. 

Navega o barco sem vela, 

menina, que estás a janella, 

pareces um anjo do ceu. 

O' freira, tira o teu veu, 

se acaso não és torta. 

Passei pela tua porta, 



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82 



REVISTA LUSITANA 



belisquei-te no ferrolho. 
O pastel é para o molho, 
e o alho para a açorda, 
cinco reis de carne gorda, 
outro tanto de dobrada, 
não ha soldado sem espada, 
se acaso a não empenhou. 
Quem disse — mulher, errou; 



antes disséra — mudança ; 
O amarello vae na dança, 
que a minha dama o leya, 
mais o não ha-de levar 
para não olharem p'ra ella. 
A melhor sôpa que se faz, 
é do olho da panella. 

Henry R Lang. 



II 

CERÂMICA POPULAR PORTUGUESA: ASSOBIOS DE AGUA 

O snr. François Daleau, que se tem occupado de estudos prehis- 
toricos e ethnographicos, pediu-me, por occasião de me enviar o fo- 
lheto Cltandeliers et Mortiers en terre atite (Bordeaux 1892), infor- 
mações á cerca de assobios de barro que sirvam de brinquedo ás crian- 
ças, mas dos que se enchem de agua para modular o som. 

Diz o auctor: tje possède un certain nombre de ces pièces mode- 
lées avec une três grande naiveté, provenants des pays suivants : Fran- 
ce, Allemagne, Bohème, Hollande, Suède, Suisse, etc. Je n'ai rien 
encore du Portugal et j'ai seulement d'Espagne un petit Taureau-sifflet, 
Je me rapèle avoir vu à Cartagena de petites madones et d'autres 
statuettes de formes três archaíques que Ton vendait à cinq et dix 
centimes». 

Dando ao snr. François Daleau as informações pedidas, enviei-lhe 
uma carta, cuja traducção publico abaixo, por me parecer que talvez 
este assumpto tenha interesse para os que se occupam da ethnogra- 
phia portuguesa. 

Lisboa, Julho de 1893. 

Ex. roo snr. François Daleau: 

Prezado snr. 

Recebi com agrado a carta que me mandou com data do 25 de 
Maio passado. Junto com ella recebi um opúsculo Chandeliers et 
Mortiers en terre cuite, que muito agradeço, porque muito me interes- 
sa. Depois que recebi a carta de v. ex. a , nem mais um momento des- 
cansei até dar cumprimento ao pedido que me fez dos assobios de bar- 
ro. Se ha mais tempo não dei resposta, foi porque estive a recolher os 
objectos para lh'os remetter com esta. Os assobios de barro, que va- 
riam e modulam o som por meio da agua agitada pela insufflação do 
tocador, existem em Portugal ; mas o seu apparecimento e fabrico cir- 
cumscrevem-se a um local e a um tempo determinado do anno. Estes 
assobios de barro, a que dão o nome de ronocinôes, só se fabricam, se- 



MISCELLANEA 



83 



gundo penso, na cidade de Lisboa, e suas circumvizinhanças, e só appa- 
recem profusamente á venda, ao preço de 20, 30, 40 e 50 réis, nos 
dias 12, 23 e 28 de Junho á noite, e depois desapparecem completa- 
mente da circulação, para não voltarem senão d'ahi a um anno. 

Os assobios, pois, relacionam-se com um facto tradicional, em razão 
de só serem usados na véspera de Santo Antonio de Lisboa, de 8. João 
e de 8. Pedro, occorrendo ainda a circumstancia de só serem usados 
na cidade de Lisboa, segundo informações que tirei a esse respeito. 
Se em outro logar apparecem, serão levados d' esta cidade para lá x . 

Os assobios não são fabricados por oleiros profissionaes : são in- 
divíduos curiosos ou habilidosos do baixo povo que, no intuito de ga- 
nharem alguns vinténs, se dedicam naquellas epochas á feitura de taes 
peças, de origem puramente archeologica. Nos dias indicados acima, 
fazem uma espécie de feira nocturna onde os veem vender em barra- 
cas enfeitadas adrede, que levantam no mercado central de Lisboa 
(Praça da Figueira). A este local, logo que começa a anoitecer, nos 
dias supra-indicados, concorre o povo profusamente, com especialidade 
o povo baixo, a comprar vasos de mangericão, ramos de flores artifi- 
ciaes e naturaes, fructos temporãos, etc; e os rapazes compram e to- 
cam nos taes assobios tão calorosa e phreneticamente que ensurdecem 
os transeuntes! Porém, repito: o uso d'estes assobios é só nas noi- 
tes acima indicadas, ou quando muito até o outro dia; depois, guar- 
dam-nos, lançam-nos fóra, ou quebram-nos. A observação mais impor- 
tante á cêrca dos assobios de barro está neste facto. 

Os assobios de barro, como todas as cousas usadas pela humani- 
dade, vão experimentando modificações evolutivas, sem comtudo per- 
derem o seu caracter archeologico. Assim, a pasta grosseira do barro, 
o pipo insufflador, os orifícios para a modulação dos sons, a cavidade 
para a agua, etc, são conservados intactos ; mas a parte esthetica do 
assobio mira quasi sempre a um fim que se correlaciona invariavel- 
mente com um assumpto critico ou satyrico, tendo por alvo a politica, 
a religião, a criminalidade, e vários acontecimentos que absorvam a 
attenção publica nesse momento ou em epochas próximas. 

Como prova do que digo, ahi estão os 12 exemplares que nesta 
occasião lhe remetto. Poder-lhe-hia remetter uma centena talvez d'el- 
les com variadas fórmas e variados intuitos críticos; mas pareceu-me 
este numero sufficiente para elucidação do objecto. 

Se dividirmos os 12 exemplares em séries, teremos: 

Na 1.' série os n.°" 1 e 2 (republica e gallo-phenomeno) referin- 
do-se á politica — o n.° 1 exalçando a republica, e o n.° 2 criticando 
um padre politico, metarmorphoseando-o em gallo. 

Na 2. a série teremos os n. os 3, 4, 5 e 6 (bispo, cónego, padre, e 
jesuíta) referindo-se á religião, como elemento popular critico. 

Na 3.* série teremos os n. 09 7 e 8 (João Brandão e irmã Collecta) 

i [Depois de já composta esta página, disserào-me que os rouxinoes de barro 
bc uzáo também em Évora, para onde vão de Estremôs. — J. L. pk V.]. 



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84 



REVISTA LUSITANA 



referindo-se á criminalidade — o n.° 7 como o typo da turbulência ; e 
o n.° 8 como typo da crueldade, porque a tal irmã foi accusada pelos 
tribunaes de levar á deshonra e depois envenenar uma linda menina. 

Na 4. a sério teremos os n.°* 9 e 10 (Serpa Pinto, e toureiro) re- 
ferindo-se a factos nacionaes contemporâneos : — porque o personagem 
do n.° 9 fez a travessia da Africa ; e porque o n.° 10 representa o typo 
das diversões tauromachicas, uma das mais attrahentos da Península 
Ibérica. 

Na 5.* série teremos os n. 0- 11 e 12 (tomate, e um vaso) referin- 
do-se a puras futilidades. 

Bastante me empenhei na pesquisa de um facto positivo que me 
conduzisse com segurança a aventurar uma proposição que ligasse este 
uso archeologico, continuado agora em espaço e tempo circumseriptos, 
com outro ou outros remotos e originaes ; foram, porém, baldados os 
meus esforços. Julguei prudente, portanto, não aventurar proposições 
incertas a respeito da origem dos assobios de barro em Portugal. Se 
uma solução positiva apparecer para os outros países que tenham o 
uso dos mesmos assobios, talvez possa ser applicada a este reino. 

Sem mais assumpío, subscrevo me com o máximo respeito e con- 
sideração, 



DUAS PALAVRAS SOBRE A C0LL0CAÇÃ0 DO ADJECTIVO EM PORTUGUÊS 

As grammaticas da língua portuguesa, quer nacionaes, quer es- 
criptas por estrangeiros, e tanto as elementares como as historico-coni- 
parativas e philosophicas costumam dar uma única regra (bipartida) 
muito resumida e vaga, com poucos exemplos illustrativos, sobre a 
collocação dos adjectivos qualificativos. 

O que ensinam é o seguinte: 

Adjectivos de significação restrictiva, que designara qualidades 
accidentaes que os objectos podem têr ou deixar de têr, collocam-sc 
depois do substantivo. 

Adjectivos de significação explicativa que exprimem qualidades 
essenciaes que convêm necessariamente a um objecto, podem empre- 
gar-se ad libitum ou antes ou depois. 

Os exemplos stereotypos do primeiro grupo são homem sábio, ho- 
mem virtuoso, mel amarello (?) ; os do segundo neve branca, branca neve; 
doce mel, mel doce; homem mortal, mortal homem. 

Ensina-sc portanto que é cousa completamente indiíferente e ar- 
bitraria a collocação da maioria dos adjectivos; ao passo que uma 
respeitável minoria fica sujeita a leis rigorosíssimas! 

Escuso de dizer que tão falsa é a primeira regra como a segunda. 

Das multíplices razões euphonicas, de harmonia e de rhytmo, 
e também de significação, que decidem da escolha, feita individual- 



Dr. F. Ferraz de Macedo. 



III 




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klSCÈLLANKÁ 



mente pelo orador em cada uma das phrases que profere, nem pala- 
vra nos dizem as grammaticas, apesar de darem margem a muitíssi- 
mas observações subtis, e interessantes, não sómente para os futuros 
poetas e rhetores, mas também para os poucos portugueses que não 
entram n'estas categorias. 

O que estranho ainda mais é que nem sequer se mencione o facto 
importante que muitos adjectivos mudam de significação, consoante 
são antepostos ou pospostos ao substantivo, facto aliás conhecido como 
peculiaridade da lingua francesa. 

Darei alguns exemplos (colligidos por mim da lingua viva) que 
recommendo á attenção do distincto grammatico, o Snr. Epiphanio Dias, 
e ao autor dos Exercidos preparatórios de Composição, porque opino 
que a analyse, interpretação, colloccionação e composição de taes phra- 
ses contribuirá para desenvolver agradavelmente as faculdades dos es- 
tudantes, ensinando-os a ampliarem e modificarem pelas suas próprias 
investigações as regras lacónicas e doutrinarias das Grammaticas. 

Aprenderão assim que certas qualidades que são apenas acci- 
dentaes, quando referidas á espécie, pódem tornar-se essenciaes em 
certo e determinado individuo da mesma espécie; e que é costume 
enunciar nestes casos primeiramente o adjectivo, para chamar a àt- 
tenção para o característico, que é distinctivo do objecto ou da pes- 
soa a que nos referimos. Reconhecerão mais que tal regra não é, com- 
tudo, infallivel, nem tal costume invariável, e que existem por ex. ad- 
jectivos de significação restrictiva, mas de fórma curta e ás vezes mo- 
nosyllabica (como bom, boa; mau, má), que por via de regra, e contra 
a lei exarada pelos grammaticos, costumam occupar o primeiro lugar, 
mas que, elevados a explicativos, mudam para o segundo. Verão ainda 
que* muitos se antepõem ao substantivo, quando tomados no sentido 
figurado, e que nesta posição, em contacto intimo com o nome, ficam 
ás vezes a formar com ellc uma phrase feita ou uma palavra composta 
(como vangloria, grã-cruz, bom-ditque, etc). 

Passemos agora ás minhas poucas amostras, que poderão facil- 
mente ser augmentadas. 

1. ) Santo. — O Vaticano é um cenáculo de padres santos e San- 
tos Padres. 

Existem muitas casas santas. Porém só sei da Santa Casa da Mi- 
sericórdia, e de uma em Jerusalém, e outra nas Astúrias: 

hizo-la el Rey de los Cielos 
á la sagrada Maria. 

Ninguém nega que innumeras Catharinas e Annas e Madalenas 
pódem ser santas; venera-se comtudo só uma Santa Catharina, uma 
Santa Anna, etc. 

Num dia santo ninguém devia gastar todo o santo dia a trabalhar. 

2. ) Bom. — Quando o anno bom principia, não se pôde dizer ainda 
se será realmente um bom anno. 



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86 



ftÈVlST A LUSITANA 



3. ) Mau. — O actor encarregado do mau homem das comedias, 
nem por isso é um homem mau. 

4. ) Nobre. — 0 pae nobre das tragedias pôde ser ás vezes um 
nobre \me. 

5. ) Verdadeiro. — Os homens verdadeiros são tão raros como os 
verdadeiros homens. 

6. ) Formoso. — A Pedra Formosa da Citania é em verdade uma 
formosa pedra. 

7. ) Branco. — Ha muitas flores brancas, mas poucas que têm o 
lindo nome de Branca-flor. 

8. ) Rico. — Nem cada rico homem era um homem muito rico. 

9. ) Gentil. — Tampouco é um homem gentil todo e qualquer gen- 
tilhomem. 

10. ) Pobre i E' desnecessário explicar a differença que ha en- 

11. ) Velho ( tre um pobre homem e um homem pobre; uma única 

12. ) Único í pessoa e uma pessoa única; um pae-velho e um velho 

13. ) Certo ; pae; certos signaes e signaes certos (p. ex. de chuva). 

14. ) Falso. — Esta fé falsa foi-lhe insinuada á falsa fé. 
Accrescento mais alguns exemplos litterarios, castelhanos, que 

me occorrem neste instante. 

Tirso de Molina, na comedia Privar contra su Gusto, u, 3, diz : 

Porque el privar d'este modo 
todo un hombre ha menester 
y el amor un hombre todo. 

Cervantes Don Quixote: 

Todo cl mundo confiesa que no hay en d mundo todo etc. 
Prim: — La Espana ha tenido reinas perdidas, mas nunca habrã 

perdidas reinas. 

Trueba: — Quiero satirizar a los curanderos titulados que son 
aun mas numerosos que los titulares curanderos. 

Id. — Habia salvado al popidar alcaide que no es lo mismo que 
alcaide popular. 

Guzman de Alfarache, n, 3, x: 

La espaiiola Isabel al mundo espanta 
fundando á Sarda Fé por la/é santa. 

Caminha, Ode vn, estr. 9, separa a quietação santa da santa 
quietação, e Antonio Prestes differenceia, não sei onde, os enfiados 
naturaes dos naturaes enfiados. 

Vou concluir com a simples pergunta : se um bom Diccionario não 
deveria definir claramente taes mudanças de sentido, provocadas pela 
collocação dos adjectivos (p. ex. sub vocibus: certo, todo, vario, ver- 
dadeiro) ? 

Carolina Michaèlis de Vasconcellos. 



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klSCELLANEA 



IV 

TRADIÇÕES POPULARES 
A. Rimas infantis 
1 

Era uma vez um menino 
Que tinha seu pae morto, 
E a sua mãe por nascer, 
Deitou as pernas ás costas, 
E foi a correr por uma serra acima, 
Perdeu a capinha que não tinha, 
Encontrou um pessegueiro 
Carregado d'avelãs, 
Encheu a barriga de maçãs, 
Veiu de lá o dono dos marmelos: 
4 Olá meu menino a comer 
Pepino no faval alheio. 

(Torres Novas). 

2 

Aqui está a chave de Roma; 
Em Soma está uma rua, 
Dentro da rua está uma casa, 
Dentro da casa está uma mesa 
Em cima da mesa está uma gaiola, 
Dentro da gaiola está um ninho 
Dentro do ninho está um passarinho. 

(Torres Novas). 



3 

Mote 

Amores se tu quiseres 
Glosa 3.* 

Filis, se queres, verás 
Hum, e dous, e argolinha, 
Finca pé de pampolinha, 
O Eapaz que jogo faz : 
Passarás, sim, passarás, 
Bello pao para colheres, 
Bem me queres, malmequeres, 
Tu que vás, e tu que véus, 
Dá-me cá os meus manteus, 
Amores, se tu quizeres. 



(Esta glosa está no Cod. ms. 260, 
dos princípios do sec. XVIII, guar- 
dado tia Torre do Tombo. — Neila 
ha uma allusão a uma conhecida 
rima infantil). 

4 

Entrar por uma porta 
Sair por outra, 
Vai ao rei que te conte outra. 

(Iiesponde-se assim a quem pede 
a narração ffum conto. — Coimbra). 

5 

Quando uma criança é pisada 
diz-se: 



88 



UfiVlSf A LttSITÁNÁ 



O debaixo é meu, 
O de cima do judeu. 

(Santarém). 



Está entendido: 
quem está morto 
fica encolhido. 

(Responde-se com isto a alguém 
que diz: cestá entendido t. — Lis- 
boa). 

7 

Padre Nosso 
Carrapatel, 
Comi toucinho, 
Não me fez mal; 
Sc mais comia 
Mais bebia, 
Adeus, senhor Pedro, 
Até ao outro dia. 

(Torres Vedras). 

8 

Engeitado, 
Mal amanhado, 
Come tripas 
De copado, 
Bem amanhado, 
Mal amanhado, 
Mettido num forno 
E tirado com um corno. 

(Santarém). 



No parreiral d'el-rei 
Está um pardal pardo pairando. 
— Porque pairas, pardal pardo? 
— Pairo porque sou o pardal pardo 
Palrador d^l-rei. 

(Santarém). 

10 

Pelo valle d' Ancião 
Vinte cinco cegos vão, 
Cada cego com seu moço, 
Cada moço com seu cão. 



Anda moço deligente 
Faz-me bailar esse cão. 
O senhor é preguiçoso 
Ha de me dar meftostão. 

(Torres Novas) 

11 

Pela serra d' Ancião 
Trinta cegos vão, 
Cada cego com seu cão, 
Cada cão com seu gato, 
Cada gato com seu rato, 
Cada rato com seu grão. 

(Thomar). 

12 

Pela serra d 1 Ancião 
Vae um gato dando gritos, 
Porque lhe cortárão o rabo 
7 Para fazer carrapitos. 

(Thomar). 

13 

Senhor São Vicente, 
Deitae-me um pinguinho 

D'agua quente. 

Santa Maria, 
Deitae-me um pinguinho 

D'agua fria. 

(Coimbra) 

14 

As freiras de Santa Clara 

Ó pim pé 
Àndão numa roda viva, 

Tri lo lé 
Elias no coro de baixo 

Ó pim pé 
Elias no coro de cima 

Tri lo lé. 

(Torres Novas). 

15 

As freiras de Santa Clara 
Tem todas o seu cãozinho, 
Só a madre abbadessa 
Tem um gato sem focinho. 

(Coimbra 



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MISCELLANKÀ 



89 



Senhor São Francisco, 
Tirae-mc este cisco; 
Senhora SantfAnna, 
Tirae-me esta pragana. 



16 



Aqui cheira a louro, 
Aqui anda algum besouro; 
Aqui cheira a unto, 
Aqui anda algum defunto. 



(Ervedal da Beira). 



(Coimbra). 



2 



B. Festas populares 



E elle por cada Entrudo 

Elie dará com fiador 

Quatro sacos de farinha 

Para filhos, para filhós, para filhos. 



1 



Bolinhos, bolinhós 
Para mim e pára vós, 
Para dar a quem está 
Debaixo da cruz 



(No iEntremês do divorcio*, Sec. 
XV1IT, Cod. 211, da Torre do 
Tombo. — Ha aqui uma attusão a 
costumes populares). ' 



Truz, truz. 
Aqui cheira a alho, 
Aqui anda algum dialho; 



3 



Ja no Entrudo não falemos nós 
Que ferue neste tempo a filhós 
E he tal o estrondo de frejir 
Que em bandos os vi vir, 
Homens, raolheres, tudo quanto passa 
A ver o que sucede nesta casa. 



BORRACHA 

Qual é a cousa, 

Qual é ella : 
Teve chavelhos e não tem chavelhos, 
Teve ossos e não tem ossos, 
Teve carne e não tem carne, 
Teve pés e não tem pés, 
Teve focinho e não tem focinho, 
Teve orelhas e não tem orelhas, 
Teve nariz e não tem nariz, 
E tem um olho só por onde chora, 
E adivinha esta agora. 



(A, ib.). 



C. Adivinhas 



1 



(Coimbra). 



* 



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90 



REVISTA LUSITANA 



2 

LEQUE 

Qual é a cousa, 

Qual é ella: 
Está arrecadada 
E está encolhida, 
Está na mão das senhoras 
E está estendida. 

(Coimbra). 

3 

PAPOILA 

Vermelhinha, vermelhinha 
No meio pelludinha. 

(Bragança). 

D. Apodos de terras 
1 

«Prior de hú lugar aonde 
Prendem gentes, soltão cães, 

Despache e despache bem 

Para que elle também 

Solte os cães e Prenda a gente». 

(No Cod. 840, fl. 49 v.° guarda- 
do na Torre do Tombo, se acha 
uma decima de D. Tlwmás de No- 



rordia a D. Bernardo cTAthayde, 
Dom Prior de Guimarães, de que 
se transcreve ama parte que parece 
referir-se á corúieeida rima: 

Guimarães [ou Magalhães] 
Esfola gatos 
Mata cães). 



Mas quem he asno e vay a Santarém 
Assim como asno foy, asno vem. 

(Entremes do Outauado, Cod. 
211, Sec. XVIII, Torre do Tom- 
bo). 



Fiães não vale nada, 
Villa Franca um vintém, 
Arvedal 1 cem moedas 
Só pelas moças que tem. 

(Ervedal da Beira). 



Fialhaes, Fialhaes 
Comem tripas de pardaes; 
Villeiros, villeiros 
Comem tripas de carneiros. 

(Fiães de Ervedal). 



E. «Arelá com a molher que sabe latim 
E com a Mula que dis Mm, 
E de tudo, o que o Letrado he 
Libere nós e Domine». 

(Entremes do Soldado, Cod, 211. Sec. XVII 1, Torre do Tombo). 
Lisboa. 

Pedro d' Azevedo. 



1 Pronúncia popular de Ervedal. 



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B1BLI0GRAPHIA 



91 



BIBLIOGRAPHIA 



i 

LIVROS 

Lautlehre | zweier \ altportugiesischen Heiligenleben \ (Euphrosina und Maria aegy- 
ptiaca | etc. | von Clemens Radermacher | Bonn 1889. 

Este opúsculo foi a disertação inaugural para o seu autor obter o grau de 
doutor na faculdade de filosofia. Serviram-ihe de textos para a análise fonolójica 
os dois do 14.° século, «Vida de Eufrosina» e «Vida de Maria Egípcia», perten- 
centes à antiga livraria do mosteiro de Alcobaça, copiados pelo dr. J. Cornu, da 
Universidade de Praga, na Tôrre do Tombo em 1881, por este publicados no vo- 
lume xi da «Romania», em 1882, e também impressos por essa ocasião em sepa- 
rado com o título de «Anciens Textes Portugais, Vie de Sainte Euphrosyne, Vie 
de Sainte Marie 1'Egyptienne, Fragments Pieux». 

Percorrerei rapidamente o opúsculo, que é um trabalho de consciência e 
bem executado. Como autoridades para o exame dos factos fonéticos revelados nos 
referidos textos, seguiu o sr. Radermacher especialmente duas publicações recen- 
tes: Antonio José de Carvalho e João do Deus, «Diccionario Prosódico de Portu- 
gal e Brazil», e A. R. Gonçalves Vianna, «Essai de phonétique et de phonologie 
de la langue portugaise d'apròs le dialecte actuei de Lisbonne», publicado no vo- 
lume x« (1883) da «Roinauia». O excelente trabalho do dr. Cornu, incluído no 
«Grundriss der Romanischen Philologie», de G. Grõber, (Die Portugiesische Spra- 
che) em 1888, só mais tarde pôde pelo sr. Radermacher ser aproveitado, conforme 
no-lo diz no prefacio. 

Aquelas duas autoridades, o «Dicc. Prosódico» e o «Essai», contradizem- se a 
cada momento uma á outra com relação ao valor das vogais e ditongos, mormente 
do e tónico, porque cada uma delas representou seu falar diverso, o que o sr. R. ou 
esqueceu ou ignora ; nem isto é de admirar, visto que a primeira dessas autori- 
dades não declara cual pronuncia se propôs a figurar, antes insiste em protestar que 
a que figura é a mais jeral, concuanto decidida e exaj era dam ente algarvia, e em 
oposição constante com a indicada pela maioria dos lexicógrafos. Digo que não 
admira, mas não direi que tenha absoluta desculpa, pois o sr. R. poderia, para seu 
desengano acerca dos valores atribuídos aos ee tónicos pe'lo «Essai», consultar ou- 
tras obras facílimas de adquirir, como o «Nouveau Dictionnaire Portugais- Fran- 
çais» de Roquette, ou o «Diccionario Contemporâneo da lingua portugueza», dos 
cuais o primeiro esta acentuado em todos os vocábulos, e o segundo tem de to- 
dos eles a pronuncia figurada. Se os houvesse examinado, reconheceria que a pro- 
nuncia exposta no «Essai», a da capital, é a prevalecente e como que normal, de 
que todos os individuos cultos buscam aproximar-se, e que com maior ou menor 
exactidão adquirem tarde ou cedo, isto é, a do centro do reino; e que a do «Dicc. 
Prosódico» representa um falar extremamente provincial, dogmática e insistente- 
mente imposto, como o exclusivamente correcto, por quem ou nâo pode ou não 
quere ajeitar-se a outro, e que supõe jeral o que e dialectal, atribuindo aos mais 
os defeitos de ouvido que somente são seus. Na realidade, a discordância cuási 
constante entre Vianna e o «Dicc. Prosódico» procede principalmente da existên- 
cia de tres ee tónicos no dialecto algarvio, respectivamente denominados no Dic. 
agudo, fechado e aberto, ao passo que no centro do reino apenas dois normais são 
conhecidos, fechado, que corresponde em jeral ao fechado e ao agudo algarvios, e 
aberto, que na maioria dos casos com aquele coincide. Isto poderia o sr. Rader- 
macher reconhecer logo no prefacio do Dic, para não dar como incerto e vago o 



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REVISTA LUSITANA 



valor de cada t, cuando, ao contrario, em cada dialecto eles obedecem a regras 
fixas; poderia igualmente ler com atenção o que sobre os dois et expõe o dr. 
Cornu, na obra já citada, posto que a pronuncia ali indicada nào seja também a 
de Lisboa, porém manifestamente ultra- meridional, isto é, pe'lo menos alentejana, 
com relação ao valor do e teoricamente fechado, antes de palatal, et, ex, ech, ej, 
elh, enh, a que dá o valor de ê, cuando, como é sabido, e o diz o «Essai», em tal 
situação ele se profere cm Lisboa como â, o que nessa publicação é indicado por 
e. Nào censuro, ainda assim, o ilustre romanista por ter feito eleição daquela pro- 
nuncia, que é a jeralmente indicada pelos lexicógrafos, como líoquette, por exem- 
plo, mormente porque o valor dessa vogal varia de norte para sul, desde è até â, 
e desde â até <; passando por e o talvez por e, complicados, ou nào, com a subjun- 
tiva i reduzido : portanto, o dr. Cornu hesitou em adoptar a pronuncia de Lisboa, 
que, nào obstante, com certeza conhece. H. Sweet insiste na pronuncia êi, que 
atribui ao seu mestre, e o Príncipe Bonaparte vacila. O sr. Leite de VasconccUos 
reconhece a exactidão da descrição do «Essai», com relação a Lisboa. 

O «Diccionario Etymologico da lingua portugueza», do dr. Adolpbo Coelho, 
e o «Diccionario Contemporâneo» marcam c = é. 

Jeralmente, podemos dizer que ê ou è sâo a pronuncia do norte e sul além 
do Mondego e além do Tejo, e que entre Tejo e Mondego domina a pronuncia â, 
sobretudo no litoral, sendo a exclusiva na capital. 

0 (juc, porém, nenhum outro autor prescreve sâo três ee tónicos, isto é um t 
intermédio de è e ê. Por esta razào vai -se tornando evidente a necessidade de se 
fazer um estudo da pronuncia preceituada no «Dic. Prosodico», visto que êste li- 
vro tem tido, à falta de outro melhor conhecido, uma certa aceitação entre os glo- 
tólogos estranjeiros, que em jeral por ele se regulam, nào obstante estar, como 
disse, em desacordo neste ponto com outros trabalhos de maior autoridade. Esse 
estudo tentá-lo-hei eu em breve nesta Revista, comeuanto os preceitos ali estabe- 
lecidos em nada hajam influído como padrão da pronuncia dos vocábulos na je- 
neralidade do reino. 

Dito isto, que me pareceu indispensável, passo a fazer algumas considera- 
ções sobre o interessante opúsculo a que me vou referindo. 

Num brevis8Ímo prefacio o autor descreve sumariamente os dois textos e a 
sua orijem, mencionando que, tanto estes portugueses como outros, provêem de 
uma primitiva redacção latina, pois que um grande número de vocábulos neles 
empregados não é de orijem evolutiva, sendo mera reprodução dos latinos, decli- 
nados em vulgar. 

Divide-se a exposição, como ó costume, em duas secções, A) vocalismo, B) 
conbonantismo \ e numa serie de subdivisões analisa-se a sorte destes elementos do 
latim popular, comparados com os do clássico, com respeito não só aos vocábulos 
e formas portuguesas dos dois textos, mas excepcionalmente a outros vulgares. 

Passando por alto a doutrina que se refere ao a tónico, na cual apenas há a 
mencionar a vocalização apontada do c de * a c q u a m em u, augoa, vemos que 
se consigna como facto que o e de venho, tenho é aberto, o que nào é exacto ; essas 
formas tem ambas o e teoricamente fechado tenho, venho, isto é, tênho, venho, ou 
conforme a pronnnciaçào de Lisboa tânho, vânho. Semelhantemente, o e de êrmo é 
fechado em Lisboa, médio no Algarve êrmo, e assim também besta, bestia, terça, 
deus, meu, teu, emfiin em regra todos os ee agudos do «Dicc. Pros.» 

P. 6. E' indiferente em Lisboa a escrita mester ou mister: em cualquer dos 
casos a vogal átona que precede o * palatal é i, atenuado e ciciado; é portanto 
pouco exacto o considerar a primeira destas formas como antiquada a par da se- 
gunda moderna, pois esta provém de mero capricho ortográfico. 

Tem razão Cornu: contrairo é ainda popular, assim como rosairo, Ântoino 
etc, o que o autor nào consigna. 

P. 16. rastro em oposição a rosto, autorizada a distinção de significado só 
com as definições de J. de Deus, é insuficiente: ròstro é vocábulo artificial, eru- 
dito, e já o «Essai» disse (p. í)7-98) que os ee e oo de tais vocábulos são abertos, 
porque assim se lêem no latim escolar. 

1 V. Btiista Ltuitana, t. I, p. 179. 



BIBLIOGRAPHIA 



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P. 23. O e átono de ssegre, saeculum, monge, monachum, milagre, 
iniraculum é devido talvez a influencia proençal ou francesa; cf. o castelhano 
siglo, milagro. 

Sangue, a par do castelhano sangre, e dos derivados sangrento, sangrar, 
sangria, provém de sanguinem e não de «sangue m, o que é confirmado 
pela forma popular sãigue. Honra, deshonra sào substantivos verbais de honrar, 
deshonrar. 

P. 25. Com respeito à influencia regressiva do r e dos rr sobre e átono para 
o transformar em â, cumpre observar que ela persiste no português actual, não 
obstante a reacção douta que o mantém em vocábulos artificiais, como americano, 
popular amaricano, e mesmo em outros, como sará, jataí, por será, jeral, d'antes 
e ainda provi ncialmente jeral (geeral). 

O i de irmão, é atribuído ao # de germanum; efectivamente o castelhano 
tem hermano. 

O * de virtude, que também aparece no castelhano virtud, italiano virtk, ex- 
plica-o o autor, pelo alongamento do i de virtutem. Eu creio que ( o vocábulo é de 
orijem artificial, semi-erudito; por outro lado a pronuncia popular é, suponho que 
em todo reino, vertude, com c surdo. 

E 1 de muito interesse a parte que, a p. 29 e 30, se refere às vogais á tonas 
entre a tónica predominante seguinte e a tónica subordinada (nebentonig) prece- 
dente, por exemplo cavaleyros, encarnado, maravilhosa, sacerdote, etc. 

Sobre o gu de minguar convém coroparar-se-lhe o vocábulo mangual de 
m anu ale; nestes vocábulos o valor decididamente consonantal do u latino era 
corroborado provávelmente pela pronunciação gutural do n, e tal permutação é 
análoga á do italiano belva, lat. bel lua: ao u consoantal deu- se como represen- 
tante outra consoante, ou grupo em que entrasse elemento labial. A este facto são 
comparáveis também as escritas hu castelhana, e gu castelhana e portuguesa em 
substituição da semi- vogal labial de outras linguas de que se tomaram vocábulos, 
como as americanas, o árabe, etc. 

P. 33. «/ bleibt, oft wird doppeltes / geschrieben ffílha». Sobre a grafia ff 
em vez de /inicial direi o seguinte: s inicial de sílaba escrevia- se/; este sím- 
bolo, porém, cuando medial expressava na maioria dos casos, como ainda hoje o s, 
a fricativa ^apical sonora correspondente à surda que o mesmo símbolo expressa 
cuando inicial; para diferençar os dois sons mediais, sonoro e surdo, escreveu-se 
Jf para o último, c assim este grupo ou compendio adquiriu o valor permanente de 
s surdo, e foi portanto empregado mesmo cuando era inicial: o hábito de escrever 
sempre ff no começo das palavras trouxe comsigo a duplicação ào ff na mesma 
posição, em virtude da cuási identidade dos dois caracteres, o último dos cuais só 
se distingue do primeiro pe'la linha horizontal que o corta na haste. 

O z e o ç é de presumir que primitivamente representassem, como no francês 
antigo, as dúplices dz, ts, que o z ainda representa em italiano, e de que é remi- 
niscência o maior aperto dos órgãos factores com que são proferidos em dialectos, 
etc, onde a diferença entre s surdo e ç, s sonoro e z ainda se mantém. 

P. 39. »b (medial) bleibt in : trabalho. . . » A forma popular em todas as re- 
jiòes em que ha v é travalho f e assim também taverna; as formas com b são eru- 
ditas. O vocábulo, pois nâo faz excepção a regra da conversão de 6 medial em v. 

P. 40. Creio que tem razão em repudiar para o verbo arrevatar, moderno 
arrebatar o étimon de Diez *arreptare> rapta re, porque o p está ampa- 
rado pelo t; pode ser que este vocábulo seja afim de rebate, derivado de bater. O 
«Diccionario Etymologico» de F. Adolpho Coelho considera-o derivado de #ra- 
pitare, que deveria, a ter existido, produzir xrabedar; rap tare deu talvez 
ratar, como c a p t a r e deu catar e mactare deu matar. 

P. 43. O z final dos vocábulos indicados pe'lo autor, voz, paz, cruz, aaz, vez, 
calez (calicem), dez, diz, faz, praz esíá por ç, cuando final de sílaba, porque 
este último não se escrevia em tal situação O seu valor de ç está comprovado 



l V. Rev. Luêitana. vol. i, p. 20Í), nota 2. V. também, sobre êste e outro» pontos «Exposi- 
ção da Pronuncia Normal Portuguesa», LisbOa 1892. 



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REVISTA LUSITANA 



pela pronunciaçâo dêstes vocábulos nos dialectos transmontanos; luç, lutes; faç, 
fazes, etc. 

P. 44. A fornia portuguesa moderna socego ò erro puramente ortográfico, 
cualquer que seja a orijera do vocábulo, o que a pronuncia transmontana e a cas- 
telhana confirmam : nào havia portanto que opor-lhe a forma sossego, única ver- 
dadeira, como obsoleta ; anticuada é a forma sessego. 

P. 45. «b steht in Auslant bei dem gelebrten-Worte Jacab». E' natural que 
este nome se proferisse, como ainda hoje, Jacó, e assim também, Jó, Davi (Job, 
David), e que o b e d sejam meras reminiscências da ortografia latina, como o era 
o ph de Joseph, forma esta que durou até o século presente, por ser aspiração 
hebraica (!), como doutrinava autoritariamente Madureira Feijó, sem nos dizer 
que espécie de arcano continha esta aspiração inviolável. 

P. 60. A forma castelhana antiga alem, que dá como correspondente à por- 
tuguesa aalem, deveria ter acrescentado a moderna allende, que confirma o éti- 
mon illic inde. 

Uma última observação a respeito do opúsculo. Diz-nos o sr. Radermacher 
a p. 58, com referencia à conservação do x latino em formas como Aleixandria : 
«x zu ix: das k des x lõste sich in i auf, welches mit dem voranfgehendeu Vokal 
sich verband ; nach der Tradition wurde der dem k folgende Laut s weiter x gc- 
schrieben». 

O itálico é meu. Isto não é exacto, e na «Rotnania», vol. cit. p. 71 já expliquei 
essa conservação do x: seixo corresponde a saxum, isto é saksum; o k vocali- 
sou-se em i, e este, além de palatalizar o a antecedente em e, transformou tam- 
bém o s apical em dorsal (palatino), escrito na peninsula com x. Assim Aleixan- 
dria nào representa a pronunciaçâo Aleissandria, mas sim Aleixandria, moderno 
Alixandria, isto é Alidandria, Cf. a pronuncia de Lisboa em peixeiro, isto é, pi- 
xeiro, por ser átono o ei. 

O folheto está bem impresso e cuidadosamente revisto. E' de sentir, porém, 
que nào fosse empregado o itálico, abstenção que torna confuso o texto, como se 
pode ver das citações que fiz, especialmente da última. 



Revista de acienciaw naturaes c tfociaet*. Vol. 1.° e 2.° — Por- 
to, 1889-1&93. — Esta Revista é órgão dos trabalhos da Sociedade Carlos Ribeiro, 
do Porto, a qual tem também publicado memorias avulsas : cfr. Revista Lusitana, 
ii, 188. Ha da Revista de sciencias naturaes e sociaes já dois volumes, e consta-me 
que vae brevemente começar a sahir o terceiro. Eis a indicação dos artigos cujos 
assumptos se ligâo com os da Revista Lusitana, abstendo- me eu de, por falta de 
espaço, fazer as reflexões críticas a que alguns d'esses artigos davão margem : A 
questão da anthropophagia nas estações neolithicas da Serra do Cabo Mondego, por 
A. dos Santos Rocha ; Uma obra de arte primitiva, pelo mesmo ; Primeiros vestí- 
gios do período neolithico na provinda de Angola, por Ricardo Severo ; Sobre os 
conhecimentos ethnicos dos Gregos e dos Romanos, por F. Adolpho Coelho ; Os Atlan- 
tes de Diodoro Siculo, por F. Martins Sarmento ; O mytho de Estar, por Th. Bra- 
ga; Notas sobre a malacologia popular, por Rocha Peixoto; Pequenas hachas de 
pedra das estações neolithicas do concelho da Figueira, por Santos Rocha ; O mytho 
chaldeo-babylonico dos amores de Estar, por Th. Braga ; A tatuagem em Portugal, 
por Rocha Peixoto * ; Notas sobre a linguagem vulgar do Porto, por J. Leite de Vas- 

* D'este artigo e do Intitulado Kolas iobrt a malacologia popular fiserao-se edlçSea separadas. 
No segundo trata-te um assumpto quasl novo, ou novo na nossa ethnographia; d'clle darei mais larga 
noticia noutra occaslio. 



A. R. GoífÇALVES VlANNA. 



II 



PERIÓDICOS 



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BIBUOGRAPHIA 



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concellofl ; várias noticias bibliographicus, biographicas e archeologica. Alguns dos 
artigos vem acompanhados de estampas. 

Sâo dignos do maior elogio os esforços empregados pela Sociedade Carlos 
Ribeiro para os progressos das seieucias cm Portugal, tanto mais que esses esfor- 
ços já bons fructos tem produzido. 

J * J. L. db V. 

III 

VARIA QUAEDAM 

Publicações que podem interessar aos leitores da Revista Lusitana, e de al- 
gumas das quaes se fali ar á aqui mais demoradamente : 

— Astronomia, meteorologia e chronologla populares, por 

J. M. Soeiro de Brito, Espozende 1890 (da Collecção de Silva Vieira, n.° 5). — NeBte 
opúsculo o A. limita-se a colligir factos populares portugueses ; apenas duas ou 
tres vezes faz comparações com factos estranhos. Alguns dos factos portugueses 
são já conhecidos, outros são novos ou offerecem variantes. — No Alemtejo cnama- 
8ft astro ao ceu. As varias estrellas e constellações tem nomes tirados geralmente 
da vida pastoral, como cabrêro (Syrius), cabras (Plêiadas), cachcro (Orion), etc., o 
que é muito natural numa região, como o Alemtejo, onde os gados gosâo de tama- 
nha importância. A propósito das doenças causadas pela lua, referidas a pag. 7 e 
35, podia ter-se mencionado o amuleto denominado lua, usado contra ellas, e que 
no Alemtejo.se fabrica de madeira, metal, etc ; cfr. A. Thomás Pires, iu Elementos 
para um Dicc. Geogr. etc , de V. d' Almada, vol. i, s. v. amuleto. Na quadra de pag. 8 

Já o sèdestrello * vae em pino, £ as cabras de seiscentos diabos 

E a barca vae tombada, Não querem tomar malhada, 

parece que as cabras do 3.° verso sào as Plêiadas (que tem aquelle nome); e então 
a outra quadra, que o A. menciona, 

O setfestrêllo vae em pino, As ovelhas de meu amo 

E a lua já vae tombada, Não querem tomar malhada 

fica sendo, quanto a mim, mera degeneração d'aquella fundamental : perdida a 
noção de que a palavra cabras representa uma constellação, substituiu-sc facil- 
mente tal palavra por ovelhas; e, como o pastor não guarda em geral gado seu, 
accrescentou-se-lhe «de meu amo». A'cerca dos astros e superstições annexas, cfr. as 
minhas Trad. pop. de Portugal, cap. i. — Do dictado 

Ramos molhados, 
Ramos melhorados, 

conheço um do Norte do país, assim : 

Ramos molhados, 
Carros carregados, 

que significa que, se chover pelos Ramos, a colheita será abundante. — Sobre o 
vento e a trovoada, cfr. Trad. pop. de Portugal, cap. m. — Também no Norte e 
Centro do país se usào as expressões Santo Entrudo (Beira- Al tn) o dia da S. Nun- 
ca á tarde (Minho), — O que o A. diz do vento e seus noiney, a pag. sqq., é cu- 
rioso e interessante. — Muitas vezes o A. transcreve as superstições no próprio dia- 
lecto do Alemtejo, o que augmenta o merecimento do opusculozinho. Por ex., a pag. 

i Ksta fónna 6 authontica, otj 6 crro*typograpMco por icteitrtllo T 



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REVISTA LUSITANA 



37 apparece-nos o verbo uaar (do lat. * ae qual are), que creio qne também se usa 
no Campo de Coimbra, e e além d'isso archaico (sob a forma uguarj. — A pag. 16 
diz o A. que invernm é contracção de' invernada, mas tal não pode ser: inverna é 
um substantivo verbal de invernar, como rega o é de regar, esfrega de esfregar, etc. 

— Cancioneiro popular politico, por A. Thomás Pires. Elvas 1891, 
vui-72 pag. in-16.° Preço 200 réis. (Faz parte da Collecçâodo Correio Elvense). 

— Calendário rural, por A. Thomás Pires. Elvas 1883,90 pag.in-16.° 
(Faz parte da mesma CoUecçào). 

— J¥oçôe« elementares de grammatlca portuguesa, por F. 
Adolpho Coelho. Porto 1891, 130 psg. in-8.° 

— Camões e o sentimento nacional, por Theophilo Braga. Porto 
1891, vii — 324, in-8.° 

— As lendas enristas, por Theophilo Braga. Porto 1892, xn — 400 
pag. in-8 0 

— As modernas ideias da litteratura portuguesa, por Theo- 
philo Braga. Porto 1892, 2 vol., vn — 446 e 514, in-8. c 

J. L. de V. 

Portugal no estrangeiro : 

— Na Berllner Phllologf sche Wochenschrlft, de 21 de Junho de 
1890, vem um artigo do sr. prof. Epiphanio Dias intitulado Kritische Bemerkun- 
gentu Eutrop («Notas criticas a Eutrópio»), que vérsào sobre os seguintes pontos 
do Breviarium Historiae Romanae: n, 13, 2 ; ih, 22; v, 51. Entre outras edições 
escholares de AA. latinos, o Sr. Epiphanio Dias fez uma também de Eutrópio, a 
qual é a melhor que d'este historiador temos em Portugal. 

— Na revista The Aeademy, n. # 1101, de 10 de Junho de 1893. vem, 
com o titulo de English neglect of Portuguese literature, e assignado por Edgar 
Prestage, de Bowdon, um íisongeiro, embora pequeno, artigo sobre a nossa litte- 
ratura antiga e moderna. 

— Na Aurora do Cavado, de 24 de Novembro de 1891, le se a seguinte 
noticia: «O Sr. Sant'Anna Nery, distincto homem de lettras brazileiro, ha muito 
residente em Paris, conseguiu ahi que a língua portuguesa fosse equiparada á ita- 
liana, hespanhola, etc , como preparatório para o bacharelado em lettras». 

— O sr. W. Storck, a quem a litteratura portuguesa deve tantos trabalhos 
importantes, publicou em 1892 um livro intitulado Aus Portugal und Brasilieti 
(1250-1890) Ausgewãhlte Gedichte («Poesiaz selectaz de Portugal e Brasil», — tra- 
duzidas em allemâo). D este e de outros livros do sábio e prestimoso lusitanophilo 
fallará a seu tempo a Revista Lusitana. 

— Publicou-se o supplemento do Corpus Inscript,io?ium latinarum, vol. n, do 
sr. Emilio Httbner, outro dedicado amigo de Portugal, e, como poucos, conhecedor 
da nossa archeologia. O vol. n do Corpus contém, como é sabido, as inseripçòes 
romanas de Portugal e Hespanha. — Noutro n.° d'esta Revista se dará notícia mais 
circumstanciada. 

J. L. dk V. 



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VISÃO DE TUNDALO 



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VISÃO DE TUNDALO 



INTRODUCÇÂO i 

1. — A visão de Tundalo 2 é, entre as descripçõcs medievaes dos 
tres reinos eternos, uma das mais interessantes; e muitas vezes se 
tem dito, e com razão, que ella contem grande numero de passagens, 
as quaes de certo modo são comparáveis a outras da Divina Comedia. 
E é bem notável que esta lenda se tenha conservado quasi inteira- 
mente intacta, apesar de que, não só pelo seu argumento, que exci- 
tava vivamente a phantasia, mas também pela sua fórma, que con- 
siste em uma serie de descripções, se tornavam fáceis as interpola- 
ções, omissões, e mudanças. 

2. — A Visão de Tundalo succedeu no anno de 1149, a dar 
credito ao que se diz no prologo do antigo texto latino: Visa est ipsa 
visio 1149.° ab incarnatione Domini anno .... ipso eodem anno Mala- 
chias, Dumensis episcopm .... defunctus est 3 . Em época muito pró- 
xima d'aquella em que succedeu, um certo Marcos, capellão de uma 
abbadessa G. 4 , a trasladou em prosa latina. No referido prologo diz- 
se ainda: Placuit vestrae prudentiae, quatenus misterhm, quod osten- 
sum fuerit Tnugdalo cuidam Hibernigeno, noster stUus licet inerudi- 
tus de barbarico in latinam transfei m et eloquium. O sr. Mussafia diz 
que bestas palavras poder-se-hia á primeira vista concluir que Mar- 
cos apenas se tivesse limitado a trasladar em latim um escripto irlan- 
dez; mas como pouco depois accrescenta: Scripsimus vobis fideliter, 
prout nobis ipse qui haec viderat, eandem visionem; e no decurso da 
narração muitas vezes se faz referencia áquelle que lhe tinha contado 
as cousas vistas; resulta que o auctor da legenda é Marcos, o qual 
escreveu a narração irlandeza ou immediatamente em latim, ou pri- 



i Acerca d 'esta lenda veja -se a excellcnte memoria: Sul-la visione di Tun- 
daJ-o, appunti di Adolfo Mussafia, nas Sitzunberichte der Kniserlichen Âkademie der 
Wissenschafirn ; Philosophish-IIistorisch classe, Wien 1871. lxvu Band, Heft i. 
pag. 157-206. Devemos declarar que foi d'esta memoria que principalmente nos 
servimos para escrever esta introducçâo, a qual deve ser considerada apenas como 
um resumo d'aquella, no que dizemos em os n." 1, 2, 3, 4 e 5. Cf. Reme ceUique, 
dirigée par H. Gaidoz, tom. n, 1873-1875, pag. 124 a 12G. 

* Os textos mais antigos tem Tnttgdalum; comtudo o sábio celtista Ebel diz 
que a forma Tnugd nâo parece ser a primitiva, por isso preferimos a fórma vulga- 
risada de Tundalo. 

3 S. Malachias, bispo Dumense, falleceu a 2 de novembro de 1148; a diffe- 
rença de um anno pode explicar -se admittindo que o auctor da Visão fez começar 
o anno de 1149 em 1 de setembro. Alguns códices porém tem : Visa est ipsa visio 
anno 1148, etc. 

* Em um códice le se que o nome da abbadessa era Gertrudes. 

itav. LDSiT., vol. iii, fase. 2. 1 



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98 



R8TI8TA LUSITANA 



meiramente para seu uso cm linguagem barbara, barbarico eloqitio, e 
depois a trasladou em latim para uso da mesma abbadessa. No fim do 
seu escripto, o auctor se encoramenda ás orações da mencionada reli- 
giosa: Vestram. o praeclara O., humílima et devotíssima prece preca- 
mur clementiam. itt nostri licet indigni memoriam in vestris habeatis 
orationibus. Comtudo pôde ainda suppor-se, que as palavras: Scripsi- 
mus vobis fidéliter, prout nobis ipse qui haec vulerat visionem, se devam 
referir ao auctor, que por ventura escreveu em irlandez a Visão; e 
que aquellas: Placuit vestrae prudentiae, qtiatenus misterium quod 
ostensum fuerit Tnugdalo cuidam Hibernigeno nostei* stilus licet ineru- 
ditus de barbarico in latinum tranrferet eloquium, tenham sido accres- 
centadas por Marcos, o qual, differente do auctor, se limitou a tradu- 
zir em latim um escripto irlandez. 

Disse-se atraz que Marcos fez a traducção latina não muito de- 
pois do anno de 1149 ; com efieito no prologo já citado, faz-se menção 
de que no mesmo anno, em que Tundalo teve a visão, em Claraval 
morreu S. Malachias, e accrescenta: Cujas vitam miraculis plenam 
Bernardm Claraevallensis abbas satis loculento sermone transcribit. 
Este verbo no presente, transcribit, parece indicar que S. Bernardo 
era ainda vivo, porque, se assim não fosse, o auctor usaria do preté- 
rito, transcripsit E como S. Bernardo falleceu no anno de 1153, se- 
gue-se que a lenda foi escripta entre os annos de 1149 e de 1153. 

Muitos são os códices em que foi conservado o texto primitivo 
de Marcos, comprehendendo o prologo e a subscripção. Durante muito 
tempo ficou inédito, excepto o prologo, que foi publicado por Mar- 
tene até que em 1869 toda a lenda foi publicada por Oscar Schade *. 

3. — Menos de um século depois que Marcos fez a traducção la- 
tina da Visão de Tundalo, Vicente de Beauvais (Vicentius Bellovacen- 
8is), querendo incluir a mesma visão no Speculum Historitde, lhe fez 
uma revisão, tornando-a mais própria para fazer parte da mesma com- 
pilação. Supprimiu o prologo, conservando sóraente dos seus últimos 
períodos a indicação da data ; omittiu no decurso da narração todas 
as allusões pessoaes do auctor; e no fim supprimiu a breve subscri- 
pção, na qual o escrevente se encommendava nas orações da abba- 
dessa. Reduziu pois a lenda a proporções um pouco mais modestas; 
comtudo limitou-se a omittir phrazes ou períodos, mas não resumiu o 
sentido geral; em tudo o que restou conservou quasi intacto o texto 
de Marcos. A Visão de Tundalo foi incluída no livro xxvui, capítulos 
88 a 104, do Spewdum Historiale. 

0 grande favor, que desde o sen apparecimento obteve o Specu- 
lum Historiale, fez que muito frequentemente se destacassem certos 
fragmentos que formavam um todo por si só, e fossem reproduzidos 
á parte. E* por isso que a partir do século xii se encontra uma nova 

1 Thesaurus no mis anedoctomm, edd. Edm. Martene et Ura. Durand. Lute- 
tiae Parisiorum, 1717, vol. i, pag. 490. 

2 Visto Twugdali, edidit Oscar Schade. Halis Saxonum, 1869. 



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I 



VISÃO DE TUNDALO 99 



serie de manuscriptos da lenda, os quaes contêem a redacção do 8pe- 
culum HistoriaJe. 

A Bibliotheca Nacional de Lisboa possue ura magnifico exemplar 
manuscripto, em tres volumes, do Speculum Historiale de Vicentius 
Bellovacensis; é o códice illuminado Z-6-3, que parece remontar ao 
.século xv. A lenda sob o titulo de Visio Tundali, que se encontra 
no alto das folhas correspondentes, é dada no livro xxvni capitulos 
lxxxviii a civ. Estes capitulos occupam 38 columnas (duas por pagi- 
na) de 43 linhas, em media de 24 lettras. O capitulo lxxxviii, que fórma 
o prologo, tem o seguinte titulo, e começa assim: 

Ixxxviij. De raptu anime tundali et eius uisione Marchus G. áb- 
batisse. capitidus. 

Anno Domini m.c.x.lix. qui fuit annus secundus expeditionis 
ierosolymornm conraãi regis romanorum, et annus quartas eugenii 
papae. in qxio anno ipse papa de partibu* qalliarum rornam reversus 
est. in quo etiam anno sanctus malachias in claraiialU defundtis est. 
Visa est hec visio. 

4. — Além do texto de Vicente de Beauvais, encontram-se outros 
resumos da mesma lenda, os quaes pela maior parte derivam do texto 
antigo. Alguns d'estes resumos têem o titulo de Visio Tundali, outros 
de Apparitio Tundali; todos supprimem o prologo, e começam imme- 
diatamente pelas palavras. Cum anima meu corpus eocuerat. 

Emfim da narração de Vicente de Beauvais encontram-se tran- 
sumptos em diversas obras escriptas nos séculos xiv e xv, e entre ou- 
tras na Chroniea de Santo Antonino. 

5. — Bem cedo o texto da Vi$ão de Tundalo se espalhou por toda 
a Europa, e deu logar a versões nas línguas vulgares, que remontam 
aos séculos xm a xvi; geralmente reproduzem o 'texto antigo de Mar- 
cos; comtudo algumas derivam evidentemente da recensão vulgari- 
sada no Speaãum Historiale. 

Em primeiro logar deve mencionaf-se a versão irlandeza, ainda 
inédita, que se encontra no Ms. H-3-18 do Collegio da Trindade em 
Dublin. Esta versão parece ter uma importância particular para re- 
solver a questão de saber se o texto original da lenda foi irlandez 
ou latino. Conhecem-sc além d'isso traducções em portuguez, hes- 
panhol, provençal, francez, italiano, allemão, hollandez, sueco e ser- 
bocroata. 

6. — Da Visão de Tundalo ha duas versões portuguezas nos ma- 
nuscriptos provenientes do mosteiro de Alcobaça ; uma no códice 244, * 
actualmente depositado na Bibliotheca Nacional de Lisboa, e outra 
no códice 266, existente no Archivo Nacional da Torre do Tombo. 

O códice 244 é um volume encadernado, manuscripto em perga- 
minho, composto de 104 folhas. Cada folha mede 270 por 210 milli- 
metros; a parte escripta em cada pagina compõe-se de uma só co- 
lumna medindo 200 por 170 raillimetros. 

A lettra é gothica, e parece remontar ao século xv; mas a escri- 
pta das folhas 1 a 90 é diferente da das folhas 91 a 104. As paginas 



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100 



REVISTA LUSITANA 



das folhas 1 a 90 contem 28 liuhas, e as das folhas 91a 104 contem 
26 linhas, era media de 50 lettras cada uma. 

No principio do códice ha uma folha de papel, não numerada, 
que em letra do século passado tem escripto o seguinte : 



Cathecismo do P/ Fr. Zacharias de Payopfflle antigo Monge Cis- 
terciense do Real Mosteiro de Alcobaça; com outras obras ascéticas do 
mesmo Author, a saber: 

1. O Livro intitulado — Vergeu (aliás) Vergel de prazer, e consola- 
ção, — dividido em 5 partes, e subdividido em 78 Capitulo*. 

2. Meditações de 8. Bernardo traduzidas no idioma Portuguez. 

3. Hystoria de hum Cavaleiro chamado Túngala (aliás) Tundalo, 
ao qual foram mostradas as penas do Inferno, e do Purgatório, e os 
gozos do Paraizo. 

Com effeito estas tres obras encontram-se no códice, occupando 
a primeira as folhas l,r a 73,r; a segunda as folhas 73,r a 90,v; e 
a terceira as folhas 91,r a 104,v. 

Como já observou Fr. Fortunato de S. Boaventura *, o antigo 
monge do Alcobaça Fr. Zacharias de Payopélle não é o auctor, mas 
sómente o traductor para portuguez das obras contidas neste códice. 

0 códice 266 é um volume encadernado, manuscripto era perga- 
minho, composto de 171 folhas. Cada folha mede 266 por 178 milli- 
metros; a parte escripta de cada pagina compõc-se de uma só colu- 
mna medindo 198 por 124 millimetros. 

A lettra é gothica, de differentes mãos, e parece remontar ao sé- 
culo xv. 

No principio do códice ha uma folha de papel, não numerada, 
com o indice das obras contidas no códice, as quaes são attribuidas a 
Fr. Hilário da Lourinhã, monge Cistcrciense do Real Mosteiro de Al- 
cobaça. 

A Historia do Cavaleiro Tungullo occupa as folhas 124,r a 137,r. 

Nesta parte cada pagina tem 30 linhas em media de 40 lettras 
cada uma. Como também observou Fr. Fortunato de S. Boaventura *, 
o antigo monge de Alcobaça Fr. Hilário da Lourinhã não é o auctor, 
mas sómente o traductor para portuguez das obras contidas neste 
códice. 

As versões portuguezas da Visão de Tundalo, contidas nestes 
dois códices, são differentes uma da outra. Não se conhece a época em 
que viveram os traductores, e por tanto aquella em que foram feitas 

1 Fr. Fortunati a D. Boaventura, Commenlariorum de Alcobacensi mss. Bi- 
bliothecas libri tres. Conimbrica), 1827, pag. 569 e 570. 

2 Fr. Fortunati a D. Boaventura, Commentariornm de Ahobacensi mss. Bi- 
Uiothem Ubn tres. ConimbricíB, 1827, pag. 570. 



Cod. 344. 



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l í 



Visão de tdndalo 



ioi 



as versões; mas a linguagem (Testas não é anterior ao século xm nem 
posterior ao século xv, inclinando-nos antes a que as versõès foram 
feitas pelos fins do século xiv, ou princípios do século xv. 

Publicamos agora a versão contida no códice 244, e em outra 
occasião o será a do códice 266 ; reservando-nos para fazer depois um 
estudo acerca da relação d'estas versões com o texto latino de que 
derivam. 

Conservou-se a orthographia do códice, apenas substituindo o ~ 
por n, e desfazendo as abreviaturas em conformidade cora a orthogra- 
phia usada no códice. 

Lisboa, 24 de Novembro de 1893. 



Começase a Estoria dhuun Caualeyro a que chamauan 
Tungulu. ao qual foron mostradas uisibilmente e non per ou- 
tra reuelaçon. todas as penas do inferno e do purgatório. E 
outrosi todos os beens e glorias, que ha no sancto parayso. 
Andando sempre huun angeo con el. Esto lhe foi demostrado 
por tal que se ouuesse de correger. e enmendar dos seos pec- 
cados e de suas maldades. 
En huma prouincia a que chaman ybernia. foy huun Caualeyro 
a que chamauan tungulo. E era mancebo e de boo linhagem, o qual 
áuia muy pequeno cuidado de sua alma. Ca a ssua mancebia e a sua 
fremosura. e o seu linhagen. todo tornauan en uaydade do mundo, por 
a qual razon non auia sabor de auer saúde de sua alma. Eralhe muy 
graue de hir aa egreia nen fazer oraçon. Daua muy poucas esmolas 
por deus. pero era muy largo en despender osso que auia en maaos 
husos. Este tal e tan pecador quis deus por exemplo de nos todos, 
que uisse muytas cousas e as sofresse, e que as contasse a nos. per 
que tomássemos exemplo pera nos castigarmos de mal fazer. 

Este caualeyro iouue morto per spaço de tres dias e a sua alma 
foy leuada a muytos logares. como ben ouuiredes. E uiu as penas e 
os tormentos que os maaos padeciam. E depois logo uiu os beens que 
os boons reçebiam. Esto durou des quarta feyra hora decima, ataa o 
ssabado hora prima en tal maneyra que todos cuidauan que era mor- 
to. E fora ia soterrado non seendo huma pouca de queontura que tii- 
nha no costado seestro. 

Assi foy que no terceyro dia que era sábado como dicto he. co- 
meçou a ssuspirar. E muitos que hy ueeron assi clérigos como leygos 
pera lhe fazeren honra e seu offleio assi como a passado começaron de 
sse marauilhar e espantar e ele abriu os olhos, e começoulhes a fazer 
sinal que lhe trouuessen o corpus christi. e recebeo logo e começou 
de dar graças a nosso senhor deus. Dizendo ay deus meu senhor 



F. M. Esteves Pkrriba. 



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Í02 



REVISTA LtJSlí A# A 



rauyto he mayor a tua merçee que a minha maldade. Ca pero que 
muito grande era a minha maldade. Senhor en my fezeste gran pie- 
dade. Ày senhor quantas maas tribulaçooens me mostraste e pero de 
todas me liuraste. e dos auissos me tiraste. Depois desto partio todas 
as cousas que auia e deuas a pobres e ordenou sua fazenda en tal ma- 
neyra e a sua uida outrosy que ben deu aa entender que uynha muy 
escarmentado das penas e dos tormentos en que se uiu. E muy gram 
talente auia de guaanhar os beens que uira. 

Ora comecemos as cousas a recontar como lhe aconteçerom. En 
aquela hora que a alma deste caualeyro foy fora do corpo, começou 
de auer gram medo. ca se sentia muy peccador. e non sabia que fe- 
zesse. e auia a alma sabor de tornar ao corpo, e non podia entrar 
en el. E non sabia aqual fosse assy soo desem parado de todo ben. 
saluo da mâao de deus. e el stando assi gemendo e chorando, e re- 
guardandosse dos maaes muytos que auia feytos. Viu uyr muy gran 
conpanha de demoes. e non tan solamentc a casa hu iazia o seu cor- 
po, mais todas as ruas e plaças eran cheas deles. E ela çercada deles 
de cada cabo. começaron de a espantar muy fortemente e dizian. 
Cantemos a esta alma mesquinha cantares de morte, ca filha he de 
morte, e amiga de teebras. e enmyga de luz. e con muy grande espanto 
a chamauan e dizian assy. 

Ay mesquinha este he o poboo que tu escolhiste. con os quaaes 
andaras no fogo do inferno. Ca ia bas mortas as tuas nouas e os teus 
uiços. por que non es soberuoso como soyas. por que non fazes forni- 
zio. por que non fazes adultério, por que non enuolues escândalos. 
Hu son as tuas uirtudes. hu he a tua uaan gloria, e a tua uaan ale- 
gria hu he. o teu vãao ryr hu he. O teu comer, e o teu beuer do qifte 
tu soyas de husar. e de que dauas pouco aos pobres, hu son. As tuas 
loucuras que tu fazias, hu son. todo ia he passado. E por en todo 
penaras. A mesquinha da alma ouuindo taaes cousas, e veendo tan 
maa uison. era muito espantada, e non sabia que fezesse. E en quanto 
ella assy sia. uio uynr huun angeo assi como estrella muy clara que 
a saudou, e a confortou. E quando o ela assy uiu. começou de chorar 
con grande plazer que ouue. e dizendo. Ay meu senhor e meu padre, 
doores do inferno me cercaron. e fuy en gran temor. Respondeo en- 
tom o angeo e disse. 

Agora me chamas tu senhor e padre, quando te uees en coita, o 
que ante non fazias, quando eras en teu poder. Enton lhe disse a 
alma. Ay senhor nunca te eu uy se non ora quando ouuy a tua uoz. 
muy saborosa. Respondeo o angeo e disse, sempre eu fuy contigo, des 
o dia en que nacisti. e hya contego hu quer tu hyas. Mais tu nunca 
quiseste creer meus conselhos, nen fazer a minha uoontade. Entom es- 
tendeo o angeo a sua mâao. e apertou huun daqueles demoes. que lhe 
mais escarnho fazia, e disse o angeo á alma. Ves este he o que tu 
cryas. e cuia uoontade fazias, e despreçauas my. Mais sey segura ca 
deus ha de ti piedade, e non padeceras tantas penas quantas mereciste. 
mais passaras por muytos tormentos, e depois desto tornaras ao corpo. 



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tfisio DE ÍUNtiÁLO 



íoâ 



por corregeres tua uida. £ por en para ben montes en todas as cou- 
sas que uircs e non te esqueçam. 

Os diaboos quando esto ouuiron. coraeçaron a dizer mal de deus. 
por que tynham que aquela alma era sua de dereyto. e diziam que non 
.fazia dereyto. Mais poren deus sempre foy. e he. e hade seer dereyta 
justiça, ca aynda aaquela alma flcaua tempo de fazer penitencia, pois 
que ao corpo auia de tornar. 

Depois desto disse o angeo a alma. sigueme. Respondeo a alma 
e disse. Ay senhor, se eu depois uos for. estes demoes tomarmeam 
por detrás, e leuarmcam pera me darem tormentos. Disse o angeo. 
non aias medo. nen pauor ca mais son connosco, que com eles. Sabe 
que deus he connosco, e outro nenhuun non pode seer contra nos. 
que nos possa enpeencer. Enton foy a alma despos o angeo. e non 
auia outra luz nen claridade, se non tan solamente a luz e a clari- 
dade do angeo. 

E chegaron a huun ualle de teebras. muyto spantoso e era rauy 
fundo e muy caruoento. e tynha huma cubertura de ferro en que po- 
dia auer sete couedos en grosso, e tanto ardia que se uoluia em car- 
uõoes accesos per ella. o fedia muy mal. E iaziam sobre ella muytas 
almas mesquinhas que se queymauan. e feruian en ella como o azeite 
ferue na sartáae. e depois que feruiam. deitauanse per ella a fundo, 
assi como a cera derretuda polo panno. e cayam sobre os caruõoes acce- 
sos. E quando a alma uiu estas cousas, con grande medo disso ao an- 
geo. Kogote senhor que me digas que fezeron estas almas, por que 
receben tal pena. Respondeo o angeo e disse, tal pena mereceu os 
matadores e os que con elles consenten. E tu tal pena merecias. Mais 
tu non a sofreras. Mais guardate quando tornares ao corpo que non 
faças per que estas penas e outras mayores padeças. 

Depois desto disse o angeo a alma. Comecemos andar, ca longo 
caminho nos fica pera andar. É assy hyndo. chegaron a huun monte 
muy grande e de gram tormento e temor, en que auia muy streyta 
carreyra e muy maa. E da huma parte da carreyra era muy gran 
uento e muy frio. E todo o monte assi dhuma parte como da outra 
staua todo cheo de muitos demoes que stauan prestes e aparelhados 
pera atormentar almas. E estes diaboos tynham en suas mãaos ga- 
danhos de ferro muyto agudos e outros aparelhamentos. con que en- 
pesauan as almas, e dauan con ellas dentro no fogo. E desi er tira- 
uannas do fogo. e deytauannas na agua e na neve. E assi as almas 
mesquinhas andauan de pena en pena. Eaton a alma disse ao angeo. 
Senhor como poderey eu passar por huun logar tan maao e tan es- 
quiuo. 

Disse enton o angeo. non temas de me seguir. E desi deceron a 
huun ualle muy fundo e muy escuro, e en fundo daqnel ualle a alma 
non uya nada. Mais ouuia o aroydo dhuun ryo. que corria per clle do 
qual ryo saya gram fumo e gram fedor, e a alma ouuia grandes 
braados. e grandes gimidos das almas que iaziam en aquel ryo. en 
que padeciam grandes tormentos. E en cima daquel ryo era posta 



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KKVISTA LÍJSlf AÈi 



huma tauoa en maneyra de ponte, que chegaua dhuma parte do monte 
aa outra. En aquela tauoa auia ben mil passos en longo, e non mais 
que huun pee en ancho, e per ella non podia passar nenhuma cousa 
que non ouuesse de cayr en fundo, saluo se fosse muyto escolheyto 
de deus e muito bõo. E a alma uiu cayr muitas almas en fundo, e uio 
vynr pola ponte huun peregrin que hya per ella muy seguro, e tragia 
huma escrauina uestida.;e huma palma en sua mãao. E a alma quando 
uiu que este tan aginha passou, disse ao angeo. Dizeme senhor, 
como poderey eu passar per esta ponte tan estreyta que non caya a 
fundo. Respondeo o angeo e disse, non aias medo. ca desta pena liure 
serás, e passaras aa outra parte sen perigoo de ti. Enton disse a al- 
ma ao angeo. Rogote senhor que me digas, estas penas de quaaes ri- 
mas son. Respondeo o angeo e disse, este ualle tan fundo e tan es- 
curo, he morada dos soberuosos. E en este outro de que saae tan 
grande fedor e que ten a carreyra tan streyta. c ha cn ella tantas 
paias, he logar dos que teen os caminhos pera mal fazer, e pera rou- 
baren. e tomaren o alheo. 

Enton disse o angeo a alma. siguerae ca aynda teens de ueer muy- 
tas cousas, e começaron a hyr per huma carreyra torta e muy maa. 
E assi como hyam per aquela carreyra. e era tan escura, que a alma 
non uya nenhuma cousa, se non a claridade do angeo. E a alma hia 
muy quebrantada dos trabalhos que auia passados. E uio huma besta 
tan grande que sobrepoiaua todos os montes que ia ante uira. e aquela 
besta era tan forte e tan espantosa, que non ha homen uiuo en carne, 
que o osmar. nen consyrar podesse. Ca os seus olhos pareciam outey- 
ros accesos. E a sua boca que ella tynha aberta, ben poderiam per 
ella caber noue mil homeens armados, assunadamente. e tynha dous 
seruentes. e huun deles tynha a cabeça susu. e os pees juso. e o outro 
tynha a cabeça juso e os pees suso. e syam ambos en meu de duas 
traues muy grandes que stauam atrauessadas en aquela boca. E 
sayam per aquela boca muy grandes chamas de fogo. que se partyam 
per tres partes, pelas quaaes chamas conuynha aas almas mesquinhas 
que passassen. e entrassen no ventre daquella besta. E sayam per 
aquela boca muy grandes braados de chantos. e de choros muy doori- 
dos. de muytas almas que dentro jaziam, que padeciam muytos tor- 
mentos sen piedade nenhnma. Estavan ante aquela boca daquela besta 
muytas companhas de demoes. que atormentauam as almas. E cilas 
atormentadas, faziannas entrar no uentre daquela besta. Enton ueendo 
a alma a tan maa uison. disse ao angeo. Senhor, por que nos chega- 
mos tanto a esta besta. Respondeo o angeo. e disse, non podemos aca- 
bar nossa uiagen. menos de chegarmos a ella. Enton começou o angeo 
de hir adeante. e a pouco tempo desapareceolhe e a alma ficou soo. e 
os diaboos cercaronna logo assi coroo cãaes rayuosos. e atormenta- 
ronna dentro no uentre daquela besta, e os tormentos e penas que hy 
padeceo. non ha homen uiuo e nado que as podesse contar. Mais en- 
pero na vida que el depois fez. ben poderiam entender os homeens 
que o conheçeron. segundo as obras que el fazia, que muytas penas 



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VJSÁO DK TtJNDAtO 



105 



recebera ali iazendo. E segundo a uida que niueo. depois que tornou 
ao corpo. 

Ca el iazendo no uentre daquela besta, sofreo e padeceo muito 
fedor, e muita caentura. e muito frio. e muitos outros tormentos, que 
os homeens non poderian contar. E el iazendo dentro chorando suas 
maldades, e recontando o que auia feyto por que padecia aquelaà pe- 
nas, parou mentes e uiose fora. e non sabia como sayra. e ela iazendo 
assy atormentada, abrio os olhos e viu o angeo que a auia leixada. 
Enton disse a alma ao angeo. 

Ay minha sperança e minha uida, e meu ben. quaees graças po- 
deria eu dar ao meu senhor ihu x.° por tanto ben que me fez. quando 
te me deu por guardador, e por meu guiador. Enton respondeo o an- 
geo. e disselhe. Assy ia te eu disse que mayor he a misericórdia de 
deus que a tua maldade. Empero que no dia do juizo dara a cada 
huun seu dereyto. segundo como o mereçer. E poren quando fores en 
teu poder, non faças per que tornes a sofrer taaes e tentas penas. En- 
ton o angeo disse vaamos mais adèante. Ca ante nos veeremos outras 
penas. 

E a alma começou a andar, mais non podia ir seguir o angeo tanto 
era lazerada. E quando foron ia hindo longe, uiron huun mar muy 
forte e muy brauo. que as ondas dele se alçauan tanto, que non po- 
dian veer o çeeo. En aquel mar jaziam bestas muitas e muy feas. e 
de muitas maneyras. e non stauan al sperando se non almas que pas- 
sassem. E tam fortes eram aquelas bestas, que pareciam torres. E das 
suas gargantas sayam tan grandes fogos, que toda a agoa faziam fer- 
ver. E sobre aquel logar staua huma ponte muy longa, e muy streyta 
e auia en longo dez mil couedos. e non era mais ancha que huun 
palmo, e era muito mais streita que a outra. 

Esta ponte era fecta dhuma tauoa que toda era chea de clauos 
agudos, e os que per ela passauan padeciam grandes penas e era muy 
maa de passar, ca era muy estreyta e muy longa e toda enclauada do 
muy gran temor. Ca en ftindo iaziam muytos maaos bestigoos. E uio 
huma alma que staua en aquela ponte chorando carregada dhuun 
feixe de trygo. e fazianna passar pola ponte. E pero que auia os pees 
muy agrauados. e lastimados dos clauos. mais queria hir per ela. que 
cayr nas bocas daquelas maas bestas. E a alma quando uiu que auia 
de passar pola ponte disse ao angeo. Senhor se te prouuesse que- 
ria saber de quaaès he esta pena. Respondeu o angeo. esta ponte 
e estas penas son daqueles que furtaron. quer pouco quer muito. Mais 
non padecen todos yguaaes penas. Ca os que furtaron muito merecen 
mayores penas e mais. e os que furtaron pouco non padecen tanto. E 
tu merecias de entrar en elas. mais pola mercee de deus livre es 
delas. Mais conuen que ora passes per ella sen my e passaras con- 
tego huma uaca braua. que tu furtaste a huun teu conpadre. Respon- 
deo a alma e disse, se a eu tomey depois a dey aaquel cuia era. e 
outras cousas. E o angeo disse. Ben sey que a deste, mais tu a deste 
por que a non podeste esconder. Mais empero non padeceras tau 




106 



ÊBVISf A LUSlf AtfA 



grandes penas, como padeceras se lha non deras. Enton pareceo a 
naca muy brava e rauy forte, e per nenhuma guisa non queria hir 
pola ponte, enpero aacima ouue de passar como quer que lhe era muy 
grane, ca a ponte era muy estreyta e non podian hir per ella se non 
posessen os pees en aqueles clauos. E indo assi pola ponte, chegaron 
aa meatade delia, e encontrarem con aquel que tragia o feixe do 
trigo aas costas, e a alma rogou aquel do feixe, que a deixasse pas- 
sar. E o outro disse, mais leixa tu my passar, ca con muy gram pena 
trouxe aqui este feyxe a este logar que tu uees. E en quanto assi 
stauan en esta contenda, con muy gram temor de cayr en fundo, acu- 
sandose si meesmos dos peccados e dos maaes que auiam feytos. por 
que eran dignos e merecedores de padecer aquela pena e aquela door. 
ca lhes saya o sangue dos pees per fecto dos clauos que se lhe me- 
tiam per elles. per tal guisa que non podian ir ia mais adeante. nen 
podiam tornar atras. Enton falou o angeo aaquela alma e disse, ben 
seias ueuda. non aias medo iamais da uaca. ca ia es liure dela e ia 
enmendada has a culpa. Enton lhe mostrou os pees como os tragia cha- 
gados e muy agrauados dos clauos dizendo que non podia andar. Dis- 
selhe o angeo. Deuiaste de acordar, en como os auias muy ligeyros. 
e muy ardidos, andando con elles en muitas uaidades. E non seendo 
a misericórdia de deus lazerarias malamente e o passarias aqui muy 
mal por os teus merecimentos. Mais esforçate en deus e pensa de an- 
dar. Ca huun tormento muy crueuil e muy maao. e muy negro nos sta 
sperando. cuia pousada e oficio per nenhuma maneyra scapar non 
podemos. 

E hyndo assi e andando per logares muy secos e muy escuros, 
apareçeoíhes huma casa aberta que era redonda assi como forno aceso. 
A chama daquela casa saya assy per spaço de mil passos duraua. e 
queymaua quantas almas achaua a redor de sy. E a alma quando uiu 
esta casa tan maa. disse ao angeo. Ay mesquinha ia nos chegamos 
aas portas da morte. Bespondeo o angeo e disse, liure serás desta 
pena desta casa. Mais conuen de entrares dentro e ueeras muyto 
mayores penas. E parou mentes e uio estar ante a porta muytos 
demoes en semelhança de carniceyros que tynham segures e cuytelos 
nas mãaos pera esfolar e desfazer en quartos e en postas, e depois 
que as desfaziam deitauannas en aquelas chamas, e dauam con ellas 
dentro na casa a arder, e padeciam aly muy grandes penas e tormen- 
tos. E a alma quando esto uiu. preguntou o angeo dizendo. Senhor 
rogote que me digas, de quaaes son estes tormentos. Respondeo o an- 
geo e disse, estas penas son dos gargantooens e dos fornigadores. 
quando a alma uiu que aquela pena era mayor que as outras, disse 
enton ao angeo. Rogote senhor que me liures deste lugar e miteme 
en outras penas quaaes quiseres. E o angeo respondeo non podes es- 
capar que ala non entres, ca câaes rayuosos te stam sperando. enton 
a desemparou o angeo. e quando os demoes uiron que o angeo a 
desemparaua. cercaronna de cada parte, con aqueles aparelhos con 
<}ue atormentauan as outras almas e talharonna. e espedaçaronna 



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Visão de túndálo 



107 



toda. e ella toda espedaçada. leuaronna dentro aaqucla casa. e as 
penas que ela ali padeçeo quantas foron e quaaes. non ha coraçon 
que o possa cuidar. Ca ella padeceo ali muyto fumo. muyto frio. muita 
caentura. e muitos açoutes e muito fedor, e outros muitos tormentos, 
que aqui non son scriptos. En aqueles logares en que atormfcntauan 
outros que padecian mayores penas e mayores tormentos, non ha ho- 
men que o possa pensar, nen contar, os marteyros que hy son con- 
teúdos en cada buun daqueles logares. por que non ha homen que o 
soubesse, que se non guardasse muyto de fazer peccado. 

A alma depois que foy metuda en aquela casa. e passadas ia to- 
das as penas, que en a sobredicta casa eram conteudas. por muyto mal 
que auia fecto e merecido, do qual nunca fezera penitencia se non 
ali. non catou se non quando se vio liure e fora das dietas penas e 
tormentos. Em pero esteue en teebras. ataa que chegou o angeo a 
ella. que lhe deu claridade. 

Entom a alma con gram temor disse ao angeo. Ay senhor, hu 
he aquela misericórdia que nos dizen que ha en deus e que deus he 
misericordioso. Pois hu he aquela misericórdia, ia que tantas penas e 
tantos tormentos hey passados. Respondeo o angeo e disse. Oo filha 
minha, quantos son enganados per esta feuza que ham. que o senhor 
assi faz misericórdia. Ca en como quer que en deus aia muyta mise- 
ricórdia e seia muy misericordioso como he. non leixa por en de 
fazer justiça, segundo a justiça de cada huun en como a merece. Assi 
segundo a sua grande misericórdia, perdoa muytas cousas a muytos 
que mereciam muy mais grandes penas por ellas. 

E aqueles que receberon penitencia pola confisson que fezeron 
e a non conprirom en esse mundo assi como lhes foy mandado, con- 
uen que a conpram en estes logares con estes que uiste. Enton disse 
a alma ao angeo. Ay senhor os que forem iustos. por que os tragem 
a estes tormentos. Respondeo o angeo. e disse. Por esso lhes mostram 
esto. que quando uiren os maaes dos outros de que se eles cauidaron 
de os fazer, que aiam por em mayor plazer. 

Outro sy aos maaos mostram que ueiam a gloria que os boons 
e os sanctos ham. e receben. por tal que aiam mayor noio e mayor 
pesar, polo ben que perderon. 

Onde aquel peregrim que tu uiste que tragia a escrauina uestida 
e a palma en sua mãao e passaua seguramente per aquela ponte, era 
homen de boa alma. e de boa uida. E por en uiu todas aquelas pe- 
nas, pera receber por em mayor plazer. por que as escapou e non 
temeo delas nada. 

E tu anda quanto poderes. Ca ainda non uiste todas as maas pe- 
nas, per que has de passar. Onde quando as todas uires aueras delo 
muy gram proueito. Ca aueras mayor talente de seruir a deus. Enton 
disse a alma ao angeo. pois assy he uaamosnos e receberey aquele 
marteyro que ouuer de receber, per que depois receba gloria. 

E elles começaron de andar e uiron huma besta, que era desas- 
semelhada das outras bestas que ante uiron. E aquela besta auia dous 



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1Ó8 



REVISTA LtíSlf AtfA 



pees. e duas aas muy grandes, e per sua boca sayam muy grandes 
chamas de fogo. e ela staua sobre huun lago muy grande, que pare- 
cia que era qualhado con geada grande, e comya quantas almas podia 
auer. e as almas padeciam muytas e granes penas no uentre daquela 
besta. E depois que as auia comestas. deitanaas con decabo de seu 
corpo, e cayam en aquel logar hu estava aquela geada coalhada, e 
sayam de gran oaentura, e entrauan en gram friúra. E todas aquelas 
almas que iaziam en aquel lago que he muyto spantoso de ouuir. todas 
tornauan prenhes, e quando elas auian de parir tan grande era o cla- 
mor e o aroydo que faziam con os dentes, que non ha homen que o 
possa conpridamente contar nen dizer. E assi pariam ali os homeens. 
como as molheres. todos emprehauan e pariam, e non pariam tan so- 
lamente per aqueles logares. per que as molheres parem. Mais ainda 
parian poios braços e poios peitos, e per todos os logares do corpo, 
e parian serpentes, o outras bestas maas que teen os dentes de ferro 
muy agudos, e mordian con elles muy mal as almas, e royonnas muy 
fortemente en tal guisa que os braados hyam muy longe. Ca tam 
grandes eram os braados. e as nozes das almas, e os gimidos e os braa- 
dos das serpentes, e o roydo que faziam, que non ha homen que assy 
o possa dizer nen contar per aquela guisa que he. por que se em os 
demoes ouuesse alguun conhocimento de piedade, alguun espaço aue- 
riam aquelas mesquinhas daquelas almas. 

Estas almas, assi nos dedos e nas mãaos como en todos os outros 
menbros. con que peccaron. todas eran cheas de cabeças de serpentes. 
E de tal guisa as mordiam que lhes chegauan ataa dentro todos os 
nenbros. e ben ataa os ossos. Enton disse a alma ao angeo. Rogote 
senhor que me digas quaaes son estas almas, e por que padecen tan 
grandes penas. Respondeo o angeo e disse, taaes penas merecem aque- 
les que deuiam a seer melhores que os outros, e ham sabedoria e 
sciencia de o seer e non o son. Mais ham as lingoas muito agudas 
pera dizer muyto mal. E por em padecem estas penas que tu vecs. 
e som assi comestos destas serpentes. Outrosi assi lhes conuen de 
padecer en todos os menbros. per aquela maneyra que peccaron. E 
tu por que grauemente peccaste en este peccado. padeceras estas 
penas. 

E logo aaquela lhe desapareceo o angeo. E tomaronna os demoes. 
e deytaronna aaquela besta a comer, e logo foy comesta. E os tormen- 
tos que ella aly padeceo foron mny estranhos per tal guisa que he 
grane cousa de os contar. Mais segundo elle depois uiueo e a enmenda 
que el fez. ben deu aa entender, que eram muytos e muy maaos. 

Depois desto. a besta deytoua de seu uentre. e cayu en aquel lo- 
gar do lago que era todo cheo de geada coalhada. E ella stando en 
aquela pena. e en aquela door. Veo o angeo a ella e disse. Ven amiga 
pera ray. Ca ia es liure desta pena. e mais non a padeceras, e tiroua 
dantre as outras almas que hy iaziam. e disselhe. sigueme. e foron 
adeante per logares muyto escuros, e muy peores dos outros, que ia 
auiam andados, e o caminho era muy streyto e deçiani per elle assi 



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VISÃO DE TUNDALO 



109 



como se decessen dhuun ínuy alto muro. e parecialhe que deçiam noa 
abyssos. E per ha deciam era tão forte logar e taa perfundo. E assy 
hyam per ele a fando como se os lançassen dbaun alto muro a fundo, 
e quanto mais deciam. quanto menos a alma nya o logar per hu auiam 
de tornar. E outra luz non auia. se non a claridade do angeo. 

Entom disse a alma ao angeo. Rogote senhor que me digas que 
caminho he este que assy vay. Respondeo o angeo e disse, este ca- 
minho vay aa morte. E assi como ia deciam hyndo muy longe, uiron 
huun ualle no qual estauam muytas forias de ferro, e ouuirom dentro 
muytos braados e muitos choros. Entom disse a alma ao angeo. Ou- 
ues tu estas nozes que eu ouço. Respondeo o angeo. e disse, a esta 
tormonta chaman que he uista per arte. do qual engano caaen muytos. 
e son dei atormentados. E a alma disse, e eu hey de ser atormentada 
delle. Respondeo o angeo e disse sy. E a alma quando esto ouuiu co- 
meçou de chorar, e foy dopos ele. e quando foy açerca dele. desapa- 
rcceolhe o angeo. 

Enton ueeron os deraoes e tomaron a alma con muy grandes 
torqueses accesas. e assi a receberon e non falaron ao angeo. cousa 
que fosse, e tomaron a alma. e derom con ella dentro no fogo. o co- 
meçarom logo a soprar o fogo con foles accesos de fogo. E assy a 
atormentauain. con outras muytas almas que dentro jaziam. E assy 
se deretiam como o chumbo, e des que eram deretudas. encorpora- 
uanso assi como erau primeyramente. e tornauanse per aquela guisa 
que eran ante. 

Entom tomauannas os diaboos con gadanhos, e con torqueses. e 
poynhannas na foria. e malhauan en ellas con martellos de ferro. En 
tal maneyra que aas uezes de con almas se fazia huma massa. E en- 
pero que muytos marteyros auiam. non inorrian por em. o que era 
cousa que ellas muito deseiauan. E os atormentadores diziam huuns 
aos outros, ainda esto non auonda. E os outros que estauan nas ou- 
tras forias dizian. deytadeas aca. e ueeremos se auondan. 

Enton deitauannas. e ante que ueessen a terra, recebiannas con 
torqueses de ferro, e deitauannas no fogo. e ardiam assi como da pri- 
meyra ataa que se tornauan candeas accesas. 

Esta alma iazendo en aquela pena. chegou o angeo. e tyroua 
dali. e preguntoulhe como te uay. Parecete que te foron saborosos os 
uiços do mundo que por eles padeces tantos tormentos. A alma non 
podia falar nen responder, tanto saya britada e fraca. O angeo con- 
fortoua enton e disselhe. anda e ueeras outras mayores penas, que as 
que uisti. Mais tu serás liure delias pola misericórdia de deus. Ca to- 
das estas almas que tu aqui uisti. todas speram saluaçon. e outras 
que non uisti. pois anda e ueeras as que ia son julgadas pero nunca 
seeren saluas. 

E começaron a andar, e como hyam falando de consuun. a alma 
ouuo grande espanto. E uiron huma muy grande foria. e muy grande 
fedor, e teebras muy mayores que as que dante uiron. E ouuiron tan 
grande aroydo. que semelhaua que todos os fundamentos da terra se 



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REVISTA LUSITANA 



mouian. Enton desemparou o angeo a alma. e ella ficando asai des- 
emparada. e soo. ouuio clamores e apelidos das almas, tan grandes 
como toruoons. E parou mentes por todas as partes por ueer aquele 
logar. e uio huun poço muy grande, do qual se leuantaua chama de 
fogo. muy grande raesturado con fumo. que chegaua ataa o coeo. a 
qual chama era chea de demoes. e alçauanse assi como folhas quey- 
madas. e assi padeçiam estes tormentos. Enton a alma con gran des- 
peito disse, mesquinha. 

E começou de se carpir, e confranger dizendo. Ay mesquinha eu 
son. por que non quige creer as scripturas sanctas e os conselhos dos 
honieens boos. e amey mais os uiços do mundo. E logo os diaboos a 
cercarom de cada parte assi como abelhas e diziam. Ay mesquinha, a 
que ueeste aqui. e quem te trouxe a nossos tormentos. Agora serás 
metuda en logar de que nunca sayras. nen aueras luz. nem alegria, 
mais sempre aueras mal. Er disseron. por que tardamos mais. Demos- 
la a lucifer. que a coyma. 

E aqueles demoes eram negros como caruoens. e os olhos auiam 
como candeas accesas. e os dentes auiam brancos assi como a neue e 
tragian rabos, como escorpiooens. e as hunhas dos pees e das maaons 
cran de ferro agudas e muy maas e assi ameaçauan a alma. e mouen- 
do contra ella con seus aparelhos que tynhan con que atormentauan 
as outras almas que hyam ao inferno. Pero que al non podian fazer 
aaquela alma. senon espantaria. 

E ella stando assi soo antre aquel temor, em aquela hora ueo o 
angeo a ella. e tiroua dantre aqueles diaboos e confortoua e disselhe. 
Alegrate. ca liure es de todo mal. mais por em muitas penas ueras. 
que te non enpeecerara. 

Ora te uen comigo, e raostrareyte o enmygo do humanai linha- 
gen. Enton começou o angeo de hir adeante. e decer ao inferno, e uio 
a alma o princepe das teebras. E uio tantas das penas e das tribula- 
çooens que padeçian as almas que ali iaziam. que raaldicto foy aquel 
que en aquel logar foy leuado. 

E o angeo e a alma vyam todos os que hy iazian. mais elles non 
vyam o angeo nen a alma. tan fortes eram os tormentos que pade- 
ciam. Ca aquel lucifer era tan grande bestia. e tam fera. que sobre- 
poiaua sobre todos os outros que ante uiron. 

A ssua figura era esta. s. El era negro assi como caruon. e auia 
figura dhomen des os pees ataa cabeça, e auia boca en que auia mui- 
tos males, e tynha huun rabo assy grande, que era cousa muito span- 
tauil. No qual rabo auia mil maaons. e en cada maaon auia en ancho 
cem palmos e as suas maaons. e as hunhas delas e as hunhas dos 
pees eram tam anchas como lanças, e todo aquel rabo era cheo de 
agulhas muy agudas, pera atormentar as almas. 

E aquel lucifer iazia escondudo en huun leito de ferro, feyto a 
maneyra de greelhas. e so aquel leyto iazian caruooens accesos. e so- 
prauannos. e accendiannos muytos demoes. e cercauanno de muytas 
almas, quantas non ha homen uiuo en carne que as podesse contar. 



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VI8Â0 DE TUKDÀLO 



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nen cuidar, nen creer. nen que taaes gentes nen tantas podessen 
seer criadas no mundo depois que foy formado. 

Âs almas iazian en aquela maa tormenta. E quando se uolnian 
dhuma parte pera a outra, enton lucifer estendia aquelas maaons con 
gram sanha que auia de sy meesmo. por que padeçia. E atormentando 
todas aquelas almas assy como homen aperta o bagoo das huuas. E 
atormentauaas todas, per guisa que nenhuma delas non flcaua sen 
dampno. Er depois respiraua e colhia fôlego e espalhauaas per diuer- 
sas partes do inferno. E logo saya do poço que ante dissemos que 
queymaua. huun fedor muy forte e muy maao. E depois colhiaas todas 
no seu uentre. hu padeciam muytas penas infernaaes. E se alguma 
alma podia fugir das suas maaons. feriaa muy sen piedade, con aquel 
rabo. E aquela besta mesquinha a que dizen lucifer de si mesmo pa- 
decia grandes penas. 

Á alma disse entom ao angeo. Rogote senhor que me digas esta 
uison tan maa que cousa he. ou que homen he este tal. E o angeo disse. 
Este homen que dizes, he o angeo lucifer. que foy começo das tee- 
bras. o qual uiuia nos deleytos do parayso. e abriose con el o ceeo e 
a terra e todo mundo foy tornado ataa os abyssos en aquel passo que 
el cuidou no seu coraçon aquela soberua dizendo, quero eu poer a 
minha seeda apar do altíssimo, e serey semelhauil a ele. 

E todos estes demoes que tu aqui uees que aqui iazen. son do 
linhagen de adam. que peccaron mortalmente e nunca fezeron digna 
penitencia. Estes todos passarom poios logares e polas penas que 
uiste. E depois ueeron a este logar de que nunca sayran. e sempre 
uiueron en esta tormenta, con este enmygo mortal, e con sua conpa- 
nha en doores e en penas. Enton disse a alma ao angeo. Rogote se- 
nhor por deus que cedo me tires daqui ca tan solamente. esta uison 
non a queria mais ueer. Este fedor mais me atormentou que todas as 
outras penas que ante padeci. E ueio aqui muytos meus parentes e 
meus conhocentes. e meus parceyros. e doutros muytos meus conho- 
centes e conpanheyros. E eu ouuera de iazer en esta pena. no seendo 
pola misericórdia de deus. Enton o angeo ficou muy alegre, e disse, 
ven alma ben auentuyrada. que ata agora uiste as penas que os maaos 
padecem. E daqui en deante ueeras os beens que os boonB receben. en 
aquela hora sayron daquel logar. e a alma con grande alegria disse. 
Ay senhor en que guisa fuy agora tan aginha alomeada. Era ante 
cega. e ora ueio. Ante era triste, e ora son alegre. Ante temia, e ora 
non hey medo. Respondeo o angeo. e disse, non te marauilhes ca este 
he o mudamente da maaon de deus. 

Ata aqui falou da uison que nio no purgatório e das penas 
e tribulaçooens que padecen os maaos en el e no inferno. Daqui 
en deante fala dos beens e galardooens. que uio receber aos 
boons na gloria do parayso. 
Âssi como começaron de andar uiron huun muro muy alto. E 
aaquem daquel muro uiron gram conpanha de homeens e de molheres 



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112 



RBTI8TA LUSITANA 



que sofriam gram tormenta e muy gram coyta de muy grara uento. e 
de muy grande agua. E estauan muy tristes e muy coitados em so- 
frendo fame e sede. Empero auian lume e claridade, e non sentian 
nenhuun maao fedor. E a alma quando este uiu. preguntou ao angeo 
e disse. Senhor quén son estes que en tal folgura moran. E o angeo. 
lhe disse, estes son os maaos enpero non muyto. Ca trabalharom de 
uiuer honestamente. Mais os beens que auian temporaaes. non os par- 
tiam con os pobres assi como deueram e poderam. E por en sofreran 
alguun tenpo este uento e esta agua. e depois hiram aa folgura de 
deus perdurauil. 

Depois desto elles hindo huun pouco mais adeante chegaron a 
huma porta, e acharonna aberta, e assy como entraron. uiron huun 
campo muy uerde e muy fermoso e plantado do muitas e muy fernio- 
sas rosas, e de outras heruas que dauan muy boon odor. en que es- 
taua tan gram cousa dalmas que as non poderia contar homen do 
mundo, e stauan tam alegres que era gran marauilha. en aquel logar 
non era noite, e e sol nunca hy falece e ali he a fonte de agua uiua. 
Mais a alma que tanta coita e tanta pressa e amargura ouuera sofruda 
e passada, foy tan alegre quando uio aquel campo tam uerde e tam 
fermoso que con o gran plazer que en el ouue começou de dizer con 
gran deuoçon. beento seia o nome de nosso senhor deus. agora e por 
sempre iamais. que me liurou das portas da morte per aa sua gram 
mercee. e me meteo na terra que el deu en parte e en sorte a seus 
amigos. Agora entendo eu. que son uerdadeyras as palauras da sancta 
scriptura. que diz. que olho non uiu. nen orelha ouuio. ncn coraçon 
de homen non pensou, o ben que deus ten aparelhado, aaqueles que 
cl ama. E des en disse ao angeo. Rogote senhor que me digas de quaes 
almas hc esta folgança e como ha nome esta fonte. Respondeu o an- 
geo e disse. Ali moram os non muy boons. que son liurados e tirados 
das penas do inferno, e non mcrecen ainda seer chegados aa compa- 
nha dos sanctos. Esta fonte que aqui uees. he chamada uida. e todo 
aquel que dela beuer. uiuera pera senpre. e nunca iamais auera 
sede. 

Assi como esto disse foron huun pouco mais adeante. e uio a alma 
homeens segraaes que conhoceo. antre os quaaos uio. Cantubrio. e 
Donato que foron Reys. e como os uio. ficou muy spantada. e disse ao 
angeo. Que he esto senhor que ueio. Ca estes homeens foron grandes 
enmygos en sua uida e se quiserom muy gram mal. E pois por qual 
merecimento ueerom aqui. ou como son assi amigos en seus mereci- 
mentos. 

Enton lhe disse o angeo estes que tu dizes sey certo, que ante 
da sua morte se repreenderon. e fezeron penitencia, do gran desamor 
e discórdia que auia antre eles. E por em non lhes foy nenhuma pena 
por aquela razon. Ca aquel Rey que auia nome Cantubrio foy gran 
tenpo enfermo, e fez penitencia, e uoto que se guarecesse daquela 
doença que tomaria a orden. e se faria monge. E o outro iouve per 
espaço de annos preso en grandes prisooens e deu quanto auia a po- 



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VISÃO D8 TUNDALO 



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bres. E por esto deus lhes receboo en grande esmolla. E os seus beens 
e os seus dereitos durarlheam per todo sempre. E tu depois que tor- 
nares ala contaras todo esto aos homeens per que enmenden suas 
uidas. 

E assi como andaron outro pouco uiron huma casa muy nobre e 
de muy grain lauor. que auia as paredes e toda a outra feytura de 
ouro. e de prata, e de todas maneyras de pedras preciosas que no 
mundo son. Mais non auia porta nen feestra. Empero todos os que 
queriam entrar entrauan. 

Esta casa era dentro tan clara e tam luzente, que non digo como 
huun sol. tan solamente. mais en verdade assi como se fossen muitos 
soles, que alumeassen en ela. Era outrosi redonda e ancha, e era tan 
chaan. que tan solamente hy non auia coua nen outeyro. toda era la- 
drilhada de ouro. e de pedras preciosas. E a alma auendo gran sabor 
de ueer todas estas cousas tan fermosas. parou mentes a redor de sy. 
e uio huma cadeyra de ouro. toda obrada de pedras preciosas, e era 
coberta de panos de muy gran prez. E uio seer en ela o ben auen- 
tuyrado Rey. que auia nome Cormaço. uestido de taaes uestiduras. 
quaaes el nen Rey que fosse nunca poderia uestir en este mundo. E 
ela assi stando. e maraiiilhandose muito de todas estas cousas que 
uiia. Vio uiir gram conpanha de homeens a El Rey con suas oferen- 
das, a muy gran plazer de sy cada huun per pessoa. E sabede que 
el fora seu senhor deles todos no mundo. E eles stando assi ante o 
Rey. veeron muytos clérigos de missa, e dauangelho. todos reuestidos 
de muy nobres uestimentas. assi como pera missa, e outros con suas 
capas de sirgo uestidas e louuauan e honrauan muyto a marauilha 
El Rey e a casa. 

E poynban uasos e copas e taças de ouro. e pichees de marfi. 
que tynhan sobre os poyaaes. e sobre as*tauolas que stauan na casa. 
E assi seruian e honrauan aquela casa. que ben nos digo que ainda 
que mayor honrra nen mayor folgança non ouuesse no reyno de deus 
que esta. assaz seria de grande. Mais todos aqueles que seruian. quan- 
do viinhan ante el Rey ficauan os geolhos. e dizian ben auenturado 
es. E ben sera sempre a ti. Ca dos lauores e trabalhos das tuas maaons 
comes. E todos estes que tu uees son os pobres, e os romeus de ihu 
xpto. a quen daua El Rey de comer e lhes fazia muito ben e mercee. 
en quanto foy uiuo. E por en lhe sera dada e galardoada pera sem- 
pre iamais esta soldada polas maaons deles meesmos. a quen este ben 
fez en quanto foy uiuo. 

E a alma disse. Queria muy de grado saber, se este Rey padeceo 
alguma pena depois que lhe sayu a alma do corpo ou se ueo logo pera 
esta folgança. E o angeo lhe disse, si padeceo. e padece, e padecera 
ainda en cada huun dia. E disselhe atendamos aqui huun pouco, e 
ueras a pena que sofre. E eles stando assy uiron a casa dei Rey toda 
escurecer, e todos os que con el estauan muy tristes, e el Rey muy 
contornado, e leuantouse chorando e sayu fora. 

E a alma quando esto uiu parou mentes a qual parte hyria ou 

bbv. lusit., vol. ni, fase. 2. 2 



114 



REVISTA LUSITANA 



que faria. E stando assi. uio toda aquela conpanha que ante uira na 
casa do Rey. e tynhan as maaons alçadas, suso contra o ceco. rogando 
muy deuotaraente a nosso senhor e dizendo. Senhor, senhor deos muy 
poderoso assi como tu sabes, e entendes aue mercee ao teu seruo. E 
parou mentes a alma depois desto. E uio o Rey star metudo en huun 
fogo ataa o embygo. e des o embygo pera cima. uestido dhuun cilicio 
muy áspero. E a alma perguntou o angeo. quantas uezes no dia pa- 
dece este Rey esta pena. E o angeo lhe disse, quanto he per espaço 
de tres horas do dia. e quanto he per espaço de xx huma hora folga. 
E a alma lhe disse. Senhor rogote que me digas por qual razom he 
esta alma assi julgada que estas penas padece per dereito juizo mais 
que outras. E o angeo lhe disse. Eu to direy. 

Este fogo que tu uees en que sta metudo ataa o embygo he por que 
non guardou, mais quebrantou o juramento e sacramento do casa- 
mento lydimo de dereito. E o cilicio que ueste des o embygo pera 
cima. padece por que mandou matar huun conde ante o altar de san 
patrício, e por que quebrantou e traspassou o dereito e a reuerencia 
que deuera de guardar aa sancta egreia. E sabe de certo, que todos 
outros peccados lhe son perdoados senon estes dous tan solamente. E 
deshy disse andemos. E foron huun pouco adeante e uiron huun muro 
muy alto e muy fermoso. 

Aquel muro era todo de prata, muy fermoso e muy luzente. E a 
alma non achaua en el porta nenhuma per hu entrasse. E tomoua o 
poder de nosso senhor, e posea dentro, non o ssabendo ela. nen o en- 
tendendo. E assi como se ela uio dentro, parou mentes a redor de sy. 
e uiu huma gran conpanha de sanctos. que se alegrauam muyto con 
deus. e dizian. louuor seia a ti deus padre, loiuior a ti filho, louuor a 
ti spiritu sancto. Todos aqueles homeens e molheres que esto diziam 
eran uestidos de uesti duras brancas, muy fermosas. E eles outrosi eran 
muy fermosos. e tan claros que so huma mazela non aauia en elles. 
Eran senpre legres e ledos e aguçosos, e uiçosos e saborosos, porse- 
uerando sempre no louuor da sancta trindade, dia e noyte. e as ues- 
tiduras que ia dixe. eram tan claras e tan fermosas. e assi aluas como 
a neue. quando o sol da en ela. E as uozes deles soauan de muytas e 
desuayradas raaneyras. que non parecian outra cousa, se non cantares 
de orgoons. E a todos era ygual claridade e alegria, e deleytamento. 
e ledice. fermosura e honestidade, saúde e germaydade durauil. de 
boon sabor, e de boon odor. que sobrepoiaua mais e ualia mais. que 
todos os boons odores que son nen que fossen speciaaes de aromata 
que son onguentos muy preçados. Nunca en aqueles logares era noyte 
nen tristeza, e todos se amauan dhuun coraçon. e dhuma uoontade. E 
a alma disso ao angeo enton. Senhor, rogote que te plaza que fique- 
mos en esta folgança. 

E o angeo lhe disse. Ay ben auentuyrada alma. pero que esta 
folgança te parece grande. Mayor folgança e mayor galardom ha hy 
outro de sanctos. E a alma lhe disse. Senhor rogote que me digas a 
quaaes almas he dada esta folgura. E o angeo lhe disse, esta folgança 



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VISÃO DE TUNDALO 



115 



he dada aos casados e a todos aqueles que non britaron nen traspas- 
saron a orden do casamento dereito. per peccado de adultério e 
aaquelles que todas suas companhas ben eastigaron. e os seus beens 
temporaaes partiron con os pobres, e a romeus e aas egreias de deus. 
aos quaaes dira nosso senhor que he dereito juiz no dia do juizo. Vyn- 
de beentos do meu padre, e recebede o reyno que uos sta aparelhado 
do começo do mundo. Ca ouue fame. e destesme de comer, ouue sede. 
c destesme de bcuer. Era nuu e uestistesme. fuy enfermo e uisitastes- 
me. fuy encarcerado e reraystesme. fuy ospede e recebestesme. 

As quaaes almas han boa sperança en deus muy gram senhor, 
folgaran e consolarsean con el en tal folgança como uees. pois gran 
cousa he o sacramento do casamento legitimo. Ca todo aquel que o 
ben guardar en seu corpo, folgara senpre en esta folgança. E desi conuen 
que uaamos adeante. e ueiamos o que ante nos sta. E a alma disse ao 
angeo. Senhor, rogote se te plaz que me leixes ia folgar en este lo- 
gar. e non me tires daqui. Ca se tua uoontade for non queria eu ia- 
mais alto sobir. nen mais saber, mais seriame gran consolaçon de fol- 
gar con estes e non queria nen hey ia cuidado de auer ia melhor pla- 
zer que este. E o angeo lhe disse. Enpero que tu non entendes ainda 
mayores beens ueeras que estes. 

Assi como esto disse, foron adeante. pero que non andaron muito, 
ca a elles non parecia trabalho nenhuun en andar. E todas aquelas 
conpanhas per hu andauan. e per hu passauan. vynhan con as cabeças 
iaclinadas e amergidas. e con boons contenentes. a receber a alma 
con grande alegria e con gran plazer. E desi chamauanna per seu 
nome meesmo. e saluauanna e louuauan muyto o nosso senhor deus. 
que a liurara das penas, e diziam louuor seja a ti senhor, durauil Rey 
da gloria, que non queres a morte do peccador. mais que se conuerta 
e uiua. Que pola tua misericórdia quiseste liurar esta alma das penas 
do inferno, e a poseste con a conpanha dos teus sanctos e dos teus 
angeos. 

Elles passando assi per muytos logares de sanctos. apareceolhes 
outro muro tan alto como o primeyro. laurado todo de ouro puro. e 
tan grande era a sua fermosura. que muito era mais contenta a alma 
e mais se alegraua en ueer aquela nobreza, que outra nenhuma que 
ia ouuesse uista. Mais depois que entraron dentro, pola guisa que en- 
traron no outro, que de suso dissemos, virom muitas seedas assi como 
no que de suso foy dicto. que uiron. e eran todas lauradas de ouro e 
de prata, e de quantas maneyras poden seer de pedras preciosas, en 
tal guisa que tan nobre eousa como esta nunca a poderá veer a alma. 
nen cuidar. E os rostros deles eran tan claros e tan fermosos assi 
como o sol claro aa hora do meo dia. e os cabelos deles eran tan cla- 
ros e fermosos. que non parecian. al se non ouro. 

E tynhan nas cabeças coroas de ouro todas cheas de pedras pre- 
ciosas. E tynhan en sy scriptas letras muy fermosas todas de ouro. so- 
bre que tynhan seus liuros postos, e scriptos todos con letras de ouro. E 
cantauan a nosso senhor seu cantar nouo con alleluya. E tan doce 



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REVISTA LUSITANA 



era. e tan saboroso aquel cantar, que depois que a alma ouuio hunia 
uez. oluidou e esqueeceo todas as cousas que ante ouue passadas. E 
eUa estando en aquel logar. uio humas seedas tan formosas, que ficou 
muy folgada por o que vya. 

E o angeo lhe disse, amiga sabes quen son estes. Estes son os 
mártires de deus que por a sua firme e uerdadeyra creença trabalha- 
ron e affanaron os seus corpos, e lauaron as suas uestiduras no san- 
gue do cordeyro. Esto he. deus que he dicto cordeyro. estes son os que 
se sofreron e se absteueron. e guardaron dos sabores e plazeres do 
mundo, e a diuida da carne non conpriron per huun pouco de tempo, 
que en este mundo uiueron. E desliy fezeron toda sua uida muy san- 
cta. e muy limpa, e muy honesta, uiuendo e perseuerando en seruiço 
de deus. passando polo seu amor marteyros e coitas e tribulaçooens. 
Trabalhandose eles meesmos. e tolhendo aos seus corpos, plazeres e 
uiços e sabores. E por en mereceron coroas durauys por sempre. Disse 
enton o angeo. Estes son os sanctos e seruos de deus que son feytos 
seus amigos. 

Depois a alma con grande femença. pensando e consyrando todas 
estas cousas, que uya. catou a redor de sy. e uio huma muy grani 
praça toda chea de muitas tendas armadas, e de muitos tendilhooens. 
que eran laurados e fectos de colores de muitas guisas, s. de purpura, 
e de cicatron. e de sirgo, e de ouro e de prata. 

E ouuyo en eles soons de cantores tan fremosos o 4;an saborosos 
que era gram marauilha. assi destormentos de corda, como de orgoons. 
como de todas raancyras de estormentos que ha per todas as partes 
do mundo. Ca ali cantauan orgoons o uiolas e alaúdes e sinphonias. e 
rotas, e salteyros. e citholas. todos de consuun. Quando esto ouuio a 
alma. disse ao angeo. Senhor de quaaes almas son estas tendas, e es- 
tes tendilhooens. e esta folgança. E o angeo lhe disse. Esta folgança 
e este plazer he dos monges, e dos outros homeens e molheres que 
uiuen en orden so regia, que pronieten obediência a seus mayores. e 
comprem e fazen alegremente todo aquelo que lhes per elles he man- 
dado muy de boon coraçon e de boa uoontade. Ca mais se alegram e 
queren seer sumetidos e subiectos. que sceren adeantados e mayores. 
e que leixan as suas próprias voontades e seguen as alheas. por que 
uerdadeyramente possam dizer. Senhor, poseste homeens sobre nossas 
cabeças, e passamos per fogo e agua. Esto he. per ta me e frio e sede. 
e lazeyra. e metistenos en refrigério. Esto he. en folgura. os quaaes 
en seendo uiuos e en seus corpos non queren outro sabor, nen outro 
prazer, senon o de deus. e quitam suas linguas non tansolamente do 
mal dizer, mais ainda por amor de teer e guardar o sseenço. calanse 
dos beens que os non queren dizer nen falar, por que possan dizer a 
nosso senhor, enmudecemos e somos humildosos. e calamosnos dos beens. 
e do ouuimento das orelhas te obedeecemos. Destes taaes son estas 
tendas e estes tendilhooens. assi como tu uees. que cantan. e dan lou- 
vores a nosso senhor que he dador de todos os beens sen nenhuun 
quedar. E a alma lhe disse, se te prouguesse senhor, queriame chegar 



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flSAO DE TÍJNDÁLO 



Í17 



mais a perto, por tal que podesse ueer aqueles que dentro stan. E o 
angeo lhe disse, muito me plaz. que os ueias e ouças, mais non entra- 
ras a elles. Ca estes sempre husam e ueen a presença da sancta tryn- 
dade. s. que cada dia usan a veer nostro senhor, na sua sancta maies- 
tade. E todo aquel que huma uez entra a elles. nunca se mais acorda 
de todas as cousas, que ouuesse uistas ou passadas, e nunca se chega 
aa conpanha deles, se non se he home uirgen que merece de seer junto 
aa conpanha dos angeos. E desi chegaron se mais a perto. E entraron 
e uiron dentro muitos monges, e muitos homeens de orden. e muitas 
molheres outro sy. que non parecian outra cousa se non angeos. tan 
fermosos eran. e cantauan tan docemente, e tan soborosamente. que 
todas as maneyras e artes da musica sobrepoiauan e uencian. pero 
que todas as outras almas que ia uiron nos outros logares per hu 
uynhan. resplandecian e luzian muito a demais. A claridade e o res- 
plendor e o muy boon odor que destes saya. sobrepoiauan. e passa- 
uan todos os que no mundo son. Todos aquelles estormentos que ali 
eran. non nos tangian ncnguun. Mais eles de seu se tangian. e canta- 
uan. E empero que esto era gran sabor assaz. Era teudo por nada. 
respeito das uozes e dos cantares das almas que cantauan. Ca 
todo ellas sobrepoiauan e uencian. Ca elas non auian afam nen tra- 
balho en alçar e abaixar quanto ellas querian. nen boliam beiço, nen 
o mouian ten solamente. nen auian cuidado de poer suas maaons nos es- 
tormentos do orgon e da musica, mais a soon das suas uozes soaua. 
e eles acordauan. mais os ceeos das tendas, e dos tendilhooens. re- 
lumeauan muito a demais. Os quaaes stauan dependurados en cadeas 
muy sotys. todas de ouro puro e uergas de ouro antre uoltas de prata, 
e doutras muitas colores e resplendentes. Nos quaaes stauan dependu- 
rados uasos. e taças, e pichecs. e bacios, e aceteres. e soalhas, e flores 
e maçaans todas de ouro puro. E antre estas cadeas. e estas outras 
cousas, andana muy gran conpanha de angeos uoando per meo. e auian 
as haas muy luzentes e mais formosas e mais resplendecentes que o 
ouro. nen outra cousa por muy fermosa que possa seer. E cantauan 
tan soborosamente e tan docemente que aqueles que os ouuian eran 
tan alegres, que mais non o podian ser polo gran sabor que delo 
auiam. 

A alma seendo muy folgada e muy consolada por todas estas cou- 
sas que uira. e auendo sabor de estar ainda mais ali. Disso ao angeo. 
para mentes aca. o assi como ella acatou, uiu huma aruor muy espessa, 
carregada de todas aquelas fructas -que no mundo poden seer. E nos 
ramos delia morauan e stauan sempre muitas aues. e de colores de 
muitas guisas, que cantauan seus cantares en uozes de muitas maney- 
ras. muy soborosas. e muy doces. De so os ramos dela. stauan muitos 
lilios. muy tas poças de agoa a demais, e de todas outras maneyras 
de heruas. que dam boon odor. e boon cheyro. e boon sabor. E mora- 
uan so esta aruor muitos homeens e muytas molheres. en casas de 
muy gram lauor. Ca eran todas feitas de ouro e de marfl. que louua- 
uan. e beenzian deus poderosos en nenhuun quedar, por quen el he. 



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118 



REVISTA LtJSlÍÀtíÁ 



e por muitos beens e raerecees que sempre dei receberon. E cada 
huun tynha sua coroa de ouro. en sua cabeça, muy marauilhosas e muy 
nobres. E tynhau baagos douro en suas maaons. E estauan uestidos de 
taaes uestiduras. assi como os monges, que ia de suso dissemos. 

Quando este uio a alma. disse ao angeo. que cousa quer seer esta 
amor. ou que almas son estas que uiuen so ella. ou que obras fezeron 
quando eran uiuos. E o angeo lhe disse. Esta aruor. que tu uees he 
maneyra. e obra da sancta egreia. Estes homeens e estas raolheres 
que moran so ella. foron defensores e fazedores delia, e trabalharon 
muito de a fazer, e de a defender. E poios beens que elles hi fezeron. 
guaanharon. e mereceron de seer aqui chegados, e aconpanhados. E 
per esta maneyra tal. desempararon a uida. e o sabor do mundo, e 
guardaronse de conprir os deseios da carne que lida cada dia contra 
a alma. linpamente. e dereitamente. e piedosamente uiuendo no mun- 
do. Atendendo esperança de ben. ueeron a este logar. Mais non em- 
bargan. nen enpeencen nen fazen nenhuma cousa de mal. E desi disse, 
vaamos mais adeante. 

E eles assi hindo uiron huun muro muy alto. que de fermosura 
e de claridade uencia e passaua per todos os outros que ia dissemos. 
Era muy fermoso e fecto todo de pedras preciosas, e de metaaes mes- 
turados de colores de muitas guisas. Assi que o fundamento dele era 
todo fecto de ouro puro. E as pedras do que era fecto son estas. 
Cristal. Crisolitus. Berilus. Jaspe. Jagonça. Smaragda. Çaflra. Oni- 
china. Topázio. Sardia. Crisoprasa. Amestica. Careata. E granata. Des- 
tas pedras, e de outras muytas semelhantes era fecto este muro. 
Estas alumeauan tan stranhamente no muro por tal guisa que aqueles 
que o vyam. non cuidauan en outra cousa, nen auian sabor de nenhu- 
ma outra cousa, se non de o veer tan solamente. Ca esto lhes parecia 
a elles gram folgança. E depois que sobiron en cima ao muro. uiron 
sen outra duuida cousas, quaaes olho non uio. nen orelha ouuio. nen 
coraçon de homen cuidou, nen pensou. Ca uiron hy noue ordeens de 
angeos. os quaaes son. s. Angeos. Archangeos. Virtudes. Principados. 
Potestades. Dominaçonnes. Thronos. Cherubin. E seraphin. E esta 
alma ouuio palauras muy marauilhosas. e muy sanctas. per tal guisa 
que non conuen a nenhuun homen de as dizer. 

Enton disse o angeo a alma. filha minha, ouues tu esto. e uees 
todo como he. Inclina a tua orelha, e oluida o teu poboo e a casa do 
teu padre. E cobyçara deus a tua fermosura. Esto he a alma. que 
uos direy. ca ben deue homen a entender quan grande pode ali 
seer a alegria, e a dulcidoen. e o sabor e o uiço. Oo que muy 
muy grande he ali a honrra. e a alteza, hu homen pode senpre ueer. 
e ouuir sen fin. o muy gram louuor dos corpos e das conpanbas dos 
sanctos. e dos angeos. e dos archangeos. e dos patriarchas. e dos 
prophetas. e da muy gran conpanha e freraosa dos mártires, e o nouo 
cantar das uirgeens. e gloriosa conpanha dos apóstolos, e merecer de 
seer aconpanhado ao choro dos confessores, presentes. E demais o 
que passa todos os plazeres. e alegrias, que poden seer. conuen a sa* 



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VlSÍO DE TÚNDÁLO 



1Í9 



ber. ihu xpõ que he pan e comer dos angeos. e uida de todas as cou- 
sas que son. Auer de o sentir, e o acatar, e o ueer a perto de si. 
mui piedoso e mny misericordioso. 

Mais daquel logar hu estonce stauan e como quer que uissen to- 
dos os plazeres que uos de suso dissemos, e folgança e glorias que 
ante uiron. mais ainda uyam todas as penas, que ia de suso dissemos. 
E ainda uiron outra cousa que he muito de marauilhar. s. dali uiron 
e ueen todos aqueles a qucn deus faz aquela graça, todo o mundo assi 
só huun rayo de sol. E aquel a que era outorgado de ueer nosso se- 
nhor huma vez. iamais nunca dei pode tolher os olhos. Ca iamais 
nunca se pode fartar de o ueer. 

Esto era gram marauilha. Ca stando en aquel logar meesmo. en 
que estauan ante. assi como os que stauan depôs elles. e non tan so- 
lamente por ueer con os olhos, mais en uerdade. sciencia e entendi- 
mento non custumado. lhe era dado a alma. de guisa que lhe non fa- 
zia mais mester de perguntar per nenhuma cousa. Ca abertamente, e 
dereitamente. e conplidamente sabia aquelo que queria. 

E elles stando assy parou mentes a alma. e uio star san patrício, 
arcebispo que foy de ybernia. con gram conpanha de bispos antre os 
quaaes uio quatro que conhocia. s. O arcebispo artinatheno. E mala- 
chias que foy arcebispo despos elle. que de Innocencio papa. veo de 
Roma per mandado dei por delegado, e por arcebispo de toda a yber- 
nia. O qual todas as cousas que auia e podia auer. departia. e dauao 
a pobres, e a moesteyros. E fez quatro moesteyros de monges e de 
molheres de orden aos quaaes dana todas as cousas que lhes fazian 
mester. E pera si non guardaua nen retynha nenhuma cousa senon a 
ssua necessidade. Outro sy era muy boon christãao o que foy arcebispo 
de longino. e homen de muy sancta uida. e irmãao de padre e de 
madre deste malachias. que ia dissemos que fazia muito ben e muita 
mercee a pobres. E o outro meenias bispo de dunhom. homen sancto. 
o muy boon. simples e manso e casto. E sabia tanto, que de bondade 
passaua todos os homeens que en aquel tenpo eram. Estes quatro bis- 
pos conhoceo ela e estaua a perto deles, e uio huma seeda muy hon- 
rrada. e muy nobre a marauilha. en que non sya nenguun. Quando 
esto uiu a alma disse. Cuia he esta seeda. ou por que sta assi uaga. 
Eespondeolhe Malachias [e disse. Elsta seeda he de nosso irmãao que 
ainda non he passado. Mais depois [que uier] seera en ella. E a alma 
auendo muy gram sabor en todas estas cousas, [entom] chegou o an- 
geo que andaua con ella. e disselhe muy saborosamente. [Tens] uistas 
todas estas cousas, e a alma lhe disse. sy. mais rogote [senhor que] me 
leixes aqui folgar. E o angeo lhe disse, a teu corpo te has de tornar, 
e todas as cousas que uiste. demostrarias as. e contarias as a todos 
os homeens a que o demostrar, e contar poderes, por que façan prol 
de suas almas. 

E a alma quando ouuio dizer ao angeo que ao corpo auia de tor- 
nar, ouue tan grani noio e tan gran pesar, e tan gran coyta. que may.vr 
non podia seer. E começou de chorar muito a marauilha. E en cho- 



Í20 



REVISTA LUSITANA 



rando assy. disse ao angeo. Senhor que mal foy este que eu fiz. por 
que aia de tornar ao corpo, e leixar tanto ben e tanta folgança. E o 
angeo lhe disse. En esta folgança non merece de entrar nenhuum saluo 
os uirgeens. e as uirgeens que seus corpos guardaron de luxuria, e 
queren mais sofrer de non conprir suas uoontades. por tal que possan 
auer esta folgança tan grande. Mais que se ençuiar nen luxar nos sa- 
bores e nos seus talentes e dcseios maaos. e torpes. E tu non podes 
aqui ficar agora, por que non quiseste creer a» palauras da sancta 
scriptura. Mais tomate a teu corpo, donde saiste. E trabalhate muito 
de te guardar de todo aquelo que ante fazias. Ca sempre sera contigo 
a nossa ajuda, e o nosso conselho. E assi como esto disse, tornouse a 
alma. E assy como começou de se mouer. tan aginha se sentio carre- 
gada e agrauada do peso da carne. Ca non sentio. nen lhe semelhou 
nenhuun estoruoyro. nen espaço dhnma hora do dia. 

Mais en aquella meesma hora. que suso fallara con o angeo. se 
sentio en terra, e se meteo en seu corpo. E o corpo abrio logo os olhos 
muy fortemente, e começou de suspirar non dizendo nada. E parou 
mentes aos clérigos que stauan en de redor dei. E fez sinal de conmun- 
gar e conmçngou. e desy deu graças a nosso senhor deus. E [partio 
tudo olque auia e deuo a pobres. E mandou poer o signal da cruz nos 
[vestidos com que se vejstio. e desi começou de nos contar quanto uira. 
E conselhou[nos que fizéssemos] ben e uiuessemos boa uida. e sancta. E 
pregou as palauras [da sancta scriptura] muy afficadamente a cousa que 
nunca leera nen soubera muy sag[esmente con] gran deuoçon. Mais nos 
que a uida deste non podemos seguir trabalhamos por escre]uer esto. 
Sequer por proueito daqueles que o leeren. e ouuirem. 

Aqui se acaba a uison que uiu este caualeyro de suso scripto. 
que se chama Tungulo. 

Eu frey marcos, que esto screuy. son testemunha desto todo. Ca 
eu ui con meus olhos o homen a que esto aconteceo e que me contou 
todo assi como ia ouuistes. e assi como o el contou a my. assi traba- 
lhey eu de o screuer e de o contar o melhor que eu pudy. Esta uison 
aconteceo no anno da encarnaçon de nosso senhor, da Era de mil e 
o. xl. annos. No anno que o Einperador coroado dos Romanos auia 
dous annos que reynaua. E que Eugénio segundo papa auia iiij an- 
nos que era apostólico. Poren roguemos aa quel que he auctor de 
nos todos e da nossa saúde, que he ihu xpõ que el nos enderence en 
aquelas cousas que seiam a sseu seruiço e a sseu plazer. Ao qual seia 
louuor e gloria per infinita secula seculorum. Amen. 

Finito libro sit laus et gloria xpõ. Qui scripsit scribat. et semper 
cum domino uiuat. Amen. 



Nota. A ultima folha do códice está traçada no angulo superior esquerdo. 
Completaram -se as palavras, seguindo o texto latino, mas metteram-se entre [ ] as 
letras que já nào podem ler-se. 



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CÍGANOS PORTUGUESES DOS tflNS DO SÊO. XVI l2l 



CIGANOS PORTUGUESES 

DOS FINS DO SEC. XVI 

(Continuação) 



XI. — Dom Felipe etc. Faço saber que G(onçall)o F(e)r(nande)z, 
m(orado)r no termo da villa d'Allcacere e preso na cadea delia, me 
évyou dizer que estamdo ele preso por hu ferjm(en)to, hús sy guanos 
e outros presos na d(i)ta cadea ha mjnarão, e romperão a parede delia 
q(ue) hya p(er)a a casa do paço homde se vemdya o tr(ig)o, e lhe fi- 
zerão hú gramde buraco, p(e)lo quall fogyrã de noyte aos xxb d(ias) 
do mes de Janeyro p(assa)do de 95 q(ue)brãdo he Romperão as por- 
tas do d(i)to paço por homde sahyrão, do que se tjrara devasa, é que 
cullparão a elle sup(plicam)te dizemdo que dera ajuda he favor enão 
descobrjr como mjnauão a d(i)ta cadea, e que tãobem sahyra p(e)lo 
d(i)to buraco a casa do paço domde cõ outros presos se tornara ha 
meter na d(i)ta cadea, e demtro nella fora hachado ao t(em)po que a 
Justyça hacodyra, que premdera todos os que fogyrã salivo hu soo dos 
syguanos que desaparecera loguo, e estaua jaa preso nesta cidade, e 
hera pobre e casado q(ue) ha m(isericor)dja estaua sostétado, me pe- 
dya lhe p(er)doase ha cullpa que tynha na d(i)ta fogyda da maneyra 
que dizya e R(eceberia) M(ercê). E v(is)to seu Requerym(en)to e hú 
parece cõ ho meu pase ey p(or) bem e p(ra)z de p(er)doar ao sup(li- 
can)te a culpa de comsétyr que os outros presos mjnase a cadea, e 
fizese ho buraco p(er) que fogyrão se os descobryr, e asy da fogyda 
que fez p(e)lo mesmo buraco de que faz memção p(e)lo modo que de- 
clara v(is)to ho que halegua e a Imforraação do Juiz de fora, e pa- 
guara ij reis p(er)a as desp(e)sas da mesa que paguou ao R(ecebed)or 
delias, he forão sobre elle p(er) seu sc(ri)pvão careguados e Re(cep)ta 
vos mãdo etc. na forma. elRey ho mamdou p(e)los doutores Amt(oni)o 
^Allmeyda, he Di(og)o d'Af(on)sequa etc. xpouão calld(ei)ra a fez e 
lix(bo)a a xxij de julho de m b c lRb. João da costa a fez sc(re)pv(er). 

(D. Felippe i, Liv. vm de Legitimações e perdões, fl. 111 v.). 

XII. — Dom Felipe etc. Faço saber que D(oming)os F(e)r(nand)ez 
oleyro, e Dyoguo F(e)r(nand)ez seu f(ilh)o famylyas, m(orado)res na 
villa de Loulé, me éujarão dizer p(er) sua petyção que no termo da 
cjdade de syllues emcomtrarão com huns syguanos, e tjuerão com elles 
defcremças, de que sahjra ferjdo hú dos syguanos p(er) nome Fr(an- 
cis)co F(e)r(nand)ez de húa ferjda p(e)las costas, de que hera são, a 
q(ua)l lhe dera hú Gaspar F(e)r(nand)ez que hacodjra em fauor delles 
sup(plican)tes, e a parte lhes 1jnha p(er)doado me pedjão lhes p(er)- 



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123 



REVISTA LUSÍTáNA 



doase a cullpa que tjnhâo no djto caso, e R(eceberia M(ercê), e v(is)to 
seu requerjm(en)to ey p(or) bem e me praz de p(er)doar a cullpa de 
que em sua petjção faz memção p(e)lo modo que declarão, v(is)to as 
cousas que haleguão, e o p(er)dão da parte que oferecem e paguarão 
ambos mill reis p(er)a a p(ieda)de, os quaees pagou ha di(og)o E(e)r- 
(nand)ez he forão sobre elle p(er)p(er)o Roiz careguados em Re(ce)pta 
vos mamdo etc na forma el Rey noôo senhor ho mamdou p(e)los dou- 
tores p(er)o barbosa, J(eroni)mo P(erei)ra de Saa, Migel momt(ei)ro 
a fez é Lix(bo)a a xix di(as) de feuerejro de mill b e lxxxij. Lucas 
V(ieir)a a fez sc(re)pv(er). 

(D. Felippe r, Liv. 9 de Legitim. e perdões, fl. 56 v.). 

XIII. -— Dom Felipe etc. Faço saber que amt(oni)o cauanaque, 
m(orad)or na villa do Vjrajoso, me éujou dizer que serujndo de cace- 
reyro este ano de ra b c lxxxij lhe fora emtregue hú P(er)o F(ernand)ez, 
ciguano, que ho premdera Belchjor de Maçedo, m(ei)r(inh)o da cor- 
rejção, por andar e companhja de hú bamdo de ciguanos fazemdo se 
c(on)de delles, e p(or) trazer hú gjbã° de damazquo amarello e hús 
callcoees de damazquo pardo o q(ua)l sayra c(on)denado per s(enten)ça 
do C(orreged)or da comarq(u)a em iiij reis amctade p(er)a o m(ei)r(inh)o 
e ametade p(er)a a m(isericord)ja, e vyera apellação a esta corte, say- 
ra condenado p(er) s(enten)ça da Rolação ê cimquo anos de gualles, 
e açoutado p(u)p(li)cam(em)te, e asoluto do d(inhei)ro e amtes q(ue) 
ha s(enten)ça fose o d(i)to P(er)o F(ernand)ez furara ha cadea, e lhe 
fezera hú buraco p(er) homde se sayra e abryra a argolla da corremte 
cõ que estaua preso, e se soltara dos ferros, e fogjra delia, me pedja, 
ouuese p(or) bem de lhe p(cr)doar a d(i)ta cullpa. e R(eceberia) M(ercê); 
e visto seu Requerjm(en)to ey p(or) bem de lhe p(er)doar ao sup(pli- 
cam)te a cullpa, que teve na fogjda da cadea do ciguano que estaua 
preso he, paguara ij, reis p(er)a a piedade os quaees pagou a D(jog)o 
F(ernand)ez e p(er) outro de m(anue)l de Souza que os sobre elle ca- 
regou em Recepta vos mando etc. na forma, el Rej noso s(enh)or ho 
mãdou p(e)los doutores J(erony)mo p(erei)ra de Saa, he P(er)o Barbosa 
etc. Felipe da Costa a fez em Lix(bo)a a bij de mayo de mb° lxxxij. 
Johão da Costa a fez sc(re)pv(er). 

D. Felippe i, Liv. ix de Legitimações e perdões, fl. 86). 

XIV. — Don fellipe etc. Faço saber que Thomé F(e)r(nand)ez, 
m(orad)or ê Evoramõte me enujou dizer p(cr) sua petição, q(ue) ser- 
uindo de allcaydo e carce(rei)ro na dita villa lhe fogirao da cadea a 
páscoa p(assa)da dous çiganos q(ue) estauão presos sóinete pella ley 
do Reynno se aver out(r)a p(csso)a q(ue) dclle se qucyxase, os quais 
estauão sétéçeados na pena da dita ley pello ou(uid)or e prouedor, 
q(ue) fosen açoutados, e cõ dous ãnos de degredo p(er)a as gales, e a 
pena dos açoutes estaua ja executados, lhe fogirão os ditos dous çiga- 
nos cõ os grylhões nos pes pello telhado da cadea que era casa terrea 
e baixa, e não era daboboda, e limara duas chaues dos trauelhos, o 



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CIGANOS PORTUGUESE3 BOS FltfS í)0 SEC. XVI 



123 



q(ue) tudo fizera se cullpa do sup(plican)te de noyte, como constaua 
do auto e devassa que do caso se tirara, q(ue) estaua na dita villa 
e o sup(plican)te depois da dita fogida té feito m(ui)ta deligencia 
Buscando os por m(ui)tas partes, e quasy por todo alemtejo, como se 
via das çertydões que ofereçia pello que me pedja lhe perdoase a cul- 
pa, que no caso tiuera, avendo Resp(ei)to a dar sepre de sy muyto 
boa cota no dito cargo, e R(ecebêri)a m(ercê) ; e visto seu Requeri- 
m(en)to e hu pareçe cõ hú meu pase ey p(or) bé, e me praz se asy 
he como o sup(plican)te diz, e hy mais não ha de lhe perdoar a cull- 
pa de lhe fogire os dous presos de que) faz meçã sendo carçe(rei)ro, 
visto o q(ue) alega, e pagara mil r(ei)s p(er)a as desp(es)as da casa 
do despacho dos desébarg(ado)res do paço, e p(or) q(uan)to os ja pa- 
gou a Andre Roiz, e lhe forã p(or) P(er)o de Seyxas carregados e 
Receyta vos mando etc. na forma. EIRey noso s(enho)r o mandou pellos 
doutores Melchior do amarai, c L(ouren)ço Correa etc. Miguel Mõt(ei)ro 
a foz é Lix(bo)a aos iiij de b° Ixxxiiii (sic), Lucas V(ieir)a a fez 
sc(re)pv(er). 

(D. Felippe i, Liv. x de Legitimações e perdões, fl. 176 v.). 

XV. — Dom Fellipe etc. Faco sab(e)r que amrrique de flores, 
João de torres, João Ro(dr)i(gue)z, amdre m(art)i(n)z, çiganos presos 
na cadea da villa de pavya, me emujarão diz(e)r p(er) sua petição, 
que o L(icencia)do João leitão os premdera p(or) ãdarem no Rejno 
soom(en)te, e que eu os mandaua soltar p(er) minha p(r)ouisão p(e)la 
éformação que ou vera do d(i)to L(icencia)do, e estamdo assj presos 
cõ outro home da tera natural, fora achado hum buraco na cadea f(ei)- 
to no chão cõ híin cujtello, E os Juizes lho derão em culpa, e p(or) 
que elles sup(lican)tes herão miseraueis e se sosténtauão desraolas, e 
o buraco estaua Ref(ei)to cõ o trabalho dellés de pedra, e não ouucra 
total Rompi tií(cn)to, e a cadea ficaua mais forte, me pedião, lhes per- 
doasse a culpa do caso, e Receberyão mercê. E v(is)to seu Requeri- 
m(en)to, ey por bé, e me praz, se asy heo, e mais não haa, de per- 
doar aos snp(lican)tes liurem(em)te a culpa que é sua petição declarão, 
e que sejão soltos, se p(or) al não estjueram presos, e p(or) tãto vos 
mando etc. na forma. EIRej nosso s(enh)or o m(an)dou p(e)los douto- 
res p(er)o barbosa, e J(erony)mo p(erei)ra de saa etc. g(asp)ar velho 
a fez é lix(bo)a a biij° de junho de m b° lxxxj. 

D. Felippe i, Liv. xi de Legitimações e perdões, fl. 56 v.). 

XVI. — Dom Felipe etc. faço sab(e)r que Amt(oni)o f(e)r(nande)z, 
alcajdo e cacerejro da villa de muja, me éviou dizer p(er) sua petição, 
q(ue) estando presos na cadea da dita villa, e etreges a elle caçerejro 
dous ciganos p(er) nome fr(ancis)co maldonado e fr(ancis)co de medon- 
ça, p(or) culpa de os acharé na charneq(u)a, e se dizia, q(ue) fazião 
algús furtos, o Juiz raãdara, q(ue) se ljurasé, e não tiuerão p(ar)te, e 
os setécearão na dita villa soltos e liures, e trazendo os elle cõ duas 
corrétes e peados cõ trebelhos e presos a húa mo q(ne) estaua metida 




124 



ÉBtlSTÀ LtJSlTAKA 



no chã, os ditos sjganos cõ ajuda de fora de Ijmas q(ue) lhe derão, 
Ijmarão os ferros com ljmas surdas, e a Rombarão a porta da cadea, 
e que fizerão hú buraco, lhe fogjrão á mea noyte pouq(u)o mais ou 
menos e p(or) q(ue) os ditos presos lhe fogirâo se elle ter culpa algua, 
e os não podia achar, me pedia ouuese p(or) be de lhe perdoar a dita 
culpa, e R(eceberi)a m(ercê). E v(is)to seu Requerim(en)to, ey por bé, 
e me p(ra)z de lhe p(er)doar ao su|)(plicantè) ã(toni)o f(è)r(hande)z a 
culpa da fogida dos dous presos de q(ue) faz meção p(e)lo modo q(ue) 
declara, v(is)to o q(ue) alegua, e como não tem p(ar)te, e paguara dous 
mil r(ei)8 p(er)a a piedade, e p(or) quãtos os te paguos, vos mãdo etc. 
é forma. El Rej nosso S(enh)or o mãdou p(e)los d(ou)t(o)res g(asp)ar 
de fig(eire)do, e p(er)o barbosa etc. Jo(a)m da costa a fez é lix(bo)a 
a xi dagosto, Anno de mb c lxxxi. 

(D. Felippe r, Liv. xi de Legitimações e perdões, fl. 100 v.)- 

XVII. — Dom Felipe etc. Faço saber que a(fons)o vylela, cura- 
dor m(orad)or e Villa Velha, comarqua de Castel Brãco, me évyou 
dizer que servyimdo de cacer(ei)ro nella, lhe fogyrão dous syguanos, 
que estauão presos p(or) furto de hus burros, de que se tyrara deva- 
sa, e prenderão ao sup(lican)te, e estando preso fogyra da cadea. e da 
cullpa da fogyda ouuera p(er)dão, e p(or)que tynha presos os d(i)tos 
syguanos p(er) sua jmdustrya na villa de Santarém vymdo os seguym- 
do, como constaua da certjdão que ofereçia, me pedya lhe p(er)doase 
a cullpa que tjuera, em lhe fogyrem os d(i)tos dous presos, e Rece- 
beria) M(ercê). E visto seu Requerjm(cn)to, he hú pareçe cõ ho meu 
pase, ey p(or) bem, e me p(ra)z de p(er)doar ao sup(lican)te a cullpa 
de lhe fogyrem os dous presos que diz, v(is)to como p(er) sua jmdus- 
trja os tornara ha premder, he a jmformação do C(orreege)dor, e jsto 
lyurem(en)te vos mamdo etc. na forma, el Rey ho mamdou p(e)los 
doutores Am(toni)o da Guarna, e Damjao dAgujar etc mjgel momt(ei)- 
ro a fez é Lix(bo)a a xxiij de set(emb)ro de mill b° lxxxb, lucas 
Vi(ei)ra a fez sc(re)pv(er). 

leua clausolla que este p(er)dão lhe não valera chamamdo-se os 
d(i)tos presos as ordés. ou jmmunjdade da Igreja. 

(D. Felippo i, Liv. xn de Legitimações e perdões, fl. 282). 

XVIII. — Dom Felipe etc. Faço sab(e)r que Do(ming)os Diaz, 
ferr(ei)ro, m(orad)or no luguar de Guafete termo do Crato q(ue) mes 
de outubro de 85 d(ia) de Santa C(athari)na, amdamdo no d(i)to lu- 
guar certos syguanos tãtos como R 1 fazyão m(ui)tos hagrauos, e Rou- 
bos, e trazyão escopetas, e outras armas, e avja mais de xxx di(as) 
que hahy se deyxauão andar, e em t(em)po que os homes andauão é 
seu servyço de suas faz(en)das p(e)lo que sobcedemdo hua brjgua am- 
tre os d(i)tos sjguanos cõ certos m(orad)ores do d(i)to luguar, acodyo 



1 coReinta — Ru — R — 40. 



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OIOAWOS PORTU13UK8ES D08 PW9 DO SBO. X?í 



125 



o sup(lican)te e outros e tratado de se defemderera dos d(i)tos çigua- 
nos que os querjão matar e sahjrâo ferjdos quatro dos d(i)tos çiguanos 
amtre os quaees foj hú balldão g(onça)l(ve)z sjguano na cabeça e ou- 
tros, que forão todos saãos sem desformjdade nem ha leyjão, e os Jui- 
zes do crato prenderão a elle sup(Kcan)te p(e)lo d(i)to caso, e o etre- 
guarão solto sem ferros ao Juiz do d(i)to Guafete, ho q(ua)l Juiz o 
etreguou a hú quadrjlheyro que h# trazya solto, e Imdo se os çigua- 
nos da terra [e Imdo se os çiganos] p(or) fazerem p(er)dens p(u)p(li)- 
cos, que ho não querjão hacusar, nem ouuera devasa, soom(en)te hú 
auto, p(e)lo que se não p(er)gútarão t(estemunh)as, me pedya lhe p(er)- 
doase a cullpa da d(i)ta fogyda, e asy da cullpa, que tyuera no caso 
das d(i)tas ferjdas, e som(en)te fogyra sem quebrar ferro nem outra 
prysão, que Reallm(en)te não estaua preso, e R(eceberia) M(ercê). E 
v(is)to seu Requerjm(en)to, he hu parece co ho meu pase, ey p(or) 
bem, he me p(ra)z de p(er)doar ao sup(lican)te a cullpa dos ferjmen- 
tos, de que faz menção, e fogyda da cadea, v(is)to ho que alegua, e 
p(er)dão q(ue) me oferece, he paguara mil e quynhentos r(ei)s p(er) 
as des(pe)sas da casa do despacho, que pagou ao R(ece)p(t)ar delias, 
e forão sobre elle p(er) seu sc(ri)pvão careguado e Re(ce)ta vos mam- 
do etc. na forma, el Rey ho mamdou p(e)los doutores m(anu)el de 
Sousa pachequo, j(eroni)mo p(erei)ra de Saa, mjgel momt(ei)ro a fez 
e lix(bo)a a xxj de Janeyro de m b° lxxx bj lucas V(iei)ra a fez 
sc(cre)pver. 

(D. Felippe i, Liv. xii de Legitimações e perdões, fl. 320 v.). 

XIX. — Dom fellipe etc. faco saber, que Jorge ra(art)i(n)s palhe- 
te, e gaspar lopes panasco, lavradores m(orado)res no termo da villa 
daluyto, me enviarão dizer per sua pitição, que huns ciganos (a) s(a- 
ber). jo(a)m dalmeida, v(as)co f(ernand)es forão ao monte aonde elles 
ditos morão, e lhe furtarão húa gallga, e deitauão os jumentos no # pão, 
por ire muitos ciganos de manada, e achãdo menos ha gallga, forão 
em busca delia, e acharão em poder dos ciganos, os quais a não qui- 
serão entregar, sobre que os ditos ciganos se armarão contra elles 
sup(lican)tes, e vierão a brjgar, da qual briga sairão ferjdos das ferj- 
das declaradas no perdão que se apresenta, e por quanto forão cull- 
pados, e que no caso tiuerão todos a cullpa, lhes perdoarão liuremen- 
te, como parecia do dito perdão, e por que elles sup(lican)tes erão la- 
vradores pobres, que não tratarão de mais, que cobrar, o que lhe le- 
uauão furtado, e os ditos ciganos ficarão sãos sem alejão nem desfor- 
mjdade, me pedia, ouuese por bem, de lhes p(er)doar a culpa do caso, 
e R(eceberi)am mercê E v(is)to seu Requerj mento, e hú parece cõ hú 
meu passe, ey por bem, he me pras, se asy he, como os sup(lican)tes 
dize, he hi mais não ha, de lhes p(er)doar a culpa dos ferjm(en)tos, 
de que fas mensão, p(e)lo modo que ho declarão, v(is)to ho que ale- 
gão, he o p(er)dão das partes, que oferecem, e pagara cada hú mil- 
r(ei)s p(ar)a a piedade, e por os pagar ao R(ecebed)or, vos mãdo etc. 
na forma, ell Rej o mãdou p(e)los d(ou)tores manuell de sousa pache- 



126 



REVI8TA LUSITANA 



co, e darajão dagujar etc. fr(ancis)co nanes de paaja a fes em lix(bo)a 
aos doze de outubro de ra b° lxxxix. 

(D. Felippe i, Liv. xiii de Legitimações e perdões, fl. 8)., 

XX. —Dom felipe etc. faco sab(e)r que d(oming)os f(e)r(nande)z, 
m(orad)or na villa datalaia, me éuiou dizer que sendo elle alcajde, o 
carcerejro na dita villa, ãtre outros presos, lhe fora emtregue preso 
hu sigano p(er) nome solazar, por andar p(e)lo Rejno sem l(icen)ça, e 
tendoo preso cõ hú macho de dous ellos e híia corrente os pees, e sen- 
do elle sup(lican)te de noite cõ o juiz fazer deligencia, o dito siguano 
ljmara a corrente, e fogira, lcuando cõsiguo o macho, e furando a ca- 
dea p(e)lo telhado, e fogira soo, e elle sup(lican)te ouuera alu(a)ra de 
busqua, se o poder achar, e o não podia ja achar por jr na gale des- 
panha como constaua do estrométo junto, e era home pobre, me pedia, 
lhe p(er)doase a culpa de lhe fogir o dito preso, e R(cceberi)a m(er- 
cê). E v(is)to seu Requerimento, e hú parese cõ meu passe, ey p(or) 
bé o me p(ra)z, se asy he, como diz, de lhe p(er)doar a culpa da fo- 
gida do preso, de que era carcerejro, p(e)lo modo q(ue) declara, v(is)- 
to o q(uc) alega, e certidões q(ue) ap(re)seta, e pagara mil r(ei)s p(ar)a 
a piadade, e por quanto os ja tem pagos, vos mãdo etc. é forma el 
Rej nosso senhor o mâdou p(e)los d(outo)res belchjor do amarai, e 
l(ouren)ço corea etc. (christ)ouão cald(ei)ra a fez e lix(bo)a a oito de 
outubro de qujnhetos e nouéta, lucas v(iei)ra a fez escrever. 

(D. Felippe r, Liv. xm de Legitimações e perdões, fl. 163 v.). 

XXI. — Dom felipe etc. faco saber que p(or parte de m(anu)el 
da fonseca me foi ap(resetado hú alu(a)ra p(er) myn asjnado e pasa- 
do p(e)la ch(ancella)ria, de q(ue) o treslado he o seg(uin)te: Desebar- 
gadores do paço amigos, auendo Resp(ei)to a m(anu)el da fonseq(u)a 
q(ue) foj preso na villa de mamão p(e)la culpa da morte de húa ci- 
gana, ser menor ao t(em)po q(ue) o dito caso acõteçeo, e asobceder a 
dita morte acidentalm(en)te, e a não ter p(ar)te, q(ue) o acusase, se 
não a just(iç)a, e a se toruar algúas vezes do vinho, e a ser a dita 
morta molher p(ubli)ca, e de mao vjver, e v(is)to outrosy a jnforma- 
ção q(ue) se ouue p(or) meu raãdado p(e)lo desembargador g(asp)ar 
barbosa, juiz do dito caso, e seu parcçer, e como p(e)la dita jnforma- 
ção constou o acima dito, e auer desuajro nos uotos, p(er) q(ue) o dito 
m(anu)el da fonsoq(u)a foi codenado á morte de forca p(e)ra sempre 
p(er) final sentença, o q(ua)l vejo cõ embargos, q(ue) lhe forão Reçe- 
bidos, e aser pobre casado cõ filhos, ey por be, e me p(raz) comutar 
lhe a dita morte de forca p(er)a sempre e degredo perpetuo pera ga- 
les, p(el)o q(ue) vos mando, lhe façais passar carta de perdão de co- 
mutação é forma na man(ei)ra acima declarada, p(er)o da costa o fez 
é lix(bo)a a seis de dez(emb)ro de mil e quinhétos e nouéta. pedindo 
me o dito m(anu)el de afonseca, lhe mãdase passar carta de perdão de 
comutação em forma cõforme ao dito alu(ar)a, E v(is)to seu Requerj- 
mcnto, e ó dito alu(a)ra acima trelladado, ey p(or) bê, e vos mando, 



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CIGANOS PORTTOUB8J5S D08 FiN8 DO SBC. XVf 



127 



q(ue) não façais exequçam no dito manucl de afonseca p(e)la sétença 
q(ue) foj dada cõtra elle, q(ue) morrese na forca, por q(ue) ey por bem, 
de lhe p(er)doar, e comutar a dita morte p(e)la man(ei)ra declarada 
no dito alu(a)ra el Rej nosso s(enho)r o mãdou p(e)los d(outo)res J(e)- 
r(oni)mo p(erei)ra de Saa, e belchior do amarai, ambos do seu cõselho 
e seus desébargadores do paço, belchjor pinto a fez c lix(bo)a a deza- 
noue de dez(emb)ro de mil e quinhetos e nouenta Joam da costa a fez 
escreuer. 

(D. Filippe i, Liv. xni de Legitimações e perdões, fl. 189). 

XXII. — Dom felipe etc. faco sab(e)r que m(anu)el da fonseq(u)a, 
preso nas galles despanha, me eujou dizer, que elle fora acusado p(e)- 
la just(iç)a, po(r) se dizer, q(ue) matara na villa de maruão húa mo- 
lher cigana p(e)ío q(ua)l caso fora degradado cõ baraço e p(er)gão 
p(er)a as gales, e po(r) que era home de jdade de vinte e cinq(u)o an- 
nos, e mais home egenhoso, e nesta expedição, que se faz p(er)a o 
Rejno de amgolla, pode lá ser m(ui)to provejtoso asj p(era) a gerra 
como p(er)a arteficios de cousas, q(ue) na gerra soo necessárias, me 
pedia ouuese p(or) bê, de lhe comutar o dito 'degredo de gales, p(er)a 
o Rejno de amgoúa, e jrá a arbitrjo do g(ouerna)dor p(er)a la o acu- 
par, no q(ue) pareçer, q(ue) cõve a meu serviço, e R(eceberi)a m(er- 
ce), e declaraua que da prjmejra setença fora cõdenado a morte, e de- 
pois viera cõ êbargos, e lhe fora cumutada a pena de morte em gales 
p(er)a sempre, e v(is)to seu Requerjmento, e hú parese cõ meu passe, 
ey p(or) bé, e me p(ra)z, se asj he, de lhe cumutar o degredo p(er)a 
sempre, em q(uc) lhe foj cumutada a pena de morte p(e)la culpa da 
morte da cigana de q(ue) faz meção, p(e)lo modo q(ue) declara, em de- 
gredo p(er)a sempre p(er)a amgola, v(is)to o que alega, e ser de me- 
nor jdade, quando cometeo o dito dilito, e pfor) tanto vos mando etc. 
e forma, el Rej nosso senor o mãdou p(e)los d(outo)res damjão dagujar, 
e j(e)r(oni)mo p(erei)ra de Saa etc. f(rancis)co nunez de pauia a fez 
e lix(bo)a aos xxbiij 0 de jan(ei)ro anno de m b c lRij. 

(D. Filippe r, Liv. xni de Legitimações e perdões, fl. 328 v.). 

XXIII. — Dom felipe etc. faço saber que m(anu)el diaz, alcajde 
e cacerejro da villa dalualade do campo douriq(u)e, me emvjou di- 
zer, q(ue) tendo prezo hú cigano, que chamauão esteuão preto, e vjnha 
degradado p(er)a as gales por tempo de tres annos, tendo o em fer- 
ros, o dito cigano fogira hua noite por çima de hu telhado cortando 
os ferros, como constaua do estromento, q(ue) ap(re)setaua, e elle 
sup(lican)te ouuera meu alu(a)ra de busqua, e fizera tantas deljgen- 
cias, q(ue) tornara a préder o dito cigano na villa do torram, pedin- 
dome. que ouuese p(or) bê, de lhe p(er)doar a culpa da fogida do dito 
preso, e R(eceberi)a m(erce); e v(is)to seu Requerjm(en)to, e hu pa- 
rese cõ meu passe, ey p(or) bé, de lhe p(er)doar a culpa, de lhe fogir 
o preso sendo alcajde, e caçerejro de q(ue) faz meçam, p( e )l° m °d° 



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REVISTA LUSITANA 



q(ue) declara v(is)to o q(ue) alega, e isto ljnrem(en)te v(is)to como o 
tornou a preder p(or) sua jndustria, e p(or)tanto vos mádo etc. e forma, 
el Rej nosso s(enh)or o mãdou p(e)los d(outo)res dy(og)o lamejra, e 
J(e)r(oni)mo p(erei)ra de saa etc. fr(ancis)co nunez de pauia o fez em 
lix(bo)a aos tres de majo anno de mil e qujnhêtos novéta e dous. 
(D. Felippo i, Liv. xiv de Legitini. e perdoes, fl. 4). 

XXIV. — Dom Filipe etc. faço saber que m(anu)el lopez, home 
baço, preso na cadea da villa de thomar, me eujou dizer q(ue) elle 
fora preso, e acuzado p(e)la just(iç)a, e cõdenado p(er) sétença da Re- 
laçam e hQ anno de degredo p(er)a crasto marim cõ pregam na au- 
d(ien)ci)a, po(r) se dizer, ferir hua vjlante salgada, sjgana, e se fizera 
nelle execuçam do pregão, e fora solto a xxb de nou(emb)ro de oj- 
tenta e dous p(er)a é trinta dias jr cõprir seu degredo, como tudo 
constaua da certidam, e sétença junta, e não fora conprir seu degredo 
ate gora, p(e)lo q(ue) estaua preso na cadea da dita villa, pedindome, 
ouuese p(or) bé de lhe p(er)doar a culpa de não jr cõprir e t(em)po 
o dito degredo, e R(eceberi)a m(er)ce; e v(is)to seu Requerjm(en)to 
e hu parese cõ meu passe, ey p(or) bê, e me p(ra)z de lhe p(er)doar 
a culpa de não jr cõprir o degredo e t(em)po p(er)a crasto marim, de 
q(ue) faz méção, p(e)lo modo q(ue) declara, v(is)to o que alega, e es- 
tará mais no dito degredo dous meses, p(e)lo q(ue) vos mando etc. e 
forma. elRey nosso s(enh)or o mãdou p(e)los d(outo)res j(e)r(oni)mo 
p(erei)ra de saa, e belchjor do amarai etc. (christ)ouão cald(ei)ra a 
fez e lix(bo)a a xj de majo de m b c IRij jo(a)m da costa a fez escrever. 

(D. Felippe i, Liv. xiv de Legitim. e perdões, fl. 7 v.). 

XXV. — Dom felipe etc. faço sab(e)r, que amt(oni)o fr(ancis)co 
preso na cadea de castelo branco, me éviou dizer, q(ue) a elle o pré- 
derão, por dizeré, q(ue) amdaua é companhia de sjganos, no mes pas- 
sado fogjra da dita prjsam por hua janella q(ue) estaua aberta, e sé 
fechadura, e sajra po(r) hu alçapam q(ue) també estaua então aberto 
sé quebrar ferro né cadeado, e p(or) q(ue) elle sup(lican)te po(r) o 
caso p(er) q(ue) estaua preso, estaua ljure p(e)la sétença q(ue) offe- 
reçeo, en q(ue) o mãdauão soltar, e elle era pobre cõ molher e f(ilh)os, 
me pedia, ouuese p(or) bé de lho p(er)doar a culpa da dita fogjda, e 
R(eceberi)a merçe; e v(is)to seu Requerjm(en)to, e hu parese cõ meu 
passe, ey p(or) bé, e me p(ra)z, se asj he como o sup(lican)te diz de 
lhe p(er)doar a culpa da fogjda da cadea, de q(ue) faz méção p(e)lo 
modo q(ue) declara, v(is)to o q(ue) alega, e pagara quatrocentos r(eis) 
p(er)a a piadade, e po(r) quanto os tem já pagos, vos mando etc. é 
forma, e leua a clausulla q(ue) tome carta digo q(ue) elle sup(lican)te 
sera obrjgado a se ljurar do caso ou casos p(er) q(ue) estaua preso 
ao t(em)po da dita fogida, ou mostrar ljuram(en)to delles, e não no 
faz(en)do asj este p(er)dão lhe não valera, el Rey nosso s(enho)r o 
mãdou p(e)ios d(ou)tores belchjor do amarai, e dy(og)o lamejra etc. 




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FRAGMENTOS RTYM0L«ÔIC0S 



1S9 



belchjor pinto a fez é lix(bo)a a xxb dag(os)to anno de mil e b° IRij 
jo(a)m da costa a fez escreuer. 

[D. Felippe i, Liv. xiv de Legitira. e perdões, fl. 69 v.]. 

XXVI. — Dom felipe etc. faço sab(e)r, que jlaria g(onça)l(ve)z 6 
seus f(ilh)os, g(on)ç(al)o, e sjmão, e c(ateri)na jsabel, e margajda 
cizjlia e anna iu(orado)res no c.° termo da villa de me êujarão 
dizer que estando Recolhjdos e sua casa a noite de qujnze do mes 
de jan(ei)ro do anno de noueta cõ seu marido e paj d(oming)os g(on- 
ça)l(ue)z fora joão do souto, sjgano cG grande cõpanhia doutros siga- 
nos ao curai e casa delles sup(lican)tes e do dito seu marjdo e paj e 
delle lhe tomarão, e leuarão cinq(u)o porquos e hua vaqua furtados, 
ao q(ue) acodirão trabalhando de defender sua faz(en)da po(r) lha não 
leuasé, e andando asj a dita Reuolta acertarão de ferire ao dito cj- 
gano joão do souto de certas ferjdas per Rezão do q(ua)l ferjm(en)to 
se posera o marydo e pay delles sup(lican)tes em liuram(en)to, e sa- 
hyra absoluto, e po(r) q(ue) elles sup(lican)tes se não puserão em 
lyuram(en)to po(r) cudare q(ue) não erão culpados, e depois se achara 
q(ue) tambe forão metidos no auto, e o dito sigano lhes tjnha p(er)- 
doado, me pedião lhes p(er)doase a culpa que no dito caso tjnhão, e 
R(ecebri)am m(erce) e v(is)to seu Requerim(en)to e hu parese cõ meu 
passe, ey p(or) be, e me p(ra)z, se asj he de lhes p(er)doar a culpa 
de se achare na brjga de q(ue) fazem mêção em q(ue) o cigano foj 
p(or) elles ferjdo p(e)lo modo q(ue) declarão, v(is)to o q(ue) alegão e 
p(er)dão da p(ar)te q(ue) offereçê, e pagarão dous mil reis p(er)a a 
pjadade, e po(r)quanto os ja tem pagos, vos mando etc. e forma, dado 
o passe a xxx de outubro de noueta e dous el Rey nosso s(enh)or o 
mãdou p(e)los d(ou)tores dy(og)o lamejra, e j(eroni)mo p(erei)ra de 
saa etc. (christ)ouão cald(ei)ra a fez e lix(bo)a a quatro de nouebro 
de b c IRij lucas v(iei)ra a fez escreuer. 

[D. Felippe i, Liv. xiv de Legitim. e perdões, fl. 108]. 



Quem olhar para este titulo dirá descontente: tbasla de cajões, 
aleijões e abujòes!* ou *Cajão und kein Endk!» Mas que remédio se- 
não repetir sempre de novo que cajão, cajom, está por ocajom, e vem 
de occasione, cujo o inicial, considerado como artigo *, destacaram 

i Occariâo e cajom serviram e são utilizadas ainda agora, frequentemente 
êtm artigo, de sorte que a bévue grammatical, que originou a forma popular abre- 
asv. Lusrr., vol. iii, fase. 2. . d 



(Continúa). 



P. d' Azevedo. 



FRAGMENTOS ETYMOLOGICOS 



I. CAJÃO. — H. ALEIJÃO. — III. ABUJÃO 



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130 



MVIftTA LUSITANA 



do tronco da palavra, sujeitando-a ao mesmo tempo ao género mas- 
culino, — se no reino vizinho continuam a propagar etymologtas absur- 
das a seu respeito 1 ! De resto, tenho que accrescentar alguma coisa 
de novo : pequenas particularidades sobre a historia de cajom e aleijão 
e uma nova tentativa de explicar abujão. 

1.°) Cornu (Or. Or., § 104) estranha a falta de um representante 
antigo de accasionem *, o qual forçosamente deveria ter conservado o 
género feminino. Mas este representante existiu; produziu um deriva- 
do, e conservou-se até hoje na Galliza. — No Cane. da Vat., n* 365, 9, 
lê-se: 



Alfonso x emprega na Cantiga 184 o adjectivo aeaionada com 
relação a uma mulher sujeita a maus accidentes ou ataques. E em 
Galliza diz-se ainda agora acasion, segundo Valladares Nuiiez (fórma 
que nfto ha razão para chamar meio-castelhana). 

2. °) Quanto à chronologia das evoluções phoneticas de cajão, é 
certo que a apherese do o foi posterior & palatizaçfto do si. E' o que 
provam as fórmas ocajom e oqueijon. A primeira, na graphia antiga 
ocaion, occorre no Cane. da Vat., 96, 22: tcomo prendi ocaion quando 
vus fui [a] veer; nos inéditos de Boaventura, i, 279; e nas Cantigas de 
Alfonso x (31 e 146). A segunda é empregada a miude pelo Rei Sa- 
bio (169, 175, 200 *). 

3. °) Apezar d'isso ha ao lado de cajom [caion, caijon, cajão 5 ], por 
um singular atavismo linguistico, a fórma, talvez dialectal, casião em 
Gil Vicente, m, 169; cagião, ib. } i, 250, e caisião na Pratica de três 
pastores, 1:253. 



Em aleijão deu-se o phenomeno opposto; o artigo feminino jun- 
tou-se ao substantivo, que apezar d'isso passou a ser masculino. A 

viada, era quasi inevitável. Cfr. liado por oleado, zufruto por tsuphucto, rôr por 
noRROR, chavo por ochavo, e gronho por o grokho = logroSo? — Em Hespanha o 
caso era outro. Por isso ocasion, que de resto tem as mesmas accepçòes de mau 
ato, desgraça, accidenle, sinistro, como em portuguez, não se viu obrigado a mudar 
de traje. (V. Poema de Alex, 49, 1:466, 2:158, e Poema dei Cid, 1:365). 

i No Glossário (muito insuficiente) que acompanha a bel la edição do Can- 
cioneiro de Santa Maria, o editor traduz occasion com morte, de oco a eus, citundo 
o portuguez acanhar, c nâo sei que mais verbos, que não estão de modo algum 
relacionados com ella! 

* Accasionkm (com assimilação de vogaes), como no ital. accagione, neap. 
accasone, franc. antigo achaison. 

8 Braga regista no seu Glossariozinho a fórma cajam fa^como feminina, 
baseando-se, decerto, n'aquella passagem, porque não ha outras parecidas. 

* Na Cant. 186, 12, o verso exige que se leia: caestes en tal [o)caion ou 
[a]caion. 



5 Vat., 921, 17; 1:100, 2; 1:112, 6; C. Col. Br., 415, 2; Ined. Boav., i,281, 
288, ih, 289; Prestes, paç. 379; Zurara, Ined , m, 205, 119- Mello, Obras Afarf. 
cas r 59, 71. 



quando mV asseentey, assi veja prazer, 
non me guardava eu de tal acaijon s . 



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FfiÁGMSKTOft RTYHOLOGICOS 



131 



meu vêr só ha uma explicação admissível. Como quasi sempre se 
falia de uma-leijâo, uma imperfeita audiçfto produziu, na bocca do 
povo, a expressfto um-aleijão. Impossível dizer quando. Na litteratura 
o aleijão apresenta-se relativamente tarde. Â fórma archaica era li- 
jom (Cant. Alf. x, 31, 146, 200); lijado (ib., 146). E no século xvi 
o grande Albuquerque escrevia ainda (Carta 16): teste cavaleiro cria- 
do do Duque de Coimbra . . . lhe deceparam em mão na peleja . . . dew e- 
Ihe V. S. fazer mercê e satisfazer -lhe sua aleijão*, — Sobre ei de ae latino 
ou românico, como em /ewa-GLARBA; queiro-quAERO ; esqueicer de bxca- 
[d]bscerb; eidade de aetate, digo apenas que ainda ha muitos casos 
por recolher. Julgo que a mudança foi direita em leijão, e não secun- 
daria, provindo de i (cfr. leixar, variante de lixar; reixa, de bjxa; 
leira, de liria (?) ; leirão variante de lirão). 

Com abujâo o caso ainda é outro : o a não é o artigo, nem parte 
do artigo indefinido, nem tampouco o prefixo a, como julgam os que 
o derivam de visione. 

A abujão é uma coisa- má, um phantasma, ou mêdo que a ima- 
ginação julga vêr de noite, quer seja velando ou em sonhos. A avejão 
é igualmente um espectro qualquer. Ambas são portanto, ideologica- 
mente, visões [Erscheinungen, Traumbilder, Wahngebilde]. Ora a litte- 
ratura popular prova-nos que em algumas das apparições angélicas e 
diabólicas, que a gentinha peninsular teve durante a idade-média, e 
depois, a abujão tinha figura jde ave grande (tartaranha, cernicalo, 
lagarteiro, milhano 1 ). Apezar d'isso avejão e abujão não são deriva- 
dos augmentativos de ave, como se diz no Diccionario Contemporâneo 
[s. v. avejão e passarola]. O etymon visione proposto por Coelho no 
Manual * e por Cornu no Grundriss [§ 95 s ], seria admissivel se, 
entre as fórmas antigas vijão e visão de um lado e as modernas abu- 
jão e avejão pelo outro, descobríssemos as fórmas intermédias avi- 
jão, avisão ou vejão, bujão. Mas ellas faltam; e o latim offerece ou- 
tro termo que pelo sentido serve igualmente bem e pela fórma ainda 
melhor: abusione. A língua culta empregava abusão para designar er- 

* Nos autos populares, e em especial nos do Natal, é uso comparar o côro 
dos Anjos, que vieram dar a boa nova aos sonorentos pastores, a um grande pas- 
sarola. Remetto o leitor para a Pratica de ires pastora; para o Auto dei nasci- 
miento, de Rodrigues Lobo; para o Auto de Deus Padre; para Gil Vicente; e 
para as Representações, de Juan dei Encina, Valdivielso e outros. 

* k Abujão, 8. f. ; term. pbp. : phantasma, medo (vid. avejão, que é a mesma 

Í>alavra). — Avejão, s. f.; term. pop.: entidade que se figura á imaginação popu- 
ar ; — visão ; s. m. homem muito alto. — Outra fórma de visão». 

8 «Abujão, de abejão por avejão = visionem». — Em nota ao § 303 o erudito 
glottologo accrescenta que avejão, que a principio fora feminino, oscilla hoje 
quanto ao género, segundo os grammaticos e diccionarios. Parece-me que não é 
bem assim: pelo que ouvi, e também pelo que Coelho indica, abujão é por regra 
feminino. Só quando se refere a um homem -phantasma, de proporções desmarca- 
das e catadura feia, é que momentaneamente se torna masculino, como um banana, 
um maricas, um medricas, e tantos outros 1 



139 



MtVISTA LUSITANA 



ros e enganos originados pela credulidade: phantasmas, sombras, 
quimeras e illu*5es. Barros e Couto, p. ex., faliam a cada passo de 
abusões, com referencia às crenças dos gentios. Mas como nfto collec- 
cionei as respectivas passagens da Asia, offereço algumas outras, que 
julgo sufficientes para provar a minha these. 

Zubara exclama na Chronica de D. Pedro: € quantas abusOes so- 
nharam!* (Ined., n, 251), e Gaspar Fructuoso diz nas Saudades da 
Terra: thaviam 18 dias que duravam as abusões dos falsos prophe- 
ias — o sancto propheta o qual outras muitas cousas e abusões fazia o 
povo fazer de noute e de dia (pag. 60); — e llie disse que abusões eram 
aqueUas que fizeram no povo (pag. 59) ; — ao cabo de alguns dias que du- 
rava esta abusão e desaventura* (pag. 58). — E Prestes chama a um 
cmêdo» ou alma-penada: testa abusão que anda a/u» (pag. 383); e apa- 
rece que esta abusão tem presumpção* (420). — Abujão, derivando di- 
rectamente de abusione por um processo bem nacional, seria a fórma 
popular: formando com abusão, que nasceu pela muito usada suppres- 
s&o do i posvocalico (Cornu, § 113), um par de variantes a pôr em 
parallelo com vijão e visão. Em ambos os casos sem que houvesse dif- 
ferenciação quanto aos significados K — Resta dizer que a visião e ca- 
sião, que devemos classificar de meio-eruditas, apezar de antigas ', 
nao corresponde nenhuma fórma abusion. 



A proveniência de * evellicare, indicada por Cornu (§§ 154 e 244) 
é muito duvidosa. O sentido nao satisfaz, e o desenvolvimento pho- 
netico seria muito fóra do commum 4 . Depois de pensar em derivà-lo 
de caviare por cavare; decidi-me por calvus, sem comtudo estar con- 
vencida do acertado da minha hypothese, que nao sei apoiar com do- 
cumentos históricos, nem com casos análogos. — Ecalvare daria acal- 
vare — e com anticipaçâo do 1: álcalvar; depois o 1*°" ter-se-hia 
vocalizado como em açaimo , seiceiro, saimão, etc. : Ei por ai, como em 
eido, de aido (aditus); meigo, de magicus. 



Um antigo provérbio, diz: «M antruejo sin luna... ni piara 
(= rebanho) sin artufta*. O commendador grego explica: toveja que 

i Alfonso x emprega-as indistinctamente : vijon nas Cantigas 53, 58, 85 e 
200 [cfr. prijon, 158; lijon, 31, 146 e 200; confojon, 91]; e vijon nas Cantigas 5 
e 85 [cfr. confisson, procisson]. 

s Vision, que encontro só em uma variante da Cantiga 85, pode ser castelha- 
nismo. 

* Ha também alquevar e alqucve. (andar como sapo por alqutve). 

4 Evellicare teria produzido, provavelmente : evclgar (ou avtlgar, ameigar). 
Cfr. cavalgar, de cayaluoarh; amolgar, de emollicare; empolgar, de *im-i»oi<- 
I4C*abk, de rotufix; esvtdgar, de *x-pyuc-ARE ; folgar, de folucahe, 



IV. ALQUEIVAR 



V. ARTUNA, ORTUNA 



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ÍRÁGMKKTÒS ÈTVkuLOOiCOS 



iáâ 



pariá y se le mitrió el cordero*. Um pouco inadequadamente, porque 
artufla está evidentemente por * ab our-unea (de abortus). Na Galliza 
ha aiuda hoje a palavra: ortuna por ovella que aborta K 

VI. BAJOJAR, BAJOUJAB 

De * baioliare por baiolark (Vulgata), havendo substituição de 
Ih por / por assimilação ao primeiro j; — ou por assimilação de i ao 
j, depois da, áliàs rara, queda do l antes de t. Cfr. joio, Olaia, muyer, 
Gião, que no Cane. da VaL, n.° 14, é sempre quadrisyllabo : Ju i â-o. 

VII. BELHÓ-PILHÓ 

As actas sobre estas duas palavras estão longe de estarem fe- 
chadas. E' cêdo ainda para dizermos se o étymon é o mesmo para 
ambas e decidirmos qual entre os que foram propostos tem mais pro- 
babilidades de ser verdadeiro, se *biliola por libiolà (Cornu, §§ 130 
e 214); foliola (Baist); ou filiolum; ou se, originariamente diver- 
sos, foram mais tarde confundidos, por causa da grande semelhança 
da sua construcçâo phonetica, e apezar da differença de significação 
de ambos. Por ora registarei: 1. ) que o gallego chama a um certo 
bolo (tfruta de sarten» ou «hojoelas de sarten») não só filhó, filhoa, 
mas até freixó (como se fosse fresiolum, de fresus, part. pass. de 
frbndere); 2.°) que belhó, pronunciado também bulhó, designa em 
Tras-os-Montes exclusivamente a castanha pilada (= descascada ou 
debulhada) e nunca um bolo de farinha (nem o de massa delgada e 
estendida como folha, nem tampouco o que é da finura de fio *), sem 
querer examinar se este belhó (m.) representa pilióla, de pila = bola 
pequena, ou está em relação com tfeÒM//wr*(palavra, cuja origem fica 
também incerta 8 ); 3.") que a fórma mais archaica que encontrei até 
hoje é feijoo (= phasiolum) na Cantiga 157 de Alfonso x; 4.") que fi- 
lhó foi antigamente masculino em portuguez (p. ex. no provérbio : não 
vay por ahi a gata aos filhós). 



1 Cfr. cftat. redruna, garduha e vedvfío; port. gardunho f rascunho, : gatafunho t 
garafunho e pezunho (augmentativo burlesco de pé, moldado sobre o diminutivo pé' 
tinhoj. C/«o = pkjbus, de unub, formado por analogia com ano, iho, ono. Os adjectivos 
preferem, comtudo, em geral o euffixo onho. Aos vocábulos citados na Miscellanea 
[n.° 24, s. v. medronho], acerescento agora dois termos bonitos e caseiros : dòto* 
nho e palronho, inventados para caracter i sarem, o primeiro a quem é «respondâo», 
e o segundo, a quem a paira muito». 

* A massa esf olhada (Bldtter»teig) é no preparo e tratamento culinário 
muito differente da massa dos filhó* f beUós e beignets. — Muitos filhotes modernos 
têm fórma de bolinhas fofas e assopradas, chamando-se até soprosinhos ou suspi- 
ros de freira. 

• Eu pelo menos receio ainda pronunciar «me entre de-pileart e spÔuahi (es* 
bulhar, dts*oulhar e debulhar, com dupla troca de sufixos). 



rbVísíà lusitana 



YIIJ. BOETA 

Se boceta (cast. bujeia) representa * buxidittà, de boxída (pyxída), 
boeta, que era vulgar nos séculos xv e xvi l , deve ser o reflexo do 
francez botte (=buxida). Cfr. toesa, de toise; framboesa, de framboise; 
oboé = hautbois ; patoé = p atóis. 

IX. buço 

Buço, bucinho, o nome popular dos pêllos que nascem em cima do 
lábio superior dos homens e de algumas mulheres, assim como no foci- 
nho de vários animaes (bozo em castelhano) n&o será mais nada que 
bdcckus. De ahi buçal, boçal (qualidade do moço imberbe, que mal vê 
despontar o buço); embuçar se (cobrir a metade inferior do rosto até 
ao buço com capa ou capote); rebuço, rebuçado, etc; hespanhol bozudo, 
embozo, rebozo, embozado, rebozado, arrebozado, etc. — Ccj tratado 
como kj em laço de laqueus. Sobre u de u latino em posição nem 
vale a pena fallar. (V. Cornu, § 32). — Confira-se, de resto, rebusnar, 

de REBUCCINARE. 

X. BUFARINHEIRO * 

*Cada bufarinheiro louva seus alfinetes* ou «as suas agulhas*. 
Este provérbio, recolhido por Fernan Nuftez, e que ainda contináa a 
correr mundo, contém a forma mais usada da palavra que em Portu- 
gal denomina o vendedor ambulante de quinquilherias. As variantes 
bofirinheiro (Mello, Guia de Casados, pag. 135), boforinheiro, bufali- 
nheiro (G. V., i, 173), baforinheiro } bolfarinheiro, belfarinheiro, belfuri- 
nheiro, em que apenas as vogaes atonas e as liquidas ler soffreram 
alterações, sâo muito pouco communs: meras corrupções vulgares s . 
Em Hespanha quem exerce o mesmo oficio chama se buhonero 4 . Du- 
rante a idade-média, prevaleceu, comtudo, em ambos os paizes, outra 
forma, mais curta: bufou ou bofou \ N&o é licito separá-las. Enga- 

i V. Foral de Lisboa, pag. 37 ; Ordenações, § 127 ; Couto, Castanheda, An- 
drade, etc. 

* A graphia roais usual é bofarinheiro (com o). 

* Belfur.. . por bofur, com anticipaçâo plebeia da liquida r, como em bel' 
foreira por beforeira = bifkrahia. A esta ultima formação Cornu concede relati- 
vamente grande espaço na sua grammatica, explicando-a nos §§ 155, 160, 248 e 
255 do modo Beguinte: biferarta, bilferaria (com. Vorklang do r, em forma de l) 
bilfereira, bilforeira, belforeira, balforeira, balaforeira (com epenthese euphonica 
do a), de onde afinal baforeira (com queda do l inter vocálico 1) — Encontro ainda 
entre as minhas notas outro belfurinheiro, como corrupção de palafkknriro, reco- 
lhido, se nào estou enganada, do Summario de Lisboa, de Christovam Rodrigues 
de Oliveira. 

* Cada buhonero alaba svs agujas (Celestina, 41). 

5 Eis alguns exemplos : De coloneiro qui comprar piscatum proa revender det 
I denarium, bofom i denarium. [Mon. Logos, G21] ; bo?jk qui afíquid vendiderit in 
viHa det cotidie 1 denarium [ib , 622; cfr. 674 e 6U6, MidDea, 1:267, e Coja, 1;260]. 



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ÍRAGkENTOS ETIMOLÓGICOS 



135 



na-se quem vê era bofarinheiro o vendedor de boa farinha, imaginando 
que as bellas e boas farinhas que elle ia oflferecendo de casa em casa, 
apregoando-as talvez com a fórmula: tbôfarinha, bôfarinha!* (como 
bôfé, de boòfé), eram cosméticos e pós para o toucador. O titulo de 
bofarinhas, dado nos diccionarios ás mercancias de quem gritando: 
barato ! barato /, vende agulhas, alfinetes, ganchos, linhas, fitas, ligas, 
atacadores e outras bugigangas do mesmo género, não é mais do que 
uma abstracção (Rúckbildung) moderna, tirada de bofarinheiro, pôde ser 
que pelo povo, mas mais provavelmente pelos eruditos, com a mira de 
apoiarem aquelle supposto etymon K Buhonero e bufarinheiro são de- 
rivados do mesmo radical. O primeiro veio directamente de bufon, 
accrescentando-se-lhe a terminação -eiró ou -ero, que costuma dar o 
nome ao praticante de qualquer mester ou officio (cfr. adeleiro por 
adelo). O segundo passou por mais algumas vira-voltas. As bugiarias, 
vendidas pelo bufo (fórma originaria latina do bufon), chamavam-se 
bufarias. O dono d'ellas ficou sendo, por isso, um bufari-eiro. O nh 
introduzido mais tarde é eiymologicamente injustificado. Surgiu, para 
assim dizer, por um efeito, não de magica acústica, mas de euphonia, 
produzido pela analogia com dinheiro por dxeiro; louvaminheiro, de lou~ 
vamleiro; choraminheiro, de choratmeiro s ; macinheira por macieira; es- 
crevaninha por escrevania; endemoninhado por endemoniado; maninho 
por manio, etc. ; isto é : na retafila da interessante serie de palavras 
em que a resonancia nasal se desenvolveu como ecco do m ou n an- 
tecedente, immediato a i (cfr. nin em ninguém, mim, nem, nenhum, nw- 
gela, muim, muinto, etc), sendo abrandada em nh, cada vez que vinha 
seguida de vogal, afim de facilitar a pronuncia 8 , do mesmo modo como 
tardinheiro surgiu ao lado de tardieiro 4 , pardinheiro (gal.) ao lado de 

* 

E 1 costume que se o bofom andar vendendo em cesto ou em canistrel pefa vila . . 
[Ined, ív, 631]. — O bufam que por as praças da villa ou lugar tra$ almaioo nu ar- 
queta ao coito com tenda de marçaria pera vender. . . [Ord. Aff , m, pttg 5J] 

Saben lo» boffones mw-has ma la 8 baratas t 

butlven en sus mercaduras mimhas malas ratas : 

non podrie deuir omne todas sus garavatas ( = Kniffe, WinkefaHg*) 

morir quieren el dia que non ganan çapatas. (Poema de Alem., 1057), 

De bufarinheirat femininas falia o Arcipreste s 

Como lo han de uso estas tales buhonas, 

andan de casa en casa vendiendo muchas donas. [Fita, 673]. 

* Nâo tem fóros de litteraria: eu pelo menos, nunca a tenho encontrado. 
Nem vejo citações nos diccionarios que consultei. 

* Chora-mingas e chora-migas, de choramingar, são, a meu vêr, etymologias 
populares, procedentes do termo archaico choramiar, de chorame, formado sobre 
louvame f=s laudamenj; e com vista sobre ckowdoilos (— cast. llora-duclos) 

* De tardio? — *0 castelhano tardinero faz, comtudo, suppôr que o latim 
vulgar da peninsula já possuísse um typo * tardinarius, moldado sobre ordinarius. 

* Aos exemplos allegados nos jj§ 124 e 151 por Cornu (que foi quem elu- 
cidou esta importante questão), ba bastantes que accrescentar ; p. ex. : a%inhaga f 



àKVÍSTA LtisiTAtÍA 



pardieiro. Quanto a bufo, bastará remetter o leitor ao Dkcionario de 
Diez, i, onde se trata do italiano buffo e do francez bouffon K 

XI. — CARAMANCHÃO 

Chamava-se caramanchão em portugnez archaico a uma pequena 
obra avançada de fortificação ; um miradouro ou mirante em fôrma de 
torreão minúsculo (synonymo de cubello; — allemâo: Wartturmchen, 
Turmstilbchen *). Em portuguez moderno designa uma casita feita de 
ripas ou de canniçado e revestida de trepadeiras nos jardins ou quintas 
ajardinadas para resguardar do sol ou para descançar (ali. Garten- 
laube). Em castelhano a palavra correspondente significa: desvão da 
casa, onde é costume guardar trastes velhos (ali. Rumpelkammer, Dach- 
stiibchen), e em sentido figurado os cantos e recantos de um sitio qual- 
quer. Em todas estas accepções o caramanchão é, portanto, um pe- 
queno aposento (ou fragmento de aposento), uma camarazinha pouco 
espaçosa e mais ou menos aberta/ dando-se o aliás nada raro caso, 
que um termo diminutivo foi avolumando-se, por meio de suffixos cada 
vez mais compostos, na proporção inversa do tamanho real e da va- 
lia do objecto que denomina. Como da radical de pequeno se forma- 
ram, além de pequenino e pequenote, ainda pequerrucho e pequerrucha 
nho; de bidio: bichano, bichaninho e bicJiarôco, ou, em terras de Anda- 
luzia, de chico: chiquito, chiquitito, diiquititillo, chiquirrititillo, e até com 
prefixo, suffixos e infixo rechiquirrititillo, assim nasceu de câmara, ao 
lado dos simples diminutivos camarim e camarote, outro depreciativo 
camaracho, e em seguida, com maior insistência na pequenez e insi- 
gnificância do respectivo recinto: Camarachão, de onde caramachão e 
finalmente caramanchão == * camará -f- asc'lum -f- onb s . 

de aziaga (de ilicinus); minhana por miana (— miadomini) ; minhoca por mioca 
[ali. H ttWe, de minam*] ; linhagem por liagem; linho por lio (porque é assim que oa 
antigos escreviam). — Minhoto por mioío pode estar por milhoto, de milvus (cfr. 
milhano); como homizio por homizilho, de homicidium. — Escarninho por escarnho, 
escárnio é differente. 

1 Sobre a raiz buf, puf f representado em portuguez por bofe K bufo, bufar, bo- 
fetada, etc., ha muito que dizer. Fique, comtudo, para outro logar. Mas de passa- 
gem sempre direi que o portuguez fofo, que Cornu quer derivar de fatuus, me pa- 
rece estar intimameute ligado com buf-bof. 

* Hervorragender erker-oder zimmerartiger bedachter oder unbedachter Ausbau 
alter Befestigungswerke der zum Ausschauen, Beobachten und Beschiessen dcs Feindes 
diente. — Eis quatro passagens comprovativas: 1). E o arcediago mandou fazer 
huum muro em caram ani-uoks a redor da igreja e clauslra [Port. Mon. Hist. : Script. 
i, pag. 24, sec. xv]. — 2). E a vella (. . . vigilia) estava em cima do caramahcham 
[ib , pag. 29] — 3). E mais mandou El JRry que tirassem alli huma villa de. madeira 
que levava naqueU-a frota a qual mandou que ficasse pera repairo dos oakam ancbòes 
e das torres em que a» vellas aviam de ser postas. [Zurara, D. Pedro; Ined., n, 
pag. 240]. — 4). Derrubou tres ameas de hum oakamamouao [Pina, D. Duarte; Ined., 
ih, pag. 147]. 

8 Como se vê, eu derivo o auffixo, ora diminutivo, ora depreciativo, acho com 
Leite de Vatconcellos (Rev. Lurit., u, 212), de asc'lum, modificando um pouco a opi* 



tfBÁGHKNTOâ KTíMOLÔaíCOã 



Provemos, em primeiro logar, que houve realmente metathese, e 
que esta metathese está em harmonia com os costumes característi- 
cos do portuguez. Em Gastella a forma prevalecente (se n&o fôr a 
única), é camaranchon l , emquanto em Portugal, pelo contrario, temos 
por via de regra caramanchão, e a fórma primitiva apenas de vez em 
quando, por excepção *. Julgando que a fórma castelhana é a origi- 
naria, e a portugueza secundaria e modificada, tenho em conta a for- 
tíssima propensão do portuguez para translocações de consoantes e 
vogaes *. Â mudança de camaranchâo para caramanchão, ou em pro- 
núncia familiar, pouco erecta» e cuidada, cWamanchão deve conside- 
rasse filha da tendência especial e muito pronunciada da linguagem 
popular de transferir o r do fim e meio de palavras para o principio, 
logo que là exista consoante a que elle se possa encostar, ou que 
o attraia, como p. ex. em fragoa, fresta, preguiça, prego, estrondo, 
brinco 4 e tantas outras. 

Note-se em segundo logar que camaracho, sem o sufixo pejorativo 
-ão, e ao mesmo tempo sem resonancia nasal nem metathese, existe 
em Castella, onde significa igualmente um desvão (galetos, grenier, 
soffUto b ), e que os synonymos portuguezes caramachel e caramanchel 
põem fôra de duvida a existência do mesmo camaracho, caramacho em 
território portuguez. 

£ por fim tornemos incontestável esta etymologia, mencionando 
que a variante caramachão sem a resonancia nasal antes do ch, acom- 
panha nos antigos documentos a fórma caramanchão *, assim como 

niào que sustentei na Miscellanea (n.* 23, s. v. macho) Paralleloa de camaracho se- 
riam : borracho, bonacho, fogacho, pennacho, riacho, verdacho, lebracho, lobacho í 
muacho. Ao par de camarachâo ha bonachão e borrachâo. Em formas nasaladas 
lembra-me apenas os termos gordanchudo, feianchão, de feio, e vcrdanchâo, que 
colhi da bocca do povo. — Cfr. -uncho em caruncho, e escarafuncho (do mesmo ra- 
dical allemào, como escarrar = scfirapfen); e -incho em pedinchão por pedichão. 

i Os diccionarios, pelo menos, nâo trazem outra. Cervantes falia de nojos 
hundidos en los últimos cam abanchombs dei celebro», 

* Alguns lexicographos trazem-na, p. ex. Moraes e Coelho. O primeiro re- 
mette aos Inéditos, ni, 147. Cpmtudo, lá está caramanchões, e nâo camaranchões. 

> Os phenomenos de metathese sâo tâo frequentes e tào inesperados e curió- 
sos em Portugal, que levaram J. Cornu a estabelecer sobre esta base algumas ety- 
mologiaa verdadeiramente arrojadas e inverosímeis, como lerdo, de tktbb ; bojo, de 
alveus, fofo, de FATuus,etc. — Aos exemplos citados no § 204 (Gr. Gr.) é fácil ac- 
crescentar mais alguns plebeísmos, como carpichado, carapichado e cWapichado por 
caprichado; charamysca, de chamarusca; largato = lagarto ; lerpa — lepra ; anda* 
rela, de arandela; Adega = Águeda ; bidogue » bigode; der r orna — redoma; diregir 
*= digerir ; sorrobalho = sobor ralho ; redamar «= derramar ; sefenicar e sufenicar 
«= significar. 

* Crasto = eastrum; crosto « colostrum; crestar = castrare; crabesto *» ca» 
pistrum; crango = congro, cancro (cfr. c'ranguejo, caranguejo); traga tagra. (Cfr. 
Bev. Lusit., i, pag. 29í>). 

* V. Salvá, Diccwnario. 

6 Ined., íx, pag. 420 1 mandando que todos feêessem traser de comer aoê ca- 
bamacbòes do muro;—ib , in f pag. 153 j naquelle mesmo diapareceo em t/m cabama* 
ciilo. — Longe de mim negar que em ambos os casos possa haver a simples ouiis • 
sfto de um til; ou de n. 



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lâô 



&KVÍSTA LÚ3ITAKÁ 



caramachel acompanha a caramanchel 1 e, conforme já se disse, cama- 
racho ao castelhano camarandion. Mãe por mae; mandia por macha 
= macla; mangerico, manjaricão, manjarona por magerico, magericão, 
major ana; Maneias etc, são exemplos conhecidíssimos do Nachklang 
de m inicial no fim da syllaba. (Cfr. Cornu, § 151). 

Alguém poderia ser tentado (como eu o fui) de aventar outras 
etymologias: a) camará -f ancha (= ampla) por antiphrase; b) ca- 
tnara -f- rancho, com queda dissimilatoria do primeiro ra. Ambas s&o 
todavia inacceitaveis, porque a mudança de género e a queda do n an- 
tes de ch ficariam inexplicadas. No ultimo caso accede ainda outra 
razfto : camarancho n&o está documentado, e caramanchão nunca serviu, 
que eu saiba, para designar a tenda de campanha ou o beliche das 
naus, que são o verdadeiro berço da camaradagem e do rancho. De 
resto, a própria palavra rancho está ainda por explicar satisfactoria- 
mente *. E se realmente houvesse relações de parentesco entre cara- 
manclião e rancho, a idéa extravagante de considerar rancho como 
proveniente de camarancho, por apherese, talvez ainda encontrasse 
mais adeptos do que a tentativa de vêr em caramancho um composto 
de camará + rancho. 



Na Pratica de tres pastores (l. a 260) eu interpretei caHapolinho 
por cartapacio. Melhor seria, cora tudo, dizer c papel escripto por es- 
crivão publico, oficialmente, rescripto da côrte, etc.#. — Em portuguez 
antigo o termo correspondente é portacollo. As Ordenações Affonsinas 
(i, 263 e 264. m, 241) empregam-no por livro de registro das notas de 
um tabellião. E nas Memorias do Bispo do Grão Pará (pag. 125) temos 
a mesma fõrma com idêntica significação. Portacollo é evidentemente 
protocollo, com alguns indicios de transformação por meio de etymo- 
logia popular. De ahi, com metathese â maneira portugueza, corta- 
polo, e, sob influencia de cada e cartapacio, a fórma cartapolo, que deu 
o diminutivo cartapolinho, de onde cartapelinho. Portacol uas comedias 
de Simão Machado, e cartapel (usado em Hespanha pelo vulgo g ), se- 
riam abstrahidos das respectivas fórmas diminutivas, na mente de as 
reduzirem aos verdadeiros radicaes *. 



Chacina é : carne salgada em postas, curada ao unto, ao sol, ou ao 
fuMò; e em sentido figurado: carnificina 6 . — Outro dia, em uma con- 

l Na 7. a edição de Moraes caramatihel è mero erro de imprensa. JA etimolo- 
gia, que indico aqui, já lá está, como vejo agora, posto que b6 hypotheticamente !). 

* Rancho por ranche, de ramice? 

* Valdivielso, pag 925, em bocca de um pastor sayaguez. 

4 Separo-o do italiano scartabello, em que Caix quis vir um composto de 
charta e tabdla (Z$ehr , i, 423, e Stvdi, pag. 197), 

* O gallego diz chacinha. 



XII. CARTAPOLINHO 



XHI. CHACINA 



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HkdKtíXf OS RTtfMOLO&ICOd 



139 



versa de jantar com um idoso e instruido proprietário de Tras-os- 
Montes, ao disputarmos sobre a melhor maneira de eu defumar car- 
nes em casa, soube que os moradores de Chacim têm antiquíssima e 
bem merecida fama pela maneira excellente como sabem defumar car- 
nes de porco. — E elles, os de Chacim, a pensar que a sua villa rece- 
beu o nome por cansa de uma sangrenta batalha entre mouros e chris- 
t&08, no tempo dos Affonsinhos, emquanto todas as chacinas, tanto 
cruentas como incruentas, receberam, pelo contrario, o nome de uma 
pacifica terra toucinheira! 

Cornu vê n'aquelle vocábulo um hypothetico *siccina, de siccus=: 
secco; e eu, tomando em devida consideração o castelhano cccina e o 
catalão cecina, cesina, julgo boa aquella etymologia, apezar da rara con- 
servação do n inter vocal e da transformação do thema principal l . Com- 
tudo, eu diria d' ora á vante, à cautela: chacina , de siccina, sob influen- 
cia de Chacim, 



Chosco on Pedro- Chosco é o nome gallego do hospede bemfazejo 
que todas as noites entra pelas casas dentro, a deitar uns grãozinhos 
de areia, ou coisa que o valha, nos olhos das creanças. E' o João Pesta- 
nas dos Portuguezes ; o Sandmann dos Âllemães, ou, mais exactamente, 
o Ole-Luk-Oie, o Cerra-olhos dos Dinamarquezes. Se este senhor deitar 
por engano umas gôttas do doce leite de morphina nos olhos dos ser- 
ventes, cêdo demais, quando ainda deveriam velar trabalhando, sempre 
lá apparece quem lhes cante ou recite a cantiga popular gallega : 



Chosco, substantivo verbal de choscar, chuscar (cerrar e abrir os 
olhos, pestanejar, toscanejar, piscar o olho) é *clausicare, de clausus, 
part. perf. de claudere, i. é : do gallego chouso, choso, que f uncciona ao 
par do participio regular, analógico, choido, de choer, choir, port. ar- 
chaico chouvir (com epenthese de v para annullar o hiato). Ha ainda 

* Todos os numerosos derivados portugueses de secco mantêm, naturalmente, 
o som k f mesmo antes de t (secca, seccação, seacadoiro, ieccagem, secoarão, sequi» 
dão, $t quilho, sequinho, resequido, sequeiro, etc). 



XIV. CHOSCO 



Vai te d^ahi, Pedro Chosco, 
non m f enganel-la criada: 
non-na calzas, nin-na vestes 
nin Ute pagai la soldada! 



ou, em texto portuguez: 



Vai-te, sono, vai-te, sonol 
vai te da minha criada: 
nâo-na calças nem-na vestes 9 
nem lhe pagas a soldada l 



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140 



fefcVISf A LUSITANA 



deschoer, deschoir — descerrar, e desachouaar. Chosco designa também o 
vesgo (=*vRRaioos, de versus, participio de vkiiterk ! ). 



Apenas duas notas para apoiar a etymologia ^florumbx, proposta 
por Cornu (§§ 135 e 303). Sà de Miranda emprega uma vez o pro- 
vincialismo (minhoto-gallego) chorecer por florecer. (N. oí 103 e 675, a 
pag. 711 da minha edição); e em Galliza chamam chorimas às fores 
do tojo. No adj. churinnada=olorosa, fragrante (que conheço apenas 
do inexacto Cuveiro Piíiol) a radical cheiro (de cheirar = flaorarb) foi 
provavelmente modificada por causa de chor = flor e chorume =floru- 
men; como o francez fleurer por flairer, por causa de fleur. — Se esta 
derivação fôr exacta, churumo em Castella deve ser mercancia de im- 
portação. 



Cisco, = o pózinho de carvão que, depois de voar no ar, assenta em 
nossa casa, ou alhures, e, em accepção mais ampla, toda a qualidade 
de pó e lixo que se vae juntando dentro de casa, talvez não seja ou- 
tra coisa que um diminutivo de cinis, cinisculum (como pulvisculum) 
que podia dar ciiscoo e finalmente cisco. (Cfr. Miscellanea, n. 04 47 e 
48; Rev., i, pag. 300, e o fragmento 65 d' esta serie). 



Este nome, dado à esquadria do carpinteiro, é corrupção do latim 
quartabo, e deriva portanto da mesma raiz (quarto) que deu o sêr à 
esquadria. O primeiro passo dado para nacionalizar aquelle termo te- 
chnico foi a mudança alliviadora de ua atono para o : cortabó, cortavó, 
como coHa-feira (gal.); contia; coresma; cortapisa; leche cortada (gal. 
= coarctada) ; cotrim ( = quattrinus) ; courdla ( = quadrella). O processo 
de popularização continuou, nasalizando-se o ó agudo. Cortabom, corta- 
vom, como tafetá, resedâ, perúm, tissum, dimittím, javalím, rábbíin. A 
ultima transformação substituiu -vom por -vão, que a etymologia popu- 
lar identificaria á mão. — O castelhano parou a meio-canrínho, con- 
tentando-se com cartabon ; a por ua, como em caderno, cadril } carta- feira, 
cartilha, catro. 



* Cuveiro Pinol diz lacónica mente í cttôflCo 1) wefto, 2) vitco ô tuerto, 3) chuê- 
Cô. Ê 8. v. chtistar = guihar ; chuscal-lo ollo = guiha-U el ojo. — Nâo me aventuro a 
assegurar que o adjectivo castelhano chuseo =*picaro, gracioso t chulo (e chuscada) 
seja a mesma palavra, e, n'este caso, de formação occidental. Creio-o comtudo ; e 
de passagem mencionarei que as palavras que o hespanhol recebeu de Galliza e 
Portugal nlo sâo tão poucas como é costume assentar. — O Chusco é um pisco. £ 
quem pisca o olho, fá lo quasi sempre gracejando, com muita familiaridade, ou 
cbulice. 



XV. CHORUDO, CHORUME 



XVI. CISCO. 



XVH. CORTAMÂO 



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F&A0MRNT08 KTYMOLOUICOS 



Hl 



XHII. ÇULAMK, COROMEK 



Ha em vários diccionaríos portugueses um artigo do teor se- 
guinte: *Coromen = espécie de manto ou capa quê se usava no século 
XIV 1 *. A auctorídade comprovativa allegada é nada mais, nada me- 
nos que Alexandre Herculano, o qual falia, n'um dos seus estudos ro- 
mantico-historico8 de ^mulheres cuja vida de perdição se revelava nos 
seus ooromens de panno de arraz». Ha até quem saiba prescrever-nos 
a pronúncia: korumánk 8 . — A vetusta palavra que o grande histo- 
riador quiz rehabilitar, é evidentemente o zuramen dos textos medie- 
vicos latinos ; isto é : o zorame 4 [çurame, cerame, solhamé] das prosas 



[zurame, zorame] dos castelhanos ; o sulham ou sulham dos Árabes, ou 
antes dos Berberes, que usavam em Marrocos de uma capa, a modo de 
albornoz, assim denominada. V. Dozy-Engelmann, s. v. zorame; Dozy, 
Dict. des noms des votements, pag. 194, 195. 

Eis em primeiro logar as passagens que juntei no empenho de 
descobrir em qualquer parte a errada graphia coromen. Copio-as, 
porque podem ser úteis aos elaboradores do Diccionario da Academia, 
e porque documentam claramente o que era e valia a peça do ves- 
tuário antigo de que tratamos. 

Um decreto de D. A Afonso m, d# anno de 1251, assignado por 
alguns dos trovadores mais afamados, determina as multas a pagar 
por prejuízos e roubos praticados em casa dos ricos-homens e filhos 
d'algo, dizendo: «Quicumque acceperit alicui capam zctrambn pellem aut 
aliquam vestem aut aliquod cooperimentum, pectet ipsum in duplo» [Mon. 
Leges, pag. 190], o que significa em redacção portugueza: «Item 
quemquer que filhar capa ou çbrame ou pele ou alguma vestidura ou co- 
bertura, peyte-a em dobro» (ib., pag. 191), passagem que já se acha 
reproduzida na Hist. Geneal. [Provas, vi, 3*9] e no Lexikon de Dtt 
Cange s. v. zuramen. — Outro decreto, a muito interessante pauta de 
1253, estabelece o preço devido ao alfaiate pelo feitio de um zorame, 
e o seu valor estimativo quando fornecido pelo patrfto aos jornaleiros: 
*Et homo cui dederint zorame et sagiam stet pro triginta solidis pro sol- 
dada» — [Mon., pag. 195] e «et custura de manto valeat duos sólidos et 
médium; et de zoramb valeat unum solidum». — Na pragmática sum- 
ptuária de D. Alfonso iv (1340), explorada em manuscripto por Gama 
Barros para a sua excellente Historia da Administração publica (i, 
535), ordena-se que as mulheres sejam menos pródigas na ornamen- 
tação dos seus vestidos, n&o usando enfeites dourados, nem cordões 



* Domingos Vieira ; Moraes, 7.* edição ; Caldas Aulete. 

* Arrhcu por fôro de Portugal, pag. 52 e 66. 
3 V. Diccionario Contemporâneo. 

* A Monarohia Lusitana escreve assim. As fórmas oerÇffK © cerrom 4o 
JSluciaqriQ são, ao meu vêr, meros erros <J e leitura, 



e das poesias 




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149 



MVMTA LtTSrtiWA 



cem eerames ou em mantos, salvo de seda sem outra mistura». No 
mesmo texto indica-se ainda qual a fatiota dos moradores de villa que 
n&o eram suficientemente abastados para sustentarem um cavallo, 
prescrevendo-se que nâo seja permittido renovarem o vestuário mais 
do que uma vez por anno, tanto para si como para as suas mulheres. 
Estas recebiam •pelote, saia e oerame ou manto* (tres peças); os ho- 
mens vestiam pelote (ou capeirote), saia e tabardo, emquanto aos ser- 
viçaes (Testes pequenos burguezes, chomens de pé vivendo em casa 
alheia ao serviço de outrem competia annualmente pelote e çurame, 
ou saia e cerame [aliás capa] de panno barato (duas peças). 

Consultemos agora os poetas! O Cancioneiro da Vaticana intro- 
duz n'uma gesta de maldizer um cavalleiro, de quem se moteja por 
elle usar de *çeram'e cint* e calças de Ruam* (1:082, 31). Outra cantiga 
de escambo dii ige-se a um pobretão, que de repente e sem o merecer 
fôra nomeado commendador de Uclés, trocando o seu cerame grisalho 
de panno de Chartes contra um rico manto tabardo e a espada de 
cavalleiro. 

Chegou Paio de maas artes \ com seu cerame de Chartes (1:132, 2) 
e Semelha me busuardo \ viind' em ceramen pardo (1:132, 8). 

Alfonso x refere se também ao çurame em uma das cantigas de 
Santa Maria (57, 6). Um poeta do Cancioneiro de Baena, emprega- o em 
sentido figurado, ao referir-se à capa da divina misericórdia, que en- 
volve tudo e agasalha a todos Em sentido real como termo de ves- 
tuário, porém, já n&o se usava desde que as modas da côrte de Bor- 
gonha tinham substituído os antigos trajes. 

Das passagens que citei, e de outras muitas que omitto resulta 
que o çurame ou çerame era em geral uma capa de resguardo, sim- 
ples, duradoira e relativamente barata, que servia aos humildes jor- 
naleiros, e ficava muito abaixo do tabardo senhoril, assim como do 
redondel e da sumptuosa garvaya, mas que também houve eerames ele- 
gantes, guarnecidos, para uso feminino. Herculano tinha, portanto, 
jus para fallar de luxuosos eerames de panno de arraz. O ponto em 
que errou, foi apenas a fórma da palavra. Hauriu-a decerto em fonte 
pouco limpa, ou transformou-a sem querer, por mero erro de escri- 
pta 5 . Mas, seja como fôr, os futuros editores das suas obras, como 
de diccionarios portuguezes, faraó bem em emendar o lapso. 



i N.° 474, vol. ii, pag. 161 da ed. de Leipzig : que son três per$ona$ t un 
iolo perfeito, el qual nos cubra con su buen çulame. 

* Veja-se, p. ex., o Elucidário, e Cortes de Leon e Castella (vol. ii, pag. 28, 
97, 118, etc). 

* Já tive ensejo de emendar alguns erros que afeiam a ediçlo académica 
do» Monumentos [como se vê por sbys = fui, de sederé]. 



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FRAGMENTOS ETYMOLOOIOOS 



XIX. DE8TB1KÇA 

Destrinça bem quem observa oa considera attentamente, distin- 
guindo e examinando por partes, ou quem analysa ou expõe por 
miúdo os pormenores de um assumpto, quer seja questão jurídica, 
philosophica, philologica, quer outra qualquer. Destrinça ainda quem 
distribuo os encargos de um fôro pelos differentes interessados. Uma 
destrinça (substantivo verbal, derivado) é o acto de esmiuçar com 
cuidado. Destrinçadamente, equivale a separadamente. Conheço tres 
variantes da mesma palavra: a usual, destrinçar, que tem hoje fóros 
de litteraria e está em todos os diccionarios ; estrinçar, que recolhi 
nos autos de Antonio Prestes (pag. 121 e 144) e destinçar f que já. anno- 
tei na Pratica de tres pastores (l. M 138 e 993). Qual d'ellas será a pri- 
mitiva? ou qual mais se approxima da primitiva? As diferenças 
sfto diminutas, mas ainda assim importantes. Trata-se de saber : 1.°) 
se o es, substituído mais tarde por des, é a pronúncia nacional de um 
* impuro latino; ou se des e es [que tantas vezes se empregam indis- 
tinctamente] são os representantes das syllabas dis e ex; e em caso 
que sim, se estas syllabas foram prefixadas a uma palavra, que prin- 
cipiava cora s, ou com t; 2.°) se o r de destrinçar, estrinçar, pertenceu 
à fórma primitiva, cahindo posteriormente; ou se aconteceu o inverso, 
epenthese euphonica ou analógica de r. 

Um typo distinctiare ou ex-tinotiark, de TiNCTus nao serve, de 
modo algum, quanto ao sentido. Besta, portanto, decidir, se o étymon 
é * distinctiare, de distjnctus, ou * strictjare, de sTRicTUs. Em ambos 
os casos teríamos exemplos, e bons exemplos, de verbos participiaes, 
derivados por meio de i: parallelos, portanto, a coçar = coctiarb; 
caçar = captiare; roçar =ruptiare; traçar =^ tractiare ; destroçar = 
destrdctiare ; despachar = dispactiare; chuchar = bx-suctiarr ; escar- 
ç ar =excarptiare e tantos outros. 

Quanto à significação, distinctiare contenta de tal modo que eu 
fallei em tempos a favor d'esta (minha) etymologia. O r, porém, ex- 
plica-se dificilmente. Ha com effeito,. na lingua portugueza e na cas- 
telhana, certa tendência para introduzir um r depois do grupo st, 
embora os doctrinarios mais illustres da nossa arte a neguem. Mas 
na maioria dos casos vê-se o porquê do r adventício : ora elle é o ecco 
de outro r ou l radical da palavra-modêlo [como em lastro e listra] ; 
ora houve confusão de suffixos [como em Valistro e Cilistro] ; ora é o 
producto da analogia [como em estreita por causa de astro; celestre 
por causa de terrestre; lagostra porque rima com ostra; mastro por 
causa de lastro, nastro, astro, canastro, etc. 1 ]. Mas para explicar o r 
de destrinçar todos estes expedientes falham. 

i Atrónito (em Galliza) por influencia de estrondo = ex-tokitbus, que eBtá 
por estrondro e vem directamente do latim vulgar trokitbob ; restreva por re$te- 
va. Mas oêtrwmt cttrqlidçf trancfa? latrqt tcêtrç? hartra? para não »»Wr cfo 
grupo 8T* 



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144 



REVISTA LUSITANA 



Virei-me por isso para * stridiare, cuja firma é ainda preferível, 
e que nfto offerece grandes dificuldades quanto ao sentido. De aper- 
tar, combater de perto, por strictios interpretam (traduzir e interpre- 
tar com exactidão e rigor) nfto ha muitos passos a dar para chegar 
ft idéa: discernir , distinguir, destri[n]çar. A resonancia nasal antes do 
i podia ser meramente portugueza como p. ex. em cinzel e sinceiro. 
E', comtudo, mais provável que fosse latina: strwctus por strictus, 
como * pihotus por pictus (pintar, pintor, pincel, pinto, etc.) e finctus 
por fictus l , por analogia com cinctus, extinctus, tindus, lindus. — Des- 
tinçar (que é fórma pouco usada, desconhecida aos mais), por influen- 
cia de distinguir, distinto e instinto, que se referem igualmente à in- 
telligencia distinctiva do homem. 



Eça é, sem duvida alguma, *ersa, de krokre (Corna, § 148) scil: 
tumba ersa. Julgo, todavia, que a palavra (que falta no resto da pe- 
nínsula, como em todos os outros países românicos) nfto é originaria 
de Portugal, onde apparece sómente do século xv em diante. Viria 
de Inglaterra, no tempo da rainha D. Filippa, juntamente com certas 
e determinadas modificações no armamento do estrado que era e é 
costume levantar no meio das egrejas para o féretro dos defunctos. 
E penso assim, porque a orthographia primitiva de eça é hessa = in- 
glez hearse Lembre-se o leitor de que também as cerimonias nu- 
pciaes de D. João i com a nobre ingleza foram praticadas «segundo 
costume de Inglaterra», e que o inglez Frey Aymar, seu confessor, o 
qual mais tarde chegou a ser primeiro bispo de Ceuta, era homem 
de grande influencia na côrte. 



Nfto encontro absolutamente nada que falle a favor da etymolo- 
gia esox *. A única fórma que o portuguez archaico empregava, era 
*eiróo 4 ; o plural antigo mais usado era eiroos 5 . Eirozes é o resulta- 
do, relativamente moderno, de um vulgarissimo erro de declinaçfto 

i Fintar (de fikctui, parti cipio de pihoerb) significa em Penafiel (e em ou- 
tras terras) trabalhar a massa do pão (= kneten) e Tevedal-a. Fintadeira é a tá- 
boa sobre a qual as padeiras amassam. 

* Veja-se por ex. Resende, Trasladaçam do corpo de D. João II, pag. 295. 

* Cornu em Gr. Gr., § 210. 

* Notei ainda troo, mas sem indicação do texto onde o colhi. Evo, nas Ord. 
Af., n, 78, talvez seja mero erro de copista por eiró. Os exemplos litterarios nâo 
permittem decidir se o termo era fcm. ou masc, como o uso actual e a analogia 
com outros substantivos em ôos (= olos) e 6*8 (= oles) parece indicar. 

6 N'um Documento eborense (de 1380 approximativamente), i, pag. 133, 
leio: enguias e eiroos. Em outro muito posterior (de 1532; Ined., v, 561) temos as 
formas mais recentes eiroes e eirÕes (eiroes), de um sing. eirom (cfr. feijão, feijon, 
por feijol = ruASioLus) . 



XX. EÇA 



XXÍ. EIBÓ 



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FRAGMENTOS ETIMOLÓGICOS 



145 



que produzia os duplos plaraes: pó-zes,só-zes, tnó-ze$, por analogia com 
os plaraes correctos : nóz-es, vóz-es, e por causa dos diminutivos pózi- 
nho, sózinho, mózinha; chá-zes por causa de pâz-es (fazer as pazes); e 
pé-zes por causa de réz-es, féz-es; aos quaes seguiram posteriormente 
polysyllabos como piózes, enchózes, ichózes, filhózes, ilhózes, belhózes, 
paletóze8, queirózes; marézes, cachenézes, crochézes, lava-pézes, demitM- 
zes e até irmãzes l . O falso singular biróz de ahi abstrahido, é pouco 
usado ' [muito menos que pióz, enchóz e ichóz]. Quanto & etymologia, 
as variantes gallegas eiroas e airoas a , indicam como fórma-modêlo 
um diminutivo latino, móvel, em iolus e iola, provavelmente àrkolus, 
areola, ou hariolus, hariola. Confesso que nâo as descobri, como no- 
mes de peixe 4 . 

A mesma palavra é, ainda, nome de logar. Conheço duas villas 
Eiró: uma em Tras-os-Montes e outra na Beira, chamadas antiga- 
mente Eiroo e Eirol. [V. Mon. Leges, 561 e 594; e Portugal antigo e 
moderno]. Mal se póae duvidar que ambas fossem eiras pequeninas 
[ariola por areola de ãrita 6 ]. 

XXII. rito 

As etymologias propostas sfio bastante variadas. Deixando de 
parte como impróprios os étymos gregos eO&ú; e àeí (Saraiva, ix, 38), 
assim como itum, de ire (Constâncio), temos actus ou actu, proposto 
por Coelho (no Dicc. Manual), e por Baist (Zschr., m, 564, e vn, 116 6 ), 
e addidum, defendido por Cornu, § 23 7 . Quer-me parecer que todas 
estas etymologias foram forjadas theoricamente, em vista da palavra 
isolada, solta e passiva, mas nfto diante de phrases colhidas na língua 
viva, e comparadas depois com o maior numero possível de trechos 

1 Zurara dizia librézes, de libré, lebrel, fórma dissimiladá de lebrero, lepo- 
rarius. Em Hespanha temos picses e traspieses. O gallego UBa leise$, reises, man- 
Uses. 

a £ f costume fallar d'estas formas como de «pluraes, considerados como sin- 
gulares, e aos quaes accrescentaram por isso, mais tarda, nova terminação de plu- 
ral» (Gonçalves Vianna). Não me parece perfeitamente exacto. Nunca ninguém 
se serviu de pós, mós, como singulares, dizendo um pós ou uma mós, considerando 
o plural como singular ; nem nunca se abstrahiu um falso singular vó ou nó de nws 
e voz. 

8 O ai pôde ser evolutivo de cí, como em rainha, taimoso, etc. 

* Ha um peixe lirio e liriolo [trichiurus lepturus], esguio como a enguia, o 
eiroo e o congro, mas no restante bem diverso. O nome deve ser erudito. 

$ Nomes de logar em ó agudo (antigamente oo e ol, de iolus) são muito fre- 
quentes. Sirvam de exemplo : Egrejó, Figueiró, Alijó, Ranhó, Rtqúeijó, Fijó, Ges- 
taçó, Ginó, Ilhó, Labrvjó, Ijjjó, Lamó, Leiró, Linhó, Malhó, Minhó. Cfr. Jambo, 
Lacaio, Paço e Ribóz, Filhóz. 

6 Eito por aito [usado por Gil Vicente, i, 129 e 131, no sentido de auto dra- 
mático] = actu, é phoneticamente inatacável. Também a phrase a eito responderia 
bem a uno actu. O substantivo eito de pedra não se pôde ligar, comtudo, áquella 
significação. 

7 Addidum dava phoneticamente adeito; e quanto ao sentido, não me parece 
que por ordem (aufBefthl; aufs Wort) seja traducçâo adequada de aeito. 

rbv. lusit., vol. in, fase. 2. 4 



146 



RIVIffTA LUSITANA 



extrahidos de textos antigos, pertencestes &s diferentes lingaaa pe- 
ninsulares. E' o que me appliquei a fazer n'este caso, como em todos 
os outros. Ainda assim só posso apresentar pequenos fragmentos da 
historia da palavra. 

Como substantivo independente, eito é hoje apenas um termo de 
agricultor ou lavrador, Usado em Portugal e Gallisa. O que designa é : 
a porção de terra em fórtna de fita ou tira [de ftm metro de largura 
pouco mais ou menos] que cada lavrador sacha, sega, ceifa ou monda, 
avançando sempre em linha recta, como que fosse seguindo a direcção 
de uma pedra lançada [um eito de pedra] e cantando, quando bem lhe 
parece: 

eito fóra, eito fóra 
eito ao cabo do chão! 
só depois do eito fóra 
descança meu coração K 

A locução adverbial a eito, que os gallegos escrevem aeito desde 
os tempos de D. Alfonso x (Cant. 175), e que não é particular a 
nenhuma classe social, pertencendo, pelo contrario, ao vocabulário de 
todos, significa: de vez; a fio; simultaneamente ; sem interrupção nem 
escolha. Usa-se em phrases, como : fazer um trabalho ou serviço a eito ; 
saltar quatro vezes a eito; levar as coisas a eito; responder a duas 
cartas a eito; comer cerejas a rito. Corresponde portanto a uno ictu 
mit einem Schlage, mit einem Wurfe. — Eito, de ictu; como estreito, de 
striotus; empreita, de implic'ta; bieito e breito, de benedictus; maleita t 
de maledicta; fieito e feito, de filictum; espreitar, de bxplic'tàrb; de- 
leito, de dblictus (Alf. x, Cant. 116); vendeita, de vindicta (Cant 91); 
revendeita, de rbvindicta (lned., v, 408; i\r, 547 2 ). 

Em Hespanha nâo ha phrase correspondente a a eito. A lingua 
archaica possuía, porém, o substantivo echo. No Poema de Alexandre, 
879, lêraos: <ca um echo de dados» 3 ; na Misa, de Berceo, 71: «apar- 
tóse don Christo de la su criazon quanto echo de piedra»; e na Con- 
quista de Ultramar, pag. 522: aaquel casticllo non era mayor de un 
echo de piedra». Este echo, hoje perdido, podia serjactus (couio o fran- 
cez giet de pierre, e italiano getto). Mas visto que a jactas corresponde 
o portuguez geito, nao eito, o mais prudente será considerar também 
a forma castelhana como irma d'esta ultima palavra, e portanto como 



* Diz- se ainda (se ha que fiar nas indicações do cardeal Saraiva): não sahir 
do eito; seguir o seu eito; não declinar para o eito do vizinho; e dar um eito com o 
arado. 

3 Em portuguez archaico temos a mais deyto por dietns, e deytado por di- 
etado [que existe também em castelhano. V. Rimado de Palacio, 71 i, 712, 846; 
Baena, i, 59, 152, 158]. D. Alfonso, o Sabio, canta : «o que será feito \ eu endeito \ 
o d'aqui que seu seja \ sen peleja | do demo todavia», querendo dizer: «aquelle que 
nascer, eu assignalo-o [ou marco-o] desde já para que seja do diabo». Será indi- 
ctaret de dictus ? 

3 JACTU TE88EBÀRUM. 



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FRAGMENTOS ETTVOLOGI0OS 



ktuê \ Ou entfto, diga-se que eito representa ambas as palavras, per- 
tencendo a um grupo de vocábulos que eu chamaria miúdos, e que for* 
mara um contingente importante do cyclo bastíssimo que Gonçalves 
Vianna appellidou apropriadamente «fórmas convergentes». 

XXIII. EIVIGAR 

Derivar o antigo verbo eivigar por eivigar, de àedificárb, já não 
tem novidade, depois que Cornu se pronunciou a tal respeito (Gr. Gr., 
§ 185), na occasião de indicar que um f latino (ou ph) produziu algu- 
mas vezes um v ou b portuguez. A's fórmas modernizadas apaziguar, 
averiguar, santiguar *, e âs antiquadas afruitivigar, testivigar e morte- 
vigar 3 ; posso accrescentar apenas crucifigar [Àlf. x, Cant. 12 e 99; 
Berceo Mil., 427; Alex., 1:740; Duelo, 48] e certifigar [Mil, 443], as 
quaes, como se vê, ficaram estacionarias logo ao principio da sua car- 
reira, conservando-se inalteradas até que os latinistas do século xv 
as reconduziram ao seu ponto de partida, juntamente com os repre- 
sentantes de fructificar, mortificar, pacificar, verificar, santificar, edifi- 
car e outros. Meros termos bíblicos que sempre ficaram restringidos 
ao domínio dos jurisconsultos e ecclesiasticos; i. é: dos lettrados. 

Se ainda assim publico estas linhas, é para fornecer aos estu- 
diosos as provas da existência de eivigar que possuo, e para provocar 
que se risque dos diccionarios portuguezes o verbo eiveger, erronea- 
mente deduzido por S. Rosa de Viterbo da fórraa eivegedes (que o 
leitor encontra no 5.° exemplo), e falsissimaraente traduzido com *es- 
moutar, agricultar, pôr toda a boa diligencia e cuidado no fabrico e 
roteo de um casal». 

Eil-as : 1) O barom sages que ei vigou sua casa sobre a pedra (lned., 
S. Boav., in, 252). — 2) juízo eyvygado (= fundamentado), lned. Hist.,v, 
425 *. — 3) eyvigamentos das falas (= fundamentos razoáveis), lned., 
S. Boav., m, 262. — 4) E nom damos a vós poder de vender nem doar 
nem em outro lugar estranyar; mais chantedes e eyviguedes e façades hi 
quanto bem poderdes [Elucidário, i, 301, s. v. eyviguar; doe. de 1$84]. 
— -5) a tal preito que volo chantedes e eiveg[u]edes e que façades hi 
quanto ben podedes fazer \ib., pag. 278; doe. de 1305]. — 6) chantedes 
e eyviguedes [ib , pag. 302]. 

Chantedes e eiviguedes significa evidentemente: *que planteis e 
construais edifícios*. A palavra não tem nada com virgem, como S. 
Bosa imaginou. A existência de deviginare [=devirginare!] é muito 
problemática. Em portuguez não existe; e no único texto em latim 
medieval, allegado por Viterbo, e que já passou para a Historia de 
Schafer (i, 239 5 ), deviginaverit deve ser erro de copista pelo supposto 

i Cfr. dçrecho, helecho, dechado, endechas, etc. 

« Santivigar nas Cant. de Maria, 89, 134, 330, e na 9. 1 das Fiestuê. 

* Testivigar nos lned , v, 417, e mortevigar, ib., a pag. 425 e 430. 

* No texto ba eyvyado, o que nâo significa nada. 
5 A pag. 208 da traducção portugueza. 



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148 



REVISTA LUSITANA 



devirginaverit (?), ou entfto por aedificaverit. E desivigar, que já foi 
citado por alguém, como segunda fórma de deviginare, nfto 6 senão 
leitura errada, ou antes interpretação falsa, de desjulgar = msjum- 
carb, fórma esta que está em perfeita harmonia com juigrar^jum- 
carr, como os antigos costumavam dizer. 



Em primeiro logar (e mais uma vez com endereço aos dícciona- 
ristas nacionaes), algumas passagens que mostram claramente a signi- 
ficação do desusado termo em meogoo, recolhido por S. Rosa de Viter- 
bo, e fielmente por elle traduzido com: *meio de alguma cousa*, mas 
nfto comprovado com documentos. 

Temos nas Historias do velho testamento: 1) e no segundo dia fez 
deus o firmamento en o meogoo das augas (in mrdio aquarum ; Génesis, 
cap. 2); 2) mas do fructo do lenho que he em meogoo do paraíso nos 
defendeu deus que non comêssemos (in médio Paradiso; cap. 13); 3) e es- 
conderom-se dant a sua face em meogoo dos lenhos do paraíso (cap. 14; 
Ined., S. Boav., n, pag. 2, 7 e 8). 

Temos mais nos Actos dos Apóstolos fib., vol. i, pag. 30): 4) e 
poserom em meogoo Sam Pedro e S. Joham; 6) e poserom-nos em meo- 
goo do conselho (pag. 36). 

Temos nos Fóros e posturas de Beja (Ined. HisL, v, 504): 6) o 
dedo do meto goo. 

No segundo testamento da rainha Santa Isabel (de 1327), a res- 
pectiva formula apparece umas cinco vezes, nfto entendida, e por isso 
deturpada pelo moderno editor (Sousa, Provas, i) ou pelo antigo co- 
pista de 1604. E dizem: 7) e mando soterrar o meu corpo em o mos- 
tetro de Santa Clara e de Santa Isabel de Coimbra em o meo geo do 
Coro (pag. 117); 8) a minha brocha grande do camafeo furada no mejo 
goo (pag. 119); 9) item lhe leixo dous texees de pedras, safiras nomeia- 
goo (pag. 231); 10) tem ha esmalte dos sinaes de Portugal no meio goou; 
e 11) tem hu robi no meio goou (ib). 

Em vista d'estes trechos de prosa, em parte estropiados, ainda 
era possível ficarmos incertos, âcerca da pronúncia, duvidando se a 
accentuaçfto era meogóo ou meógoo, e se o o era aberto ou fechado. 
(Quanto ao e da primeira syllaba, as graphias meio, meyo e mejo indi- 
cavam, juntamente com o étymon médio, a pronúncia e aberto). Con- 
sultei por isso os versos dos trovadores antigos. Infelizmente, debalde. 
Apenas nas Cantigas, a todos os respeitos tâo instructivas, do mo- 
narcha Castelhano, é que encontrei a formula procurada, em graphia 
e pronúncia contrabida 1 : n'este tneogo, significando n'este meio tempo, 
como adverbio temporal na Cantiga 65; no meogo, como adverbio lo- 

i Parece-me significativo que todos os onze exemplos prosaico* conserva- 
ram o archaismo meogoo ou meiogoo, meiagoo, o qual, quasi um século antes, já 
tinha sido abandonado pelo poeta régio. 



XXIV. EM MEOGOO. — XXV. ÂMAGO. — XXVI. PA80IGO 



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PRÁGlÍENfOS ÉTYBÍOLOÔÍCOd 



149 



cal, fóra da rima na poesia 115; e uma única vez, na Cantiga 161, 
em rima com lógo e rógo. E' o bastante para pronunciarmos afoita- 
mente em meógo; e como proparoxytono em tneógoo. 

Mas que fórma ou que derivado de meio representa meogoof Com- 
parando a sua estructura com bagoo = baculum, oragoo = oraculdm, 
mwsjroo = musculum, perigo = pebiculum, artigo = articdlum, podíamos 
inferir um typo meiogolo, como base de meogoo. E meiogolo? Impossí- 
vel considerá-lo como um diminutivo * medioculum, porque ninguém 
acreditaria que formação tâo extravagante existisse. O francez milieu, 
prov. mieg luoc, ital. miluogo, rum. mijloc, indica, e Cornu já achou, 
a verdadeira etymologia in médio loco (§§ 130 e 244). Nâo concordo, 
com tudo, com o modo d'elle encarar as evoluções, por que ra medio- 
loco passou, antes de produzir meogo. Segundo elle, temos: 

a) me[i]o-lógo, com queda do d[i] e abrandamento do c para g 
[como em me[i]o e logo]; 

b) meo-ógo, com queda do l intervocalico ; 

c) meógoo, com raetathese do o protonico para postonico; 

d) meogo f com contracção d'estes mesmos o-s átonos. 
E eu proponho : 

a) meiólogo, reunindo as duas palavras em um só vocábulo, pro- 
nunciado com uma só emissão de voz e accento principal no o do 
ablativo latino mediõ; 

b) meiógolo, com a mesma metathese que temos no archaico diá- 
golo e no popular catágolo *; 

c) meógoo, com queda do l intervocalico ; 

d) meógo, com contracção dos dois oos átonos. Tudo isso antes 
do século xiii. ♦ 

A evoluçfto terceira de Cornu, metathese de uma vogal proto- 
nica, collocada de mais a mais immediatamente diante de outra, idên- 
tica e tónica, para a penúltima syllaba, de modo que transformasse com- 
pletamente o som da phrase, substituindo dois trocheos (-o-^u) por um 
paeon secundus (o-*-ou) ou por um iónicos a majore ( — -ou) parece-me 
inaudita, mesmo em portuguez. As mais fortes metatheses portugue- 
zas dé vogaes que conheço, fragua, légua, trégua (e talvez mingua); 
cudiar por cuidar (cogitare; asturiano), pieitar por peitiar (pectinare; 
gallego), iugal por igual; pardieiro, de paredeiro =parietarids; amiei- 
ro, de aemeiro; e dioso por idoso (= * àetatosus) são, ainda assim, 
bem diversos *. Antes de acceitar *meógoo, de meoógo», eu propo- 

1 De theólogo, astrólogo, prólogo formaram teólego (Uólago), estrólego (estró* 
lago) e prólego. 

s Todos os casos, em que apparetitemente houve metatheses muito vio- 
lentas de vogaes, uâo resistem a uma indagação rigorosa. Diz- se, p. ex. : que Al* 
fonso x empregou o verbo perigoar [periculahk], o que é um facto (V. Cant. 35) *, e 
que esta mesma palavra se transformou em periogar (Cant 166», o que é falso No 
verso *et mui matlhe periogaron», temos o verbo pcr*jogar — pregar uma peça Qem. 
mitspielen; einen iíblen Streinh spielen), i. é: jogar, reforçado, como em centenas de 
outros casos, pelo adverbio ou prefixo separável rua. — Em ivga, de jcqca (mirau- 



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150 



&BV1STA LÚSITÀtfA 



ria: mmholoculo = meoógoo, que (sem deslocação do accento) expli- 
caria tanto o 6 aberto e accentuado, como a sua substituição por á em 
meyagoo, e talvez nos désse ainda por cima a razão das cacographias 
tnejo goou, meio goou. 



Da fórma tneiagoo, apontada no Elucidário e apresentada em um 
dos meus exemplos, Cornu deriva o obscuro âmago, que, segundo elle, 
passou por maágoo. Etymologia deveras tentadora, mas que ainda 
assim nâo convence. A troca de accentos ficava inexplicável. Se, pelo 
menos, encontrássemos a fórma intermédia amágoo ou emágoo (de meá- 
goo)l ou uma oraç&o, era que meagoo fosse substituível por âmago. . . 



Acceitando-se a minha premissa, que estabelece a metathese pri- 
mordial de logo, que, tornado enclítico, deu golo (e goo só depois da 
queda secundaria de 1), estou prompta a subscrever também à etymo- 
logia pacigoo l , de * pasc[u]iloco (Cornu, § 130), que fica em pé ou càe 
com tneogoo. De outro modo nâo coraprehendo esta derivação. — Jazi- 
goo e tapigoo (em que é quasi impossivel procurar locus), assim como 
bestigo, bodigo e outros, seriam posteriormente moldados sobre pacigoo, 
que ficaria sendo como que um typo modêlo. [Cfr. Slkcellanea, 13, 34 



A palavra enduenças ou endoenças (como é costume escrever, com 
falsa orthographia etymologica), explicada por Coelho no Dicc. Manual 
por en, prefixo, e doença (= dolkntia), emprega-se exclusivamente para 
denominar a quinta-feira da semana santa (Griindonnerstag) e a sexta- 
feira da Paixão (Charfreitag), ou toda a semana santa. Mas que eu 
saiba, estes dias d'induenças n£o têm nada cora doenças; mas muito, 
ou antes tudo, com as indulgências que a santa madre Egreja con- 
cede aos peccadores que forem pontualmente â desobriga da quaresma 
e visitarem sete egrejas, em memoria das sete estações da Paixão, 
rezando e esmolando. Se estes dias sfto chamados até oficialmente: 
dibs absolutionis, Dias iNDULGENTUE : Antlasstage l 

A etymologia que proponho é, portanto, certa, apezar de as trans- 
formações phoneticas não sahirem muito claras, o que nào admira em 
palavras semi-eruditas, ecclesiasticas. A queda de lg, Ih e ly é fóra 
do commum, e talvez única. De palavras com tUg lembra-me apenas 
huloerb, que deu mugir (por muigir), e mungir por influencia do m ini- 
cial (como em mui/n e muinto). Parece todavia que, no caso de inoul- 
gentias, a lettra que desappareceu primeiro, foi o o. O castelhano di- 
zia no século xv : endulencias, como se prova por uma poesia de Juan 
Alvares Gato (Cane. ms., fl. 18 v.), apropriada ao viernes d'endulençia$ f 

dez); em eêlauta, tauba, perpeuta, miga (andaluz); em perpeutado (asturiano) 
eryuagur (bogotano), a metathese translocou vogaes em sentido inverso. 
1 Ined , Boav., u, 19; ui, 12 e 3tf. 



e 48]. 



XXVII. ENDOENÇAS 



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FRAGMENTOS ETYMOLÔGICOS 



151 



que principia: «Pues hoy predican, doncella». Confira -se tatnbem na 
Crónica de D. Alonso XI, o capitnlo 328, relativo ao anno cte 1360, 
onde se conta que aquelle Rei «finó viernes de la semana sanda que 
dicen d y indulenciasy>. 

XXVIII. ENGAB 

Na verdade, não faltam tentativas etymologicas, consagradas ao 
verbo engar. Muito pelo contrario! Em nada menos de sete ou oito 
artigos vieram indicados como étymos presumptivos quatro palavras 
bem diversas: o adjectivo allemào eng (apertado, estreito); bngos (m. 
pl.): o nome popular da caprifolacea sambucus ebulús; o verbo latino 
inhiare; e enecare ou enicark! 1 Mas nenhuma satisfaz. Nenhuma 
é logicamente deduzida. Nenhuma é architectada sobre bases soli- 
das, atteudendo-se por igual ao corpo e á alma, ás lettras e ao sen- 
tido. Todos os etymologistas' deixam de lado a real e primitiva signifi- 
cação da palavra, egcolhendo a bel prazer e com a máxima semceri- 
monia, por entre as variadas accepções derivadas que engar pôde ter 
(se acceitarmos as indígenas e inexactas definições dos diccionarios), 
aquella que melhor lhes quadra para o seu fim, e inventando até ou- 
tras (como o apertar com alguém, de Moraes). 



i Em 1713 o benemérito Bluteau escrevia : Engar com alg. (termo do vulgo) 
= pegar com alg. Vem de engos, erva que facilmente pega (!) em qualquer parte 
que se plante. — -Engou commigo (quando he para bem) = wim stddkt; e (quando 
he para mal) = me insectatuh, me escogitat. — Engar (termo de caçador). Quando 
as rezes continnào a pastar em huma seara, usâo os caçadores do verbo engar, v. 
g.: engou os grãos; engou os chicharos; engou as favas = fabarom fabtui se dedit 
(vol. iii, pag. 115). — No vol. ív, s. v. lugar, accrescenta ainda: «Os que o deri- 
vâo de cngos dizem engar. Diz-ee do animal a que se deu de comer [e] vem outra 
vez ; ou do homem que continua no em que tem achado conveniência». 

Moraes (1789) explica : «Engar v. n. (do allemâo eng) ; apertar com alg. (I), 
pegar com elle; trazei o entre dentes. — Affeiçoar-se com intimidade e apego (!) — 
Entre os caçadores : costumar -se a algvm pasto a caça, v. g.: engou as favas, os 
grãos, os chicharos». A ultima ed. (de 1877) repete as indicações de Bluteau ; op- 
põe á etymologia eng um signal de interrogação; allega uma citação de Oil Vicen- 
te, da qual logo trataremos ; e separa o verbo transitivo do intransitivo. 

O Cardeal Saraiva vota pelo ótymon enq-anqustus (Obras completas, vol. ix, 
pag. 130). 

Constâncio — citado tanto a miúdo pelos romanistas antigos — dizia em 
1836, offerecendo outra etymologia : «Engar, v. abs. ou n. (Lat. eneco -are ^= ator- 
mentar, vexar): apertar, pegar com alg.; trazei- o entre dentes; ter*lhe má vontade** 

Diez (11) repetiu em 1853 a inexacta definição de Moraes, traduzindo o aper- 
tar d'elle com heftig drãngen, feindlich zusetzen, equiparando-o ao francês enger, e 
reduzindo ambos ao enecake de Constâncio. 

Cornu acceitou esta derivação (Gr. Gr., § 123). 

Caldas Aulete nâo gostou, e oilereceu nova etymologia, dizendo *Engar % v. 
fr. (venat.), babituar-se a caça a alg. pasto : Os coelhos engaram as vinlias, v. intr., 
a mesma accepçâo. — For ext : habituaras* alg. a ir comer a casa de outrem,— Âf» 
feifoar**e com intimidade e apego a alg. ou alg. c. •» F. lat ikbiaee». 

Coelho, por se nâo contentar com estes ensaios muito vagos, deixou o artigo 
respectivo do seu Diocionario Manual eem étymon. 



163 



ÈSVI8TA LUSITANA 



1. ° Engar ou ingar alguma cousa; ou ainda engar-se a alguma 
cousa significa: avezar-se ao que i ruim; acostumar-se a proceder mal; 
afazer-se a praticar o que é prohibido; e só mais tarde passou a refe- 
rir-se indiferentemente a qualquer costume ou habito, quer mau, quer 
bom ; tal qual o próprio avezar, que, apezar de derivado de vitium l , 
pôde relacionar-se hoje com as mais santas virtudes. — A prova, eil-a 
n'um vetusto provérbio, que Delicado e Bento Pereira registaram : 

«Engou a velha 08 bredos: souberam-lhe bem, lambeu os dedos». 
«Engou-se a velha aos bredos e lambe-se os dedos», usado hoje com 
mais frequência em Portugal na fórma: «Avezou-sc a velha aos bredos*, 
etc., ou «Avezou a velha os bredos», ou ainda, com substituição dos 
mal conhecidos bredos, que ninguém põe na mesa : «Avezou-se a velha 
ao mel, comcr-se quer». Em Galliza, diz-se: «Bezou a velha os bddros, 
e lambe s'os dedos»; e em Castella, desde os tempos do Marques de 
Santillana: €Arregostóse la vieja a los bledos, ni dexa [var. ni dexô] 
verdes ni secos», ou mGustó-se la vieja los bledos y lamió-se los dedos *». 
Canis corio assuetus!, porque amaranthds blitum ou blitum capita- 
tum (ali. Fuchs-schwanz) passa, desde Plinio, por ser a mais insípida 
entre todas as hervas. O provérbio quer, portanto, dar expressão à 
ideia: por ruim e malgostosa que seja uma coisa, basta que a gente 
se lhe acostume para que seja cobiçada e não a dispensemos mais; 
ou também: basta que seja uma fructa prohibida, para que haja quem 
a ache deliciosa. 

A caça que, sahindo dos bosques, enga o grão das searas que lhe 
são defezas; o coelho que enga as vinhas, as favas ou o trigo dos 
campos, que ninguém lhe faculta; o gato que enga o leite, como a 
velha que enga os bredos ou o mel : todos vão d enga, ao repasto acos- 
tumado, ao gosto prohibido, à costumeira, ao vicio inveterado a que 
se afeiçoaram ; e não o deixam, embora lhes custe a vida. 

2. * Engar alguém é irritá-lo; despertar em elle o sentúnento do odio 
e da aversão. Engar com alguém significa: estar irritado contra alguém; 
embirrar com elle, ter-lhe raiva e querer-lhe mal. O povo emprega es- 
tes modismos ainda hoje. 

Gil Vicente serviu-se de engar como verbo neutro na extrava- 

^ i A palavra e a sua origem sâo conhecidas de ha muito. As formulas pro- 
verbiaes em aue o povo a empregava estão, comtudo, por recolher, como, p. ex. : 
Pôr vezo e tolhê-lo. — Mente Pedro porque o tem de vezo. — O lobo muda o pêllo, 
mas não o avezo. — Besso pon, que besso quites (gal.) ; ser useiro e vezeiro; horas 
vezeras (Berceo, MiU., 173); mau vezo (G. Vic, in, 168). 

^ * Die Alie hat Fuchssehwãnze gekostet, genascht, probiert, oder schon toiederho» 
lenãich gegessen; nun leckt sie sich die Finger danach, denn est gelustet sie nach 
mehr; oder nun lãsst sie weder ití>erreife noch unreife, weder gritne noch dUrre un- 
gegessen. Das will sagen: Wer der ersten Versuchung nicht widerstanden hat, wi- 
dersteht der zweiten und dritten gewisslich nicht. Wer im Bòsen erstarkt ist, den bringt 
man nimmer zu reoht. Os florilégios do século passado citam : coton gustavit e Mens 
ubi damnosa devida libidine flitskt fintm percati neseit habere sui. Quem quizer, pro- 
cure em Haller, n 0 29ft, as citações clássicas de Theocrito e Horácio, os Çommen* 
tortos de Erasmo e os parallelos estrangeiros. 



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FRAGMENTOS ETYM0L06IC0S 



153 



gante Comedia Bubena; mas nfto é fácil decidir qual o sentido exacto 
que elle lhe ligava, se o de avezar-se, ou o de irritarse. Uma feiti- 
ceira reclama os serviços de quatro diabos, está claro que com intui- 
tos até certo ponto malfazejos. Um (Telles acode immediatamente, 
ainda que d'arrancada e maldizendo a velha. Os outros tres são re- 
tardatários. Procurando o rasto do companheiro é que param no meio 
do caminho, afim de deliberarem sobre o seu procedimento conducta 
para com a dona feiticeira. E um d'ellès diz: 

Tomemos mui de vagar — conselho muito cuidado; 
Que se esta ladra enoar — nunca nos ha de deixar 
dormir somno assossegado. [vol. n, pag. 18]. 

Tanto pôde ser: ase a velha se acostumar a reclatnar continuamente 
os nossos serviços, então, adeus somno e socego», como ase a velha se 
zangar, começando a embirrar comnosco, e acostumando-se a achar-nos 
em falta, ou tomando o feitio de nos ralhar», ou, para empregar o ter- 
mo correspondente castelhano, ase ella nos tomar inquina, então esta- 
mos bem arranjados! 1 ». 

Para concluir: em ambas as accepções do verbo engar, assim como 
nos substantivos enquina, inquina e inquinação (— odio e aversão), a 
ideia principal, o punctum saliens, é o mal que se pratica ou sente, a 
iniquidade do modo de proceder. O étymon é, por isso, se nfto me en- 
gano, o latim iniquus, ou antes o verbo iniquare = irritar, fazer mal, 
excitar má vontade. — Engar por eengar, iingar: como vinda, finda, 
trindade, cinza, painço, mdinça, etc, de venita, finita, tbinitate, ci- 
nitia, panicids, manjcia. Go, ga por QDUS-QUA, como em antigo, de anti- 
qxjus. Enquina, inquina, sem abrandamento da ténue, como em pro- 
vinco, de propinquus 2 ; talvez porque ambos são termos introduzidos 
relativamente tarde. 

* 

Devemos, comtudo, tomar em consideração ainda mais uma pala- 
vra antiga, inteiramente desconhecida, de feitio muito semelhante. 

O Cancioneiro da Vaticana utiliza um trisyllabico verbo enguear 
(de alguma coisa), ou, com mais exacçao, um poeta do Cancioneiro em- 
prega uma vez a 2.» pessoa do plural do conj. pres. de um verbo da 
1.* conjugação anom engueedes ê»u>, cujo infinitivo e complemento mal 
pôde ser diverso do que indiquei. Trata-se de um tCantar de amigo*. 
A amante está, ou estivera irritada (=engada) por o seu amigo ter 
partido sem a sua ordem, ou antes, contra a vontade d'ella «sem seu 

* O glossário da edição de Hamburgo traduz engar com embirrar e ateimar, 
menos mal, como se vê. 

* Omittindo mais ampla demonstração, porque os respectivos phenomenos 
sâo muito conhecidos, direi apenas que o gallego, muito mais independente e avan- 
çado do que o português, supprime o u ante«vogalico mesmo em palavras erudi- 
tas, como eêigç — x*iqvvb, êuperflo f suntoso, fastoêo» 



154 



REVISTA LUSITANA 



grad!e talan». Com tudo, está disposta a ser «perdoador», visto que o 
culpado já se mostrára arrependido, vertendo lagrimas e implorando 
«mercê». Porisso, diz ella, perdoar4e-hei 7 por esta vez, mas não me tor- 
nes a recahir no mesmo erro, irritando-me de nova mente. Tres vezes 
é que ella repete, a modo de refran, o seu sermftozinho: 

e quant' é esto. . . pass f agora 'ssi! 

mais . . . (ameaçando com o dedo índice, e sorrindo) outra vez 



Mas não has de provar outra vez do fructo prohibido ? Não te ave- 
zes a proceder tão mal? ou não me faças zangar a este respeito? Quem 
se atreve a decidil-o? O que é certo, é apenas que a linha é metri- 
camente correcta, e dá sentido; de sorte que nâo ha motivo nem li- 
cença para a modificarmos. Temos de rejeitar, sem hesitar, a remo- 
delação de Theophilo Braga: ccmays outra vez nom roguedes ên», que 
falsifica o pensamento, e estraga a medida. 

Mas, em que relação está enguear cora engar? Poderá ser que 
enguear esteja pelo supposto eengar, xingar? Èis-nos mais uma vez 
deante da questão, se metatheses tão violentas de vogaes se deram 
efectivamente no portuguez archaico? Pieitar por peitiar, que já ci- 
tei, é um exemplo diametralmente opposto; e miungar também, se é 
que elle está por minguar. De resto, nada nos obriga a construir a 
hypothese de que o e átono, em logar de soffrer contracção, como em 
casos não contados, saltasse para o fim da palavra, modificando o sen 
caracter prosodico. Ha outra explicação. Se engar representa iniquare, 
enguear pôde representar a variante iniquiarb (cfr. n.° xxvi). Falta, 
comtudo, encontrar exemplos em que o y, depois de guttural (qu) } 
fosse tratado de modo idêntico. 

Inquinare, que alguém podia suggerir — apontando casos em que 
aquelle verbo significa figuradamente inficionar, contaminar, viciar, e 
que com effeito está phoneticamente, em condições de contentar, tanto 
com relação a enguear como a enquina — não explica a accepçáo ve- 
natoria de engar, nem a sua fórma. Teríamos, portanto, de admittir 
dois étymos diversos. 



nom engueedes em! 



XXIX. BNGtJEDAT 



Castelhano archaico: 



Loor., 118 
lb., 134 
Dom., 76 



Saliemos de prision — engUEdat recobramos 
Levó muchos cativos — por darlis enooedat 
Oraba por los enfermos — que diese sanidat, 
a los encajHivados — que diese knguedat. 



* N. f 433, linhas 6, 12 e 18. 



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FRAGMENTOS ETYMOLOÔICOS 



155 



Os presos e captivos consideram a Uberdade, que lhes é negada, 
como a quinta-essencia da justiça natural; isto é: da equidade. Para 
o poeta, que quer reduzir a palavras aquillo que elles sentem, equi- 
dade e liberdade são portanto synoymos. Quem duvidar ainda de que 
esta etymologia seja verdadeira, abra o Poema de Apolonio e leia 
a linha 373: 

prometióle su verdat 
que le daria grau preçio e toda eguedat, 

(attendendo a que ainda aqui se trata de um prisioneiro criminoso, ao 
qual promettem, em premio de um assassinato a praticar, sommas de 
dinheiro e a liberdade), ou, no Poema de S. Domingo, a linha 773: 

Euega por los enfermos — ganalis sanidat 
piensa de los cativos — ganalis yeguedat. 

Eguedat, yeguedat, enguedat = aequitate ; en por e, com resonan- 
cia nasal na primeira syllaba átona, por influencia do prefixo en—in, 
como era ingal, ingreja, Inropa, Inlias, indeficio, inzecução, interno, in- 
ducar, inverno, imbriagado, e nas fórmas plebeias invaporar, inlegante, 
incelencia, inquivoco, inzecutar, inzemplo, inzato, inzame, inzercito, in- 
cultar (—occultar). 

XXX. ENGUIÇO 

O malvado que por inveja, odio ou ciúmes deseja que uma criança 
não medre mais, exclama, passando a perna levantada por cima d'ella 
(isto é: pondo-lhe o pé, e escravizando-a symbolicamente) ou deitan- 
do-lhe o seu mau olhado : 

*Eu te ENGUIÇO 

(pela porta do Caniço) 

que não cresças mais do que issoh 

A victima do enguiçador, o ente enguiçado, fica d'ahi por diante 
um pobre enfezadinho, tornando a ser desenguiçado só quando o pró- 
prio malfeitor desfizer o encanto pelo movimento inverso. Mas como 
este ultimo acto da tragicomedia não se executa nunca, ou quasi nun- 
ca, falta a formula correspondente de desenguiço. 

Enguiçar significa portanto danificar por meio do mau olhado ou 
â força de outras bruxarias perpetradas sob invocação do senhor-de- 
monio Pedro-das-malas-artes. Temos ahi, segundo a minha opinião, o 
latim * iniquitiabe por iniqoitarb, cuja existência Hermann Rônsch 
provou em Ítala und Vulgata, pag. 165. Gfr. humilitare (^humildar) e 
feliátare; o castelhano igualdar = aequalitaee ; o gallego amandarss 

MANITAEE j achaudar a PLAN1TARE ; 6 Sandat sa SANITA&K. 



156 



REVISTA LUSITANA 



XXXI. ESG APARATE 

O diccionario da Academia descreve o escaparate dos hespanhoes 
como: a) uma espécie de alacena 6 armário con puertas de viários 6 
cristales y con ordenes para poner imágenes, barros finos, etc; b) hu- 
eco que hay en la fachada de algumas tiendas, resguardado con cris- 
tales en la parte exterior y que serve para colocar en él de los géneros 
que alli se venden, á fin de que llamen la atencion dei publico. Madame 
d'Aulnoy gaba no livro das suas viagens (n, 134) os escaparates em 
que os grandes de Castella costumavam expôr os seus thesouros de 
alfaias e baixellas, chamando-os mune espèce de petit cabinet formé d! une 
grande glace et rempli de choses rares». Os vocabulários portuguezes 
definem o escaparate pelos termos: pequeno armário, cantoneira, guar- 
da4ouça, e campânula de vidro. [Schaufenster. — Ausstelloder Aushãn- 
ge-kasten; Eeliquienschrein ; Glas-sturz], E' germânico: mittelhochdeutsch: 
schafreite = armário de cozinha, que ainda se usa na Suissa (e Vor- 
arlberg); holl. schaprade, schapraai; niederdeutsch : schapp (= Regai, 
Schrank). Nos velhos glossários ha : scafreita, scafraida, scafraita, scaf- 
reiti (Schmeller, Bayr. Worlerbuch, n, 383). O ital. scarabatto por sca- 
barattolo é a mesma palavra. A addicionar a Diez, I a, scaffale. 

O escaparate gallego = peixe escorpião (cottds escorpbus) está 
por escarpWate, escorparate, de scorp-. Na phrase familiar portugueza 
vasar escaparates (vir com subterfúgios), escaparate é um derivado trua- 
nesco de escapar (moldado sobre dislate, disparate), mas talvez sob a 
influencia do escaparate, em que nfto é raro guardar jóias falsas e 
bugigangas sem valor. 

XXXII. escarmentar 

Nem do italiano scarnamento, como Diez assentou (u-6); nem 
tfto pouco de excarpimentdm, derivado de exckrpere, como Baist quer 
fazer acreditar (Zschr., v, 246); e muito menos de excrementum, como 
Cornu se aventurou a dizer (Gr. Gr., § 247). Estes eruditos inves- 
tigadores atêm-se todos meramente à lettra, desprezando por completo 
o «espirito» da palavra. Ainda n'este caso as significações attribuidas 
a escarmentar, e escarmento ou escarmiento, tanto pelos etymologistas, 
para apoiarem as suas derivações, como pelos diccionarios, nfto se 
cingem rigorosamente & realidade. Em primeiro logar escarmentar é 
raríssimas vezes um verbo transitivo, se o é. Nem uma só vez li, ou 
ouvi dizer, phrases como escarmentei o meu filho. As definições e tra- 
ducções : reprehender rigorosamente ou castigar [hart zurechttveisen, vor 
Gefahr warnen, Diez] sfto por isso incongruentes. O infinitivo também 
é pouco usado; só as phrases antiq. intransitivas escarmentar em ca- 
beça alheia ou por exemplo alheio, e o reflexivo escarmentar-se sfto em- 
pregadas ás vezes. O que se ouve a cada passo, e o que lâmos nos 
documentos litterarios, desde os tempos mais antigos até boje, é o 



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FRAGMBNTOS RTTKOL061C08 



157 



partidpio perfeito escarmentado e o substantivo escarmento (cast. escar- 
miento l ). Estou escarmentada; fiquei escarmentada, não caio em outra 
como essa; ou deixe estar , não torno; essa serve-me de escarmento, e 
outra* pbrases parecidas, eis o que o povo diz. O verdadeiro sentido de 
escarmentado é advertido para não cahir ríum erro já praticado, em 
razão do damno soffrido, ou mal que se viusoffrer a outrem. E escar- 
mento é propriamente o desengano acompanhado de emenda d custa de 
trabalho Du castigo próprio ou alheio, e só por extensão este castigo *. 
Para provar isso, podia apresentar ama colheita de quasi cem exem- 
plos. Prefiro, comtudo, remetter simplesmente o leitor a algumas pas- 
sagens mais antigas, qne se acham no Poema de Alex., 439, 619, 646; 
Milagros, 477; Cane. da Vat, 1:080, 37; e Ined. Hist., i, 113, 130, 213, 
256, 268, 272, 443 e 602, restringindo-me a citar aqui textualmente 
apenas uns quatro provérbios peninsulares : 

1) Dos escarmentados se fazem os arteiros. Vat., 1:155, 5: ca dos 
escarmentados se fazem mais arteiros. Cane. Res., i, 319: Dizem que os 
escarmentados que se fazem dos arteiros (sicl). Em castelhano: De los 
escartnentados se hacen los avisados [Eufrosina, 461. — De los escar- 
mentados nacen los arteros, 6 El escarmentado busca [var. : conoce bien] 
el vado. Catalão d'Alghero : Deis ascramantats nasan lus avistats [Mis- 
cell, pag. 329]. 

2) Vel/ia escarmentada arregaçada [var. : regaçada] vai pela agua 
[Eufrosina, 210 e 45]. 

3) Quem se não escarmenta de uma vez, não se escarmenta de tres. 

4) Ditoso é quem escarmenta em cabeça alheia. 

Todos elles dão expressão popular à sentença clássica: expkrien- 
tia rerum magistra: Durch Schaden J wird man klug. E note-se bem 
que, de todos estes provérbios, existem variantes litterarias, em que 
escarmentado é substituído por espermentado — exprimentodo, de expe- 
rimentdm (esperimento, Crispal, estr. 40). Na Vlyssipo lêmos, p. ex. : Dos 
exprimentados se fazem os arteiros; e na Eufrosina (a pag. 45): Velha 
exprimentada arregaçada vai pela agua. E o povo diz hoje indistin- 
ctamente: fiquei espermentado 8 , esparmentado ou escarmentado 4 . 

Á completa identidade da significação, e a grande semelhança 
das fórmas obrigam de modo tão imperioso a estabelecer a etymolo- 
gia escarmento, por esper'mento (de onde escarmentado, e mais tarde 
escarmentar) que não duvido um instante de que ella se offerecesse 



i N'este ponto sou da opinião de Baist: o verbo é posterior ao substantivo, 
e deve considerar-se como derivado de escarmento, ou do adjectivo escarmentado. 

* A traducçâo allemà de escarmentado deve ser : durch Erfahrung gewitzigt 
und darum vorsichtig ; a do verbo in transi ti vo : durch Erfahrvvg king werden; 
Lehrgeld zahlen; a do transitivo (se elle existe): einen Denkzettel geben ; jemand 
durch St rafe witzigtn; fur die Zukunft ahschrecken; a de escarmento: warnendes 
Beispiel; Erfahrung die man auf eigene oder auf Andermanns Kosten macht. 

8 Esta é hoje a forma mais usual. 

* Um modismo muito vulgar diz também: quem te ensinou? a bspbiehcia, 
ou ; ▲ Kspaiii bmta ! 



168 



REVISTA LUSITÁHÀ 



também a Diez, Baist e Cornu, mas qae estes, austero* e circumspe- 
ctos, a pozeasem da lado, por nfto encontrarem meio de provar e ex- 
plicar a substituição de p por k. 

Evidentemente, nfto se trata de ama evoluçfto physiologica do 
som p. A troca, espontânea, das duas explosivas surdas na Catalunha, 
em Castella e em Portugal, deve ter outra causa eficiente, de euphonia 
ou de analogia. N&o a conheço por ora. Sei apenas que ha na penín- 
sula muitas palavras polysyllabas que principiam com $car ou «era, 
seguido de consoante, e nenhuma popular no mesmo caso que comece 
com apre ou spri, exactamente coroo em latim temos apenas sprbtus 
(que não passou para o vocabulário românico); quer-me parecer que, 
mesmo no moderno esprimentar, ha uma certa surdez e grosseria de 
pronúncia que nfto está em boa harmonia com o systema sonico das 
línguas hispânicas, sendo talvez por isso que exprimentatum se tor- 
nasse ascramántat e escramentado, approximando-se, por analogia, no 
primeiro período da evolução da língua, do grupo com scra, scar, em 
que figuravam escarmar, escarmenar. 



Espiou-se a roca, acabou-se o linho, é, como se sabe, uma das 
phrases da Xacara do Cego Andante, vulgarissima na bocca do povo 
portuguez e do gallego. Espiar a roca, quer dizer: gastar o copo ou 
o armeo, fiando. Apezar de roca ser de origem germânica, o espiar 
nfto está em relação alguma com o inglez to spin (Coelho, Manual) 
nem com o allemfto spinnen (Caldas Aulete). Nfto conheço a fórma ar- 
chaica. Julgo, porém, que ella foi espear de espear, a concluir do extre- 
menho spenar e depenar, recolhidos por Leite de Vasconcellos (Dial. 
eztr., pag. 36) e do gallego espenar, assim como dos substantivos es- 
piallo ou espenacho (vellon o copo quando es poco) e penecho, que desi- 
gnam os últimos restos do copo. O étymon penna parece indicado (=pPa 
nos textos archaicos). Panus e paniclus servem, todavia, melhor, por- 
que já designavam em latira positivamente a mesma coisa. — Espiar 
é, portanto, espear, de espvar *ex-panark; e penecho = panniclum. 
Quanto a espenacho, espiallo, provêm de ex'pan[n]aclmn, influenciado 
talvez por penna e pennacho. 



Uma pessoa dorme estatelada de costas; ou cahe estatelada no 
chão; isto é: ficando estendida e immovel. Evidentemente, por estatu- 
lado, de estátua, com apparente epenthese de l, que equivale a troca 
de sufixos. Compare-se as seguintes maneiras de dizer: quarta feira 
de trévulas por trevas (tenebras); trégolas por tréguas; ameijolas por 
amêijoas (gal.); bitterdbulas = betterabas; récola por recua (requiem); 
gazúla por gazúa: o vulgar latino noctdla por noctua, o italiano 
páscolo (de pascuum), o neapol. continolo e até státola. 



XXXIII. espiar 



XXXIV. ESTATELADO 



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FRAGMENTOS ETYifOMMHCOS 



159 



XXXV» EftTANTJOUA 

A etymologia hueste-antiga, proposta por Munthe (Zschr., xv, pag. 
828), contra Baist (Zschr., v, 243), que explicára em tempos estantu 
gua por stantifioa, n&o deixa margem para nota alguma de opposi- 
çfto. Pelo contrario, ha meios de conflrmal-a, por um exemplo archai- 
co (Fernan Gonzalez, estr. 333 *), pela fórma gallega estantiga (com 
queda do u hiatico, que é regra n'aquelle dialecto, e pelo synonymo 
também gallego compafia, que designa, como estantigua, a procissfto de 
mortos que costuma bater & porta de quem está a morrer. 

Ha, comtudo, algumas outras palavras occidentaes, pouco conhe- 
cidas, que me parecem derivadas de estar. Do participio perfeito vem 
o nome de espectro: estadia e estadáinha, que serve em Galliza para 
denominar o esqueleto, ou seja a figura da morte; o verbo estadear-se 
significa apparecer repentinamente diante de alguém á maneira de espe- 
ctro, assustando-o; o vulgarissimo portuguez estarola é um estafermo, es- 
pantalho, formado do infinitivo estar, corao gabaróla, de gabar, e o ple- 
beio petarola, de petar, peitar (peidar); depois temos estante = movei 
de prateleiras (Stehruck, Regai); o termo náutico estanteirola, que desi- 
gna uma columna de madeira; o gallego estada — andaime (Geriist); 
e estadofio, estadueflo, estadorio (astur.), estadulho (port.)=pau plan- 
tado verticalmente a modo de pilar, no leito do carro de bois. 

XXXVI. ESTRA 

Estra, nas Cantigas de Alfonso x (151 e 261), designa njanella, e 
deve ser simples variante da fórma feestra, que occorre até na mesma 
poesia (151). E' interessante vêr como a linguagem do Rei Sabio, que 
é puro e bellissimo portuguez, tem certos galleguismos peculiares, dei- 
xando transparecer aqui e alli alguns castelhanismos, e produz ás 
vezes formas hybridas como este estra, em que ao lado da queda por- 
tugueza do n temos o abrandamento castelhano do f. O desappareci- 
mento total do f parece, todavia, anachronico. — O gallego fiedra e 
alfiestra (ojo de la aguja ó la abertura por donde se enhebra) ostenta 
também ao par de phenomenos portuguezes, como a queda do n, ou- 
tros castelhanos como te por #. 

XXXVH. FARO. — XXXVIII. FARONEJAR. — XXXIX. FARUM 

0 muito engenhoso ensaio em que Cornu deriva faro, de flagrare 
(Rotn., xi, 88 e 89; cfr. Gr. Gr., § 146 e 247), não se impõe, como 
tantas outras etymologias do insigne professor, pelo inatacável da de- 

1 Os vassalas do Conde, descontentes com o pouco descanço que o rude 
guerreiro lhes dava, diziam : «Nunca folgura tonemos, $ynon quando almas saqua- 
mos* Aios dela neste antygua, aquellos semeiamos». 



160 



BKVI8TA LUSITANA 



monstraçfto phonetica, seduzindo esta vez apenas pela apparente lisura 
da explicação semlatologica. Em vista do francez ftair, e do desenvol- 
vimento que sentir teve n'aquella lingua, chegando a valer sentir, fare- 
jar e cheirar, torna-se bastante arriscado respingar. E se o derivado 
cheiro nfto existisse, ou se faro tivesse exactamente as mesmas acce- 
pções, talvez eu me deixasse persuadir de que faro provinha de fla- 
8BARB, apezar do extraordinário e injustificado tratamento de fr e de 
gr. Mas que o povo tirasse simultaneamente, durante a primeira epo- 
cha da vida da língua, do mesmo thema flagr. . . (por fragr. . .) duas 
fórmas igualmente populares, mas tão divergentes na fórma e tfto 
perfeitamente diferenciadas quanto às ideias que representam, é real- 
mente difficil de acceitar. De resto, cheiro é um substantivo verbal, 
posterior a cheirar (exactamente como o francez flair, de flairer), ex- 
trahido do verbo para indicar a acção de dignem applicar o seii olfa- 
cto afim de apreciar as exhalações de um objecto qualquer, a sua 
cheiror, como então se dizia l . Do mesmo modo, faro devia ser sub- 
stantivo verbal, se respondesse realmente a cheiro, e ao seu lado ap- 
parecer-nos-hia o verbo farar. Mostrem-nTo (a elle, ou ao * faraoaris 
de Leite de Vasconcellos) e submetter-me-hei *. Até lá, peço que 
ouçam o que eu tinha imaginado antes de Cornu se pronunciar, e 
ainda agora continúo a suppôr. 

Penso que o termo faro, que designa em primeiro logar e quasi 
que unicamente o olfacto dos cães e de outros animaes, depois, por ex- 
tensão, a perspicácia e o tino com que algumas intelligencias humanas 
investigam, e cheiros e exhalações de corpos só em casos extremamente 
raros e em modismos relativamente modernos, deve ser separado de 
cheiro, classificado entre os termos de montaria, e considerado como 
uma metaphora audaz, um tanto galhofeira, creada pela sempre vi- 
çosa e jocosa inventiva de caçadores. Creio, emfim, que o faro dos 
cães é um pharo que estes intelligentes animaes trazem no nariz. Ou, 
por outra, quero imaginar que um bello dia um ascendente do grande 
Nemrot, o Conde D. Gonzalo Garcia, ou outro qualquer entre os afa- 
mados *Cavalleros cazadores de Galliáa*, admirando a finura com que 
um seu cão buscàra e levantara de madrugada no sombrio dos den- 
sos bosques serranis, um veado, ou fo*se lobo, urso, ou javali, excla- 
masse contente: aparece que este diabo de cão traz um faro no nariz». 
Tal qual já ouvi dizer a uma minha criada, uma vez em que ella 
assistia interessada aos preliminares de uma caça de gato a rato: 
tque bom tmurador» } que é o nosso gato! parece mesmo que traz um 
lampião no focinho /» 

Provar uma etymologia d'estas, é coisa impraticável. Hei de mos- 
trar, comtudo, os materiaes que ajuntei e em que fundo a minha hy- 
pothese, para que não se diga que, visto ser uma lembrança instan- 
tânea e obra de um mero acaso, não merece attenção nem discussão. 

i Cant. 102 de D. Alf. x. — Cfr. chairor (catalão) eflairor (prov.). 
* Rtv. Lus., ii, 360. 



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FRAGMENTOS BTYMOLO0ICO8 



161 



1. °) A palavra faro, proveniente de pharus, termo náutico de 
origem grega (yzpoç), commum a todos os povos mediterrâneos, exis- 
tia outr'ora em toda a península, e existe hoje ainda em Castella K 
Designava e designa varias espécies de lumieiras e lampeões: a) o 
luzeiro posto junto da costa em logar proeminente para servir de guia 
durante a noite aos navegantes; b) o luzeiro posto na pôpa do navio; 
c) o facho ou a fogueira que se accendia nos montes mais elevados do 
paiz para dar signal da entrada do inimigo; d) em sentido figurado a 
pessoa cujo espirito dá luz e serve de guia, i. é: qualquer luzeiro ou 
luminar em sciencias e artes (=jedwede Leuchte % ). 

2. °) Um dos faros portuguezes (do género a), modesta imitação, 
decerto, do famoso yxftcc que os gregos tinham construído na emboca- 
dura do Nilo, parece ter dado nome á antiga cidade algarvia 8. Ma- 
ria do Faro 8 . Outros faros (do género c) determinariam idênticas de- 
nominações no interior do paiz, onde temos alguns logares e alguns 
montes do Faro *. 

3. °) Faro = pharus, como appellativo, desappareceu cedo de Por- 
tugal, sendo substituído em parte por derivados do mesmo thema, e 
em parte por outras palavras synonymas, que já anteriormente tinham 
estado em uso 5 . Calculo que isto aconteceria só depois de faro ter 
passado a designar metaphoricamente o olfacto do cão. — Para indicar 
as differentes lumieiras, temos primeiramente o augmentativo faron 6 , 
que chegou a denominar de preferencia o <fápoç de S. Maria do Al- 
garve (sec. xiii-xvi), orthographado na Legislação antiga \Mon. Leges, 
pag. 715 e 737], ora Faaron, como se fosse o Pharaon = Pharao da Bí- 
blia, ora Faram e Farom [Ined. Hist., v, 84 e 85]. Temos a fórma se- 
cundaria farão como nome de logar, nos mesmos textos [Ined., n, 463] 
e em outros documentos até meados do século xvi, e como appellativo 
em textos hespanhoes, na curiosa orthographia farahon 7 . Temos de- 

i Qualquer diccionarío prova-o, desde o da Academia até aos dialectaes, 
eorao p. ex. o asturiano de Rato de Argtiélles (que põe ao fim do seu artigo faro 
o latim far = farellorio !). 

* Os modernos vocabulários portuguezes registam apenas uma palavra faro, 
e dao-lhe como primeira accepçào olfacto e como ultima farol, citando o verso de 
Andrade Caminha (pag. 65) : «es um lúcido e formoso faro». Sómente naB Obras do 
Cardeal Saraiva (ix, pag. 48) é que se falia mais extensamente de faro = pharus. 

8 Cane. da Vat., n." 894-898. 

* A moderna villa Faro, do Alemtejo, recebeu o nome do seu fundador, que 
era um Fulano de Faro. 

5 Os lampeòes de navio, p. ex., tomaram o nome de fanal, que é costume 
derivar de phanus (çavoç). Cfr. venez. fano. Em eigano, fanal é olho. Em estylo 
figurado castelhano, qualquer luminária intellectual. 

8 Não posso apresentar exemplos portuguezes ; só um, castelhano, do Cane. 
Gen., i, pag. 639. — Augmentativos, a substituir, temporariamente, ou de vez, as 
radicaes simples, nâo escasseiam em portuguez. Citarei : golfam por golfo, por se» 
empregado a miude pelo grande Albuquerque nas suas Cartas. 

7 O celebre infante D. Juan Manuel falia no seu Libro dei Estado de um 
lampeao portátil de campanha, chamado farahon (Stoek-latsme) : «eí este estru- 
mento lieva de noche lumbre encendida». Cfr. na pag. 320 b as linhas 7, 11, 13 e 19. 
uav. lusit., vol. ih, fase. 2. • 5 



163 



REVISTA LUSITANA 



pois farol \ hoje a fórma mais corrente em Portugal, e, a meu vêr f 
uma simples variante de faron, formada por dissimilaçfto por causa da 
euphonia, como cerol, de ceron; linhol, de linhon; aranhol, de aranhon; 
e hespanhol, de hespanhon * E temos, além d'isso, o archaico forol 
[Cane. Res., ni, 234, 293 e 649; Res. Chron., pag. 185; Ulys., 213, 
etc], que julgo nascido de farol, por assimilação de vogaes [como em 
rolon, de ralon; torron, de terron; toston, de teston], 

4. °) Outros derivados de faro — yápoç, ou de farol = faron, nâo 
existem em Portugal 8 . Ha-os, porém, em Hespanha: farito, farolon, 
farolico, farolero e farolear (cast.); faret, farolet, farolot, faroler e fa- 
rolejar (valenc), todos sem sensivel mudança de significação. Apenas 
este verbo e o substantivo pessoal (faroler) têm interesse especial. 
Farolear, farolejar, quer dizer: andar inquieto de um lado para outro 
trabalhando (?) muito azaf amado; i. é: bruxoleando como luz que treme 
(fackelig, flackerig, fackelnd l ), e, note-se isto bem, tal é também a si- 
gnificação figurativa e derivada do portuguez farejar 6 , que passa 
por provir directamente de faro — olfacto. — O significativo real e 
principal de farejar, e do menos usado fariscar, é, comtudo, tomar o 
cheiro (beschnilffeln, niistern, witlern, spilren), indagar por meio do ol- 
facto 6 . 

5. °) Alguns escriptores portuguezes fizeram trocadilhos de fa- 
ro Golfado 7 , o que não prova de modo algum que tivessem con- 

* Usual no tempo de Gil Vicente (que o emprega em texto hespanhol, p. ez.: 
ii, 303), e sem duvida antes, como se infere de forol, empregado no sec. xv. O ital. 
falò t e franc. falof, talvez proviessem de uma contaminação de yxpez e (poevóç. 

* Ha exemplos do desenvolvimento opposto: feijão (de jeijom), por feijol, 

faijol — PÍIABEOLU8. 

8 Nào sei dizer se farillon (cast.), farilhâo (port.) deriva de faro = <fapoç. 
Possível é. Das poucas ilhotas, ou antes dos escolhos á superfície da agua nas cos- 
tas da península, em que se construíram faroes, e que a gente da beira-mar cha- 
maria farilhoes, o nome passaria a designar os grupos completos de taes ilhotas, 
incluindo todas as que nâo tinham lumieiras próprias. Faro -f~ ou deriva- 

ção: faro, farilho, farilhâo? 

* A Academia traduz farolear com fachendear, papelonear; o diccionario 
valenciano de Escrig explica farolejar pela formula hacer el farol, e faroler em 
sentido real com farolero (i. é : empregado que cuida do farol), mas em sentido de- 
rivado com papeíon (=* Fackeler, Flatterer: eitler Prahlhans). Cfr. o adjectivo ita- 
liano : falotico. 

5 Coelho, pelo menos, indica no seu Manual, como accepçâo ulterior de fa- 
rejar : «andar de um lado para o outro trabalhando» Como ainda nâo o lésse, nem 
o ouvisse empregar, nada posso dizer a este respeito, nem offerecer exemplo al- 
gum. Está claro que nâo é impossível que houvesse dois verbos convergentes : um 
farejar significando bruxolear, de faro yxpoz, e outro às faro -olfacto. 

* Será util lembrar aqui que a península possue ainda outras palavras por 
flairer e flair\ fato efatejar (valenciano), que nâo podem representar outra coisa 
senão olfato e olfatejarf O castelhano diz, como é sabido, husmo e hmmear, 



7 Na Feira do$ Anexins de D. Francisco Manuel de Mello alguém exclama : 
«logo me deu o faro», e o seu interlocutor responde chasqueando: «De Faro vem, 
meu senhor?» (pag. 11). O mesmo gracejo repete-se, com variantes, a pag. 168 ; 



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FRAGMENTOS RTYMOLOGIOOS 



163 



sciencia da (supposta) identidade originaria dos dois vocábulos. Para 
levar a taes gigajogas a homonymia era impulso suficientemente 
forte *. 

6. °) O povo distingue, em geral, com rigor entre cheiro e faro. 
Julgo que ainda nfto houve quem fallasse do faro de uma rosa ou do 
cheiro do cão, querendo referir-se ao seu olfacto *. Em certos modos de 
dizer litterarios, ha, comtudo, hoje em dia, completa synonymia entre 
os dois termos, podendo qualquer d'elles ser substituido pelo outro. 
Lucena p. ex. falia do faro do peccado; Mousinho de Quevedo diz 
que o vento trouxe aos abutres o faro funeral da gente defuncta na 
campal guerra; e Serrão de Castro refere-se ao faro de certas uvas 
passas. Como se vê, a esphera de faro ampliou-se, invadindo a de 
cheiro. Mas isso é de somenos importância para a etymologia. 

7. ") Ura derivado antigo, hoje desusado, de faro = olfacto, é enfa- 
rar—enjoar com o cheiro ou sabor d' uma coisa, de onde o substantivo 
veibal enfarou fastio, tédio, aséo, entejo de comer. E repare-se bem 
que, ao lado d'este enfarar, ternos ainda enfaroar, do substantivo fa- 
ron, que ninguém conhece como variante de faro — olfactus, mas que 
todos conhecem como variante de faro=pharus. 

XL. FARONKJAR 

Esta palavra, que tem as falsas apparencias de um derivado de 
faron=faro grande, passou até hoje desapercebida. Conheço-a de 
uma das cantigas de escarnh' e maldizer, de D. Alfonso x, o n.° 77 do 
Cancioneiro da Vaticana, onde ella se repete quatro vezes. O rei tro- 
vador, motejando amargamente de um barão desleal, ou antes de to- 
dos quantos ricos homens e cavalleiros tardaram acinte, e afinal nem 
tomaram parte effectiva n'uma expedição contra Granada, apezar de 
lhe terem acceitado a soldada para as suas mesnadas 8 , diz como segue : 

*Vod perdeu o faro aos anexins.— O senhor é de Faro?» Ainda outro motejador, 
o jà citado auctor infeliz dos Ratos da Inquisição, diz de umas uvas seccas que 
um seu companheiro de cárcere comia : nas passas que para vos são de Imagos, para 
mi de Paro são, pois só o faro me dão». — Desconheço a edade do beilo enigma: 
Qual é a cidade de Portugal que cheira mais ? 

1 Citar exemplos da popularidade do termo faro-olfactus seria extremamente 
fácil. Mencionarei apenas a Lenda do cão (narrada nos Contos de Braga, vol. n, 
n.° 198), e as phrases: a/arejar e não dar com a lura». Direi ainda que faro-ol- 
facto parece referir-se também ao sentido da vista. E' o que indica um ditado re- 
lativo ao falcão (açor, ou outra ave de volateria): •olhos enlevados e ardidos no 
faro | entre as nuvens descobrem a caça», cantado na Comedia Eufrosina (pag. 145). 

* Não seria para admirar se acontecesse. Ter bom nariz, diz- se familiar- 
mente por ter bonita cara, com relação a comidas appetitosas que agradam á vista 
e ao olfacto ; assim como ter bom paladar se refere ás pessoas que sabem tomar 
bem o gosto ás comidas, e ao mesmo tempo ás próprias comidas, quando o seu sa- 
bor é agradável. 

* A Cantiga 79." «irta de difficoltà», conforme diz o seu mais perspicaz in- 
terprete, foi inspirada pelos mesmos acontecimentos. V. Studi di Filologia Roman- 
%a, fase. 4.» 



164 



REVISTA LUSITANA 



♦ 



O que foy passar a serra 
e nom quis servir a terra, 
é ora, entrant' a guerra, (?) 
que faroneja! 

Pois el agora tam muyto erra, 
maldito seja! 

O que levou os dieiros 
e nom troux' os cavaleiros, 
é por nom ir nos primeiros 
que faroneja ! 

Pois que veo co'os postumeiros, 
maldito seja! 

O que filhou gram soldada 
e nunca fez cavalgada, 
é por nom ir a Granada 
que faroneja! 

Se é rícomem ou ha mesnada, 
maldito seja! 

O que meteu na taleiga 
pouc' aver e muyta meiga (Hinterlist?), 
é por nom entrar na Veiga 
que faroneja! 

Pois chus moP é que manteiga 
maldito seja! 1 

A reproducçâo diplomática de Monaci dá-nos por duas vezes /a- 
roneia, uma vez fareneia, e outra faraneia. O r, pelo menos, lá está 
sempre intacto, em todas as passagens. Varnhagen leu no Códice 
mysterioso do Grande hespanhol, ou interpretou arbitrariamente, como 
é o seu costume, favoneia. E Monaci, Coelho, Braga e De Lollis ac- 
ceitaram e reproduziram esta lição, apezar da sua duvidosa origem, e 
embora ella não melhorasse de modo algum o sentido. Porque? Por- 
que o verbo faronejar não lhes dizia nada. Pensaram, evidentemente, 
no propicio vento favomo, destrinçando em favonejar um aliás desco- 
nhecido synonymo de favorecer 2 . O glossário de Th. Braga explica: 
facilitar! 

Eu, porém, sabendo quão pouco ha que fiar nas lições de Varnha- 



i Nâo convém defender aqui as liçfles que escolho, nem as emendas que 
proponho. 

* O Manual de Coelho regista: favonear, remettendo para fa vonecer. Este 
termo falta, comtudo. Creio qixcfavonecer é mero erro de imprensa, por favorecer» 



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Fragmentos etimológicos 



Í65 



gen, cinjo-me á lettra transmittida pelo apographo da Vaticana *, e 
acceito a palavra faroneia (fareneia, faraneiaj, como acceito acajon, 
engueedes, maer, e muitas outras lições contestadas, fazendo esforços 
para interpreta-la correctamente, resolvendo o enigma que encerra. 

E esta vez a tarefa não é muito difficultosa. 

A interpretação: «é agora no principio da guerra que elle se mos- 
tra um retardatário; é para não ir na vanguarda que se demora; é 
para não nos acompanhar a Granada que não apparece; é para não 
entrar batalhando na Veiga que o preguiçoso e desleixado tarda!» é 
obvia; e deve contentar e agradar. Favoneja= favorece, tornaria, pelo 
contrario, todo o sirventes incomprehensivel. 

0 que se trata de estabelecer é apenas, se faroneja representa o 
castelhano farolear, o valenciano farolejar e o portuguez farejar (a 
que já me referi no artigo anterior), significando portanto «papeio- 
near, fachendear, hacer el farol» ; francez : lanterner (barguigner, hési- 
ter); allemâo fackeln, i. é: langsam zu Werke gehen; Umstãnde machen; 
Au8flUchte suchen, zaudern u. zittern wie die Fackel die sich im Winde 
hin und her bewegt; sendo n'uma palavra, um derivado de faron^ 
farol; ou se temos aqui outra palavra differente. 

Os únicos dous obstáculos que se oppòem a tal identificação, são : 
ignorarmos por ora qual a antiguidade de todos estes termos meta- 
phoricos ; e, em especial, a existência de outro verbo quasi idêntico na 
fórma e no sentido, mas de origem muito diversa: o castelhano*/aro- 
near, haronear, derivado do adjectivo árabe hárún— mandrião, ma* 
draceiro, obstinado, preguiçoso, como Dozy e Engelmann já provaram, 
apoiados por Diez (2.» ed.). Com este termo antigo, empregado pelo 
Arcipreste dè Fita no seu Libro de Cantares \ e ainda no Cancioneiro 
de Baena z , é que prefiro confrontar e explicar o modismo de D. Al- 
fonso x. 

XLI. FÁRUM 

A' primeira vista parece que também este substantivo gallego, 
registado por Valladares Nuftez, pertence ao grupo dos derivados de 
faro. Mas só à primeira vista. Farum, farun (cat. farum, de onde 
faromejar) está por ferume (a por e, por causa do r), vem de fera e 
significa : cheiro a fera, ou a bravio ; olor y sabor que a silvesti'e tienen 
algunas plantas, y a montaraz vários animales: Berg und Wildgeruch. 
O suffixo é ume (de umbn) e não unus, como nos adjectivos portugue- 
zes em um (f. um e Sa). Cfr. port. arch.: bafum= cheiro a bafio; far* 

* £' muito para desejar que olhos tao experimentados e perspicazes como 
os de Monaci, collacionem no Cancioneiro Colocci Brancuti todas as poesias do 
Cane. da Vat. t publicando em seguida os seus resultados, que devem ser elucida- 
tivos a mais de um respeito. 

* Estrophe 615, onde se falia de um cavallo «farom que nunca pierde varo- 
MU nen vale unpepton». 

1 N.° 55 « ... do resoibe tal cansado que a las vexes ffaromra». O duvidoso 
alhaonedes na estrophe 850 do Arcipreste nâo está em relação alguma com faron, 



Í66 



RE VIST* A LÚSlfA^A 



tum (lned., v, pag. 554), azedum, senyum, multium (lned., Boav., m, 
16); pe8ume (ib., m, 46); e o gallego: chatum, cheirume, graxum[ada]. 
O valenciano tem faram por fera. 



Em tempos escrevi um pequeno artigo sobre o verbo composto 
hespankol zaherir, derivando-o de faz-herir (fazerir) (na Romania, 
u, pag. 86). O substantivo verbal fazfeiro, que então não era conhe- 
cido, vem comprovar agora a justeza d'aquella minha apreciação. 
D. Alfonso x emprega-o a miude nas suas cantigas, para dar expres- 
são & idéa: reprehensão, castigo, vergonha, doesto [Vorwurf, Strafe, 
Schande, Schmach]. Lê-se p. ex.: na Cantiga 15, 6: • et feo (=foentjm) 
temerás por fazfeiro, ou te farei de fame flir» ; e na 45, 6 : porque 
sempre os bõos lie davan mui gran fazfeiro do muito mal que fazia*. 
Cfr. 61, 7; 85, 13; 303, 1. — Feiro equivale ao pres. latino ferio (port. 
moderno firo 1 por analogia com sigo, visto, sirvo, dispo, frijo, sinto e 
minto, senço, menço). 



Costuma-se affirmar que esta palavra é hespanhola. Nfto vejo ra- 
zão para isso. O antigo portuguez possuía e empregava a miude fria- 
me, freame (* frigidamrn = cousa fria *). E' verdade que a metathese 
do r, da radical para as terminações, ou antes a repetição do r pro- 
tonico na syllaba final, postonica, com queda ulterior, dissimilatoria, 
do primeiro r [friam, friame, fiamre] é rara em portuguez, e está em 
opposição com a frequência do phenomeno contrario (mudança de r 
para a frente), como é rara a introducção de b entre m e r. Mas taes 
movimentos contradictorios são vulgares, em Portugal como alhures : 
exemplo, o tratamento do i ante vogal, expurgado de muitas dúzias 
de fórmas e introduzido em outras tantas, ás vezes nos próprios vo- 
cábulos, de que a língua antiga litteraria o banira *. De mais a mais 



* O substantivo firo nâo tem outro étymon. 

> O primeiro exemplo que me vem á mão, é galliiiha freame nas cantigas de 
D. Alfonso x (158,16). 

• Penso em turvio, vidrio, cirio e e$ludio f que estão n*este caso. — Além dos 
numerosos exemplos que citei na Zeitschrift, vii, 115, e na Miscellanea, n.° i, pag. 
114, col leccionei mais os seguintes, directamente da bocca do povo: Ileniaf Agus- 
tia, Camilia (cfr. Tartja, Tereija), amoria, andias, cif ria, ciçudia, corintia, esca* 
dia, boltia, promtssia, propinia e vestia, Ramirio, asilio, dúbio, guapio, labirin- 
tio e pttitio. Europia, linfia, hidria e salamandria sâo litterarías e antigas. — O 
adjectivo gustosio nca por ora isolado. Os verbos (como enfartar por enfarar) sâo 
infinitos, mas quasi sempre o t foi attrahido pela vogal tónica (como em pairo, es- 
faimo, alqueivoj, ou palatizou a consoante antecedente (como em anojar, alijar, 
ajoujar, bajoujar, intrujar, e muitíssimos outros em jar, war, çar e lharJ. — O* 
exemplos da queda do % biatico sâo conhecidos [adro, cidra, vidro, ai vidro, ludro, 
Lima, vindima, verruma, vira, siba, camisa, questão, cristão, salva, mancebo, so* 



XLII. FAZFEIRO 



XUn. FIAMBRE 



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Fragmentos ètymologicos Í6? 



as duas modificações que friame soffreu, não vão de encontro aos cos- 
tumes do portuguez, pois que temos quebrar, de crepare; pesebre, de 
prcesepe; costra, de crusta; escudrinhar, de scrutiniare; pedricar, de 
predicare; e do outro lado tombo por tombro, de tumulus; combro, de cw- 
mulus; e cambra, de camará. E de resto, por extraordinárias que pare- 
çam, é mais provável a sua realização do que a perda total de uma 
palavra antiga de uso caseiro, e a sua posterior substituição por ou- 
tra quasi igual, mas estrangeira. Isto só se comprehenderia se Portu- 
gal tivesse recebido os seus presuntos e outros friames de Hespanha, 
o que nfto consta. A fama dos toucinhos de Lamego, Chaves e Chacim, 
e dos p&ios do Alemtejo, é antiga. 



XLIV. FRANGO 

De onde veio ao filho da gallinha, que já nâo é pito, pi(n)tâo, ott 
pintainho, e ainda n&o chegou a ser gallo, o seu popularissimo e muito 
antigo nome de frango l , que é tão pura e tão exclusivamente portu- 
guez *? Penso que frango não é outra coisa que franco =francez, e nas- 
ceu directamente da usual interpretação dada ao nome de nação Gal- 
lus 9 , que produziu e continua a produzir tantos ditos agudos e tantas 
allusõe8 espirituosas 4 . Primeiramente os portuguezes usaram da for- 
mula gallo-franco, para designar um individuo francez. Â sua existên- 
cia, indubitável em si, é comprovada pelos modismos : franeus ut gai- 
tes; largo como el gallo; large du sien comme gal 5 . Afim de convencer 
de que estas phrases passaram também para Portugal, lembrarei o 
celeberrimo romance peninsular do Bico-Franco ou de Bicofranco 
(Wolf, 119), cujo antagonista se chama em Catalunha Baldovinos el 
Franco ou Dom Galí; nos Açores Dom Franco 6 ; e na ilha da Madeira 



berba, nervo, termo, coentro, etc.]. O gallego poaaue muitos maia, p. ex. : Imila, 
Libaria, Hortensa, Vergina, bibla, famua, evangelo, deluvo, vison e confeson. 

i Fem. franga; dim. franguinho, franguinha; augm. frangâo, de onde /ran- 
gaXnho, e franganinho, franganito, franganote. A forma latinizada é sempre fbam- 
oahus. Cfr. Mon. Lege$, pag. 195, onde na pauta de 1253, se determina que «tl 
melior franoakds vel fuakoana valeat quatuor denarios*; e P&g. 269, onde um de* 
creto de 1238 ordena que os habitantes de Santa Maria de Porco dêem de fôro um 
almude de trigo, cinco ovos et «ângulos framoaos. Et qui franganum non habuerit, 
eolvat pro eo unum solidum*. 

> O castelhano emprega : pollo, polia, pollico, pollito, polluelo ; e os deriva- 
dos poUero (port. poleiro), polleria, pollazon, pollastro, pollattron, pollazon; cfr. 
franc. poule, poultt, poularde. 

* Escusado repetir que aallus não é céltico, mas, pura e simplesmente, lati- 
no. Como disse Cesar no Bello gallico, i, 1, uma alcunha tirada do nome homo- 
phono da ave, que era o 8ymbolo nacional d esse povo. 

* Lembra-me n'este instante apenas a phrase de que Vaillant se serviu em 
1868 para com Bipmark : «Novs $omme$ de$ coça! noue ne ptrmettons pae que d f att- 
tre$ chanlmt mievx que nou$*mimes*. 

6 Cfr. Jahrbuch, x, 293 ; Knust, Doe obra»! pag. 620. 

* Bom, Açor., 48. 




Bravo-Franco, Gallo-Franco e até Gallo-Frango 1 / Em uma das va- 
riantes vulgares, ahi colhidas por Rodrigues de Azevedo, a heroina, 
que para salvaguardar a sua honra mata a punhaladas o raptador, 
intitula-o com ironia transparente *meu gallinho» e *meu franguinho», 
gabando-se em seguida de ter dado cabo do gallo-frango. 

Depois repetiram a formula, como o exemplo citado mostra, gra- 
cejando ao fallarem da ave-gallo; e mais tarde o adjectivo substan- 
tivou-se, passando a designar apenas o gallo emquanto novo, bizarro 
e galante. — Frango por franco, com pronúncia commodista e vulgar, 
para o differenciar de franco = generoso, liberal, sincero. Cfr. vingar, 
de vin(di)care; pingar, de pen(di)care; commungar — commun(i)care ; res- 
mungar = remussicare ; manga ^man 7 ca; sengo = Sen'cus por Séneca; 
flamengo, podengo, domingo, etc. 



Apenas uma pequena nota. Houve quem estranhasse o costu- 
mar eu tratar grijó como substantivo de género masculino. Comtudo, 
tenho razão, porque, a par do nome de logar, ha um appellatiro idên- 
tico: um dos nomes da lâmpada eterna de igreja, que é sempre tratado 
de masculino, como de resto a maioria das palavras em 6 agudo, de- 
rivados de diminutivos em -iolus. Ouvi fallar de um lindo grijó da 
capellinha do N. Senhor da Pedra. E para os incrédulos citarei os 
versos impressos: 



que se acham nos Contos de Coelho, n.° lxxií. Cfr. belhó, eiró, pió e 



Foi sem razfto, e mal informada, que eu quiz teraerariamente 
riscar dos diccionarios portuguezes o termo gronho. Elie vive de fa- 
cto, como qualificativo de certas maçãs e peras, conforme os snrs. A. 
de Sequeira Ferraz, Julio Moreira, meu amigo Rodrigues de Freitas, 
e outros cavalheiros tiveram a fineza de me communicar. Vem até 
mencionado em alguns catálogos de horticultura (p. ex. no Catalogo 

1 O gallo, identificado ao francez, vive também na adivinha popular : 

Que éf que if 

A' mcia-noite se levanta o franceí! : 
êabe das horas, e não sabe do mez ; 
tem esporas — e não é cavalleiro ; 
escava no chão — e não acha dinheiro. 

Bem Bei que, em logar de /rance», se dia hoje em dia também inglei. 



XLV. GRIJÓ 



Santo Antonio estaes só; 

Deixaes-me molhar o pão no vosso grijó? 



queiró. 



XLVI. GRONHO 



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Fragmentos etimológicos 



Loureiro de 1889-90, pag. 261; e no Catalogo Viuva Zeferino de 1890, 
pag. 162). Ahi indica-se *maçã gronho, gronho doce e gronho riscado». 
Besta agora averiguar se o gronho era, e é, fructa assaz deliciosa 
para dar origem à phrase «cuydar no gronho», ou se posso sustentar 
a minha emenda conjectural das passagens do Cancioneiro de Resen- 
de, como penso e espero, lendo «cuydar negronho». E resta ainda sa- 
ber de onde gronho viria. Não pôde ser adjectivo; aliás, teríamos: 
maçã gronha. E mesmo se assim se dissesse, gronho n&o podia ser 
equivalente de negronho: a apherese de ne é phonetica e logicamente 
inverosímil, porque destruía completamente o claríssimo sentido. Será 
fructa originariamente hespanhola? talvez de logrono?, cujo lo, con- 
siderado como artigo, podia ter cahido durante o primeiro período da 
língua portugueza? Talvez! Mas n&o será fácil encontrar a prova. 

XLVII. IVIÇOM 

No Elucidano lê-se: «eyviçom e ibiçom = macho, jumento, besta de 
carga. Vem de iber ou imbrus = macho; ou de ibrrus cavallo de Hes- 
panha». A traducçâo é falsa, e a etymologia também. O erudito e 
sensato J. P. Eibeiro já o reconheceu. Dizendo : mão decidiria pela 
' intelligencia do auctor, antes me lembra tel-a achado por gado miúdo» 
acertou melhor, mas n&o deu etymologia alguma. 

Eis as tres passagens que forneceram a ambos os auctores o es- 
tofo para as opiniões citadas, e que copio do Elucidário, i, 301, com 
mais algumas (quatro a seis) que tirei dos Monumentos: 

1) Se algum lavrador ouver eyviçom, non faça ele foro [Thomar, 
1162]. Cfr. Mon. Leges, pag. 389. 

2) Si íBioiONES habuerint non prendant illas pro in ulla facienda 
[Cea, 1436, err. por 1136]. 

3) Et de ibicione qui non torna jugada non querant inde ullum 
tervicium sine precio. (Cfr. n.° 5, Livro dos Foraes velhos). 

4) Si aliquis laborator habuerit ivicionbm non faciat cum ea aliquod 
fiscum [Mon. Leges, pag. 366; Coimbra, 1111; o mesmo a pag. 357. 
Soure, 1111; pag. 389 e 398]. Traduzido a pag. 357 muito inexacta- 
mente : <aE se alguum laurador ouuer alguma cousa de seu (!) nem faça 
a nenguum seruiço sem seu grado». (!) 

5) De euioione onerata n denarios (ib., 362; Porto, 1132). 

6) Mos oleiros qui in regalengo sedent quod faciant suos foros de 
ollas, et si ibioiones habuerint non prendant illas, pro in ulla facienda 
illos míseros qui ília ligna adducent non prehendat Ma nisi pro suo pre- 
cio (ib., pag. 372; Cea, 1136). 

Quem as lêr, mesmo soltas como aqui v&o, fica sabendo que 
o possuir uma besta de carga chamada iviçom, eviçom, eiviçom 1 
[ibioione] eximia de certas obrigações e diminuia a importância das 

l Os casos em que *t t í e ae latino produziram em português antigo o di- 
thongo et, ainda nào estão bem estudados, como já disse no fragmento i. 



170 



RÊVISTA LtJSIf AtfA 



contribuições a pagar. Se lêsse os respectivos foraes velhos por com- 
pleto, reconheceria a mais que a iviçom era diversa de cavallo, egaa 7 
macho, jumento, e muito inferior em préstimo e valor, servindo só aos 
miseros oleiros da Serra da Estrella (e regiões adjacentes), em cujos 
pendores ainda hoje se cria tanto gado cobram. E se viu alguma vez 
um exemplar da afamada cabra monte* das serras portuguezas, quer 
viva, quer empalhada, e conhecer a bicerra dos Pyreneus, assim como 
o ibex e a camurça dos Alpes, não duvidará de que a ibicione era um 
ibex grande [Stebtbock, Oemse, Wild-Ziege oder Antílope], Aquelle ani- 
mal, domesticado como o engraçadíssimo «chamois» de Tartarin, seria 
antigamente a vacca dos pobres serranos [die Kuh der Artnen], aos 
quaes dava o seu leite, e serviria ao mesmo tempo de besta de carga, 
transportando feixes de lenha, carqueja e chamiça do monte para a 
choupana, assim como do forno para a feira a primitiva louça de bar- 
ro, que iam fabricando. Uma cabra, servindo de besta de carga, n&o é 
mais inverosímil do que o pobre cão berolinez a servir de besta de 
tiro a leiteiros e hortaliceiros. 

Robezo, o nome castelhano da bicerra basca, que em asturiano se 
chama rebeca; o verbo robechar == saltar como uma cabra, e ser aris* 
co, assim como o adjectivo gallego rebeca (= arisco) ; o francez an- 
tigo ibkhe (talvez biche?), devem ser novamente examinados e com- 
parados com eyviçom. Por ora n&o me sinto, comtudo, habilitada a ir 
mais avante K 



Provincialismo gallego. Lazar (segundo Valladares-Nuôez) cor- 
responde a gelar-se; laxo a gelo. Certamente glaciar-sk, com queda do 
g, como em lirão, latir, leiva, landre, e porventura em Hoz, lastima, 
látego. 



0 portuguez talvez saiba, e talvez não, de onde proveio aquelle 
nome ao fidalguinho do jardim, o cyano de Schiller, que ostenta so- 
bre haste esbelta, revestida de modesta verdura, a sua galante cabeça 
azul,— a flôr predilecta da rainha Luiza e seu filho, o nosso velho impe- 
rador, a qual, juntamente com as rubras papoulas e com a larica 
roxa, enfeita no verão os campos de louro trigo. No estrangeiro, com- 
tudo, mal haverá quem saiba dar razão de um tal cognome. A meu 
vôr, a flôr campestre chama-se loio (ou frade-loio ?), por andar ves- 
tida do mesmo azul, que servia de traje distinctivo aos frades lóios, 
cujo padroeiro, o ourives de Limoges, Sanctus Eligius, ou Saneio 
Eloy (com nome francez, que se popularisou em Portugal), prestou 
também o seu nome á rua e ao largo dos Loyos, por darem accesso á 

1 Rebtzno, robrtne, que andam em alguns diccionarios de somenos valor, 
como o de Booch Arkossy, e sào, portanto, formas duvidosas, poderiam represen- 
tar *ac-»icivuf. (Cfr. rodam «■ aorioutus, durawno «■= dcbaouíus). 



XLVIII. LAZAR 



XLIX. LOYOS 



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PrAgMRNTOS ETtfUOLOGIÔOâ 



171 



ma dos ourives do Porto (rua das Flores). Está claro que houve ahi 
um convento dedicado ao sancto. 

A denominação não tem nada de estranhavel. No Douro e Minho 
as pascoinhas (rapa-saias, rompe-saias, saganhos) chamam-se também 
viuvinhas, por irem vestidas de rôxo. 

L. MA KR 

Na grammatica portugueza de Cornu ha contribuições riquíssi- 
mas e verdadeiramente magistraes para a historia do verbo portu- 
guez; mas o quadro que temos de compôr dos bellos paragraphos 310 
a 326, e das notas espalhadas por outros (41 a 46, 51^66-67, 70-72, 
96, 193, 294-96), ainda assim não está absolutamente completo. A 
língua archaica e os dialectos vulgares, assim como os textos galle- 
gos, antigos e modernos, que não podemos nem devemos deixar de 
lado, possuem ainda, e a publicação das Cantigas de Alfonso o Sabio 
revelou ultimamente algumas fórmas novas, não registadas, sendo o 
contingente mais valioso fornecido por verbos de fórma muito redu- 
zida, correspondentes aos latinos : aud(ire), gaud(ère), claud(tre), cad-, 
rod-, cal-, sal-, mol-, sol-, dol-, col-; mon-, man-, e por aquelles cuja 
consonante medial era k (jazer, fazer, trazer, prazer, cozer, dizer, 
nuzir). 

Hoje tratarei apenas de manere, communicando todas as fórmas 
que recolhi e copiando as respectivas orações por extenso, visto que 
ellas apparecem quasi sempre estropiadas pelos modernos editores 
que não as entendiam. 

Cornu menciona (nos §§ 319 e 323) apenas o infinitivo: maer; a 
1* pess. do pres.: mariho; a 2.* pess. do pret. perf.: masestes; e a 3. a 
pess. do conj. perf.: masesse. Eu accrescento os infinitivos maner [re]- 
manir, o presente mans, inan, o perfeito mas[i], os conjunctivos maer, 
meer, manser, e o futuro marrei, marrá. 

1) Maer (=mànrrb): a) Vat., 710, 6: «Jby un dia pelo veer A 
sancta Mana e maer Hu m'el jurou que morria por mi*. — Monaci, nos 
Canti antichi port. a , pag. 30, assevera que maer nada significa, e 
emenda en o ler. A edição diplomática (Monaci-Coelho) remette em 
nota simplesmente àquelle livrinho; e o texto reconstituído de Braga 
oferece lettras sem sentido : em a er. 

b) Vat., 1:176, 5: € Maria Perez, a nossa cruzada, 
quando veo da terra d f Ultramar, 
assi veo de perdom carregada 
que se non podia com el emerger; 
mais furta m-lhe cada u vai majcrí 
e do perdom ja nom Ihi ficou nada*, 

A alteração de Braga, maguer, estraga um texto perfeitamente 
claro. — c) Ined. HisU, v, 416; É outro grado non entre y se non aguei 



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REVISTA LUSITANA 



que veer maer á viUa.—d) D. Alfonso x emprega na Cantiga 345: 
maner que eu considero como um castelhanismo. — e) E um outro 
hespanhol, Pero da Ponte, serve-se do infinitivo remanir (em rima com 
mentir. Vat. f 1:187, 20). 

2) Manhã (=hakbo): Vat. f 887, 5 e 10: «Com' eu en Vigo senlheira 
manho e Com' eu senheira en Vigo manho». N'este caso a rima (assoante 
com amado, trago, ambos) salvou a palavra. Os interpretes deixaram- 
na intacta. Nas linhas 2. a e 7. a (com' eu senlheira estou en Vigo) temos 
a prova de que maer pertencia ao grupo dos verbos que, pelo seu 
caracter neutro, serviam de substituintes de esse (ser, estar, jazer, 
ficar, quedar). — Vat, 777, 1: «Sem meu amigo manh' eu senlheira, 
E sol nom dermem estes olhos meus». Braga põe injustificadamente: 
m 9 and' eu. 

3) Mans (= manes). — Cant. de Alf. x, 235. Tomei nota, sem co- 
piar a passagem, que, portanto, n&o posso reproduzir. 

4) Man (=manet). — a) Vat., 771, 13: «Comigo man meu lum' e 
meu senhor». Braga põe: m'é. — b) C. C. Br., 442, 3: «que ja de 
noyte nunca ela man Como as outras na sua posada». — c) lb., linha 
6. a : «ca hu man hoje, nom marra ali Desi de noyte». E' provável que 
a linha 9. a da mesma Cantiga contenha outro exemplo. Os signaes 
«q nô pode hom sabe seicuta», devem lêr-se : «que nom pod home saber 
se i man», porque a rima verran e o sentido assim o exigem. — d) Na 
Cantiga 66 de D. Alfonso x man significa : elle mora. 

5) Mas[i] (=mansi). — a) Vat., 1:049, 10: «Hu eu mas 1 aquesta 
noite, houvi gram cea». — A impressão diplomática tem: «hu eu maia- 
qsta noyte ouuy grã zeã». Braga escreveu: «hu eu m'oj 'aquesta noyte 
ouvy gram cea». — A justificação da minha leitura está na linha 2. a 
da mesma poesia: hu masestes esta noyte! 

6) Masestes (= mansistis). — a) Vat., 1:049, 2 : «Maria Genta, Ma- 
ria Genta da saia cintada, Hu masestes esta noite e quem puz cevada ?» 
— O texto reconstruído põe: hu massastes, transformando a «solda- 
deira» em «padeira». 

7) Maseron (= manserunt). — a) Alf. x, Cant. 344: «et cabo d 9 essa 
eigreja bees os outros maseron». 

8) Masesse (= mansisset). — a) Vat, 771, 5, 11, 16 e 21: «Mais 
se masesse con meu amigo, A luz agora seria migo». Braga altera: 
mas se m'a desse. 

9) Manser (= manserit). — Mon. Leges, pag. 681: «Coelheiro que 
for aa soieira e lá manser, dê huma pelle de coelho». 

10) Maer, meer (=manerbt). — a) Mon. Leges, pag. 408 e 413: 
«Coelheiro que fôr a sogeira e alô maer, dê huma pelle de coelho». (Cfr. 
Ined. HisL, ív, pag. 636. — b) Mon. Leges, pag. 713: «Coelheiro que 
for a suageira e allá mber, dê huma pelle de coelho». 

11) Marrei (= maner-hri). — a) Vat, 1:196, 13: «E marrei eu 
vosqu' en vossa pousada». A inútil modificaç&o de Braga: e morarei, 
faz que o verso tenha uma syllaba de mais. 



12) Marrás: Alf. X, Cant. 235. 



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FRAGMENTOS KTYM0L00IC08 



173 



13) Marrá: C. C. Br., 442, 6: «Ca hu man oje, non marra alli 
Desi de noyte». 

Em todas estas passagens, menos uma, maer significa pernoitar, 
descamar, dormir. Para exprimir a simples idéa de permanescencia 
em qualquer sitio, independentemente das horas e do fim, jà então 
servia, de preferencia, o derivado permanescerk : permeecer, que foi 
reconduzido à fórma latina no século xv. 

No Foral de Avellaal lê-se, p. ex.: tseja maldito de deus padre, 
escomungado e sempre maldito permeesca» (1221); e o de Mértola esta- 
belece: «que as duas partes dos cavalleiros vam en fossado e a terça 
parte permeescam em villa». 

O termo culinário manido 1 , que é hoje usual, mas cuja idade 
ignoro, talvez seja meio-erudito, embora a singular manutenção de n 
e l entrp vogaes em certas palavras, apparentemente populares, que 
desde o sec. xni até hoje n&o se modificaram, seja um facto inne- 
gavel. 

Em remo manso por remo pousado, e tornado immovel (lned. Hist., 
m, 285), é difiicil decidir, se se trata do participio mansus ou do adje- 
ctivo mansuo por mansuks, ou se talvez as duas palavras se influen- 
ciaram reciprocamente *. Ideologicamente mansus contenta mais, pho- 
neticamente mansues. De passagem mencionarei manselinho, por causa 
da mesma dúplice diminuição que temos em donzellinha, papelinhas 
(Alf. x, 335; Vat. f 321 e 454) e mocelinho (Alf. x, 389). 

LI. MARMAR 

Nas Posturas antigas da camará d'Evora encontro no Titulo dos 
Ferreiros (Doe. Ebor., pag. 147-148) umas quatro vezes a aliás des- 
conhecida palavra marmar em substituição de minguar, mengoar 8 . 
Deve estar por mermar (que existiu em Hespanha e Provença) e pro- 
vir, por dissimilaç&o, do verbo superlativo min(%)mare. 

LIT. mbijom 

E' certo que o portuguez antigo possuiu meijon, de mansione 4 
[como lijon, de laesione; prijon, de prisione; aqueijon, de occasione; 



i Carne manida é a que, por esperar alguns dias, ficou roais tenra e «mor- 
tificada». 

8 Remanso, dc onde remansado, remansar, remanscar, remansoso (remançosoj 
e arremansar são, como provavelmente manso (em remo manso), de origem erudita, 
mas ainda assim perfeitamente nacionalizadas. — Remanchâo = preguiçoso e r«- 
manchar talvez entronquem no mesmo termo. 

* O ferro, depois de adubado e lavrado, mengoou, marmava ou marinou. Eis 
um dos exemplos : «aom hua arrova de ferro de banda fezerom duas enchadas no- 
vas boas, de nove arraies e meio cada enxada, e asy mabmou da dieta arrova 13 
arrotes». 

* Citado por Cornu, § ih, pag. 209. 



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174 



RR VISTA LUSITANA 



abujão, de abusione; vijâo, de visione]. Os termos derivados ameijoar 
e ameijoada l 9 attestam-no bem alto. Devo dizer, comtudo, que ainda 
nfto encontrei o simples substantivo. Os cancioneiros palacianos co- 
nhecem apenas mayson, no sentido de casa de deus (D. Alf., Cant. 31) 
ou casa de ordens religiosas (Val, 1:003, 1:006, 1:080), as quaes, como 
é sabido, davam hospedagem aos seus «irm&os». — De ahi deriva tneson 
(cast.) e mesão (port.); e nào directamente do moderno francez. A 
fórma meison, que S. Rosa cita, é a intermédia *. Que maison viesse 
antigamente de França, juntamente com a ordem de S. Bernardo ou 
com a dos Templários, é muito provável. Confira-se, comtudo, a res- 
peito da metathese de i hiatico, sem que influenciasse o s precedente, 
faisão, de phasianus; castão, caisião, de occasione; e faisol, de pha- 
seolus. 



Sei perfeitamente que é arriscado separar minguar do castelhano 
menguar e do italiano menovare (= minuare por minuere). Mas a fórma 
antiga miungar 5 quasi que obriga a isso. Miungar, de * minuticare (de 
minutus), com o mesmo tratamento de n que temos em vinda } finda, 
virgindade, cristandade, mortandade, trindade, irmandade (de irmain- 
dade, triindade, mortaindade, cristaindade, virgiindade, fiinda, viinda), 
pendença (peendença, de poenitentia), menfestar, cinza, painço, mainça, 
quenço (gal. =cainço, de cannicium); benga, beenga (benbdioat)? Mi- 
nutiare deu miuçar, esmiuçar (mas também o subst. miunças = minu- 
tias). 



Ao par de monje (cast. monge, prov. monegue), que veio de Fran- 
ça para Hespanha, com tantos outros modismos ecclesiasticos, houve 
antigamente uma fórma indígena: môogo (de môago, com assimilação 
de vogaes), contrahida depois para mógo. Ficou até hoje desconhecida 
aos estudiosos, e portanto desaproveitada. Recolhi-a nas Cantigas do 
Rey Trovador, que faz rimar môogo com lógo e rôgo (149, 12; 237, 8; 
75, 12; 399, 7). A accrescentar ao § 261 de Cornu. 



Moita (de onde moiteira) designa uma matta de plantas arbores- 
centes, rasteiras e densas. A fórma antiga é mouta (Ined. Hist., in, 
488). Mouta pôde estar por mauta, malta (como oito, outo, outeiro, de 
altus, alt ari d s ; soito, souto, de saltus ; fouveiro, de palbarius. Malta, 
de mat'la (mattula), dim. de matta, — O peor é que a origem de mat- 
ta, matto, não é clara. 

V Aprisco, abrigo, titio onde o gado passa a noite (allemXo : HUrdt), 

8 Missom (no Cane, da Vat. t 1:003 e 1:177) é provavelmente erro. 

9 Ined, Boav., n, pag. 14, 73, 115, 268, 280. 



Lin. MINGUAR 



LIV. MOGO 



LV. MOITA 



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FRAGMENTOS BTYMOLOGIOOS 



175 



LVI. MOLEIRO 

O meu amigo Leite de Vasconcello» perguntou-me, ha tempos, o 
qae eu pensava a respeito de moleiro. Eis a minha resposta. Moleiro 
é molleiro, por molneiro (Mon. Leges, 625, 626, 63 1 e 637). A compa- 
rar com esmola = emolia, de esmolna; e salitre = sallitre 9 de sal-nitre. 
— Estou pois de accordo com Gonçalves Vianna \ 

LVÍI. NAVRÉ 

A medo confesso a grave culpa de ainda nfto me ter conformado 
com a derivaçfto navré, de narva (cicatriz), ventilada por Gaston Pa- 
ris (Bom., i, 216) e approvada por Baist (Zschr., v, 556, com peque- 
nas reservas) e outros, em opposiçfto ao nabagêr, indigitado outr'ora 
por Diez; e que de mais a mais estou inclinada a retroceder até & 
etymologia naufragare do velho Du Cange, que a sciencia nem discu- 
tir quiz. 

Porque? 

Porque o verdadeiro sentido originário de nafra é «ferida peri- 
gosa (blessure) ganhada batalhando», e nfto marca (marque), mancha 
ou cicatriz de uma leve escoriação ou esfoladella (éraflãre); e também 
porque nenhuma das fórmas românicas conservou o grupo de con- 
soantes rv ou rf da supposta palavra-typo, apezar de elle nfto ser de 
modo algum estranho às linguas neo-latinas. 

E a medo? 

Porque as provas com que tentarei documentar a these : nafrar, 
de naufragare, ainda nfto sâo convincentes, e talvez nunca o sejam. 
Ambicionei encontrar naufragar significando ferir; ou nafrar signifi- 
cando naufragar; mas o ambicionado fim ficou, e talvez fique sem- 
pre, fóra do meu alcance. 

0 que parece certo, é o seguinte: 

1) Naufragar passou a significar na peninsular causar e soffrer 
damnos e quebras ; inutilizar e ficar inutilizado, tendo de ser traduzido, 
quando transitivo, com : ScJiaden zufUgen, zu Grunde richten, beschâdi- 
gen; e quando intransitivo : Schaden leiden, zu ScJiaden kommen, kriegs- 
oder dienstuntiichtig werden; e em sentido figurado: scheitern. 

2) A transiçfto ideológica de padecer naufrágio (scheitern), por 
soffrer prejuízos e damnos (zu Schaden kommen) de um lado a: ficar 
ferido, physicamente (verwundet werden); e do outro lado para: ficar 
magoado, psychicamente (verletzt sein), nfto tem nada de estranhavel 

3) As significações derivadas que alleguei estavam ligadas posi- 
tivamente, no território portuguez, á fórma meio-romanizada nafra- 
gare (e anafragare). 

4) Nfto é impossível que nafragare produzisse nafrar, perdendo 

1 V. Rev., n, pag. 180. 



178 



REVISTA LUSITAXA 



o g (ou toda a syllaba átona ag x ). Comtudo, parece mais provável 
que um participio hypothetico naufractus, representado em francez e 
catalão por naufret (?), nafret, fosse no districto lemosino o ponto de 
partida para nafrar, navrer, naverare (de onde os substantivos nafra, 
navra, navradure, nafredure). 

5) O verbo catalão nafrar significava e significa hoje 2 , em sen- 
tido positivo: 1) ferir corporalmente produzindo chagas mais ou menos 
graves, feridas de golpe e tiro ás vezes mortaes (blesser en perçant), e só 
posteriormente; 2) arranhadellas produzidas nas cavalgaduras pelo 
roçar dos arreios; e 3) em sentido abstracto magoar. 

6) Em francez antigo houve um infinitivo naufrer. (V. Du Cange, 
s. v. nauratus). E exemplos de v por f nfto faltam. 

Com relaç&o âs minhas razões 1.» e 3. a , allegarei um paragrapho 
dos foraes portuguezes, pelo qual se estabelece: que o cavalleiro, cujo 
cavallo se estragar durante a guerra, fique, por este motivo, isento 
de serviços militares durante um anno. Está claro que o estrago sof- 
frido pelo cavallo devia, na maioria dos casos, ser causado por feri- 
mento de arma branca. Nos bárbaros textos medievicos a idéa be- 
schadigen vem expressa ora por perdere, ora por damnare, mas em ge- 
ral por naufragare, anaufragare, nafragare, anafragare. O capitulo res- 
pectivo intitula-se: De equo bellico mortuo aut certe ad arma inutili; 
ou ainda: De cavallo quebrado o danado [Mon. Leges, 786, 833, 885, 
929, etc.]. A fórmula mais importante reza: 

«Et miles qui perdiderit suum caballum, quamvis habeat alium, sit 
excusatus per unum annutn» [pag. 533, 457, 487, 495, 507, 521, 556, 
609,617]. 

«Et homo mi se dampnayerit suus caballus», etc. [pag. 516]. 

«E homem a que se danar seu cavalo, amacar aia outro , seia scu- 
sado ata a cabeça do ano» [pag. 704]. 

«E cavaleiro que perdrr seu cavalo, ainda que nom (sic!) tenha 
outro, seia escusado por hum ano» [pag. 590]. 

*Et homine qui se naufragavrrit suo adestrado, quamvis habeat 
alium, sedeat excusado usque ad caput anni* [pag. 699], 

*Et homo cui se anadfragavkrit suus cabalus, quamvis habeat al- 
lium, excusatur usque ad caput anno » [pag. 637]. 

*Et homine qui se nafragarkt suo adestrado*, etc. [pag. 513 e 

392]. 

*Et homo cui se anafragaverit suus caballus*, etc. [Ined. Bist, v, 
pag. 372]. 

*Et homine qui se anafragarbt [anaffragaverit ou anafragar] 



i Cfr. navio (navigium), lidar (litioarb), rumiar, aliviar, liar, estria, real, 
leal, etc. Nenhum está, comtudo, nas condições de naufragar*. 

* Os diccionarios explicam nafrar, com Uagar; ftrir; Uagar hl bast o itUa 
a las cavalcaduras fregana en ellas; exídcerare (Esteve Bellvitges). Saura traz: 
mafra = matadura ; nafrar = matar; na fr at = herido, matado; al legando além 
de «p£è de nafras» a phrase : tocarli na nafra — Jemandes wunde Stelle berUhren». 



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FRAGMENTOS BTYMOLOGICOS 



Í77 



suo adextrados, etc. [Mon., 542, 427, 419, 526, 567, 581, 606, 619, 
623, 625, 626, 651, 690, 701, 720, etc.]. 
Ou em redacção portugueza: 

t Homem que se anafragab seu adestrado, ainda que aja outro, seja 
escusado ta a cabeça do anno» [pag. 595], ou: tU o homem a que se 
anaufragar seu adestrados [pag. 646]. 

Para comprovar o valor primordial do vocábulo catalão extraio 
do Tirant alguns trechos em que se trata de cavalleiros andantes, 
mortal ou gravemente feridos em batalhas ou desafios, accrescentando 
apenas uma, do Cancioneiro general (castelhano), em que um poeta falia 
de mágoas do coração. 

Tirant, n, pag. 96 : c Veureu en poca de hora tendes anar per terra 
e homens morts, nafrats en gran nombre», etc. — lb., pag. 97: *feu se 
posar moltes touallotes sobre la nafra que tenta». — lb.: «Lo gran Turch, 
axi nafrat com staua, mes se una cota de mallas desus». — Pag. 99: 
«de la vila cridaren alguns qui eren restats en lo camp nafrats». — lb.: 
*si donchs no fos tan mal nafrat que no fos poscut fugir». — Pag. 131: 
€per ço com ell encara no era guarit de la nafra dei cap». 

Cane. Gen., u, pag. 543: 

La causa que tant ofen sen defensa 
mon cors tan catiu, sotsmes a treball, 
es ser namorat de qui be sensa 
la fama y honor y m' nafra la pensa. 

O portuguez moderno parece desconhecer nafrar, a não ser que 
algum dialecto pouco estudado, ou que a terminologia hippica o con- 
serve. Duvidosa, indico tres vocábulos derivados que, talvez, estejam 
em relaçfto com naufragus: náfego, náfaga e esnafrar. — Náfego (por 
náfrego?) designa, segundo os diccionarios, o cavallo de quadris des- 
iguaes. Não será o aleijado? o coxo? o derreado? ad arma inutilr? — 
Náfaga (anáfaga) é ou era a multa que o pastor estava obrigado a pa- 
gar ao maioral em caso de mortes e perdas no rebanho: jus quod do- 
mino comprtit in naufrágio ganati. Segundo Dozy-Engelmann, equi- 
vale ao árabe nafaq (o que é bem possivel). Em todo o caso, a for- 
mula naufragium ganati é significativa. — O gallego nafrar, esnafrar 
(de onde nafrado, esnaframento, esnafradura, que lembram com singu- 
lar insistência navradure e nafredure) quer dizer «aplastar las narices, 
despachurrarlas ó estropearlas», e podia portanto, sem grande dificul- 
dade, ser identificado ao catalão nafrar. Mas o dialecto berceano pos- 
sue nefre = beiço, nariz 1 / 



i Escalavrar e fazer escalavradura s&o palavras completamente diversas. 
Hoje dâo expressão* á ideia ferir levemente, golpear superficialmente, escoriar; mas 
a principio tinham (tal qual nafra) significação mais enérgica. Miguel -Angelo, a 
aggredir o Papa com um bloco de mármore nas possantes mãos e ameaçando-o de 
que o ia escalavrar, certamente não tinha na mente feril-o muito de leve. Es-cala- 

bbv. lusit., vol. m, fase. 2. 6 



178 



REVISTA LUSITANA 



LVJII. NAVEGANTE 



Os pescadores de Mattosinhos e da Povoa dão este nome ao ho- 
marus vulgaris, i. é: á lagosta pardo-azulada, de reflexos ruivos, guar- 
necida de fortes torquezes, a qual de resto vêraos e comemos t&o ra- 
ras vezes no noite de Portugal. E' uma bonita etymologia popular. 
A fórma antecedente, usada em Lisboa, é lavagante, labagante e la- 
bugante \ de lobagante, como se dizia nos séculos xv e xvi [Foral de 
Lisboa, pag. 21 ; Cane. de Bes., i, 206 a ], por lubagante, lubegante, como 
pronunciavam no sec. xiv (Cane. da Val, 1:004 8 ). E este equivale a 
lubrigante, se a etymologia que quero propor, for a verdadeira, e se o 
gallego conservou (também n'este caso, como em tantos outros) fielmen- 
te uma fórma archaica, originaria. Elie diz lombrigante (com a mesma 
introducçâo da resonancia nazal que temos em lombrigar, por lobregar, 
Intrigar). Quanto á proveniência direi apenas que reconheço em lubri- 
gante, litbrigar, lubregoso, (Alf. x) e em lubrican (o loV e cão da noite), 
derivados do adjectivo rubricus, que, depois de empregado para cara- 
cterisar a penumbra do crepúsculo matutino, passou a designar tudo 
quanto tinha côres incertas e cambiantes (furtacôres). Reservo a demons- 
tração para outra occasião. Os nomes da lagosta pardo-azulada s&o, 
de resto, tão variáveis como a sua cor: em Castella temos bogavantel 
boccadelante! formas que sahiram de lobagante, pelo processo da ety- 
mologia popular. E em Astúrias dizem até Uocdntaro e leocántaro! 



Este nome archaico da capella-mór, que S. Rosa de Viterbo de* 
rivava de òaioq 4 , representa ausla, de absida (=abside ctytç); ou tal- 
vez *absidia (cfr. porfia, de perfídia), se a fórma latina tinha tomado 
feitio realmente popular em Portugal. 



Parvo = simplório é parvulus, como se conhece pela antiga e&- 
cripta parvoo. Outra prova está nos derivados parvóinho, parvoíce, par- 
voiçada, parvoejar, parvoalho, parvoeirão, emparvoecer e no feminino hoje 

vrar f de calavera = calvaria (port. mod. caveira) = ferir na cabeça, quebrar a 
cabeça, em sentido real e figurado (den Kopf zerbrechen, den Sckãdel spaltenj, cast. 
des-calabrar (descalabradura, descalabro) ; cat. escalabornar (escalabro, escalabra- 
mentf escalabradura). 

1 Cfr. Baldaque da Silva, Pescas em Portugal, pag. 60 c 446, onde encon- 
trarão o retrato d'este saboroso crustáceo. Os diccionarios dão labuganíe. 

2 Alvaro de Brito moteja d'um collega, piotando-o com unhas brancas (!) 
de minhoto, e pescoço (!) de Uobagantel 

3 A poesia citada emprega lubaganto (em rima com quanto). 

* Cfr. Brandão, Mon. Lus., v, 17, 50, n. 274 v. (oossia de bosios). 



LIX. OUSlA 



LX. PARVO 



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FRAGMENTOS ETIMOLÓGICOS 



179 



isolado párvoa (cfr. o archaico diáboa, assim como nódoa, magoa, iaboa, 
paravoa, regoa, névoa, semea). Muitas das fórmas antigas em oo àtono 
foram banidas da lingua culta, sendo substituídas pelas fórmas erudi- 
tamente alatinadas, p. ex. : musgoo por musculo (por causa de musgo 
= museus) ; triboo = thuribulum ; estimoo — stimulus ; diagoo = diaconus. 
Outras subsistiram, alliviadas de um dos dous oo átonos. Aos exem- 
plos conhecidos, citados em parte por Cornu, § 263 (povo, bago, ca- 
bido, artigo, perigo, diabo, vinco, brinco), ha que acerescentar bastan- 
tes: beco (=vicculus por viculus?); jugo (=jugulum); lobo (=lupu- 
lus); volvo (=volvulus); vido (betulus), no nome próprio Fonte do 
Vido (ou do Vidoeiro). 

LXI. PÁTIO 

De cada vez que as minhas ideias convergem para este vocábulo 
peninsular, com o vivo desejo de achar a sua etymologia, offerece-se- 
me de novo, e com exclusão de qualquer outro modelo, o adjectivo 
hypothetico * patidus, de patbre = estar aberto. Mas como explicar a 
permanência do t entre vogaes? Porque é que não temos padio (pai- 
do) (cfr. nédio, de nitidus, e pudio (gal.) de putidus). Só se * patidus 
deu em latim vulgar pattus [cfr. *mattus, *puttus, *nettus] f sendo o i 
perdido reintroduzido mais tarde, como em nervio x , lirio, cirio *, estú- 
dio, vidrio, adrio e tantos outros vulgarismos a que jà me referi. Os 
derivados castelhanos pat-in, pat-inejo, pat-inillo } podiam vir directa- 
mente do supposto pato (—pátio). 

lxii. pazída 

Nos diminutivos em zilho, zinho, o z é herança latina. De ahi o 
z em outros suffixos diminutivos e augmentativos (zito, zarrão, etc). 
Mas o infixo em pázada, mãozada, romanzeira, maçanzeira, cacao- 
zeiro, reizeiro, lanzudo, mâozudo, marezia, galézia, engranzar, espezi- 
nhar, encanzinar, e outras formações parecidas ? Nfto creio que a epen- 
these seja puramente phonetica, e tenha o fim de annullar o hiato, 
sendo a lettra z escolhida por causa da analogia com os diminutivos. 
Nâo representará antes o s dos pluraes mãos, romans, maçans, lans, 
mares, etc.? Pázada p. ex. emprega-se quasi sempre no plural «às pá- 
zadas» ; e em engranzar a palavra primitiva foi evidentemente grãos. 

LXIII. PEÇONHA 

Potione deu poçon, cujo género oscilla. No Cane. da Vat., 1:112, e 
nas Cantigas de Alf. x, 188, temos o poçon; cast. poçon no Alex., 2:010, 
Conq. Ultr., 444, 499, 686. De poçon vem os verbos poçòar e empo- 
çòar, assim como os adjectivos peçõento, enpõçoado (Alf. x, 201). Se 

i A lingua litteraria só conhece nervo. 
* Alfonso o Sabio emprega Uro e ciro. 



180 



REVISTA LUSITANA 



considerássemos unicamente a formação portugueza, diríamos que a 
difficil pronúncia do õ antes de vogal foi alliviada pelo abrandamento 
da resonancia nasal em ny, produzindo-se assim poçonhento, empoça- 
nhentar, de onde o novo substantivo poçonya [Alf. x, 222, 315]; e só 
posteriormente peçonha. O gallego visonha, vesonha por vison teria pas- 
sado pelo mesmo processo. O castelhano pozona e ponzona, por influen- 
cia do segundo n, oppõe-se, comtudo, a esta explicação *. — Por isso 
teremos que dizer peçonha por poçonha, de poçon, com troca de sufi- 
xos, servindo de raodêlo vergonha, rigonha (= iracundia), tnençonha 
(=mentionea) [Vat, 1:154], besonha [Alf. x, Cant. 7]. Cfr. gall. lego- 
nha, ligonha (—sacho) ao par de legon [lat. ligone] e caloHa (=oalu- 
mnia). 



Pimpolho (cast. pimpollo) nfto provém de pampankllus (Diez, n) 
nem de pampinus (Coelho), nem de pullulus (Dicc. de la Acad.). Vejo 
n'elle o composto pini-pdllus. De rebento novo do pinheiro (que foi 
sempre chamado pino em portuguez archaico), i. é: da arvore princi- 
pal das mattas portuguezas, pimpolho passou a denominar os renovos 
de todas as arvores, não excluindo a videira, e por extensão até a 
prole humana. No Foro de Alfaiate (1188 e 1230) leio: «Çwí pino 
taiare inforquen-lor> e ainda: *qui pino descortezare aut pin-polo taiare, 
pedet mi morabitinos médios*. (Port. Mon.: Leges, 810). E Curros Hen- 
riquez, nos Aires da mina terra, a pag. 5 : «pola esgallada de xiganU 

PINO*. 



A' fórma moderna pióz precedeu pió [pl. piós; Cane. de Ses., n, 
431] e em tempos mais antigos peyô ou peyóo [Mon. Leges, pag. 193: 
peyoos de azor). A comparação com o parallelo castelhano pihuela e 
com o verbo apiolar (gal.) mostra que estes termos de volateria, as- 
sim como o vocábulo náutico piola (cast. cabo-fino) representam pb~ 
diola, e sflo, portanto, um derivado de pede. Com relação ao género 
feminino, confronte-se peia [de pedica, por meio de pegida]. Ao lado 
de pihuela temos ainda, em castelhano, a variante pigúela (cfr. al- 
dkagúela, coRREGúELA, etc.). Esta fórma passou para Portugal, via 
Tras-os-Montes, onde produziu por nazalisaç&o do i, antes do g, pin- 
goela, o nome de uma armadilha, ou seja laço, em que se prende caça 
miúda. O z final em pióz provém do duplo plural piôzes, de que jâ 
tratei. (V. n. 0B 7 e 19). 



Pragana, paragana (com levíssimo svarábakti), pagrana e sspi- 
grana designam as barbas nas espigas de centeio e trigo. — Espigrana 

i Pezon, no Poema de Alex., 134 ; ponçoha, no Poema de F. Gonzalez, 111. 



LXIV. PIMPOLHO 



LXV. PIó(z) 



LXVI. PRAGANA 



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PfiÀGMÊNtOS ETf MOLOÔICOâ 



181 



por espigab-grana ? Â segunda parte lembra com insistência o alle- 
mfto Gratine, Grane = Aehrenslachel. O primeiro ga seria supprimido 
para desfazer a apparente reduplicaçâo. 

LXVII. PRIADO 

O portuguez arcliaico oferece algumas vezes a formula tos? e 
priado por: deprompto, rapidamente, apressadamente. Temos priado no 
mesmo sentido em textos castelhanos: nos cantares de Fita, 927; no 
Poema de F. Gonzalez, 563, e na Conq. Ultr., 273, 304, 344; privado 
como adverbio em Berceo i S. Dom., 38, S. Oria, 10; em Fita, 1158; 
no Rimado, 1:061; e no Poema do Cid, 1:051 e 1:061, e como adje- 
ctivo no Poema de Alex., 1:520 e S. Dom., 566. — Qual das duas fór- 
mas é a primordial? Baist (Gr. Gr., § 40) deriva privado, de priva- 
tum. A mudança de significação não se oppõe em absoluto : o que se 
faz e se diz em segredo e às occultas, faz-se e diz-se em geral muito à 
pressa. E a queda do v (b) entre i e a, e i e o é vulgar [cfr. estio, rio; 
os adj. em io = ivus 1 ; malvaisco e viaz; os imperfeitos em la, de iva 
=ibam]. Mas o comparativo prius, accrescentado do suffixo -ado, 
como em demasiado, de magis, também não convinha mal. Teríamos 
n'este caso intercalação de v, como em louvar, ouvir, gouvir, chouvir, 
esgrouvinhar, couve, uivar, Ovaya. O único inconveniente que vejo, é 
que todos estes exemplos são exclusivamente occidentaes, e que, mes- 
mo entre elles, não ha um único em que v annullasse o hiato entre i 
e o. Só de u (o) é que se desenvolve a semivogal v. 

LXVm. QUEIRÓZ 

Ignoro ainda a etymologia d'este nome de família, que é ao mes- 
mo tempo um nome de planta. Vou comtudo, ajuntar de prevenção 
alguns materiaes para eu, ou outrem, os aproveitar de futuro. Os 
Queiroz chamam-se em Galliza Quirós *. A planta vulgarissima em 
toda a península, a que no Norte de Portugal se dâ o nome queiró, 
quiró ou queiróz, cairóz, mas também teiroga, é a ericacea calluna vul- 
garis *. Em Galliza temos a fórma correspondente feminina queiroa 1 
(e queiroga); em Castella quirihuela. A fórma- typo que devemos sup- 
pôr como base commum de queiró, queiroa e quirihuela, movei como 
todas as fórmas em iolus, deve ter sido: kariola (cariolum), kairiola 

* Macio, mar chio, radio, sadio, sombrio, tardio, vadio, vazio. 

> Lembro o poeta cTeste nome, que contribuiu com algumas dúzias de can- 
tigas para o Carwionero General. 

* A's vezes prestam indevidamente o mesmo nome ao helianthemum e a ou- 
tras cistineas (que nas charnecas e bouças portuguezas crescem de mistura com as 
urgueira8 e callunas) como ainda á carqueja (qenista tkidkntata). 

4 As fórmas gallegas atroa, filhoa, aixoa, que correspondem ás portuguezas 
eiró, filhó, enxó, já foram citadas nos artigos que dediquei a idtó, ilhô, btlliô, eiró, 
yrijó, pió e outras palavras do mesmo grupo* 



i8â 



REVISTA LUSITANA 



ou kirriola. E' de presumir que fosse grega, como tantos outros nomes 
botânicos d'estas regiões. Mas onde existe? e que significava este 
desconhecido ? 



Este prato popular do Natal, cuja singelíssima receita manda 
banhar fatias de pilo mollete-trigo em leite e mel, ou era vinho com ca- 
nella e assucar, revesti-las (querendo) depois de pfto ralado, e frita-las 
em seguida [igual, portanto, ao Arme-Ritter da Àllemanha] não pôde 
estar em relações de parentesco com rábanos ou rabanetes. A base da 
palavra, assim como a matéria prima do prato, deve ser panis. A 
forma gallega rebanda (cfr. gando = port. gado por gaado, ganado 1 , e 
manda por manada) fazer-me-hia crêr que o modêlo fosse re-pan-ata; 
se a fórma empada por empaada, de im-pan-ata, não se oppozesse, até 
certo ponto, pela maneira como o p e o n, ambos inter vocálicos, fo- 
ram tratados. Digo até certo ponto, porque, ao par de empada (pa- 
deiro, etc), o portugnez possue panar (agua panada), empanada, em- 
panadilha, e o antiquado panaria (celleiro de pão). Talvez houvesse 
influencia de empanado = impannatus (envolvido), em ambos ou todos 
aquelles termos culinários que s&o semi-eruditos. 



Este adjectivo archaico hespanhol, empregado por Berceo e Fita *, 
com applicaçâo a uma pessoa que errou o caminho e anda tresmalha- 
da, ou também a uma coisa que se perdeu ou transviou, jâ desappa- 
receu do uso. Em Portugal existem, comtudo, dois adjectivos diver- 
sos, correspondentes: o termo popular e pastoril arredio, que se re- 
fere á rez apartada do rebanho; e a fórma litteraria erradio, que se 
diz de quem vagueia ou anda vagabundo. O primeiro provém de eb- 
trum, que perdeu o segundo r (por dissimilaçâo) em todos os deriva- 
dos (arredar, arredor, redomoinho), apparece quasi sempre acompa- 
nhado do prefixo a(d), e mudou algumas vezes o e, quando àtono, em 
a, pelo contacto com rr, (como em demADeiro). Representa, portanto, 
um hypothetico: ad-hrtr-ivus. O segundo é evidentemente errativos. 
— Quanto a radio, pôde ser uma e outra coisa. E se a fórma arradio 
existisse, como intermédia entre arredio e radio, nfto haveria incon- 
veniente algum em considerarmos todas as tres como reproducções do 
mesmo modêlo errativus, visto que errar apparece muitas vezes na 
variante arrar *. . 



* O castelhano chama-as albardadas ; e esta denominação tem curso também 
em Portugal. 

* Berceo, Mil. 884 : tandaban en radÍo los que por mal nacicron» ; ib. : 
*230 jndgneMi lo por bestia e. pnr cosa haví \» — Pita, 902 : mia carrera haa errado 
et ando* como rad/»» ; ib , 963 : irad/o ando, serram, en esta grand espessura*. 

* O grande Albuquerque escrevia sempre arraf» 



LXJX. RABANADA 



LXX. RADlO 



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fragmentos htymologicos 



183 



LXXI. REMATE 

Ha nas terras de Hespanha um processo singelo e muito popu- 
lar de reforçar o sentido de qualquer palavra de funcções relativa- 
mente independentes (substantivos, verbos, adjectivos e advérbios) sem 
lhes modificar coisa alguma da sua significação: é ajuntar-lhe o pre- 
fixo re. Não e renão (=nein und abernein)! sim e resim! soy tuyo e 
retuyo! está bem e rebem! bueno e rebuenoí meu senhor e resenhor! ' 
picaro e repícaro (=Schelm und ErzschelmJ! maldigo-te e remaldigo4e, 
sflo expressões que, em linguagem familiar, se empregaram antiga- 
mente innumeras vezes, quasi sempre em estylo jocoserio ou comica- 
mente emphatico. E o verdadeiro povo ainda hoje nâo deixou de as uti- 
lizar e de crear modismos semelhantes. Posso fornecer as provas escri- 
ptas de varias dúzias de formulas (Peste género, recolhidas nos autos 
de Gil Vicente, Prestes, Simfto Machado e mesmo em Camões (que diz 
vosso e revosso), assim como nas eglogas de Juan dei Encina, Lucas 
Fernandez e o próprio Calderon 1 . Eis uma amostra de adjectivos: 
re-bueno, re-malo, re-prieto, re-farto (re-harto), re-tanto, re-melhor (re- 
tneyor), re-crú, re-cheio (re-lleno), re-llano, re-louco, re-bonito, re-limpio, 
re agudo, re picado, re-quebrado, re-contente, re-vosso, re-seco, re-peor; al- 
guns tempos verbaes como dado e redado, viva e reviva ! (Calderon : 
Hoch und abermals hoch/J, re-pregunto, re-coze, re-merito, re-maldigo, 
re-mantenga, quero y re-quiero, re-miro, re-mando, re-passo; uns poucos 
de substantivos : resenhor, re-lume, re-folho, re-brilho, re-traque, re-pa- 
nella, peras y re-peras! cuerno y re-cuerno! celos y re-celos! ilules y re* 
fíulesl; e os advérbios: re-mucho, re-bien a . Dos numerosíssimos casos 
em que o prefixo re se ligou indissoluvelmente ao corpo das palavras, 
communicando lhes uma significação divergente, nâo ha necessidade 
de failar aqui 8 . Mais vale mostrar quão vivaz era este processo de 
formação, mencionando que ainda havia um terceiro grau, um super- 
lativo de reforço, expresso pela duplicação de re; i. é: por ar re ou pelo 
prefixo ires, ire (=trr?, tres?, trans? 4 ). Podia-se dizer: nego, rene- 
go, arrenego; gosto, regosto, arregosto; atar, reatar, arreatar ; jurar, 
rejurar, tresjurar; suar, resuar, tressuar; louco, relouco, treslouco; ler, 
relér, treslêr; panno, repanno, trespanno. E como o povo meridional 



1 Ha exemplos nas Obras de Gil Vicente, i, 40, 52, 82, 84 e 226 ; n, 76, 169, 
257 e 366 ; m, 8 e 224 5 em Prestes, pag. 185, 201, 310, 323 e 457 ; em Encina, 9, 
70, 76, 128, 129, 130 e 161 ; na Picara Justina, 46, 72, 115 e 206; na Sotileza de 
Pereda (para citar um moderno) e em muitos outros escriptores. 

4 O andaluz, que é amigo de multiplicar os effeitos, diz : bien l rebien t ra* 
ttbien ! requetebien t 

* íTeste caso estão requebrado, repassar, repicado, recozido, receio, requerer 
e recheio, que são diversos do meu re*cheio, re-quero, etc. 

A No primeiro periodo da linguã portugueza o adverbio per era preposicional 
e separável como re, e fazia o mesmo serviço, fortalecendo e aiiguientaiido o sen- 
tido das palavras. Ha profusão de exemplos no Cancioneiro da Vatkana. 



164 



REVISTA LUSITANA 



gosta em geral das fórmas emphaticas, as compostas substituíam em 
muitos casos as fórmas simples que se perderam, como em recadar, 
arrecadar l ; remessar, arremessar (de missus, part. perf. de mittere); 
remansarj arremansar; rebitar, arrebitar; tresvairado, etc. 

Pois bem: eu penso que remate (=fim, final) pertence aos ter- 
mos reforçados com re. Mas n&o o considero como substantivo verbal, 
tirado de um verbo rematar = acabar, terminar, pôr termo e fim; e 
muito menos vejo n'este verbo o re + matar (=mactare); i. é: matar 
pela segunda vez, ou matar completamente * Na minha opinião re- 
mate é re 4- mate, o adjectivo árabe mate, que significa também morto 
ou matado, mas que o povo portuguez nâo empregava n'este seu pri- 
meiro sentido porque o conhecia somente do jogo de xadrez. Da for- 
mula matei rematei (=mati! schachmattj chegou-se primeiro a phra- 
ses como dar remate 8 ; e só posteriormente derivou-se d'aquelle ter- 
mo, considerado como substantivo, um verbo rematar e arrematar. 



A fórma antiquada remusgar (Cane. Col. Br., n.° 1:536), que o 
re-vulgo emprega ainda, auctoriza-nos a considerar resmungar como 
metathese de re-muss-icare (ital. rimucchiare) por re-muss-itark (cast. 
musitar), com mudança de suffixo, acceitando a explicação de Coelho 
(Manual) e de Cornu (Gr. Gr., §§ 151 e 232). — Do mesmo modo te- 
remos que explicar resmonear (de onde resmoninhar, com a vulgaris- 
sima introducção ecchoativa de nh depois de ni) por re-mus$i-nare. E 
rosmar (gal. rosmear) (Gil Vic, ih, 73), de onde rusminhar? Por nus- 
mar, de musnar = mussinare? Duvido, e muito. 



Esta expressfto castelhana não provém de republicus, como é cos- 
tume asseverar, nem tampouco de dominus vulgus (!), como se lê em 
Ticknor e alhures. Revulgo é re-vulgo, o archi-vulgo, der Erz-Põbel, 
tfto vigorosamente caracterizado na pessoa do pastor Domingo ou 
Mingo pelo auctor da velha egloga satyrica, o qual talvez fosse o 
primeiro inventor do termo. 



l Cadar existia ainda em princípios do sec. xn. Veja-se Cane. de Res., nt, 
pag. 473 : •nam tem cabo a gram fama que cadays». 

3 O povo pode ter dito alguma vez : «matei t rematei /», como diz *está morto 
e remortoU. Mas um enfraquecimento da palavra matar a tirar a vida, causar a 
morte, de modo a significar apenas terminar, acabar, parece-me inaudito. 

3 Remate ó, portanto, o representante popular do termo culto : xeqnemate. 



LXXII. RESMUNGAR 



LXXin. REVULGO 



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fttÁÓtfENTOS ETYMOLOGÍCJOS 



LXXIV. SARDA 



As manchas pequeninas, mas nada bonitas, de cor amarellada, 
que se desenvolvem tantas vezes no verão na testa e nas faces das 
pessoas louras, de tez muito branca, e que desapparecem mais ou me- 
nos durante o inverno, s&o consideradas pela maioria (quer com ra- 
zão, quer sem ella) como filhas dos bagos de suor que serviram de 
foco aos raios do sol (Sommer-sprossen). Serão suardas ? i. é : formadas 
da raiz su(d-, que temos em suar, suor, etc, e do pouco usado suffixo 
ardo, arda ? Cfr. javardo, felizardo, gabinardo. — A por ud, como em 
consante, de consuante=consonante; calha-leite por cualha (coagula) = e 
leite; cairo, de quatro; canto, de quanto, em canté; calheira, de coalheira 
(1.° estômago dos ruminantes), cartilho, catorze; gal. sarego por sna- 
rego — solar ego (pedra do lumiar; allemáo Sdhwelle l ). 



Sinceiro é o nome de uma espécie de salgueiro, arvore profusa- 
mente espalhada por todas aquellas regiões de Portugal em que a 
agua abunda, mas muito vulgar principalmente nas ribeiras do Mon- 
dego, cujos decantados sinceiraes fornecem a matéria prima para os 
palitos lisos de Coimbra e Lorv&o, e os floreados de Penacova. Mi- 
guel de Leitão de Andrada, o muito phantasioso auctor da Miscella- 
nea, deriva o nome da arvore, do rio Zêzere (Ozezar=Ozecarus *). 
Escusado dizer que esta etymologia é absurda. O sinceiro (cinceiro e 
zenzeiro) era antigamente um seiseiro, ou mais correctamente um sei- 
cerro 8 , cujo thema seice, o latim saVce por salice, é idêntico ao thema 
de salgueiro. Salgueiro representa sai/carius (gal. salguera, astur. sal- 
gar). Os provincialismos salga e sarga entroncam em saVca, como 
pulga em puVca. Sal'ce deu em castelhano salce (de onde salcedo, sal- 

i Não cito macho (= muar), de muacho, porque esta etymologia não teve o 
assentimento dos entendidos ; ignoro porquê ; talvez porque lhes repugne imaginar 
que tres palavras masculus, marculus e mulacho, convergissem. 

* A pparen temente a etymologia de Leitão é boa, visto que elle chama ao rio 
Zensere, e á arvore Zenzereiro. Mas esta ultima forma, que ainda nâo encontrei em 
outra parte, e que talvez fosse forjada ad koc, seria, no caso melhor, apenas uma 
transformação tosai de seiceiro, inventada inconscientemente para approximá-lo 
de Zêzere. V. Misc. Dial., i, pag. 8 e 9 da edição de 1867 : «« por entre ella (a ma- 
dresilvaj o tenzcreiro louro, e a murta» e: >eo notável %enxereiro, arvore a quem o 
rio deu o nome por se criar somente nelle grande e copado». 

3 Encontro seiseiro n'um documento de 1361 (Gabriel Pereira, Doe. Ebor., 
pag. 58), onde diz : i talham o* freixeiros e seiseibos das ribeiras e as outrat arvo- 
res»; cejceibo nos versos de Ferreira, Egl., ui, 7 : «ao pé de hum grã cetoeieo ro- 
deava o gado de Castaleo e de Serrano»; e no Palmeirim de Moraes, u, cap. 64 : 
«as aguas delle estavam á sombra de uns ceickiros verdes de que o tanque se cerca» 
va»; cincfiro na Insulana de Manuel Thomas, iv, 22 : iteciâo mil enredoê os cikcki- 
ro§ abraçando os vinhntegos compridos»; e * sinceiro na Eufrosina d« J. F. de Vas- 
concello» (Prol, pag. 12; : «á sombra dos verdes sincerais do Mondego». 



LXXV. SINCEIRO 



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i8é 



HEYISTA LUSITANA 



ceda), e por vocalização do / consoante: sauze (de onde saucera, sau- 
zal, saucedal), e secundariamente saz (cfr. calce, cauce, caz, de cal'cb). 
Em portuguez salce, que vive nos nomes de lugar Salzedas (de onde 
Sarzedas e Sarzedo), produziu saice, e em ultimo logar seice. Ai de al 
consoante como em Saimão, de SaVmão, em sino-saimão (que expliquei 
mal na Miscellanea). Ei de ai, como em meigo (magious), eido (aditus), 
treidor (thaditor). De seice \ que nfto subsiste, derivaram seiceiro, por 
meio da terminação eiró (arius), que encontramos em qúasi todos os 
nomes de arvores portuguezas : freixeiro ao par de freixo * ; sobreiro, 
de sovaro = sdbkr; sabugueiro, de sambucus; loureiro, de laurus; azi- 
nheiro, de azinho = ilicinus ; bidoeiro, de bidoo, bido = betulus ; vi- 
meiro, de vime (vimine). A troca de s e c não tem nada de estranha vel, 
visto que a velha distincçfto entre os dois sons se obliterou em quasi 
todas as províncias portuguezas 8 . 



W. Meyer Ltibke duvida da minha etymologia (* sessicare), por 
causa da conservação do i átono 4 . — O verbo e o substantivo verbal 
sessego, sossego, estão, comtudo, nas mesmas condições como emprego, 
carrego, repollego, trasfego, apolego, entrego, escorrego, espernego, estor- 
tego, fumego, navego, verdego, lostrego (gal.), castego (port. arch. nos 
lned. de Boav., in, pag. 100); semeio, tempero, arremedo, hospedo e 
outros. — Confira-se também mossegar (variante de mor segar) =mor- 
éucábe. 



Os diccionarios classificam tepêz como adjectivo, traduzindo-o por: 
«contumaz, teimoso». A meu ver tepêz é o resto de uma formula bas- 
tante vulgar, repetida durante sete séculos tanto a miude, até que se 
tornou proverbial. Um homem tepêz é o cabeçudo que nunca se digna 
acceder aos desejos dos outros, mas responde cada vez que lhe pedem 
de não fazer isso ou aquilloutro: *fazél-lo-hei, mal que te pêz ou ém 
que tk pêz». 



1 Se nâo fosse regra preferirmos sempre uma fórma românica commum, ott 
pelo menos hispânica, a outra meramente luso-romana, seice podia ser explicado 
pela queda do / inter vocálico. Cfr. saiva, de saliva (Vai, 1:071) ; matça, de ma- 
litia; *eir, de *air f de salihe (Vat, 561). 

* Freixieiro vem directamente de * fraxui arius, como vimieiro, de * vim ima - 

mos. 

• Esta etymologia já está no bello estudo de Cornu (8§ 161 a 270) e no Sup- 
plemento ao Manval de Coelho. Mas como ambos não podiam al legar as provai 
históricas, as minhas explicações ainda nâo sâo intempestivas. 

4 Z$chr, li, pag. 270. 



LXXVI. SOSSEGAB 



LXXVU. TEPEZ 



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FRAGMENTOS RTTMOLOÓICOS 



LXXVÍII. TOIRÃO 

O portuguez chama ao farfto bravo toirão ou tourão, como que 
aquelle animalzinho inquieto e feroz fosse nm touro de grande bra- 
vura (tadrus, conforme Coelho assenta no Manual). Já em 1253 este 
nome existia. A pauta impressa nos Monumentos Históricos (Leges, pag. 
193) falia do tourom. Tenho, comtudo, razões para pensar que a fórraa 
originaria, ainda nâo influenciada pela etymologia popular, fosse tuiro, 
turo, e que o alargamento por meio do augmentativo om teve apenas 
o fim de o fazer rimar com furom \ o nome usual do tourfto domes- 
ticado f . Turo, tuiro, parece-me ser um reflexo do adjectivo putorius, 
que era inseparável do nome latino do Fretttciesel ou Stinktierchen. 
Em furom [p]tuiro ou toiro, temos, portanto, se a minha ideia fôr 
acertada, a nada rarà queda de uma syllaba protonica (que, com 
pouco acerto, costumamos chamar apherese). U por ui, como em abu- 
tre, de abuitre, vdltur; ventura, de ventuira; chuva, de chuiva; munha, 
de muinha; pude, de puide (potui); punha, de puinha (puia); cume/ de 
cuime; gal. runa, de ruina, etc. 

LXXIX. TOSCANEJAR 

Toscanejar é um termo metaphorico, por meio do qual o povo 
graceja, rindo do dorminhoco que quando devia conservar-se acordado, 
está a cabecear e cahir com somno, abrindo (muito pouco) e fechando 
a miude os olhos, como se fossem um par de tesouras de tosquiar. Um 
poeta do Cane. C. Br., n.° 1:539, jà dizia no século xiu ou xiv: tos- 
guiavam estes olhos meus». — Penso que toscanejar é uma contaminação 
dos verbos tosquiar e de pestanejar, que ambos tinham a mesma si- 
gnificação. 

LXXX. TRANS 

0 povo portuguez aborrece todas as syllabas «pesadonhas» e «en- 
fadonhas», em que a vogal é circumdada de quatro consoantes. Aos 
analphabetos custa immenso pronunciar p. ex. o prefixo trans. A regra 
é alliviarem-no, supprimindo o n e pronunciando tras ou tres (irasferir, 

1 Em castelhano temos também turones e furones (Prosas, pag. 248). Farão 
(fem. furoa), antigamente furou , foron, cast. moderno huron, do lat. fubomjb, que Isi- 
doro de Sevilha menciona. Em portuguez toirão designa em sentido metaphorico 
depreciativamente uma criança turbulenta e traquina, assim como furão se em- 
prega de uma pessoa entremettida e curiosa. 

> O furão serve ainda hoje na caça dos coelhos bravos, em cujas luras entn, 
sahindo do pequenino cacifre de cortiça (em que o caçador o costuma levar), para 
com os teus formidáveis dentinhos de roedor obrigar os laparos a sahir. Alfonso x 
refere- se na Cantiga 354 a este antiquíssimo uso, designando, de resto, o furão 
com o seu nome gal lego [donazikha. = pequena mulher; allemAo JPraucheti]. E diz í 
thú* bestivla a que ohaman donenynna os galegos . . . et tirava con eia aves das 
wvasn» 



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fatEVÍSf A ttfSlf ÀNÀ 



traspôr). Mas mesmo este tras e tres nâo é do agrado de todas as boc- 
cas. Ha outro meio engenhoso de se desembaraçarem do importuno: 
a transferencia do s para a frente [stra, stre], que geralmente accres- 
centado de um e surdo dà: estra. — Eis os meus exemplos. Os que veem 
de Tras-os-Montes dizem, por via de regra, que s&o estramontanos ; 
lembram-se com saudade do lar paterno com o seu estrafogueiro ou 
estrafegueiro (=tras-fogu-eiro), e sentem-se como estramalhados (tres- 
malhados), extraviados (transviados), ou estremudados (transmudados). 
As lavadeiras de Paranhos usam de estrepasso por trespasso (= rebu- 
ço), e de estraparente (por transparente). Na mesma categoria entram : 
estravasar (= transvasar); estrabordar (= transbordar); estrelèr (—tres- 
ler); estranoitar por estrenoitar, usado por Camillo, estrugeitante por 
estregeitante, de trasgeito l ; estruquiar por trusquiar, que recolhi em 
Vizella; escrimar por crismar (que é de Penafiel); espamado por pas- 
mado; e o gallego esbabacar por embasbacar. Até certo ponto também 
esmol(n)a por elmosna — talvez a primeira entre estas fórmas que al- 
cançou fóros de litteraria 

O sensível contraste entre as fórmas pronunciadas pelo vulgo e 
as que a gente «fina» emprega, produz, todavia, uma singular confu- 
são, impulsionando alguns semi-doctos a introduzirem tras e tres erro- 
neamente em palavras a que tal syllaba nfto pertence. Assim é que 
nasceram trastagema por estratagema; trastega por estratega; trasva- 
gante por extravagante, e até tresnado por estrenado (estreado) (de 
btben[n]a) em GaUiza. 



Nas suas interessantes observações a respeito da morphologia 
complexa de trahebb, Leite de Vasconcellos nfto se refere ás fórmas 
archaicas que servem de epigraphe a este artigo 9 . O imperativo trey 
(com accento no é) por tray (cast. trae) representa evidentemente 
tbahi como trêyde\s\ trahite, trahitis. Diez (Hofpoesie, pag. 134) e 
Monaci (Cant. Ant. Port., pag. 29) inferiram d'aquellas duas fórmas 
um falso infinitivo treyr, que nunca existiu. O que é notável, é o sen- 
tido que se ligava àquelles imperativos, porque equivalem a vem e 
vinde \ Julgo que é preciso partir da fórma reflexiva: treyde-vos — 
trazei-vos a vós mesmos, que occorre duas vezes no Cane. da VaU- 
cana. 



l Trasgeito* (nuHs-j- jactas) por esgares t caretas, occorre nas Cantigas 77 e 
78 de D. Alfonso z ; tregettos nos Documentos Eborenses, pag. 150 e 189. Kesende 
emprega na MisctUanea e na Chronica (pag. 347) a fórma tresectadores tregei* 
tadores), para designar, nfto como de costume, uns «pultriqueiros» (**= pelotiquei* 
ros) mas «esgrimidores». Estrugeitante é dos Contos populares de Coelho (d.* 15). 

* Nfto sei explicar satiefactoriamente estremunhar e estrebwcar. 

* Rev. Lus., ii, 269 e 349. 

* Bring dich selberl komml tile dichl 



LXXXI. TREY, TREYDE[s] 



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FRAGMENTOS KTYMOLOOICOS 



1) Cane. Vat, n. a 173, 13-15: 

Selad' o bayoninho — valha deus! 
treyde-vos, ay amigo 
e guisade d' andar l 

2) Jb., n.° 751, 7, 15 6 23: 

E depoys treydes-vos migo 
meu amigo demandar. 
Th. Braga escreve : terey de lo veer comigo (!). 

3) lb., 266, 5, 11 e 17 : Theyde-lo veer comigo, 

Irmâa, o meu amigo. 

4) Ib. f 343, 1 : Treydbs todas, ay amigas, comigo 

Veer hum home muyto namorado I 

5) lb., 878, 1 : Treydbs, ay mha madr', em romaria 

Ora hu chamam Sanda-Cecilia. 

6) lb., 878, 6 : E treydes migo, madre, de grado. 

7) lb., 886, 1 e 6: Mha irtnana fermosa, 

treydes migo 

a la igreja de Vigo. 

Mha imana fremosa, 
treydes de grado 
a la igreja de Vigo. 

8) lb., 888,l,5 r 7e 10: Quantas sabedes amar amigo 

treydes comigu* a lo mar de Vigo. 

9) lb., 891, 1: Que/ ir a Sanda Maria de Leça 

e irmanas, treydes comigo l 

10) lb., 1:062, 8: Et por deus amigo trey-nos, (em rima com fi- 

gos çofeinos). 

Nas cantigas de Santa Maria só encontrei uma vez treydbs (n. a 
216), e uma vez trey (n.° 325).— No castelhano archaico posso apon- 
tar apenas o trrd do Poema dei Cid. (Amos tred al Campeador con- 
tado). — Cornu registrou trey, treydes,- no § 323 da sua Orammatica, 
s. v. trazer. 

LXXXII. tadío 

Eu separo vadio (vadiar, vadiagem, vadiação, vadiice) de bala- 
ii(o), valadi(o), derivando o primeiro (com Coelho e Schuchardt x ) de 
vagativus, e só o segundo do árabe: baladi. Vadio jà existia na fórma 
vaadio, e com a significação hodierna de vagabundo, erradio, no pri- 
meiro período da língua a , emquanto valadio, que hoje parece morto, 



i ZeUschrift, xiit, 525. — Cornu (JJ 131 e 255) adoptou a derivação de Gon- 
çalves Yianna, que se pronunciara a favor do étymon árabe. 

s Tenho a certeza de o ter lido nos Monumentos; mas não encontram os 
respectivos trechos. 



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REVISTA LUSITANA 



ainda vivia no século xvin inalterado, sem perda do sen l, O poeta 
Garção exclama, p. ex. : «Mas de poeta, amigo, só me resta De vala- 
dio o texto, a vinha calva, Desastres e misérias, filhos rotos* K 



Noto um lapso singular na minha interpretação de marmar. Quem 
de uma arroba de ferro fabrica duas enxadas, de 9 arráteis e meio 
cada uma, fica ainda com 13 arráteis, que crescem ou sobejam. Mar- 
mar é portanto o opposto de mingar. Teria graça se, estando por 
masmar, a palavra representasse maxjmare fallando n'este caso a fa- 
vor de mínima re como etymon de mingar. Cfr. cirne, cisne; churma, 
chusma; gorm-, gosm-; garg-, gasg-; e marm(anjo), masm(arro). 

Porto, Janeiro de 1894. 



Cancioneiro de musicas populares para canto e piano, por Cesar das Ne- 
ves & Gualdino de Campos. Porto, 1893 1894. (Em publicação. Sae em fasciculos). 

Já em 1872 Neves e Mello publicou como ensaio um livro de Musicas e can- 
ções populares. Depois d essa data nâo me consta que Be tenha publicado mais ne- 
nhuma obras do mesmo assumpto; apenas sei que o Sr. Pedro Fernandes Thomás 
está preparando um trabalho análogo á cerca da Beira. A ideia dos Srs. Cesar das 
Neves e Gualdino de Campos é muito boa, pois na nossa litteratura, onde ha tan- 
tos trabalhos sobre poesia popular, sente-se ainda a falta de abundante collecçito 
das musicas genuinamente populares, que por toda a parte, nas aldeias, como nas 
cidades, nas lidas agrícolas, como nas occupaçoes caseiras, aconjpanhào sempre a 
cantiga, a zacara, a rima. 

Nâo possuo conhecimentos technicos para poder apreciar a parte musica) 
d'esta obra ; limito-me, pois, no que vou dizer, á parte puramente litteraria. 

O trabalho abre com uma introducção do Sr. Theophilo Braga, onde este A. 
reúne várias noticias interessantes da antiga musica portuguesa. Algumas obser- 
vações meudas lhe podia eu porém fazei. 

Com relação aos textos poéticos coordenados pelo Sr. Gualdino de Campos, 
devo manifestar muitas reservas. Este auctor nâo conhece suficientemente a poe* 



1 Ignoro o que seja telha valadia. 



LI. MARMAR 



Postscriptum de 5. vn. 94. 



Carolina Miciublis de Vasconcrllos. 




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BIBLIOORAPHIÁ 



191 



tia popular, nem tem educação ethnologica ; por taes motivos, em meio de canti- 
gas genuínas, introduz quadras que não sâo do povo, por exemplo a pg. 23 : 

Como esta fogueira abrasa Assim ao meu bem abrase 

A minha alcachofra benta, A chamma do amor violenta. 

A pg. 27 também a seguinte nao ó popular : 

Ao ver na areia as pegadas Tive ciúmes da onda 

Que tu deixaste ao passar, Que á praia as veio beijar. 

£ a pg. 29 esta está no mesmo caso : 

Vamos seguindo Que a manhã vae rindo 

Por esses campos fóra, Nos lábios da aurora. 

A pg. 19 ha também quadras, que, com quanto baseadas em superstições do 
8. João, me nao parecem populares. O mesmo podia dizer de outras mais. 

Alem d'estes apocryphos que apparecem subrepticiamente por entre o texto 
do povo, o Sr. Campos publica muitas poesias que elle próprio confessa que não 
sSo tradicionaes antigas, e de que até ás vezes indica os verdadeiros auctores, 
como a pg. 31, Miguel Antonio de Barros; a pg. 35, Camillo Castello Branco; 
a pg. 80, Castilho; a pg. 183, elle mesmo, Gualdino de Campos, e outro! Ne- 
nhuma das poesias que vem a pg. 87, 123, 129, 136, 139, 143, 148, 151, 152, 160, 
162, 168, 173, 178, 184, etc , é popular. Algumas são até muito conhecidas, como 
O Noivado do sepulcro, A Judia, O exilio de Gonçalves DiaB ! Só por absoluta 
falta de critério se poder ião ter incluido estas poesias numa collecçâo como a de 
que se trata. 

O fasciculo 2.°, pg. 17, abre mesmo com uma poesia, com um titulo hespa- 
nhol : oh que tolero (\). Numa nota a essa poesia transcrevem os collectores as se- 

fuintes palavras do Sr. Consiglieri Pedroso para justificarem o haverem deixado 
car certos estrangeirismos : «Quando se trata de composições anonymas e colle- 
ctivas de um povo, a genuinidade é o primeiro requisito a attender-se». Assim é, 
e assim faço também nas minhas colheitas, maB é quando se trata de elementos 
antigos e que já se generalizárão e tornárâo populares, e não de factos modernos, 
esporádicos, e sem cunho nenhum popular : efectivamente ha elementos populares 
e popularizados. Que importa que uns versos de Soares de Passos ou de Thomás 
Ribeiro se vulgarizassem no povo ? Ficáo, por ventura, por isso populares ? Uma 
poesia só se torna popular quando o povo a considera como sua, isto é, vâ nella im- 
pressos os seus próprios pensamentos e sentimentos, numa linguagem também sua, 
que elle entende perfeitamente, e até ás vezes vae modificando conforme o gôsto 
individual, a tendência local, a variabilidade da ideia, e a adaptação aos diversos 
usos e costumes : de maneira que, ao lermos e analysarmos essa poesia, achemos 
nella um documento fiel da alma popular. 

A pg. 152 ha mesmo uma poesia com versos hespanhoes ! Sem dúvida nas 
nossas zacaras encôntrão-se ás vezes palavras hespanholan, sobre tudo nas xaca- 
ras raianas, mas isso tem uma significação histórica, de que já fallei no meu ifo- 
manceiro, e que aqui esta não tem. 

No fim das páginas os collectores põem ás vezes notas, umas a respeito das 
danças, outras com considerações litterarias ou históricas. Aquellas são curiosas ; 
estas não se recommendão muito. Ha lá observações como a seguinte : a pg. 19 
diz- se que do facto de a poesia O lavrador da arada ter o estribilho Ai Jesus vem 
provavelmente «o idiotismo portuguez* (sic) é o seu ai Jesus (!). 

A pg. 69 dá- se o nome de bailada a uma serie de quadras ; mas aquella de- 
nominação não existe na nossa poesia popular, e alem d isso taes quadras, se não 
são todas apocryphas, são -no em parte. 

A pg. 70 diz-se que a musica de S. Martinho é de José Doria, e a letrra de 
Palmeirim : se nem uma nem outra são populares, para que as colligirão aqui ? A 
mesma pergunta se pôde fazer a respeito de outras mais peças. 

A obra dos Srs. Cesar das Neves e Gualdino de Campos tem por conseguinte 



193 



REVISTA LUSITANA 



muitos defeitos ; ainda <jue obedece a ama ideia boa, todavia esta foi mal posta 
em pratica. 0 Cancioneiro fica sendo um trabalho de pura curiosidade, embora 
com alguns factos que se podem aproveitar, como, me parece, A Noite de Natal, 
As Janeiras, etc., no emtanto sem valor scientifíco e sem o alcance que devia ter, 
e que, nelas razões que dei no principio d'este artigo, se esperava que tivesse. 

No nosso pais na musicas verdadeiramente populares e características, como 
s&o os Reis da Beira e do Minho, as xacaras trasmontanas, o S. João do AÍemte- 
jo, as moda» das festas, dos seroes e dos diversos trabalhos agrícolas, as cantigas 
do berço, os terços da Beira- Alta, etc. Colha-se isto com todo o critério e exactidão, 
acompanhado da lettra correspondente, e ter-se ha produzido uma obra esthetíca 
e etimológica. 

E 1 facillimo colligir cantigas; mas para o trabalho de coordenação e apre- 
ciação, de modo que eílas adquirâo importância scientifíca, litteraria ou artística, 
nâo basta fazer o que fez o Sr. Gualdi no de Campos : é preciso mais alguma cousa 
do que saber escrever a lápis numa carteira o que qualquer matrona diz ou 
cauta x, 

J. L. ns V. 

Pobtooál mo sstraxobibo: 

Em um relatório apresentado pelo Professor da escola superior de letras em 
Argel, o snr. Kenato Baseei, ao Congresso dos Orientalistas realizado em Lon- 
dres no anno de 1891, e que, comquanto publicado em 1892, só muito recente- 
mente foi distribuído, com outros mais, como complemento, ao que parece, das va- 
liosas memorias que ali foram lidas, vemos que com muito encarecimento se men- 
ciona Portugal, como sendo a nação que, conjunctamente com a França, mais se 
avantaja actualmente nos estudos ethiópicos. 

O relatório é redigido em francês. De entre outras palavras que nos sJo gra- 
tas, citaremos aB seguintes, que veem após a menção de trabalhos portugueses 
neste ramo, desde o século xvu : 

«Ao snr. Esteves Pereira, que restaurou, ou melhor, criou os estudos ethiópi- 
cos em Portugal, devemos a edição, acompanhada de traducçao e commentario, da 

chronica de Minás Em appendice acrescenta a versão portuguesa dos an- 

naes de Minás, tirada da obra inédita do P. Almeida. A occupaçào de Maçuá pela 
Itália dá particular interêsse a um excellente artigo pelo snr. Pereira publicado, 
acêrca desta cidade, na «Revista das Sciencias Militares (Junho, 1889)*. 

Como se vê, Portugal e a França occupam logar preponderante na execução 
do plano que indiquei ao começar esta exposição». 

O plano a que allude o douto professor consiste em se contribuir nouco a 
pouco para preencher um quadro, em que estejam comprehendidos os dinerenteg 
trechos históricos que hâo de formar a serie dos annaes da Ethiopia desde o sé- 
culo xii até os nossoB dias. 

GrOKÇALVE8 VlAHKA. 



1 tio momento em que escrevo este artigo estio publlo*4oi 15 feaoioatos da obra aaalysada 
pois so a ejles que a mlnaa eritioa se refere. 



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MUSEU ETHNOGEAPHICO PORTUGUÊS 



193 



MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS 



«Só a educjiçrio de todas as classes 
pode ler o nome de nacional, e só com 
u educação nacional completa apertare- 
mos nas nossas mãos a arma que nos 
fará fortes, que nos fará respeitados, 
porque não ha para as victorias senão 
o saber. * 

Mal das sociedades que ignoram a 
sua estirpe, e nâo dào valor ao patri- 
nionio grangeado pelos seus maiores!» 

Du. flKttSAUJJiTíO Machado, Affirmaçòes 
Publica*, Coimbra, 188», 170 e 348. 

Bor iniciativa de um honrado o intelligente Ministro, dedicado ao 
bem do seu país, e a quem a instrucção pública mereceu sempre es- 
pecial affecto, e é devedora de muitos serviços, levou-se a effeito a 
fundação de uma instituição nacional, que faltava ainda entre nós, 
apezar de para ella existirem numerosíssimos elementos dispersos. 

Refiro-me ao Museu Ethnographico Português, criado pelo Sr. 
Dr. Berpardino Machado, quando Ministro das Obras Públicas. 

Tem a data de 20 de Dezembro de 1893 o respectivo Decreto, 
publicado no Diário do Governo n.° 290 de 22 do mesmo mès e anno. 

Além dos motivos geraes qnh apontei a cima, pelos quaes o Sr. 
Dr. Bernardino Machado se empenhou na execução d'esta obra meri- 
tória e importantíssima, outros pesarão especialmente também no seu 
ânimo, porque S. Ex. a é lente cathedratico de Anthropologia na nossa 
Universidade, e como tal interessa-se pelos assumptos da Ethnogra- 
phia, sciencia que está intimamente relacionada com aquell'outra. 

Como diz o Decreto, o novo Museu é destinado a representar a 
parte material da vida do povo português, — isto é, tudo b que a esse 
respeito ethnicamente nos caracteriza. Divide-sc por ora em duas sec- 
ções: uma, de archeologia, comprehendendo monumentos desde os tem- 
pos prehistoricos até o século xvm; outra, moderna. 



A importância de um Museu em taes condições não se pôde de 
modo algum negar. 

Naturalmente, quando se conhece melhor uma cousa, ha mais ra- 
zão para a apreciar. Em geral o nosso povo, principalmente o das ci- 
dades maiores, tem o sentimento bastante desnacionalizado: isto em 
parte resulta de se conhecer mal a vida do país. As grandes exposi- 

hbv. LusiT., vol. ih, fase. 3. 1 



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194 



^EVIST^ LU8ITANA 



çõcs nacionaes contribuem para attenuar o mal; mas um museu ethno- 
graphico, pela sua acção permanente, influe muito mais. Um povo que 
ignora a sua história, c os elementos de toda a ordem que o consti- 
tuem, não pódc ter ideal. E um povo sem ideal é como se estivesse 
morto. 

O desconhecimento do país, e por tanto a falta de consciência 
nacional, faz que os artistas se inspirem nas ideias estrangeiras, no 
theatro se representem obras traduzidas e com cunho anti-português, 
os romances sejão por vezes productos hybridos, a linguagem frequen- 
temente uma aravia, como se observa todos os dias nos jornaes, não 
se oução nas festas públicas as nossas musicas populares, nem nos pró- 
prios divortimentos do Entrudo entrem os nossos typos característi- 
cos, como antigamente succedia; faz finalmente que todos prefirâo sem- 
pre ao que é nosso o que vera de fóra, mesmo quando este não é 
melhor. Já Simão Machado (Comedias, 1631, fls. 72 v.), disse com ver- 
dade, ainda que não com tanta como hoje se poderia dizer: 



Em fim que por natureza, 
Òu costellação do clima, 
Esta nação portuguesa 
O nada estrangeiro estima, 
O muito dos seus despresa. 



Um museu, pois, ethnographico, ainda que para mais não sirva, 
serve para educar o público, levando-o a conhecer e a amar a pátria. 
— Felizmente, ha certo tempo para cá, sobretudo depois dos successi- 
vos acontecimentos internacionaes e internos que nos têm affligido, 
começa a manifestar-se certa re vivência no sentimento patriótico, na 
arte, como na industria. Oxalá que elle não afrouxe! 

A pedagogia tem num museu boa fonte de lições de cousas para as 
crianças, ao mesmo tempo que estas vão a pouco e pouco recebendo 
no ânimo o sentimento de que acabo de fallar. E* nas primeiras ida- 
des que os sentimentos se radicão melhor. E um povo não . deve amar 
a sua pátria só pro forma, mas por convicção, porque está nisso a base 
da sua felicidade collectiva, — que é a paz e o progresso consciente. 

E' também evidente a importância do um museu ethnographico 
para a industria e para a arte. praticamente fallando. 

Uma fórma de arte característica não resulta da acção de um só 
individuo, mas é producto do meio, quer este seja physico, quer so- 
cial. Por tanto, para certos casos, convém que o artista conheça a tra- 
dição: só assim a sua obra terá condições de vida. E num museu acha 
elle representados muitos elementos tradicionaes, que lhe fecundem e 
vivifiquem o estro. 

Na esculptura, na pintura, na gravura, a cada passo se torna ne- 
cessário representar factos antigos, que só num museu se poderão es- 
tudar com facilidade, — como a fórma de uma armadura, um farda- 
mento, um trajo civil, um movei. 



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MUSEU ETHNOGBÀPHICO PORTUGUÊS 



195 



Isto tem também applicação ao presente, principalmente em re- 
lação ao conhecimento da vida provinciana. 

No romance e np drama, quer nos históricos, quer nos de costu- 
mes, constantemente experimentão seus auctores a necessidade de 
proceder a estudos especiaes, quando tem de descrever um typo, uma 
situação, etc. 

Claro está que um museu que contenha, por exemplo, todas as 
fórmas do brasão nacional, todos ou pelo menos bastantes feitios dos 
trajos das diversas regiões do país, offerece muitos elementos para o 
theatro e para o romance, onde a arte, para desempenhar o seu fim, 
tem de ser verdadeira, e não de convenção. 

Independentemente do interesse prático que se colhe do estudo 
de um museu, o individuo também gosa em conhecer o seu passado, 
ou o viver contemporâneo do seu país. A final, o gôso é o terminas 
de todos os actos da vida, mais ou menos disfarçado sob o aspecto 
material ou espiritual. O commerciante que accuraula riquezas, o in- 
dustrial que se cansa no trabalho quotidiano, é obvio que porfião pelo 
interesse que vem a dar-lhes gôso; e o sábio que cora a mathema- 
tica anda investigando os ares, com a sonda profundando os oceanos, 
com o alvião numerando as camadas da terra, com o microscópio sur- 
prehendendo o viver de seres quasi infinitamente pequenos, — o poeta 
que passa as melhores horas da sua existência interrogando e inter- 
pretando todos os mysterios da alma, o artista erafim que se faz es- 
cravo da sua imaginação e do seu temperamento: que buscão elles? 
Buscão o gôso moral. E ainda quando a sciencia ou a arte podem ter 
applicação prática, ésta vera a reverter também cm gôso. Por tanto 
respeitemos aquelles que, na inspecção de um monumento archeolo- 
gico ou raro, não têm outro intento senão satisfazer iramediatamente 
a curiosidade, que aliás pôde ser, como já se tem dito, uma fonte de 
sabedoria propriamente tal. 

A essas razões todas, que são principalmente de caracter social, 
artístico, industrial e educativo, acerescem razões scientificas, pois 
que não se pôde traçar por completo a história de um país. sem se 
conhecer a vida intima d'este, revelada nos usos, crenças, trajos, mo- 
bílias, utensílios, fórmas de arte, numa palavra, em mil particularida- 
des em que o espirito se vae reflectindo e assignalando através dos 
tempos, e que contribuem para que um povo se distinga de outro. A 
comparação das differentes epochas umas com as outras define a evo- 
lução histórica; a comparação com os factos de outros países define 
as relações ethnicas, ou, quando estas não existem, mostra, pelo que 
se refere á ethnographia, como o espirito em condições semelhantes 
chega aos mesmos resultados. 

A constituição de um museu eíhnographico é ainda um ponto de 
partida para o progresso dos estudos de Anthropologia e de Etimolo- 
gia, já por assim oferecer materiaes, já por despertar o gosto scien- 
tifico no publico, em virtude do instincto geral de imitação. 



196 



REVISTA LUSITANA 




me estou occupando torna-sc muitas vezes difficil, e até impossível, 
distinguir o que lhe pertence propriamente, do que pertence, por exem- 
plo, a um museu industrial ou de bellas-artes. Todavia num museu 
ethnographico deve archivar-sc sobretudo aquillo que principalmente 
tiver significação histórica ou for característico do povo; num museu 
industrial aquillo que tiver apenas applicação prática, embora, como 
disse acima, a arte e a industria tenhão de se inspirar na tradição e 
de recorrer á historia; um museu de bellas-artes tem caracter menos 
restricto que um museu ethnographico, pois não se circumscrevc só 
ao que é ethnico, mas abrange tudo o que manifesta cunho de perfei- 
ção artística, mesmo quando elle deseje ser exclusivamente nacional. 
Isto que digo não obsta, ainda assim, a que muitos objectos dêvão ao 
mesmo tempo ter entrada em vários museus. Assim um tapete de Ar- 
rayollos, que revela gosto e usos locaes, e que por outro lado é bello 
e pôde servir de modelo e de applicação industriaes, está no caso de 
oceupar logar em cada um dos tres museus que acima pus em concor- 
rência. Ao discernimento e bom senso das pessoas que superintende- 
rem nesses museus deve no emtanto ficar o decidir, em caso de dú- 
vida, para qual dos museus ha-dc ir um objecto, quando aconteça ser 
elle único. Para se chegar a essa decisão deve tomar-se em conta: de 
um lado, o caracter principal, predominante, de cada um dos museus; 
do outro, a facilidade que ha em um especialista de um dos museus 
visitar outro museu em que se encontrem objectos da sua especiali- 
dade. 

Desde o momento que as pessoas que superintenderem nos mu- 
seus forem levadas, não de prcoccupaçGcs mesquinhas ou puramente 
pessoaes, não de impertinentes considerações de secretaria, mas do 
interesse alto e justo de servir com sinceridade a pátria e a sciencia, 
do fazer uma obra boa, que a todos utilize e todos indistinctamente 
apreciem, — estou certo que se estabelecerá commum accôrdo, e que 
os respectivos museus não precisarão de pleitear entre si preferencias. 



Tendo cu sido nomeado director do Museu Ethnographico Portu- 
guês, cumpre-me não só dar na Iin-ista Lusitana a notícia da criação 
d'ellc, prestando assim homenagem ao nobre Ministro seu fundador, 
mas também apresentar, em esboço, o plano que pouco mais ou me- 
nos tenciono seguir na disposição dos objectos. 

A ordem d'esta disposição é naturalmente a histórica. Tsso resulta 
já do Decreto que criou o Museu. 

Como entre os povos que actualmente habitão o território chama- 
do Portugal, c os povos que desde tempos antiquíssimos cá têm estado, 
não se pódc estabelecer solução de continuidade, concorrendo pelo 
contrário todos os modernos estudos scientificos para affirmarem cada 




MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS 



197 



vez mais essa continuidade, deve dividir-se, de modo geral, nas se- 
guintes epochas a historia da civilizarão portuguesa : preliistorwa, pro- 
tohistorica, romana, barbara, árabe, medieval-porhtguesa, da renascença 
e moderna. 

Os objectos que constituírem o Museu hão-dc distribuir-se por 
ellas, como se vae ver. 



EPOCHA PRKHISTORICA 

E' a epocha mais antiga a que se pôde remontar, e de que não 
nos restão nenhumas notícias escritas, podendo apenas reconstruir-sc 
pelo estudo dos monumentos que d ? ella chegarão até nós, e pela com- 
paração com outras epochas semelhantes. 

O Museu Ethnographico Português foi installado junto da Direcção 
dos Trabalhos Geológicos, servindo em parte como que de desenvol- 
vimento ao Museu de Anthropologia e Ethnographia Prehistoricas per- 
tencente a ésta Direcção, e excellentemente organizado pelos nossos 
geólogos Carlos Ribeiro e Sr. Nery Delgado. 

Com relação a ésta epocha, o Museu Ethnographico tem só de se- 
guir, pouco mais ou menos, o caminho já traçado a propósito d'aquelle 
Museu. 

O Museu da Direcção de Trabalhos Geológicos é riquíssimo. Ape- 
zar disso, e do que por outros meios se sabe da prehistoria dos dif- 
ferentes pontos do país, muito ha ainda que fazer para que a archeo- 
logia prehistorica portuguesa seja completamente conhecida no seu 
conjuncto. Falta mesmo fazer cm cada provincia um reconhecimento 
geral, como no Algarve fez Estácio da Veiga. Só depois d'isso se po- 
derá organizar uma verdadeira carta prehistorica de Portugal. O Mu- 
seu da Direcção dos Trabalhos Geológicos compõe-se, como é natural, 
de objectos colhidos principalmente na Estremadura. 

Nesta mesma provincia. c noutras, ha porém muitos indivíduos 
que por sua iniciativa augmentão constantemente o pecúlio da nossa 
prehistoria. Basta lembrar, entre outros, os nomes do Sr. Vieira Nati- 
vidade, que explora as grutas de Alcobaça, do Sr. Dr. Mattos e Silva, 
que explora as antas de Pontc-dc-Sôr, Avis, etc, do Sr. Dr. Santos 
Rocha, que explora os monumentos da Figueira da Foz, e do Sr. Dr. 
Martins Sarmento, que explora a aroheologia do Minho. Além d'estes, 
que são propriamente exploradores, que pégão no alvião o vão para 
o campo com os jornaleiros a dirigi-los e a ajudá-los a desenterrar do 
solo as riquezas que nelle existem, ha muitos outros que se li mi tão a 
colher materiacs mais ou menos avulsos, chegando assim a accumular 
bastantes preciosidades, c ha também os museus njunicipaes. 

As regiões por ora menos conhecidas são Tras-os-Montes, a Bcira- 
Alta c a Beira-Baixa. E' nellas igualmente que mais se faz sentir a fal- 
ta de museus. 



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198 



REVISTA LtJSITAKA 



Na secção prehistorica o Museu Ethnographico deve conter de- 
senhos, photographias e plantas de estações archeologicas, como o cas- 
tro de Liceia, de mamôas, de antas, de antellas, de grutas e de ou- 
tros monumentos, bem como deve conter objectos industriaes e artís- 
ticos de que se servião os nossos povos primitivos nos dois períodos 
denominados da iwdra e dos nxetaes, objectos que são de diferentes 
espécies, como se sabe: machados, enxós, goivas, facas, serras, mar- 
tellos, pontas de setta, lanças, raspadores, furadores; cerâmica varia- 
díssima, já grosseira, já muito apurada e com ornatos; enfeites corpo- 
raes c amuletos, entrando nestes grupos as placas de ardósia, as con- 
tas, os pingentes. 

Tudo isto será disposto por períodos, e cada período geographi- 
eamente, de modo que sc veja, de um lado a evolução geral, e do ou- 
tro as differenças locaes. Dentro de cada zona geographica os objectos 
accommodar-se-hão por espécies, de maneira que os aspectos da vida 
primitiva sc patenteiem claramente. 

Quando contemplamos o todo da prehistoria portuguesa, se en- 
contramos caracteres communs que a ligâo entre si e á prehistoria de 
outros países, encontramos também caracteres differenciaes. Vestígios, 
por exemplo, do período paleolithico têm-se por ora só observado nos 
concelhos de Leiria, Óbidos e Peniche. Kjoekkenmoeddings estudárão- 
se ainda somente os do Valle do Tejo. Grutas artificiaes conhecem-se 
apenas na Estremadura. Grutas naturaes dominão, em virtude da na- 
tureza do terreno, em Tras-os-Montes, Estremadura e Algarve; fallo, 
já se vê, de grutas conhecidas. Os monumentos megalithicos offerecem 
também variedades, não sendo a menos notável alguns sepulcros de Al- 
calar, no Algarve, comparados, na sua estructura e perfeição, com as 
singelas e rudes antas alemtejanas, beirãs e minhotas. No Minho, na 
Beira marítima e no Algarve abundão as mamôas, que parece serem 
hoje mais raras noutras regiões. A cerâmica de Palmella e do Cada- 
val é muito artística, cora desenhos variados, ao contrário do que se 
dá na cerâmica de certos pontos do Alemtejo (Avis). As placas orna- 
mentadas não se têm ainda encontrado nas províncias do Norte, e são 
por ora uma especialidade puramente portuguesa. 

O Museu Ethnographico, quando nas differentes localidades hou- 
ver museus archeologicos, não os pretenderá esbulhar de suas rique- 
zas, antes contribuirá quanto puder para que ellas augmentem, por- 
que convém fomentar o interesse local por estes estudos; mas, quando 
taos museus faltarem, e não for fácil organizá-los, então chamará a si 
o que estiver arriscado a perder-se, e também procurará sempre obter 
cópias dos objectos importantes, a fim de que, como Museu Central 
que é, represente o melhor possível o país todo. 

Para desde já se constituir a secção prehistorica do Museu Ethno- 
graphico, ha a valiosa collecção algarvia, feita pelo fallecido Estácio 
da Veiga. 

Parte d'esta collecção pertence ha muito ao Estado, por isso que 
Estácio da Veiga fora officialmente encarregado de fazer explorações 



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ÍÍUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS 



Í99 



no Algarve ; esta parte acha-se na Academia de Bellas- Artes, onde, pe- 
las circumstancias do edifício, está bem mal accommodada, mas, em 
virtude do Decreto que criou o Museu Ethnographico, passará para este, 
logo que aqui possa ter accommodações convenientes. A outra parte 
da collecção algarvia, pertencente a Estácio da Veiga, que a obtivera 
por compras particulares, dadivas, etc., foi por mim comprada á fa- 
mília, em nome do Governo, para o Museu Ethnographico. Náo des- 
pendi pequeno trabalho em promover e levar a effeito a compra, o 
cm reunir e acondicionar devidamente este importante espolio archeo- 
logico, que estava parte era Lisboa, parte no Algarve, aonde fui de 
ptoposito. 

Ao Sr. Dr. Bernardino Machado, quando Ministro das Obras Pú- 
blicas, se deve também esta acquisição, pois apenas lhe propus a com- 
pra, S. Ex. â , compenetrado da utilidade que d'ella advinha para o Mu- 
seu, não teve a menor duvida em a auctorizar, depois de preenchidas 
as formalidades legaes da avaliação, etc, o que tudo consta de docu- 
mentos archivados no Ministério das Obras Públicas. 

Devo tornar aqui bem evidente mais este serviço do Sr. Dr. Ber- 
nardino Machado. Se S. Ex.* não tivesse determinado a compra, a 
collecção extraviava-se com certeza, o que representava grande des- 
falque no pecúlio da nossa Archeologia, pois Estácio da Veiga não se 
limitara só á parte prehistorica : havia percorrido mais ou menos todos 
os districtos archeologicos, com especialidade, depois do districto pre- 
historico, o romano. 

Estácio da Veiga pusera todo o amor da sua alma em estudar 
as antiguidades algarvias, percorrendo por todos os lados a província, 
colhendo informações, obtendo objectos, procedendo a exeavações, no 
que foi também poderosamente coadjuvado, entre outras pessoas, por 
um virtuoso e illustrado sacerdote, o Sr. Nunes da Gloria, actualmen- 
te prior de Bensafrim. Não é aqui o logar de apreciar os trabalhos 
de Estácio da Veiga. Basta pois o que deixo dito ; só acerescentarei 
que os quatro volumes que publicou com o titulo de Antiguidades mo- 
numentaes do Algawe, 1886-1891, vérsão sobre a prehistoria da pro- 
víncia, — período da pedra e período dos metaes. 

Além da collecção algarvia, o Museu Ethnographico dispõe de 
outros elementos, que existem nas collecções archcolo^icas que, pelo 
citado Decreto, têm de passar para elle. Além d'isso a minha collecção 
archeologica particular, parte da qual tenho agora depositada no Mu- 
seu da Direcção dos Trabalhos Geológicos e na Bibliotheca Nacional, 
deposita-la-hei também nelle; e espero ainda obter, se o Governo 
me auxiliar com uma pequena verba, muitos objectos em exeavações 
archeologicas que projecto. O Museu pôde receber em depósito outras 
collecções particulares: por exemplo, a collecção do Sr. Júdice dos San- 
tos, enthusiastico amador de archeologia, irá igualmente para lá. 

De modo que, apenas o Govêrno realize no Museu Ethnographi- 
co as installações que tive a honra de lhe propôr, a primeira epocha 
da 1 nossa civilização, isto é, a prehistorica, ficará suficientemente repre- 



200 



REVISTA LUSITANA 



sentada; e como junto do Museu Ethnographico está, segundo disse, o 
da Direcção dos Trabalhos Geológicos, o qual não tem igual no país, 
vê-se que aos investigadores da Prehistoria Portuguesa já não faltão 
cm Lisboa abundantes materiaes de estudo. 



Por ésta designação entendo aqui a epoclia comprehendida entre 
a prehistorica e a da dominação romana na Lusitânia, ou, para melhor 
dizer, na Península. 

Temos notícias da epocha protohistorica, já pelos auctores gregos 
e romanos, como Estrabão, Appiano. Justino, Plínio, Silio Itálico, etc., 
já pelos monumentos. E' a epocha em que apparecem pela primeira 
vez na história os Lusitanos, os Gallaecos, os Bracaros, os Limios, os 
Turdetanos, os Turdulos. 

Como por um lado a civilização protohistorica se liga cora a pre- 
historica, e foi muito influenciada pela romana, sendo-nos até conhe- 
cida ás vezes só através d'csta última; e como por outro lado o ter- 
ritório que hoje se chama Portugal fazia parte das províncias que os 
Bomanos denominarão Tarraconcnse, Lusitânia e Betka, nas quaes, 
de certa epocha por dcante, foi dividida a Hispânia ou Ibéria: não 
só não é possível separar sempre a epocha protohistorica d* antece- 
dente e da seguinte, como também não é possível separar sempre da 
nossa archeologia a archeologia hcspanhola. As moedas denominadas 
autónomas, por exemplo, fôrão emittidas em grande parte sob o do- 
mínio romano na Península, e, com quanto referidas quasi todas a ter- 
ritório hoje hcspanhol (poucas o são a território hoje português), cor- 
rerão abundantemente no nosso país, como se vê dos contínuos acha- 
dos d'cllas em diversos pontos 1 de Portugal. 

Na secção protohistorica pôde, tomando em conta aquillo que já 
se conhece, abrangor-se por exemplo o seguinte: 

1) Estampas e plantas de estações archeologicas, como de cas- 
tros ou montes fortificados, e de outros monumentos que se não podem 
ou não devem trazer para o Museu. Muitos dos castros dátão já da 
epocha anterior; aqui está pois um elo que liga entre si as epochas 
pre- e protohistorica. Castro typico protobistorico é por exemplo o de 
Sabroso, no Minho, explorado pelo Sr. Dr. Martins Sarmento. Castro 
em que a civilização dos metaes se sobrepõe á neolithica, restando de 
ambas abundantes vestígios, e onde já aponta a civilização romana, 
mas sem domínio, é por exemplo o Castello de Pragança, no Cadaval, 
reconhecido por mim pela primeira vez nas ferias da Paschoa de 1893, 
numa visita que ahi tiz com o meu amigo o Sr. Antonio Maria Garcia, 
benemérito professor de Pragança, o qual no estudo da archeologia 
d.o Cadaval me tem prestado relevantíssimo auxílio. 



n 



EPOCHA PROTOHISTORICA 



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MUSEU ETHN03RAPHI00 PORTUGUÊS 



201 



v 2) Objectos funerários e de culto religioso; Principal- 
mente na parte religiosa, o Museu fica muito bem representado com 
as collecções que actualmente se áchão na Bibliotheca Nacional. 

Parte (Testas collecções é já antiga no estabelecimento, e compõe- 
se de estatuetas de metal : a élla se refere por exemplo o Sr. Dr; Emi- 
lio Híibner, in Die cnúihm Bihhcerke, Berlim 1862, pag. 334. 

A outra parte compõe-se de danaria ou ex- votos ofiferecidos ao 
deus Endovellico. Este deus tinha o seu culto no Alemtejo, e era ura 
deus tópico da saúde; c as numerosas estatuas, aras e esteias votivas 
que havião feito parte do seu templo fôrão aproveitadas nas paredes 
de uma igreja christã que estava em ruinas ha muito tempo. De um 
lado com a permissão que obtive do dono d'esta igreja, o^neu amigo 
Sr. Manoel Ignacio Bello, do Alandroal, do outro com a auctorização 
que pedi ao Governo, o que este me concedeu, pude explorar as ruí- 
nas em 1890, do que resultou o trazer eu para a Bibliotheca Nacio* 
nal a mais rica serie de monumentos religiosos antigos que ha no país, 
e como a qual não se conhecem muitas noutros países. Infelizmente; 
por falta de espaço, estes monumentos têm estado muito mal' accom^ 
modados; e é por isso mais uma vez para desejar que as installações 
projectadas no Museu Etlmographico se apressem. A collecçâo dos 
monumentos do deus Endovellico é importante, não só debaixo do as* 
pecto da religião, mas ainda debaixo do da paleographia epigraphica, 
da linguistica, etc. Subrc estes monumentos publiquei tres opúsculos^ 
intitulados: O deus lusitano Endovellico (1890); Novas inscripções de 
Endovellico (1890-1891); e Quid apud Lusitanos verbum AEDEOLI 
significaverit (1894). Isto porém pouco é em comparação com o que, 
dentro e fora do país, tem sabido a lume á cerca de Endovellico, desdo 
o sec. xvi. 

Na Bibliotheca Nacional existem em depósito outros objectos que 
pertencem a esta secção, os quacs também passarão para o Musen. 
Entre elles especializarei a ara da deusa lusitanica Trebarnna, ara 
que, por permissão do meu amigo o Sr. Dr. João Baptista de Castro; 
digníssimo juiz de direito, eu trouxe do jardim da sua casa do Fun- 
dão, nas ferias de Setembro de 189á. 

Com relação a monumentos funerários o Museu não ficará tão 
bem provido. Todavia ha para ésta secção os monumentos epigraphi- 
cos algarvios com caracteres ibéricos, collecionados por* Estácio 8a 
Veiga; e eu pela minha parte também possuo uma bella inscripção, 
que um amigo meu comprou para mim no Algarve, a qual depositarei 
no Museu. Estes monumentos são muito notáveis pelo lado philologico, 
pois não só estão escritos em linguagem pre-romana, mas, como disse; 
nos caracteres especiaos, de remota origem semitica, que se usa vão na 
Península antes da vulgarização do alphabeto latino. I)'elles e d ? outros 
congéneres fez o Sr. Dr. Emilio Hiibner substancioso estudo no seu 
livro Monumento língua? lhericae (1893). 

Outros monumentos funerários protohistoricos existem no país, 
de que por ventura se poderão obter de futuro exemplares para o Mu-. 



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,202 



fcBVÍsfÁ LÔSltfAtfÀ 



seu. Rpfiro-me aos do typo das chamadas estatuas gallaecas, e aos do 
typo da porca de Murça, uns e outros por ora no nosso pais só acha- 
dos nas províncias do Norte. A' cerca dos primeiros publicou o 
Sr. Httbner uma monographia com estampas na revista Denkmctter u. 
ForscJiungen, 1861, col. 185 sgg. (ha tradncçâo portuguesa nas No- 
tkia8 de Portugal do mesmo A.), e deu o Occidente, ix, 248 umas es- 
tampas, com um artigo. A' cêrca dos segundos não ha ainda nenhum 
estudo especial; apenas o Sr. Fernandez Guerra, de Madrid, estudou 
alguns análogos que ha em Hespanha. De todos esses monumentos 
portugueses possuo estampas que publicarei a seu tempo. 

Como o período do bronze pertence em parte aos tempos protohis- 
toricos, muitos dos monumentos funerários d'aquelle período têm en- 
trada aqui. 

3) Vestuários e adornos. A ésta secção pertencem, por 
exemplo, braceletes, collares, anneis, contas. 

Tèm-se encontrado no país bastantes braceletes de ouro e de ou- 
tros metaes, dos tempos protohistoricos. Alguns estão em museus, ou- 
tros nas mãos de particulares. Ainda ha pouco tempo se achou um de 
ouro, e o fragmento de outro, que forão arrematados judicialmente 
em Santarém. Apezar de os jornaes tornarem público este facto, e de 
eu ter solicitado oficialmente, pelas estações competentes, a compra 
(Telles para um museu do Estado, parece que as circumstancias do 
thesouro não permittirão a acquisição; arrematou-os um particular, 
que provavelmente os venderá a algum governo estrangeiro, mais 
rico do que o nosso. 

Anneis de bronze, alguns com interessantíssimos ornatos, são 
também conhecidos no país, e não se tornará muito difficil obter ou- 
tros para o Museu Ethnographico. 

Com relação a collares de contas, ou contas avulsas, a estação 
archeologica de Bensafrim ministrou curiosos exemplares, talvez de 
origem semítica. Obtive lá, por compra minha, várias contas, que de- 
positarei no Museu. 

As fórmas de vestuário e de enfeites do cabello podem ainda dedu- 
zir-se de certas estatuas e estatuetas, como algumas das que citei acima. 

4) Armas. Igualmente se colhem elementos, para o conheci- 
mento das armas, nas estatuas, por exemplo nas mencionadas estatuas 
gdllaeeas. 

O Museu de Bellas-Artes, d'onde, pelo Decreto que criou o Mu- 
seu Ethnographico, têm de ser transferidos para este os objectos ar- 
cheologicos que não fizerem parte integrante d'elle, possue interessan- 
tes armas, achadas em Alcácer do Sal, de que falia o Sr. Emilio Car- 
tailhac, Les âges préhistoriques de VEspagne et da Portugal (1886), 
pag. 248-253, e Estácio da Veiga, Antiguidades monumentaes do Al- 
garve, iv, 266 sgg. 

As moedas da Republica Romana, que alludem a muitos factos 
históricos da Ibéria, contem vários desenhos de armaduras peninsula- 
res, por exemplo as moedas das famílias Ourisia e Coelia. 



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MUSEU ETHNOGRAPHIOO P ORTUGUÊS 



303 



Estas noticias, dadas pela archeologia, completão-se com a* que 
se áchão nos auctores, por exemplo em Estrabão. 

5) Epigraphia. Já acima me referi ás inscripçõcs ibéricas 
encontradas no Sul ào país. 

6) Moedas. Igualmente fallei ha pouco das moedas autónomas 
ou peninsulares. O Museu Ethnographico já possue algumas. 

7) Objeotos diversos. Entrão nesta classe muitos objectos 
caseiros, como os de barro e de vidro, mós de moinho, pesos, etc. 

Na enumeração que acabo de fazer, quis apenas apresentar uma 
amostra archeologica, e não tentei ser completo, nem mesmo dar or- 
denação scientiíica aos objectos, que no Museu têm de ser distribuí- 
dos, como os da primeira secção, excepto alguns monumentos mais pe- 
sados ou maiores, , que se hão de collocar em sítio especiaL 

Com a vinda dos Romanos á Península, a vida social dos povos 
de cá experimentou grandes alterações, se não de uma vez, ao menos 
lentamente, pois alguns cantões, sobretudo no Norte, fôrão mais re- 
beldes em se sujeitarem aos Eomanos. Do povo cantabrico diz por 
exemplo Horácio, numa ode (n. 6): indoctam jiiga feire nostra. 

Ainda do tempo dos Romanos temos noticia da existência de mui- 
tos elementos da civilização indígena: de línguas, de religiões, de 
instituições politicas, de trajos civis e tailitares, de usos, de costumes. 
Se muitos d'estcs elementos fôrão absorvidos, substituídos ou modifi- 
cados, outros persistirão mais ou menos, através da civilização roma- 
na, até o presente, e nós achamo-nos assim, como já acima lembrei, 
ligados insoluvelmente ao passado, por laços de toda a ordem. 



III 

EPOCHA ROMANA 

De todas as secções archeologicas, a romana e a prehistoçica são 
as mais ricas e variadas. As diferentes collecções do Estado qtíe tem 
de ser encorporadas no Museu Ethnographico possuem muito de ar- 
cheologia romana. 

Esta secção constituir-se-ha com os seguintes objectos, entre ou- 
tros: 

I) Estampas ou plantas de castros (opjrida), de monumentos 
epigraphicos que se não podem adquirir, poj* fazerem par2e de muros, 
ou se acharem em grandes penedos (como os da Magdalena, em Lis- 
boa, o das Caldas das Taipas, os de Panoias, etc.); de monumentos 
diversos, como templos, estatuas, pontes, banhos; de vias militares; 
de cemitérios. 

Templo notável é o de Évora, já várias vezes reproduzido pela 
gravura. 



204 



&ÉVI8TÀ LUSITANA 



Cemitérios romanos apparecem a cada passo. A propósito de um 
algarvio escreveu o Sr. Dr. Teixeira de Aragão um opusculo com este 
titulo: Relatório sobre o cemitério romano descoberto próximo da cidade 
de Tavira, Lisboa 1868. 

Entre as thermas são umas das mais interessantes as de Milreu, 
ao pé de Faro, no reino do Algarve, mas o vandalismo dos visitantes 
destroe quotidianamente os ricos mosaicos, do género opus ve-rmicula- 
tum, que revestem as piscinas e o pavimento da entrada : pôde ver-se 
uma amostra d'estes mosaicos em desenhos publicados no (keidente, 
vol. v, 240. Se se não acode depressa ás ruinas de Milreu. o país per- 
derá um bello monumento romano. Ao Governo, ou a algum instituto 
local, cumpre salvá-las, e evitar de futuro ao país mais uma ver- 
gonha. 

A' cêrea das vias militares ha bastantes notícias nos trabalhos do 
Sr. Hubner, e também alguma cousa se colhe nos trabalhos dos ar- 
cheoloigos portugueses. 

Já acima fallei dos castros protohistorieos, que. como disse, se 
ligavão aos prehistoricos. Ha também castros com abundantes provas 
de civilização romana, relacionados com os protohistorieos. O mais no- 
tável é decerto a Citania de Briteiros, glória do Sr. Martins Sarmen- 
to, que o tem explorado á sua custa, e estudado. Muitos castros pri- 
mitivos fôrão destruídos pelos Romanos, ou fôrâo abandonados; outros 
continuárão a existir, e transformárãose nas povoações modernas. São 
ainda hoje vulgares, como designações topographicas, os nomes do 
Castro ou Crasto, Castello, Cristello, ctc. 

2) Objectos funerários e de religião. O Museu do Algarve 
e o da Bibliotheca Nacional ministrarão aras, cippos, estatuas, estatue- 
tas, em grande quantidade, c também alguns amuletos. Mas ha muita 
cousa dispersa: por exemplo, no extincto convento de rhcllas, está 
arriscado a perder-se o friso de um bello tumulo romano, descrito c 
estampado na Revista Archeologka. iv, 1, por Borges de Figueiredo; 
no meio de um caminho, em Bemiica, está parte de uma ara. Tudo 
isto, e muito mais, pode c deve vir para o Museu Ethnographico. 

As aras, cippos e estatuas são pela maior parte dona r 'ai ou cx- 
votos, como os de que fallei no cap. n, § 2. Assim como hoje, quem 
está doente, offerece aos santos de mais devoção painéis com a expo- 
sição da doença, figuras de cera c de metal symbolizaudo os membros 
do corpo doentes, tranças de cabello, ctc, também os antigos fazhlo 
aos seus deuses oferecimentos análogos, chamados em latim donaria; 
por felicidade muitos d'estcs donaria érfio de pedra, do barro e de 
outras substancias duradouras, de modo que se conservarão até o pre- 
sente. Os numerosos ex-votos que se vêem agora em muitas das nos- 
sas igrejas, sobretudo nas ruraes, íilião-sc. pois, nos ex-votos do pa- 
ganismo. Tenho estudado muitos dos nossos ex-votos christãos, e pos- 
suo mesmo vários painéis, que o povo chama rciahtdus c mihif/res\ os 
quaes depositarei no Museu. E' fácil seguir, através da litteratura e 
da archeologia, a evolução dos donaria para os ex-votos christãos. Os 



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MUSKU ETHNOGRAPHfCO P0RTUUUÊ3 



205 



retábulos são análogos "ás tabulae votivae, de que falia Horácio, nos 

Carmina, i, 5: 

tabula sacer 

Votiva partes 

Diz Cicero, na Natura deorum, m, 37, que na Samothracia havia 
muitas tabulae piclae representando cumprimentos de promessas feitas 
á divindade por pessoas salvas de naufrágios. Este assumpto foi es- 
tudado com muito desenvolvimento no Dictionnaire des antiquités gre- 
cqnes et romanes de Daremberg & Saglio, s. v. dmmria. — Desde a 
Idade-Média se conhecem tabulae. votivae christãs: vid. Dictionnaire des 
origines du christiamsme, publicado por Migne, 1856, s. v. Num Fios 
sanctorum português, dos princípios do sec. xvi, existente na Biblio- 
theca Nacional de Lisboa (collccção de Reservados, a, 239), onde o meu 
collega o Sr. Gabriel Pereira m'o mostrou, ha uma biographia de S. 
Antão acompanhada de um* gravura em que se represêntão vários 
ex-votos (pernas, corações e uma mão). Creio já ter encontrado em 
igrejas milagres do scc. xvii; do sec. xvin tenho encontrado muitos. — 
O Christianismo nisto, como no mais, santificou o Paganismo; por isso 
não admira que por tantos modos estejamos vinculados ao passado. 

Pedras com inscripçoes funerárias são, d'entre os monumentos da 
epigraphia romana, as mais numerosas no nosso país. e contêm impor- 
tantes elementos para o conhecimento das instituições, da philologia, 
da história: vid. o Coipus Inscriptionum Latinaram, voL n, e o Sup- 
plemcnto. Grande número de vezes éstas pedras não encérrão unica- 
mente inscripçoes, mas estão afeiçoadas artisticamente, e cora symbo- 
los. Na Bibliotheca Nacional ha uma inscripção funerária do Algarve 
muito ornamentada. Em Carquere, na Beira- Alta, apparecêrâo umas 
pedras sepulcraes representando bustos humanos, das quaes fallei na 
Revista Archeologica, u, 113 sqq.: parte d'ellas estão no Museu de 
Guimarães, outra parto na collecção archeologica de meu primo Ma- 
noel Negrão, na sua quinta do Mosteiro. No Sul do reino conhecem-se 
curiosas sepulturas doliarcs ou em forma de pipa, que se podem obser- 
var no Museu de Évora, e no Museu do Algarve. Em Tras-os-Montes, 
como noutros pontos do Norte da Península, ha umas interessantes 
inscripçoes funerárias com uma roseta ou suástica flammejante. Conhe- 
ço sepulturas christãs, relativamente modernas, que se filião, ao que 
parece, nesta última forma. Merecem também especialissima men- 
ção os formosos túmulos do Museu do Porto e do Museu do Carmo, 
aquclle descrito pelo 8r. E. Augusto Allen numa Noticia publicada em 
1867 (vid. também uma estampa no Diário Illustrado de 20 de Ja- 
neiro de 1891), este estampado pela primeira vez no Elucidário de 
Viterbo, e depois no Boletim da Sociedade Archeologica do Carmo; 
cfr. também E. Húbncr, JJie Antilicn BUdiuerke, 335. A esta espécie 
de túmulos se liga o friso de Chellas, de que fallei a cima, e parece . 
que um baixo-relevo que existe no Museu de Elvas, e que foi estampado 
no Occidente, v, n. u 118. e na Revista Archeologica, m, 161. — Alguns 



206 



BXYISTA LUSITANA 



dos monumentos de qne acabo de fallar têm de' ir para o Museu Ethno- 
graphieo; d'outros podem obter-se reproducções em gesso, ou estampas. 

3) Vestuários e adornos. Para ésta secção podem obter-se 
pulseiras, anneis, contas, alfinetes, fivellas (fibulae), etc. Têm também 
cabimento aqui as considerações que fiz no cap. n, § 3. — Muitos dos 
nossos trajos modernos parecem-se com os antigos, ainda que nem 
sempre se possa estabelecer filiação. A gente das serras da Beira usa 
uma capa com um capús, chamada capucha; este vestuário tem muita 
semelhança com o cucullus romano. O chapéu da cabeça é análogo ao 
petasus romano, que tem origem grega. A carapuça (barrete) e o ca- 
rapuço parecem-se bastante com algumas fórmas do pileus. As calças 
têm o seu prototypo nas bracae e nas saraballae ou sacabarae. Os cal- 
ções lembrão a feminalia ou femorália. Os çapatos representão os cal- 
cei. As botas de montar assemelhão-se aos cothurni. 

Os anneis, como outros objectos de ornato ou de uso, são frequen- 
temente ao mesmo tempo objectos de religião, pois os Romanos cos- 
tamavão trazer nelles pedras de virtude ou imagens de deuses, ou cos- 
tumavão fazê-los de substancias consideradas como maravilhosas. Te- 
nho visto muitos anneis nestas condições; na Bibliotheca Nacional ha 
dois, feitos, segundo creio, de pedras maravilhosas; eu possuo um de 
prata, com a figura de Marte e possúo outros com pedras gravadas; 
no Museu do Algarve estão vários anneis romanos. Nas collecções par- 
ticulares não faltão elles também: especializarei a do meu amigo o 
Sr. Dr. Teixeira de Aragão, que já em tempo publicou uma memoria 
sobre Anneis em geral. — Os anneis modernos são evidentemente con- 
tinuação dos anneis antigos; os próprios anneis de virtude antigos 
estão hoje representados no nosso povo pelos anneis da fava, da unha 
da grã-bêsta, de aço, de cornalina. 

O Museu do AJgarve possue muitos elementos para ésta secção. 

4) Oeramioa, vidros, mosaicos, e tudo o que se rela- 
oiona com a vida doméstica e agrícola. Seria muito difficul- 
toso fazer aqui sequer um esboço d'esta secção. Basta tocar em alguns 
pontos. 

Já acima foliei de mosaicos. Melhores ou peores é fácil obter 
muitos, sobretudo no Sul do país. O Museu do Algarve, o das Janel- 
nas Verdes e ainda o da Bibliotheca Nacional possuem fragmentos. O 
Algarve é principalmente a região dos mosaicos; elles offerecem diffe- 
rentes pinturas. 

Os mencionados Museus contêm igualmente numerosos exempla- 
res de cerâmica e de vidro. O barro vermejho fino da epocha romana 
é cohhecido entre nós pelo nome de sagwntino (cfr. sobre elle Hubner, 
La Archeologia de Espana, 1888, pag. 184). Muitos objectos de barro, 
quer vasos, quer tijolos ou telhas, estão marcados; estas marcas figu- 
linas são também interessantes. 

Um dos meios mais vulgares de reconhecer entre nós as estações 
romanas são as telhas de rebordo, que os Romanos chamavão tegiâae, 
e m apresentão de cor vermelha ou branca (lembrão as telhas de Mar- 



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MUSEU ETHN0GRAPH1C0 PORTUGUÊS 



207 



selha). Infallivelraentc se encontrão perto das estações romanas fra- 
gmentos (Testas telhas. Tegiáae inteiras são raras, inas tenho-aá já en- 
contrado, por exemplo, num monte ao pé de Lagos, e numa quinta no 
Baixo-Douro. Já uma vez, guiado pelo apparecimento de fragmentos íe 
telhas de rebordo, num caminho, fui andando, até que encontrei uma 
ara romana com inscripção, — a única que poí ora se conhece do con- 
celho do Cadaval. Ao Sr. Martins Sarmento, segundo elle me diz, tem 
acontecido muitas vezes factos semelhantes. 

Juntamente com as telhas de rebordo apparecem a cada passo 
pesos de barro (pondera), que aiFectâo várias fórmas. 

Os Romanos não tinhão só telhas de rebordo, tinhão-nas também 
curvas, como as de hoje, chamadas imbrices, no singular imbrex, de 
cujo deminutivo im-briculus veiu a palavra brelho ou breflho, usa- 
da no Minho na significação de «tijolo». 

Tanto de imbrices, como de tegiãae e de pondera ha já muitos 
exemplares para o Museu Ethnographico. 

Entre os objectos de barro mencionarei aqui as lucernae ou can- 
deias. Ha-as também de metal, como uma, apparecida em Cintra, que 
comprei para a Bibliotheca Nacional. As lucernas de barro que podem 
desde já ir para o Museu offerecem muitas variedades nas figuras que 
contêm; algumas sã9 marcadas; na collecção de Estácio da Veiga es- 
tava uma com inscripção grega, já actualmente guardada no Museu 
Ethnographico. 

Merecem igualmente menção as amphoras. A Bibliotheca Nacio- 
nal possue tres, muito boas, sendo duas já antigas no estabelecimento, 
e outra (com tampa) comprada por mim, num leilão, com outros obje- 
ctos archeologicos, para a Bibliotheca. Na collecção algarvia também 
ha algumas. 

Os exemplares de vidro mais vulgares são os chamados laerima- 
tórios. Temos também nos Museus do Algarve e da Bibliotheca outros 
objectos de vidro. Como collecção particular é notável em vidros ro- 
manos a do Sr. Teixeira de Aragão. 

Nas estações romanas, como a Quinta da Torre de Ares (Al- 
garve), têm apparecido tubos de metal e de barro que certamente ti- 
nhão applicaçào no campo. Vestígios de fórnos de tyolo, ás vezes ainda 
com escórias, são igualmente frequentes. Ha ainda instrumentos, como 
picaretas, terebrae, mós de moinho, clavi òu prégos, — etc., etc. 

5) Armas. Podia fazer aqui considerações análogas ás que fiz 
no cap. ii, § 4. 

Nas estações antigas encontrãq-se ás vezes lanças. Todavia na 
secção de armas não conheço muitas cousas na nossa archeologia. 

A Bibliotheca Nacional possue algumas glande* de chumbo. As 
glandes érão balas ou projecteis arremessados por intermédio de fun- 
das. Diz Vergilio, Eneida, vn, 686 : 

pars máxima glandes 

Liventis plumbi spargit. 



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REVISTA LUSITANA 



As mais vulgares devião ser de pedra; ettecti vãmente tenho en- 
contrado nas estações archeologicas pedras, geralmente seixos rolados, 
que podiáo ter servido para isso. Na antiguidade gosavão de muita- 
fama os fnndibularios hispânicos; lá diz também Vcrgilio, Georgiceis, 
i, 309: 

Stuppea torquentem Balraris verhora fundeie. 

As glandes têm ás vezes inscripções. No nosso país nunca encon- 
trei nenhuma assim. — Sobre o assumpto veja-se um trabalho publicado 
na Ephemeris epigraphica, vol. vi (1885), com o titulo de Glandes plutn- 
beae latine inscriptae, por Zangmeister. — As fundas são ainda hoje usa- 
das no Algarve pelos pastores. 

6) Moedas. As que ha no Museu do Algarve e no Museu das 
Janellas Verdes, as quaes devem ir para o Museu Ethnographico, são 
bastante numerosas, posto que em geral pouco importantes. 

No nosso país apparecem a cada passo moedas romanas, sobre- 
tudo do Império. Depois das telhas de rebordo, ou juntamente com 
ellas, são as moedas o melhor meio de indicar ao observador estações 
romanas. 

7) Objectos diversos. Para abreviar, incluo sob está designa- 
ção os monumentos epigraphicos, as esculpturas. c em fim todos os 
documentos artísticos ou industriaes que não tivérão entrada nos §§ 
precedentes. 

IV 

EPOCHA BARBAItA 

Denomina-sc assim a epocha que decorre desde as invasões dos 
Bárbaros, no sec. v, até á invasão dos Árabes, no sec. viu. No sec. v 
muitos povos bárbaros invadirão a Península, sendo a maior parto de 
raça germânica, como os Suevos, os Vândalos \eom os Silingos), os 
Wisigodos, outros de raça scythica, como os Alanos. Todos estes povos 
se distribuirão por diíferentes pontos. Adoptarão cá a pouco e pouco 
a civilização romana e a christã. 

Da história peninsular dos Bárbaros dão -nos importantes notícias 
alguns auctores contemporâneos, taes como Paulo Orosio, Idacio, Isi- 
doro Pacense, S. Isidoro de Sevilha, e outros. 

A archeologia d'esta epocha é bastante pobre; por isso me abste- 
nho de estabelecer §§, como fiz a propósito das antecedentes. 

E' principalmente com mofiumentos epigraphicos christiano-lati- 
nos que se ha-de preencher no Museu Ethnographico a respectiva sec- 
ção. A' cerca doesta espécie de monumentos vid. lutcriptíones Hispa- 
nieie Chrv*tiemae de E. Hubner, Berlim 1871. No seu livro Antigui- 
dades de Mértola, Lisboa 1880, incluo também Estácio da Veiga des- 
cripções e estampas de muitos monumentos wisigothicos. Alguns de 
taes monumentos, que fazião parte de sepulturas, aclião-se no Museu 



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MUSEU BTHNOGRAPHIOO PORTUGUÊS 



209 



do Algarve e outros fôrão comprados para o Museu Ethnographico 
á família de Estácio da Veiga. 

Entre os monumentos myrtilenses descritos por Estácio da 
Veiga ha um mármore christão com uma inscripção em caracteres 
gregos; esta inscripção é muito curiosa, já paleographicamente, já 
porque testemunha, como se diz no citado livro, pag. 199, a existên- 
cia do elemento byzantino nesta parte do nosso país. De facto os By- 
zantinos, attrahidos cá por occasião das dissenções intestinas dos Wi- 
sigodos, entrárão na Península no sec v . vi, em tempos de Athanagildo, 
sendo definitivamente expulsos d'clla só no sec. vu, por Suinthila. 

Ao lado dos monumentos epigraphicos, e de outros objectos que 
haja no Museu do Algarve (taes como fragmentos cerâmicos, etc), 
pôde o Museu Ethnographico archivar moedas pertencentes á epocha 
de que, estou- fallando, pois, como é sabido, os Suevos e os Wisigo- 
dos, imitando o systema monetário romano (e byzantino), cunhárão 
moedas na Península. A obra- mais completa sobre numismática wisi- 
gothica é a de Heiss, Description générale des monnaies des rois urisi- 
goths dJEspagne, Paris 1872. Sobre as moedas dos Suevos tem o mes- 
mo auctor um trabalho na Revue de Numismatique, 1891, pag. 146 
sgg., onde, em nota, indica a bibliographia do assumpto. Já antes de 
Heiss, como elle nessa nota confessa, havião publicado os Srs. Eduar- 
do Augusto Allen e Henrique Nunes Teixeira um artigo na citada 
Revista, vol. x, 1865, do qual se fez edição em separado, — Mormaies 
cCor siiévo-liisitaniennes, folheto de 15 pag., com uma estampa. Tanto 
o artigo de Heiss, como este ultimo, se referem a umas curiosas moe- 
das que por ora só se têm encontrado em Portugal, e que, por várias 
razões históricas, se attribuem aos reis Suevos da Gallaecia e da Lu- 
sitânia. Taes moedas constituem outra particularidade notável na his- 
toria do Occidente da Península. 



% • V 

EPOCHA ÁRABE 

Por motivos que não vem a propósito desenvolver, mas que em 
parte são análogos áquelles que chamárão para cá no sec. vi os By- 
zantinos, a Península foi invadida no princípio do sec. viu pelos Ára- 
bes, entre os quaes vínhão povos de diversa origem, abundando po- 
rém Africanos, por isso que os Árabes tinhão, pouco antes, subjugado 
o Norte da Africa. A abundância de Africanos fez que entre nós vul- 
garmente se chamassem Mouros os Árabes; nem o povo conhece ainda 
hoje outra denominação senão aquella. 

Não era então a primeira vez que na Península entravão ele- 
mentos semíticos e africanos. Sem remontarmos aos Carthagineses e 
a outros povos d' Africa, com os quaes necessariamente os Hispanos 
em tempos remotos devião ter estado em contacto, sabemos que na 

Bfcv. lusit., vol. in, faeo. 3. 2 



210 



REVISTA LUSITANA 



epocha romana os Mouros fizerão incursões por cá. Da raça semítica 
havia cá também elementos antigos, os Judeus, e- outros anteriores, 
os Phenicios. 

O conhecimento (Testes diversos elementos ethnicos pôde expli- 
car certas sobreposições e affinidades. Nos Judeus peninsulares, por 
exemplo, cuja existência era já antiga cá, achárão os Árabes um au- 
xilio na lueta com os Wisigodos. 

Depois da batalha de Guadalete, em que os Wisigodos fôrão ven- 
cidos, as armas sarracenas proseguirão victoriosas na conquista da 
Hispânia, e em breve a civilização dos crentes do Islam, muito supe- 
rior á dos crenteâ da Cruz, senhoreava boa parte da Peninsula, não 
obstante a resistência dos que, havendo-se refugiado nas Astúrias, 
d'ahi começárão a reconquista e dérão origem á monarchia leo- 
nesa. 

As profundas diferenças, nas raças, nas línguas, nas religiões, 
nos costumes, entre os Hispano-Godos e os Árabes impedião que de 
parte a parte se estabelecessem fusões tão completas e tão extensas 
como entre os Godos e os Hispano-Romanos, ou como entre os Roma- 
nos e os Hispanos. D'aqui a existência de dois grupos principaes de 
populações na Peninsula durante a epocha de quq estou fallando : Ára- 
bes (com os Judeus) e Christãos. Todavia muitos Hispano-Godos, sem 
abandonarem a sua religião nem as sua^s leis civis, havião aceitado a 
dominação dos Árabes, vivendo entre elles, e ás vezes mesmo ligan- 
do-se com elles, e adoptando-lhes os trajos, os costumes, a lingua, a 
civilização em fim: erão os Mosarabes. 

Alexandre Herculano, que na Historia de Portugal, iii (3. â ed.), 
pag. 171 sgg., estudou admiravelmente este grupo social, attribue-lhe 
grande importância na propagação da civilização mussulmana na Pe- 
nínsula, pois que os Mosarabes servião de intermédio aos Árabes e ás 
populações christãs. 

Da civilização mussulmana ou árabe restão ainda hoje na civili- 
zação portuguesa bastantes vestígios, nos typos ethnicos, na lingua, 
nos trajos, nas tradições, nos costumes. Parece que será no Sul, e so- 
bre tudo no Algarve, que esses vestígios mais abundão. Quando, de- 
pois que acabou o califado de Cordova, a Hispânia mussulmana se di- 
vidiu em Taifahj ou pequenos reinos independentes, Silves e Santa 
Maria (Algarve) forão capitães de dois. 

De monumentos e outros restos materiaes do tempo dos Árabes 
também alguma cousa existe ainda no nosso solo, por exemplo na Ex- 
tremadura, no Alemtejo e no Algarve, posto que não tenhão compara- 
ção possível com o que existe na Hespanha. 

Esta secção pode ficar representada no Museu Ethnographico 
principalmente com o seguinte, que Estácio da Veiga recolheu, e que 
deve existir no Museu do Algarve, depositado na Academia de Bel- 
las- Artes: 

1) Uma pia de mármore braneo com inscripção cufica, mo- 
numento encontrado no concelho de Villa-Real de S. Antonio, 



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MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS 



211 



2) Vários monumentos epigraphioos, de diversas proce- 
dências. 

3) Louças. A louça árabe, comparada cora as que se conhecem 
de epochas anteriores no país, offcrece uma novidade : é o vidrado., 
Fallando de achados archeologicos em Valle do Caranguejo, entre 
Tavira e Villa-Keal, diz Estácio da Veiga, nas Antiguidades do Algar- 
ve, ii, 422: tfragmentos da typica louça vidrada que os Árabes fabri- 
caram na Peninsula, onde até então era desconhecido o processo da 
vidragem da louça». 

No Museu do Algarve recolheu elle muitos fragmentos de louças 
lisas, vidradas de varias côres, esmaltadas, ornamentadas; uma botija 
com vidrado côr de mel; uma taça de barro vidrado, também côr db 
mel, pintada de preto; diversas vasilhas inteiras, sendo uma delias 
um vaso com duas asas, pintado de listas brancas, proveniente de 
Lagos. * 

A respeito de Mértola escreve o mesmo archeologo nas Antigui- 
dades de Mértola, pag. 146 : «Do muito que em Mértola se poderia ainda 
apurar, pouco resta já da epocha árabe», — e menciona só o seguinte 
com relação a cerâmica (pag. 35-36): 

«Fragmento de grande vaso de argilla amarellada, externamente 
ornamentado em relevo, no estylo árabe, ou antes hispano-mahome- 
tano»; 

«Fragmento muito espesso de grande vaso de argilla ligeira- 
mente avermelhada, com relevo ornamental no estylo hispano-maho- 
metano, vidrado de verde escuro > ; 

«Dois fragmentos, que se ligam, de um vaso de largo fundo acha- 
tado, medindo de altura 0 m ,035. E' internamente vidrado de verde es- 
curo, e por fora de amarello esverdeado, sendo a sua massa cerâmica 
semelhante na côr e contextura á dos fragmentos antecedentes» ; 

«Fragmento de fundo de um vaso de argilla, similhante aos an- 
tecedentes na côr e contextura do barro, com vestígios de vidrado côr 
de mel no lado externo, e de amarello claro internamente» ; 

«Fragmento de fundo de vaso de argilla com externo vidrado 
côr de mel sobre reflexos escuros, parecendo pertencer á classe dos 
artefactos «eramographicos hispano-mahometanos». 

Na Bibliotheca Nacional ha em depósito muitos fragmentos de 
louça árabe vidrada e com muitos e graciosos ornatos em relêvo. To- 
dos elles provierão do Algarve, e podem passar para o Museu Ethno- 
graphico. 

4) Candeias. No Algarve apparecem com frequência candeias 
árabes de barro, que lembrão as lucernas romanas ; mas, além de terem 
o bico (latim myxa) mais comprido, semelhante a um bico de pato, e 
a asa mais desenvolvida que as romanas, têm também mais alta, for- 
mando gargallo, a parte por onde se deitava o líquido. 

Possuo duas quasi inteiras, ainda com algum vidrado, que se 
achárão no Castello de Faro, e me fôrão offerecidas naquella cidade pelo 
Sr. Dr. Coelho de Carvalho; posso depositá-las no Museu Ethnogra- 



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212 



REVISTA LUSITANA 



phico. Na collecção archeologica da Bibliotheca Nacional ha algumas 
(Testas candeias, umas pertencentes ao estabelecimento, outras ahi em 
depósito. Estácio da Veiga encontrou muitas no Algarve. 

Neste particular o Museu Ethnographico fica sufficientemente 
provido. 

5) Azulejos. Estácio da Veiga recolheu alguns no Museu do 
Algarve. Pelo país ha muitos azulejos em relêvo, vidrados e de várias 
cores, que é costume chamar hispano-arabes; mas torna-se difficil pre- 
cisar a data d'elles. 

Ainda hoje em Lisboa se fabricão, por imitação, azulejos análo- 
gos áquelles. 

6) Moedas. As moedas árabes são outra espécie archeologica 
vulgar no Sul. Tenho visto muitas no Algarve, principalmente de prata 
quadradas. 

A' cerca das moedas de prata, áfehadas no Castello de Mértola, que 
devem existir no Museu do Algarve, lê-se nas Memorias de Meiiola 
de E. da Veiga, pag. 39: «Moedas de prata de dois módulos quadra- 
dos, com legendas em ambos os lados, semelhantes ás de Almodôvar, 
descritas, traduzidas e offerecidas á Real Academia de Historia, em 
1800, pelo académico Fr. José de S. Antonio Mourai. O artigo de 
Fr. José de S. Antonio vem nas Memorias da Academia Reid das 
Sciencias, vol. x, parte l. a 

Os Árabes, como é sabido, cunhárão moeda na Península. As 
moedas árabes são de ouro fdináres, semi-dináres, terços de dinar), de 
prata (dirhemes, kirates) e de cobre (felúses). Também as ha de electro. 
As moedas árabes têm várias fórmas. As de que falia Estácio da Veiga 
são pequenas moedas de prata quadradas. No seu Tratado de numis- 
mática arábigo-espanola, Madrid 1879, diz D. Francisco Codera: tEsta 
tendência para a fórma quadrada é muito característica das moedas 
almohades e posteriores arabigo-espanolas» (pag. 218). 

Na Bibliotheca Nacional ha moedas de ouro, de prata e de co- 
bre; todavia esta collecção faz parte integrante do estabelecimento, 
não pôde deslocar-se. 

7) Objectos diversos. Estácio da Veiga encontrou ainda pelo 
Algarve outros objectos que não posso descrever meudamente, como 
cimentos para construcções, e alcatruzes de barro. D'estes últimos diz 
nas Antiguidades do Algarve, n, 422: «tenho notado haver nas terras 
cultivadas muitos fragmentos de uns alcatruzes de barro amarellado, 
com canelluras estreitas em relêvo, semelhantes aos alcatrazes inteiros 
que em Silves fôrão extrahidos da cisterna dos Cães, e de que tenho 
depositado no museu alguns exemplares». 



Apezar do explendor que a civilização árabe attingiu entre nós, 
e da importância que ella teve para a nossa civilização, o que resta 
para preencher no Museu Ethnographico a secção respectiva é exces- 
sivamente pouco, limitando-se de mais a mais quasi tudo a fragmentos. 



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ítJSÊU ETtfNOGâAPtílCO PORTUGUÊS 213 

Esta pobreza coincide com o abandono a que os estudos árabes 
têm sido votados em Portugal, onde nem sequer uma cadeira de lín- 
gua árabe existe 1 

Alguns mancebos estudiosos tentão actualmente despertar entre 
nós o gosto e o interesse pelos assumptos semíticos. Assim não esmo- 
rêção no seu útil e louvável emprehendimento I 

Se o Governo o ajudar, o Museu Ethnographico fará também por 
augmentar o pecúlio dos objectos archeologicos neste ramo. 



VI 

EPOCHA PORTUGUESA PROPRIAMENTE DITA 
(Desde a Idade- Média até o século xvm) 

Esta epocha subdivide-se em duas: uma, desde a Idade-Média até 
a Renascença; outra desde a Renascença até o século xvm. 

O fundamento da divisão está em que do século xv em deante a 
vida portuguesa experimentou novo abalo, começando a ser mais com- 
plexas as nossas relações sociaes, mais intensa a nossa civilização. As 
relações com os paises de além-mar influirão nas artes, nos hábitos, 
nas mobílias e mais aprestos caseiros, nas comidas, nos trajos, etc. 
Começa também a transfundir-se novo sangue no nosso, em virtude da 
assimilação que fizemos dos povos descobertos e conquistados. 

Já nos capítulos precedentes fallei de diversas camadas ethnicas 
que se sobrepuserão no nosso solo, até os princípios da Idade-Média. 

No período em que Portugal se separa de Leão, e principia a de- 
finir-se politicamente, para o que concorrem, de um lado condições 
orgânicas, do outro o esforço dos seus homens políticos, são estes os 
elementos que constituem a população portuguesa : Hispano Godos, que 
provinhão da assimilação dos Bárbaros aos povos preexistentes na 
Península, e se dividião em Mosarabes e em Hispano-Godos propria- 
mente ditos, isto é, puros de servidão; Sarracenos, que, como disse, 
se compunhão de muitos elementos ethnicos; Judeus; colónias vindas 
d'além dos Pyreneus em diferentes epochas, e que formárão muitas 
povoações, como Atouguia, Yilla- Verde, Lourinhã, Azambuja, Cezim- 
bra, Ponte-de-Sor, e ainda se estendêrão pelo Norte. Devem-se a Ale- 
xandre Herculano algumas bellas paginas a respeito d'estas colónias. 
Os povos que as formavão recebêrão o nome comum e vago de Franci. 
•A influencia do elemento franco na povoação das nossas províncias, 
especialmente nas da Extremadura e do Alemtejo, — diz o grande 
historiador, na Historia de Portugal, ui (3. a ed.), pag. 220 — , foi muito 
mais importante do que em Leão, porque se associou ao povo e con- 
tribuiu para augmentar a extensão e a força dos grémios municipaest. 

Com as conquistas além mar, se a população do continente se dif- 
fundiu e gastou, por outro lado recebeu em si e absorveu elementos 
ethnicos de muitas e diversas origens, com os quaes se alterou. 



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214 



fcEVISTA LUSÍTAKA 



Dizia Nicoláo Clenardo numa das suas cartas, — Nicolai Clenardi 
EpisUâarmn libri duo, Hanoviae 1606, pag. 20 — , que Portugal no sec. 
xvi estava tão cheio de Negros e Mouros, que parecia que ein Lis- 
boa havia mais escravos e escravas do que Portugueses livres. Dando 
o devido desconto ao exaggêro, são porém aquellas palavras dignas 
de reparo. E o augmento da gente estranha não era só em Lisboa, 
era também, e naturalmente, nas provindas. Do testamento de uma 
rica dama eborense do sec. xvi. extractado pelo St. Gabriel Pereira 
nos seus Estudos Eborenses, n.° 15, Évora 1888, consta que ella tinha 
em sua casa, como diz o Sr. Pereira, «um grupo de serviçaes de dif- 
ferentes raças, que dão idea de uma collecção anthropologica* : efe- 
ctivamente nesse testamento mencionão-se escravos ou criados indios, 
mouriscos, chineses, mulatos, pardos, além de um branco e de cinco 
cuja raça se não indica. 

Fallando do desfalque da população, por causa das conquistas, 
escrevia no sec. xvn Severim de Faria, — Discursos vários políticos ', 
1.°, § 2: «D'aqui veiu o ser necessário trazerem-se Cafres e índios 
para o serviço ordinário. E já em tempo de D. João m passava isto em 
tanto crescimento que diz Garcia de Resende numa copla da sua Mis- 
céllania : 



«Vemos no Reyno metter 
Tantos cativos, crescer, 
E irem-se os naturaes, 
Que se assim fôr, serão mais 
Elles que nós, a meu ver». 



No século xviu o marquês de Pombal povoou de Africanos uma 
terra nas margens do Sado. 

No século actual, e no tempo presente, vemos a cada passo não 
só gentes do Ultramar, sobre tudo da índia e da Africa, virem para a 
metrópole e cá ficarem e se propagarem, tomo também Portugueses, 
que vão para esses e outros pontos e para o Brazil, voltarem de lá 
casados com indígenas. 

Taes mestiçagens e cruzamentos explicão algumas das variedades 
de typos ethnicos que existem no país, e também por ventura, em 
parte, certas modificações que ha uns séculos para cá se notão no nosso 
caracter. O conhecimento dos principaes elementos constitutivos do 
povo português torna-se pois assumpto obrigado, como introducção de 
um inventario de ethnographia; por isso fiz a breve indicação que 
acabo de fazer. 



Restringindo-me agora ao meu campo, direi que, em virtude das 
considerações que apresentei acima, muitos objectos que poderião ficar 
no Museu Ethnographico ficarão melhor, ou pelo menos têm também 
cabimento, noutros Museus, por exemplo no de Bellas- Artes c no de 
Artilharia, nos quaes já se áchão bastantes, e d'onde, nas circumstan- 
cias presentes, não convém deslocá-los. Estão nesse caso : de um lado, 



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tíUSEÚ ETHNOGfíAPHICO PORTUGUÊS 215 

objectos de ourivezaria, metaes preciosos, jóias, imagens de santos, 
alfaias ecclesiasticas, esculpturas decorativas, mobília, cerâmica, tape- 
tes, illuminuras, sellos, sinetes, etc.; do outro lado, armamentos, estan- 
dartes, etc. 

Mas resta muita cousa que pôde ainda adquirir-se para o Museu 
Ethnographico, sem fallar no que deve reproduzir-se por estampas, 
moldes, etc. 

De facto a nossa archeologia, no período de que estou faltando, 
isto é, no que decorre desde a Idade-Média até o século xvm, 'dá 
immenso que estudar. Não podendo aqui sequer fyzer uma resenha do 
que ha no país, remetto o leitor para as obras especiaes, entre as 
quaes pôde, por exemplo, consultar as seguintes modernas: 

Catalogo Mostrado da exposição retrospectiva de arte ornamental, 
Lisboa 1882, 2 vol. (texto e estampas); 

Monumentos de Portugal históricos, artísticos e archeologkos, por 
Vilhena Barbosa, Lisboa 1886; 

Portugal Pittoresco, por Augusto Mendes Simões de Castro; 

Les arts en Portugal, pelo conde de Raczynski, Paris 1846; 

Die Baukunst der Renaissance in Portugal, por Albrecht Haupt, 
Frankfurt 1890; 

Montmentos Nacionaes, por Mendes Leal, Lisboa 1868; 

Reliquias da architectura romano byzantina em Portugal, por A. 
Filippe Simoes, 1870; 

Da architectura religiosa em Coimbra durante a idade-média, pelo 
mesmo, 1875; 

Escriptos diversos , pelo mesmo, 1888; 

Lisboa antiga, pelo Visconde de Castilho (Julio), 1879-1890; 

A Ribeira de lAsboa, pelo mesmo, 1893; 

O Mosteiro da Batalha em Portugal, pelo visconde de Condeixa; 

O Minho Pittoresco, por J. Augusto Vieira, 1886-1887; 

Catalogo provisório da galeria nacional de pintura (com uma in- 
troducção pelo Marquês de Sousa Holstein); 

Catalogo do Museu Archeologico do Carmo; 

Catalogo do Museu do Instituto de Coimbra; 

Catalogo do Museu Cenáculo, por Filippe Simões; 

A antiga eschola portuguesa de pintura, por J. C. Robinson (tra- 
ducção), 1868. 

Portugal antigo e moderno, por Pinho Leal & Pedro Augusto Fer- 
reira, 1873 : 1890; 

Historia de Portugal, por Pinheiro Chagas; 

Estudos Eborenses, por Gabriel Pereira; 

Artes e artistas de Portugal, por Sousa Viterbo, 1892 ; 

muitos jornaes litterarios, já da especialidade, como o Boletim da 
Associação Archeologica do Carmo, o Antiquário, a Revista Archeo- 
lógica, a Arte Portuguesa, já de caracter geral, como o Panoi amà, o 
Archivo Pittoresco, o Occidente, a Revista Illustrada, etc, etc.; 

e outros livros de historia e archeologia locaes, além dos que já 



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âl6 



citei. A menção de todos seria muito longa. Lembrarei no emtanto 
alguns modernos: 

O concdho de Elvas (em publicação), por Victorino d' Almada; 

Apontamentos para a historia do Fundão, por J. Germano da Cu- 
nha, Lisboa 1892; 

Compendio de noticias de Vitta- Viçosa, por Padre Rocha Espanca, 
Redondo 1892; 

Os opúsculos do Abbade Castro e Sousa, sobre Belém, Cintra, 
Pena, etc. e o Itinerário feito pelo mesmo auctor; 

Materiaes para a historia da Figueira nos sec. XVII e XV11I, 
por A. dos Santos Rocha, Figueira 1893; 

Monographia de Castello Branco, por Antonio Roxo, Elvas 1891; 

Estudos sobre Montemòr-o-Novo, por Lopes Praça, Coimbra 1873; 

Monumentos das ordens militares de Thotnar, por J. Antonio dos 
Santos, Lisboa 1879; 

Alemquer e o seu concelho, por G. João Carlos Henriques, Lisboa 
1873; , 

Annaes de Sanct-Yago de Cassem, pelo Padre A. de Macedo e 
Silva, Beja 1866 e Lisboa 1869 (2.* ed.); 

Memorias da villa de Oleiros, por D. João M. Pereira d' Amaral o 
Pimentel, Angra 1881; 

Esboço histórico de Vãla Nova de Ourem, por J. das Neves Go- 
mes Elyseu, Lisboa 1868; 

Apontamentos para a historia ãe Cascaes, por Pedro Lourenço de 
Seixas B. Barruncho, Lisboa 1873; 

Descripção de Villa Nova de Oaya, por Monteiro de Azevedo & 
Rodrigues dos Santos, Porto 1861; 

Memoria do mosteiro de Leça, por A. Carmo Velho de Barbosa, 
Porto 1852; 

O monumento de Mafra, por Conceição Gomes, Lisboa 1871; 
Monumentos e lendas de Santarém, por Zephyrino Brandão, Lis- 
boa 1883; 

Historia da cidade e bispado de Lamego, por D. Joaquim de Aze- 
vedo, Porto 1878; 

Descripção de Torres Vedras, por Madeira Torres (2. a edição), 
Coimbra 1861; 

Memorias da viUa do Barreiro, por J. Augusto Pimenta, Lisboa 
1886; 

Memoria sobre Setúbal, por Alberto Pimentel, Lisboa 1879; 
Guimarães, pelo Padre Ferreira Caldas, 2 vol., Porto' 1881-1882; 
Tàgilde, pelo Abbade Oliveira Guimarães, Porto 1894. 
Alguns dos livros e jornaes citados contêm também noticias a 
respeito de outras epochas da história da civilização portuguesa. 



Para preencher ijo Museu Ethnographico a respectiva secção ha 
ainda muito pouco : apenas algumas pedras com inscripções, e umas 



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MUSEU ETHN0GRAPHIC0 PORTUGUÊS 217 



esculpturas, que Estácio da Veiga recolheu no Museu do Algarve; e 
todavia torna-se fácil em pouco tempo, logo que o Governo dê para 
isto uma verba, embora modesta, fazer uma razoável collecção de 
objectos archeologicos portugueses. v 



VII 

EPOCHA PORTUGUESA MODERNA 

Parte dos objectos que vão ser enumerados podem ^também per- 
tencer a um museu de bellas-artes, a um museu industrial, a um mu- 
seu agrícola, etc, em virtude do que eu disse a cima; no emtanto não 
deve deixar de se fazer aqui à menção geral, embora haja sempre de 
se ter na mente que os objectos que principalmente se buscão num 
museu ethnographico são os de significação característica e antiga, 
isto é, os que estão radicalmente relacionados com a vida popular, 
fazendo parte integrante djella, e contribuindo para revelar e explicar 
as tendências e aptidões do povo que os usa. 

* 

A's variedades geológicas, climatéricas, anthropologicas do nosso 
país correspondem variedades ethnographicas, pois a vida social regu- 
la-se quasi sempre pelas condições naturaes. 

No Minho, — como província mais rica em vegetação e mais hú- 
mida, pelas suas condições de latitude — , é onde domina o gado bo- 
vino, que ajuda o homem nos trabalhos campestres. Ahi achamos tam- 
bém curiosos factos ethnographicos ligados com a vida agrícola: su- 
perstições com o boi, por cuja bôca, tida como sagrada, se fazem ba- 
fejar as sementes antes de as lançarem á terra; adivinhas populares 
e cantigas cujo thema é o campo; e esses interessantíssimos jugos e 
cangas que só se encontrão lá, variados nos seus ornatos, conforme 
as localidades, e com allusões a crenças religiosas. O systema das vi- 
des de enforcado, isto é, das vides que crescem abraçadas ás arvores 
(uveiras), — podendo dizer-se como Varrão, De re rústica, XI, n, 79, 
tilmi vitibus maritantur—, dá origem no Minho a costumes especiaes 
de vindima, que não se encontrão noutros sitios, onde o cacho se cria 
em vinhas e vinJiagos, e não em uveiras. 

O milho cultiva-se principalmente no Minho e na Beira. Além do 
aspecto de paisagem que elle imprime aos campos, a sementeira e a co- 
lheita constituem na vida das povoações episódios variados. A semen- 
teira, em alguns sitios, chama-se vessada, — do latim versata, parti- 
cipio do verbo versare, «revolver a terra» — , e os dias em que ellas se 
fazem são na Beira- Alta, em cada família, dias de festa e de movimento, 
em que todos os trabalhadores vão alegres para o campo, e de lá voltão 
dando vivas aos donos das lameiras e lameiros, — pois assim se chámão 



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218 



REVISTA LUSITANA 



os terrenos onde numa epocha do anno se cria o milho, e na outra as 
pastagens para os bois, terrenos ordinariamente situados junto de agua, 
e por isso alagadiços, d'onde a origem dos nomes. Na Estremadura a 
palavra lameiro tem significação mui diversa, pois quer dizer tsítio 
cheio de lama», o que na Beira se denomina lamaço e lamaçal. — A*- 
esfolhada e debulha do milho, aos serões, provocão nas raparigas e 
rapazes musicas e cantigas ; e os empilhamentos das cannas junto das 
brancas e largas eiras, em medas, que como que fórmão altás pyrami- 
des, produzem um dos mais curiosos enfeites das vivendas ruraes. 

Nas zonas montanhosas de Tr&s-os-Montes e da Beira nascem os 
castanheiros. Nada mais grandioso na nossa flora do que essas arvo- 
res seculares e gigariteas, que o viajante admira no districto de Villa- 
Real, ou á entrada da cidade da Guarda, agrupadas em soutos! A casta- 
nha introduz modificações nos hábitos alimentares, pois pôde comer-se 
crua, assada, cozida, em caldo, pilada, e até constituindo uma espécie de 
bolas, que se vendem nas feiras beiras com o nome de falachas. A cas- 
tanha cozida substítue frequentemente, na alimentação dos pobres, ou- 
tros pratos. Nos conventos o caldo de castanhas era comida obrigada 
em certos dias solemnes. E' ainda com castanhas que se fazem os ma- 
giistos, no dia de Todos-os-Santos, costume muito vivaz e espalhado 
na Beira, apezar de, como penso, se ligar com o antiquíssimo culto 
dos mortos: o magusto é uma vasta e festiva fogueira em que se 
ássão castanhas, geralmente ao ar livre, no campo, com a qual se 
prendem várias usanças populares. Aqui está um bom exemplo das ín- 
timas relações da ethnographia com a geographia. Mas não se limita 
a isto a influencia da Castanea vtãgaris na vida social do nosso povo. 
Conheço alguns contos que se referem ás tocas dos velhos castanhei- 
ros; a litteratura poética oral offerece adivinhas que têm por assum- 
pto a corpulência cTessas arvores, o ouriço e a castanha ; a boneca con- 
stituo um meio supersticioso de prever o futuro; e ainda as crianças 
fazem das vergonteas, quando cheias de seiva, umas gaitas particula- 
res. Nçnhum d ? estes factos se pôde observar fóra das regiões casta- 
neíferas ; elles dão pois pbr si caracter ás localidades. 

A parte raiana da província de Tras-os-Montes abunda em ce- 
reaes. As grandes ceifas não só deslocão muita gente, o que origina 
transmissão de costumes, mas, como têm o cunho da antiguidade e da 
persistência, fazem que se conservem certos hábitos, cujo estudo mui- 
to interessa. Exemplos da transmissão de costumes temo-los nas xaca- 
ras populares, como mostrei no Romanceiro português, Lisboa 1886, 
pag. 5 ; exemplos de conservação de hábitos temo-los numa importantís- 
sima classe de poesias, algumas das quaes colleccionei no Annuario da$ 
tradições populares, Porto 1882, pag. 19 sgg., que dão luz para a com- 
prehensão de certas formas poéticas dos nossos Cancioneiros medie- 
vaes. A necessidade de acarretar grandes porções de palha obriga os 
lavradores a servirem-se de carros também muito grandes : é pois uma 
particularidade de várias localidades trasmontanas a dimensão das 
portas dos cabanaes, para onde entrão os carros. Os cabanaes, em dia- 



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MUSEU ETHNOGRAPHIOO PORTUGUÊS 



219 



lecto mirandês cabanhaes, correspondem aos pateos ou pâitos da Ex- 
tremadura, e ás quintans da Beira-Alta. 

Os terrenos calcareos do Mondego, do Tejo e do Guadiana pro- 
duzem olivaes em grande escala. A apanha da azeitona e a fabrica- 
ção do azeite originão nomes, cantigas populares e usos que não exis- 
tem noutras partes, ou existem differentes. Na Beira é costume, na 
noite de S. João, accender um facho, feito de. lenha sêcca; na Extre- 
madura o facho é substituído por uma ceira do azeite. Em Santarém 
chama-se adiafa a uma fejsta que se faz no fim da colheita da azeito- 
na, e consiste em danças, etc. Como estas, outras diversas modifica- 
ções na vida ethnographica, devidas á cultura da oliveira, se podião 
citar. 

O Alemtejo, onde o clima é ^íais sêcco, é a região do sobro e do azi- 
nho. O azinho produz bolota (nome popular boleta) e o sobro pro- 
duz lande; de lande e bolota se engórda o gado suino, que naquella pro- 
víncia constitue copiosa fonte de riqueza. Além do gado suino, no Alem- 
tejo crião-se outros em grande abundância, como também na Beira. A 
vida pastoral alli tem cunho muito especial. Os diflerentes indivíduos 
encarregados da guarda e cuidado dos gados estão distribuídos hierar- 
chicamente, desde o simples ajuda até o maioral; ha nomes especiaes, 
conforme os cargos, o porqueiro, o cabreiro, o ovelheiro . . . ; os utensí- 
lios de que o pastor se serve, como o tarro, a côrna, a coíhér de chi- 
fre, fá-los elle mesmo, em quanto, no silencio e na solidão das vastas 
herdades, guarda o gado; e ás vezes revela-se nesses trabalhos muita 
habilidade, que, bem dirigida, poderia dar verdadeiros artistas. 

Taes exemplos bástão para o meu fim. 

Com relação á anthropologia, esta sciencia está ainda no berço 
entre nós, para que eu possa fazer aqui considerações desenvolvidas. 
A sobreposição dos elementos ethnicos que no decurso d'este artigo 
tenho indicado na população do nosso país, desde remotas eras, faz 
que não possamos encontrar hoje um typo uniforme, mas que pelo con- 
trário encontremos muitos. 

No Norte, por exemplo, não se verão com tanta frequência ho- 
mens altos como no Alemtejo, nem no Sul se verão com tanta frequên- 
cia homens de olhos azues e de barba e cabello louros como no Entre^ 
Douro-e-Minho, em Tras-os-Montes e na Beira. E' mais vulgar ver no 
Minho do que no Sul gente de faces rosadas. As molheres do littoral, 
d'Aveiro a Vianna, pássão pelas mais formosas do país. 

Os Septentrionaes são mais activos, mais resistentes no trabalho, 
do que os Meridionaes: basta notar que nas tres províncias do Sul nin- 
guém faz uma pequena viagem a pé, e que quasi todas as pessoas 
têm para seu uso pelo menos um jumento. Quem percorre uma estra- 
da do Algarve, do Alemtejo ou da Extremadura pasma da grande 
quantidade de pessoas a cavallo que encontra; já não é assim, por 
exemplo, na Beira nem no Entre-Douro-e-Minho. 

Nas tres províncias do Sul ninguém anda descalço ou sem meias; 
na Beira e no Entre-Douro-e-Minho isso é frequentíssimo. As próprias 



220 



REVISTA LUSITANA 



molheres nestas duas últimas provindas, qnando vão de visita a uma 
terra estranha, vão sem meias, cálção-nas á entrada, e descálção-nas 
á sahida, para as pouparem. E com tudo, quasi todas as molheres, nas 
horas vagas do* serviço da casa, se occupão em fazer na meia! Ha 
mais uniformidade de trajos no Sul do que no Norte. Numa aldeia da 
Extremadura, em que vivi uns meses, havia um rapaz engeitado, mui- 
to pobre, que andava em mangas de camisa, por não ter jaqueta; quis 
dar-lhe um casaco meu, já usado, mas ainda bom, e elle não o accei- 
tou, por não ser como os outros da terra, e preferiu continuar, como 
andada, em mangas de camisa, ao vento e á chuva! No Algarve é 
muito vulgar ver molheres do povo com chapéu, mesmo dentro de casa, 
nas lidas domésticas. Os trajos das molheres de Entre-Douro-e-Minho 
e ainda da Beira-Alta, coloridos, garridos, contrástão singularmente 
com os das molheres do Sul, mais tristes, mais feios. Em parte algu- 
ma se usão nas orelhas brincos ou arrecadas de ouro tão grandes como 
no Minho. Em certos pontos raianos de Tras-os-Montes as molheres, 
á maneira do que fazem as pretas na Africa, átão de certo modo a 
capa na cinta, e trazem ás costas, dentro de uma espécie de saco, os 
filhos pequenos, emquanto com as mãos livres trabálhão : vi isto em 
Quintanilha. Creio que é só no Norte que os homens se podem vestir 
todos de palha : chapéu, palhoça (ou croça) e polainas, — como palhei- 
ros ambulantes. A palavra croça é modificação phonetica de coroça, 
que talvez provenha do latim corocea, por causa de analogia de côr. 
— Ao passo que a gente do campo usa frequentemente no Norte, no 
verão, chapéus de palha, os trabalhadores meridionaes, mesmo nó 
maior calor, não lárgão os pesados e quentes chapéus de panno des- 
abados. 

O Algarvio é extremamente fallador, resultado talvez da raça e 
do clima: tenho até observado que o estylo de muitos escriptores na- 
turaes do Algarve é prolixo, verboso. O Alemtejano é apparentemente 
frio no seu trato, mas sincero; o Minhoto e o Beirão são mais amáveis, 
mas acaso menos sinceros; o Éxtremenho nem é muito amável, nem 
muito sincero, — exceptuando Lisboa onde, pelas condições inherentes 
a uma côrte, o termo alfacinha se tornou proverbial como synonimo de 
«pessoa de boas palavras e de muitos comprimentos, mas não conven- 
cida do que diz ou faz». Ninguém de apparencia mais amável do que 
o lisboeta : condiz porém sempre ésta amabilidade exterior com o modo 
intimo de pensar? O Éxtremenho creio não ser tão liberal como o 
Trasmontano, o Interamnense e o Beirão, que oferecem francamente 
a soa casa, hospedão e trátão com afabilidade. O typo chamado entre 
nós Portugal velho, bondoso, lhano, com quem a gente logo á primei- 
ra vez sympathisa, encontra-se mais vezes nas províncias do Norte e 
centro do que nas do Sul. A pátria do fidalgo antigo, que se revê nos 
seus brazões, e, sem deixar de estimar os outros, não se desapruina 
porém da linha, é também principalmente no Norte e no centro do 
; reino. 

Em tudo o que estou dizendo, já se vê, ha muitas excepções; ape- 



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MtJSKU KTHNOGRAPHICO PORTUGUÊS 



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nas noto os resultados da minha observação, que pôde ser bastante 
subjectiva. 

A gente do Sul parece-me menos profundamente religiosa do que 
a da Beira e a das duas provindas septentrionaes ; pelo menos o culto 
externo tem lá menos vigor: não ha tantos santuários, tantas almi- 
nhas, tantos cruzeiros; não se fazem tantas cerimonias religiosas. No 
Norte ou na Beira, quando se festeja, por exemplo, o padroeiro da 
freguesia, reina em todas as pessoas grande satisfação, e ninguém fal- 
ta na igreja; na Extremadura assisti uma vez, numa villa, a uma fes- 
ta de anno, e apenas estavão no templo meia dúzia de molheres, que 
provavelmente não tinhão outra cousa que fazer ! Não se pôde compa- 
rar o mundano e o folgazão dos ários extremenhos com a fé e a unc- 
ção das romarias e das procissões do Norte e do centro do reino. Em 
Lisboa o artista e essa repugnante classe dos faias ou fadistas fazem 
ostentação de serem anti-religiosos; mas isso resulta menos de convic- 
ção íntima do que do princípio de insubordinação contra tudo o que 
seja poderes constituídos. O Extremenho tem pouca ternura de senti- 
mentos. E' na Extremadura que o bárbaro divertimento tauromachico 
está mais em voga; e ha agora em Lisboa pessoas de intelligencia 
apoucada e instinctos assai vajados que não só querem as corridas' cha- 
madas de morte, mas as defendem calorosamente, tentando assim in- 
troduzir era Portugal um espectáculo sanguinolento, que não está nos 
nossos hábitos, e que é característico de um povo estrangeiro! As cor- 
ridas de touros filião-se nos antigos combates com aç feras. A evolu- 
ção natural das ideias tende a supprimi-las, e não a dar-lhes desen- 
volvimento. Mas ás vezes ha contradicções na humanidade. E' por isso 
que o anarchismo ganha proselytos, e a pena de morte mancha ain- 
da os códigos das nações mais civilizadas do mundo! 

Todas as differenças que tenho assignalado provém de causas 
muito complexas, umas naturaes, outras sociaes. 

No nosso país ha vários grupos ethnicos curiosos. Nos arredores 
de Lisboa temos os Çahios, que se estendem até Cascaes, Cintra, Ma- 
fra, Ericeira, acabando, segundo creio, já antes de Torres- Vedras; á 
beira do rio, isto é, no Ribatejo, temos os Campinos, que chegão, pelo 
menos, até á Gollegã. Na zona marítima da Beira temos os Varinos, 
de que ha em Lisboa uma colónia importante ; a palavra Varino ou 
Ovarino, deriva de Ovar; este nome de terra deu origem também á 
palavra vareiro, que na Beira significa «vendedor ambulante de sar- 
dinha», isto é, sardinheiro. A gente de Villa do Conde dá o nome de 
Maiatos a todos os povos que lhe ficão para lá do Ave, embora a Maia, 
d'onde aquelle nome deriva, seja mais circumscrita. No Norte de Tras- 
os-Montes ha um extenso tracto montanhoso em que ficão os Lombarde- 
ses, nome tirado irregularmente do nome topographico A Lombada. A 
gente da Beira tem, pelo menos desde o sec. xvr, o nome comum de 
Ratinhos, que inscientemente se tem querido fazer derivar de Rates ; 
Ratinho é nome irónico, devido talvez ao caracter agenciador e traba- 
lhador dos Beirões. 



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REVISTA LUSITANA 



Geographicamente o país tem também -muitas divisões populares. 
A divisão maior é em provindas,— Entre-Douro-e-Minho, Tras-os- 
Montes, Beira, Extremadura, Alemtejo e Algarve. 

A denominação de Entrb-Douro-k-Minho, que boje já se não usa 
no povo, mas que convém muito usar, pelo menos na litteratura, por- 
que define uma área bastante uniforme, provém da situação da pro- 
víncia entre os dois principaes rios do Norte. Denominações d'estas 
são vulgares no país. Nos documentos antigos lê-se Entre-Tejo-e-Odia- 
na, o que significa pouco mais ou menos o Alem-Tejo e o Algarve. Odia- 
ria é uma fórma antiga de Guadiana, palavra composta do ibérico 
A na, e de guade, em árabe wad, que quer dizer trio»; ha outros no- 
mes semelhantemente formados, como Odeseixe, Odeleite, Odemira, 
Odiâxere, Guadelupe, Guadiana, Guadalete, uns em Portugal, outros 
na Hespanha. Lê-se também nos mesmos documentos Entre-Homem-e- 
Cávado, que representa certo tracto de terra no Baixo-Minho; lê-se 
Entre-Minho-e-Lima, Entre- Do uro-e- Vouga, Entre-ambas-as-Aves. A 
ultima denominação corresponde ás terras situadas entre os rios Ave 
e Avizella, hoje Vizella. — pois Avizélla è um deminutivo de Ave, la- 
tim *Av-ic-ella, sendo Ave proveniente do nome pre-romano Avus. 
Em Tras-os-Montes ha uln sítio que se chama Entramblas áugas {— En- 
tre ambas las aguas), por ficar entre duas correntes de água. Os po- 
vos beirões da margem do Douro chámão ás terras fronteiras Alem- 
Doiro; e os que vivem nestas terras dão o mesmo nome á parte da 
Beira que lhes fica do outro lado do rio. Já na antiga geographia 
peninsular, no tempo dos Romanos, se encôntrão denominações tam- 
bém tiradas dos rios, como Transcudani, «os de além do Cuda, hoje 
Coa*; Limici, «os das margens do Limia, hoje Lima*; Tamacani ou Ta- 
magani, «os das margens do Tamaca (Tamaga), hoje Tâmega*. — Os 
habitantes de Entre-Douro-e-Minho tinhão outrora na litteratura o 
nome de Interamnenses, formado de inter amnes, «entre os rios», — 
que os nossos eruditos criárão á semelhança do latino Interamna, de 
uma cidade da Itália, cercada de um canal formado pelo rio Nar. A 
palavra Entre-Douro-e-Mirúio tem variado na pronúncia popular: nuns 
auctores encontra-se Antre-Dmro-e-Minho, noutros Antredouraminho. 
Um auctor do sec. xvm, João Baptista de Castro, no Mappa de Por- 
tugal, i, 45, chama-lhe Duriminea, nome não-popular, e composto de 
Durius e Minius, que são as denominações dos rios Douro e Minho na 
epocha luso-romana. A fórma Duriminea não pegou. 

A denominação de Tras-os-Montks é também tirada da geographia. 
Como eu já disse na Revista Lusitana, n, 100, fôrãp de certo os povos 
do Minho que dérão o nome a Tras-os-Montes, pois ésta província lhes 
fica para lá dos montes do Gerês, Cabreira, etc. Os trasmontanos de- 
vião naturalmente chamar á sua terra Aquem-dos-Montes ; e em ver- 
dade, num documento de Bragança, do século xrv, lê-se: «comarca 
d'aquem dos montes*. Como mais usado, foi porém o outro que preva- 
leceu. — O nome Tras-os-Montes tem variado na pronúncia. Em vez 
da moderna fórma litteraria lê-se nos livros antigos Tras-los-Montes 



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ou Trallosmontes, como ainda o povo lá diz. O nome gentílico corres- 
pondente é Transmontano ou Trasmontano, com várias pronúncias po- 
pulares, como Tramontano e outras. O suffixo ano apparece também 
em bragançano, de que ha a fórma antiga braganção. 

Brira. Este nome provém provavelmente de ficar situada a pro- 
víncia na ri-beira ou re-beira do Douro, isto é, «á beira do rio». O nome 
gentílico é Beirão. Alguns auctores, levados da apparente semelhança 
que ha entre Beirões e o nome Berones de um antigo povo ibérico, 
suppuserão erradamente que aquella fórma provinha d'esta. Beirão 
fórma-se de Beira por meio do suffixo -3o, variante phonetica do suf- 
fixo -ano, que tem origem no latim -anus. Assim é que de Romanas 
se fez em português Romano e Romão. Em livros antigos lê-se os Ro- 
mãos na accepção de os Romanos. A palavra romão, como synonima 
de romano, usa-se ainda hoje em linguagem architectonica : «estylo 
romão*. 

A palavra Extremadura vem innegavelmente do verbo extremar, 
como armadura, de armar, semeadura, de semear, etc, embora não 
seja fácil dizer qual foi a accepção primitiva da palavra, isto é, o que 
ésta província extremava na Idade-Média, se os terrenos árabes do 
Sul do Tejo, se o país pelo lado do Oceano. Ha outros nomes iguaes 
ou parecidos, como na Hespanha Extremadura, e em Portugal Extre- 
mo, Extremas e Extremadouro. Este ultimo é formado também de ex- 
tremar, como Miradouro (outro nome vulgar), de mirar. Viterbo, no 
seu Elucidário, s. v. Bemquerença e Pendia, cita uma Extrematura e 
Stremadura em documentos medievaes. — Os habitantes da província 
da Extremadura chamão-se Extremenhos; os da Extremadura hespa- 
nhola têm o mesmo nome, Extremenos. 

Alemtejo. E' outra denominação análoga ás que já citei. Primi- 
tivamente a província devia abranger também a península de Setúbal 
com o terreno do Sul que hoje pertence ao districto de Lisboa. — O 
nome gentílico é Alentejano, formado como Trasmontano. Creio já ter 
ouvido á gente do Sul dizer Alemtçjão./ 

A palavra Algarve é árabe, Al-garve = Algãrb, que significa 
O Occiãente. Tinha outr'ora o titulo de reino e ainda hoje os soberanos 
portugueses se chámão «reis de Portugal e do Algarve* ou €dos Al- 
garves* (com referencia á Africa). — Os habitantes do Algarve deno- 
minão-se Algarvios. 

Algumas das províncias subdividem-se, e recebem nomes popula- 
res correspondentes. O Entre- Douro-e- Minho subdivide-se em Alto- 
Mirúio, Baixo-Minho e Baixo-Douro, regiões que ainda também se 
subdividem, como da segunda já disse. Alto-Douro, a região vinha- 
teira, é uma divisão de Tras-os-Montes. Nésta província ha vários 
territórios que se chámão vulgarmente Terras, como Terra de Mi- 
randa, Terra Quente, Terra de Vinhaes; em tempos antigos a pala- 
vra terra tinha também na administração do país sentido politico, 
como se pôde ver em Viterbo, Elucidário, s. v. No Entre-Douro-e- 
Minho e na Beira também se encontra Terra da Maia, Terras de 



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REVISTA LUSITANA 



Bouro, Terra da Feira; naquella província ha muitos concelhos com 
denominação geral que não corresponde a uma dada povoação ou vil- 
la, como Baião, Felgueiras, Maia. A Beira subdivide-se em Alta e 
Baixa, mas o povo da Beira-Baixa, em virtude das altas serras que 
lá ha, chama Beira-Alta á Beira-Baixa; a parte marítima do antigo 
principado da Beira, isto é, os districtos de Aveiro e Coimbra, não 
tem nome popular, que eu saiba; o território adjacente a Coimbra 
chama-se Campo de Coimbra. A palavra Campo, neste sentido de ter- 
ritório extenso, e mais ou menos plano, appárece outras vezes : Campo 
da Gottegã, Campo de Benavilla. Em relação ás divisões da Extrcma- 
dura já fallei dos Çaloios e dos Campinos. Em Lisboa, quando se quer 
fallar do território dos Çaloios, diz-se mesmo os Çaloios, por exem- 
plo: «morar nos Çoloios*, «ir aos Çaloios*, «vir dos Çaloios*, como em 
latim se dizia in Persis, in Sabinos, ex Liguribus, — tomando-se o 
nome dos habitantes pelo do país. O Alemtejo subdivide-se em Alto e 
Baioco-Alemtejo, como o Minho e a Beira, variando porém, em relação a 
esta última, a collocação syntactica do adjectivo. O Algarve subdivi- 
de-se em Sotavento (parte oriental) e Barlavento (parte occidental), 
denominações provindas da linguagem marítima. 

Além d'estas designações, ha ainda outras tiradas da geographia, 
e de caracter mais geral. Assim, á gente da serra dá-se na Beira o 
nome comum de Serranos, e no Minho o nome comum de Monta- 
rihoes (pelo menos em certos sitios). Aos habitantes da beira-mar é 
frequente chamar os da Borda êCâgua. 

Quando se estuda a toponymia portuguesa, isto é, os nomes lo- 
caes (de povoações, sitios, montes, rios, valles, etc), nota-se o se- 
" guinte : uns nomes fôrão já herdados pela lingua portuguesa, isto é, 
provêm de línguas falladas na Lusitânia antes da implantação do la- 
tim, como Portu-gal (Cale), Lisboa (Olisipo, Olisipona), Coimbra (Co- 
nimbriga), Évora (Ebora), Tqo (Tagus, *Tagius), Douro (Durius, Do- 
rius), Mondego (Munda, Monda, *Mondaecus), Braga (Bracara, *Bra- 
gala, Bragaa), Nabão (*Nabanus, de y/Nab^), Lamego (Lama, *La- 
maecus), Minho (Minius), Neiva (Nebis, *Nebia, — como Lim-ia), 
Lima (Limia), Coa (Cuda, *Coda), Tâmega (Tamaca, Tamaga), Ave 
(Avus), Coina (Equábona, *Cauna, Couna), Idanha (*Igaeditania, Egi- 
tania, Eydãia), etc; outros nomes provêm do latim e das outras lin- 
guas_ posteriores que em tempos antigos mais contribuirão para a for- 
mação do léxico português, isto é, do germânico e do árabe. Temos 
assim duas classes de nomes locaes : antigos e modernos. Dos nomes 
modernos muitos achão-se bastante desfigurados, como Beselga (de 
basílica), Vaia (de Eidulia), Santiáhão (de Sanf lulianus), etc. Os 
nomes locaes podem reduzir-se a classes: por exemplo, nomes ti- 
rados: 

a) da flora, como Felgueiras, Bidueira, Salzedas, Cerzedo, Ma- 
cedo, Velleda; 

b) da fauna, como Aguiar, GolpUhares, Castro-Laboreiro, Lo- 
beiros; 



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MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS 



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c) da natureza e configuração do terreno, como Cabeça Gorda, 
Adiada, Chellas, Arneiro, Bico-da-Vela; 

d) dos rochedos, como Pena, Penha, Pedras, Pedroso, Lageosa, 
Alijó, Lijó, Laj)a; , t 

e) das aguas, como Rio, Corgo, Ribeiro, Ribeira, e muitos dos que 
citei a cima; 

f) dos ventos e dos rumos, como Penaguião, Ventosa, Aventosa, 
Ventosellos, Aventeira ; 

g) da religião, quer christã, quer popular, como S. João, Santu- 
Ihão, S. Pedro (oragos), Cova da Moura, Boca do Inferno, Aguas- 
Santas, Rio Santo, Monsanto, Fonte-Santa, Casa dos Galhardos; 

i) de nomes próprios e titulos: Vâla do Conde, Margaride, Mar- 
tini- Joanne; 

j) da natureza do clima (geralmente como sobrenomes), Rio- Frio, 
Mesão-Frio, Terra-Quente; 

h) de divisões territoriaes, titulas de propriedades, denominações 
de povoações, partes d ? estas, como: Abbadia, Póvoa, Bairro, Aldeia, 
ViUa; 

l) de quaesquer edificações, como Antas, Duas-Igrejas, Akaça- 
rias, Atalaia, Bico-da-Vela; 

m) da natureza do campo, ou das fórmás da lavoura, como Ar- 
roteia, Avessada, Agra, Agrello, Bouça; 

n) do aspecto geral do sítio, como Bella- Vista, Boa-Vista, Val- 
Formoso; 

o) de caminhos, como Estrada, Atalho. 

E muitas mais classes se podem ainda formar. O estudo da to- 
ponymia é interessantíssimo, debaixo de muitos aspectos, pois mani- 
festa o grau de imaginação do povo no formar epithetos e no descre- 
ver era uma só palavra os sítios, dá indicações á cêrca da história na- 
tural e social da região, e revela muitos processos curiosos de lin- 
guagem; é necessário porém fazê-lo com methodo, e não ao acaso, 
como em Portugal geralmente se costuma. 

Ao fallar da toponymia, direi que com a diversidade de zonas 
geographicas e ethnicas que a cima mencionei está também de accôrdo 
a diversidade da linguagem vulgar, ou dialectos e co-dialectos, sendo 
alguns, como os da raia trasmontana, particularmente notáveis. 



Feitas estas considerações geraes, que mostrão, por uma parte, 
que a Ethnographia provoca importantes questões e pôde esclarecer 
diversos assumptos, e por outra, que o nosso país, apesar de pequeno, 
contém vasta e variada matéria de estudo, e necessita ainda de ser 
muito investigado para ser verdadeiramente conhecido, — vejamos 
agora, mais em especial, de que elementos deve principalmente con- 
star o Museu Ethnographico Português na secção de que me estou 
occupando (epocha moderna). 

Ktv. mjsit., vol. ih, fase. 3. 3 



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&EVISTA LUSITANA 



1. Desenhos e modelos de edifloações. Temos de consi- 
derar dois grupos: moradas, e construcções várias. 

a) Moradas. — O typo geral das casas não é uniforme no nosso 
país. A casa com peitoril e varanda soalheira é própria das províncias 
do Norte e da Beira. Em Tras-os-Montes ha junto da casa um vasto 
páteo fechado mas descoberto, que se chama, como já disse, cabanál. 
No Sul as casas pode dizer-se que são todas caiadas (Extremadura, 
Alemtejo e Algarve); na Beira e nas províncias do Norte só são, em 
geral, caiadas as casas de certa importância. O serem ou não serem 
caiados os edifícios dá ás povoações aspecto muito diferente. Quem 
viaja pelas provincias do Sul admira-se de ver a certa distancia bran- 
quejar um logar que se lhe afigura muito grande e muito asseado: 
chega lá, e ás vezes encontra apenas uma pocilga rodeada de meia 
dúzia de pequenas casas. Nem sempre o facto de caiarem no Sul as 
casas depende de asseio ou de gosto esthetico : depende não raro da 
necessidade de conservar as paredes, por serem feitas d$ adobos ou 
de pedras menos solidas e menores que os blocos de granito do Mi- 
nho e da Beira. Em Tras-os-Montes as casas com paredes de schisto 
avermelhado, por exemplo nas margens do Douro, têm um aspecto 
muito melancólico. Era chaminés ha grande variedade: no Alemtejo 
parecem túmulos (por exemplo Ponte-de-Sôr), no Algarve semelhão 
elegantes zimbórios e minaretes; com alguns tijolos e um pouco de 
cal, o Algarvio edifica sobre o telhado ás vezes verdadeiras obras 
de arte, que é um gosto ver. Nas serras do Minho e da Beira as ca- 
sas, além de nuas de cal, são cobertas de colmo; em Tras-os-Montes, 
em muitas aldeias, vi casas cobertas de lousas. No Norte, apesar de 
as casas serem ás vezes caiadas, os telhados não o são. As casas de 
mais de um andar chamão-se no Minho casas-torres. No Sul, as casas 
são geralmente baixas, e de um andar; não raro também a luz que 
recebem vae-lhes de um postigo aberto na própria porta, ou de uma 
única janella. No Sul quasi todas as casas têm á entrada uma saleta 
com sua mesa reservada para ter louças de estimação e outros obje- 
ctos puramente de luxo, embora de baixo prêço; nem na Beira, nem 
no Norte se encontra isto como uso vulgar. No Minho algumas casas 
são abertas na encosta dos inontes, — como grutas artificiaes : obser- 
vei isto no Alto-Minho, onde as chamão por isso barracas de so-clião 
(sob o chão). Isto dá-nos ideia do modo de vida dos povos prehistori- 
cos. Mas ha ainda outras interessantíssimas fórmas de habitação, que 
como que nos transportão a epochas primitivas. Uma vez experimen- 
tei grande impressão percorrendo no Algarve uma rua de cabanas de 
pescadores. Na feitura das cabanas não entra pedra, nem metal; são 
construídas de madeira e junça. Parece estarmos pois na epocJia da 
pedra. Como no período prehistorico dos kjoekkenmoeddings, os pes- 
cadores accumulão ás portas grandes montões de conchas e de restos 
de peixes e de mariscos. Quem quiser formar juízo aproximado de 
como vivião na epocha da pedra, no valle do Tejo, os povos que lá 
deixárão os kjoekkenmoeddings que Pereira Costa, Carlos Ribeiro, e 



MUSEU BTHNOGRAPHIOO PORTUGUÊS 



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Paula e Oliveira estudárão com t^nto interesse, dê ura passeio até 
certas aldeias do littoral algarvio, e ahi encontrará nas moradas e 
nas comidas um aspecto do viver das primeiras sociedades do nosso 
país. A Cova de Lavos é uma povoação fronteira á Figueira da Foz, 
e separada d'esta cidade pelo Mondego: não ha lá outro chão senão 
areias; o viajante não verá ahi hortas nem arvores; em compensação 
verá o que não tornará a ver facilmente noutras regiões do país : uma 
aldeia com as casas, todas de madeira, erguidas no ar, sobre espeques, 
também de madeira, enterrados na areia. Temos aqui outro aspecto 
do viver primitivo, — das povoações lacustres, que os italianos cha- 
mão palafitte, com a diferença que as palafitte prehistoricas erão so- 
bre agua. Estas casas de Lavos têm o nome de jmlheiros, e ainda na 
Figueira ha uma praia assim denominada; talvez esteja ahi a origem 
da cidade. — As barracas dos campos nas províncias do Norte e na 
Beira são também curiosas, umas de madeira, outras de palha. — Nas 
serras da Extremadura os pastores fazem umas pequenas casas de pe- 
dra solta, que chamão caseias, e são sem telhado. — Muitas vezes os 
pastores da Beira, do Alemtejo, etc, aproveitão para se resguarda- 
rem do tempo as antas prehistoricas (dolmens), quando grandes e bem 
conservadas. — Já a cima me referi ao interior das casas ; devo espe- 
cialisar as cozinhas, que varião muito no país. No Norte não ha a 
vasta chaminé do Alemtejo e do Algarve, nem na parede, junto da 
lareira, uma figura de barro, que nuns pontos se chama boneca, nou- 
tros sempre-noiva, etc, e que, como penso, é o vestígio de um culto 
pre-christão, — do Lar familiaris. Éstas figuras, de degeneradas que 
estão, têm quasi sempre forma geométrica, que porém lembra o corpo 
humano; algumas têm forma humana perfeita. Nunca observei isto 
senão nas duas províncias do extremo Sul. Num conto do Sr. Conde 
de Ficalho, Mais tinta, Lisboa 1886, pag. 31, vem uma estampa re- 
presentando a cozinha alemtejana, a vasta chaminé, tendo no frizo o 
estendal dos arames. — O forno de cozer o pão, umas vezes é dentro 
de casa, outras vezes junto d'ella, outras vezes afastado, como no Al- 
garve. O trabalho de cozer o pão está revestido de certo caracter sa- . 
grado: o amassá-lo, o mettê-lo no forno, etc., são acompanhados de 
bênçãos e de rézas. Numa aldeia do Baixo-Douro vi uma vez enfornar 
o pão, e nunca me ha-de esquecer a figura do forneiro, alto, em cabei- 
lo, com uma grande vara nas mãos, a fazer cruzes com ella deante 
da boca do forno, e a recitar devotamente fórmulas religiosas, como 
um sacerdote pagão. Em virtude d'este caracter de santidade da co- 
zedura do pão, a porta do forno tem quasi sempre por fóra uma cruz, 
para evitar influencias diabólicas. E' pelo mesmo motivo, para impe- 
dir que o ínal entre nas casas, que nos escudetes ou espelhos das fe- 
chaduras ha muitas vezes uma cruz; quem aqui em Lisboa olhar para 
uma porta antiga, ordinariamente pintada de verde, raro deixará de 
observar essa cruz. — Como parte annexa ás casas pôde ainda aqui 
fallar-se dos moinhos. Os moinhos de agua abundão no Norte e na Bei- 
ra; os de vento no Sul. — Em algumas das publicações citadas, como 



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REVISTA LUSITANA 



O Minho pittoresco c os jornaes illustrados, encontrão-se figuradas 
muitas das fórmas dag casas portuguesas. 

b) Construcções várias. — Nesta classe incluirei todas aqnellas 
construéções que não servem para morada do homem. Começarei pe- 
las fontes. As fontes varíão muito de feitio, conforme a agua está' em- 
poçada, ou sáe em bica. Nas Memorias económicas da Academia, m, 
41-42, lê-se o seguinte á cêrca de Tras-os-Montes : «As fontes não são 
frequentes, e quasi todas em má ordem, porque os habitadores se con- 
tentão de as receber como a natureza lh'as offerece, fabricando-lhcs 
quando muito um reservatório cavado na mesma terra, e guarnecido 
de lages, em que, á maneira de poço, estão depositadas as aguas que 
vão sahindo, ou do fundo, ou de algum lado do mesmo reservatório; 
por isso são de ordinário as aguas pouco limpas, porém á excepção 
das que nascem a uma e outra margem do Douro, são saudáveis, e de 
bom sabor». Estas fontes encontrei-as mais ou menos por toda a pro- 
víncia: umas são cobertas por lágeas em arco, outras por lágeas em 
fórma de casa quadrada ; ás vezes têm era cima pyramides e uma cruz, 
e dentro são caiadas e com figuras, como uma que vi, se bem me lem- 
bro, em Deilão. Nas fontes de bica, ésta pode ser de pedra, com uma 
pocinha, ou pequeno reservatório, antes da extremidade; pôde ser de 
metal, — um tubo — ; e pode mesmo ser constituída por uma telha, ou 
por uma folha de castanheiro, como succede na Beira. Das fontes san- 
tas, fallarei no § 6-<Z. Nas pòvoações do Algarve são muito frequentes 
os poços no meio das praças, cora bordas de pedra, por exemplo em 
Faro; a agua tira-se por meio de caldeiras que, se bem me lembro, 
cada pessoa leva de casa. — Uma especialidade de Tras-os-Montes é 
o pombal, a alvejar, em contraste com a negrura das povoações; en- 
contrão-se muitos na província, pois lá faz-se bastante criação de pom- 
bos bravos para comer. — As pontes, para passar os rios, são de pe- 
dra ou de madeira; e têm differentes nomes : ponte das táboas, ponte 
pedrinha, pontclhão, etc; ellas têm também differentes fórmas. Outro 
meio de passar os rios, quando pouco caudalosos, são as alpoyxdras, 
poldras ou passadeiras; não pássão de simples pedras, mais ou menos 
affeiçoadas. 

Não me é possível fazer uma enumeração completa de tudo o que 
podia ficar subordinado ao titulo do § 1 ; basta uma simples indicação, 
e por isso me limito ao que fica exposto. — No § 6-d fallarei das edi- 
ficações religiosas; no § 8 fallarei de algumas construcções intima- 
mente ligadas com a vida do campo. 

2. Mobilia e objectos caseiros. Ha uma variedade infinita. 
Pouco aqui indicarei. 

Na Beira come-se muitas vezes, sobretudo no inverno, e á ceia, 
junto do lume; por isso nas cozinhas se vê uma mesa suspensa da pa- 
rede por dobradiças, que permittem que ella esteja encostada vertical- 
mente á parede, ou descida horizontalmente, apoiada num espeque, tam- 
bém ligado com cila. Nas cozinhas vê-se o pregukciro ou escano (nome 
trasmontano), grande banco de sentar. Na Extremadura ha umas cadei- 



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ÍÍUSÉU ETftNOaÊAPHIÓO POftTUGUÊS 



229 



ras especiaes, de madeira, com o assento redondo, que porém já vão sen- 
do desusadas. No Algarve e no Alemtejo ha as cadeiras de assento de 
palma, com o encosto pintado. Cadeiras e tamboretes de couro estão 
a desapparecer. — Os louceiros na Beira são ás vezes formados sijn- 
plesmente de uma arvore, a que se tirão as folhas, e se apárão os ra- 
mos, enterrando-a no chão; a louça pendura-se depois nos ramos ou 
galhos: este louceiro chama-se por isso galheiro. No Alemtejo a louça 
e o mais vasilhame estende-se sobre um friso, á vista; o vasilhame 
de metal tem o nome de os arames. — Os pastores, no Alemtejo sobre- 
tudo, e também ainda no Ribatejo, na Beira, etc, fazem muitos obje- 
ctos para seu uso : colhéres, garfos, vasos, botões, caixas, etc. — Na 
Beira são usadas pelos velhos caixas de rapé, feitas de pau do ar; na 
tampa, pelo lado de dentro, ha um espelhinho. Estas caixas são orna- 
das de corações, animaes, etc. Já também tenho visto na mesma pro- 
víncia servir de caixa de rapé um pequeno chifre, com tampa de cor- 
tiça. Estes costumes vão desapparecendo, quer porque o commercio in- 
troduz caixas baratas, quer porque o uso do rapé está a sahir da moda, 
substituído pelo uso exclusivo do cigarro. — Enfeites, e ás vezes va- 
riados, encontrão-se também nas rocas e nos fusos. São sobretudo no- 
táveis as rocas trasmontanas. Da frequência do uso da roca no Nor- 
te diz um grande observador do século xvi, Fr. João dos Santos, o se- 
guinte na Ethiopia Orientai, livro i, cap. xii: «... tão própria he a en- 
xada nas mãos das Cafras, como a roca na cinta das mulheres de En- 
tre Douro & Minho». Entre os objectos do trabalho das molheres não 
são as rocas os únicos ornamentados: podem citar-se igualmente os 
agulheiros, os furadores, os ganchos da meia, etc, — objectos estes 
susceptíveis de serem citados no § 12, onde fallaréi das louças e de 
outros trastes da casa. 

3. Vestuários e objectos correlativos. Numa das suas 
composições poéticas diz Simão Machado (Comedias Portuguesas, 1631, 
fls. 71-v.) o seguinte: 

Mandou um senhor um dia Perguntando-Ihe a tenção 

A um pintor, que lhe pintasse Por que em tal modo o pintára, 
Todas as nações que havia, Respondeo, e com rezão, 

E cada hua retratasse Que nenhum trajo achára 

Com ò trajo que vestia. Na portuguesa nação. 

Pintando ao Castelhano tVe-lo-heis, disse, á francesa, 

O Frances e Italiano, Depois, disse, á castelhana; 

Seu costumado vestido, Hoje andão á valonesa, 

Pos ao Português despido, Amanhã á sevilhana, 

Nas mãos hua peça de pano. E já nunca á portuguesa. 

Vendo pois a variedade 
Que ha no trajo lusitano, 



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230 



HKVI8TA LUSITANA 



Por não sair da verdade 1 
Pus-lhe esta peça de pano, 
Para que córte á vontade». 

O poeta, nestes versos, quer satyrizar a moda, que no sec. xvn, como 
no actual, se regulava pelo que vinha de fóra, e não pelo que era 
português. Elie tinha razão ; mas nem por isso se ha-de entender que 
em Portugal não ha trajos com caracter popular e local. Ha muitos. 
Os Mirandeses usão a célebre capa de honras; os Trasmontanos da 
raia usão geralmente calção, meia' e çapato. Os Serranos da Beira 
usão a capucha, de que já a cima fallei. No Alemtejo é característica 
a manta e os çafões. Da manta falia já no sec. xvi Gil Vicente (Obras, 
ih, 177-178): 

E hua manta d? Alemtejo, 
Que na minha cama tinha, 
Manta já usadazinha, 
M'a levou com tal despejo, 
Como s ? ella fora minha! 

Nos grandes adjuntos, como as missas, os mercados, as feiras, etc., 
é curioso ver os Alemtejanos altos, descorados, de chapéu de panno 
desabado, envoltos nas suas mantas listradas, arrastando os çafões, e 
tendo na mão o cajado recurvo como o báculo de um bispo: typo que 
não se confunde com outro do país. — Os velhos da Beira usavão ou- 
trora uma espécie de casaca curta, chamada nisa, como trajo de gala; 
ainda em pequeno vi lá algumas, mas este trajo vae a desapparecer. 
A nisa era frequentemente de cor azul, com botões amarellos, e tom- 
bem se vestia ao mesmo tempo que os calções de alçapão. — Na Ex- 
tremadura é muito vulgar nos homens este trajo: jaqueta muito curta 
(talvez por causa da facilidade dos movimentos ao andar a cavallo); 
faxa ou cinta, vermelha ou preta, com duas franjas pendentes atrás; 
calça estreita, de boca de sino; barrete vermelho, verde ou preto, mas 
mais geralmente preto ; varapau na mão. Quanto á barba, trazem-na 
rapada, ou usáo stiissa. No panno predomina a côr escura ou azulada. 
O calçado varia: çapatos muito grossos, de salto de prateleira, no ve- 
rão; botas de montar, no inverno. — Na Beira e no Entré-Douro-e-Mi- 
nho é muito vulgar nos homens o panno de çaragoça, de que se fazem 
calças, collete e véstea ou jaqueta (menos curta que na Extremadura) ; 
chapéu de panno ou de palha; nos pés çapatos grossos (calçado de gala) 
e tamancos ou socos (calçado usual). As molheres usão tamancas ou só- 
cas, que são menores e mais apuradas do que os tamancos, mas com 



i No texto lê -se vontade; mas, como a palavra que rima com ésta é também 
vontade, creio que haveria êrro de impressão, deixando de se pôr verdade y que cor- 
responde ao sentido e ao metro. Nao posso agora consultar outra edição^ mas é 
provável que a emenda já esteja feita. 



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JíUSEtf ETHNOGRA phicò português 231 



sola de madeira como estes. A sola dos tamancos e tamancas faz-se 
de amieiro, nogueira, etc. Uma cantiga popular diz mesmo : 

S. Gonçalo de Amarante, 
Feito de pau de amieiro, 
Irmão das minhas tamancas, 
Criado no meu lameiro! 

Como notei a cima, o lameiro é um campo situado junto de ágoa. Na Bei- 
ra, etc, as margens dos rios, de um lado e do outro, estão plantadas de 
amieiros. Comprehende-se assim agora a exactidão descriptiva e a ironia- 
da cantiga. Quem passa a primeira noite numa terra grande do Norte ou 
do centro do país, uma das cousas que logo estranha é pela manhã cedo 
a tamancada, ou ruido dos pesados tamancos e das tamancas, na rua. 
— Os trajos das molheres divergem também bastante. Já a cima disse 
Telles alguma cousa (cores, brincos das orelhas). De anneis fallei su- 
pra, cap. ni, § 3. — Nas próprias crianças ha maneiras differentes de 
vestir. Na Extremadura e no Alemtejo ellas vestem-se como os ho- 
mens: não é raro ver nestas provincias rapazinhos de 6 annos, pouco 
mais ou menos, com suas botas de montar, cinta e chapéu desabado, ou 
grande barrete preto. Na Beira e no Entre-Douro-e-Minho as crian- 
ças andão mais singelamente vestidas: descalças, barretinho pequeno 
de côres ou branco, chamado carapuço, chapéu de palha. Nas ter- 
ras grandes do Sul as crianças que não são propriamente do povo an- 
dão de calção, com meia de cor, e na cabeça bòné (bonnct). Em Lis- 
boa é muito frequente nos meninos pertencentes a famílias de certa 
educação o trajo dos marinheiros da armada a par do calção. — Com 
relação a capas, capotes e casacões temos: as já referidas capas de 
honra e capucha; o gabão ou gabinardo (de cabeção, capuz e man- 
gas); o capote alemtejano; o capote á cavallaria, muito usado na Ex- 
tremadura; o simples capote, de cabeção, já em decadência, que era 
usado até pelas molheres (d'onde a conhecida expressão «capote e 
lenço»); a capa singela com gola, que se vê bastante no Minho e na 
Beira. — Já a cima fallei do varapau da Extremadura; ha outros bas- 
tões, como a moca, a ladra e o chuço da Beira; a cacheira e o cajado 
do Sul, etc., etc. O povo não usa em geral bengala; no emtanto no 
Norte certos populares curiosos fazem bengalas com bastão lavrado, 
muito interessante, representando cabeças de soldados com barretinas, 
animaes, etc. — Também em várias publicações que a cima citei se en- 
côntrão desenhados muitos trajos nacionaes portugueses. Tem-se mes- 
mo dado á luz livros especiaes contendo estampas de trajos. Possuo 
algumas estampas avulsas, que pertencião a uma obra que não pude 
ainda ver completa ; comtudo uma das estampas tem o seguinte titulo 
(rosto) : Continuação dos trajos e usos e costumes mais notáveis dos ha- 
bitantes de Lisboa e provindas de Portugal, Lisboa 1835. Na Biblio- 
theca Nacional também ha (avulsas) estampas análogas, mas algu- 
mas são coloridas. A casa editora de David Corazzi publicou em 



23â 



IffiVÍSTÀ LtJSITÁÍÍÀ 



1888 um curioso Álbum de costumes portugueses, onde figurão bas- 
tantes trajos do nosso povo. No Porto e aqui em Lisboa vendem-se 
muitas figuras de barro, interessantíssimas, representando a côres os 
typos do Norte, com os seus vestuários. 

A propósito dos trajos podem citar-se as tatuagens, muito vul- 
gares nos marinheiros e noutras classes. Sobre este assumpto vid. 
ura opúsculo do Sr. Kocha Peixoto, intitulado A tatuagem em Portu- 
gal, Porto 1892 (com estampas). Não me recordo de ter encontrado 
allusões á tatuagem na antiga litteratura portuguesa, a não ser num 
opúsculo da litteratura de cordel do século passado. — Como armas de 
•fogo, o povo usa, além da espingarda, o bacamarte, a clavina e a 
pistola; como navalha é celebre a do fadista de Lisboa, de ponta e 
mola; nas aldeias_ainda também se encontrão punhaes. Pertence á mes- 
ma classe o diuço, que mencionei a cima. 

4. Meios de transporte por terra. A propósito do trans- 
porte em animaes devem citar-se os apparelhos e suas partes, como 
a albarda, o albardão, a almatrixa, os estribos de páo cora ferragens 
variadas, a cabeçada, que pôde ser muito enfeitada, o barbicacho. Como 
vehiculos temos por exemplo: a galera (Extremadura), o carro alem- 
tçjano, a carrinha (Algarve), o carro de bois. No Sul é muito mais vul- 
gar servirem-se do gado muar e cavallar para carreto do que no Norte 
e no centro do reino. No Porto usa-se ainda da cadeirinha conduzida 
por gallegos de chapéu alto e capa especial; mas este uso vae a des- 
apparecer. A liteira creio que já está extincta, — as estradas de nia- 
cadam, era que é fácil o serviço de diligencias e trens, raatárão-na; 
no eratanto, na minha infância, ahi por 1868-1870, vi ainda litei- 
ras em uso na Beira-Alta. As liteiras das casas nobres tinhao bra- 
sões de armas pintados; os animaes que as conduzião levavão ao pes- 
coço grande chocalhada. As cadeirirúias do Porto são liteiras em ponto 
pequeno. — Os coches em que vão os padres aqui era Lisboa nos en- 
terros creio serem especiaes da capital, pelo menos nunca os vi no 
Norte; representão fórmas um tanto antigas. — Sobre os coches da 
Casa Real vid. uma Noticia do Abbade Castro, Lisboa 1858. 

5. Oomidas e objectos correlativos. Nas Tradições popu- 
lares de Portugal, Porto 1882, § 339, referi algumas particularidades 
das comidas do nosso povo. 

No Museu Ethnographico podem. archivar-se, por exemplo, modelos 
de pães e de bolos (aqui no Sul dá-se o nome de bolos ao que no Norte 
e centro do reino se chama simplesmente doces). Os pães têm fórmas 
especiaes, como o trigo ou pão trigo ou bolo de duas e quatro cabeças 
(Minho e Beira, por exemplo), a regueifa ou rôsca (arredores do Porto), 
o santòro ou santorio (Beira, — assim chamado do latim sancto- 
rum, por se vender em dia de Todos-os-Santos ou Sanctorum om- 
nium), a Vròa ou pão de milho, que em algumas localidades é muito 
grande. Nas festas e feiras vendem-se doces com feitio de animal e 
de homera, — o que parece relacionar-se com antigas fórmas cultuaes. 
No nosso país, a propósito de comida, podia citar-se grande variedade 



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MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS 



233 



de factos; ha mesmo muitas terras, que se distinguem por especiali- 
dades de doces e guloseimas, como Arouca, Tentúgal, Coimbra, Avei- 
ro, etc, etc, — o que bem mostra que tivemos muitos conventos de 
freiras. — Nas aldeias usão-se moinhos de mão particulares, para se 
prepararem certas farinhas: estes moinhos na Beira são muito primi- 
tivos, pois constão de uma pia de pedra com um rebolo da mesma 
substancia dentro; no Algarve ha moinhos de mão bastante regula- 
res. — Nas nossas estações archçologicas, romanas e pre-romanas, as 
mós de moinhos de mão abundão, e tornão-se ás vezes, só por si, in- 
dicio precioso para o investigador de antigualhas. 

6. Religião e usos ftmerarios. Este § era susceptível de 
grande desenvolvimento, mas circumscrever-me-hei o mais possível. 
Vejamos alguns objectos que se podem archivar no Museu. 

a) Amuletos. — Ésta classe é bastante numerosa; ainda assim 
muitos d'elles podem reduzir-se a certos typos. Ha amuletos que as 
pessoas trazem comsigx); outros que se têm em casa; outros que an- 
dão nos animaes e nos vehiculos. O meu amigo Antonio Thomás Pires 
e eu temos já descrito em vários artigos e opúsculos os principaes 
amuletos do povo português ; eu preparo nesta occasião sobre elles um 
volume extenso, ornado de estampas, algumas das quaes já estão li- 
thographadas. Os amuletos portugueses têm diferentes origens : mui- 
tos podem fazer-se remontar a epochas extremamente remotas. Elles 
vigorão por todo o país; todavia creio que é a Extremadura, e sobre 
tudo Lisboa, onde mais amuletos se usão em animaes. A's vezes os 
amuletos degenerão, mas é fácil reconhecê-los com o auxilio da ethno- 
graphia comparada: assim uma fita, geralmente vermelha, que ás ve- 
zes, se vê na testa dos burros, e uma roseta de metal que pende da 
testa dos cayallos, por uma tira de coiro, são vestígios de amuletos. 
— Eu possuo uma collecção dos principaes amuletos portugueses, para 
não dizer de quasi todos, a qual depositarei no Museu Ethnographico, 
logo que tenha accommodação para ella. 

b) . Ex- votos. — No cap. nr, § 2, fallei já dos ex-votos. Além dos 
milagres ou retábulos que eu possuo e que depositarei no Museu, é fá- 
cil obter ex-votos de cera, de madeira, de metal. 

C) FóRMAS DE SEPULTURAS, DE CAIXÕES MORTUÁRIOS K ESQUIFES ; 

bandeiras das almas. — A's vezes podem obter-se os próprios objectos; 
outras vezes estampas. — A história das sepulturas entre nós pôde se- 
guir-se ininterruptamente desde os tempos prehistoricos até hoje. Dos 
tempos prehistoricos temos as antas e antellas, ás vezes com mamoas 
(vid. supra, cap. i). Sobre os tempos protohistoricos e os romanos vid. 
supra, cap. n-2, e cap. m-2. Da Idade-Média em deante temos as se- 
pulturas wisigothicas (vid. supra, cap. ív) e nos nossos templos' e ce- 
mitérios muitos monumentos, alguns sem indicações, outros, reconhe- 
cidamente históricos. Entre os primeiros lembrarei os carneiros, e uma 
interessante classe de cabeceiras de sepultura em que estão escul- 
pidos vários symbolos, como o signo-saimão, instrumentos de trabalho, 
formas de calçado, etc: tenho visto d'estas cabeceiras, por exemplo 



234 



REVISTA LUSITANA 



em Thomar, no Alandroal, etc, etc. Ha em Azurára uma igreja cujo 
chão está ladrilhado de pequenas pedras quadrangulares com symbo- 
los análogos; em algumas das pedras lê-se mesmo SEP(ultura) e 
SE(pultura), e os nomes dos mortos. A igreja de Santa Margarida, 
em Guimarães, é curiosa, entre outros motivos, pelas espécies de se- 
pulturas que tem, umas na parede, outras no chão, também com sym- 
bolos. Pelos campos e aldeias encontrão-se frequentemente sepulturas 
abertas em rocha, cuja data é difficil. fixar, porque ora estão junto de 
templos christãos (por ex. no Mogadouro), ora junto de estações lusitani- 
cas (por ex. ao pé de um castro, no termo de S. Martinho de Mouros). 

d) Factos diversos. — Mencionarei : andores, paramentos, ban- 
deiras de tcirios», custodias, cálices, cruzes, lanternas, thuribulos 
e alminfias. As alminhas são quadros em que se representa o purga- 
tório, feitos geralmente por maus artífices da aldeia. Diz Camillo Cas- 
tello Branco com toda a exactidão no seu romance A brasileira de 
Prazins, 1883, pag. 201: ium trolha inspirado, que já tinha pintado 
um painel das Alminhas, onde havia almas do sexo fraco com gran- 
des tetas lambidas por lavaredas, e um rei coroado com a boca aberta 
no acto de berrar queimado, e tamanha boca que só cedia á de um 
bispo raitrado, muito impertigado, com seu báculo». Frequentemente 
estes painéis têm versos allnsivos á situação das almas, por exem- 
plo: Lembrae-vos de nós — Que penamos por vós. — Podem obter-se 
desenhos ou modelos de capellas, igrejas, torres, adros, cemitérios, 
nichos, cruzeiros, púlpitos, pias-baptismaes, altares. — Nas províncias 
do Norte e centro do reino ha nichos e cruzeiros abundantes e muito 
variados; neste sentido as províncias do Sul são, segufcdo tenho 
observado, mais pobres. Entre as fontes santas notáveis lembrarei 
a que está entre Bencatel e Redondo (no Alemtejo),-*- notável so- 
bretudo pelo seu culto: este culto tem origem pagã, representado 
hoje pela Virgem Maria. O país porém está cheio de fontes santas, 
umas ainda com culto vigente, outras já sem culto. I? frequente ha- 
ver nas fontes santas uma cruz ou um nicho com um santo, que o 
povo muitas vezes tem o cuidado de armar de flores. Os deuses pa- 
gãos que na epocha romana symbolizavão de modo geral a santidade 
das fontes, na Lusitânia tinhão, entre outros nomes, os de Fontanus 
e Fontana; a maior parte das cruzes e santos de que acabo de fallar 
representão estes deuses e outros análogos. — Ha no nosso país ima- 
gens de santos muito curiosas, de madeira, pedra, gesso, que importa 
conservar ou reproduzir. — A este § pertencem muitas das fórmas das 
tatuagens, de que fallei ha pouco (§ 3), e dos doces, de que também 
fallei (§ 5). 

7. Divertimentos e festas. E' possível recolher no Museu 
Ethnographico estampas que representem trajos e divertimentos do 
Entrudo; arcos que se costumão armar em certas occasiões solemnes, 
. como casamentos, etc. Quanto a jogos, lembrarei, por exemplo, o chin- 
quilho, muito em voga na Extremadura. De outros fallarei adeante, 
no § 13. 



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MUSEU ETHNOORAPHICfr PORTUGUÊS 



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8. Vida agrícola. Basta fazer ama indicação muito summária, 
couiquanto neste assumpto houvesse bastante que dizer. No decurso 
do presente capitulo alguma cousa lembrei já também. 

Em virtude das diferenças de culturas, e* de outras circum- 
stancias, os usos agrícolas não são os mesmos em todas as provin- 
das de Portugal. 

Temos por exemplo: o carro de bois e os seus aprestos; o arado; 
a charrua; a grade; a trilha ou trilho, que em Tras-os-Montes tem 
ainda feitio muito antigo; o carrinho de mão, etc. O modo de appa- 
relhar o boi differe de uns pontos para outros: na Beira, por exem- 
plo, põe-se-lhes na cabeça a molhelha, em que assenta o jugo; no Mi- 
nho o jugo assenta no pescoço nú do boi. No Minho ha differenças 
entré jugos e cangas, sendo uns e outras muito ornamentados, como 
se pôde ver do pequeno opúsculo que com o titulo de Estudo ethno- 
graphico publiquei no Porto em 1881 (com estampas). 

Instrumentos que o homem maneja: a enxada, o enxadão, o sacho, 
a foice roçadeira, a simples foice ou seitoira (lat. sectoria), a foici- 
nha, o podão, a podôa, o picaveqae, a machada, a machadinha, o en- 
gaço ou encinho (ancinho), o malho ou mangual, etc. 

Objectos avulsos: o cesto- vindimo, o cesto-cargueiro, a padiola, a 
escada. 

As eiras, que nuns sitios são redondas, noutros são de terra, 
noutros de lágeas, merecem menção, como a merecem os canastros, 
muito em voga no Minho e na Beira. Os canastros são pequenas ca- 
sas de madeira, sobre o comprido, suspensas em pilares de pedra, e 
ordinariamente pintadas de vermelho; construem-se junto das eiras, 
para arrecadar o milho, que assim se conserva melhor. O modo de 
fechar as propriedades e de formar a entrada (Testas está igualmente 
sujeito ás condições do terreno e dos hábitos. Nas regiões onde abunda 
a pedra, fazem-se paredes de pedra em volta dos campos; nas regiões 
onde ella não abunda, ou falta, os campos são circumdados de sebes 
de madeira, ou de vallados (muros de terra) superiormente revestidos 
de piteiras, que impedem a entrada aos ladrões e aos animaes. Não é 
raro também, para o mesmo fim, collocar sobre os muros fragmentos 
de vidro, seguros por meio de argamaça. Na Extremadura é costume 
collocar á entrada das propriedades, de cada lado da abertura da 
porta, uma arvore, de ordinário oliveira, á qual se liga a cancella. — Os 
meios de extrahir agua dos poços varia de umas localidades para ou- 
tras. — De tudo isto se podem fazer desenhos ou tirar photographias, 
que dêem ideia da vida provinciana. 

A' cerca da vida agrícola do Alemtejo tem-se publicado no jornal 
O Elvense uns artigos muito importantes e curiosos com o titulo de 
Através dos campos, assignados com um pseudonymo. Sobre a vida 
agrícola de outras províncias podem também colher-se algumas notí- 
cias em vários livros e artigos, alguns da especialidade, outros já ci- 
tados a cima. 

9. Vida pastoral. A cima toquei de passagem neste ponto. 



236 



REVjGTà LtfSItANA 



São o Alemtejo, a Beira e Tras-os-Montes as províncias que mais fa- 
ctos ministrão para preencher esta secção. 

Além das casas e locaes para o gado (curral, bardo, etc.), posso 
citar: os chocalhos, que tomão nomes variados, segundo os tamanhos, 
como reboleiros, picadeiras, picadeirinhas, piquetes, camjxiinhas, guisos 
tricolaricos (sic); a funda, que se usa no Algarve; o çurrão; o gábri- 
cho (Ribatejo), etc. A propósito de chocalhos lembrarei que ha algu- 
mas terras, como Alcáçovas, onde elles se fabrícão em grande quan- 
tidade, e d'onde vão longe a vender; por este motivo châmão á gente 
de Alcáçovas os chocalheiros, nome que se tem por ofensivo. 

Com o fabrico dos queijos liga-se a existência de muitos moveis 
e outros objectos, por exemplo a queijeira (Beira), o caniço (Alem- 
tejo), etc. 

10. Vida marítima e oooupação da pesoa. Para preen- 
cher esta secção conhecem-se muitos elementos. A propósito do Al- 
garve dá João Baptista da Silva Lopes na sua Corografia do reino do 
Algarve, Lisboa 1841, num capitulo sobre pescarias, bastantes ele- 
mentos. No Museu Industrial Marítimo, annexo á Eschola Industrial 
de Pedro Nunes, em Faro, ha também uma já valiosa collecçâo ethno- 
graphica, que vem descrita no Catalogo iUustrado d'aquelle Museu 
(pelo Sr. Fonseca Benevides, 2. a ed., Lisboa 1891). A Policia e explo- 
ração das aguas, do Sr. Candido Correia, Lisboa 1891, contém des- 
cripções e estampas de muitos objectos relacionados com a pesca, e 
ministra além d'isso diversas indicações bibliographicas. Mas sem dú- 
vida o trabalho mais desenvolvido e importante, considerado debaixo 
do aspecto da ethnographia portuguesa, é o do Sr. Baldaque da Silva, 
intitulado Estado actual das pescas em Portugal, Lisboa 1892; elle 
pôde e deve servir de guia para se fazer de futuro neste sentido qual- 
quer collecçâo. O auctor considera a pesca debaixo de seis aspectos: 
longínqua, do alto, costeira, fluvial, lacustre e recreativa; e classifica 
assim os apparelhos empregados nella: 

1) apparelhos de anzol ou fisga; 

2) apparelhos de rede; 

3^ apparelhos de verga ou metal; 
4) engenhos de pesca. 

D'estes difFerentes apparelhos apresenta descripções minuciosas, 
acompanhadas de estampas a cada passo, o que torna o assumpto du- 
plamente curioso. Além dos apparelhos descreve e figura também in- 
strumentos empregados na apanha das plantas marítimas, e embarca- 
ções da pesca, com outros objectos correlativos, como cabazes, etc. O 
auctor junta uma parte histórica a respeito de barcos antigos e de 
leis referentes ás pescarias; ésta parte parece-me um pouco débil, e 
o auctor, chegado a coordenar um livro como o que coordenou, á custa 
de tanta dedicação, trabalho e despesa, poderia por ventura ter en- 
trado mais amplamente em considerações e confrontos históricos e 
archeologicos. O livro é de valor, ao mesmo tempo, para a glottolo- 
gia, pela grande riqueza de vocábulos technicos e populares que 



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MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS 



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contém, valor que o auctor fez realçar com a adjuncção de um voca- 
bulário, que, se não é completo, é pelo menos copioso. — Visto ser 
Portugal um país marítimo, e ter-lhe provindo do mar toda a sua gló- 
ria, parece-me necessário que no Museu Ethnographico fique bem re- 
presentada ésta secção, ainda que pela maior parte não seja senão 
com estampas e modêlos, pois que é nos estabelecimentos scientificos 
da especialidade, como a Eschola Naval, e as escholas industriaes 
marítimas, que os objectos d'ella têm, pelas applicações práticas, prin- 
cipal cabimento. 

11. Aprestos de caça. A caça a princípio praticou-se com 
dois fins: para o homem se defender das feras, e para apanhar ani- 
maes que lhe servissem de alimento. Depois degenerou em mero di- 
vertimento, que foi muito favorito dos reis e fidalgos. 

A' cêrca da caça em Portugal, desde tempos antigos, vid. Ga- 
briel Pereira, Estudos eborenses, n* 29 e 33 (As caçadas, l. a e 2* 
parte, Évora 1892-93); e também Viterbo, Elucidário, s. v. apeiro, 
brancagem e boi Nesses trabalhos se encontra noticia de muitos apres- 
tos venatorios; no primeiro encontrão-se também indicações biblio- 
graphicas. 

Hoje em Portugal creio que só uma ou outra pessoa vive 
do mester da caça; no emtanto ha muita gente que se diverte com 
ella. 

No Museu Ethnographico podem recolher-se apparelhos de caça, 
como redes, e objectos correlativos, por exemplo polvorinhos de chi- 
fre, que ás vezes são bellamente ornados, sobre tudo no Alemtejo; 
possuo um polvorinho, adquirido por mim em Tras-os-MontesJ o qual, 
além de ser lavrado, termina numa figa. Ha assim muitos objectos, ao 
mesmo tempo revestidos de caracter utilitário e religioso. 

12. Bellas-artes populares e artes industriaes. E' cos- 
tume dividir as bellas-artes em : artes da vista, ou Architectura, Es- 
culptura e Pintura; e artes do ouvido, ou Poesia, e Musica com a Dan- 
ça. Em vários pontos do presente artigo já fallei de algumas d'estas 
artes, como quando me referi ás chaminés do Algarve, ás fontes, ás 
obras esculpturaes dos pastores. Em relação á musica podem citar-se 
os instrumentos, como o pifano, as castanhetas, o bombo, os férrinhos, 
a viola. Este ponto tem intimas relações com o § 13 em que me occu- 
po da vida infantil. Na pintura espontânea o nosso povo é em geral 
pobre, como se pôde ver nos ex-votos que enchem as igrejas, nas 
alminhas (vid. § b-d), nos cruzeiros: ha pouca variedade nos assum- 
ptos ahi tratados. 

De bellas-artes populares é facillimo obter para o Museu Ethno- 
graphico abundantes espécimes. 

Temos industrias numerosas e características em diversas locali- 
dades. Já no sec. xvi Gil Vicente, na tragicomedia pastoril da Serra 
da Estrella, põe na boca da figura que representa a Serra as seguintes 
palavras (vid. Obras, n, 442, ed. d^amburgo) : 



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Mandará a villa de Cea 
Quinhentos queijos recentes, 
Todos feitos á candea; 
E mais trezentas bezerras, 
E mil ovelhas meirinhas, 
E duzentas cordeirinhas, 
Taes, que em nenhuas serras 
Náo nas achem tão gordinhas. 



Mandarão desses casaes 
Que estão no cume da Serra, 
Penna para cabeçaes, 
Toda de águias reaes, 
Naturaes mesmo da terra. 
E os do Val dos Penados 
E Montes dos Tres Caminhos, 
Que estão em fortes montados, 
Mandarão empresentados 
Trezentos forros de arminhos 
Pera forrar os brocados. 



E Gouvea mandará 
Dous mil sacos de castanha, 
Tão grossa, tão san, tamanha, 
Que se maravilhará 
Onde tal cousa se apanha. 
E Manteigas lhe dará 
Leite para quatorze annos, 
E Covilhan muitos pannos, 



Eu hei-lhe de presentar 
Minas de ouro que eu sei, 
Com tanto que ella ou El-Rei 
O mandem cá apanhar: 
Abasta que lh'o criei. 



Finos, que se fazem lá. 

O nosso cómico conhecia bem a vida popular portuguesa, e por 
isso todas essas informações devem ser exactas, e algumas o sei eu 
que são; 

Haveria muito que dizer das nossas industrias populares, sè o 
meu fim não fosse apresentar um simples e breve indiculo. 

O seguinte programma de uma interessantíssima exposição feita 
em 1883 pela Sociedade de Instrucção do Porto, programma publica- 
do na Revista da mesma Sociedade, vol. m, 36-37, pôde dar uma ideia 
das nossas industrias caseiras: 

1) t Trabalhos dè carpinteria e marceneria. Serras mechanicas. 
Trabalhos embutidos ou marchetados (intarsia), etc; 

2) Trabalhos ao torno em madeira, marfim, ouro, etc.; 

3) Mobiliário domestico, rústico: cadeiras, mesas, armários, ca- 
mas, santuários, cangas de bois, etc. ; 

4) Instrumentos de trabalho, na lavoura e em casa; 

5) Pinturas decorativas: em barro, faiança, porcelana, vidro, ma- 
deira, seda, etc; 

6) Esculpturas decorativas: flores artificiaes, de estofos, de pen- 
nas, de couro, cera e papel; 

7) Desenhos decorativos. Modelos e padrões para todos os ramos 
das industrias caseiras; 

8) Gravuras em madeira para illustração da industria typogra- 
phica; 

9) Tecidos de linho, lã e mixtos, como toalhas, mantas, tapetes 
(Arraiolos), serguilhas, liteiros para cobertos de cama, arreios alem- 
tejanos, redes de pesca; 

10) Obras em palha, vime, corrêa (canastras, cadeiras de banho), 
esparto, palma, crina, cabello, etc.; 




MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS 



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1 1) Bordados brancos e de côr, em linho, algodão, lã, seda, a fio 
de prata e ouro, ete. Rendas de bilro em linho, algodão, seda, prata 
e ouro; rendas de malherio, etc.; 

12) Arte de cortar e talhar. Modelos e padrões para o vestuário; 

13) Cartonagens; 

14) Fructas confeitadas e ornamentadas (em bocetas); 

15) Trajes e costumes portugueses (figuras vestidas)».— 
Como centros de trabalho de ourivezaria são notáveis os arredo- 
res do Porto: é lá que se fazem as grandes arrecadas, que as molhe- 
res interamnenses usão, admiráveis trabalhos de filigrana, em que se 
suppõe haver influencia da arte arabc. — Em serralheria é também 
notável o Norte, onde Guimarães já figura, desde a idade-média, pe- 
los seus artistas nesta espécie. — Os mármores tão celebres de Extre- 
mos trabalhão-se já desde a epocha romana: grande parte dos ex-vo- 
tos do templo de Endovellico são em mármores d'aquella região. Na 
Batalha os rapazes fazem em pedra, — no calcáreo molle do sítio — , 

t muitos objectos que vendem aos forasteiros, como caixinhas, etc, em 
que predomina um mesmo typo de ornamentação (vegetaes). — A lou- 
ça de Extremós é celebrada ha alguns séculos. Em todas as provín- 
cias, mais v ou menos, existem fábricas cerâmicas. Quem não admira as 
figurinhas que se fabrícão perto do Porto, symbolizando tão bem os 
typos populares e toda a vida rústica portuguesa? Em Guimarães ven- 
dem-se muitos paliteiros e assobios de louça, vindos de outros pontos 
da província, representando figuras phantasticas, como animaes com 
mais de uma cabeça, etc. ; a arte d'estes objectos, onde domina a ima- 
ginação, contrasta com a das Caldas da Rainha, onde, á parte o que 
ha também de imaginação, por exemplo, nas figuras de macacos, se 
vêem muitos objectos (fructas, animaes, homens), feitos com rigorosa 
observação da natureza. E visto que fallei nas Caldas, não poderei 
deixar de citar o nome do grande artista Bordallo Pinheiro, sempre 
tão portuguesmente inspirado nas suas magnificas producções. Além 
dos centros cerâmicos que lembrei, existem muitos outros no país. Diz 
o Sr. Joaquim de Vasconcellos na Revista da Sociedade de Instrucção 
do Porto, m, 382: «nenhuma arte é mais popular no país, nenhuma se 
multiplica com mais facilidade, nenhuma se insinua mais habilmente 
na habitação humana, nenhumà anda mais ligada á vida intima da 
família; também nenhuma faz mais, com menos recursos». — A indus- 
tria da tecelagem é também bastante vulgar; os teares, construídos ain- 
da com os processos da mechanica primitiva, offerecem ao ethnographo 
bastante curiosidade. — Os palitos de Coimbra, feitos dos sinceiros do 
Mondego, são uma industria local, reveladora de grande paciência e ha- 
bilidade; com os palitos vendem-se também pennas de escrever, fabri- 
cadas no mesmo teor. — O Sr. Dr. Julio Henriques, director do Jar- 
dim Botânico de Coimbra, reuniu num museu adjunto ao mesmo jar- 
dim, grande numero de productos artísticos portugueses, cuja maté- 
ria prima se tira dos vegetaes, como a palha, o junco, o vime, a cor- 
tiça, a palma. 



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REVISTA LUSITANA 



E' aos museus industriaes que pertence archivar era abundância 
a maior parte dos objectos que pertencem a ésta secção, e alguns mu- 
seus são já neste sentido muito interessantes; todavia, como em taes 
objectos se revela o génio nacional, condicionado pelas diversas in- 
fluencias mesologicas, não pôde deixar de haver Telles uma amostra 
no Museu Ethnographico, por meio da qual aquelle génio se aprecie. 

Sem difficuldade, e sem grande gasto, pôde em pouco tempo ficar 
bem representado neste sentido o Museu Ethnogtaphico. Só na feira 
do S. João, em Évora, se faria uma collecção riquíssima dos productos 
do Sul do Tejo, pois esta feira, além do sen caracter commercial, é de 
grande importância ethnographica (e anthropologica). 

Sobre o assumpto do presente § veja-se, por exemplo, o seguinte, 
além do que citei no cap. vi, e neste cap., 10.° § : 

Relatório da Sub-Commissão do Inquérito Industrial de 1881, Por- 
to 1881; 

Catalogo da Exposição Industrial Portuguesa de 1888; 

Relatório e catalogo da exposição portuguesa do Museu Industrial • 
e Commercial de Lisboa, 1893 ; 

Relatório da exposição industrial do Palacio de Crystal do Porto, 
1893; 

Rendas de Peniche, — Eschola Industrial da Rainha D. Maria Pia 
— (padrões de 1893). Lisboa 1893. 

As fabricas da Covilhã, por Fradesso da Silveira, Lisboa 1863; 

A Vista Alegre (apontamentos para a sua historia) por Marques 
Gomes, Porto 1883; 

Inquérito industrial de 1881, Lisboa 1881-1882 (vários volumes) ; 

A fabrica das Caldas da Rainha, por Kamalho Ortigão, Porto 
1891; 

Revista da Sociedade de lnstruccão do Porto, vol. n e irr, onde o 
Sr. Joaquim de Vasconcellos publicou valiosos escritos seus, e collec- 
cionou documentos para a historia das nossas artes e industrias. O 
Sr. Joaquim de Vasconcellos é um dos poucos que entre nós conhecem 
bem estes assumptos; sobre elles tem publicado outros trabalhos além 
dos citados, como Archeologia artística, Historia da arte em Portugal, 
A reforma do ensino das béllas-aries, etc. 

13. Vida infantil. A vida infantil é em parte um arremêdo 
da vida viril. A criança, desde muito cedo, busca assemelhar-se ao 
homem .propriamente dito, copiando em ponto pequeno o que vê em 
ponto grande. Por isso não raro na vida infantil se acha o reflexo 
de ideias que noutro tempo fôrão sérias. Assim, as crianças da Beira 
têm uma espécie de armas para brinquedo, chamadas arcabiises: ora 
o arcabus foi uma arma antiga. As crianças de Elvas usão ainda de 
outro brinquedo, que tem o nome de besta, que, como é sabido, foi 
também arma antiga. — A trajos infantis referi-me supra, § 3. — Os 
outros objectos de caracter ethnographico, relacionados com a vida 
das crianças portuguesas, podem agrupar-se talvez assim : 

1) Instrumentos músicos (cfr. supra, 12* §), uns de percursão, e 



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vibração, como os pratos, o berimbau; outros de sôpro, como as gaitas 
de barro e os assobios, que se vendem nas feiras, as gaitas feitas de 
vegetaes (castanheiro, cevada, loureiro). A' cerca d'este assumpto, co- 
mecei a publicar na minha revista litteraria'0 Pantheon, 1880-1881, 
pag. 1 98, um artigo intitulado Instrumentos músicos popidáres e infan- 
tis, que porém ficou incompleto. 

2) Jogos (cfr. supra, § 7), por exemplo, o pião, a piasca, o rapa, 
a pella, etc. Sobre jogos infantis portugueses em geral, veja-se o se- 
guinte: F. Adelpho Coelho, Os jogos e as rimas infantis de Portugal 
(extracto do Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, serie 4.*, 
n.° 12); do mesmo A., Jogos e 'rimas infantis, Porto, Magalhães & Mo- 
niz; e Theophilo Braga, in O povo português, i, 293 sgg. Em 1882 pu- 
blicou em Lisboa uma collecção de Recreios collegiaes o P. e Pedro 
Aloy, a qual, embora feita com intuitos pedagógicos, contém vários jo- 
gos populares portugueses. E' já antigo o Passatempo honesto e fami- 
liar ou collecção de quarenta e oito jogos, etc.,.3. a ed., Lisboa 1827. 

3) Brinquedos e objectos vários. Entrão aqui : a bésta e o arcàbús,' 
que mencionei ha pouco, o mata-moscas; as louças de que as crianças 
se servem quando fazem casinhas (assim se chama na Beira ao entre- 
tenimento que consiste em imitar a vida domestica, isto é, as comidas, 
etc.) ; os meios de entreter ou engalhar, como o pandeiro de lata, do 
que se vêem muitos espécimes em todas as feiras e lojas do Norte 
e centro do reino; os bonecos de barro e madeira; as nenas (bonecas 
de panno, — Beira); os amuletos (cfr. § 6-a); os oerços, etc, 



Com quanto me pareça ter a cima indicado as principaes classes 
a que se subordinão os objectos, que, segundo a intenção do Decreto 
que criou o Museu Ethnographico Português, devem ter entrada nes- 
te, não seria difficil estabelecer outras classes secundarias. 

Do rápido lance de olhos que dei á parte material da nossa civi- 
lização, considerada desde os tempos prehistoricos até o presente, 
vê-se realmente, como já disse, que as epochas em que ella se divide 
se filião umas nas outras. Muitas das nossas louças populares, mesmo 
com os seus singelos ornatos, provém das do período neolithico; mui- 
tas das nossas povoações assentão em alicerces protohistoricos, e têm 
nomes pre-romanos; muitos dos nossos usos agrícolas fôrão ensinados 
ou aperfeiçoados pelos Eomanos e pelos Árabes; as moedas de que 
nos servimos diariamente são cópias modificadas de moedas medie- 
vaes, como estas o são de moedas antigas, cuja origem se pôde fazer 
remontar ao sec. vn ou viu antes de Christo. Achamo-nos assim in- 
dissoluvelmente ligados ao passado. Estudando este, prestamos pois 
culto aos venerandos velhos que nos legárão a herança que usufruímos. 

Como excellentemente diz o Sr. Dr. Bernardino Machado, nas 
Affirmações públicas, 1882-1886, pag. 349: 

«Se ambicionamos caminhar para o futuro cora passo largo e fir- 
«me, se desejamos progredir, coordenemo-nos com os nossos antepas- 

KLY. LUSIT., VOl. III, f:iSC. 3. 4 



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REVISTA LUSITANA 



«sados, unarao-nos bem a elles. Só nesta intimidade secular reside a 
«consciência, a alma da nação, a sua força». 

Por isso é que em todos os países, onde a sciencia não é uma 
curiosidade, e a noção dè pátria não é um Jogar commum de rhetori- 
ca, ha museus e aulas de archeologia, e se publicão trabalhos regula- 
res sobre as antiguidades nacionaes. 

- E, já que fallei em pátria, accrescentarei também que o exame 
summario, que acabo de fazer da nossa ethnographiá, é sufficientemente 
elucidativo no sentido de mostrar que o nosso país possue bastantes 
elementos seus, com feição genuinamente portuguesa. Numa epocha em 
que espíritos melancólicos ou faltos de" fé julgão possível a extincção 
da nossa nacionalidade, dá certo consolo áquelles que âmão o torrão 
natal, e não verião, sem còrar de pejo ou morrer de dôr, sumido no 
abysmo das nações perdidas o nome português, o saber que ha ainda 
entre nós alguma coisa que não se confunde totalmente com as coisas 
estranhas, e na qual se imprimiu indelevelmente o cunho nacional. 

Além dos objectos propriamente ethnographicos e archeologicos, 
podem figurar no Museu bustos de heroes e homens illustres do nos- 
so país, quadros com trechos característicos de auctores de fama, etc. 
São ao mesmo tempo documentos da nossa vida social, e estímulo per- 
manente para nobres emprehendimentos. . 



A resenha que fica feita, e as considerações de que a precedi e 
de que a segui, mostrão até á evidencia a necessidade da existência 
do Museu Ethnographico Português, e quanto foi sensato e patriótico 
o Decreto que o criou. 

O Sr. Dr. Bernardino Machado, ao criar o Museu, teve a feliz 
lembrança de o mandar installar junto da Direcção dos trabalhos geo- 
lógicos, e de o tornar dependente da Repartição dos serviços techni- 
cos de minas e da industria. A' frente da Direcção dos trabalhos geo- 
lógicos está o Sr. Nery Delgado, universalmente conhecido e apreciado 
pelos seus numerosos livros e estudos de Geologia e de Archeologia 
prehistorica; elle prontificou-se, logo que soube da criação do Museu, 
a ceder para este uma sala pertencente á Direcção dos trabalhos geo- 
lógicos ; além d'isso, a Direcção possue uma excellente bibliotheca, em 
que abundão obras de Archeologia prehistorica e de Anthropologia, 
cuja utilização o Sr. Nery Delgado facultou também ao Museu. A' 
frente da Repartição dos serviços technicos de minas e da industria 
está como chefe o Sr. Severiano Augusto da Fonseca Monteiro, que, 
por ser ao mesmo tempo lente do Instituto Industrial de Lisboa, e 
consagrar á sciencia aquellc respeito profundo e consciencioso que só 
podem consagrar-lhe os indivíduos que trátão directamente d'ella, tem 
já auxiliado muito o Museu, e de certo o continuará a auxiliar. 

Ainda assim, apesar de amparado, desde o seu nascimento, por 
tão boas égides, o Museu Ethnographico, nas circumstancias em que 
por ora está, com um pessoal que apenas se compõe de dois indivíduos. 



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— director e adjuiicto — , sem nenhuma verba permanente para cos- 
teio de despesas, e dispojido de uma única sala, que ainda não tem 
toda a mobília de que precisa, não pôde satisfazer cabalmente aos 
fins para que foi criado. 

No emtanto, como ap Govêrno consta já officialmente tudo isto, 
tenho todas as razoes para esperar que elle fará que o Museu Ethno- 
graphico Português tome incremento em breve tempo, e se torne pra- 
ticamente um melhoramento e um progresso no país. 

Seria realmente pena que, possuindo Portugal, como mostrei, tan- 
tas cousas dignas de serem largamente conhecidas e estudadas, e ha- 
vendo, como ha, um ou outro individuo que se prontifica a trabalhar 
activamente, e com boa vontade, o Govêrno tomasse em menos consi- 
deração este assumpto. 

Além de ser necessário accommodar convenientemente os obje- 
ctos que já se áchão colleccionados, mas que por ora estão encaixotados 
ou dispersos, torna-se de necessidade não menos urgente acudir áquel- 
les objectos que correm risco de se extraviar ou anniquilar. Todos os 
dias os jornaes dão notícia do apparecimento de ruínas, moedas, os- 
sadas e outros mil objectos de interesse archeologico. O que succede 
a isto? Se por acaso passa um estrangeiro instruído, faz colheita, e 
leva para o seu país, como aconteceu, por exemplo, com objectos roma- 
nos descobertos nas minas de S. Domingos e com uma estatueta de 
Hercules achada na fronteira do Minho. Mas esse mal, com quanto ver- 
gonhoso para nós, e fraudulento, não é o maior, porque os objectos* 
ficão salvos para a sciencia; o peor é quando o camartello do pedreiro 
despedaça a formosa columna e a inscripção única, ou quando no ca- 
dinho do ourívez se funde o annel, e a moeda romana, e o collar pre- 
historico! O povo imagina que os monumentos archeôlogicos, como as 
antas, as mamôas, os castros, contêm dinheiro escondido do tempo dos 
Moiros; e que faz elle então? Fossa, e destróe tudo! A estas causas 
de extincção immediata junte se a indiferença ou ignorância de mui- 
tas pessoas que, podendo salvar innumeras preciosidades, as deixão 
perder para sempre. Ainda ha poucos dias, por occasião de eu man- 
dar vir do Algarve para o Museu Ethnographico uns caixotes com 
uns objectos antigos, feitos de calcareo, um chefe de estação dos ca- 
minhos de ferro pôs duvida ao despacho d'elles, clamando que não era 
preciso remetter para Lisboa caixotes com pedras de amolar!! 

Já por vezes escriptores nacionaes e estrangeiros verberárão o 
desleixo que em Portugal tem havido pela Archeologia. Vejamos al- 
guns exemplos: 

a) Darci o primeiro logar a Alexandre Herculano. Escreve elle, 
no vol. n dos Opmcuhs, com aquclla auctoridade de sciencia e de ca- 
racter que nunca ninguém seriamente lhe contestou: 

&Cada facto histórico tinha uma igreja, uma casa, úm mosteiro, 
«um castello, uma muralha, um sepulchro, que eram os documentos 
«perennes d'esse facto e da existência dos indivíduos que nelle ha- 
«viam intervindo». (Pag. 21). 



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« . . . . agora derribam-se coruchéus, partem-se columnas, derro- 
«cam-se muralhas, quebram-se lousas de sepulturas, e vão-se apagan- 
cdo todas as provas da historia. Faz-se o palirapsesto do passado i». 
(Pag. 19). 

a As inscripções lapidares vão-se enterrando por alicerces e pa- 
«redes, não á face doestas, porque ahi alguém poderia lê-las; mas no 
«fundo dos cavoucos ou no âmago dos muros. Sem isso não nos van- 
c gloriamos cora inteira justiça de ter completamente renegado de nos- 
«sos maiores». (Pag. 23). 

«Corre despeitado o vandalismo de um a outro extremo do reino, 
«desbaratando e assolando tudo». (Pag. 19-20). 

« ao menos que o governo e o parlamento não dê^m ao 

«mundo documento de igual ignorância e barbaria, mas acudam ao 
«que ainda resta». (Pag. 52).. 

«Vergonha é confessá-lo: os estrangeiros têm mostrado maior 
«veneração pelas antiguidades do nosso país do que os portugueses. 
«Um estrangeiro salvou no convento dominicano de Bemfica a antiga 
«capella de D. João de Castro. Ha pouco ouvimos outro, em cujos 
«olhos chammejava a indignação, clamar altamente contra a barbaria 
«com que se deixavam estragar no mosteiro de Belém vários quadros 
«magníficos de eschola portuguesa, nos quaes os pássaros, entrando 
«pelas frestas mal reparadas do edifício, vão amontoando as immun- 
«dicies. Mas estes estrangeiros são homens que sabem qual seja o 
«valor dos monumentos da arte e da historia. Nós é que temos 
«perdido o sentimento e a intelligencia para apreciar essas cousas». 
(Pag. 30). 

b) Diz Filippo Simões, no Relatório do Museu Cenáculo, 1869, 
pag. 3: 

«Desde a capital do reino até ás villas e aldeias não faltam por 
«toda a parte copiosos vestígios do commum furor de destruir, adul- 
«terar ou emplastrar as relíquias da architectura e da esculptura dos 
«séculos que fôrão». 

c) Diz Estácio da Veiga, nas Antiguidades de Mértola, 1880, 
pag. 146: 

«Assim se vão perdendo os mais preciosos padrões das antágui- 
«dades do nosso território, porque a ignorância dos que devião velar 
«pela conservação d'estas cousas, que em todos os países do mundo 
«civilizado são apreciadíssimas, faz que se olhem com a mais supina 
«indifferença. Grande responsabilidade cabe pois aos governos, que 
«deixão perder estas venerandas relíquias das civilizações que estaur 
«ciaram no território nacional». ' 

d) D'entre os estrangeiros, E. Cartailhac, que conhece admiravel- 
mente e de visu a nossa archeologia prehistorica, diz no seu livro Les 
ages prehistoriques de VEspagne et du Portugal, 1886, pag. 252: 

«Les autres trouvaillos d 7 Alcácer sont à Lisbonne. Elles^gisaient 
«depuis plusieurs années dans les inagasins de TAcadémie des Arts. • . 
«la majeure partie avait dispam, et je crains bien que les plus belles 



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MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUÊS 



«pièces soient maintenant enfouies dans le cabinet cTun curieux, et 
«perdues pour la science». 

e) Um viajante inglês, que andou pelo nosso país, contou-me o 
seguinte, em carta -de 28 de Março de 1894: 

«Passei algumas horas em Beja sexta-feira santa. Depois da mi- 
«nha visita 4m Fevereiro começarão, como verdadeiros vândalos, a 
«destruição da igreja conventual, cuja fachada, em gothico florido, era 
«a cousa mais bellsj que havia na cidade de Pax- Julia». 

Quasi toda a gente em Portugal se ri da Archeologia. Isto depen- 
de, em parte, da pouca illustração do público; em parte, de se orga- 
nizarem muitas vezes collecções archeologicas sem plano, nem intuito, 
de modo que ao lado de uma lucerna romana fica uui ovo de abestruz, / 
ou ao lado de um botão com o retrato d'el-rei D. João vi figura um 
manipanço de Angola. 

Desde o momento porém que se constitua methodicamente mais 
um grande museu em que as coisas apparêção concatenadas, dando 
ideia da successão das civilizações, mostrando a somma inaudita dos 
esforços do homem para viver e para se aperfeiçoar; desde o momen- 
to que o camponês, vindo á cidade ao domingo, o pescador, o vaquei- 
ro, o artífice, ao entrarem naquelle recinto que symboliza e em ponto 
pequeno resume a pátria, véjão comprehendido e respeitado o traba- 
lho das gerações; desde o momento que o sábio encontre alli um fa- 
cto que lhe faltava para a demonstração de uma these, o artista uma 
impressão nova, todos, em fim, o viver ininterrupto de ura povo, des- 
de as epochas mais remotas de que ha memoria : sem dúvida nenhuma, 
tanto a Archeologia como a Ethnographia geral conquistarão terreno, 
e já se não ouvirá com tanta insistência e frequência a gargalhada 
estólida dos zoilos a motejá-las. 

Isto que digo não é pura theoria. Fundou-se ha pouco tempo em 
Beja, no edifício da camará, um museu archeologico municipal, por 
iniciativa de um grupo de pessoas illustradas, intelligentes e devota- 
das á sua terra : logo que a fundação do museu constou, e este se abriu 
ao público, não faltão indivíduos de todas as classes, mesmo camponeses 
e analphabetos, que vêem trazer constantemente objectos que encon- 
trão e.julgão no caso de poderem figurar alli; de modo que o Mu- 
seu municipal de Beja é hoje um dos mais interessantes de Portu- 
gal, em esculptura, epigraphia, cerâmica, etc, de todas as epochas da 
nossa história. Não sei como explicar, deante d'estes actos de dedica- 
ção, o vandalismo de que falia o viajante inglês citado acima! 

O estudo da Archeologia concorre para que se interpretem melhor 
e se completem os textos dos auctores clássicos, e por tanto se conheça 
mais ampla e claramente a nossa História antiga. O desleixo pelas an- 
tiguidades nacionaes chega a ponto de mesmo haver professores, que, 
podendo estar ao facto da scieneia moderna, nem o pouco que já se 
sabe da Archeologia lusitana conhecem bem! Por exemplo, nuns Apon- 
tamentos de historia de Portugal para uso dos estabelecimentos de in- 
strucção secundaria, Coimbra 1894, lê-se o seguinte, a pag. 4: «Segun- 



246 



fcKVlSTA L08ITANA 



do S. Agostinho, a religião primitiva dos Lusitanos foi o monotheismo: 
prestavam culto a um Deus único, summamente bom, principio e fim 
de tudo. Mas depois, á semelhança do que se deu com os outros po- 
vos, tornaram-se polytheistas, abraçando o sabeismo ou adoração dos 
astros. A vinda dos Phcnicios produziu uma notável mudança nas 
ideias religiosas dos povos da Península, e, portanto, nas dos lusita- 
nos: introduziram cá o culto de Hercules, tyrio ou lybico, designado 
pelo nome de Endum c pelo cognome de Vellico. Era denominado Vel- 
lico, por ser especialmente' venerado em Vdlia, cidade dos cantabros. 
Houve tempo em que também adoravam a deusa Minerva e o deus 
Marte, ao qual immolavam o cabrito, o cavallo e os captivos; o que 
se não sabe é de quando data este culto, sendo mais provável que 
fosse devido á influencia dos gregos». 

O que fica dito ou é innexacto, ou está mal exposto : os documen- 
tos que réstão da antiguidade lusitanica não permittem que se diga 
que os Lusitanos erão monotheistas, e muito menos que o culto dos 
astros succedesse a um monotheismo anterior; o deus Endovellico nada 
tem com Hercules, nem aquelle deus foi jámais adorado era Vellia: o 
seu culto era no alto de um monte, no Alemtejo, ao pé de Terena, e 
• não se pôde dizer, nem isso é provável, que fosse introduzido cá pelos 
Phenicios; a respeito do culto pre-romano de Minerva na Lusitânia 
não sei aonde o auctor do compendio fosse descobri-lo; com relação 
a Marte, o auctor do compendio confundiu este deus com Ares, pois 
é de Ares que falia Estrabão, e- além d'isso tal nome deve encobrir o 
de um deus indígena. Se o auctor houvesse consultado os textos dos 
próprios escritores antigos e os trabalhos archeologicos, e se não dei- 
xasse levar pela phantasia ou por informações em segunda mão, teria 
esboçado um quadro curioso da religião dos nossos antepassados, em 
vez do que traça, tão imperfeito. 

Dos diversos ramos da Archeologia geral é a Paleoethnologia, 
ou Archeologia prehistorica, um dos mais fecundos em revelações. 
Quando começárão as investigações á cerca da Prehistoria, houve apu- 
pos da parte dos conservadores e dos homens da ordem. Não obstante 
os sábios proseguírão na realização do seu ideal, e a Archeologia pre- 
historica mostrou a existência de antigas civilizações com que mal se 
sonhava, e que comtudo erão as primeiras! E' por esse motivo que os 
indivíduos que hoje escarnecem dos estudos archeologicos, ou lhes 
ligão pouca importância, devem ser deitados ao desprezo; de facto 
elles não comprehendem o alcance d'aquelles estudos. Em Portugal 
lê-se muito pouco, além de jornaes e de romances. Poucas pessoas, 
começando a ler um livro de estudo, o lêem por inteiro! Cansão-se 
logo. Fallo, é claro, do commum. Por conseguinte não admira que tam- 
bém exista quem não dê apreço a cacos e a pedras toscas. Mas isso 
não é motivo para que, depois de se ter reconhecido a importância dos 
estudos archeologicos, estes se não desenvolvão e não caminhem para 
deante. 

Aos Governos pertence conservar acceso o facho da sciencia, e 



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MUSEU BTHNOGfiAPfilCO PORTUGUÊS 



247 



não deixar esmorecer os poucos indivíduos que ainda, se sentem com 
fé, e têm ardor e enthusiasmo pelos assumptos archeologicos. 

Se elle necessita de acudir á Archeologia, mandando accommodar 
devidamente o que está colleccionado, e salvando o que corre grave 
risco de se perder totalmente, nem por isso, pelo seu lado, a Ethno- 
graphia moderna merece pouca attençâo ou pouco desvelo. A Ethno- 
graphia moderna provém da antiga, e por tanto as razões scientificas 
que tia para attender a ésta são as mesmas que ha para attender 
áquella. O progresso, tendendo a unificar as civilizações dos povos, faz 
que muitos usos e tradições se vão pouco a pouco esquecendo e ex- 
tinguindo : trajos, construcções, aprestos industriaes e de lavoura, mo- 
numentos religiosos. Urge pois também inventariar o que ainda resta, 
senão em breve faltar-nos-hão valiosos elementos para o conhecimento 
scientifico do povo português. O Museu Ethnographico, se o Governo, 
como é de esperar, o auxiliar; pode neste ponto prestar igualmente 
serviços. 

Bem sei que nem a Archeologia nem a Ethnographia moderna 
restaurarão as finanças do país, se estas se perderem 5 todavia, como 
o viver de ura povo não é exclusivamente material, aquellas sciencias 
contribuem para que, pela investigação exacta e conscienciosa dos ele- 
mentos da nossa nacionalidade, o sentimento d'esta se radique com so- 
•lidez nas multidões, e os ânimos, entibiados pela contemplação dos 
males actuaes, avancem com esperança e audácia, escudados no amor 
santo da pátria. 

J. Leite de Vasconcellos. 



ADDENDA ET CORRIGENDA 

A respeito do que disse a cima, pag. 30, á cerca do sentido da 
designação geographica de Entre Tejo e Odiana, devo notar que num 
documento de 1535, que vem nas Meynorias para a historia das cortes 
geraes, pelo Visconde de Santarém (1 * Parte, Alguns documentos, 
1828, pag. 103-105), se distingue Antre Tejo ç Odiana e Algarve. Na 
primeira zona, correspondente a Alemtejo, inclue-se, como eu disse, 
Setúbal, Palmella, Almada e Alcácer do Sal. Na Extremadura collo- 
ca-se também Coimbra, Montemór e Aveiro, que o padre Carvalho po- 
rém na Corografia (voL ir, anno de 1708) colloca na provinda da 
Beyra. 

A pag. 23, ao citar os trabalhos de Philippe Simões, esqueci-me 
de citar A arte antiga em Hespanha e Portugal, que faz parte do Ál- 
bum de phototypias da Exposição de arte ornamental de Carlos Eelvas, 
Lisboa 1883. D'este trabalho vêem uns fragmentos nos Escritos di- 
versos, pag. 332. 



248 



REVISTA LUSITANA 



APPENDICE 

Como documentos para a história do Museu Ethnographico Por- 
tuguês, aqui se publicão os dois seguintes, extrahidos do Diário do 
Governo: 

MINISTÉRIO DAS OBRAS PUBLICAS, COMMERCIO E INDUSTRIA 
Secretaria geral 

Senhor. — Um museu ethnographico, onde esteja representada a 
parte material da vida dc um povo, as suas industrias, os seus trajos, 
os seus usos, etc, tem grande valor educativo. Em relação á historia, 
serve elle para ministrar documentos de toda a ordem, pelos quaes se 
apreciarão melhor, assim em globo, os caracteres d'esse povo, e as 
relações d'elle com outros, tanto no presente como no passado. Pelo 
que toca ao sentimento da nacionalidade, faz que o povo, tendo de si 
mais amplo conhecimento, e sabendo as razões históricas da sua pró- 
pria existência, ame e venere a pátria com conhecimento de causa, e 
siga afouto na via do progresso. Quanto ás artes, contribue para que 
ellas se aperfeiçoem, porque é só quando o artista allia ás impulsões 
do seu génio e á largueza do seu estudo a inspiração nas tradições do 
paiz, que produz obras verdadeiramente de cunho. 

E' por isso que em todos os paizes cultos ha museus d'esta na- 
tureza. 

Temos, pois, a honra de propor a Vossa Magestadc o seguinte 
projecto de decreto. 

Ministério dos negócios das obras publicas, commercio e indus- 
tria, em 20 de dezembro de 1893. = João Ferreira Franco Pinto Cas- 
tello Branco— Bernardino Luiz Machado Guimarães. 

Attendendo ao que me representaram os ministros e secretários 
d'estado dos negócios do reino e das obras publicas, commercio e in- 
dustria; 

Considerando que 'em Portugal, pela passagem ou permanência 
de vários grupos ethnicos, e pelas diversas circumstancias da nossa 
vida histórica, ficaram materiaes abundantíssimos cora' os quaes se 
pôde constituir um museu ethnographico digno d'este nome; 

Considerando que já ha muitos materiaes archivados, mas se 
acham dispersos, convindo pois reunil-os, porque só assim adquirem 
real importância; 

Considerando que muitos outros jazem ainda nos próprios locaes 
em que desde tempos antigos os deixaram, e são por isso como se não 
existissem, se não forem devidamente aproveitados: 

Hei por bem decretar o seguinte : 

Artigo 1.° E' organizado um museu denominado Museu Ethno- 



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MUSEU ETHNOGRAPHICO PORÍUGUÊS 



249 



graphico Portuguez, que sirva em parte como que de desenvolvimento 
do Museu de anthropologia, installado na Commissão ties Trabalhos 
Geológicos. 

§ único. O museu dividir-se-ha em duas secções, podendo porém 
de futuro, se as circumstancias o exigirem, ser ampliado. Estas sec- 
ções são: 

a) Secção archeologica, comprehendendo monumentos desde os 
tempos prehistoricos até o século xvm; 

b) Secção moderna. 

Cada uma d'estas secções dividir-se-ha ainda em sub-secções. 

Art. 2.° Tanto a uma como a outra secção ficam pertencendo 
desde já os objectos que existem espalhados pelos diversos estabele- 
cimentos do estado, sem fazerem parte integrante das collecções res- 
pectivas aos mesmos estabelecimentos, nomeadamente o Museu do Al- 
garve, provisoriamente v depositado na Academia de Bellas Artes, e 
quaesquer outras collecções adquiridas pelo governo. 

Art 3.° De futuro farão parte do museu ethnographico todos os 
objectos, ou cópias (photographias, moldes, desenhos, etc.), que se pu- 
derem obter, quer por compras, dadivas, depósitos, quer directamente. 

Art. 4.° O Museu Ethnographico terá catalogo impresso, e po- 
derá fazer, ou facultar á iniciativa particular, uma publicação illus- 
trada dos materiaes existentes no Museu, com o fim de os tornar co- 
nhecidos e de despertar interesse no publico. 

Art. 5.° A Commissão dos monumentos nacionaes, é todas as 
auctoridades municipaes, administrativas, ecclesiasticas, militares, etc, 
são obrigadas não só a auxiliar o Museu Ethnographico, ministrando- 
lhe informações e facilitando acquisições para elle, mas a dar-lhe parte 
de todas as descobertas archeologicas de que tiverem noticia. ^ 

Art. 6.° O Museu Ethnographico poderá estabelecer relações 
com outros museus, ou estabelecimentos análogos, tanto do paiz, como 
de fóra. 

Art. 7.° A direcção e conservação especial do Museu Ethnogra- 
phico serão incumbidas a um individuo de reconhecida competência, 
sem vencimento inherente ao cargo. 

Art. 8.° A dotação do Museu Ethnographico sairá da verba or- 
çamental destinada a exposições, concursos, etc. 

Art. 9. # O governo fará publicar o regulamento necessário para 
a execução d'este decreto. 

Os ministros e secretários d'estado dos negócios do reino o dos 
das obras publicas, commercio e industria, assim o tenham entendido 
e façam executar. Paço, aos 20 de Dezembro de 1893. = REI. = João 
Ferreira Franco Pinto Castello Branco = Bernardino Luiz Machado 
Guimarães. 



250 



REVISTA LUSITANA 



Repartição dos serviços tec}nicos de minas e da industria 

1.» SECÇÃO 

Ha por bem Saa Magestade El-Rei encarregar o conservador da 
Bibliotheca Nacional de Lisboa e professor da cadeira de numismá- 
tica (do Curso de bibliothéeario-archivista), José Leite de Vasconcel- 
los Pereira de Mello, da direcção e conservação do Museu Ethnogra- 
phico Português, annexo á Direcção dos Trabalhos Geológicos do tei- 
no, que exercerá sem vencimento especial, nos termos do artigo 7.° 
do decreto d'esta data, que creou o referido museu. 

Paço, em 20 de Dezembro de 1893. = Bernardino Luiz Machado 
Guimarães. ' ' 



O conductor de obras públicas Maximiano Gabriel Apollinario, 
que pertence ao quadro dos serviços technicos de minas e da indus- 
tria, passou, por determinação superior, a servir, sem augmento de 
vencimento, como adjuncto do Museu Ethnograpbico Português. 



(Diário do Governo, n.° 290, de 22 de Dezembro de 1893). 



* 



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PHONETICÀ HISTÓRICA PORTUGUESA 



PHONETIGA HISTÓRICA PORTUGUESA 1 

RESUMO DAS PRINCIPAES LEIS 
QUE PRESIDIRÃO Á TRANSFORMAÇÃO DO LATiy NO PORTUGUÊS 

r 

1 INTRODUCÇAO 2 
Origem e formação da língua portuguesa 

a) A lingua portuguesa faz parte da família das línguas romani- 
cas. Na sua essência é apenas uma transformação da lingua latina. 

b) O latim existiu em Roma sob duas fórmas: l. a ) Latim clás- 
sico, ou litterario, que, por influencia da cultura hellenica, havia ad- 
mittido muitos vocábulos, fórmas e algumas construcções do grego, 
lingua sua irmã; do latim clássico se servirão os escriptores Cicero, 
Caesar, Vergilio, Horácio, etc. 2.*) Latim vulgar, ou fallado, que era 

1 [A phonetica historie^ da lingua portuguesa já tem sido, depois da publi- 
cação da obra fundamental de Diez, Grammatico, das línguas românicas, tratada 
no seu conjuncto com algum desenvolvimento por diversos philologos, como: P. 
Adolpho Coelho, n-A lingua portugueza, Coimbra 1868, e nas Questões da lingua 
portugueza, Porto 1874-1879, 2 vois. \ C. Reinhardstoettner, na Grammatik des 
Portugiesischen Sprache, Estrasburgo 1878; F. d'Ovidio, nos Manueletti d'introdu- 
zione agli studj neolatini, n, Portoghese (e Gallego), Imola 1891 ; e finalmente J. 
Cornu, no Grundriss der Romanischen Philologie (Die Portugiesische Sprache), 
Estrasburgo 1888. — Ainda que o artigo que ora se publica na Revista Lusitana 
não se pôde dizer propriamente que adeante ao do Sr. Cornu, que é o último em 
data, e o mais completo, doB que até hoje têm sahido a lume, todavia não hesito 
em o publicar, antes o publico com muito gosto, não só porque elle revela no au- 
ctor, o Sr. José Joaquim Nunes, estudo methodico dos phenomenos da nossa lin- 
gua, acompanhado de rara vocação para ésta ordem de assumptos, vocação que 
convém animar e desenvolver, — mas também porque o trabalho do Sr. Cornu e 
todos os outros são inacessíveis ou desconhecidos á maioria do público, vindo pois 
o artigo do Sr. Nunes a ser como novo para essa maioria. — Como o Sr. Nunes 
nao conhecia ainda o trabalho do Sr. Cornu, faço adeante algumas referencias a 
elle ; junto além d'isso várias notas minhas, porém poucas, a fim de não tirar ao 
artigo o caracter que o seu auctor lhe quis dar. — J. L. dk V.]. 

2 O pequeno trabalho que apresentamos á apreciação dos leitores da Re- 
vista Lusitana é apenas o producto de estudos que, já por gosto, já por dever de 
officio, fizemos nas obras dos Srfi. Adolpho Coelho, Darmesteter, Gaston Paris, 
Leite de Vasconcellos, e mais que todos de Bourcier, cujo livrinho Précis de Pho- 
nétique Française foi o nosso guia, a ponto de seguirmos pari passu o seu raetho- 
do, por nos parecer bastante claro, traduzindo-o por vezes quasi litteralmente ; 
para os entendedores, porém, do génio differente das duas linguas será o nosso 
modesto trabalho mais do que uma versão. Deficiente é elle por certo, e quiçá ei- 
vado de muitos erros, devidos ou á falta de conhecimentos mais profundos da ma- 
téria, ou á maneira de ver errada*, aguardamos, por isso gostosos as correcções 
dos entendidos. — Segundo o costume, adoptamos o signal * para indicar aquellas 
palavras que, não tendo chegado até nós, por via do latim clássico, se deprehen- 
dein todavia da comparação da nossa com as outras linguas românicas. 



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252 



RB VISTA LUSITANA 



asado pelo povo; os auctores dão-lhe o nome de sermo vulgaris, coti- 
dia nus y plebeius, rusticus, etc. Havia entre estas duas variedades' do 
latim as divergências que ha gqjalmente em todas as línguas, entre 
fórmas escriptas e formas populares. 

c) ¥u (\p latim vulgar, levado pelos soldados, colonos e coramer- 
ciantes romanos a todas as partes do seu vasto império e adaptado 
aos órgãos vocaes de povos diversos, que provêm as línguas româ- 
nicas* Estas línguas são em numero de sete principaes, a saber: o 
italiano que se falia na península itálica; o romancho ou ladino em uso 
na Suissa Oriental (cantão dos Grisões) e Tyrol occidental; o rumeno 
ou valachio fallado na bacia inferior do Danúbio; o hespanhol e portu- 
guês usados na península ibérica ; e o provençal e francês fallados no 
território da antiga Gallia. 

d) Antes do estabelecimento do domínio romano na península, 
domínio que se pôde datar da vinda de Scipião (211 antes de Christo) 
fallávão-se cá várias línguas, de uma das quaes, pertencente ao ramo 
céltico, que faz parte da família indo-europea (sanscrito, grego, latim, 
celta, slavo, gótico, etc.), temos algumas notícias que nos permittem 
admittir que ella se fallava em grande extensão. Um dos resultados 
da dominação romana nas Hispanias foi o desapparecimento gradual das 
línguas peninsulares (com excepção do vasconço ou eustaro) por uma 
maneira quasi completa, pois que os vocabulários do português e do 
bespanbol poucas palavras contêm que d'ellas se originem, e a sua 
substituição pela língua latina a ponto tal que, nos fins do século iv, 
era esta, na sua fórma vulgar, a única língua fallada em toda a pe- 
nínsula, com excepção do território vascongado. D'ahi a pouco as 
grandes invasões do século v, as successivas irrupções dos povos ger- 
mânicos e posteriormente a longa permanência dos árabes entre nós, 
introduzirão no nosso vocabulário grande numero de palavras d'estes 
diversos povos. 

e) A lingua romance (ou simplesmente, romanço) foi-se a pouco e 
pouco fraccionando noutras, entre as quaes, no Occidente, o gallego e 
o português, que a principio, quasi nada divergentes (como se pôde 
reconhecer, comparando antigos textos portugueses e gallegos), se 
distanciárão com o decorrer do tempo, a ponto de nos fins do sé- 
culo xv ter cada uma sua feição própria. 

f) A lingua portuguesa desde o seu apparecimento pela escripta 
(século xn) até os nossos dias tem soffrido varias modificações, prin- 
cipalmente na sua phonetica e morphologia, sendo as mais importan- 
tes as que se dérâo nos séculos xm, xiv e xv. Foi só no século xvi 
que ella tomou a physionomia que hoje apresenta. A historia, pois, 
da nossa lingua abrange naturalmente dois períodos : o do poiiuguês 
archaico (séculos xii a xvi) e o do português moderno (século xvi até 
os nossos dias). 

g) Os elementos que constituem o vocabulário da lingua portu- 
guesa sâo de tres espécies: populares, eruditos de origem clássica, e 
extranhos. O elemento popular, que constitue a verdadeira base da 



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PHONETICA HI3TOEICÀ POBTUGUKSA 



nossa língua, comprehende as palavras provenientes do latim vulgar, 
depois de alteradas em harmonia com as leis phoneticas e morpholo- 
gicas; as que pelo processo da derivação a ellas forão buscar a sua 
origem e os vocábulos lusitanicos, célticos, germânicos e arábicos de 
introducção antiga. O elemento erudito é constituído por todas as pa- 
lavras latinas ou gregas, que, desde muito cedo, e pelo menos a par- 
tir do século xiv, forão introduzidas no nosso vocabulário, depois de 
aportuguesadas por modo artificial. O elemento extranho finalmente, 
abrange, por exclusão de partes, os restantes vocábulos de prove- 
niência extrangeira, taes como franceses, ingleses, italianos, asiáticos, 
afriçanos, americanos etc, que o commercio e a litteratura d'estes 
diferentes povos introduzirão entre nós. 

h) O estudo da transformação dos sons só ao elemento popular 
tem applicação rigorosa e scientifica. 

i) A phonetica histórica portuguesa tem por objecto estabelecer as 
leis que presidirão á transformação das palavras latinas noutras por- 
tuguesas correspondentes, e notar as alterações successivas por que 
até hoje têm passado as vozes e articulações. Estas leis phoneticas 
são d'applicação regular, e a sua acção uniforme, de modo que, dadas 
varias palavras latinas em que geralmente um mesmo som se fazia 
ouvir, esse som repercute-se de ordinário nas portuguesas correspon- 
dentes da mesma maneira. A constância d'estas leis só-é derogada 
por outras leis, como, por exemplo, a analogia que, estribada em ap- 
parentes similhanças, submetteu por vezes á mesma lei typos* diver- 
sos, estabelecendo d'esta maneira excepçõef mais ou menos reaes. 
Pôde também haver excepções, que escapem a qualquer lei conhecida, 
mas isso não depõe contra a regularidade dos phenomenos, mostra 
apenas que ainda não conhecemos por completo as condições d'estes. 

PRIMEIRA PARTE 

Voçaes 

CAPITULO I 
Lei do accento tónico. — Reducçào da palavra latina 

§ 1. Havia em toda a palavra latina uma syllaba ou vogal em 
cuja pronunciação a voz se fazia ouvir d'uma maneira mais forte e 
distincta; era a syllaba tónica, em relação com a qual todas as demais 
se châmão atonas. Assim, por exemplo, na palavra marito \ % é a vogal 
da syllaba tónica; as restantes, a e o, pertencem a syllabas atonas. E' 

1 As palavras portuguesas derívào em geral do accusativo latino, segundo 
a opinião mais adoptada ; por isso nos nossos exemplos apresenta-las-hemos sem- 
pre neste caso, mas sem o m final, como as pronunciava o latim vulgar, que dizia 
muro, turre e porta em vez de murum, turrem, portam. 



\ 



254 



V 

BEVISTA LUSITANA 



o accento tónico que dá à palavra a sua unidade, sendo eomo que a 
sua calma», no dizer do grainmatico Diomedes *. 

§ 2. O accento tónico em latim só podia recahir em duas sylla- 
bas, a penúltima e antepenúltima, dependendo o seu logar da quanti- 
dade prosodica da penúltima. Se ésta era longa, era ella a accentua- 
da ; se pelo contrario era breve, passava então o accento para a ante- 
penúltima. Assim as palavras marito, portare, em que as vogaes i e a 
das penúltimas syllabas sâo longas, pronunciávâo-se marito, portáre, 
ao passo que tabiila e mansuetúdine, em que as vogaes u e i das pe- 
núltimas syllabas sâo breves, diziâo-se tabula e mansuetúdine. As pri- 
meiras châmâo-se paroxytonos, as segundas proparoxy tonos. 

Observação.— Do que acabamos de dizer, resulta que as pala- 
vras de duas syllabas sâo todas em latim paroxytonos. A's monosyl- 
labicas dá-se o nome de oxytonos. 

§ 3. Foi o accento tónico que principalmente influiu na trans- 
formação das palavras latinas nas portuguesas. Essa influencia pôde 
enunciar-se pela seguinte: 

Lei. — A vogal accentuada no latim persiste em regra no portu- 
guês. 

E' assim, por exemplo, que as palavras marito, bonitáte, ópera, 
dâo em português marido, bondade, obra, com a mesma accentuaçâo 
que tinhâo no latim. 

§ 4. A elevação da voz recahiu toda na vogal tónica, muitas 
vezes êm detrimento das restantes syllabas. Emquanto a vogal tónica 
persiste sempre em português, nâo succede o mesmo ás syllabas ato- 
nas vizinhas, que em certos casos cahíráo : deu-se pois, na sua passa- 
gem para o português, reducção na palavra latina. 

O accento divide com efteito a palavra em duas partes: a que 
fica para deante e a que fica para trás da tónica; dá-se á primeira o 
nome de metatonica, á segunda o de protonica. Assim em marito e 
mansuetúdine as syllabas Ao e -dine representâo a parte metatonica; 
as syllabas ma- e mansue- a parte protonica. Cada uma d'estas partes 
obedece a leis diferentes, e por isso vamos occupar-nos de cada uma 
em separado. 

Observação. — E' escusado advertir que em palavras como muro 
e tábula, em que o accento tónico está na syllaba inicial, nâo ha parte 
protonica. 



§ 5. A parte da palavra que se segue á syllaba accentuada ex- 
perimentou na sua passagem para o português as alterações enuncia- 
das nas duas leis seguintes: 

l. a Lei. — A vogal immediata k tónica cáe em português nos pro- 
paroxytonos, isto é, nas palavras que têm o accento na antepenulti- 

i «Est accentus velut anima voeis». Diomedes (Keil., Grammatici latini, 1. 1, 
pag. 430, 31). 



a) Parte metatonica da palavra 



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PHONBTIOA HISTÓRICA PORTUGUESA 



255 



ma K Exemplos: *cól8po, golpe, sémíta, senda, raáníca, manga, 
léptfre, lebre, opSra, obra, ténSro, tenro, repósita, resposta ou 
melhor reposta, âsino, asno, víríde, verde. 

Observação i. — Esta syncope dava-rfe jà no latim clássico, onde 
não é raro encontrar fórmas como herde por heraãe, caldus por cali- 
dus, saeclum por saeculum, cante por canite, sttrgo por surrigo. 

Observação ii. — Nalgumas palavras conservou-se a vogal pos- 
terior á accentuada, talvez por influencia erudita, pois que o povo é 
geralmente inclinado a supprimi-la, dizendo por exemplo cambra em 
vez de camará, arve em logar de arvore, etc. 2 

§ 6. 2.* Lei. — As vogaes finaes ou tornadas finaes pela qué- 
da de consoante pàssao inalteradas para português, excepto i, que 
pãssa para e, e u para o. Exemplos: âqua, agua, bóna, bõa, boa, 
fácie, face, nomen, nome, turre, torre, *pouti, pôde, caballo, ca- 
vallo, fructu, fruito, fructo, por tu, porto. 

Observação i. — Já nos últimos tempos do império romano do 
occidente confundia o povo o i final com, e, assim como o com u, como 
se vê das inscripções (Tesse tempo. 

Observação ii. — A vogal final, principalmente sendo e ou i, e mais 
raro o, cáe quando precedida de l, r, m, n, g, c (s, z) não dobradas 
nem ligadas com outra consoante: exemplos: capitale, cabedal, amo- 
re, amor, debere, dever, papiro, papel, sine, sem, venit, vem, facit, 
faz, pice, pes, lege, lei 9 . 

b) Parte prolonica da palavra 

§ 7. • Em palavras como eplscopo, a parte protonica comprehende 

1 E' esta vogal que por abreviatura collocaremos cTaqui por deante em pa- 
renthesis ( ). 

2 [Sobre este ponto vid. Cornu, Die Portugiesische Sprache, §§ 106-107 ; e 
Meyer-Lublçe, Grammaire des langues romanes, i, § 29 e £25. — A língua portu- 
guesa tem effectivamente grande tendência para reduzir os proparoxytonos a pa- 
roxytonos ; todavia conserva bastantes proparoxytonos, como lagrima, cónego, Mér- 
tola, estômago, etc. Alguns d^llcs é provável que se mantenhão, por serem de uso 
restricto ou culto, ou ainda, como diz o Sr. Nunes, por influencia litteraria ; dá- se 
mesmo o caso de coexistirem duas fórmas, como Evra (ling. pop. ant.) a par 
Évora, pucro (na Beira) a par de púcaro, Sabdo (Norte) a par de Sabbado, 
cobdo (ib.) a par de covado, numbro (passim) a par de número e numaro, etc. Quan- 
do as duas syllabas finaes são vogaes, ellas podem contar-se como uma só syllaba 
(ditongo), e nesse caso ha antes paroxytono do que proparoxytono, como em dú- 
zia, páteo, Emília, tábua, légua, etc. ; ainda assim, na Extremadura diz-se dúiza, 
páito, Imita, táuba, léuga. Quando a vogal tónica ó i, e na syllaba postonica ba 
também i, o deslocamento d'este não se pôde ver, porque os dois ii fundem-se, como 
em Imila em vez de *Imíila, sito em vez de *slito. Ha contradicçao apparente em 
fórmas populares como Ilisia (= Elysa), dúbio (== club): é o que se pôde chamar 
regressão, pois o povo, notando que a sito corresponde sítio, como que corrige clube 
ou clubo (club) em dúbio, etc. — J. L. dk V.]. 

3 [Esta lei parece* me poder enunciar-se assim : um -e final tende a cahir, 
quando antes d'elle ha uma consoante -que possa formar syllaba com a vogal ante- 
cedente, excepto m, como quer de quere y vai de vale. Vid. o meu opúsculo As «Li- 
ções de linguagem» do sr. Candido de Figueirado, 2 » edição (Porto 1893), pag. 77, 
nota 5. — Cfr. já Cornu, Die Portugiesische Sprache, § 98. — J. L. de V.]. 



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REVISTA LUSITANA 



apenas a vogal e; noutras^ como ventre a parte pro tónica compõe-se 
da syllaba inicial ve; noutras finalmente como bonitdte abrange duas 
syllabas, a saber, a inicial bo e mais outra não inicial ni que precede 
immediatamente a tónica. São estes os tres casos a que se referem 
as leis seguintes: 

§ 8. l. a Lki. — A vogal inicial da palavra latina, quando não 
protegida por consoante, pôde cahir em português; exemplos: epis- 
copo, bispo, a ttonito, tonto, eclypsi, cris (ant.), eclypse, *inamo- 
rari, namorar, occasione, cajão (Gil Vicente), occasiqo, acumen, 
gume, Emmanuel, Manuel, Olisipona, Lisbôa (ant.), Lisboa, *icte- 
ricia, triga (pop.), icterícia, horologio, relógio, apotheca, bodega. 

Observação. — E' esta "uma das leis que mais distinguem o por- 
tuguês das outras línguas românicas, nas quaes persiste a vogal ini- 
cial K 

§ 9. 2. a Lai. — A vogal da -syllaba protonica inicial precedendo 
immediatamente ou não a tónica, persiste em português; exemplos: 
*lacárta, lagarta, melióre, melhor, vicíno, vizinho, mirabília, ma- 
ravilha, satisfacére, satisfazer, debére, dever, cabállo, cavallo, bo- 
nita te, bondade. 

Observação i. — As excepções, a esta regra são pouco numerosas. 
Nas palavras como quiritare, gritar, theriaca, triaga, *berry- 
liare, brilhar, a quéda da vogal foi motivada pela formação dos gru- 
pos consonantaes gr, tr e br. 

Observação n. — As palavras em que, fóra do caso precedente, 
cahiu a vogal da syllaba inicial, como em pombo (palúmbo), sello 
(sigillo), ler (legére), mestre (magistro), ter (tenére), offerecera 
uma excepção apparente, pois que a sua actual forma provém de con- 
tracção, tendo sido em português antigo paombo, seello, leer, maestro, 
teer. 

§ 10. Lei. — A vogal da syllaba não inicial collocada antes da 
tónica, quer breve, quer longa, cáe em português, excepto o a, que se 
conserva: exemplos: a) bonítáte, bondade, operário, obreiro, verê- 
cundia, vergonha, impollicare, empolgar, amaricare, amargar, 
manifesto, manfesto (ant.), manifesto, penícello, pincel, contar de 
computare; b) ornamento, ornamento, litterãtura, lettradura 
(antiq.), litterãtura, juramento, juramento, mirãbilia, maravilha. 

Observação i. — D'esta regra exceptuão-se os casos seguintes, em 
que as vogaes se consérvão. São: 

l. 9 Quando servem de ponto de apoio a um grupo de consoantes 
que as precede; ex.: negligentia, negrigencia (ant.), negligencia, mul- 
titudine, multidõe (ant.), multidão, mansuetudine, mansidõe (ant.), 
mansidão, castitate, castidade. 

2.° Quando estão seguidas de um grupo de consoantes, ex: tem- 

i [Sobre este ponto convém ler o que diz o Sr. Cornu, in Die Portug. Sprach , 
§§ 93-94, e 102 a 104. Elie estuda os casos da quéda do i- ; os casos de esp-, 
esc- ; e junta observações á cerca da quéda do à e do o. — J. L. dk V.]. 



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PH0NETI0A HISTÓRICA PORTUGUESA 



257 



pestáte, tempestade, in-negrescère, ennegrecer, jgubernare, yo- 
vernar. 

3. ° Quando são seguidas d'uma consoante e d'um i, formando 
hiato antes da tónica *; ex.: papilione, pavilhão, *acutiare, aguçar, 
devotione, devoção, despretiare, desprezar. 

4. ° Quando por quéda de consoante medial ficâo em contacto 
com a vogal seguinte; ex. : solitudine, soidão (ant.), solidão, nomi- 
nare, nomear, monumento, mo y mento (ant.), monumento, liminare, 

I limiar, vanitate, vaidade, circínare, cercear. 

Observação h. — M onasterio, que deu em português mosteiro (ant), 
mõesteiro e moesteiro, tinha-se tornado no latim vulgar monistário. 

Observação ih. — Quando a palavra latina contém um prefixo, 
conserva-se de ordinário em português esse prefixo, e a syllaba ini- 
cial da palavra simples persiste sempre, segundo a lei (§ 8)- ex.: *de- 
morare, demorar, promittére, prometter, submittére, submetter,. 
excedére, exceder. 

§ 11. Resulta das leis que acabamos de estabelecer, que d'entre 
as vogaes latinas s6* persistem em português:- l.° a vogal accentúa- 
da; 2.° a das syllabas final e inicial protegida por consoante. Esta 
persistência, porém, nào as impediu dê por vezes soffrerem as modi- 
ficações que apontaremos mais adiante, depois de estudarmos o valor 
das diferentes vogaes em latim, e a natureza das influencias a que 
estão sujeitas. 

CAPITULOU 
Valor das vogaes latinas. — Influencias a que estão sujeitas 

VALOR DAS VOGAES 

§ 12. As vogaes latinas são a, e, i, o, u, as quaes, dispostas por 
esta ordem, i, e, a, o, w/dão uma escala vocal que, partindo d'um som 
agudo, termina num grave. Devemos, porém, distinguir dois sons em 
cada uma das vogaes e e o, um mais agudo, que se ouve, por exem- 
plo, nas palavras tila, e luto, e em português era mercê e escova, e ou- 
tro menos agudo, como o que se nota em m<& e mtila, e na lingua por- 
tuguesa nas palavras pé e pórta. Chamaremos ao primeiro d'estes sons 
fechado e ao segundo aberto, e distingui-los-hemos respectivamente 
pelos accentos circumflexo Q e agudo ('). D'este modo fica a escala 
completa dos sons, sendo esta: 

I Ê É A 0 Ó U 

a qual se nota, por exemplo, nestas sete palavras: 

filo, tila, mél, mdre, scôpa, pórta, muro. 



1 O t neste caso combina- se com a consoante precedente, alterando- lhe o 
som, e não se conta como syllaba em latim. 

bhy. lusit., yol. ih, fase. 3. 5 



258 



REVISTA LUSITANA 



Observação. — O português possúe também os sete sons simples 
de que acabamos de fallar, como se pôde vêr por exemplo em fio, 
têa x , mel, mar, escôva, porta, muro. 

§ 13. Nó latim clássico as cinco vogaes a, e, i, o, u estão su- 
jeitas ás leis da quantidade, segundo as quaes são umas vezes breves, 
outras longas, conforme o tempo gasto em pronunciá-las : i, por exem- 
plo, é longo em filo e breve em sinu; u é longo em muro e breve em 
luto. Ainda mais: a posição da vogal, o facto de ser seguida d'um 
grupo de duas ou mais consoantes, não influe na sua quantidade *; i 
é breve por natureza em císta, como também em sínu; ao passo que é 
longo em villa; u é breve por natureza em ttírre como em luto, sendo 
pelo contrário longo em justo. 

§ 14. No latim vulgar, d'onde provém directamente a lingua 
portuguesa, tinha desapparecido esta distincção de breves e longas : 
cada vogal tomára um dos sete sons simples de que falíamos no § 12. 
Mas foi a quantidade que as vogaes Unhão no latim clássico que deter- 
minou o som que tomdrão no latim vulgar. E' esta a razão por que no 
latim vulgar o í fica i f filo = filo; o í e ê pássâo para ê: sínu = sênu, 
tila = têla; o X torna-se é: m$l = mél; o a e ti fundem-se num e mesmo 
som, á: clave = cláve, mãre^mãre; o ô e u pássáo para o: flõre = 
flôre, luto = loto, emquanto o ff fica o: rti$a = rósa, e o u permanece 
inalterado : muro = muro. No quadro seguinte estão compendiadas es- 
tas equivalências : 



Observação. — O latim poucos ditongos possuia: tres apenas 
encontramos nas palavras que por transformação popular passárão 
para a lingua portuguesa ; são : au, ae, oe. Ainda d'estes mesmos só o 
au persistiu no latim vulgar (vide adiante as modificações que sof- 
freu), visto como ae e oe fôrão substituídos por um e simples, equiva- 
lente umas vezes a ê, como em praeda, ballaena, outras a é, como em 
caelo, quaerit. 



§ 15. Antes de entrarmos no estudo das sete vogaes do latim 
vulgar, i, ê, é, a, ô, ó, u, devemos occupar-nos das influencias que nel- 



1 No dialecto algarvio. 

2 Esta lei refere- se á pronúncia, porque na métrica latina, pelo contrário, 
toda a vogal seguida de duas ou mais consoantes é ou pode ser longa. 




i do latim clássico equivale a í no latim vulgar.. 



INFLUENCIAS A QUE ESTÃO SUJEITAS AS VOGAES 



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PHONBTICA histórica portuguesa 



259 



las actuárâo na sua passagem do latim para o português. Reduzem-se 
a duas essas influencias, a saber: a produzida pelas consoantes nasaes 
m e n, e a proveniente da semi-vogal i, quando em hiato, a qual re- 
presentaremos aqui por y. 

a) Influencia das consoantes nasaes m, n 

§ 16. As modificações que as duas consoantes m e n exerce- 
rão nas vogaes tanto tónicas, como atonas reduzírâo-se simplesmen- 
te a communicar-lhes um som nasal sempre que estávâo seguidas 
d'outra consoante ou cahia á vogal finais que vinlifto encostadas; 
exemplos: simplice, simples, vendere, vender, angelo, anjo, raanu, 
mão, rotundo, redondo, unctione, unção, fine, fim, sine, sem, 
sono, som, tenet, tem, bono, bom. 

b) Influencia do y (= i semi-vogal) 

§ 17. Represento por y o som resultante da semi-vogal i, que no 
latim clássico tinha o mesmo valor que tem entre nós nas palavras 
maio, maior, raia. Este elemento, que representa grande papel na 
transformação das palavras latinas noutras portuguesas, e cuja in- 
fluencia se extende assim ás vogaes como às consoantes, pôde ter uma 
origem latina ou românica. Nos dois casos designá-lo-hei, por abrevia- 
tura, simplesmente por um y. 

I — SBMI-VOGAL LATINA 

§ 18. Chama-se assim todo o i ou e atono que se acha collo- 
cado antes das vogaes a e o, formando com ellas hiato, como em 
médio, palea, vâleo, sapiam. 

Observação. — O i e o e têm aqui o mesmo valor, pois que o 
latim vulgar transformou neste caso todo o e atono, dizendo, por 
exemplo, vinia, valio, landa, em vez de vinea, valeo, lancea. 

§ 19. A influencia que o y latino exerce na vogal tónica varia 
conforme as consoantes que se interpõem entre elle e a vogal, e- ma- 
nifesta-se por tres modos: a) já reunindo-se á vogal tónica, ou por 
simples juneçâo, ou por transposição, ou pela quéda da consoante in- 
termediaria; b) já fundindo-se com a consoante precedente, alteran- 
do-lhe o som; c) já consonantizando-se, com desapparecimento da con- 
soante que o antecede. 

§ 20. Dá-se o primeiro modo: 1.° quando a vogal o precede 
immediatamente, como em maio, maio, maiore, maior; 2.° quando 
entre elle e a vogal existe um d que cáe, como em badio, baio; 
3.° quando entre elle e a vogal ha p, r, s ou ss e b, f, como em 
corio, coiro, matéria, madeira, basio, beijo, caseo, queijo, *bas- 
siare, a-baixar, sapiam, saiba, capio, caibo, rubeo, ruivo, copea, 
cyifa. 

§ 21. Dá-se o segundo modo quando a consoante precedente é 
t, c, l, n, das quaes ao t e c communica um som sibilante, ao l 



260 



REVISTA LUSITANA 



e n molha-os, — como em^retio, preço, bracio (=brachio), braço, 
placeat, praza, alieno, alheio, linea, linha, v^inea, vinha. 

§ 22. Dá-se finalmente o terceiro modo; isto é: o y reduz-se a 
j, quando a consoante que o antecede é b ou v e d, como em ha- 
beara, haja, *sabio, sage (ant.) — sábio, fovea, fojo, *leviario, li- 
geiro, invidia, inveja, * dissídio, desejo, hodie, hoje. 



§ 23. Chama-se assim o i proveniente das consoantes c — g 
— x (equivalente a cs) qu# em certos casos têm a propriedade de se 
dissolverem naquella vogal, como se vê em nocte, noite, intégro, 
inteiro, fructu, fruito (ant.), fruto, laxar e, leixar (ant.), deixar, 
saxo (=sacso), seixo., 

§ 24. Sempre que o y românico (i. é: a semi-vogal) se acha 
precedido de s, combina-se por transposição com a vogai- tónica, para 
formar ditongo, como em pisce, peixe, fasce, feixe. 

§ 25. (guando a palatal que se resolve em j tem diante de si 
um l, a sua influencia manifesta-se, molhando esta consoante, como 
em pedííc(u)lo, peôlho, genííc(u)lo, geôlho (ant.), joelho, aurí- 
c(u)la, orelha. 

§ 26. O y, quer latino, quer românico, influe também na vogal 
protonica da syllaba inicial, alterando-a ou fundindo-se com ella, como 
em *phaseano, feijão, laxare, deixar, legenda, lenda 1 . 



Vogaes tónicas. — Leis que regem a sua passagem para o português 



§ 27. Lei. — O i tónico, seja qual for a sua posição em latim, 
passa inalterado para português; exemplos: filo, fio, rivo, rio, li- 
bra, libra, triste, triste, quinque (cinque no latim vulgar), cinco, 
mille, mil, spina, espinha, confido, confio, spica, espiga, vinea, 
vinha. 

Observação. — Naquellas palavras como pica (pega) em que o 
i longo do latim clássico passou para e, devemos admittir, como vi- 
mos no § 14, alteração na sua quantidade prosodica pelo latim vul- 
gar. Este mesmo principio applica-se também ás outras vogaes. 

I TÓNICO SEGUIDO DE y 

§ 28. Lei. — J tónico seguido de y, quer latino, quer românico, 
passa inalterado para português; exemplos: a) y latino: susplrio, 

1 [J. Cornu, ob. cit., § 110 sgg., trata também d'esta semi-vogal, e além d'is- 
so da semi-vogal u. — J. L. de V.j. 



XI — SEMI-VOGAL ROMÂNICA 



CAPITULO III 



I TÓNICO 



(isto é : i no latim clássico) 



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PHONETICÀ HISTÓRICA PORTUtitJESA 



26Í 



suspiro, fastídio, fastio, perfídia, perfia (ant), perfídia, mílio, mi- 
lho; b) y românico: digno, K dino (ant.), digno, dictò, dito. 

Observação. — Oy quando se não combina com a consoante vi- 
zinha ou esta cáe, é absorvido pelo i, como em dicto, que depois de 
ter dado a fórma diito, se reduziu a dito, e assim fastidio, fastio, 
frigido, frio. ' 

ib TÓNICO 
(isto é: t e ê no latim clássico) 

§ 29. Para estudarmos as modificações que soffreu na sua pas- 
sagem para português o ê tónico, temos de attender á sua pqsição 
antes d'uma consoante ou antes de duas, visto como d'essa circum- 
stancia depende a diversa maneira como foi tratado. E assim : 

§ 30. Lfci. — Ê tónico antes d'uma consoante passa inalterado 
para português; exemplos: vide, vê, sinu, seio (sêo no dialecto al- 
garvio), pilo, pêlo, site, sêde, pleno, cheio (chêo no dial. alg.), fedo 
(=faedo), feio, mercõde, mercê, catêna, cadeia, tela, teia, sít(u)- 
la, cêlha ou melhor sêlha. 

Observação i. — E' no dialecto algarvio onde melhor soa o ê to- 
* nico; nos outros, como no lisbonense, confundiu-se muitas vezes com 
o ditongo ei (di). 

Observação ií. — Em rên, rim, pergamêno, pergaminho e nou- 
tras palavras de casos idênticos, trocou o latim vulgar o ê por I, di- 
zendo, por exemplo, pergamino em logar de pergamêno. Nos suf- 
fixos mecum (migo), tecum (tigo), secura (sigo), a troca foi motivada 
pela influencia de mi, ti, si. 

Observação ui. — Em minata, manada, deu-se a analogia da pa- 
lavra mão *? Foeniculo trocou-se em latim vulgar por func(u)lo, 
d'onde funcho. , 

- Observação iv. — Ê tónico seguido de n mudou algumas vezes 
para a, por intermédio de e, como em inter, antre (ant.), entre, con- 
stringo, constrengo (ant.), constranjo, ringo, ranjo (ant.), renjo, in- 
trum, anton (ant.), então 2 . 

§ 31. Lei. — Ê tónico seguido de duas ou mais consoantes passa 
em português para é; ex. : sicco, seco, pStra, peflra, cippo, cepo, 
fibra, febra, capistro, cabresto (por metathese), vir(i)de, verde, 
nigro, negro, nepto, neto, cista, cesta. 

Observação i. — Como o latim vulgar confundiu o i com o e, e 
abreviou a vogal antes de duas ou mais consoantes, não se dà aqui 
excepção á regra geral. (Vide § 35). 

1 [Cfr. já Adolpho Coelho, Quest. da ling. port., i, 92. — Julgo mais prová- 
vel que manada viesse de *m anu ata, do radical de manus; cfr. manua, que 
significa «punhado». O n manter- se- hia em manada, protegido pela semi- vogal se- 
guinte, como em janella, Janeiro, Manuel (vulg. Mantl), etc. — J. L. de V.]. 

* [Rigorosamente aqui o ê é atono, pois inter é proclitico ; e nos verbo9 in- 
fluiu o infinitivo, onde o i deixa de ser accentuado: * constringére, * ringére, 
etc. *, em in-tum ou in-tunc, o accento está no u. — J. L. de V .]. 



262 



REVISTA LUSITANA 



Observação n. — O y grego, que tinha um som intermédio entre 
o i e o ti, e era pronunciado como o actual u francês, numas palavras 
como *abyssimo (abismo), *cycino (cisne), myrrha (myrrha), ficou 
em latim vulgar com o som de i; noutras, como byrsa (bolsa), myrto 
(murta), grypta (gndu), mudou para u breve ou longo, seguindo de- 
pois a sorte (Testa vogal. 

Observação ih. — II le (em português êlle) tinha-se convertido em 
ílle, cie, como também se escrevia no português archaico. 



§ 32. Ê tónico seguido de y combina-se com elle, formando as- 
sim o ditongo ei (que também se escreve ê, som que tem sempre no 
dialecto algarvio) ; ex. : a) y latino: cervisía, cerveja, cprrígia, cor- 
reia, êcclêsia, êgrêja, leria, feira; b) y românico: lêge, lei, rege, 
rei f . pisce, peixe, stricto, estreito. 

Observação. — Nalguns casos consonantizou-se o y, ficando in- 
tacto o ê tónico, como em videa, veja, * dissídio, desejo, insidia, 
enseja (ant), Insidia. Também parede e quédo provêm de parête e 
quêto e nâo de pariete e quieto, pois que o latim vulgar fundiu 
numa só duas vogaes eguaes, communicando, como o latim clássico, 
a quantidade de longa à vogal proveniente d'essa fusão. Pela mesma 
razão pSior se reduziu a pior, passando para e mudo, pela sua qua- 
lidade de protonicà inicial. (Vide § 54). 

§ 33. Lei. — È tónico seguido de y e / passa intacto para 
português, actuando o y apenas na consoante, que elle molha; ex.: 
a) y latino: consilio, conselho; b) românico: tèg(u)la, telha, 
auric(u)la, orelha. 

Observação. — O i longo de cunic(u)lo tornou-se breve, como 
succedeu quasi sempre â vogal posta antes de duas consoantes ro- 
mânicas 1 no latim vulgar, ao contrario do de lentic(u)la, dando 
aquella palavra coelho e esta lentilha. Grelha vem não de crati- 
c(u)la, mas de crat£c(u)la. Exílio e família, de exilio e família, 
são de introducção erudita. 

§ 34. Lei. — Ê tónico seguido de t e y passa para é, emquan- 
to o y assibila a consoante; ex.: tristitia, tristeza, *avaritia, ava- 
reza, *mollitia, molleza, *duritia, dureza, justítia, justeza. 

Observação. — Justiça (justitia), serviço (servítio), vêem das 
fórmas vulgares justitia e servítio. Vicio, de vítio, é erudito. 



§ 35. Lei. — Ê tónico conserva-se inalterado em português, 
seja qual for a sua posição no latim; ex. : ffil, fel, pôde, pé, pètra, 

* Chama- se assim o grupo de consoantes formado pela queda de vogal in- 
termédia. 



K TÓNICO SEGUIDO DE y 



É TÓNICO 
(isto é : % no latim clássico) 



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PHONETICA HISTÓRICA PORTUGUESA 



pedra, brfcve, breve, fSbre, febre, l£p(o)re, Ubre, s&ptem, sete, d8- 
cem, dez, bSlla, bella, fgrro, ferro, idS*, idéa. 

Observação i. — A não ditongação do # e # tónicos é uma das 
feições que mais distinguem o português das outras linguas românicas. 

Observação h. — A partícula pír dá em português por, porquanto, 
sendo palavra proclitica; isto é: que se encosta à que vem depois 
d'ella, fazendo ambas uma só, foi tratada como protonica inicial. (Vide 
§55). 

Observação hl — Quanto aos verbos, deu-se em português, como 
noutras linguas românicas, notável confusão, adoptando-se para typo 
•umas vezes a 3* conjugação latina, outras a 4. a Foi isto devido, 
como diz o Snr. Coelho \ além da perda da distincção da quantidade 
das vogaes atonas, á tendência que a nossa língua tinha para accen- 
tuar constantemente a syllaba penúltima das fórmas verbaes latinas, 
dizendo, por exemplo, confiro em vez de conftro. Que esta escolha foi 
arbitraria, parece deduzir-se do facto de terem hoje a característica 
em e muitos verbos que a tínhão no português archaico em i, como, 
por exemplo, metir (ant), hoje metter, morrir, hoje morrer, rompi- 
re, romper, vendiste, vendeste, perdire, perder, tolhir, tolher, etc* 
Demais esta troca dava-se já na lingua mãe, onde encontramos, por 
exemplo, pariri e partíre, lenir e e UriZre. 

É TÓNICO SEGUIDO DE y 

§ 36. Lei. — É tónico seguido de y une-se a elle e fórma assim 
o ditongo ei; ex.: a) y latino: mSdio, meio, mataria, Inadeira, m£- 
dietate, meidade (ant.), metade (metade no dialecto algarvio); b) y ro- 
mânico: pScto, peito, s&x, seis, IScto, leito, integro, inteiro. 

Observação. — Em d8cem, como em ministério, que dérão dez 
e mister, não influiu o y pela quéda dome io. 

§ 37. Lei. — É tónico seguido de y e l ou n passa para é, 
actuando além dMsso o y nas consoantes, molhando-as; ex.: vSclo *, 
vêlho, reg(u)la, relha, vSniat, vênha, t&neat, tenha. » 

§ 38. Lei. — É tónico seguido de y e t passa intacto para 
português, influindo o y apenas sobre esta consoante, que assibila; 
ex. : pr£tio, preço, *petio, peço. 

A TÓNICO 
(isto é : a, tf no latim clássico) 

§ 39. Lei. — A tónico, seja qual fôr a sua posição no latim, 
passa inalterado para português; ex.: f&ba, fava, bon(i)tãte, bon- 
dade, ãrbore, arvore, Squila, águia, mactare, matar, fame, fame 
(ant.), hoje fome, cSpulo, cabo. 



* Theoria da conjugação em latim e português. 

* Fórma popular de vet(u)lo. 



264 



REVISTA LtfSlTÁtfA 



Observação. — Nalguns casos, mas raros* a tónico converteu-se 
excepcionalmente em e, como em abentesma (popular), de phantasma. 

A TÓNICO SEGUIDO DE y 

§ 40. Xei. — A tónico em contacto immediato com y, quer ori- 
ginariamente, quer por quéda de consoante intermédia, combina-se 
com elle, formando o ditongo ai; ex. : a) y latino: maio, maio, maiore, 
maior, raia, raia ou arraia (por prothese), badio, baio, radio, raio, 
date, dai, caveola, gaiola; b) y românico: plaga, praia, fago, faia, 
sago, saio, exagio, ensaio. 

Observação i. — A's vezes em logar de ai, fórma-se o ditongo ei, 
principalmente com y românico; ex.: axe, eixo, late, leite, laxare, 
leixar, factore^ feitor, saxo, seixo, lactuca, leituga. 

Observação il — Em habeam, haja, *sapio, sage (ant.), sábio, 
consonantizou-se o y. (Vid. § 22). 

§ 41. Lei. — A tónico em contacto não immediato com o y pela 
persistência da consoante intermediaria, une-se a y, formando assim o 
ditongo ei (que também se escreve ê) e transpõe para além d'esta a 
consoante, excepto se é l ou n, porque então a sua acção reduz-se a 
communicar a estas duas cousoahtes um som molhado; ex. : a) basio, 
beijo, *cerasea, cereja, área, eira, riparia, ribeira, calvaria, cai- 
veira 1 , caveira, *í^siano, feijão, e todos os nomes acabados em 
-arius; b) muralia, muralha, batalia, batalha, castanea, castanha, 
faciat; faça. 

Observação i. — Nalguns casos deu-se apenas a deslocação da 
consoante, como em apio, aipo, *sapio, sábio % , sapiam, saiba, 
compassione, compaixão. 

Observação ii. — Vario, adversário, primário (ao lado de primei- 
ro) são de formação erudita. O povo ainda diz vairo, adversairo, etc. 

O TÓNICO 
(isto é : õ e ti no latim clássico) 

§ 42. Leí^ — O tónico passa inalterado para português, seja 
qual for a sua posição; ex.: flor, flor, amõre, amor, sapõre, sabor, 
otiõso, ocioso, spõ(n)so, esposo, lííto, lodo, cflbito, coto e côvedo 
(pop.), pííteo, poço, lõto, lôdo, liípo, lobo, scopa, escova, corte 
(= cohorte), corte, biícca, boca, litro, Odre, píítre, podre, dfí(l)ce, 
dôce, rupto, roto, tãrre, torre, líicro, logro, etc. 

Observação i. — Do ô tónico provém em muitos casos o nosso 
ditongo ou (que no dialecto algarvio soa ô), como em grus, grou, 
stõ, estou, síím, sou 3 . 

1 Forma popular do Sul, cm que o l se vocalizou. 

2 Saibo diz o povo. 

3 [O ditongo de son, c8'ou, dou deve explicar-ee par analogia com o de vou 



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PHONETICA HISÍOBÍCA PÒÉTUGUESA 



265 



Observação it. — Em várias palavras em que o o e u, posto que 
breves no latim clássico, passarão para português, aquelle com som 
fechado, e este sob a forma u, devemos admittir, como em }tico,jôgo, 
mSveo, movo, nSvo, nôvo, a troça de quantidade no latim vulgar, 
como também em cSpreo (cubro), pliivia (chuva) e ciineo (cu- 
nho). 1 

Observação hl — Encontra-se algumas vezes o ô tónico repre- 
sentado excepcionalmente em português por u, como em alimõnia, al- 
munha (ant.), testimõnio, testemoyo (ant. testemunho), cõmpleo, cumpro, 
tõto, tudo (ao lado de tôdo), dormio, durmo, *ascõnso, escuso. 

Observação iv. — Tuus, suus, déráo em português teu e seu } por 
analogia com meu (de meus). 

6 TÓNICO SEGUIDO DE y / 

§ 43. Lei. — Ô tónico seguido de y une-se a elle, formando o 
ditongo oi (que também se escreve ou); ex. : a) y latino: *agttrio 
agoiro, ma ri a, moira (em salmoira), cõfea, coifa, dormitório, dor- 
mitoiro, fuit, foi, marrítbio, marroio, solitate, íbidade, gloria, 
gloira; b) y românico: õcto, oito, nõcte, noite, õctobre, oitubro, 
flttxo, froixo. 

Observação i. — Nas palavras terminadas em -orío ou -oria, como 
dormitório, gloria, historia, que o português antigo dizia, como 
ainda hoje o povo, dormitoiro, gloira, histoira, restituiu o português 
moderno a fórma primitiva. 

Observação ii. — Diíodecim reduziu-se no latim vulgar a dodece 
— doze, segundo o principio pelo qual as vogaes se fundem numa 
só para evitar, o hiato, como também cupreo, pluvia, noceo (ant. 
nuzo). 

§ 44. Lei. — Ô tonicõ seguido de l ou n e de y passa intacto 
para português, actuando o y apenas nas consoantes, molhando-as; 
ex. : a) y latino: cicSnia, cegonha, * vêrecít(m)nia, vergônha, calít- 
(m)nia, cônha (ant), calumnia; b) y românico: genfic(u)lo, geô- 
Iho, joelho, pedílc(u)lo, piôlho. 

Ó TÓNICO 
(isto é : em latim clássico) 

§ 45. Lei. — Ô tónico conserva-se inalterado no português, seja 
qual fôr a sua posição em latim; ex. : r8ta, róda, m&la, mó, rosa, 
rósa, rògo, rógo, nSvem, nove, *potet, pôde, cSllo, eólio, pSssum, 

= -vado, *vao. A analogia é evidente noatras formas, mas em sentido inverso, 
pois foi o verbo «cr que influiu ; assim no Algarve (Sotavento) diz-se : vom, ea- 
tom, dom (1.* pess ), por analogia com som = sum. A palavra grou creio que 
deve explicar-se por *grttus, «grito (cfr. dous = d ií os), fórma masculina de 
gr lía; esta ultima explica o fr. grue. — J. L. de V.]. 
i Fórma popular de augúrio. 



266 



REVISTA LUSITANA 



pósso, stf rte, sórte, fSrte, fórte, cSff(i)no, cófre, pSrta, pórta, 18co, 
lógo. 

Observação i. — A qualidade (\e proclitica converteu o o da con- 
juncç&o quSd em e, que (vide § 58, obs. 2. a ). A palavra frente, de fron- 
te, é de origem hespankola. 

Observação ii. — Em fSco e jtfco, que dérfto em português fogo 
e jôgo (para differençar de jógo, verbo), deu-se no latim vulgar troca 
de quantidade, assim como pára evitar a homonymia com côbro (*ctí- 
p(e)ro, de recttpSro) e afôro (de ftiro), o 8 se mudou para u em 
cfioperio, cubro, fôro, furo. 



§ 46. Lei. — Ô tónico seguido de y une-se a este como ô tóni- 
co e fórma o ditongo oi; ex. : pódio, apóio, mtfdio, moio } cSrio, coiro. 

Observação i. — Nos casos em que o y se consonantizou, mudou 
o 6 tónico para 6; isto é : de breve passou para longo, como em f 8 vea, 
fôjo, htfdie, hoje. 

Observaçãõ ii. — Ôdió e Sleo (que o povo diz oilp e oido) sfto de 
introducçAo erudita. StSria deu esteira, para evitar a homonymia 
com histtfria *. 

§ 47. Lei. — Ô tónico seguido de l, m, ou n e y, passa para 
ô, actuando o y nas consoantes, molhando-as; ex.: a) y latino: ftf- 
lia, folha, so(m)nio, sônho, stflea, solha; b) y românico: 8c(u)lo, 
Ôlho. 



§ 48. Lei. — U tónico passa inalterado para português, seja 
qual fôr a sua posição; ex.: ruga, ruga, acuto, agudo, lana, lua, 
lua, julio, julho, justo, justo, verruca, verruga, salute, saúde, fru- 
mento, frumento, pul(i)ca, pulga, nube, nuve (pop.), nuvem. 

Observação i. — Para evitar a homonymia com cuba, de cúpa, mu- 
dou o u para o em copa da mesma palavra. 

Observação ii. — Em corusco (corisco) o u mudou excepcional- 
mente para i ', assim como para on (influencia da nasal) em muco, 
monco. 



§ 49. Lei. — U tónico seguido de y junta-se a elle, formando 
d'este modo o ditongo ui; ex.: a) y latino: rubeo, ruivo: b) y româ- 
nico: "insucto, enxuito (ant.), enxuto, fruito (ant.), fructo. 

* [Esteira parece suppôr antes * a ta ria, "de stataria (dissimilaçSo) ; ou pelo 
menos houve troca de suffixos -orea por -ária. — J. L. de V ]. 

* [Por troca da terminação -uscar por -iscar ; ésta ultima vê-se em chovis- 
car; cfr. sardanUca, etc. — J. L. db V.]. 



Ó TÓNICO SEGUIDO DE y 



U TÓNICO 



(isto é: ii no latim clássico) 



U TÓNICO SEGUIDO DE j 



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ÊHONETICA HI8T0RICÀ PORTUGUESA 



267 



DITONGOS LATINOS 

§ 50. Lei. — Os ditongos ae e oe pàssfto para português sob a 
fórma de e longo ou breve, seguindo depois a sorte d'estes; ex.: caeco 
(=c%co), cégo, graeco (=gr%co), grego, coelo (=c$lo), cio, praeda 
(= prêda), prêa, coena (= cena), ceia, quaerere(= quêrère), querér. 

Observação. — Ésta troca provém do latim vulgar. A palavra 
GaUiztt (de Gallaecia), em que o ditongo ae passou para i, é de ori- 
gem hespanhola, onde tal processo é regular (judio, àejudaeo, siglo, 
saeculo l ). 

AU 

§ 51. Lei. — O ditongo au é representado em português pela 
fórma oi ou ou (que também se escreve d, como.sôa no dialecto algar- 
vio); ex.: auro, oiro, lauro, loiro, thesauro, tesoiro, aut, ou, caule, 
couve, pau co, pouco. ' 

Observação i. — Nalgumas palavras o ditongo au converteu-se 
em o, talvez mesmo ainda no latim vulgar, como em cauda, coda 
fauce, foz, paup(e)re, pobre; aquelles que consérvâo o au original, 
como causa (ao lado de coisa), fraude, cauda (ao lado de coda), Paulo, 
laurel, se nao sfto de introducçfto litteraria, soffrêr&o certamente in- 
fluencia erudita. 

Observação ii. — O ditongo português ou nalguns casos provém 
também de simples attracçfto, como em poude (potuit), soube (sa* 
puit), houve (habuit); noutros provém do d tónico 8 . 

CAPITULO IV 

Vogaes protonicas iniciaes. — Leis que regèrão a sua passagem 
para português 

§ 52. Acabamos de estudar as vogaes tónicas na sua passagem 
para a lingua portuguesa; resta-nos agora examinar a sorte das ato- 
nas que entrfto na syllaba inicial, ou melhor das vogaes protonicas. 
Sfto estas as únicas que com as tónicas e finaes se consérvâo geral- 
mente no português, salvas as excepções mencionadas nos §§ 8 e 9. 
Antes, porém, de entrarmos neste exame, devemos notar algumas dif- 
ferenças que se dfto entre ellas e as tónicas no modo como passàrfto 
para a nossa lingua. Sfto estas as principaes : 

1. * Tem a mòr- parte tendência para enfraquecer em e mudo. 

2. * Sfto nasaladas pelo m ou n nos mesmos casos que as tónicas. 

* [Se houve influencia hespanhola, parece ter sido só em metade da pala- 
vra, pois do contrario 11 dariâo em hesp. Ih, como se vê na palavra gallego (que 
se pronuncia galhego). Um exemplo similhante de influencia parcial está em cas- 
telhano (que vem do hespanhol), a par de Castella (que se fórma regularmente do 
latim). — J. L. dk V.]. 

s Côda no latim vulgar. 

s [Sobre o assumpto dos §§ 27-50, vêr Cornu, obr. cit, J§ 3-40. — J. L. dx V.J 



268 



REVISTA LUSITANA 



Seguiremos na exposição dos factos a mesma ordem que obser- 
vamos, ao tratar das vogaes tónicas; estudaremos, porém, simulta- 
neamente o Ê e o Ê, o Ò e o Ô, por seíem análogas as suas modifi- 
cações. 

I PROTONICO INICIAL 
(isto é : % no latim clássico) 

§ 53. Lei. — 1 protonico inicial conserva-se inalterado em por- 
tuguês; ex. : filare, fiar, * riparia, ribeira, civitate, cidade, rldêre 
(redêre no latim vulgar), rir, *fibella, fivella. 

Observação. — Em mirabilia, maravilha, deu-se troca de quan- 
tidade passando o i de longo a breve e seguindo depois a regra ge- 
ral (§ 54). 

ÉeÉ PROTONICOS INTCIAES 
(isto é : ¥, ê, # no latim clássico) 

§ 54. Lei. — Ê e É protonicos iniciaes enfraquecem em e mudo 
na sua passagem para português; ex. : pilare, pela, minacia, amea- 
ça, minuto, meudo, plgritia, perguiça \ pê(n)sare, pesar, pètere, 
pedir, relatione, relação, pèrdere, perder, *pèrgamino, pergaminho. 

Observação. — Pela grande similhança existente entre o e e o i, 
algumas vezes os ê e é protonicos iniciaes passárâo para i, como em 
ISctione, lição (que o povo ainda diz leçâo), pior, etc. 2 . 

§ 55. Ê e É protonicos iniciaes, principalmente quando juntos 
ás consoantes l, r, t, m ou n, c e g, mudarão umas vezes para a; 
ex. : bilancia, balança, mSlimelo, marmelo, illic, alli, êramen 
(=aeramen), arame, birreto, barrete, litania, ladainha 3 , hirundi- 
nea, andorinha 4 , vêrr&re (=verrêre)j varrer, *intum, antâo (ant. e 
pop.), então, licere, lazer, ecc'hic, aqui, *extordire (= ecstordir), 
aturdir, rêgina, rainha; outras para o; ex. : berragine, borragem, 
ericio, ouriço, delphino, golphinho, perinde, porém 5 . 

i Por metathse. 

* [Lição está em vez de *leição, cfr. eleição; em pior, o e atono mudou - 
se em i, por estar antes de vogal. — A forma popular leçâo é de desenvolvimento 
posterior, como Ucença. — J. L. de V ]. 

3 [Li tanía deu em português antigo ledania (fórma semi -erudita; cfr. hesp. 
letania, ital. litania, cfr. litanie). A fórma ladainha é de origem popular : litania, 
• ledâia, * ladãia, ladainha. A nazalidade do a communicou-se ií vogal seguinte 
(tónica), como em vinha (de * venía), painço (de paniclu-), etc. — J. L. de V.]. 

* Nesta palavra predominou a falsa etymologia de andar. [Assim se tem 
explicado andorinha, mas talvez não seja necessário recorrer á etymologia popu- 
lar para a explicação, admittindo se uma metathese: *hindurinea (ou de 
*hirundina), indurinha (que supponho existir algures). — J. L. de V.]. 

5 [As palavras em que o c primitivo hoje se apresenta mudado em o estão 
sujeitas a diversas leis. Assim, em borragens houve influencia da labial inicial. A 
fórma anterior de ouriço creio ter sido eiviço (cfr. Eyriceira, fórma are. de Eri- 
ceira), d 'onde *euriço, ovriço (cfr. pop. Ovf etnia = Eufemia, pop. OuseMo — Eu- 
sébio, etc ). Em golphinho deu-se um caso de etymologia popular. Em porém temos 
a preposição por. — J. L. de V.]. 



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PHONBTICÀ HISTÓRICA PORTUGUESA 



269 



A PROTONICO INICIAL 
(isto é : #, ã no latim clássico) 

§ 56. Lei. — A protonico inicial permanece intacto em portu- 
guês; ex. : márito, marido, v&lere, valer, sSpère, saber, cSnuto, 
canudo, cSballo, cavallo, pãrtire, partir, cãstello, castello, Car- 
bone, carvão. 

Observação. — No onomástico Ignes {==lnês) % de Agnes, deu-se 
por excepção a troca de a em i l . 

§ 57. À protonico inicial tende a converter-se em e mudo, quan- 
do se acha antes de n ou m, r ou s; ex. : ãsparago, espargo, *ãs- 
cultare, escuitar (ant), escutar, *ascondére, esconder 2 , *asco(n)- 
so, escuso, bãlista, besta, cãrina, querena, ãnguila, enguia, pa- 
naria, peneira, ãmpulla, empolla 3 . 

O e Ó PEOTONICOS INICIAES 
(isto é : õ, Ò* e & no latim clássico) 

§ 58. Lei. — O e Ô protonicos iniciaes pássâo inalterados para 
português; ex. : mortale, mortal, dõrmire, dormir, jScare, jogar, 
spo(n)sare, esposar ou desposar (a prosthetico), dftlore, dor, cõrti- 
cia, cortiça, Srtica, ortiga, sficcurrêre, soccorrer. 

Observação i. — Pela sua tendência a trocar em u, o ô e 6 pro- 
tonicos iniciaes passárão nalguns casos para u, especialmente quan- 
do em contacto com as palataes, como em cogitare, cuidar, co(n)- 
spuere, cuspir, perconôtare, perguntar, complere, cumprir. 

Observação ii. — Nalgumas palavras, o e 6 protonicos iniciaes 
abrandarão em e mudo, em orologio, relógio, rotundo, redondo, 
*oscuro, escuro, to(n)soria 4 , tesoira; e por excepção em a em no- 
vac(u)la, navalha 5 . 

1 [Decerto através de *Ainôs, pela dissolução do g, como em reino; de- 
pois ai- deu ei , e por fim i- ; cfr. igreja, da fórma arch. eigreja. — J. L. dk V.]. 

2 Â8conder em português arch. 

3 [Nestes exemplos é preciso também distinguir os casos. Bésta vem do arch. 
bee8ta, por # baesta, tendo havido assimilação do a ao visinho e, como em quente, 
de caente, aqueecer, de acaecer, quenda, de caenda (caleuda), etc. Querena não é 
fórma de origem popular portuguesa. Em vez de enguia, também se diz angula; o 
e nasal inicial alterna facilmente em a; cfr. antão, amparo (a par de emparo), an- 
dorinha, etc. — J. L. de V.]. 

* [Estes factos são devidos a dessimilação : o(u) — o(u) = e — o(u). Outros 
exemplos se podem citar : arch. fermoso, temeroso (por * temoroso, de temor, e nâo 
de temer), arch. valeroso (de valor, e não de valer), redol e redor (de rotatorem, 
e não de * rotatorium, como quer Storm), pop. feturo, pop. sepôr (— suppor), pop. 
Utepôr (= estupor), pop. serumbatico, pop. cherume, etc. Os exemplos são abun- 
dantíssimos. — J. L. de V.]. 

5 [A fórma navalha não é muito fácil de explicar ; talvez o o se mudasse 
em a, por assimilação ao a seguinte, como em cangar, de conjuga re; todavia 
em hespanhol também ha navaja, com a. — J. L. de V.]. 



270 



REVISTA LUSITANA 

f 



U PROTONICO INICIAL 
(isto é: U no latim clássico) 



§ 59. Lei. — U protonico inicial conserva-se sem alteraçfto em 
português; ex.: muralia, muralha, durare, durar, pulsar e, puxar. 



§ 60. Lei. — O ditongo au protonico inicial torna-se oi ou ou 
em português (como au tónico); ex.: ausare, ousar, audire, ouvir, 
auric(u)la, orelha 1 , *laurario, loureiro 1 , laudare, huvar. 

Obsebvação. — As palavras auscultare, augusto, augúrio, 
que já no latim vulgar se tinhfto convertido em ascultare, agttsto, 
agttrio, dão em português escutar, agosto e agoiro. 



§ 61. Tratámos até aqui das vogaes ou vozes das palavras, e 
vimos quaes as leis que presidirão á sua passagem do latim para o 
português; resta-nos agora applicar o mesmo processo às consoantes 
ou articulações. E' o que passámos a fazer. Como procedemos ao es- 
tudar as vogaes, veremos quaes as modificações que aquellas soffrê- 
rfto e os casos em que persistirão, se alterâr&o ou desapparecêr&o. 

§ 62. Tinha o latim dezanove consoantes, as quaes, collocadas 
por ordem alphabetica sfto: B, C, D, F, G, H, J, K, L, M, N, P, Q, 
B, S, T, V, X, Z. Se d'este numero eliminarmos provisoriamente: 

1. ° o H que, embora escripto, se nfto faz ouvir no português; 

2. ° o 1 que é uma semi- vogal; 

3. ° o K que é um signal graphico tirado do grego, equivalente 

aC; 

4. ° o Q que em certos casos é egual a C; 

6.° o X que é uma consoante dupla equivalente a CS; 

6.° o Z que é o signal d'um som composto, de origem grega: 

ficar-no8-hao apenas treze, a saber: B, C, D, F, O, L, M 9 N, P, 

R, S, T, V. 

* [No lat. vulgar já ha oric(u)la. — J. L. dk V.]. 
* * [Uma fórma dialectal de loureiro ou loireiro é lòreiro (na Beira -Alta, por 
ex.), que deve vir de *lorarius; cfr. Lorddlo, que suppoe *loretellum, demi- 
nutivo do lat. vulg. loretum . — J. L. de V.]. 



DITONGO au PROTONICO INICIAL 



SEGUNDA PARTE 



Consoantes 



CAPITULO I 



Consoantes latinas.— Leis geraes que regularão a sua passagem 
para a língua portuguesa 



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PHONETICA HISTOBICÁ PORTUGUESA 



271 



§ 63. A classificação (Testas treze consoantes latinas pôde fa- 
zer-se debaixo de dois aspectos: 

a) Ou em attençâo aos órgãos essenciaes que com a lingua con- 
correm para a sua producção'; e neste caso divídem-se em tres fa- 
mílias: 

1. ° Gutturaes, que são C, G; 

2. ° Dentaes, que são T, D, S, B, L, N; 

3. ° Labiaes, que são P, B, F, V, M. 

b) Ou em relação ao esforço e tempo, mais ou menos longo, gasto 
em pronunciá-las, ou aos órgãos que especialmente contribuem para a 
sua emissão. Neste caso dividem-se as consoantes em quatro classes : 

1. ° Explosivas ou momentâneas \ que se pronuncião d'um modo 
rápido e instantâneo, as quaes se subdividem em brandas, que são 
G, D, B, e fortes respectivamente correspondentes, C, T, P. 

2. ° Contínuas ou spirantes *, cuja articulação é mais morosa, e 
se subdividem também em fortes, que são S, F } e brandas, que só com- 
prehendem uma consoante e é V, correspondente a F. 

3. ° Liquidas, que escápão facilmente e com uma espécie de vi- 
bração, e são R e L 8 ; 

4. ° Nasaes, assim chamadas pela modificação que lhes imprime a 
sua passagem pelo nariz, e são M, JV. * 

O quadro que em seguida apresentamos abrange estas duas clas- 
sificações: 



Explosivas 


Continuai 


Liquidas 


Nasaes 




Fortea 


Brandas 


Forte. 


Brandas 


c 


G 










Gutturaes 


T 


D 


s 




R L 


N 


Dentaes 


P 


B 


F 


V 




M 


Labiaes 



Observação. — Além d'estas treze consoantes, possue a lingua 
portuguesa a mais o ch, ojeoz (que se ouvem nas palavras cAa- 
inar, jantar e razão), as quaes, quanto à primeirá classificação, per- 
tencem chejk família das palataes, e z (isto é: s brando) & das dentaes, 
e quanto à segunda, à classe das contínuas, sendo j % z brandas e ch 
forte. Se a estas ajuntarmos as consoantes molhadas Ih e nh (aquella 
liquida e esta nasal), provenientes da influencia da semi-vogal i no 



i Também se chámâo mudas ou instantâneas, 

* Também chamadas frioativas. 

8 Propriamente fallando l é liquifa e r vibratiL 



272 



Revista lusitana 



l 6 no n, teremos as dezoito articulações principaes da língua portu- 
guesa (na fórma litteraria). 

§ 64. As consoantes latinas na sua passagem para o português 
soffrêrfto diversas modificações, as quàes todas se podem reduzir a 
duas principaes: abrandamento e accommodaçâo. 

a) O abrandamento apresçnta-se debaixo de tres aspectos: 1.° 
abrandamento propriamente dito, que se dâ geralmente entre consoan- 
tes da mesma família pela passagem d 7 uma explosiva forte para ou- 
tra branda correspondente (ex.: caeco, cego, *aceto, azedo, * ri- 
paria, ribeira), ou d'uma explosiva para uma contínua e vice-versa 
(ex. : faba, fava, voto, bodo); 2.° resolução vocálica da consoante 
(ex.: lacte, leite, falce, fouce ou foice); 3.° finalmente abrandamento 
completo; isto é: syncope ou quéda da consoante (ex. : angelo, anjo, 
credtire [==credêre no luso-romanico *] crer). 

b) A accommodaçâo é uma lei pela qual as consoantes se modifi- 
câo sob a influencia das consoantes vizinhas: é assim por exemplo 
que com(i)te se tornou em conde na língua portuguesa; o m, que é 
uma labial, pela quéda da vogal atona, approximou-se do t, que é den- 
tal, e em vista d'essa approximaçflo converteu-se em n, que também 
é dental. De ordinário uma branda attráe outra branda, como uma 
forte attráe outra forte. A accommodaçfto chega por vezes até á as- 
similação, que é a conversão d'uraa consoante noutra egual áquella 
a que se junta. Assim succedeu á palavra rttpto, por exemplo, que 
em português deu rôto. Geralmente a assimilação procede d'uma ma- 
neira lenta e progressiva, segundo o principio chamado de transição. 
Assim em riípto o p (explosiva forte} abrandou em t (também ex- 
plosiva forte), ficando ròtto; simplificando-se depois a geminação, res- 
tou roto. De modo que entre a primitiva fórma ríípto e a actual 
roto devemos admittir outra intermediaria *rôtto. 

Observação. — A dissimilação é um processo inverso do da assi- 
milação, e consiste em evitar na mesma palavra a repetição d'uma 
consoante, trocando-a por outra da mesma família, ou mesmo suppri- 
mindo-a, como se vê em lilio e prora, na primeira das quaes o l foi 
substituído por r (lírio) 2 e na segunda cahiu (prôa). A dissimilação 
estende-se por vezes até ás syllabas, mas neste caso desapparece a 
syllaba toda, por exemplo caridoso e bondoso em logar de caridadoso 
e bondadoso 3 . 

1 Chamo assim ao latim vulgar, fallado no antigo Portugal, base do portu- 
guês prehistomo ou anterior ao seu apparecimento pela escripta. 

8 [Lilium, se fosse fórma popular, teria dado mais facilmente lilho ou lilhio 
do que Uria, Como em hesp. também temos lirio, é provável que no lat. vulg. da 
Hispânia houvesse «lirium; cfr. lat. Urion — gr. léirion* — J. L. de V.]. 

3 [O que é natural é que primeiro se syncopasse só o d, * caridaoso, etc., e 
depois ao d és se o. Formas similhantea são cuidoso e cuidadoso, que porém tem 
por origem primeira um substantivo não acabado ein -ade. E' provável que no ap- 
parecimento da fórma cuidoso influísse a lei da dissimilação (por cuidadoso); to- 
davia o substantivo verbal cuido (ainda usado em «andar em cuidos», etc.) era 
bastante para provocar esse apparecimento. — J. L. dk V.]. 



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ÍHONETICA HISTÓRICA PORTUGUESA 



§ 65. Âs consoantes latinas consideradas em si podem encon- 
trar-se na palavra ou isoladas; isto é: em contacto só com vogaes 
(ex.: o i em tusse, vita,venit) ; ou agrupadas; isto é: em contacto com 
outras consoantes, quer eguaes, quer diferentes (ex.: o t em trabe, 
gusto, catto); consideradas em relação ao logar que occupão na pala- 
vra, dividem-se tanto umas como outras em iniciaes, se estão no prin- 
cipio (ex.: o t em terra, trabe); mediaes, se no meio (ex. : o t em vita, 
petra), e finaes, se no fim (ex. : o t em venit, amant). Ainda nas mediaes- 
agrupadas devemos considerar o caso em que uma d'ellas, seguida de 
vogal ou consoante, constitue a primeira lettra da syllaba (ex. : o t 
em putre) e aquelle no qual se não dà esta circumstancia (ex. : o t 
em septimana). Chamaremos ás primeiras mediaes-agrupadas-iniciaes, e 
âs segundas simplesmente mediaes-agrupadas. A todas estas circum- 
stancias temos de attender, visto como ellas influirão poderosamente 
na immutabilidade ou alteração que as consoantes soffrêrão na sua 
passagem para a língua portuguesa. 

Observação. — Os grupos podem ser ou primitivos ou românicos. 
Os primeiros existião jâ no latim clássico, os segundos fôrâo forma- 
dos pela suppressão de vogal : isto vê-se em latrone e spec(u)lo. 

§ 66. Antes de entrarmos no estudo de cada uma das consoan- 
tes, podemos formular alguns principios geraes. 

1. ° As consoantes iniciaes, quer isoladas, quer agrupadas, con- 
servâo-se geralmente intactas (com excepção das gutturaes, que em 
certos casos são modificadas). 

2. ° As consoantes mediaesAsoladas estão sujeitas ao abranda- 
mento, que vae desde a simples troca até & syncope. 

3. ° As consoantes mediaes-a grupadas permanecem, se são ini- 
ciaes ; fóra d'este caso só persistem, se os grupos são de fácil pro- 
nunciação; de contrario estão sujeitas ao abrandamento ou accommo- 
dação. 

4. ° As consoantes finaes cabem geralmente. 

§ 67. No estudo das consoantes seguiremos a sua classificação 
por famílias. E assim estudaremos: 1.° as gutturaes c e g, às quaes 
addicionaremos oxeofea semi- vogal i; 2.° as dentaes t, d, s, ás 
quaes se deve ajuntar o z; 3.° as labiaes p, b, f, v; 4.° finalmente as 
liquidas r, l, e as nasaes m, n. 

Observação. — A propósito de cada consoante, examinaremos a 
influencia que sobre ella exerceu a semi-vogal i, influencia de que já 
por vezes nos temos occupado. 

§ 68. Nas precedentes classificações deixamos de mencionar o 
h, por isso que nas palavras em que elle figurava no latim clássico, 
e que passárão para a nossa língua, ou desappareceu (como em 
herba, erva), ou, o que é mais vulgar, serve apenas de signal gra- 
phico, tendo perdido a sua primitiva qualidade de spirada gut- 
tural. 

Observação i. — Note-se que nos grupos ch, th, ph, que só se usa- 
vão em palavras transcriptas do grego, cahiu o h, ficando portanto 

Bwr. LusiT., vol. iii, fase. 3. 6 



274 



REVISTA LUSITANA 



reduzidas a c — t— p (charta = carta, thesauro = tesauro, eola- 
pho =scol(a)po). 

Observação ii. — O português moderno emprega ás vezes um A, 
como em trohir (* traer, de tradere), para evitar o hiato, assim como, 
pelo mesmo motivo, substituiu o primitivo h de trahere, primeiro 
por um g e depois por um z, trazer l . 

CAPITULO II 
Família das gutturaes 

§ 69. A família das gutturaes comprehende em latim uma ex- 
plosiva forte c e outra branda g, ás quaes devemos ajuntar o x, que 
é uma consoante dupla equivalente a cs; o q, que nalguns casos 
se distingue do c, e emfim a semi-vogal i. 

A feição característica das consoantes d'esta família é a pro- 
priedade que ellas teem de se resolverem na semi-vogal i, que, se- 
gundo temos tido occasiâo de vêr, tanta influencia exerceu na trans- 
formação dos sons latinos noutros portugueses. 

Observação. — Note-se que a família das gutturaes se enrique- 
ceu na sua passagem para português com mais duas contínuas cor- 
respondentes às duas explosivas, a saber, uma forte, ch, corresponden- 
te a c, e outra branda j, que corresponde ao g, que sâo propriamen- 
te palataes. 

I — C 

§ 70. O c tinha em latim o som duro do k grego, fossem quaes 
fossem as vogaes que se lhe seguissem, valendo de k quer antes de 
a, o, u, quer antes de e, i. Assim, caballo, cura, como fecit, decem, pro- 
nunciavâo-se kaballo, kura, fekit, dekem. 

Estudaremos o c primeiramente isolado, depois agrupado, e qual- 
quer d'elles nas tres posições, inicial, medial e final. No isolado, po- 
rém, distinguiremos as vogaes que se lhe seguiâo, visto como d'ellas 
dependeu a sua vária sorte, e assim considera-lo -hemos: 1.° antes de 
a, o, u; 2.° antes de e, i. 

a) € ISOLADO 

1) C (-f a, o, v) INICIAL 

§ 71. Lei. — C inicial passa intacto para português; ex. : ca- 
ballo, cavallo, cadere, cair, casa, casa, colubra, cobra, comple- 
re, cumprir, corpus, corpo, cunic(u)lo, coêllw, curvo, curvo. 

Observação i. — Em virtude d'uma tendência muito antiga, o c 
inicial abrandou nalguns casos em g, como em camélia^ gaméla, 

1 Encontra-se um resto da antiga forma em trago e traga, as, a, âmos, ais, 
5o. [Na Revista Lusitana, n, 269 sgg., dei outra explicação das formas trazer e 
trago. — J. L. de V.]. 



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PHONETICA HISTÓRICA PORTUGUESA 



275 



catto, gato, caveolla, gaiola, colla, gola. E' de crer que estas 
palavras já, nos viessem assim do latim vulgar, pois que no clás- 
sico encontramos o mesmo phenomeno, dhsendo gurgulio em vez de 
curculio. 

Observação ií. — Nalgumas palavras o c inicial tomou a fórma 
ch, mas essas palavras fôrâo entre nós introduzidas do francês, onde 
essa relação phonica é regular; ex.: carruca, chatrua, *capello, 
chapéu, cant(o)re, chantre, caput, chefe, caminata, chaminé. 

2) C (4- «> o, u) medial 

§ 72. Lei. — C medial abranda em português em g; ex.: paca- 
re, pagar, dico, digo, peca, pega, joco, jogo, lacu, lago, plicare, 
chegar, acuc(u)la, agulha, braças, bragas, apotheca, bodega x , hac 
hora, agora. 

Observação i. — Este abrandamento do c em g, que jà se dava 
no latim vulgar, onde p acare se tornàra pagare, não se encontra nos 
compostos de plicare, chegar, como replicar, complicar; estas pa- 
lavras, porém, em que se conserva inalterado o c medial, se não per- 
tencem á língua erudita, soffrêrão certamente influencia erudita, como 
o provão diago (arch.) e advogar ao lado de diácono e provocar. 

Observação ir. — Em decano, deão, cahiu por excepção o c me- 
dial, se é que, como se nos afigura, elle não provém do francês, em 
que tal facto se dá. Parecem-nos egualmente da mesma procedência 
palavras taes como selvagem (selvático), mege (arch. medico), man- 
jar (manducar), viajem (viatico), monje (monaco *), forja (fa- 
brica), em que o c medial abrandou emj. 

8) C (-f r, o inicial 

§ 73. Lei. — C inicial toma em português o som sibilante do 
s forte, continuando todavia a escrever-se c; ex.: centum, cento, 
cervo, cervo, ceio (^=caelo), ceo, ceco (=caeco), cego, civitate, ci- 
dade, cista, cesta, cibo, cebo 3 . 

Observação i. — O c antes de e, i tinha-se tornado sibilante no 
latim vulgar jâ no século \i. 

Observação ii. — Em chicharo (cicero) e chinche (cim(i)ce) 
acha-se o c inicial (e também medial) representado excepcionalmente 



i A conservação do c em botica foi para evitar a homonymia. [A fórma bo- 
tica não é de origem popular em português. — J. L. db V.]. 

* [A fórma portuguesa, correspondente a monachus, é mogo: vid. D. Ca- 
rolina Micbaèlis, na Revista Lusitana, ih (Fragmentos etymolog., § liv). A fórma 
correspondente a -aticum penso ser -ago (ad'go), como vinhago, gentiaga, Vi- 
dago, de vineaticu-, *gentiatica (de gentio, genetivus), *Vitaticu-. A 
fórma antiga de deão é adaiâo, que está mais próxima do fr. doyen. — J. L. be V.]. 

3 [E' só na língua litteraria moderna que se confunde c com *, pois tanto 
em alguns dialectos, como na língua litteraria archaica, o som do c (isto é : çj não 
se confunde com odo «. O mesmo se deve dizer das sonoras respectivas, * e s in- 
ter vocálico: vid. § 74. — J. L. de V.]. 



276 



REVISTA LUSITANA 



por ch; afigura-se-nos porém haver aqui origem ou influencia do 
francês chiche. 

4) € (+ e, i) MEDIAL 

§ 74. Lrl — C medial (intervocalico, antes de e e i) passa em 
português para z (s brando); ex.: dicSre, dizer, facSre, fazer, 
*domin(i)cella, donzella, vicino, vizinho, placere, prazer, *com- 
placentia, complazença (arch.), complacência, vacivo, vazio, buci- 
na, buzina, *amicitate 1 , amizade. 

Observação l — Esta mudança importante da sibilante provenien- 
te do c tem a sua origem na tendência de todas as consoantes duras 
para se converterem em brandas, quando collocadas entre vogaes. 

Observação h. — As palavras lagarta e pulga provêm nfto de la- 
certa e pulice, mas d'outras populares lacarta e pulica. 

Observação iu. — O c cahiu por excepção nas seguintes fórmas 
contractas : direi, farei e fais (arch.), por dizerei, fazerei e fazes. 

6) € FINAL 

§ 75. Temos aqui de considerar dois casos: ou o c é final ori- 
ginariamente, ou por quéda da vogal seguinte. E assim no 

1. ° caso; isto é: c final original cáe em português; ex. : sic, si 
(arch.), sim, nec, ne (arch.), nem. 

2. ° caso ; isto é : c final nâo original passa para s brando (na lín- 
gua litteraria actual) como o medial antes de e, i; ex.: voce, voz, de- 
cem, dez, nuce, noz, perdice, perdiz, pice, pez, radice, raiz, cru- 
ce, cruz, judice, juiz 9 , vice, vez*. 

b) C ANTES DA SEMI- VOGAL i 
(isto é: cia, cio) 

§ 76. Lei. — C seguido da semi- vogal i; isto é: d'um i forman- 
do hiato, como em cia, cio 7 toma em português o costumado som si- 
bilante, desapparecendo a semi- vogal; ex. : faciamus, façamos, fa- 
cie, face, minacia, ameaça, bracio ( = brachio), braço, *laceo 
(=laqueo), laço. *terraceo, terraço. 

Observação. — Segundo a sua tendência para abrandar, também 
neste caso o c passou para português sob a fórma de z, como em 
judicio, juízo, placeat, praza 4 . Aquellas palavras em que cio e cia 
se consérvâo inalteradas, pertencem à lingua erudita. Murci(d)o deu 
murcho, talvez por influencia francesa 5 . 

* Compare -se a fórma hespanhola amistad. 

» A deslocação do accento deu-sc nesta palavra para evitar o hiato. [Sup- 
ponho que a deslocação se daria por analogia com os nomes cujo nominativo era 
também -ix, mas cujo genetivo era -íeis; ex. : radix, etc. — J. L. de V.]. 

3 [Propriamente, o c intervocalico deu z, c o e cahiu : voce- , # voze. voz, — 
J.L. de V.]. 

4 [Vêr sobre este ponto Cornu, ob. cit., % 111. — A fórma praza pôde expli- 
car-se pelo infinito prazer, placere, que faz parte dos Casos do § 7d d'este ar- 
tigo. — J. L. de V.]. 

5 [Como justificar a influencia francesa? Também Diez, Gr. des l. rom., i, 



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PHONBTICÀ HISTÓRICA PO&TtJGtJESÀ 



ej C AGRUPADO 

1) INICIAL 

§ 77. Lei. — Os únicos grupos iniciaes em que o c é em latim 
seguido de consoante, sâo cr, cl, os quaes foram diferentemente modifl 
cados na sua passagem para português: cr ficou inalterado; ex. : cre 
dere, crer, cruce, cruz, crudele, cruel, crudo, cru, crusta, crosta, 

Observação. — Aqui também, segundo a sua tendência, abran 
dou nalguns casos o c em g, como em *crupta, gruta l , cratic(u)la 
grelha *, crassa, gracha, crate, grade, creta, gréda. Em cremare 
queimar, cahiu o r por dissimilaçfco s , e em crepare, quebrar, deu-se 
por metathese deslocação do r. 

Cl passou para português sob a fórma de ch; ex.: ciam are, 
chamar, claudere, chouvir, archaico, clave, chave, clauso, chouso, 
arch., c(e)leúsma, chusma. 

Observação. — A existência da fórma cramar, archaica (cla- 
mare), ao lado de chamar, faz-nos parecer que a primitiva transfor- 
mação do cl em ch foi modificada por influencia erudita. Claro, cia- 
mar, claustro (ao lado de crastra, arch.) pertencem à língua litteraria. 
Clavo deu cravo, para evitar a homonymia com chave 1 . 

2) MEDIAL-INICIAL 

§ 78. Devemos distinguir os casos em que o c medial-inicial ; 
isto é: em contacto com outras consoantes e constituindo a lettra ini- 
cial da syllaba, está seguido de vogal ou de consoante. D'ahi resultao 
as duas leis seguintes: 

17, e Cornu, ob. cit., § 111, lígâo murcho a murcidus, embora Cornu diga que é caso 
insólito. Murcidus porém nào pôde explicar murcho. Como murcidus é formado de 
murcus, do mesmo modo que murceus, devia haver no lat. vulgar da Lusitânia ou- 
tro derivado do mesmo thema, cora o suflixo -ulus; isto ó: *murculus, ou mur- 
c'lus, que explica perfeitamente murcho, porque cl depois de consoante dá ch (cfr. 
Bev. Lus., n, 272). - J. L. de V.]. 

i [Sobre gruta, vid. Meyer- Liibke, Gram. de* l. rom., i, 34. — J. L. db V.]. 

* [Grélha é difficil de explicar por cratic'la, que devia dar gradelha, sem 
quéda do d. E' provável que grelha viesse de outra língua para a nossa. Em fran- 
cês antigo ha greil (por grattle, graille), ir. mod. griuc, gril, que, com quanto de 
differente significação, vem do mesmo radical (grille, de craticula, gril, de cra- 
ticulum). Cfr. Diez, Et. Wòrt, i, 172, 4.« ed.— J. L. dk V.]. 

8 [Cornu, ob. cit., § 7, explica queimar de outro modo: cremare, #JW- 
mar, *heumar, queimar. — J. L. de V.]. 

* [Cravo pertence a epocha mais moderna. — Com relação ao modo de tra- 
tamento do cl inicial, a lingua portuguesa offerece três momentos ou epochas : 

1) cl-, ch, ex. : clavic'la, chavelha; 

2) cl-, cr, ex. : clavic'la, cravelha; 

3) cl-, cl, ex. : clavícula = clavícula. 

As fórmas da primeira classe sâo populares e mais antigas ; as da última 
litterarias e recentes; as da segunda semi-populares ou semi-eruditas; isto é: in- 
troduzidas litterar lamente numa epocha bastante antiga, embora posterior á pri- 
meira (mas em que já se nao dávâo todos os phenomenos característicos da 1." 
epocha), e tendo experimentado alteração na boca do vulgo. — J. L. de V.]- 



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2Í8 



feKVISÍÀ LUSITANA 



1. * Lei. — C medial-inicial seguido de vogal está sujeito às mes- 
mas regras que o c fcolado-medial ; isto é : conserva-se inalterado an- 
tes de a, o, u, e passa para sibilante antes de e, i; ex. : a) rausca, 
môsca, furca, fòrca, calcare, calcar, *mercare, mercar, fusco, 
fosco, visco, visco, man co, ' manco ; b) mercede, mercê, inceptare, 
encetar, crescõre, crescer, cercínare, cercear. 

Observação i. — Antes de a, o, u nalguns casos, como em * ca- 
bal(li)care, cavalgar, musco, musgo *, abrandou em g, segundo a sua 
tendência. Prancha (planca) e marchante (mercante) fôrão introduzi- 
das do francês *. 

Observação n. — No grupo sc 5 , quando antes de e, i, deu-se no 
português antigo tendência para assimilar o * ao c, quando posto im- 
mediatamente á raiz da palavra, dizendo-se por exemplo nacer, crecer, 
decer, acenson, conhocer, como ainda hoje pronuncia o povo, e a sua 
conservação, quando não immediato ao radical, por exemplo : escaesca, 
meresca, padesco, gradesco, offerescão, guaresco. O português moderno, 
porém, em obediência à etymologia, restaurou a fórma primitiva no 
primeiro caso, com excepção de conhecer, e assimilou no segundo. As- 
sim, aquellas fórmas são hoje nascer, crescer, descer, ascensão, e estas 
esqueça, mereça, padeço, offereção, guareço. Nalguns casos foi o c que 
se assimilou ao s, produzindo a geminação o som x, segundo a regra. 
(Vide adeante), como era mis cere, mexer 4 . 

2. * Lei. — Os grupos mediaes formados pelo c, são cr, cl, d e x 



1. ° grupo, cr). — O c d'este grupo abranda em g, em harmonia 
com a sua já conhecida tendência; ex.: acre, agro, vin'acre 6 , vi- 
nagre, álacre, alegre, lacrima, lagrima, macro, magro, socro, 
sogro. 

Observação. — Oc neste caso tinha passado para g já no latim 
vulgar. 

2. ° grupo, cl. — Oc d'este grupo resolve-se em i, que desapparece, 



* [A fórma musgo é difficil de explicar, por causa do g. Talvez aqui haja al- 
guma influencia estranha. Fórma inteiramente semelhante é visgo, que se usa a 
par de visco. Poderemos acaso admittir «mus* cus e «vis 1 cus? — Quanto a ca- 
valgar, éata palavra vem de «caballicare, sim, mas através de *caballigare, 
tendo-se abrandado o c antes da syncope do *. — J. L. de V.]. 

* [Prancha podia explicar- se por #planc(u)la: cfr. concha, de con- 
ch(u)la; embora tenhamos chanca, de planca. Â substituição de pi- por pr-, 
e não por eh, mostra que a fórma nlo data da origem da lingua: cfr. cravelha. — 
J. L. de V.]. 

3 No suífixo dos verbos inchoativos. 

* [Sc deu c antes de e, i, como nacer, e manteve -se antes de outras vogaes, 
como nasça. Depois nasça seguiu a analogia do infinitivo e mu dou -se em naça. 
Sobre este ponto, e sobre mexer e os outros casos em que sc deu x, vêr Cornu, ob. 
cit., §8 234 e 325. — J. L. de V.]. 

* [A. fórma no latim vulgar devia ter sido, nâo viriacrt, mas sim * vinuacre 
ou avinuagre, senão o n intervocalico tinha cahido; em * vi nu acre mante- 
ve-se protegido pela semi-vogal u, como emjanella, etc. \ cfr. o que eu disse supra, 
pag. 261, not. 1. — J. L. de V.]. 



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PHONETICA HISTÓRICA PÔRTtfdCESA 



279 



molhando o l; ex.: ovic(u)la, ôvêlha, auric(u)la, ôrêlha, gra- 
c(u)lo, gralho, spec(u)lo, espêlho, acuc(u)la, agulha, genuc(u)- 
lo, joelho, mac(u)la, malha, oc(u)lo, ôlho, apic(u)la, abelha, ver- 
náculo, vermelho, artic(u)lo, artêlho. 

Observação i. — Provavelmente por influencia da nasal o cl pas- 
sou para ch em mac(u)la=-, *manc(u)la 1 , mancha, *fun(i)c(u)lo, 
funcho, anníc(u)lo, annejo, pela similhança do som, j a ch *. 

Observação ii. — A transformação do cl latino em cr nestas pa- 
lavras mirac(u)lo, milagre, sacc(u)lo, segre, archaico e ecclesia, 
igreja, é sem duvida devida a influencia erudita, além de que o dis- 
tincto philologo, Sr. Gonçalves Vianna, suppõe influencia provençal ou 
francesa pela troca irregular do o final atono em e, em milagre e se- 
gre. Em periculo, perigoo, não se deu a formação do grupo cl; o l 
cahiu segundo a lei geral. (Vide adeante 3 ). 

3.° grupo, ct). — Neste grupo temos de distinguir dois casos: ou 
elle está precedido de vogal, ou de consoante. E assim no 

1. # caso; isto é: quando precedido de vogal, vocaliza-se o c; ex. : 
lacte, leite, pecto, peito, nocte, noite, doctore, doitor (pop. e 
arch.), doutor, acto, auto, facto, feito, factitio, feitiço, fructu, 
fruito (arch.), fruto, tecto, teuto (arch.), teto, luctu, loito (arch.), 
luto, activo, autivo (arch.), ativo. 

Observação. — Se o c está precedido de i, então a vogal em que 
elle se resolve combina-se com aquelle, como em dicto, que deu pri- 
meiro *diito e depois dito. Em mactare, matar, e contracto, con- 
trato, deu-se a assimilação do c ao t, passando este depois de dobrado 
a singelo. Colcha (de culc(i)ta) e trecho (de tracto) são de intro- 
ducção hespanhola, onde o ct se resolve em ch. 

2. ° caso; isto é: quando precedido de consoante, cáe o c, prova- 
velmente depois de se ter assimilado ao t, como é regular nas gemi- 
nações; ex. : sanct f o, santo, tincto, tinto, puncto, ponto, cincto, 

i Nesta palavra predominou a dissimilação. [Na Rev. Lus., n, 269, expli- 
quei mancha, etc. — J. L. de V.]. 

* [Como * annic'lu deu annelho, o suffixo -ejo deve ter outra origem : Diez, 
Gr. des l. rom., n, 300, vê nelle origem hespanhola. — J. L. dk V.]. 

s [As leis da transformação do cl medial podem resumir-se assim : 

1. a epocha da lingua): 

a ) intervocalico dá Ih : o r i c ' 1 a , orelha ; 

b) depois de consoante é tratado como se fosse inicial ; isto é : dá ch : 
-asc'lu, -acho (Rev. Lusit., n, 272); 

2. * epocha da lingua), dá: gr., ex. : ecclesia, eigrqa, igreja (mas neste 
exemplo temos ccl). 

Fórmas como periculum, macula, dérao perigoo, perigo, mágoa, pela 
quéda do / intervocalico, o que mostra que nâo sâo da origem da lingua (pois em 
lat. vulg. erâo periclu', macia, onde o l teria de experimentar outra transformação), 
mas ainda assim de uma epocha antiga, em que o l intervocalico se syncopava. 

Mácula, radícula, etc., em que -cul- se mantém, sâo moderníssimas. 

O lat. macula representa quasi todos os casos indicados acima: malha 
(mac'la), mancha («maneia, — Rev. Lus., n, 269), mágoa (macula),, e mácula 
(=macula). — J. L. de V]. 



280 



RBVISÍA LtíSlÍÁNl 



cinto, unctare, untar, penctie (=pectine ) por metathese), pente \ 
juncto, jt*wto. 

4.° grupo, cs). — Vide o X 

3} MEDIAL 

§ 79. C medial só se encontra em latim acompanhado d'ontro, 
passando, segando a regra geral, de geminado a simples, que fica su- 
jeito à lei do c medial-isolado ; ex.: bucca, boca, bacca, baga *, pec- 
cato, pecado, sicco, seco. 

U. — X 

§ 80. Contém esta consoante dois elementos: um palatal, c, e 
outro dental sibilante, *. Á sua passagem para português pôde enun- 
ciar-se pela seguinte: 

Lei. — O x degenera no português em s forte (que se escreve s 
ou x) e produz um i, que se combina com a vogal precedente; ex. : 
axe, eixo, taxo, teixo, saxo, seixo, sex, seis, fluxo, froixo, la- 
xare, leixar (arch.), deixar*, fraxino, freixo, mataxa, madeixa. 

Observação i. — O facto de o ditongo oi se pronunciar também d, 
deu origem à quéda do i em côxa (de coxa) e còxo (de coxo). 

Observação ii. — Nalguns casos o elemento c não se vocalizou, 
mas assitoilou-se ao s, como em dixi, disse, sexaginta, sessenta, 
a n cs ia 4 , ânsia (e nfto anciã 6 ). 

III — Q 

§ 81. Distingue-se o q latino do c em ser sempre seguido d'um 
elemento labial u, que tem o valor de semi-vogal. Este elemento, que 
se n&o faz ouvir na maioria das palavras portuguesas de formação 
popular, começou já no latim vulgar a deixar de ser pronunciado. 
Portanto só apparece isolado em latim. 

i [Como a fórma vulgar na Beira é pêntem, parece-mc que nâo houve a me- 
tathese indicada, mas se deu a seguinte evolução : pectine, *peitem, pritem (por 
comm uni cação da nasal ao ditongo antecedente), pentem, peide (por dissimilaçâo. 
— J. L. de V.]. 

s [Baga nâo vem de bacca, mas de baca; senão nâo teríamos g em portu- 
guês, mas c. — J. L. de V.]. 

* [Deixar mal pode ter vindo directamente de leixar; deve talvez admittir- 
se uma fórma intermédia deleixar, que tenho encontrado em doe. ant. ; pela auéda 
do l teriamos *deeixar, deixar. Todavia o hesp. dejar offerece alguma dimcul- 
dade. — J. L. dk V.]. 

* O povo diz ãinsa. 

5 [Sobre o modo de tratar o x vid. Cornu, § 233. — O lat. texere faria espe- 
rar em português texer ou tes*er (com wr); todavia a orthographia antiga e a mo- 
derna pronúncia de Tras-os-Montes, onae ainda se distingue s de ç (c), não dei- 
xâo duvida que a verdadeira fórma é tecer (com cj. A explicação, que oVeste phe- 
nomeno me occorreu, é que esse verbo havia recebido influencia dos verbos aca- 
bados em -ecer; mas tal explicação não esqueceu também ao sr. Cornu, loc. laud.. 
§ 233. — J. L. de V.]. 



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PHONBTlCA HISTÓRICA PORTUGUESA 



281 



1) INICIAL 

§ 82. Lri. — Q inicial permanece inalterado em português; ex.: 
qni, que, querere, querer, quindecim, quinze, quadragessima, 
quaresma, quattuor, quatro (por metathese), questione, questão, 
quê to (= quieto), quedo, quatuordecim, quatorze. 

Observação. — Quinque, quinquaginta, que por dissimilação 
se tinhão tornado cinque e cinquaginta no latim popular, dérão 
em português cinco e cincoenta. 

S) MEDIAL 

§ 83. Q medial é tratado como c medial- isolado antes de a, o, 
u; isto é: abranda em g; ex.: agua, agua, *sequ6re, seguir, aguila, 
águia, eguale (=aeguale), egual. 

Observação. — Em nunquam, nunca, não se deu o abrandamen- 
to. Cozinha, cozer e torcer, veem das formas populares cocere, Co- 
cina e torcere, em que se tinhão convertido as clássicas coquere, 
coquina, torquere. 

IV. — G 

§ 84. O g tinha em latim um som duro, fosse qual fosse a vo- 
gal que se lhe seguisse, pronunciando-se da mesma maneira tanto em 
gelo e gigante como em gutta; isto é: como o nosso em guita. As trans- 
formações da guttural branda g são muito análogas ás da forte, c. 

a) O ISOLADO 

1) INICIAL 

§ 85. A sua passagem para português depende da vogal imme- 
diata e obedece às duas leis seguintes : 

1* Lei. — O inicial antes de a, o, u conserva-se inalterado; ex.: 
gallico (scil. cane), galgo, gallina, gallinha, gubernare, governar, 
gurdo, gôrdo, gutta, góta, got(h)o, godo. 

2. m Lei. — G inicial antes de e, i passa em português para a spi- 
rante branda correspondente; isto è:j (que se escreve g); ex. : ge- 
mere, gemer, genuc(u)lo, geôlho (arch.), joelho, gente, gente, gin- 
giva, gengiva, gibbo, gebo, gigante, gigante. 

Observação i. — Em germano vocalizou-se, excepcionalmente 
neste caso, o g em i, que se fundiu com o e, dando irmão. 

2) MEDIAL 

§ 86. Lei. — O medial-isolado ; isto é: posto entre vogaes, resol- 
ve-se em i, que permanece, se as vogaes que o circundão são a, o,e;e 
se funde na seguinte, se ésta é e, i; ex. : a) plSga, praia, sago, saio, 
faga, faia l ; b) legere, ler, regina, reinha (arch.), rainha, navi- 

* [Sobre estes exemplos vid. Adolpho Coelho, Questões da Una. port.. i. 294: 
e Cornu, loc. laud., % 218.— J. L. de V.]. 



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REVISTA LUSITANA 



gio, navio, sigillo, sello, digito, dedo, frigido, frio, vigilare *, 
velar, corrigia, corrêia, fugio, fujo, exagio, ensaio. 

Observação i. — Em agosto (de *agusto), agoiro (de *agurio), 
nfto se vocalizou o g, ao passo que cahiu em ruga, rua. Nesta ulti- 
ma palavra a quéda do g deu-se para evitar a homonymia com ruga, 
conservando-se ao contrario pelo mesmo motivo em chaga, de plaga, 
que também deu praga. 

Observação ii. — Os números viginte, triginta, etc, tinhâo-se 
tornado jâ no latim vulgar em vinte, trinta, etc. *. 

S) FINAL 

§ 87. Lei. — G tornado final pela quéda da vogal immediata 
vocaliza-se em,;, que permanece; ex. : lege, lei, rege, rei, grege, 
grei 3 . 

b) O AGRUPADO 

§ 88. O g agrupado pôde estar em latim seguido de vogal ou 
de consoante. í)'esse facto resultão as seguintas leis : 

Lei. — G agrupado, seguido de vogal, obedece ás duas leis do g 
isolado-inicial ; ex. : a) angustia, angustia, *pargo (de pagro), par- 
go, aspar(a)go, espargo; b) cingere, cingir, virgine, virgem, magi- 
ne, margem, frangere, frangir, tangere, tanger. 

Observação. — Para evitar a homonymia com frangir e espargir, 
mudou o g para z (s brando) em franzir e esparzir, de frangere e spar- 
gere. Era renhir, de ringere, vocalizou-se o g por excepção neste caso, 
molhando o n, e na palavra tango, tanjo, deu-se influencia do infinitivo 
tanger. 

§ 89. G agrupado seguido de consoante é inicial ou medial- 
inicial. 

1) INICIAL 

§ 90. Lei. — Os únicos grupos latinos iniciaes são gr e gl, que 
passâo inalterados para português; ex.: grac(u)lo, gralho, gratia, 
graça, grande, grande, grege, grei, gloria, gloria, globo, globo. 

Observação. — O Z de gl, segundo a sua tendência, mudou-se ás ve- 
zes em r, como em glúten, grude, gloria, groria (arch.), gloria. O g 
cahiu por excepção em glande, lande e em leirâo 4 , derivado de 
glire b . 

2) MEDIA L-INICIAL 

§ 91. Lei. — G agrupado medial-inicial fórma os seguintes gru- 
pos: gr, gl, gn, gt, gd, gm. 

1 Esta palavra deu também vigiar pela quéda do l medial -isolado. 

2 [Sobre o modo de tratar o g lat. intervocalico em port, vid. Cornu, loc. 
laud., %% 216, 218, 219 e 220.— J. L. dk V.]. 

8 [Era melhor considerar este caso como de g intervocalico: lege, *leje, 
*ley, lei: cfr. o que escrevi á cerca do c, na not. 3 do § 75. — J. L. de Y.]. 
* O povo, ao menos no Algarve, diz láritio. 
5 [Ver Cornu, loc. laud., § 137 a) — J. L. de V.]. 



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1. ° grupo, gr). — O g (Teste grupo ou conserva-se intacto, ou re- 
solve-se em i; ex.: a) nigro, negro, agro, agro, aggravare, agra- 
var; b) integro, inteiro, flagrare, cheirar. 

2. ° grupo, gl e gn). — O g (Testes grupos resolve-se em i, que des- 
apparece, molhando o l e o n; ex. : a) teg(u)la, telha, reg(u)la, 
rêlha, ung(u)la, *unlha, unha, coag(u)lare, coalhar; b) pugno, 
punho, agno, anho, signa, senha, cognato, cunhado, ligno, lenho, 
tammagno, tamanho. 

Observação i. — Para evitar a homonymia com rêlha, trocou-se 

0 l em r em regra, reg(u)la, se é que és ta palavra não pertence á 
língua litteraria, como tecla, de teg(u)la 1 . 

Observação ii. — O g deixou de molhar o n, fundindo-se ou ajun- 
tando-se â vogal que antecede, em digno, dino (arch.), digno, beni- 
gno, benino (arch.), benigno, maligno, malino (arch. e pop.), insi- 
gnare, ensinar, regno, reino. 

3. ° grupo, gd, gt, gm). — 0 g cahe nestes grupos, conservando-se 
apenas na escrita em obediência à etymologia; ex.: amygdala, 
amêndoa, pigmenta, pimenta, smaragdo 2 , esmeralda, Magdalena, 
Madalena ou Magdalena 8 . 

Observação i. — A quéda do g nestes grupos dava-se jâ no latim 
clássico, que dizia jumentum, fiamma, examen, em logar de ju- 
gmentum, flagma e exagmen. 

Observação n. — O contacto com a vogal e fez resolver por ex- 
cepção o g em i na palavra flegma, freima (arch. hoje), fleuma 4 . 

c) I CONSOANTE 

§ 92. 1 consoante 5 era em latim uma semi-vogal que tanto no 
principio como no meio das palavras tinha o mesmo som que o nosso 

1 em maio, baio. 

Em português: 

a) / consoante inicial transformou-se em j; isto é: numa spirante 
branda (como o g antes de e, i); ex.: i acere, jazer, iudicio, juizo, 
ieiunare, jejuar, ioco, jogo, iungere, jungir, ientare, jantar, 
(H)iacintho, Jacintho, (H)ieronimo, Jeronymo. 

Observação. — Na palavra iacto, geito, trocou-se graphicaraente 

i [Regra é uma fórma semi-popular ; cfr. o que escrevi a pag. 279, nota 3, 
sobre o cl. — J. L. pb V.]. 

* [A fórma clássica é effeetivamente smaragduê; mas como ésta palavra, á 
semelhança da palavra grega correspondente, tanto era masculina, como feminina, 
no lat. vulgar da Hispânia a terminação feminina -a acompanhou a significação, e 
deve pois admittir-se «smaragda. — J. L. de V.]. 

3 A conservação do n intervocalico mostra que a palavra é de introducçao 
erudita. 

* [A* cêrca do grupo dg, gm, gn, vid. Cornu, 6b. cit , §§ 235-237 ; á cêrca de 
gl, vid. i 140; á cêrca de gr, vid. § 217.— J. L. de V.]. 

^ Escrevemo-la eob a fórma í, para fazer resaltar melhor a sua transforma- 
ção em j, além de que este signal j é moderno ; o latim nâo o conhecia. 



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REVISTA LUSITANA 



o t em g, pela similhança do som doesta consoante, antes de e, i, com 
o d'aquella. 

b) 1 consoante medial (que é a semi-vogal que tanta influencia 
exerceu nas línguas românicas e da qual nos temos já occupado) 
umas vezes une-se à vogal que a antecede, outras toma o mesmo 
som sibilante que quando inicial; a) maio, maio, raia, raia, maio- 
re, maior, deiectare, deitar; b) invidia, inveja, hodie, hoje, adiu- 
ctare, ajudar, ieiunar, jejuar, fugio, fujo. 

CAPITULO III 
Família das dentaeg 

§ 93. A família das dentaes comprehende em latim uma explo- 
siva forte t, outra branda d, e uma contínua forte s. 

A feição mais característica das consoantes d'esta família é a 
troca do t pelo d e a quéda d'este quando entre vogaes. 

Observação. — Esta família das dentaes enriqueceu-se, na sua 
passagem para português, com mais uma contínua sonora que escre- 
vemos z, e se chama também s brando, em opposiçâo ao 8 forte. 



L — T 

a) T ISOLADO 

1) INICIAL 

§ 94. Lei. — T inicial permanece inalterado em português; ex.: 
tabano, talão, tempus, tempo, tenea, tenha, tusse, tosse, touro, 
toiro, tépido, tibio, tela, teia, *torcere (—torquêre), torcer, ta- 
bula, taboa, tu, tu, testa, testa, tres, tres. 

2) medial 

§ 95. Lei. — T medial abranda em d no português; ex.: aceto, 
azedo, coturnice, codorniz, maturo, maduro, cubito, covedo, pop. 
covado, acuto, agudo, cogitare, cuidar, peccatore, pecador, ar- 
matura, armadura, toto, tôdo, *natica, nádega. 

Observação i. — As palavras que como abiete (abête no latim 
vulgar), dote, natura, natura (arch.), natureza, conservão inalterado 
o t medial-isolado, se n&o pertencem à língua erudita, soffrèrão in- 
fluencia litteraria, o que se deduz de capitulo, fatigar, quieto, natura, 
botica, etc, ao lado de cabido, fatigar (arch.), quedo, nado e bodega x . 



i [A forma natura, que se encontra na lingua antig a, é um latinismo. A 
fórma natureza provém de *naturaleza (cfr. o hesp.), de ^natural; todavia essa 
forma é semi-popular, e não da origem da lingua, senão o t teria abrandado: vê-se 
que na epocha em que o l intervocalico ainda se syucopava, já o t não abrandava. 
— J. L. de V.]. 



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PHONBTICA HÍSTOBICÁ PORTUGURSA 



Observação n. — Nas formas verbaes da segunda pessoa do plu- 
ral e também nalguns nomes como impetigine, impigem, *setti- 
mana (=septimana l ) cahiu o t neste caso, nâo porém d'ura modo 
subitaneo, mas por transição ; isto é : primeiro abrandou em d, segun- 
do a regra, como cuidades (cogitatis), mandades (mandatis), ama- 
des (amatis), segundo a regra geral (vid. adeante) conservando -se 
apenas naquelles verbos cujo thema é constituido por uma única sylla- 
ba, como em itis, ides, etc. *. 

Observação ni. — Ao lado da fórma nádega encontra-se a fórma 
nalga, proveniente d'aquella pela troca do d medial-isolado por l, que 
não é sem exemplo. (Vide adeante 8 ). 

b) T AGRUPADO 

1) INICIAL 

§ 96. T agrupado inicial só fórma verdadeiros grupos com r e 
l, os quaes s&o tratados da maneira seguinte: 

1. ° grupo, tr).— Este grupo passa inalterado para português; 
ex.: trabe, trave, tristitia, tristeza, trulla, trolha 4 , turre, torre, 
tres, tres. 

2. ° grupo, ti). — Este grupo passa para português sob a fórma 
ch; ex.: *t(o)lutare, choutar. 

Observação. — A razão d'esta transformação está em que no la- 
tim vulgar o t do grupo tl } quer inicial, quer medial-inicial, se tinha 
trocado por c, dizendo-se *c(o)lutare, *vec(u)lo, *sic(u)la, *ro- 
c(u)la em logar de *t(o)lutare, vet(u)lo, sit(u)la, rot(u)la, 
tendo depois o grupo cl, assim formado, seguido a mesma sorte do cl, 
já inicial, já medial-inicial. (Vide §§ 77 e 78). 

2) MEDIAL-INICIAL 

§ 97. Temos aqui de distinguir dois casos: ou o t está seguido 
de vogal ou de consoante. E assim : 

1 Egualmente em perdita, perda, vendita, venda. 

2 [Se o t cahis8e por ter abrandado em d, cuja quéda, quando som origi- 
nário, é normal, nâo devia haver em português palavras com d medial, pois em to- 
das elle teria cabido. O desapparecimento do t deve pois explicar-se de outra ma- 
neira em impigem e semana. Em ambas estas palavras houve certamente assimila- 
ção. Sept'mana, * setCmana, semana: nesta palavra a manutenção do n mostra 
que ella é semi -erudita (influencia ecclesiastica) ; a fórma genuinamente popular é 
doma, arcb. dómaa, de hebdomada. A palavra semana experimenta ainda na 
lingua vulgar uma simplificação maior: semana. — Impigem pôde provir de *inVpi- 
gem, por metathese de «impetiginem, ou de *ind } pigem, por metathese de *im- 
p'digem ; mais facilmente o t ou d se assimilavão &o p, do que vice-versa. 

Quanto aos verbos, é muito difficil de explicar a syncope do d das formas 
arcbaicas -ades t etc, na passagem para -aes, etc; e ainda não foi dada explicação 
satisfatória. — J. L. de V.]. 

3 [Propriamente houve syncope do e postonico, * nádega, e depois reducção 
do grupo dg a Ig, como em *jud'gare, de judicare. — J. L. de V.}. 

* [Trolha não pôde vir directamente de trulla, pois 11 darião l; vem porém 
de trullea (trulleum). — J. L. de V.]. 



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tóVISTA LUSITANA 



No 1.° caso; isto é: t agrupado medial-inicial, seguido de vogal, 
passa inalterado para português, excepto se a consoante que o pre- 
cede é n ou m, porque então abranda em d; ex.: a) virtute, virtude, 
masticare, mastigar, estimare, estimar, gusto, gôsto, musto, 
môsto; b) pon(i)te, ponde, ven(i)te, vinde, bón(i)tate, bondade, 
lim(i)te, linde (arch.), cora(i)te, conde, sem(i)ta, senda l . 

Observação. — Em esmar (estimare), mascar (masticare) e pança 
(pantice), cahiu o t por excepção * mas ésta ultima palavra talvez 
fosse introduzida do francês. 

No 2.° caso; isto é: t agrupado medial-inicial seguido de con- 
soante só fórma verdadeiros grupos com l ou r, os quaes são trata- 
dos da maneira seguinte: 

1. ° grupo, tl. — Este grupo acha-se representado em português 
por Ih; ex. : vet(u)lo, velho, sit(u)la, solha, rot(u)la, rolha. 

Observação. — A' cerca d'esta transformação do grupo tl em Ih, 
vide § 96, obs. Rol, de rot(u)lo, que se afasta d'esta regra, é sem 
duvida de introducção francesa, a não se querer explicar por meta- 
these do Z e quéda da syllaba tu. Em spat(u)lare, espaldar, deu-se 
a metathese do l 3 . 

2. ° grupo, tr). — Este grupo ou passa sem alteração para portu- 
guês ou abranda em dr, excepto se na palavra ha outro r, porque 
então reduz-se por dissimilação a t ou d; ex.: a) monstrare, mos- 
trar, ostrea, ostra, contribuere, contribuir, litt(e)ra, letra, ar- 
bítrio, alvitre lutra, lontra 6 ; b) latrone, ladrão, patre, padre, 
matre, madre, patrino, padrinho, putre, podre, petra, pedra, 
arbítrio, alvedrio 6 ; utre, odre, vitro, vidro, *atro (= átrio), 
adro, *citra (—citrea), cidra, vet(e)re, vedro, (no nome Alhos 

1 [Isto é : quando a vogal protonica ou postonica cáe, já o t intervocalico se 
tinha abrandado, como em linde, de *lim(i)de, de limite(m), bondade, de êbo- 
n(i)dade, de bonitate(m). Em solteiro, por ex., de solitarius, a syncope do i 
foi anterior á epocha do abrandamento. — J. L. de V.]. 

2 [E* que, como em solteiro, a Byncope do i precedeu a epocha do abranda- 
mento; por isso #aest(i)mare e mast(i)care: depois o t foi assimilado á con- 
soante seguinte. — J. L. db V.]. 

8 [Ha outras palavras análogas a espaldar e a rol, como roldana, til, etc. 
Talvez tenhâo origem no hespanhol, onde ha tilde (de titulus), rolde (de rotu- 
lus), eneldo (de #anethulum), e roldana (de «rotulana); cfr. ainda hesp. 
molde (de modulus). Se a palavra roldana fosse de origem popular antiga, de- 
via ter perdido o n. — Cfr. também Rev. Lusit., n, 268. — J. L. de V.]. 

* [Alvitre deve ter vindo do fr. arbitre, com dissimilação do primeiro r. — J. 
L. de V.]. 

5 [Com lontra cfr. o ital. lontra : Diez, Etym. Wõrt., i, s. v. Como se explica 
porém a nasal, e o ter- se conservado o tf O Sr. Cornu admitte a fórma # nontra, 
que explica o hesp. nutria ou nutra: ob. cit., § 151. — O n inicial pôde ter pro- 
vindo de dissimilação do l; depois nasalou a vogal seguinte. — J. L. de V.]. 

6 [Como arbítrium tem o accento na primeira syllaba, e o português alvedrio 
o tem na terceira, ésta fórma não se pôde explicar directamente por aquella. Tal- 
vez possamos admittir que alvedrio seja um substantivo verbal de *alvedriar, 
formado de * arbit riare, sobre arbitrium. Em port. antigo porém ha alvidrar, 
arbitrare. — Meyer, Gr. de* l. rom., i, 604, dá outra explicação. — J. L. de V.]. 



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PHONETICA HISTÓRICA PORTUGUESA 



287 



Vedros); c) rostro, rôsto, rastro, rasto, *matrastra, madrasta, 
*deretrario, derradeiro, t(a)ratro, trado, aratro, arado, fratre, 
frade. 

Observação i. — Nostro e vostro, comquanto nâo tivessem outro 
r além do da syllaba final, dérão também as fórmas * nosto e * vosto, 
nas quaes mais tarde foi o t assimilado ao s, ficando nosso e vosso J . 

Observação ii. — Mutre e patre dérão primeiro madre e pa- 
dre; estas fórmas depois, provavelmente por influencia da linguagem 
infantil, contrária aos grupos, reduzírfco-se a mare (que se encontra 
em português arch. Vide Èlucid.) e *pare, as quaes ainda se simplifi- 
carão em mãe e pae. A nasalisaçâo de mãe é proveniente da consoan- 
te nasal m * Perrexil, de petroselinum, e Pero, de Petro, sfto sem 
dúvida de introducçao francesa, língua em que é regular a troca do 
tr por rr (latrone, larron z ). 

3) MEDIAL 

§ 98. Lei. — T medial-agrupado assimila a si a consoante que 
o antecede, excepto o c que se vocalisa; ex. : a) septimana, setti- 
mana, semana, rupto, *rÔtto, roto, gutta, gota, catto, gato, sa- 
gitta, seta;b) factitio, feitiço, doctore, doitor (ant. 4 ). 

c) T FINAL 

§ 99. Lei. — T final latino, quer isolado, quer agrupado, càe 
em português; ex. : et, e, aut, ou, amat, ama, caput, cabo, debent, 
devem, amant, amão.. 

Observação i. — Esta quéda era quasi geral no latim vulgar já 

1 [Na sua Grammatik der Roman. Spr., n, § 92, junta Meyer-Lubke outras 
fórmas reduzidas dos pronomes possessivos, como hesp. ant. nueso, vueso, e de 
vários dialectos nos vos, nies viés (de noster vosterj. Estas fórmas podem explicar-se 
por causa da próclise, como elle diz, e eu já antes tinha explicado aos meus alu- 
mnos (a respeito do português). — J. L. de V.]. 

2 [Já na minha Evolução da linguagem, pag. 74, eu tinha explicado mãe, por 
influencia da linguagem infantil, mas havia admittido como forma intermédia 
*made, e não mare; a fórma mare considerei-a como divergente ou dialectal. O 
nasalamento do a pelo m inicial expliquei -o também na Revista Smentifica, do 
Porto, pag. 199. Tanto em gallego, como em mirandês, ha ainda a fórma, sem na- 
salamento, mai. Em gallego ha também a fórma nai, que creio que ainda não foi 
explicada ; explico a mudança do m em n, por dissimilação, na phrase-feita mina 
mai; isto é: m. . . m, m. . . n. Depois nai destacou- se como fórma independente. 
Ha outros factos análogos : assim o artigo o apresenta-se sem o l originário, por 
este ter cahido em ligações, taes como delo, alo, donde deo, ao; depois a fórma 
o destacou-se igualmente. — J. L. de V.]. 

3 Sobre perrexil, cfr. já Adolpho Coelho, Quest. da ling. port, i, 416. — A 
fórma Pero não se pôde explicar pelo francês. O d, de Pedro, cahiu provavelmen- 
te em próclise, para a palavra se abreviar, como é vulgar nos nomes próprios. 
Igualmente o nome de logar Perafita, de Petraficta (ficta = fixa, de figo; a fórma 
ficta é dada por Theil, Dicc. lat. fr., s. v. figo), perdeu o d, quanto a mim, pelo 
mesmo motivo; cfr. ainda Perosello, de Pedroso. — J. L. dk V.]. 

4 Vide mais exemplos no § 78. 



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REVISTA LUSITANA 



no século iv, como se deprehende de muitas inscripções d'essa epo- 
cha; quando não cahia, tinha um som fraco e quasi surdo. Houve an- 
tes mudança do t final em d. 

Observação ii. — No português archaico encontramos apenas a 
fórma est antes de vogal, que mais tarde foi substituída por i; ex. : 
thu est a terra melhor». (Cane. de Z>. Dinis). 

§ 100. O grupo ti medial; isto é: t seguido de e ou i em hiato, 
começou bem cedo a ser modificado no latim. Por influencia da semi- 
vogal, já no século v tinha o t tomado um som sibilante (gratia 
pronunciava-se gratsia ou gratsa). As modificações que soffre na sua 
passagem para o português, são: 

a) Se está precedido de vogal ou consoante (que não seja s ou 
x) e seguido de vogal, converte-se o t em s brando (que se escreve ç 
ou z), ao passo que cáe a semi-vogal; ex. : a) acutiare, aguçar, 
*avis strutio, abestruz, platea, praça, palatio, paço *cupidi- 
tia, cubiça, mollitia, molleza, tristitia, tristeza, duritia, dureza; 
b) captiare, caçar, *tractiare, traçar, linteolo, lençol, linteo, 
lenço, presentia, presença. 

Observação. — Aquellas palavras em que o t nestes casos ficou 
inalterado, como palácio, infância, pertencem á lingua litteraria ou 
soffrêrão influencia erudita, como mostrâo entre outras as palavras 
archaicas pacente e pendença, que hoje se dizem paciente e peni- 
tencia. 

b) Se está precedido das consoantes s ou x conserva-se inalte- 
rado; ex.: questione, questão, estivo, estio, cr(h)istiano, christão. 



§ 101. Lei. — D inicial passa inalterado para português; ex.: 
dom(i)na, dona, dom'nicella, donzella, dicere, dizer, duro, duro, 
dejectare, deitar. 

Observação. — Em dei p hino, golfinho, passou por excepção o d 
para g. Não haveria aqui influencia de falsa etymologia, golfo ou 
golfar ? 



§ 102. Lei. — D medial cáe em português; ex.: cru dele, cruel, 
credere, crer, sedere, ser, videre, ver, gradu, grau, tépido, ti- 
bio, judice, juiz, praedicare, pregar, hedera, hera, radice, raiz. 

Observação i. — Muitas palavras em que o d medial tinha cahido 
segundo a regra acima dada, soffrêrão depois influencia erudita, como 
parecem indicar, além d'outras, as archaicas loar, oyr, increo, que 
hoje se dizem louvar, ouvir, incrédulo. 

Observação ii. — O d trocou-se excepcionalmente pelas liquidas 



II. — D 



a) D ISOLADO 



1) INICIAL 



9) MEDIAL 



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PHONETICA histórica portuguesa 



289 



em judicare, julgar, Egídio, Gil, cicada, cigarra. (Vide § 107, 
obs. ii 

3) FINAL 

§ 103. Lei.— D final em poucas palavras apparece em latim, e 
nessas cáe em português; ex.: ad, a, quid, que. 

b) D AGRUPADO 

1) INICIAL 

§ 104. Lei. — D agrupado-inicial só fórma o grupo dr } que passa 
inalterado para português; ex.: dracone, dragão. 

2) MB DIAL INICIAL 

§ 105. Temos aqui de attender a duas circumstancias indispen- 
sáveis : ou o d está seguido de vogal ou de consoante. 

No 1.° caso, isto é, d agrupado-medial-inicial seguido de vogal 
passa inalterado para português; ex.: cardo, cardo, ordine, ordem, 
perdice, perdiz, vendere, vender, unde, onde, grande, grande, 
cal(i)do, caldo, soldato, soldado, perdi(t)a, perda, vendi(t)a, 
venda. 

Observação. — O d cahiu por excepção em vindicare, vingar, 
fundibulo, funil e ad-satis, assaz; nesta ultima palavra, porém, 
houve antes assimilação do d ao s do que quéda 

No 2.° caso, isto é, d agrupado-medial-inicial seguido de con- 
soante só fórma, como o agrupado-inicial, o grupo dr, que ou perma- 
nece intacto, ou se reduz a ir: a) quadro, quadro, quadrato, qua- 
drado, Adriano, Adrião, cedro, cedro, Edral (nome próprio de lo- 
gar derivado de hed(e)ra); b) cátedra, cadeira, quadraginta, 
quarenta, quadragésima, quaresma, *quadrella, courella*. 

c) D SEGUIDO DA SEMI- VOGAL i 

§ 106. Lei. — D seguido da semi-vogal i, e precedido, quer de 
consoante, quer de vogal, càe, e a semi-vogal ou se combina com a 
vogal antecedente, ou toma o seu costumado som sibillante (na gra- 

1 [Com Gil cfr. o fr. GiUes. A fórma julgar já a expliquei supra, pag. 285, 
nota 3. Quanto a cigarra, ésta fórma é um pouco difficil de explicar: cfr. Cornu, 
ob. cit., § 202. Nâo se poderia admittir o sufcxo -arra em cicada («cicadarra, 
çcigaarra, cigarra)? — J. L. dk V.]. 

» [Em vindicare nâo houve quéda do d, mas assimilação, depois da syn- 
cope do i protonico * vindfijgar (cfr. supra, pag. 285, nota 3). Funil nâo veio de 
fundibuhim, mas sim de * infundi le: Cornu, § 205 (houve assimilação de d a n, 
como em pop. inàgora = inda agora, etc). Assaz nâo vem de ad satis, mas de a d 
eati em, como mostrei na Rev. Lusit, n, 267 (o d foi assimilado ao »). — J. L. 
w V.]. 

3 Por metathese «quadrella, donde courdla. [Devia antes ter sido *co- 
drella (cfr. ant. cotritn, pop. corenta, pop. coresma, etc), e depois coirtUa — cou- 
rdla, pela mudança de dr em ir, e correspondência de oi a ou. — J. L. de V.]. 

REV. LUB1T., VOl. IH, fa8C. 4. 1 



290 



REVISTA LUSITANA 



phia i ou g); ex: a) badio, baio, modio, moio, fastídio, fastio, per- 
fídia, perfia (arch.), perfídia, radio, raio, médio, meio, pódio, apoio; 
b) video, vejo, * dissídio, desejo, hodie, hoje, invidia, inveja, se- 
dea, seja. 

Observação i. — Se o grupo dj está precedido de n, ent&o cáe a 
semi-vogal, molhando o n; ex.: ver(e)cundia, vergonha, Borgun- 
dia, Borgonha. 

Observação ii. — Em audio, ouço, ardeo, arço (arch.), ardo, 
gáudio, ffôso, deu-se primeiro a troca do d em t, e depois o grupo as- 
sim formado tj, seguiu a regra geral. (Vide § 100 a). 

ni.-s 

a) S ISOLADO 

1) INICIAL 

§ 107. Lki. — S inicial passa inalterado para português^ ex.: 
salute, saúde, sano, são, serpente, setpente, solo, só, servitio, 
serviço, silva, selva, sapone, sabão. 

2) MEDIAL 

§ 108. Lei. — S medial, já originário, já por quéda de consoan- 
te, passa em português de spirante forte a branda; isto é: z; ex.: 
causa, coisa, rosa, rosa, casu, caso, fuso, fuso, t(h)esauro, te- 
soiro, pausare, poisar, spo(n)so, esposo, me(n)sura, mesura (arch.), 
co(n)8uere, coser, pe(n)sare, pesar. 

3) FINAL 

§ 109. Lei. — S final conserva-se em português; ex.: coro(n)as, 
coroas, do(l)ores, dores, dom(i)nos, donos, naris, naris, deus, 
deus, debes, deves, amatis, amaes, vestitis, vestis 1 . 

b) S AGRUPADO 
1) inicial 

§ 110. Lei.-— S inicial toma em português um e prothesico; 
ex. : *scalata, escada, scribere, escrever, spata, espada, scuto, 
escudo, Stella, estrella, spica, espiga. 

Observação i. — Esta prothese do e (i na origem) que se dá no 

i [Sobre a manutenção do s final em português vide Adolpho Coelho, Ques- 
tões da ling. port , i, 346 seg. — A forma naris não pertence aos casos estudados 
pelo Sr. Nunes, pois que a boa orthographia é nariz, com z. Esta palavra não pode vir 
do lat. naris, cujo aecusativo daria em português nar. Em hesp ha nariz, também 
com 2. Deve pois ter havido no lat. vulg. da Hispânia a forma «narlx *narl- 
cem (cfr. Diez, Gr. des l. rom., i, 47). E* só esta forma que pode explicar os deri- 
vados narigão (* nariconem) , narigudo (# nari cutus), etc. : cfr. perdigão, per- 
digoto. — A Demanda do St. Graal, pag. 6, tem narcçes (por ventas).— J. L. dk V.]. 



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ÍH0NETI0A HISTÓRICA PORTUGUESA 



291 



português como nas demais línguas românicas, provém já do latim 
vulgar, o que se deduz de grande numero de inscripções i e manuscri- 
ptos latinos. (Vide Schuchardt, Vokalismus, n, 338 foi.). 

Observação h. — Spasmo, que se tornou pasmo no latim vulgar, 
deu a fórma portuguesa pasmo 1 . 

S) MEDIAL-IN1CIAL B MEDIAL 

§111. Lki. — S medial-inicial e simplesmente medial passa inal- 
terado para português; ex. : a) a verso, avesso, urso, usso (arch.), 
urso, pérsico, pêssego, persona, pessôa, insulso, insôsso, bursa, 
bôlsa; b) visco, visco, musca, mosca r masticare, mastigar, musto, 
môsto, mi(n)isterio, mister, vespa, vespa, mo(n)stare, mostrar, 
repos(i)ta, resposta ou melhor reposta (pop.), as(i)no, asno. 

Observação i. — Em *insulfure, enxofre, insapido, enxabido, 
insertare, enxertar, e em geral nas geminações, vessica, bexiga, 
passione, paixão, grassa, graxa, basso, báxo (pop.), baixo, conser- 
vou se o s forte, mas sob a fórma x. 

Observação n. — Nalgumas palavras s medial agrupado nfto ini- 
cial assimilou a si a consoante seguinte, continuando a ter o seu som 
forte, como em nos tr o, *nosto, nosso, vostro, *vosto, vosso, musto, 
mosso, moço (f) 2 . Este mesmo phenomeno dava-se jâ no latim clás- 
sico, onde encontramos caesus por *caestus } de *caedtus, mis sus 
por *misbis } de *mittus. 

c) S SEGUIDO DA SEMI- VOGAL i 

§ 112. Lei. — S seguido da semi- vogal i transpõe-se para além 
d'esta, que se une á vogal antecedente e toma um som brando, isto é, 
j; ex: basio, beijo, caseo, queijo, *phaseolano, feijão, ecclesia, 
egréja, cervisia, cervêja, laesione, aleijão. 

Observação. — O a d'esta ultima palavra aleijão foi provavel- 
mente o artigo que precedia a antiga fórma leijão e depois se lhe 
ajuntou; a lingua litteraria diz lesão. 

IV. — Z 8 

§ 113. O z latino, que era um signal tirado do grego e soava 
ds, em poucas palavras portuguesas de formaç&o popular se encontra, 
e nessas, se era inicial passou para c, se medial deu z ; ex. : a) ze- 
loso, ciôso, zelo, cio; b) baptizare, boutisar (arch.), baptizar, la- 
zaro, lazaro. 

i Pela similhança de som também cahiu o * original em centelha, de scin- 
tilla [aliás, de * sciuti llea. — J. L. dk V.]. 

s [Moço não se pode explicar effecti vãmente por mustus; deve explicar-se, 
como creio que também já me lembrou o Sr. Epiphanio Dias, por mus teus. — J. 
L. db V.]. 

3 Não confundir este z com o proveniente de * entre vogaes. 



292 



REVISTA LUSITANA 



Observação. — Zeloso, zelo, zona (de zeloso, zelo, zona), pertencem 
à língua litteraria. 

CAPITULO IV 
Família das labiaes 

§ 114. A família das labiaes comprehende em latim .doas ex- 
plosivas, uma forte p, outra branda b, e duas contínuas, f forte e v 
branda. 

A característica d'esta família é a troca do p pelo b, e d'esta por 
v quando eutre vogaes ou precedidas de vogal e seguidas da liquida r. 

L — P 

a) P ISOLADO 

1) INICIAL 

§ 115. Lm. — P inicial passa inalterado para português; ex. : 
pacare, pagar, patre, padre, pecto, peito, pisce, peixe, *pul(i)ca, 
pulga, postiço, postigo. 

Observação. — Pústula e *pantuc(u)lo, que dér&o em portu- 
guês bostella e bandulho, tinhfio-se provavelmente tornado *bustella 
e *banduc(u)lo já no latim vulgar, pois que o próprio latim clás- 
sico nos offerece as formas burrus de pyrros e bibere, da raiz san- 
scrita p, a que deu potare, potare. (Vide obs. ao § seguinte). 

2) medial 

§ 116. Lei. — P medial abranda em português na explosiva 
branda correspondente, b; ex: * riparia, ribeira, cupa, cuba, capis- 
tro, cabresto 1 , pipita, pevide, *capitia, cabeça, sapere, saber, ca- 
put, cabo, cupiditia, cubiça, caepulla, cebôlla, capillo, cabello. 

Observação. — Nalgumas palavras, como populo, scopa, o p 
medial, depois de ter abrandado em b, passou para v, dando povo, 
pobo (arch.) e escova. 

b) P AGRUPADO 

1) INICIAL 

§ 117. P agrupado inicial só forma em latim verdadeiros gru- 
pos com l ou r, os quaes sâo tratados da seguinte maneira : 

1.° grupo, pi). — Este grupo passa para português sob a fórraa 
ch; ex. : plorare, chorar, plus, dius, plaga, chaga, plancto, chanto, 
(arch.), pranto, plantare, chantar (arch.), plantar, plato, chato, 
plumbo, chumbo. *, 

Observação. — A existência da forma pr ao lado de ch explica-se 
por influencia litteraria e cuidado em evitar os homonymos, como se 

i Por metathese. 



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ÍHONETICA HISTÓRICA PORf UUDESA 



293 



deprehende do archaico chanto convertido era pranto, e chato, chegar, 
com prato e pregar. Lhano é palavra hespanhola, em cuja língua o 
pl latino deu //. 

2.° grupo, pr). — Este grupo passa inalterado para português; 
ex.: praeda, prêa, prora, prôa \ precepto, preceito, pretio, pr*£o, 
pre(n)so, preso, praecone, pregão. 

Obskkvação. — Em *pruneo, brunho abrandou o p em b por 
excepção neste caso. 

2) MEDIA L-INICI AL 

§ 118. P medial inicial fórma em latim os grupos pl, pr, pt, pd, 
ps, cuja historia é a seguinte: 

1. ° grupo, pl). — Neste grupo temos de distinguir dois casos: 
ou está precedido de vogal ou de consoante. E assim : 

No 1.° caso; isto é: pl precedido de vogal deu em português Ih; 
ex.: scop(u)lo, escolho, *manup(u)lo, manôlho. 

No 2.° caso; isto é: pl precedido de consoante passou para por- 
tuguês sob a fórma ch, como pl inicial; ex.: implere, encher, amplo, 
ancho. 

Observação. — A existência da fórma pr neste caso provém de 
influencia litteraria. (Compare-se encher e emprir). 

2. ° grupo, pr). — Este grupo, se está precedido de consoante, 
passa inalterado para português, se de vogal, abranda em br; ex. : a) 
comp(a)rare, comprar, approbare, approvar, *dispretiare, des- 
prezar; b) cupro, cubro, paup(e)re, pobre, aprile, abril, lep(o)- 
re, lebre, capra, cabra, sup(e)rare, sobrar, op(e)ra, óbra. 

3. ° grupo, pl, pd). — Estes grupos perdem o p na sua passagem 
para português; ex.: rupto, ruto, nepta, neta, comp(u)tare, contar, 
comp(u)to, conto, septem, sete, prompto, pronto *. 

Observação. — Era português archaico ha a fórma boutizar e 
cautivo; na lingua moderna ha receita e conceito. 

4. ° grupo, ps). — Neste grupo o p assimila-se ao s; ex. : gypso, 
gêsso, ipse, ésse. 

§ 119. Fóra d'estes casos p medial-inicial conserva-se em por- 
tuguês; ex.: comparescere, comparecer, corapassione, compaixão, 
pulpa, polpa, turpe, torpe, ampulla, empôlla. 

3) MEDIAL 

§ 120. Lei. — P agrupado medial só se encontra geminado, e, 
segundo a regra, reduz-se a simples, como stuppa, estopa. 

c) P SEGUIDO DA SEMI-VOGAL i 
§ 121. Lei. — P seguido da semi- vogal i transpõe-se para diante 



1 Por dissimilaçâo. 

* Prompto em obediência á etjmologia. 



294 



èEVISTA LÒSITàKA 



d'esta, que se une à vog*l antecedente e abranda em b; ex.: sapia, 
saiba, 'sapio, saibo (populai), sábio, capio, caibo. 

Observação. — O p permaneceu inalterado era a pio, aipo. Era 
pipiare, piar cahiu por dissimilação a syllaba pi. 



§ 122. Lei. — B inicial passa inalterado para português: badio, 
baio, bestia, besta, bibere, beber, bove, boi, batt(u)ere, bater, 
buccina, bozina. 



§ 123. Lei. — B medial permuta com a spirante branda corres- 
pondente, v; ex. : trabe, trave, caballo, cavallo, hyberno, inverno, 
faba, fava, mirabilia, maravilha, taberna, taverna, abante, avante, 
adprobare, approvar. 

Ob8ehyaçào i. — A conservação do b medial em muitas palavras 
da camada popular da lingua, como bibere, beber, sabuco, sabugo, é 
devida, além da influencia erudita, & confusão que se produzia entre 
o b e o v, dizendo-se ao mesmo tempo taberna e taverna, )abâo e ta- 
vão, de taberna e tabano. 

Observação ii. — Depois de se ter mudado em v, cahiu o b nestas 
palavras: * debuto, deudo (arch.), devido, marrubio, marroio, ibi, 
hy (arch.), ahi (a prothesico), e nos imperfeitos do indicativo dos ver- 
bos da 2. a e 4* conjugações latinas debebam, vestiebam; a quéda, 
porém, nestas fórmas verbaes remonta já ao latim vulgar, que dizia 
*devea, * vestia. A quéda do b em prebenda, prenda, foi sem dú- 
vida motivada pela nasalização do e K Cânhamo, mor mo, piorno, arch. 
chumbo, e amos, arch. ambos (de cannabo, morbo, plumbo), são 
de introducção hespanhola, onde esse processo é regular (ex. : plum- 
bo, piorno, lambere, lamer, etc). A' cerca da quéda do v medial iso- 
lado, veja-se § 128. 



§ 124. B agrupado inicial só fórma os grupos bl, br. 

1. ° grupo, bl).— Neste grupo o l permuta cora o r; ex.: blando, 
brando. 

2. ° grupo, br). — Este gTupo passa sem alteração para português; 
ex.: bruto, bruto, brac(h)io, braço, braças, bragas. 



1 [Cornu, oô. cit., §§ 7 e 106, explica prenda de outro modo. — J. L. de V.]. 



II. — B 



o) B ISOLADO 



1) INICIAL 



S) MEDIAL 



b) B AGRUPADO 



1) INICIAL 



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PHONETICA HÍSTORICÀ PORTUlítíESA 



295 



2) M Í5 DIA f ..-INICIAL 

§ 125. B medial-inicial pôde em latim: ou estar precedido de 
consoante e seguido de vogal ; ou ter antes d'elle uma vogal e depois 
uma consoante. E assim : 

No 1.° caso; isto é: b medial-inicial, precedido de consoante e 
seguido de vogal, passa inalterado para português, excepto se a con- 
soante que o precede é alguma das liquidas / ou r, porque então 
abranda em v; ex. : a) abbate, abbade, palumbo, pombo; b) herba, 
erva, carbone, carvão, sorbere, sorver, alba, alva, arbítrio, al- 
vedrio. 

No 2.° caso; isto é: b medial-inicial, precedido de vogal e se- 
guido de consoante, forma os grupos bl, br, bs, que sfto tratados da 
maneira seguinte: 

1. ° grupo, bl). — Neste grupo o l permuta com o r, como no ini- 
cial; ex. : nob(i)le, nobre, sab(u)lo, saibro. 

Observação i. — Por influencia da liquida, o bl de parab(u)la 
trocou-se por vr, palavra. 

Observação h. — Em rab(u)lare, trib(u)lare e *fab(u)lare, 
que dérâo em português ralhar, trilhar e fallar, o b assimilou-se 
ao l V- 

2. ° grupo, br). — Este grupo passa para português ou inalterado 
ou sob a fórma vr; ex. : a) colubra, cobra, febre, febre, insalubre, 
salobro; b) lab(o)rare, lavrar, lib(e)rare, livrar, libro, livro, te- 
nebras, trevas. 

Observação. — Em cribro, crivo, cahiu o r por dissimilação. 

3. ° grupo, bs). — O í câe neste grupo, provavelmente depois de 
se ter assimilado ao s; ex. : obscuro, escuro, absco(n)so, escuso, 
abscondere, asconder (arch.), esconder, observare, osservar (pop.), 
observar, substantia, sustãinça (pop.), substancia. 

Observação. — As fórmas ausência, austinado, pop., e austinente, 
arch. (deabsentia, obstinado, e abstinente), explicâo-se, a nosso 
ver, pelo abrandamento do b em u semi-vogal. 

c) B SEGUIDO DE SEMI-VOGA.L i 

§ 126. Lei. — B seguido da semi-vogal i; isto é: de e ou i em 
hiato, ou cáe, consonantizando-se á semi-vogal, ou passa para além 
d'esta, que se une á vogal antecedente, e é depois tratado como b 
medial-isolado ; isto é: abranda em v; ex. : a) habea, haja; b) rubeo, 
ruivo, rabia, raiva. 



i [Ralhar parece ter a mesma origem que o fr. railler.— Trilhar suppoe, ao 
que parece, *tribuleare, onde le vog. dava normalmente Ih. A' cerca de fal- 
lar, cfr. o meu opúsculo O gralho depennado, 3.* ed., pag. 47 e seg.— J. L. de V.]. 



296 



kÉVlSÍÀ LtíSíTANÁ 



* III. — V 

a) V ISOLADO 

1) INICIAL 

§ 127. Lei. — V inicial permanece em portaguês; ex.: valere, 
valer, veritate, verdade, vino, vinho, voce, voz, vena, veia, vida- 
va, viuva, vinea, vinha, volare, voar. 

Observação i. — Ha alguns exemplos de v inicial mudado em b, 
mas é de crêr que jà nos viessem assim do latim onde esse pheno- 
meno era frequente, como vagina, bainha, vessica, bexiga, vultu- 
re, abutre, voto, bodo, vorsare, bolsar (o leite). 

Observação ii. — À maneira como os germanos pronunciavâo 
seu u> inicial; isto é: gu (werra, guerra, wardan, guardar, wisa, 
guisa, warjan, guarir) influiu na troca do v latino inicial por g nes- 
tas palavras: vorace, goraz, vomitare, gomitar, pop., vulpec(u)- 
la, golptUia, arcliaico K 

S) MEDIAL 

§ 128. V medial pôde em português: 

1. ° Conservar-se inalterado; ex. : avena, aveia, levare, levar, 
gingiva, gingiva, nave, nau, novo, novo, pavone, pavão, pavore, 
pavor, no vem, nove. 

2. ° Cahir; ex.: civitate, cidade, aestivo, estio, rivo, rio, bove, 
boi, vacivo, vazio, e nas fórmas do pretérito da primeira e quarta 
conjugações, amavi, amei, vestivi, vesti *. 

Observação. — Á quéda do v explica-se nas fórmas em que se 
lhe seguia u, como em vacivu(m), aestivu(m), rivu(m) pela maneira 
como elle se escrevia, quando medial isolado ; isto é : u, ficando assim 
duas lettras iguaes vaciuu(m), aestiuu(m) s . 

b) V AGRUPADO 

MEDIAL-INICIAL 

§ 129. Lei. — V agrupado só se encontra em latim no meio de 
palavras constituindo a primeira lettra de syllaba, e passa inalterado 

i Usado neste provérbio : o lôbo e a golpélha — fizeram uma conselha. 

* [Em cidade, de * civ'dade, o v não estava entre vogaes. — A terminação e 
suffizo -ivus, -iva, dão -io, -ia, excepto em vivo (Corifu, loc. cit., § 190) ; ésta ex- 
cepção pôde explicar- se por influencia de viver. — A forma boi mal se pdde expli- 
car por bove(m), desde o momento que temos nove, de nove(m), nas mesmas 
condições; no lat. vulg. devia haver boe(m) (cfr. Meyer, Gr. de» l. rom., i, J 279), 
que explica o ital. btie. As fórmas do lat. litterario boarius, boatim e boatus juetifi- 
cào a forma boe(m). — A sjncope do v no pretérito já provém também do lat. 
vulg.; no próprio latim litterario se encontra amarunt, amaram, audissem, 
etc. — J. L. de V.]. 

* [A escrita nâo podia influir na pronúncia neste caso. Seria melhor dizer : 
como o som do u intervocalico ou v se approximava do do u seguinte, estes dois sons 
fundírâo-se num: -iuus, -ius. — J. L. dk V.]. 



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FHONKTICA HISTÓRICA PORTUGUESA 



297 



para português; ex.: calvo, calvo, corvo, corvo, cervisia, cerveja, 
malva, malva, silva, selva. 

Observação. — Em pulvere, pó, cahiu toda a parte metatonica, 
conservando-se porém em pólvora, que se nos afigura pertencer k lín- 
gua litteraria K 

cj V SEGUIDO DA SEMI-VOGAL i 

§ 130. Lki. — V seguido da semi-vogal i; isto é: de e ou i, for- 
mando hiato, cáe em português, e a semi-vogal ou se consonantiza 
ou se une à vogal antecedente; ex.: a) le viário, ligeiro, fovea, fôjo; 
b) caveolla, gaiolla. 

d) EPENTHESE DO V 

§ 131. Nalgumas palavras introduziu o português um v não 
original; ex.: pluere, cfiover, caule, couve, claudere, chouvir (arch.), 
audire, ouvir, gaudere, gouvir (arch.), laudare, louvar *. 

IV. — F (PH) 

a) F ISOLADO 
i; INICIAL 

§ 132. Lei. — F inicial passa inalterado para português; ex.: 
faba, fava, fide, fé, filia, filha, femina, fêmea, folia, fôlha, pha- 
seolano, feijão, phasiano, faisão. 

Observação. — O f inicial acha-se representado por h em *foe- 
ti bundo, hediondo, mas ésta palavra foi introduzida do hespanhol, 
onde este processo é regular (f acere = hacer); o ph inicial está, re- 
presentado porèeraphantasma, abantesma, pop. 

2) MEDIAL 

§ 133. Lei. — F medial permanece em português como o inicial; 
ex.: professione, profissão, propheta, profeta, golpho, golfo. 

Observação i. — Nalgumas palavras f medial trocou-se por v, como 
em *acifolio (= aquifolio), azevo (em azevinho), Christo^hano, 
Çhristovão, Stephano, Estevão 8 . 



i [A fórma pó tem de se explicar por *pulvu(m), *puluu, *pulu (cfr. 
*iuus, -ius), *polo, poo, pó (cfr. hesp. polvo). A fórma pólvora nâo,me parece 
de origem litteraria. — J. L. dk V.]. 

> [Como se vê, a cpentheee, ou antes desenvolvimento, de v só se dá entre u 
e vogal ; esse v resulta da consonantizaçào de uma semi-vogal, que representarei 
por w, tendo nós assim: caule, *caue, * coue, couwe, couve; e o mesmo para os 
outros casos. — J. L. dk V.]. 

* [Cfr. também Cornu, § 185. A mudança do / íntervocalico em v é que deve 
ser o phenomeno primitivo e próprio da língua. A conservação do / em profeta, 
profissão, etc, é de origem litteraria. — J. L. de V.]. 



298 



REVISTA LUSITANA 



Observação ii. — Ph tinha-se reduzido a p ou f em latim vulgar, 
como se vê em colapho e tropheo, que elle dizia *colpo e trofeo 
(golpe e trofeu). 

b) F AGRUPADO 

INICIAL- UB DIAL 

§ 134. F agrupado, quer inicial, quer medial, só fórma em la- 
tim os grupos fl e fr, que fôrâo tratados da maneira seguinte : 

1. ° grupo, fl).— Este grupo passa para português sob a fórma ch ; 
ex.: a) inicial: flamma, chamma, *flagrare l , cheirar; b) medial: 
inflare, inchar, afilar (arch.), achar. 

Observação. — Por influencia erudita a fórma fl foi substituída 
por fr 9 como também succedeu ao grupo pl, que, como vimos, se en- 
contra em português sob dois aspectos, ch e pr. Ex. : inicial: fia gel lo, 
fragello (pop.), flagello, flocco, froco, flor, fror (arch.), flôr, flacco, 
fraco. 

2. ° grupo, fr). — Este grupo passa inalterado para português; ex.: 
inicial: fratre, frade, freno, freio, fricare, es-fregar, fronte, fron- 
te; medial: suff(e)ro, sôfro, sulf(u)re, en-zéfre. 

Observação. — No termo archaico abrigo, de africo, deu-se a 
troca do f por b. 

c) F SEGUIDO DA SEMI-VOGAL i 

§ 135. Lei. — F seguido da semi- vogal i; isto é: e ou i em hia- 
to, transpõe-se para além da semi-vogal, que se une à que a precede; 
ex.: cofea, coifa. 

CAPITULO V 
Liquidas e na&aes 

§ 136. As liquidas são r, l, pertencentes ambas à família das 
dentaes ; as nasaes s&o m, nasal labial, e n, nasal dental. 

As alterações mais sensíveis que estas consoantes soffrêrão fô- 
râo, além da troca entre si, a quéda do l e do n, quando entre vogaes, 
e a intercalação, para facilidade da pronúncia, da consoante labial b 
nos grupos mV, m% 

I.-R 

a) R ISOLADO 

1) INICIAL-MBDIAL 

§ 137. Lei. — -ff, quer inicial, quer medial, quer final, passa 
sem alteração para português; ex.: a) inicial: ratione, razão ou ra- 
ção, recipere, receber, rege, rei, radice, raiz, rota, roda, rivo, 
rio, radio, raio; b) medial: aeramen, arame, corona, coroa, dolo- 
re, door (arch.), dôr, arena, areia. 

x Pela troca do r originário em l. 



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ítíONKTICA tílSTOWCA PORTUGUESA 



299 



Observação l — Em coriandro, coendro, prora, proa, como 
noutras palavras em que se encontrava agrupado, cahiu um r por dis- 
similaç&o. 

Observação n. — R medial-isolado tinha já em latim vulgar ten- 
dência para permutar com a outra liquida /. Por isso é que peregri- 
no, paravereâo, tornados *pelegrino e *palafredo, dérfto em portu- 
guês pelingrino (pop.) e palafrem *. 

S) FINAL 

§ 138. Lei. — R tornado final pela quéda de vogal permanece 
também inalterado em português; ex.: amore, amor, debere, dever, 
favore, favor, pavore, pavor. 

Observação. — Em papiro, papel, ver(e)dario, vergel, deu-se 
igualmente a jà conhecida troca do l por r *. 

b) R AGRUPADO 

MEDIAL 

§ 139. R agrupado só se encontra em latim como medial; isto 
é: junta a outra consoante, sem constituir a primeira lettra da syl- 
laba, e neste caso fórma os grupos cr, ar, tr, dr, pr, br, fr, de que 
tratamos nos respectivos logares, e mais o grupo rs. Neste grupo 
o r assimila-se ao s; ex.: a verso, avesso, persona, pessôa, pérsico, 
pêssego, urso, usso (arch.), urso, traverso, travesso. 

Observação l — Esta assimilação remonta jâ ao latim vulgar, 
que dizia avesso, pessona, pessico, usso, etc. Em *bursa, por 
excepção neste caso, trocou-se o r por l, ficando bôlsa. 

Observação ií. — Fóra d'aquelle8 grupos, na maioria dos quaes 
permanece, o r agrupado-medial passa inalterado para português 8 ; ex. : 
vermic(u)lo, vermêlho, terra, terra, currere, correr, ferrugine, 
ferrugem, furca, fôrca, carne, carne, gurdo, gordo, turno, torno. 

c) R SEGUIDO DA SEMI- VOGAL i 

§ 140. Lei. — R seguido da semi- vogal i; isto é: de l ou i em 
hiato, transpõe-se para além da semi-vogal que se une à que a pre- 
cede; ex.: *morio, moiro (arch.), morro, corio, cairo, area, eira, 
monasterio, mosteiro, salário, salairo, matéria, madeira, e todos 
os nomes terminados em -ario. 



i [Sobre palafrem vide Diez, Et. Wort, i, s. v. palafreno. E' provável mie a 
palavra portuguesa provenha im mediatamente do hesp. palafren. — J. L. d* V.]. 

* [Estas duas formas sfto difficeis de explicar. Papel é fórma recente, se nâo 
o p intervocalico teria dado b. Cfr. Meyer, i, § 17, pag. 35. Vergel não pôde vir di- 
rectamente de * vendaria, nem de viridiarium ; nâo será apenas o fr. verger (com 
dissimilacâo do r final) ? — J. L. de V.]. 

* Se o grupo seguinte o nâo repelle para facilidade de pronunciaçao como 
em êarcfujlo, sacho. 



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300 



REVISTA lusitana 



METATHESE E EPENTHESE DO R 



§ 141. O r é uma consoante muito móbil, e como tal transpõe- 
se com frequência, attrahida principalmente por outra consoante; ex.: 
tenebras, trevas, ferrestra, fresta, capistro, cabresto, crepare, 
quebrar, instrumento, estormento (arch.), instrumento, pagro, pargo, 
mer(u)lo, melro. 

§ 142. Em algumas palavras portuguesas foi intercalado um r 
de origem nâo latina; ex.: Stella, estrilla, tonare, troar \ 



§ 143. Lki. — L inicial permanece inalterado em português; 
ex. : lab(o)rare, lavrar, lacte, leite, lectione, lição, "lacusta, la- 
gosta, lucere, luzir, legere, ler, lúmen, lume. 

Obskhvaçào. — L inicial mudou-se em r por dissimilaçâo em * lus- 
cinolo, rouxinol, e cahiu na palavra pérsica lazvard, que deu azul, 
por ser considerado falsamente como artigo. Em nivel (que também 
se diz livel), de libello, trocou-se o l inicial por excepção em n *. 



§ 144. Lki. — L medial cáe em português: angelo, angeo, 
anjo, aquila, águia, calumnia (arch.), calumnia, caelo, céo, maio, 
mau, molere, moer, palatio, paaço (arch.), paço, palumbo, pombo, 
dolore, door (arch.), dôr, volare, voar, avolo, avó, populo, poboo 
(arch.), povo, alúmen, ahume (arch.), paio, pau. 

Observação i. — Esta quéda do / intervocalico, que constitue uma 
das feições mais características da lingua portuguesa, talvez se possa 
explicar pela vocalização do l e absorpç&o da vogal d'ahi resultante 
por qualquer das que o cércfto. 

Observação ii. — Nas palavras em que, ao contrario da lei ante- 
cedente, se conservou o l intervocalico, devemos admittir influencia 
erudita, como em *fortalitia, fortaleza, delere, delir, o que se de- 

i [Nestas palavras o r é analógico: em estrella, por influencia de aêtrum 
(cf. o meu opúsculo O gralho depennado, 3 • ed., pag. 102) ; em troar, trom, por in- 
fluencia, quanto a mim, de * tronitu* = tonitrus ; isto é: * ex-tronitus, que 
deu o port. estrondo e o hesp. e&truendo. — J. L. dk V.]. 

* [A par de livèl também se dizia olivã (cfr. D. Carolina Michaèlis, Studien 
mr Uispan. Wortdevt., % 17, n.° 4) ; o l provém de dissimilaçâo, l. . .l — n. . .1, como 
em novêlo, de *lobello (de *globellus). Na forma actual nivel houve desloca- 
mento de accento, certamente por analogia com os nomes acabados em -ivel, como 
crivei, temível, etc. — J. L. dk V.]. 



II — L 



a) L, ISOLADO 



1) INICIAL 



9) MEDIAL 



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PHONETICA HÍSTORICA PORTUGUESA 



301 



prehende da existência de fórmas com elle e sem elle; ex.: polir e 
poir, gelar 1 e gear, palaciano e paação (archaico *). 

Observação nr. — A mesma troca que às vezes soffreu o d (por l) 
também se encontra no /, quer inicial, quer medial, como em laxare, 
Uixar (arch.), deixar, amylo, amido 8 . Demais, ésta troca era já co- 
nhecida do latim archaico, que dizia dacruma, dingua, em vez de 
lacrima, lingua. Também permutou com o r ém púcaro (poculo), 
pardo (pardo), e frequentemente nos grupos cl, pl, gl, bl 4 . 

3) FINAL 

§ 145. Lbí. — L tornado final pela quéda da vogal seguinte 
persiste em português; ex.: amabile, atnavel. 

b) Ia AGRUPADO 

MEDIAL 

§ 146. L agrupado só se encontra em latim, como medial; isto 
é: seguido d'outra consoante, e passa inalterado para português; ex: 
*colpo, golpe, cal(i)do, caldo, albo, alvo, pulmone, pulmão, ca- 
pillo, cabello, cavallo, cavallo, ille, elle, villa, villa. 



* Esta palavra é litteraria. 

* [Sobre deixar vid. o que eu disse supra, pag. 280, not. 3. O d de amido não 
é próprio de português, pois em francês ha amidon, hesp. almidon, etc. ; já no lat. 
medieval amidum. — J. L. de V.]. 

* [A 1 cêrea dos casos em que apparentemente se conservou l t como oliveira, 
etc, vid. Eev. Lusit., ii, 372. Sem dúvida a forma primitiva de oliveira foi olveira, 
palavra que, com a pronúncia de olvêra, tenho ouvido muitas vezes no Sul ; em 
documentos antigos do Norte encontra-se também Olveira ou Ulveira: o t resulta 
pois de suarabacci. Moleiro explica-se por molneiro (molinariu-) : vid. D. Caro- 
lina Michaglis in Rev. Lusit, m, 175. Goncalves Vianna, ibidem, h, 180, lembra 
também a forma monleiro recolhida no Elucidário de Viterbo. A Sr.* D. Carolina 
Michaêlis explica moleiro por molneiro , através de moUeiro, não entrando em con- 
sideração com a forma monleiro dada por Viterbo. Esta forma deve explicar- se 
por metathese de molneiro, e não por nasalamento de moleiro devido ao m, porque 
o nasalamento devido ao m inicial parece nào ser muito antigo, como o mostra 
muito, mi, etc., e porque moleiro é fórma recente. Temos pois : molneiro, moleiro 
(= monleiro) e moleiro; a nasal desappareceu como em moeda, mÕesteiro, etc. — 
J.L. deV.]. 

* [A fórma púcaro é difficil de explicar por poculum, ainda mesmo admittin- 
do poclum. Na Beira diz-se também pucro. O hesp. puchero (sobre o qual cfr. 
Diez, Et Wõrt, n-ó, s. v. puvhes) nada tem com ésta palavra. — Quanto a pardo, 
de pallidus, cfr. Diez, Et Wort., n-ó, s. v. pardo; elle suppõe a fórma intermé- 
dia paldus, mas assim como caldus deu caldo, seria também de esperar paldo; 
é pois provável que no desenvolvimento do r de pardo influisse uma palavra es- 
tranha (acaso o lat. pardust). Diez cita outros exemplos de r por l, como escarpelo 
de scalpellum, e turco de sul cus; mas no hesp. escarpelo houve evidentemente 
dissimilaçào, e não é palavra pop. (senão teríamos nella 11= Ih); surco também 
não c palavra popular, senão teríamos o, como o mostra o ital. solco e o catai, solch. 
Outro exemplo de r por l está no port. urze, de ulice(m) ; mas aqui de certo in- 
fluiu a palavra erice (por erice), conservada em arazede (== * ericetum) . — J. L. 
deV.]. 



302 



REVISTA LUSITANA 



Observação i. — O grupo U nalguns casos molhou-se (Ih), talvez 
por influencia do hespanhol, como em galla, galha, trulla, trolha, 
galliua, galhinha (arch.), gallinha K Ánguilla tinha-se reduzido 
no latim vulgar a *anguila, e d'ahi enguia. 

Observação ir. — A' cêrca das modificações sofridas pelos gru- 
pos cl, gl, dl, fl, pl, bl, tl, ml, nl, vejfto-se os respectivos §§. 



§ 147. Lei. — L seguido da semi-vogal i; isto é: d'um e ou i 
em hiato, passa para português com o som molhado Ih; ex. : palea, 
palha, meliore, melhor, filia, filha, mulier, mulher, alieno, alheio, 
valea, valha, spoliare, esbulhar. 



§ 148. L posto entre vogal e consoante tende a vocalizar-se, 
unindo-se a vogal por elle produzida à que o precede; ex. : falce, 
foice, calce, coice, palpare, poupar, ascultare, escuitar (arch.), es- 
cutar, calvaria, caiveira (pop.), caveira, balbo, boubo, * taiparia, 
toupeira. 



§ 149. Como o r, seu congénere, também o l é susceptível de 
transposição; ex.: publico, pulvego (arch.), publico, *oblitare, ofoi- 
dar, sib(i)lo, silvo, mer(u)lo, melro, mod(u)lo, molde, spat(u)- 
lare, espaldar. 



§ 150. Lei. — M tanto inicial como medial passa intacto para 
português; ex.: a) inicial: macro, magro, maligno, malim, melo- 
ne, melão, me(n)se, mes, musca, mosca, médio, meio; b) medial: 
amico, amigo, lacrima, lagrima, n^ominare, nomear. 

Observação. — A's vezes, mas raras, dá-se a troca do m inicial 
por n, como era mespilo, nespera 2 , memorare, nembrar (arch.), 
lembrar, membro, nembro (arch.), membro *. 

i [Galha vem de *gallea, não de galla; trolha (como já disse supra, pag. 
285, not. 4) de *trullea, onde U estão seguidos da semi-vogal, que produi a pa- 
latização (cfr. § 147). Quanto a galhinha, é preciso citar a fonte, para se poder 
discutir a forma. — J. L. de V.]. 

* [Isto é: de mes pila, plural de mespilum, tornado singular. Também em 
fr. ha nefle, ital. ?ie*pola, cat. nespla, etc. Parece ter havido dissimilaçào na fór- 
mula m. . .p = n. . .p. — J. L. dk V.]. 

' [Em nembrar e nembro houve dissimilaçào de labiaes. Em nembrar, que 
deu lembrar, houve posterior dissimilaçào de n. . .m. — J. L. de V.]. 



c) L, SEGUIDO DA SEMI-VOGAL i 



VOCALIZAÇÃO DO L, 



METATHESE DO L, 



III — M 



a) m ISOLADO 



1) INICIAL-MEDIAL 



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PHONETICA HISTÓRICA PORTUGUKSA 



303 



*) FINAL 

§ 151. Jlf final cahiu desde os primeiros tempos do império ro- 
mano, assim nos nomes 1 como nos verbos. Em vez de rosam, fructum, 
hominem, diem, dicam, amem, dizia-se em latim vulgar rosa, fructo, 
omine, die, dica, ame. 

Observação. — Como já dissemos, é do accusativo em regra que 
provêem os nomes das linguas românicas; d'outros casos sfto elles ra- 
ros em português, como Deus (nominativo), Car(o)lus (idem) *. 

bj M AGRUPADO 

1) INICIAL 

§ 152. Lei. — M inicial persiste em português; ex.: *vermi- 
c(u)lo, vermálho, arma, artna, palma, palma, *pasmare, pasmar. 

2) MEDIAL 

§ 153. M agrupado medial; isto é: nfto constituindo a primeira 
lettra da syllaba, na sua passagem para português, foi diferentemente 
modificado, conforme a consoante que se lhe seguia. Assim : 

1. ° M antes das labiaes p b passa inalterado para português; 
ex. : rumpere, romper, límpido, limpo, ampulla, ampôlla, comple- 
re, cumprir, lambere, lamber, palumbo, pombo, ambos, ambos. 

2. ° M antes das dentaes t d muda em n; ex. : sem(i)ta, senda, 
cora(i)te, conde, com(pu)tare, contar, lim(i)te, linde (arcb.), B- 
mite, lim(pi)do, lindo. 

3. ° No grupo m } n reduz-se por assimilação a n; ex.: dom(i)no, 
dono, dom(i)na, dona, somno, sono. 

Observação i. — Em obediência á etymologia, conserva-se o m 
na graphia de algumas palavras, como outomno, somno, desapparecendo 
porém na pronúncia. Como succede a todas as geminações, os nn, 
resultantes do grupo m'n, reduziram-se a um n simples. 

Observação h. — Neste grupo intercala o hespanhol um b, o que 
nos leva a considerar como proveniente d'essa lingua a palavra des- 
lumbrar, de lumbre (lun^ne). , 

1 Com excepção d 'alguns monosyllabos, como rem, cum, que dérão portu- 
guês rem (arch ) e com. [Com rem cfr. o francês rim. Em cum manteve-se o m por 
esta palavra ser sempre proclitica, ficando pois o m no meio da palavra ; ainda as- 
sim antes de vogal, na ligação com o artigo, a lingua antiga tinha toa, coo, etc., 
como hoje a lingua vulgar. Outro exemplo de manutenção de m é $um, que deu 
som na íing. arch., forma conservada ainda hoje em algumas provindas. — J. L. 
de V.]. 

2 [Cfr. sobre este assumpto J. Cornu, in Romania, xr, 79. — Ha outros ves- 
tígios de casos no onomástico, como saorks (=Sacris) e chaves (= Fia vi is). 
Ao gcnitivo em -i referi- me no meu opúsculo Ckartam alteram de vtUa quat mak- 
oabidb appellatur, Olisipone 1894. Na Beira faz -se, em dia de Todos os Santos, 
um bolo chamado santório, de santóro (= sanctorum), forma certamente de ori- 
gem ecclesiastica. — J. L. de V.]. 



304 



REVISTA LUSITANA 



4.° Nos grupos irir, m'l, intercala-se um b eupbonico; ex.: hu- 
m(e)ro, hombro, mem(o)rare, lembrar, cam(e)ra, cambra (pop.), 
camera, 8im(i)lante, sembrante, cum(u)lo, combro. 



§ 154. Lei. — M seguido da semi- vogal i passa inalterado para 
português, e ósta fuude-se com a vogal seguinte; ex.: vindemia, 
vindima \ 



§ 155. Lei. — N inicial persiste em português sem alteração; 
ex.: nave, nau, negare, negar, nidus, ninho, nocte, noite, nuce, 
noz, nigro, negro, nec, nem, nudo, nem. 

Observação. — N inicial trocou-se por m na palavra nasturtio, 
mastruço, e por l em nominare, tornear (arch.), nomear e nembrar 
(de memorare), lembrar. O povo (ao menos no Algarve) também diz 
linho em vez de ninho *. 



§ 156. Lei. — N medial càe na lingua portuguesa; ex.: luna, 
lua, arena, areia, femina, fêmea, ponere, poer (arch.), pôr, bona, 
boa, sanare (ant), saar, sarar, dehonestare, deostar (arch.), does- 
tar, dinario, dieiro (arch.), dinheiro. 

Observação i. — Esta quéda do n intervocalico, que, como a do l, 
nas mesmas condições distingue o português das demais línguas ro- 
mânicas, explica-se a nosso vêr da seguinte maneira: o n em vez de 
se juntar á vogal seguinte, nasalou a precedente, dizendo-se lua, 
aréa, freo, nasalização que posteriormente se perdeu, ficando lua, 
arêa, fréo. 

Observação ii. — A conservação do n medial contra a lei ante- 
cedente, como crina, feno, é devida a influencia erudita, o que se de- 
duz de fórmas que, não tendo antigamente n, o rehouvérão mais tar- 
de; ex. : imigo e inimigo, dieiro e dinheiro, estraio e estranho, etc. s . , 

i [Por causa da difficuldade da mudança de c tónico em i, talvez vindima 
seja antes um substantivo verbal de vindimar = vindemia re. — J. L. na V.]. 

* [O m de mastruço, se não houve alguma influencia estranha, poder-se-ha 
explicar por dissimilaçâo (n...t). Em lomear, lembrar, linho, houve sem dúvida 
dissimilaçao (n. . .m, m. . .m, n. . .nh). Em vurmo, de vulnus, deu-se igualmente 
esse facto (l. . ,n) — J. L. de V ]. 

3 [Os doe ant. offerecem realmente dieiro e estravo (ex. no Elucidário, de Vi- 
terbo), mas nessas palavras houve erro orthographico, devendo ellas escrever -se 
dieiro e estrâyo. Foi depois entre a nasal e a vogal seguinte que se introduziu nh. 
Igualmente se deve emendar em Viterbo Eidaya em Eidâya, vio em vio, etc. — J. 
L. na V ]. 



c) M SEGUIDO DA SE MI- VOGAL 1 



IV. — N 



a) HF ISOLADO 



1) INICIAL 



2) MEDIAL 



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PHONKTIOA HISTÓRICA PORTUGUESA 



305 



Observação m. — Como o n inicial, também o medial permutou 
ás vezes com as liquidas, como em an(i)ma, alma, animal, álimal 
(pop.), sanare, sarar, unicorne, licorne (arch.), unicorno K 

3) FINAL 

§ 157. N final pôde ser tal originariamente, ou ter-se tornado 
assim por quéda da vogal immediata. 

No 1.° caso cáe em português; ex.: crimen, crime, vimen, vime, 
glúten, grude, nomen, nome, examen, exame. 

Observação. — Esta quéda do n final originário remonta já ao 
latim vulgar, que, assim como o m nas mesmas condições, supprimia o 
n em todos os nomes, menos nos monosyllabos, dizendo crime, vime, 
glute, em logar de vimen, etc. a . 

No 2.° caso persiste em português; ex.: devotione, devoção, 
ratione, razão, compassione, compaixão, consolatione, consola- 
ção, sansoone, sansão, latione, ladrão. 

Observação l — Foi este n que, com a vogal precedente, deu o 
antigo ditongo on ou om, que o português moderno substituiu por ão. 

Observação n. — Pela similhança de som, n final trocou-se na es- 
cripta por m; ex.: fine, fim, sine, sim, bono, bom, sono, som, tono, 
tom, homine, homem 8 . 

b) ST AGRUPADO 

1) INICIAL 

§ 158. Lei. — N inicial persiste sem alteração em português; 
ex. : as(i)no, asno, *cic(i)no, cisne, ornare, ornar, taberna, ta- 
verna, fumo, fomo, carne, carne, anno \ anno, damnato, danado. 

Observação i. — N geminado nalgumas palavras apparece mo- 
lhado; isto é: sob a fórma nh, talvez, também como 11, por influencia 
hespanhola, como cannabo, cânhamo, grunnire, grunhir, stanno, 

i [Alma, alimal, licorne explícão-se perfeitamente por dissimilação (n. . .m, 
n...n). Podia accrescentar-se Jerolmo, almalho (e armalho), etc. — Quanto a «a - 
rar, também em tempo pensei que o r representasse o n, mas hoje vejo a difficul- 
dade d'isso, pelo que me inclino á opinião dò meu amigo o Sr. Cornu ; este explica 
sarar por soar ou sar + ar; isto é : pela nova adjuncção da terminação do infini- 
tivo ao corpo do verbo, por a terminação d'este ser pouco clara (vêr Romania, xi, 
95-96, e IHe Portug. Spr., § 255). Comquanto haja em port. outros verbos mono- 
syllabicos, como ser. ter, vêr, etc, em que a reduplicaçào da terminação infinitiva 
se não deu, ha também outro em que o mesmo pnenomeno se observa: é morrer, 
de *mor(e)re-f*ere (Meyer, Grammatik der Romanischen Sprachen, n, §§ 126 e 
128). Em textos antigos (Cancioneiros) lê-se moirer, que deverá emendar-se em 
morrer, embora moiro (e mouro), de *morio, seja correcto. — J. L. db V.]. 

9 [Todavia na Beira diz-se vimem, que se ha de explicar por *viminem; 
cfr. hesp. vimbre e mirandês brime. Esta palavra seguiu a analogia de pentem (na 
Beira péntem), etc. — J. L. db V.]. 

9 [Isto é: on nasalou a vogal, e o nasalamento foi representado por m. — 
J. L. db V.]. 

* Ou ano, em orthographia sónica. 

rey. lusit., vol. iii, fase. 4. 2 



306 



REVISTA LUSITANA 



estanho. Em coph(i)no, cofre, deu-se a sua já conhecida troca pela 
liquida r *. 

Observação ii. — A' cerca dos grupos gn e m } n, vide os respecti- 



§ 159. N medial; isto é: posto antes de consoante, soffreu, na 
sua passagem para português, varias alterações em harmonia com 
essa consoante. Âssim: 

1. ° N antes das dentaes t, d, e das palataes c, g, e da liquida r 
persiste em português; ex. : centum, cento, respondere, responder, 
man(i)ca, manga, angelo, anjo, hon(o)ra, honra 2 , gen(e)ro, genro, 
ten(e)ro, tenro. 

2 . • N antes de s cahiu numa epocha muito antiga, que remonta 
ao latim popular; ex.: sponso, esposo, mensa, mesa, tenso, teso, 
defensa, defesa, min(i)sterio, mister, prenso, preso, mensura, 
mesura (arch.), medida, mense, mêz. 

Observação, — A conservação do grupo ns é devida a influencia 
erudita, como se vê comparando monstro e mostrengo. Insula, de- 
pois de ter dado insua, é actualmente ilha. 

3. a O grupo n'l reduz-se por assimilação a 11; ex.: lun(u)la, 
Mia, salnitro, sallitre. 

Observação. — Esta assimilação dava-se já no latim clássico, onde 
encontramos collega, ullus, nullus, por * con-lega, * un(u)lus, * nun(u)lus. 



§ 160. Lei. — N seguido da semi- vogal i; isto é: de l ou i for- 
mando hiato, reduz-se em português a n/t, por influencia da semi-vogal 
que desapparece; ex.: tenea, Unha, aranea, aranha, linea, linha, 
seniore, senhor, extraneo, estranho, pinea, pinha, *montanea, 
montanha. 

Observação. — Formas várias: granja (granea), rouxinol, ameia 
(moenia). 



§ 161. Nalgumas palavras portuguesas introduziu-se um n eu- 
phonico que se não encontra no latim 3 ; ex. : pictore, pintor, redere, 



1 [Sobre cânhamo, grunhir e estranho, cfr. o que escrevi in Rev. Lus., n, 31. 
Quanto a cofre, talvez a palavra seja de origem francesa, coffre; o povo não a usa, 
dizendo em seu logar caixa, etc. — J. L. de V.]. 

2 [Honra é substantivo verbal de honrar = honorare. — J. L. de V.]. 

3 No latim clássico, entende- se, pois que o vulgar já dizia pinctor, pinctura, 
por analogia com pingere. 



vos §§. 



2) MEDIAL 



e) Hf SEGUIDO DA SEMI-VOGAL i 



EPENTHESE DO ST 



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O DEUS PONGOBNABIÀGUS 



307 



render, examen, enxame, amygdala, amêndoa, exagio, ensaio, In- 
tra, lontra, muco, monco, hyberno, inverno 1 . 

Lagos (Algarve). 

J. Joaquim Nunes. 



0 DEUS BRACARENSE 
PONGOENABIAGVS 

(Contribuição para o conhecimento das religiões antigas da Lusitânia) > 



INTRODUCÇÃO 

dentre as diversas regiões que constituifio o vasto e um tan- 
to heterogéneo corpo social que os Romanos chamarão Hispânia ou 
Hispaniae e os Gregos Hibería, é a Lusitânia aquella cuja história mais 
directamente interessa ao nosso pais, e que também um português, 
que reside em Portugal, pôde estudar com mais proveito e desenvol- 
vimento; tenho por isso applicado uma parte da minha attençfto a 
investigar os documentos elucidativos d'essa antiga história, embora 
reconhecendo que ella constitue apenas um capitulo da história geral 
das Hispanias. 

A história da Lusitânia creio poder dividir-se em tres grandes 
epochas: prehistorica, proto-historica e histórica propriamente dita, 
ou, melhor, luso-romana. 

A epocha prehistorica é a de que nos não restão testemunhos 
escritos, e que só conhecemos pelos documentos anthropologicos e 
ethnographicos conservados â superfície da terra, ou dentro d'esta, e 
em sepulturas, em minas, etc. Comprehende a idade da pedra e parte 
da dos metaes. Os povos que vivifto nessa epocha no nosso solo, pelo 

i [Sobre pintor, vid. Rev. Lusit, n, 272 (analogia com tinctus, etc.) ; Bobre 
render, vid. Meyer, Grammat, i, 587 (analogia com prenderej; sobre lontra, vid. 
supra, pag. 286, nota 5; de amygdala, * amedola, veio amêndoa, pelo nasalamento 
do e devido á influencia do m, como já ha annos expliquei. Monco explica -se do 
mesmo modo, parece, embora o u seja longo em muccus (mas no lat. vulg. podia 
ter sido *moncu-). Em hibernus houve nasalamento do «inicial, segundo uma 
regra muito vulgar no português. Ensaio e enxame (insaio, inxamej estão no 
mesmo caso que exemplo (pop. inzemplo), exercito (pop. inzercito), exame (pop. 
inzame), etc, em que a vogal inicial também se nasalou. — J. L. db V.J. 

* Leitura feita á Academia Real das Sciencias de Lisboa, no dia da mi- 
nha entrada como sócio correspondente (sessão de 25 de Maio de 1894). 



308 



REVISTA LUSITANA 



menos os mais antigos, er&o selvagens; comtudo, a sua ethnographia 
offerece algumas particularidades, tanto em relação à prebistória da 
Europa, como ainda mesmo à prehistória peninsular. 

A epocha proto-historica começa como as primeiras informações, 
que a antiguidade nos deixou por escrito à cêrca dos diversos povos 
chamados Lusitanos, Gallaecos, Bracaros, Turdetanos, etc, que em 
parte provinhâo já da epocha anterior, em parte se relacionavfto 
com os povos históricos que em todas as epochas invadirão a Penin- 
sula, — Celtas, Gregos, Phenicios, Carthagineses. O viver dos povos 
proto-historicos da Lusitânia é-nos conhecido, tanto pelas informações 
dos AA. clássicos, como por intermédio da archeologia. Esses povos 
erâo pela maior parte bárbaros ; apenas no Sul os Turdetanos, talvez 
por influencia dos elementos gregos e phenicios que entravâo na con- 
stituição d'elles, gozavão de civilização bastante adeantada, pois ti- 
nhão um alphabeto próprio, uma litteratura, etc. E 1 natural que mui- 
tas das inscripções epigraphicas, chamadas ibéricas, fossem próprias 
dos Turdetanos, não só porque essa attribuiçâo está de accordo com 
o que Estrabão diz da civilização turdetanica, mas porque, com rela- 
ção ao nosso pais, é exactamente no Sul d'elle, e portanto em ter- 
ritório dos Turdetanos, que taes inscripções por ora se teem exclu- 
sivamente encontrado. Vem a propósito citar aqui o importante e 
recente livro do nosso consócio Dr. Emilio Hiibner, de Berlim, inti- 
tulado Monumento linguae Ibericae, onde, com a segurança philologica 
que caracteriza aquelle illustre professor, se ãchão transcritas e es- 
tudadas todas as inscripções d'esta natureza, de que elle teve conhe- 
cimento, achadas na Península Ibérica. — A epocha proto-historica da 
Lusitânia termina com o fim da dominação carthaginesa, e a vinda 
dos Romanos á Península, no sec. m A. C. 

Começa então a epocha que denominei luso-romana. 



Das tres epochas em que dividi a história da Lusitânia é certa- 
mente a segunda a mais interessante, embora não haja ainda a seu 
respeito nenhum trabalho desenvolvido e geral, em que se aproveitem 
ao mesmo tempo as informações ministradas pelos textos dos AA. 
clássicos, e os resultados da sciencia moderna. Sem embargo, além 
de muitos artigos e notas dispersas por difFerentes partes, exis- 
tem sobre o assumpto algumas monographias avulsas. Lembrarei 
aqui por exemplo um livrinho allemão, muito pouco conhecido, inti- 
tulado Die Kriege der Rômer y Erstes Heft, Viriath und die Lusitanier, 
isto é, As guerras dos Romanos, 1.° faseie, Viriato e os Lusitanos, por 
Becker, publicado em 1826; este livrinho está hoje antiquado, mas 
contém bastantes textos de AA. clássicos, e foi feito com muita sym- 
pathia para com os Lusitanos. Outro livro também estrangeiro é o 
de Ursin, publicado em 1884 com este titulo — De Lusitânia, provin- 
da romana; comquanto, como o seu titulo diz, se oceupe da epocha 
luso-romana, traz uns preliminares sobre a epocha proto-historica. 



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O DfctJS PONGOKNABIAGUS 



309 



Não posso também esquecer algumas monographias do nosso consócio 
o Sr. Martins Sarmento, de Guimarães, e do Sr. Adolpho Coelho. 
Além d'e8tes, ha outros trabalhos, uns avulsos, outros de caracter 
mais genérico, quaes sfto De antiquitatibm Lusitaniae, de André de Re- 
sende, lntroducção á archeologia da Península Ibérica, de Filippe Si- 
mões, o vol. ii e Suppl. do Corpus lnscriptionum Latinarum da Aca- 
demia de Berlim, Les âges prehistoriques de VEspagne et du Portugal, 
de E. Cartailhac, a Archeologia en Espana, do Dr. Emilio Hubner, e 
numerosos artigos e opúsculos de George Philipps, Kiepert, Detlefsen, 
etc. 

Em verdade, só depois da publicação de moitas monographias, 
artigos e simples notas, é que se deverá tentar escrever uma história 
geral da Lusitânia, feita com methodo rigoroso, tanto quanto elle se 
possa applicar no estado da sciencia. 

A communicação que neste momento vou ter a honra de apre- 
sentar & Academia é também uma contribuição, ainda que extrema- 
mente exigua, para o conhecimento da nossa história antiga. 

I 

Na cidade de Braga, num quintal chamado «do ídolo», perten- 
cente ao Sr, José Joaquim de Oliveira, e que fica perto das ruas do 
Baio e de S. Lazaro, ha um monumento muito notável, feito na epo- 
cha romana, mas concernente à história indígena, isto é, à vida dos 
povos d'aquella região que, como se sabe, se chamavão Bracaros, 
nome relacionado com o da sua capital Bracara, tendo este dado o 
moderno Braga, através das fórmas antigas Bragaa e * Bragala. O 
nome Bracarus também se encontra como designação de homem, se- 
gundo vi numa inscrípção romana descoberta o anno passado no 
Minho. 

O monumento de que fallo consta de um tanque fundo, cuja agua 
brota da base de um grande penedo granítico, em que se vêem umas 
esculpturas e inscripções latinas, 

A fim de não cançar a Academia, abstenho-me de discutir aqui 
as questões que tal monumento provoca, tanto mais que já em par- 
te fiz isso num artigo que será publicado com estampas num jor- 
nal de archeologia e arte, que vae sahir â luz nesta cidade. Limito- 
me pois a expôr summariamente o resultado a que cheguei. 

Na parte esquerda do monumento ha uma inscrípção que, depois 
de completada uma palavra d'ella, diz assim : 

CELICVS FRONTO 
ARCOBRIGENSIS 
AMBIMOGIDVS 
FECIT 

em boa lettra, que supponho ser do tempo de Augusto. 



310 



ÈEVISTA LUSITANA 



Em seguida, para a direita, está esculpida uma figura barbada, 
envolta em roupagens compridas e dobradas, i. é, numa toga, tendo 
na m&o ou um objecto hoje indeterminado, ou uma dobra da toga. 

A 1 direita d'esta figura está outra inscripç&o em que se lê em 
duas linhas : 



isto é, Pongoenabiago. 

Por ultimo, ao lado direito d'esta inscripç&o, está esculpido no 
rochedo um como nicho, adornado de seu frontão; tem dentro um bus- 
to humano, com a seguinte inscripç&o ao lado : 



Por cima do nicho ha ainda umas lettras que n&o entendi, mas 
que parece serem mais modernas que as restantes. 

A interpretação doeste monumento é no meu conceito a seguinte. 

O nicho é o que os Romanos chamavâo uma aedicula, de que se 
podem vêr outros modelos nos Diccionarios archeologicos de Rich 
e de Daremberg & Saglio. O busto representa o deus, cujo nome 
pongoenabiagys está ao lado escrito em dativo, segundo as normas da 
syntaxe latina e das fórmulas religiosas. A figura envolta na toga re- 
presenta o dedicante, que se chamava Celicus Fronto e era natural da 
cidade de Arcobriga e pertencia á gens Ambimogida. A cidade de Ar- 
cobriga parece que ficava na Gallaecia. 

Entre os numerosos monumentos que eu trouxe do Alemtejo para 
a Bibliotheca Nacional, respectivos ao culto do deus Endovellicus, ha 
várias figuras semelhantes a esta, que se collocav&o ao pé das in- 
scripções, tendo mesmo algumas d'estas figuras as inscripções grava- 
das em si. O nome do dedicante está repetido dentro da edicula, tal- 
vez pelo facto de o monumento ser grande. 

Resta agora explicar a natureza do deus bracarense. 



A situaç&o do monumento junto de uma fonte, a disposiç&o d'elle 
de modo que abrange todo o âmbito d'esta, e a collocaç&o da edicula 
dentro do próprio tanque, com o busto da divindade mesmo ao pé de 
d'onde brota a fonte, lev&o-me a concluir que estamos deante de uma 
manifestaç&o do culto das aguas. 

Nas religiões da antiguidade, como ainda hoje na dos selvagens 
e na de todos os povos socialmente atrasados, o culto das aguas tinha 
muita importância. A Natureza impressionou sempre a alma do ho- 

i No original o i está incluído no L, o que aqui nâo represento assim, por 
dificuldade typographica. 



PONGOE 
NABIAGO 



CEL10VS 
FKCIT 



II 



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Ô DEUS PONQOBNABIAGUS 



311 



mem, que por toda a parte lhe dirigiu preces ou imprecações. Se fô- 
rão os grandes espectáculos naturaes, como o gyro dos astros, as mu- 
danças da atmosphera e das estações, a agitação dos mares, os vul- 
cões, os terremotos, o que mais devia solicitar a admiração do ho- 
mem, ainda desprovido do conhecimento das leis do Universo, nem 
por isso os phenomenos, por assim dizer, mais modestos do crescimen- 
to das plantas, da existência dos animaes, tão semelhante á nossa, do 
deslisar, ora sereno, ora ruidoso, dos rios, e do marulho sempre suave 
das fontes, nem por isso, digo, esses phenomenos de viâo ficar esque- 
cidos do verdadeiro crente. 

O homem primitivo, com a sua imaginação fecunda, e a sua igno- 
rância das leis que regulão os phenomenos physicos, tinha tendência 
para considerar como outras tantas individualidades humanas, em- 
bora sui generis, tudo aquillo a que elle attribuia movimento ou vida : 
d'aqui resultou o povoar o mundo de entidades superiores e myste- 
riosas, da vontade das quaes julgava que elle próprio e a Natureza 
estavão dependentes em certos casos, e as quaes por isso precisava 
de invocar ou de esconjurar, conforme as circumstancias e as neces- 
sidades o pedião. E' isto a religião. 

Assim, primeiramente constituirão matéria religiosa as cousas 
naturaes, consideradas como conscientes, ainda sem nellas se estabe- 
lecer distincção nitida entre corpo e espirito. E' a phase que pode- 
remos chamar Naturalismo elementar. Depois, em virtude da anályse 
psychologica, cada vez mais profunda, que o homem ia fazendo em 
si, e das relações subjectivas que estabelecia entre elle e o que o 
cercava, acreditou-se na existência individual de espíritos. E* a se- 
gunda phase religiosa, chamada Animismo. Estes espíritos erão, uns, 
meras divisões da pessoa humana, outros, da Natureza, — espíritos 
que ora andavão soltos pelo espaço (Espiritismo), ora se fixaváo em 
certos objectos (FeiticismoJ. Ao Animismo liga-se, como manifestação 
mais determinada da interpretação anthropomorphica da Natureza, 
o Polytheismo, ou crença na pluralidade de deuses propriamente 
ditos. 

Circumscrevendo-me mais ao meu assumpto, que é o culto das 
aguas, accrescentarei, que, em virtude de tão admirável propensão 
do homem para a personificação, e mesmo ás vezes dramatização, dos 
phenomenos elementares ou complexos da Natureza, nada é de estra- 
nhar que, como disse, esse culto tenha muita importância. Com efei- 
to, não ha ninguém que não tenha observado quão poético, quão im- 
pressivo é, no meio do silencio e do socêgo dos campos, ver como 

Por entre pedras alvas se deriva 
A sonorosa lympha fugitiva. . . 

Aos poetas, como naturezas mais impressionáveis, e cujas obser- 
vações são por isso frequentemente mais vivas, mais próximas das do 
homem no simples estado natural, não tem escapado expôr este sen- 



REVISTA LUSITAKÁ 



timento que as aguas das fontes, de murmúrio manso e rythmico, 
despertfto nelles. Horácio, numa ode célebre, cantou: 



O Fons Bandusiae, splendidior vitro, 



Te flagrantis atrox hora Caniculae 
Nescit tangere; tu frigus amabile 
Fessis vomere tauris 
Praebes, et pecori vago. 

Fies nobilium tu quoque fontium, 
Me dicente cavis impositam ilicem 
Saxis, unde loquaces 
Lymphae desiliunt tuae. 



O mesmo sentimento da Natureza tradu-lo o nosso Garrett nestes 
delicados versos: 



Oh! Cintra! oh saudosíssimo retiro, 
Onde se esquecem mágoas, onde folga 
De se olvidar no seio â Natureza 
Pensamento que embala adormecido 
O sussurro das folhas, co'o murmúrio 
Das despenhadas lymphas misturado ! 



O homem inculto, o homem crente, foi porém mais longe do que 
os poetas, porque, possuido d'esse sentimento e do da utilidade que 
as aguas lhe prestavão, não só amou as fontes, e lhes consagrou 
hymnos nascidos do íntimo d'alma, mas adorou-as com effusao, eri- 
gindo-lhes altares, e fundando-lhes santuários. 

Pelas inscripções da epocha do domínio romano sabemos, sem eu 
querer sahir agora dos factos da história da Península, que havia nas 
proximidades de Antequera, na Hespanha, uma Fonte Divina, a quem 
um Lucio Portuncio offerecêra uma ara, segundo um voto; no valle 
de BofLal, no mesmo país, havia uma Fonte adorada sob o nome de 
Saginiensis; dentro do nosso Portugal tivemos em Bencatel o culto de 
Fontanus e Fontana, duas divindades muito notáveis, que nos próprios 
nomes tem impressa a significação do culto, ainda provavelmente, 
como os outros que citei, bastante próximo do puro animismo, a jul- 
gar da simplicidade e transparência d' esses nomes; finalmente, tive- 
mos em Vizella, como numen aquae das afamadas thermas d'alli, o 
deus Bormanicus, palavra cuja raiz se encontra noutras denominações 
de deuses aquáticos da antiguidade. 

Os cultos pagãos nem sempre se extinguirão com a implantação 
do christianismo : de ordinário continuãrão a viver, ou transformados 



Oh! grutas frias, 



Oh! gemedoras fontes! 



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O DEUS PONGOENABIÀGUS 



em cultos christâos, ou sob a fórma de méras superstições popu- 
lares. 

Se por isso buscarmos nas tradições post-romanas do nosso pais 
vestígios do culto das fontes, encontra-los-hemos. 

Na acta de um antigo concilio de Braga, na Idade-Média, falla-se 
dos infleis que prestão veneração religiosa às fontes. No livro de 
S. Martinho de Braga, intitulado De corredione rusticorutn, que per- 
tence ao sec. vi, dà-se como obra diabólica o culto pagão das fontes. 
Ambos estes factos são curiosos por se referirem a Braga, e a Braga 
pertencer o monumento de que aqui me occupo. Nas constituições 
episcopaes dos sec. xvi e xvn encontrão-se outras allusões a tal ve- 
neração. Nos Agiologios e nas lendas populares contão-se successos 
que pertencem à mesma categoria, de que eu poderia aqui dar longa 
relação, se não temesse fatigar demasiado a attençfto da Academia. 
Hoje ainda ha muitas fontes que teem invocações sagradas, como Fonte 
de S. Guálter, em Guimarães, Fonte de S. Tiago, em Moncorvo, Fonte 
da Senhora do Carmo, em Mondim da Beira, Fonte-Santa em todas as 
partes do país, incluindo Lisboa, que tem uma rua assim chamada, em 
que existe uma fonte com uma cruz. Aqui a cruz é outro vestígio do 
antigo culto. As tradições pagãs não persistirão todas com a fórma 
ecclesiastica: ãs vezes persistirão com fórma até certo ponto pagã, o 
que se vê nas tradições relacionadas com as fontes que teem o nome 
de Fonte da Moura, como ha muitas. 

D'este modo o monumento luso-romano de Braga pertence a um 
vasto cyclo de ideias religiosas. Eu conheça por esse país fóra, sem 
excluir o Minho, muitas fontes com caracter religioso, as quaes são 
ainda parecidas com aquelle monumento, pois teem também, sobre a 
agua, ou ao pé, um pequeno nicho em que está, ou pintada, ou em 
imagem, representado um santo ou a Virgem, imagem que os fieis 
não deixão de às vezes adornar com vasos de flores. Conheço tam- 
bém outras fontes com tal caracter de santidade, que teem ao pé uma 
capella. Afim de não deixar estes factos sem demonstração, lembrarei 
por exemplo a jâ citada Fonte da Senhora do Carmo, a Fonte-Santa, 
ao pé de feencatel (no Alemtejo), e a Fonte de S. Torquato, ao pé 
de Guimarães. Em logar de imagem ou capella, acharemos também 
às vezes, por uma simplificação do culto, uma cruz na fonte, como na 
referida Fonte-Santa aqui em Lisboa. Dà-se até a coincidência de 
numa das Fontes-Santas que citei haver uma dedicatória moderna, no 
gosto da dedicatória latina do arcobrigense Celicus Fronto, em Braga. 

Sem duvida o monumento de Braga fazia parte de um santuá- 
rio, e não era uma simples lapide votiva, como tantas outras que ha 
no nosso pais; se não fizesse parte de um santuário, isto é, de um 
templo ou de um recinto sagrado, não occuparia, como occupa, todo 
o espaço da fonte. 



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314 



BB VISTA LUSITANA 



III 



Creio pois ter, dentro dos limites da archeologia e da hierologia, 
assentado que o monumento de Braga constituía uma fonte santa, con- 
sagrada a um deus que se chamava Pongoenabiagus. 

Este nome é de aspecto bárbaro, mas nem por isso merece me- 
nos o nosso respeito, se não já um respeito de fé religiosa, como no 
tempo dos Bracaros, ao menos um respeito scientifico! 

Vejamos se, pela analyse philologica de tal nome, obteremos 
também algum elemento que confirme a attribuiçâo que tenho vindo 
fazendo. Supponho que sim. 

Este nome, como tantos outros que as inscripções antigas nos 
ofíerecem, quer religiosos, quer não, é nome ao mesmo tempo com- 
posto e derivado. E' derivado, porque entra nelle o suffixo -agus, va- 
riante phonetica do suffixo -açus, que é muito vulgar no onomástico 
preromano, como se pôde vêr no Alt-Celtischer Sprachschatz, isto é, 
Thesouro da velha lingua céltica, de Alfredo Holder, diccionario actual- 
mente em publicação. O próprio onomástico da Lusitânia oferece ou- 
tro nome de deus, i. é, Turiacus, que tem uma inscripção no claus- 
tro da igreja de S. Thyrso, deus, em cujo nome entra o mesmo suffixo 
-açus; e como este era-me fácil citar dezenas de nomes. 

Se de Pongoenabiagus tiramos pois o suffixo -agus, fica-nos a par- 
te *Pongoenabi-, isto é, *Pongoenabius, como do mencionado Turiacus, 
subtrahindo o suffixo -açus, fica *Turi-, i. é, *Turius. 

Ora *Pongoenabius parece-me ser composto de *Pongoe -f- *Nabius. 
Um nome composto, d'esta natureza, nada tem de estranho: eu po- 
dia citar também dezenas d'elles análogos; contentar-me-hei porém 
com citar tres nomes de deuses, colhidos nas inscripções peninsulares : 
são elles os muito veneráveis Bandiaepolosegus, Bandiarbariaicus, 
*Bandueaetobricus, em todos os quaes, segundo o Sr. Adolpho Coelho, 
entra o elemento Band-, que apparece isolado noutro nome divino, o 
nome da deusa *Bandua. 

Decomposto pois o nosso *Pongoe-*Nabius em *Pongoe e *Nabiu$, 
é preciso agora conhecer a significação d'estes dois elementos. Con- 
fesso que *Pongoe não sei o que seja, pois nunca encontrei nem nas in- 
scripções, nem nos A A. clássicos, palavra nenhuma igual; quanto a 
*Nabius, creio que alguma cousa poderei dizer. 

Em primeiro logar ha nas inscripções romanas da Tarraconense, 
a que Braga pertencia, os seguintes nomes de deusas : Navia e Nabia, 
que apenas differem em uma ter v e outra b, confusão de consoantes 
labiaes ainda hoje frequente no Norte do reino. No convento Lucense, 
i. é, na Galliza, havia a deusa Navia. Estes nomes constão das in- 
scripções romanas. Nada se sabe do caracter de taes deusas, mas, em 
virtude da comparação dos seus nomes com o do deus de Braga, pôde 
admittir-se que erão muito provavelmente deusas fontanárias, ou pelo 
menos aquáticas. Esta approximação de nomes julgo-a importante. 



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O DEUS PONGOENABIÀGDS 315 



Âccrescem outras circumstaucias ponderosas. 

Ptolomeu cita na Gallaecia o rio Nabius (e nos Pesicos o oppidum 
Flavionavia). Ha mais nomes de rios em que parece entrar o elemen- 
to ou raiz nab- . Na Britannia temos Nabaeus, acaso decomponivel em 
Nab-aeus, pois que -aeus pôde aqui ser suffixo. Na Gallia temos Nava, af- 
fluente do Rheno. Plinio menciona também na Hispânia o rio Navialbio, 
nome cujo primeiro elemento pertence talvez â mesma familia. Te- 
mos ainda no Minho o Nebis, ou antes Nevia (hoje Neiva), mas este 
nome, se tem relação phonetica com os outros, está mais afastado. 
Confronte-se o moderno nome Nabão, do rio que passa em Tomar, e 
que estará porventura em vez de um antigo *Nabanus, decomponivel 
em *Nab-anu8, pois que o suffixo -anus é vulgar, e fica a parte *Nab- , 
de que estou foliando. 

Âssim, em resumo, no nome do deus bracarense pongoenabiagvs, 
deus que, pelas circumstancias em que se venerava, era certamente, 
como disse, de caracter aquático, julgo entrar um elemento que, pelo 
seu lado, contém também a ideia de «agua», ou outra correlativa, o 
elemento nab- , que se encontra, ao que parece, em muitas denomina- 
ções fluviaes. 



Terminarei aqui a minha communicaçâo, que foi mais longa do 
que eu desejava, declarando que jà desde o século passado, das Me- 
morias do arcebispado de Braga, de Contador de Argote, ó conhecido 
o monumento bracarense; mas nem nessa obra, nem nas publicadas 
posteriormente, entre as quaes o Corpus Inscriptionum Latinarum, vol. n, 
foi bem transcrito o nome do deus. Além d'isso omittiu-se nellas a in- 
scripção que eu disse que estava dentro da edicula. E também se não 
fazem lá as considerações em que acabo de entrar, à cerca da expli- 
cação histórica do sentido do monumento. 

Eu estive em Braga, em Janeiro d'este anno, e tive occasiâo de 
estudar in loco o monumento. O resultado d'esse estudo é o que aca- 
bo de ler K 

3. Leite de Vàsconcellos. 



* Tanto ao Sr. José Joaquim de Oliveira, dono do quintal «do ídolo», como 
aos meus amigos os Srs. Henrique Rouffe e Dr. José Machado, agradeço o auxilio 
que me prestárâo para eu levar a cabo o meu estudo. 

Aproveito a occasiâo para lembrar que seria muito conveniente conservar em 
bom estado aquelle importante monumento da antiga civilização dos Bracaros, mo- 
numento único no seu género no nosso país, pelo menos de que eu tenha conheci- 
mento. 



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REVISTA LtTSITANA 



CIGANOS PORTUGUESES 



DOS FINS DO SEC. XVI 



fConelatlo) 



XXVII. — Dom felipe etc. faço sab(e)r que sabastifto de mjdejros, 
alcajde e cacerejro na yilla de ferr(eir)a do canpo dourique me éujou 
dizer, q(ue) tendo elle preso é seu poder u sjgano q(ue) dezia cha- 
marse graujel de sonsa que estaua condenado em dous annos p(er)a 
gales po(r) ser achado cõ algu fato na dita villa, e po(r) cortar os 
ferros, sendo outra vez preso em poder delle sop(lican)te, e tendoo 
preso e amarrado a hua correto e peado cõ Ima pea e seus trebelhos, 
o dito cigano, sendo de noite, sedo elle sup(lican)te fora da cadea, 
cortara os ferros,^ e lhe fogira, po(r) ser també a cadea fraqua e a 
casa térrea, cõ hua grade de pao, e eu lhe fizera m(erce) de aluara 
de busqua cõ o q(ua)l o buscara, e fizera m(ui)tas deljgencias sé o 
poder achar, me pedia auendo Resp(ei)to ao dito cigano não ter p(ar)- 
te algua, lhe p(er)doase a culpa q(ue) tjuera e sua fogjda, e R(ece- 
beri)a m(erce) e v(isto) seu Requerim(en)to, e hu parese cõ meu pas- 
se, ey p(or) be, e me p(ra)z de lhe p(er)doar a culpa de lhe fogir o 
preso p(e)lo modo q(ue) declara v(is)to como diz q(ue) nao tem p(ar)- 
te, e pagara mil r(ei)s p(er)a as desp(es)as da mesa do despacho dos 
desebargadores do paço, e p(or) quanto os tem ja pagos, vos mando 
etc. e forma el Rey nosso s(enh)or mâdou p(e)los d(ou)tores belchjor 
de amarai, e dy(og)o lamejra etc. (christ)ovao cald(ei)ra a fez em Ux- 
(bo)a a xj de nouébro de b e lxxxxij lucas v(iei)ra a fez escreuer. 

(D. Felippe i, Liv. xiy de Legitimações e perdões, fl. 111 v.). 

XXVIII. — Dom felipe etc. faco sab(e)r que g(as)par l(ouren)ço 
alcajde. e cacerejro na villa de mertolla, me euiou dizer q(ue) tendo 
elle presas na cadea da dita villa a margarjda vaz, e c(atari)na g(on- 
ca)l(ue)z, e ana sjgana cõdenadas e degredo p(er)a o brazil, e po(r) 
ser a cad(e)a fraq(u)a, e não ter mais que hú cadeado nas portas e as 
grades sere de pao, lhe fogjrâo todas abrjndo o cadeado cõ algua ga- 
zua, e elle sup(lican)te fora fogirfto de noite, e logo tanto q(ue) o sou- 
bera cõ toda a djljgencia as fora fóra busquar, e dentro e tres dias as 
tornara a préder todas tres por sua jndustria, p(e)lo q(ue) me pedia, lhe 
perdoase ljurem(en)te a culpa q(ue) no caso tjuera, po(r) ser home 
pobre, e R(eceberi)a m(er)ce, e v(is)to seu Requerjmeto, e hu parese 
cõ meu passe, ey p(or) be, se asj he, de lhe p(er)doar a culpa de lhe 
fogire as presas p(e)lo modo q(ue) declara v(is)to o q(ue) alega, e isto 
ljvrem(en)te, y(is)to como as tornou a préder por sua jmdustria é lix- 



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CIGANOS PORTUGUESES 



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(bo)a a xbiij 0 de junho de b c 1 Riij*, e po(r) tanto vos mando etc. é 
forma; e leua a clausulla da jmmonjdade da jgreja. el Rey nosso 
s(enh)or a mãdou p(e)los d(outo)res Amt(oni)o dalmejda, e dy(og)o 
lamejra etc. Amt(oni)o de pauia a fez e lix(bo)a ao derad(ei)ro de ju- 
nho de b° 1 Riij 0 ' e eu fr(ancis)co mendez pauia a fez escreuer. 
(D. Felippe i, Liv. xiv de Legitimações e perdões, fl. 200 v.). 

XXIX. — Dom fellipe etc. faço sab(e)r que ant(oni)o camello, ca- 
cerejro na villa dobjdos, me enujou dizer per sua petição q(ue) temdo 
a b(altas)ar do souto, çigano e a m(ari)a sua molher e outras ciganas 
por lhes acharé e poder hú macho furtado ou hua mulla, p(e)la q(ua)l 
culpa sairá a dita m(ari)a cõdenada por s(ente)nça en dez anos de de- 
gredo fora do R(ei)no, e açoutes, e os mais cõdenados nas p(e)nas con- 
teudas na dita s(ente)nça, e po(r) a dita m(ari)a ftdar prenhe lhe ti- 
rara os feros, e dahy a poucos dias fogira, e a tornara a preder, como 
constaua da certjdão que offerecia; E po(r) quãto o sup(lican)te he 
pobre, me pedia, lhe perdoase a culpa da dita presa, e R(eceberi)a 
merçe. E v(is)to seu Req(ueri)m(en)to ey p(or) be, e me p(ra)z, v(is)- 
to húu parece cõ huu meu passe, de perdoar ao sup(Ucan)te a culpa 
de lhe fogir a presa q(ue) declara v(is)to como a tornou a preder 
po(r) sua Industria, e isto liurem(en)te v(is)to o q(ue) alega, e po(r) 
tãto vos m(an)do etc. na forma. El Rey uosso s(enh)or o m(an)dou 
p(e)los doutores ãt(oni)o da gama, e g(asp)ar de fig(eire)do etc. felli- 
pe da costa a fez é lix(bo)a a xx de f(e)u(erei)ro de m b° lxxxiij. JoS 
da costa a fez escreuer. 

(D. Felippe i, Liv. xv de Legitimações e perdões, fl. 65 v.). 

XXX. — Dom Phillipe etc. faço saber q(ue) heytor quatrim me 
enviou dizer p(or) sua petição q(ue) soçedendo hua briga em nov(emb)ro 
do anno p(assa)do de lxxxb cõ hus çiganos, acodira o juiz do crato, e 
p(or) saire feridos tres ou quatro çiganos, hachara culpado hu d(o- 
ming)os dias, e prendendoo o entregara a elle sop(lican)te, e elle so- 
p(lican)te o entregara a hu v(icen)te ra(art)iz, e sendolhe p(or) o juis 
pedido o preso elle o pedira ao quadrylh(ei)ro o q(ua)l o deixara fu- 
gir, e dito D(oming)os dias estauão liures p(or) lhe eu p(er)doar elle 
pedia q(ue) ouuese a tudo resp(ei)to, e lhe p(er)doase a culpa do caso, 
e R(eceberi)a M(erce). E visto seu Req(ue)rim(en)to e hum pareçe 
cõ hu meu pase, ey p(or) be, e me p(ra)z, se asy he, e ahy mais não 
ha, de p(er)doar ao çop(lican)te a culpa de não Entregar o preso p(or) 
o modo q(ue) declara, e pagará í r(ei)s p(ar)a a piedade, e p(or) os 
pagar vos mando etc. na forma. El Rej noso s(enh)or o mandou pál- 
ios Doutores M(elchi)or do amarai e Ant(oni)o da gama etc. Andre 
da costa a fez é lix(bo)a a xix de Março de m. b° lxxxb. g(asp)ar ve- 
lho a fez escreuer. 

(D. Felippe i, Liv. xv de Legitimações e perdões, fl. 235). 

XXXI. — Dom felipe etc. faço sab(e)r q(ue) thome gaf çia, m(o- 



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rad)or na Cidade de portalegre me enviou dizer p(er) sua petição 
q(ue) elle fora acusado p(e)la just(iç)a a Reueria p(or) se dizer ser 
culpado na morte de m(ari)a de Vargas cigana e p(or) a s(ente)nça 
junta fora condenado em dous annos de degredo p(ar)a África, e não 
se posera em livram(en)to p(or) andar absente fora do R(ei)no sê sa- 
ber ser culpado na dita morte, e p(or) q(ue) não tinha parte, me pe- 
dia lhe p(er)doa8e os ditos dous annos de degredo, e R(eceberi)a 
m(erce). E visto seu Req(ue)rim(en)to e hu pareçe cõ hu meu Passe, 
ey p(or) b6, e me p(ra)z, se assy he, como o sop(lican)te Diz, e mais 
não ha de lhe p(er)doar os dous annos de degredo em q(ue) foj con- 
denado p(er)a Africa p(el)a culpa da morte de q(ue) faz menção p(e)l- 
lo modo que declara v(is)to o q(ue) alega e o t(em)po e q(ue) pede 
este p(er)dão, e pagara xx c(ru)z(a)dos p(er)a a piedade, e os pagar 
vos mando etc. El Rej nosso s(enh)or o mandou p(e)los doutores Da- 
miam daguiar, e m(anu)el de sousa etc. Ambrosyo daguilar o fez c 
lix(bo)a a xbij dabril de m b° lxxxbij. Lucas V(iei)ra a fez escreuer. 
(D. Felippe i, Liv. xv de Legitimações e perdões, fl. 253). 

XXXII. — Dom sebastião etc. faco saber q(ue) p(er)o m(art)i(n)z 
grego m(orad)or na villa de moura he preso na cadea delia me eujou 
dizer que delle denudara hu eytor mendez sapat(ei)ro dizendo q(ue) 
lhe emtrara na sua allcaçarja e lhe furtara hu lombeyro de solas, e 
p(or) ha parte ho não q(ue)rer hacusar o fora p(e)la Just(iç)a, he po(r) 
s(ente)nça da Relação sahyo condenado com baraço he preguão (pe)la 
vjlla, em hu verão p(er)a guales, me pedya lhe cumutase ho baraço 
he preguão no mais degredo q(ue) ouuese po(r) meu seruiço, e R(e- 
ceberi)a m(erce), E v(is)to seu Requerjm(en)to, ey p(or) bem de lhe 
cumutar a pena vyl de baraço he preguão p(e)la villa em hu ano ve- 
rão de guales, E po(r) tãto vos mãdo etc. na forma dada é lix(bo)a 
a xxxj de julho el Rey ho mandou p(e)los doutores paullo a(fons)o he 
p(er)o barbosa etc. ambrosyo dagujar a fez é lix(bo)a de mil b° lxxbij 
anos Roque v(iei)ra a fez screuer. 

(D. Felippe i, Liv. xvi de Legitimações e perdões, fl. 61 v.). 

XXXIII. — Dom fellipe etc. faço saber que Jorge f(ernand)ez, e 
g(asp)ar dellgado, m(orado)res na villa de mõtemor o nouo me em- 
viarão diser que elles serujâo de coadrjlhjros na dita villa este pre- 
sente ano e o Juis delle querendo yr corer o termo os leuara cõsygo, 
e prendera hu sygano, o quall mãdou atar as mãos detrás, e atado 
lho emtregara p(er)a que o trouxesem a cadeya da dita villa, e semdo 
as des oras da nojte, o dito cigano tiuera arte cõ q(ue) lhe fogira, e 
ora elles / sop(lican)tes se temjão que o Juis os prendese, e procedese 
cõtra elles p(e)la dita fogida na q(ua)l elles sop(lican)tes não tiuerão 
mallicia, a e dito cigano não tinha mais cullpa que por ãdar no Rej- 
no, posto que ao t(em)po da prjsão se pos em defeza sem armas, me 
pedião a dita cullpa de lhe fogir o cigano, e R(eceberi)am mercê; e 
v(is)to seu Requerjm(en)to, he hu parece cõ ho meu pase, ey por bem, 



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CIGANOS PORTUGUESES 



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e me pras, se asy he, como dizem, e mais não ha de lhes p(er)doar a 
cnllpa de lhes fugir o cigano que lhes foj emtregue p(e)io Juis, sen- 
do coadrilhejros, de que fazem menção p(e)lo modo que declarão, v(is)- 
to o q(ue) alegão, e pagara cada hu mill r(ei)s p(er)a piedade, e por 
os ter pagos ao R(ecebed)or vos mãdo etc. na forma ell Rej noso s(e- 
nh)or o raãdou p(e)los d(outo)res diogo lam(ei)ra, e Jeronjmo p(erei)- 
ra de sa etc. christouâo calldejra a fes em lix(bo)a a vinte e tres de 
marco de m. b° IRij Jo(a)m da costa a fes esp(re)ver. 

(D. Felippe i, Liv. xviu de Legitimações e perdões, fl. 228). 

XXXIV. — Dom feíipe etc. faço saber q(ue) fr(ancis)co f(e)r(nan- 
d)ez, juis do lugar da lapa, termo da uilla de santarem me enuiou dy- 
zer per sua petição q(ue) ao dito lugar forão ter sete siganos e qua- 
tro syganas no mes de mayo de nouemta e seis, e per lhe dizerem 
q(ue) trazião hu pouco de fato furtado, os quizera premder, e elles se 
pozerão cõ armas, e lhe resistirão, e se acolheram, e ficarão tres si- 
ganas, e temdo as assy fatengas (?) per hus homcs q(ue) ahy uierão 
ter de fora dizerem q(ue)o fato q(ue) os syganós trazião furtado era 
seu, e húa das syganas dizer q(ue) sabia omde os syganos tinhão pos- 
to o dito fato furtado, e o yria mostrar as partes, e elle sop(lican)te 
a deixou yr com elles, e ella lhe deu o fato, e não tornara mais, e 
elle sop(lican)te leuou as outras duas sjganas reteudas ante o juis de 
fora da dita villa de santarem, e comtando lhe o caso, o dito juiz o 
mãodara premder, e o tinha prezo por deixar yr a dita sjgana, e elle 
sop(lican)te era hu home m(ui)to velho, q(ue) passaua de setenta an- 
nos, me pedia, lhe perdoasse a culpa q(ue) no dito caso podia ter ; e 
v(is)to seu requerim(en)to, e hu parece com hu passe, ey por bem, e 
me pras, se assy he, de perdoar ao sop(lican)te a culpa q(ue) tinha 
em soltar a dita sygana de q(ue) faz meção seruindo de juis visto o 
q(ue) alega, e a ymformação do C(orreged)or, e isto liurem(en)te, vos 
mãodo etc. em forma. El Rey nosso s(enh)or o mãodou pollos douto- 
res belchior damaral, e damião daguiar etc. christouâo calld(ei)ra a 
fez em lix(bo)a a uimte oyto de yunho de nouenta e hu joâo da costa 
a fez escreuer. 

(D. Felippe i, Liv. xix de Legitimações e perdões, fl. 63 v.). 

XXXV. — Dom felipe etc. faco saber q(ue) Ant(oni)o g(onça)l- 
(ue)z, almocreue, m(orad)or na uilla de nissa me enuiou dizer per sua 
petição, q(ue) seruimdo de cacereiro na dita uilla, lhe fora emtregue 
hua sigana per nome m(ari)a maldonada, por se dizer auer eido com- 
prendida em hu furto de certo d(inhei)ro, per não ter parte e estar 
ja sentemceada em degredo para fora da uilla e termo e faltar somen- 
te a deligecia q(ue) se auia de fazer do pregão pollo uilla, a tynha 
sem ferros na casa de riba, domde fogira sem mais ser achada, fazem- 
do m(ui)ta deligencia, e per q(ue) o sop(lican)te era casado, e pobre, 
e amdaua amorado me pedia auendo Resp(ei)to a não auer parte, lhe 
perdoasse a culpa de lhe fogir a dita sigana, e R(eceberi)a mercê; 



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REVISTA LUSITANA 



E v(is)to seu Requerim(en)to e hu pareçe com hu passe, ey por bem, 
e me praz, sse assy he de lhe perdoar a culpa de lhe fogir a sigana 
presa de que faz meçam semdo cacereiro pollo modo q(ue) declara 
u(is)to o q(ue) alega, e pagara dous mil r(ei)s para as desp(es)as da 
casa do desp(ach)o do desembargo do paço, u(is)to outrossy como nfto 
tem parte e por q(uan)to ja pagou os ditos dous mil r(ei)s ao recebe- 
dor das ditas desp(es)as como se uio [se uio] per hú seu c(onhecimen)- 
to, e per outro do escriuâo de sua Reseita de como nella ficâo carre- 
gados vos mâodo etc. em forma. El Rei nosso s(enh)or o mftodou pol- 
los doutores dy(og)o da fonsequa, e jeronimo pereira de saa etc. chris- 
toufto calld(ei)ra a fez em lix(bo)a a quatro de março de mil quynhé- 
tos noueta e sete lucas uieyra a fez escreuer. 

(D. Felippe i, Liv. xix de Legitimações e perdões, fl. 123 v.). 

XXXVI. — Dom felipe etc. faco saber q(ue) joao m(art)i(n)z, ci- 
guano 1 me emuiou dizer q(ue) elle fora comdenado em dous ânuos de 
degredo para amgolla com baraço e pregoo polia culpa de ladrfto, 
como consta da s(ente)nça junta, e per que elle sop(lican)te era casa- 
do, e tinha simco filhos pequenos, e sua maj muito velha, e doemte, 
e auendo de yr a Amgolla perecerião a mingoa, e desemparo me pe- 
dia ouuesse per bem de lhe comutar os ditos dous annos de degredo 
para as gales, e R(eceberi)a mercê; E u(is)to seu Requerim(en)to, e 
hu parece com hu passe, ey per bem, e me praz, se assy he, como diz, 
de lhe cumutar os dous annos de degredo em q(ue) esta cõdenado 
p(er)a amgolla polia dita culpa, em dous annos para as galles u(is)to 
o q(ue) allega, pollo q(ue) vos mando Em forma. El Rey nosso s(e- 
nh)or o mâodou pollos doutores jeronjmo p(e)r(eir)a, e damifto daguiar 
etc. cristouão cald(ei)ra a fez em lix(bo)a a uinte e seis de nouembro 
de quinhentos nouenta e noue lucas uieyra a fez escreuer. 

(D. Felippe i, Liv. xix de Legitimações e perdões, fl. 370 v.). 

XXXVII. — Dom felipe etc. faco sab(e)r que Amt(oni)o f(e)r- 
(nande)z m(orad)or na cidade de lejria me eujou dizer p(er) sua peti- 
çam q(ue) seruindo elle de cacerejro na dita cidade, lhe forâo etre- 
ges presos dous siagos (sic) por se dizer fazere hu furto de pouca 
cousa, de q(ue) nâo tinhfto p(ar)te, se nfto a just(iç)a, os quaes lhe 
fogirfto da dita cadea, e por os ora ter presos po(r) sua jndustria 
p(e)lo q(ue) me pedia, lhe p(er)doase a dita fogida, e R(eceberi)a 
m(erce) e v(is)to seu Requerjm(en)to, e hu pareçe, ey p(or) be, e me 
p(ra)z de lhe p(er)doar a culpa q(ue) tem na fogida dos dous siganos 
da cadea, liurem(en)te, v(is)to como sam já tornados a cadea p(er) 
sua jndustria, p(e)lo q(ue) vos mando etc. e forma, el Rey nosso s(e- 
nh)or o mftdou p(e)los doutores Amt(oni)o da gama, e damjfto dagujar 



i Este registo tem escripto á margem noutra letra : Jodo martins cigarra 
Na duvida inseriu -se o documento na collecçâo. 



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CIGANOS PORTUGUESES 



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etc. felipe da costa o fez é lix(bo)a a xxbij de jan(ei)ro anno de mil 
b° lxxxiij 0 Jo(a)m da costa a fez escreuer. 

(D. Felippe i, Liv. xx de Legitimações e perdões, fl. 11 v.)- 

XXXVIII. — Dom felipe etc. faco sab(e)r que Amt(oni)o luis, pre- 
so na cadea de montemor o velho me êujou dizer p(er) sua petiçam 
q(ue) sendo elle cacerejro na dita villa, e tendo os presos a bom re- 
cado, e jndo cõ sua molher húa noyte p(er)a lhe lançar os ferros, os 
presos saltarão cõ elles e os afogarão e tratãdo m(ui)to mal, e arran- 
cara hua trauesa, e fogirão cinco delles etre os quaes era hú cigano 
q(ue) era preso por morte de hú home outro cigano, e hú bertolameu 
g(onça)l(ve)z e simão trauasos q(ue) era preso po(r) hua Resistência 
de hu mejrçnho e dj(og)o ponçes po(r) tomar hua eguoa no campo, e 
eytor Rabello q(ue) era preso p(e)lo mesmo, e po(r) q(ue) o cigano o 
tornara a préder e tinha preso p(er)a se delle fazer just(iç)a, e berto- 
lameu g(onça)l(ve)z tinha p(er)dão da fogida, e estaua e liuram(en)- 
to, e os tres q(ue) ficarão, as p(ar)tes lhe p(er)doarão, como constou 
dos perdões q(ue) oferèçeo, me pedia, lhe p(er)doase a culpa, q(ue) 
tiuera na fogida, e R(eceberi)a m(erce); E v(is)to seu Requerim(en)- 
to, ey por bê, e me p(ra)z, se asj he de lhe p(er)doar a culpa que e 
sua petiçam declara, v(is)to os p(er)dões das p(ar)tes que offereçeo e 
o mais q(ue) alegua, e êformação q(ue) se ouue p(e)lo prouedor da co- 
marq(u)a, e pagara dous mil r(ei)s p(er)a a piadade, e po(r) quanto 
os ja tem pagos vos mando etc. e forma, el Rey nosso s(enh)or o mã- 
dou p(e)los d(ou)tores p(er)o barbosa e J(e)r(oni)mo p(erei)ra de saa 
etc. felipe da costa a fez e lix(bo)a a xxxj de dez(emb)ro no anno de 
m. b° lxxxiij Jo(a)m da costa a fez escreuer. 

(D. Felippe i, Liv. xx de Legitimações e perdões, fl. 18). 

XXXIX. — Dom felipe etc. faco sab(e)r que p(er)o nog(uei)ra, 
m(orado)r na villa das alcáçovas me êujou dizer q{ue) s(er)ujndo de 
alcaide, e caçerejro, lhe forão etregues tres siganos po(r) lhe ser acha- 
do certo fato q(ue) tinhão furtado, e tendoos presos a m(ui)to bom Re- 
cado, e sendo elle sup(lican)te fora a fazer certas diligencias, limarão 
os ditos siganos os feros de man(ei)ra q(ue) dous delles fogirão, e aco- 
dindo a molher delle suplicante a dita fogida grjtando, arremetera a 
ella hua cigana, e lhe lançara a mão a garganta, e de tal man(ei)ra 
a persegujra, q(ue) não som(en)te lhe épecBra o gritar mas a leixa- 
ra m(ui)to maltratada, e mea afogada, e fizera m(ui)tas deligencias e 
busq(u)a dos ditos dous siganos se núqua os poder achar, e o furto 
era de cõthia de dez -J--J- do » 1 e a p(ar)te a quê se furtara estaua satis- 
f(ei)to e lhe tinha dado p(er)dão, me pedia lhe p(er)dase a culpa é 
q(ue) ecorrera p(e)la dita fogida, e R(eceberi)a m(erce), e v(is)to seu 
Requerjm(en)to, e hú parese cõ meu passe, ey p(or) bé, e me p(ra)z, 
se asy he, como o sup(lican)te diz de lhe p(er)doar a culpa da fogida 



i Cruzados. 

REV. LTTS1T., VOl. III, faSC. 4. 



3 



322 



REVISTA LUSITANA 



dos presos de q(ue) faz meção p(e)lo modo q(ue) declara, v(is)to o 
q(ue) alega, e p(er)dão da p(ar)te q(ae) oferece, e pagara dez ff* 0 * 
p(e)ra a piedade, e po(r) os ter ja pagos vos mando etc. e forma, el 
Rej nosso s(enh)or o mãndou p(e)los d(ou)tores J(e)r(oni)mo p(erei)ra 
de saa, e belchior do amarai etc. fr(ancis)co de pauia a fez em lix(bo)a 
a xxiij de feu(erei)ro de m. b° lxxxix e eu fr(ancis)co nunez de pauia 
a fez. 

(D. Felippe i, Liv. xxi de Legitimações e perdões, fl. 249). 

XL. — Don\ felipe etc. faço sab(e)r que o prouedor, e jrmãos da 
m(isericord)ya da villa das alcaçouas me évyarão dizer q(ue) vindo 
hús homes da villa de grádolla em segujm(en)to de hú alexandre, 
moço menor, cigano, per certo furto q(ue) disserão aver feito, e o pre- 
derfto na dita villa das alcaçouas, e andando cõ hú grjlhão nos pees 
p(e)la Rua da cadea po(r) quanto na dita villa não avia cadea forte, 
húa noite vinte e sete de dez(em)bro deste p(re)sete anno da porta da 
mesma cadea fogira cõ o dito grilhão nos pe^, e o alcaide fora e seu 
segujmento, e o prSdera na cidade devora e o trouxera a dita villa 
p(er)a se liurar da fogida e depois de liure ser leuado a villa de gran- 
dolla donde fizera o delito e po(r) q(ue) o dito moço era pobre, e não 
tinha de q(ue) se sostentar, e era do Rol da dita m(isericord)ya, me 
pedião lhe p(er)doase a dita fogida e R(eceberi)a m(erce) E v(is)to 
seu Requerjm(en)to e hú parese cõ meu passe, ^y p(or) bê, e me 
p(ra)z, se asy he, como dizem de perdoar ao moço de q(ue) faze men- 
ção a culpa da fogida da cadea p(e)lo modo q(ue) declarão, v(is)ta o 
q(ue) alegão, e como he preso dos da m(iserícord)ya, e isto ljurem(en)- 
te p(e)lo q(ue) vos mando etc. e forma ; e leua a clausulla q(ue) o dito 
alexandre tome carta de seg(u)ro. el Rey nosso s(enh)or o mãdou p(e)- 
los d(outo)res damjão dagujar, e m(anu)el de sousa etc. belchior pin- 
to a fez em lix(bo)a a nove de majo de m. b° lxxxix J(e)r(oni)mo da 
costa a fez escreuer. 

(D. Felippe i, Liv. xxi de Legitimações e perdões, fl. 277 v.). 

XLI. — Dom felipe etc. faco sab(er) que amtonyo daruellos, all- 
cayde e cacer(ei)ro na villa dallmodouar me evjou dizer q(ue) ha elle 
lhe fogyrão dous presos por cullpas de ladroees, os quaees hu delles 
hera syguano, e se chamaua luis mendez, e outro bertolameu a(fons)o 
as quaees herão as seg(uin)tes : o syguano por furtar húa burra a 
quall loguo leuou a seu dono, e não quysera delle nada, e o outro por 
que, semdo pastor, vemdera duas ovelhas, e por a culpa ser leue e 
elle prouar o c(on)tr(ari)o sahyra na terra solto he liure, os quaes pre- 
sos lhe cortarão húa corrente, em que estauão, por a corremte diguo 
cadea ser m(ui)to fraca, e fizera deligencia p(er)a os tornar a prem- 
der, ha homde fora achar o syguano c laguos preso e ho ebarguou 
p(er) hú precatorjo q(ue) leuaua, como constaua de húa certydão, e 
o outro estaua liure de todo, e não havya parte nenhúa, me pedya, 
lhe p(e)rdoase a cullpa q(uo) no caso podya ter, e R(eceberi)a m(er- 



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CIGANOS PORTUGUESES 



323 



cê); E v(is)to seu Requerjm(en)to e hú parece cõ ho meu pase ey p(or) 
bem, e me p(ra)z de p(er)doar ao sup(lican)te a cullpa de lhe fogyrem 
os presos p(e)lo modo que declara, v(Ls)to lio que alegua, e Imforma- 
çfto do ouujdor dalluerqua e paguara mill r(ei)s p(er)a p(ieda)de, que 
paguou ao R(ecebed)or delia, e forão sobre elle p(er) seu scprivfto ca- 
guados ê Re(ce)pta, vos mamdo etc. na forma, el Rey ho mamdou 
p(e)los doutores mellchyor damarall, e damjfto daguyar etc. fr(ancis)- 
co nunez de pauja a fez é lix(bo)a a xj de jan(ei)ro e o pase a biij- 
delle de m. b c IRiij. 

(D. Felippe i, Liv. xxru de Legitimações e perdões, fl. 3 v.). 

XLH — Dom felipe etc. faco saber que m(auu)el diaz, allcayde, 
e cacereyro que foy na villa dallvalade do campo dourique me éujou 
dizer que temdo elle preso e seu poder a hú fr(ancis)co ali vez, sy- 
guano, por amdar por o Reyno. e temdoo preso no termo da d(i)ta 
villa homde chamauâo as hermjdas, e por se harmar húa gramde brj- 
gua lhe fogira das maaos o d(i)to ciguano, e ell sup(lican)te ouuera 
alluara de busqua p(er)a o busquar e por v(er)tude delle ell mesmo 
P(*r) sy o tomara a premder em sfto tiaguo de cacem, e o etreguara 
preso na cadea da d(i)ta villa dallualade como constaua da certjdâo 
que oferecia, me pedya, lhe p(er)doase a cullpa de lhe fogir a d(i)to 
ciguano, e R(eceberia) m(ercê) ; E v(is)to seu Requerjm(en)to e hu pa- 
rece cõ ho meu pase, ey p(or) bem, e me p(ra)z de p(er)doar ao su- 
p(lican)te a cullpa de lhe fogyr o preso, sédo allcayde e cacer(ei)ro, 
de que faz memçao p(e)lo m(od)o que declara v(is)to ho q(ue) hale- 
gua, e isto liurem(en)te, v(is)to como o premdeo p(er) sua Imdustrja 
p(e)lo que vos mamdo etc. na forma, el Rey ho mamdou p(e)los dou- 
tores dj(og)o lameyra he amt(oni)o dallmeyda etc. christovfto calld(ei)- 
ra a fez é lix(bo)a a b de abrjll de m. b c IRej jofto da costa a fez spre- 
ver. 

leva clausola que este p(er)dao lhe nfto valera chamftdose ho 
d(i)to preso as ordees ou Imunjdade da Igreja. 

(D. Felippe i, Liv. xxin de Legitimações e perdões, fl. 126 v.). 

XLIIL — Dom Phellipe etc. faço saber q(ue) Antonio frajão pre- 
so na cadea da Villa de Setuuel me eviou dizer per sua petiça q(ue) 
ele fora cõdenado p(er) s(ente)nça da rellaçâo em quatro anos de de- 
gredo para a africa pella culpa da morte de hu João baptista, Ciga- 
no, preso q(ue) então era na dita cadea; dos quaes quatro anos tinha 
cõprido dous, como constaua da certidã q(ue) ofereçeo, e por ele não 
cõprir os dous annos q(ue) lhe faltava, o prederâ na dita cadea, onde 
estaua, auia perto de tres meses, e Por q(ue) quando o prendera an- 
daua p(er)a auer meu perda dos ditos dous anos por ser pobre e na 
ter parte, me pedia lhe Perdoase a culpa de na acabar de cõprir o dito 
degredo, e R(eceberi)a a m(ercê): E v(is)to seu Requerim(en)to e hú 
parece cõ hú pase, Ey por bem, e me praz, se asi he, como diz, e 
mais na ha de lhe perdoar a culpa de ser achado no lugar do delicto 



324 



REVISTA LUSITANA 



de q(ue) faz meçã pello modo q(ae) declara, v(is)to o q(ae) alega, e 
como tem comprido doas anos em africa dos quatro é q(ue) foi con- 
denado pella culpa da morte de q(ue) faz mêçã, e Irá comprir os dons 
anos q(ue) lhe faltão e quatro meses mais alem deles no dito degredo 
dafrica, e Irá comprir o dito degredo dentro de hú mes, enfto cum- 
prindo asi este perdâ lhe nft valerá pello q(ue) vos m(an)do etc. na 
forma EIRey nosso s(enho)r o m(an)dou pellos doutores diogo da(fon)- 
seca, e J(e)roni)mo p(erei)ra de saa etc. cristouão cald(ei)ra a fez é 
l(i)x(bo)a a sete de majo de B c Noventa e ojto lucas v(iei)ra a fez es- 
creuer. 

(D. Felippe i, Liv. xxm de Legitimações e perdões, fl. 199 v.). 

XLIV. — Dom felippe etc. faço saber que Amtonio frajam da Vil- 
la de setuuel me Sujou dizer que elle fora condenado per sêtença da 
Relaçam em quatro annos de degredo pera africa pela culpa da mor- 
te de hú joáo^baptista, cigano, prezo que então era na cadea da dita 
villa dos quaes quatro annos tjnha cõprido dous e andando pera aver 
meu perdão dos outros dous annos fora prezo na dita cadea, de que 
ouuera meu perdão cõ mais quatro meses, e que dentro de hu mes 
fosse cõprir o dito degredo e pelo dito perdão fora solto como se ue- 
ria da sentença que offereçeo, e por que era pobre, e nos dous annos 
que amdara e africa, padecia muitas necessidades, e não tinha parte, 
me pedia, ouuesse por bê de lhe perdoar os dous annos e quatro me- 
ses q(ue) tinha po(r) cõprir, e R(eceberi)a mercê); e v(is)to seu Re- 
querjm(en)to e hu parese cõ hu passe, ey p(or) bê, e me p(raz), se 
asy he de lhe p(er)doar os dous annos e quatro meses e q(ue) foj cõ- 
denado p(e)la culpa da morte de q(ue) faz mêçam e ser achado no lu- 
gar do delicto p(e)lo modo q(ue) declara, v(isto) o q(ue) alega, e como 
não tem e pagara dez mil r(ei)s p(er)a húa obra pia q(ue) eu nomear 
e po(r) quanto os ja tem pagos a dy(og)o de salis a quê os mâdej 
êtreguar p(er)a a dita obra pia, vos mâdo etc. em forma, el Rej nos- 
so s(enh)or o mãdou p(e)los d(outo)res damjão dagujar, e dy(og)o da- 
fonseq(u)a etc. christouão cald(ei)ra a fez ê lix(bo)a a dez doutubro 
anno de i. b c lRbiij 0 lucas v(iei)ra a fez escrever. 

(D. Felippe i, Liv. xxiv de Legitimações e perdões, fl. 171). 



P. d' Azevedo. 



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L1NGCA0EM PofuliAB í>í VALPAÇOS 



325 



LJNGUAGEM POPULAR DE VALPAÇOS 

(Cartas ao redactor da Revista Lusitana) 



IH 

Nesta minha terceira carta à cêrca do sub-dialecto valpacense 
completarei as informações que a seu respeito ficaram consignadas 
nas duas anteriores (Rev. Lusit., n, 256-260), embora o assumpto nfto 
fique ainda exhausto. 

Â) Phonologia 

1. ou = ôa. 

2. ao = d. Ex. : Fui ao Porto, elle louva-o, dizem-se : Fui ò Porto, 
el lôtivò. 

3. ui nfto se nasaliza em muito; perde a subjunctiva i e nasali- 
za-se u: tnunto. Nasaliza-se, porém, no mpnosyllabo ruim, que ás ve- 
zes também se ouve rôi, i. é, oi nasal. 

4. o em óbo, ólho, rfsso, nóbo, pórco, etc, e nas terminações dos ad- 
jectivos em -óso, é egual a o castelhano. 

5. a, e e o antes de consoante, nasal sfto em regra fechados. 

6. e de imbêja é fechado. 

7. ch é consoante palatal explosiva, que nunca se confunde com x. 

8. Nfto ha v. «No norte de Tràs-os-Montes creio mesmo nfto exis- 
tir o som v». Disse-o v., fallando da linguagem popular de Parada de 
Infanções (Rev. Lus., n, 113), e a minha observação o tem sempre 
egualmente confirmado. 

9. b, d, g entre vogaes sfto continuas. 

10. es inicial reduz-se as. 

1 1. Na próclise não diz-se num. 

12. Em phrases como: vou á aula, lê o livro, o hiato annulla-se 
intercalando-se um i: vou á-i-aula, lê-i-o livro. 

13. A distincçfto constante entre os valores de g e s surdo, de z 
e s sonoro, que eu reputo, acompanhando o sr. Gonçalves Vianna, como 
característica phonetica do dialecto trasmontano, vae desapparecen- 
do nesta villa; facto de que o povo tem consciência, pois diz de pes- 
soa, que nfto faz esta distincçfto, ser cidadosa. 

B) Morphologia 

14. A fórma feminina de só é sóa. 



32é 



&EVISTA LUSITANA 



16. Por lhe diz-se le. Os pronomes el (elle) e aquel (aquelle) fa- 
zem no plural : eis, agueis. 

16. A fórma feminina do artigo indefinido é ua. 

17. a) No modo indicativo dos verbos em -ar a 1 * p7pl. do pre- 
sente é egual à 1/ p. pl. do pretérito. Terminação : -âmos. b) O pre- 
sente do conjunctivo do verbo dar é assim, ainda entre pessoas illus- 
tradas: deia, deias, deia, demos, deis, deiam. 



Alustrar, relampaguear. 
Alustro, relâmpago. 
Ancho, largo. 
Anohura, largnra. 
Araujo ou arujo, argueiro. 

Arrebanhar, arranhar. O sr. F. Adolpho Coelho, no seu Dicc. 
man. etym. diz de arranhar: «Diez apresenta diversas conjecturas ety- 
mologicas, ne nhum a das quaes satisfaz». No termo trasmontano pare- 
ce entrar o \Junha; os prefixos a-\-re encontram-se juntos noutras pa- 
lavras: arrepanhar, arrepelar, etc. 

Azedem, espécie de herva. Cp. o provérbio : 



Bardar, vedar com bardo. 
Bardo, sebe. 
Belourar, rolar. 
Bô ! interjeição. 

Bocha, bolha lymphatica. Cp. bochinca em as Notas sobre a lin- 
guagem vulgar de Aldeia de Santa Margarida, pelo sr. A. Alfredo Al- 
ves (Rev. Lus., u, 246). 

Boquejar, servir-se do boquejo. 

Boquejo, refeição entre o almoço e o jantar. 

Buzilhão, bossa sanguinea no craneo. Em Valpaços ha uma eira 
chamada a Eira dos buzilhões, por causa da semelhança que apresenta. 



C) Vocabulário 



Aboucar, ensurdecer, v. a. 
Aohada, coima. 

Agrão, agrião. Cp. a cantiga popular : 



No alto d'aquella serra 
Corre agua, nascem agrões. 



Já se não pagam finezas 
Senão com ingratidões. 



O fiolho e o azedem 
A' roca vem. 



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LINGUAGEM POPtJLÀft DE VALPAÇOÔ 



327 



Càcaràcá, imitação do canto do gallo. Coisas de càcaràcá, coi- 
sas sem valor. A explicação d'esta phrase, geral no país, encontra-se 
no seguinte conto, muito conhecido aqui: A um juiz, que tinha de de- 
cidir um pleito, ofereceu uma das partes, para o subornar, um gallo ; 
a outra parte, com o mesmo fim, offereceu-lhe uma ceva. O juiz deci- 
diu o pleito a favor de quem lhe deu a ceva. O do gallo, nada conten- 
te, foi ter com o julgador e perguntou-lhe por que razão déra a sen- 
tença contra elle. «Que queria você que eu fizesse — disse o juiz — 
se você me trouxe uma testemunha de càcaràcá e o outro uma de 
ronca 

Oaohopé (andar a — ), andar num só pé. Cp. fr. marcher à cio- 
che-pied. 

Calço, muro que sustenta o socalco. 
Oanear, cabecear com somno. 

Oantarinha ou oantarola, bolha de ar à tona de agua. 

Oarabunha, caroço. Cp. carunha (Rev. Lus., i, 207). 

Oardenho, palheiro, casebre. 

Oarrachola (â— ), ãs cavalleiras. 

Oaruma, agulhas de pinheiro. 

Oastlnoeira ou castinceiro, castanheiro bravo. 

Oeva, porco cevado. 

Ohor, flor. Provérbio referido ã plantação da oliveira : 
No tempo da chor 

E' cortar e pôr. (Cp. Sev. LusiL, n, 371). 
Dada, engorgitamento mammario. 

Eido, sitio, logar. Ex. : Este é o meu eido, perdeste o eido. Nfto ha 
dúvida nesta accepção, como julga o sr. Gonçalves Vianna (Rev. Lus. 9 
i, 210, s. v.). Vid. Rev. Lus., in, 62, s. v.). 

Encedouro, correia que liga o pirtigo á mangueira do malho. 

Ervedeiro, medronheiro. Num local denominado Tapada dos 
Ervedeiros (concelho de Villa Pouca de Aguiar), é que foi assassinado 
Macdonell. 

Êrvedo, medronho. 

Esoarabanar, chover, sendo a chuva acompanhada de vento. 
Esfoura, diarrhea. 

Espoldrar, fazer a primeira poda da videira, fazer a alimpa. 
Fazenda, prédio rústico. 

Piolho, funcho. (Vid. Rev. Lusit., n, 269. V. neste voe. azedem). 
Garabano, instrumento agrícola para regar. Consiste num vaso 
de lata com um longo cabo de pau. 
Garabito, aldraba, ferrolho. 
Gemelgo, gémeo. 

Gràdúra, nome genérico dos legumes, depois de seccos. 
Grillamesa, louva-a-Deus. 

Lama, prado natural. E' frequente no onomástico: Lamas (f. de 



328 



feEVISTÀ LUSITANA 



ErvÕes) e Lama de Ouriço (f. de Alvarelhos), neste concelho; Lamas 
de Orelhão, c. de Mirandella. 

Lameiro, prado natural. De lama -j- eiro. Cp. Rev. Lusit., m, 
63, 74. 

Lavaceiro, intrujão. 

Leituario, amuleto para produzir abundância de leite. 
Louco, viçoso. 
Malho, mangoal. 
Manoebo, veladòr. 

Mangueira, a vara mais comprida do mangoal. S. v. mango 
diz o sr. F. Adolpho Coelho, no seu Dkc. man. etym.: cPau superior 
do mangual, ligado ao cabo ou pertigo por uma correia (B. lat. mani- 
cum)>. Já se viu que esta correia se denomina encedouro. Quanto a 
mango ser o tpau superior», discordo do sr. F. Adolpho Coelho, sal- 
vo o respeito devido ao sábio professor; pois julgo ser a inferior, isto 
é, a vara mais comprida, o cabo, como o indica a significação de man- 
gueira e a própria etymologia da palavra, porquanto é pelo mango ou 
pela mangueira que o mangual se segura. 

Mera, resina. 

Merodeiro, medronheiro. 

Merodio, medronho. 

Merujar, choviscar. 

Mesinha d'el-rei, louva-a-Deus. 

Mirgandeza, idem. 

Molego, pão pequeno de trigo. 

Molete, idem. 

Murar, verbo com que se exp rime a acção do gato, quando está 
à espera dos ratos. Será \fmus ou tfmurus? 

Obrigado, individuo que arremata o fornecimento de carnes 
verdes. Reparei que, se alguém emprega a expressão obrigado no sen- 
tido de grato, emenda logo para agradecido. Durante muito tempo 
ignorei a razão disto. Um dia soube que ella está no trocadilho obsce- 
no a que dá logar o duplo sentido de obrigado (grato e fornecedor) e 
a accepção religiosa de carne, nos inimigos da alma. 

Ouga, alga. Cp. outeiro, outro, poupar, souto. Dictado: «Verde 
como ougas». 

Outrem. E* oxytono. 

Paraleu, coisa extraordinária. 

Paqueta, rapariga para fazer recados. 

Paquete, rapaz para fazer recados. 

Pavia, espécie de pecego. 

Peto, gazophilacio. 

Pírtlgo, a vara mais curta do mangoal. O sr. F. Adolpho Coe- 
lho, no seu Dkc. man. etym., s. v., diz que pírtigo é a vara mais com- 
prida ; no artigo sobre mangueira jà disse a minha opinião. 

Poula, terreno inculto. Quando uma terra fica de pousio, tam- 
bém se diz que fica de poulo. (Cp. Rev. Lusit., m, 64). 



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BENZEDORES E FEITICEIROS 



Puxa, moinha, grança. 

Rôlaxnpo, mudança rápida de temperatura; súbito resfriamento 
após intenso calor. Belampo nada tem com relâmpago, que no dialecto 
se diz alustro. 

Tanha, talha. 

Zinzaro, espécie de cogumelo. 
Zorro, a, filho ou filha natural. 

Valpaços, 2 — xn — 1894. 

Joaquim de Castro Lopo. 



BENZEDORES E FEITICEIROS 

DO TEMPO D'EL REI D. MANUEL 

(8KOUL08 XY-XVl) 



Em resultado da politica centralizadora, levada a cabo com vi- 
gor pelos reis da 2. a dynastia, conservamos nos registos da chancel- 
laria real uma pequena collecçâo de documentos relativos a benzedo- 
res e feiticeiros, e o que é mais notável, algumas fórmulas para ben- 
zer e uma serie de actos de feiticeria, por certo muito innocentes. 

Âs cartas de perdão passadas a alguns indivíduos por benzerem, 
a par de outras de privilégios para empregar igual processo, mostra 
plenamente que esta classe de peritos estava considerada do mesmo 
modo que os médicos e tabelliães : só lhes era permittido o emprego 
da sua arte, quando para isso tinham licença real. 

Áo contrário do que seria de esperar, a creação do tribunal do 
Santo Officio não fez diminuir a principio muito a menção doestes ca- 
sos nos registos das chancellarias reaes, d' onde são tirados os presen- 
tes documentos ; só nos últimos tempos, faltando ao tribunal os chris- 
tãos-novos, se dedicàrão com o maior afinco e pouco proveito à extir- 
pação da feiticeria. 

De 47 livros de registos que ha na Torre do Tombo, em Lisboa, 
pertencentes á chancellaria de D. Manuel, fõrâo extrahidos os docu- 
mentos que se publicam agora. Os outros reinados darão também do- 
cumentos de não menor valor. , 
' No final da collecção irá um appendice contendo alguns casos de 
feiticeria de pouca importância, noticias de jogos, pragas, etc. 

P. d' Azevedo. 



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330 



REVISTA LUSITANA 



I. — Dom manuell, etc. fazemos vos saber que fernftdeânnes, mo- 
rador no logo de vimyeiro, termo d'alcobaça, nos Emviou dizer per 
sua pitiçft, que pudera aver tres annos, ou quatro annos pouco majs 
ou menos, que por dizer hu Joâ da gram que tynha licença por nosa 
carta pera bemzer cõ alguaas palavras de noso sõr dizendo a ele so- 
pricamte que asy tynha saber pera bemzer com outras palavras de 
noso sõr, e que ele sopricante as dise e vsava de as dezer e Rezar 
alguaas pesoas Emfermas e que has palavras, cõ que asy bemzia, 
hera as segujntes : 

«Em nome do padre e do filho e do esperito santo ame. a virge 
«groliosa, samta marya nosa s. ra , nõ pario mays de hu filho soo, e 
«virgé foy no parto e amtes do parto e despoys do parto, e ele por 
«nos morte e paixa padeçeo e sft lomginhos lhe deu húa lamcada no 
«seu verdadeiro lado, Inchou, ne currunyçeo, ne apodreceo, ne as cim- 
cquo chagas que ele por nos padeceo. Por esta santa verdade lhe peço 
«que saya a dor e emfermjdade deste corpo pecador pela sua santa 
«piedade, pater nostre e ave maria a homra de deus e de santa ma- 
«ria». 

e que por bem das ditas palavras per verdade de noso sõr as pe- 
soasReceberia saúde, sem por elo lhe levar premjo algún, segundo nos 
delo fez çerto per tres estormétos de certida e fee de testemunha que 
pareciã todos ser feytos e asjgnados per afonso pirez, publico tabe- 
liam por nos e a vila de turuquell, os dous aos xbij dias do mes de 
majo e hua aos xj dias do dito mes, todos da era presente de mjll e 
qujnhétos e treze annos. Em os quaees se comtinham, amtre as outras 
cousas e elas comtendas, que per as testemunhas forâ dito que hera 
verdade que elle sopricante nõ levava nada por asy bemzer as ditas 
pesoas segundo majs compridamente é os ditos estormétos hera con- 
teúdo. Emviando nos ele sopricante pidir por merçee que lhe perdoa- 
semos nosa Justiça, se nos a ele por Reza de asy bemzer cõ as ditas 
palavras é alguaa maneira hera teudo e obrjgado, e nos vemdo o que 
nos ele asy dizer e pidir Emviou, se asy he como ele diz e Recomta 
e hy majs nõ ha, visto hos estormétos de fee e huu praz me per nos 
asynado e queremdo lhe fazer graça e merçee, Temos por bem e nos 
apraz de lhe perdoarmos nosa Justiça, a que nos ele por Reza de asy 
bemzer cõ as ditas palavras hera teudo e obrjgado, com tanto que ele 
pagasse mjll reaes pera a piedade e por quamto ele logo pagou os di- 
nheiros a frey lujs da costa, noso esmoler, segundo delo fomos çerto 
per hun seu asynado e per outro de marcos estevez, noso capela, es- 
priva do dito careguo, que hos sobre ele caregou Em Receita vos ma- 
damos etc. Em forma, dada Em lixboa aos xxbiij dias do mes de mayo. 
El Rey o madou perdom pedro bispo da garda etc. e pelo doutor dom 
diogo pinheiro, vigayro de tomar etc. alvaro gonçalvez a fez de mjll 
e b* xiij annos. 

(Livro de Legitimações, fl. 115). 

II. — dõ manuell etc. sàude, sabede que pero ânnes, pisoeiro, 



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BENZEDORES E FBITIOBIROS 



331 



morador na maçeeyra, termo da vyla da batalha, quomo avera ora 
dez ou doze ãnnos, que ele, por amor de noso senhor, bemzia alguas 
pesoas, que lho pediam de quebrantos e ventres caydos e ysto por 
lhe noso senhor dar graça pera yso e alguas vezes o fazia por oure- 
los, se levar dyso nenhu premio, somSte lho fazia por o amor de Deus 
e as palauras com que bemzia erâ estas a saber: 

«e nome do padre e do filho e do esprito sfito: hun verdadeiro 
4 deus, asy como ysto he verdade, asy sara este mall de foft (nomea- 
ndo por seu nome)». 

dizendo esto tres vezes com tres patres noster e tres avemarias 
a omra de deus e da virgem maria e por bem desto era dito que o 
fora acusar ao corregedor da comarca, por bem do qual caso elle so- 
pricante anda amorado com temor das nosas Justiças e por ello 1 
prenderé, emvyamdo nos elle sopricante pedir por mercê, que lhe per- 
doasemos nosa Justiça, se nos a ella por Rezam de asy bemzer com- 
tra nosa defesa e algúa gysa era teudo e obrigado e nos vemdo o que 
nos elle asy x dizer e pidir emvyou, se asi he como elle diz e hy mais 
nõ ha, visto húu pareçe com o noso passe e querendo lhe fazer gra- 
ça e merçe, Temos por bem e nos praz e lhe perdoarmos nosa Jus- 
tiça, se nos elle por Reza do dito casso era teudo e obrigado, com- 
tanto que elle pagase dous mill reaes para pyedade e por quanto lógo 
pagou os ditos dinheiros a diogo fernandez Cabrall, segundo deelo fo- 
mos certo por hún seu asynado e por outro de marcos estêues que os 
sobre os (alias: elle) pos Em Recepta vos mftdamos etc. 6 forma, dada 
ê almeirym, aos xxij de novembro, el Rey o mandou poelo bispo da 
garda e polo vigairo de tomar etc. tristft doliueira a fez anno de miU 
e b° xiij. 

(Livro de Legitimações, fl. 250). 

IH. — dõ manuell (etc). saúde, sabede que Joam gonçalluez, mo- 
rador na macieira, termo da villa de lerea, nos emviou dizer, por sua 
pitiçã, que Iclinado pera bem fazer, por ser orne symplez e lhe pare- 
çer que seruia a deus nyso, custumara, per vezes, de bemzer caipçer, 
sem por yso leuar nenhún emterese, com as palauras seguintes : 

cem nome do padre e do filho e do sprito. camçere cato, camçe- 
«re acho, camçere elixga (?), com a graça de deus te mato. pater nos- 
cter e auemaria». 

bemzendo com estas palauras e com huus paoszinhos de funcho, 
todo com anymo e tença de fazer bem, e ora lhe era dito que o mei- 
rinho da coreiçam da estremadura e seus ornes querelará delle sopri- 
cante as nosas Justiças, por asy bemzer. por a qual Reza ele sopri- 
camte amdaua amorado, com temor das nosas Justiças o por ello pren- 
deré; e Emvyando nos elle sopricamte pydir por merçe que lhe per- 
doasemos nosa Justiça, se nos a ella, por Rezà de asy bemzer comtra 
nosa defesa e ordenaça, en algúa maneira era tyudo e obrigado. E 

i = ello o. 



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REVISTA LUSITANA 



nos vendo o que nos elle asy dizer e pidir emviou, se asy he como 
elle diz e by mais nõ ha, visto hun pareçe com o noso pase e querem- 
do lhe fazer graça e merçe, Temos por bem e nos praz de lhe per- 
doarmos nosa Justiça, se nos a ella por Jtezft do dito caso, era tydo 
e obrigado e comtftto que elle pagase iiij reaes pera piadade e por 
quftto elle loguo pagou os ditos dinheiros a djogo fernandez cabrall, 
segundo dello fomos çerto por huu seu asynado e por outro de mar- 
cos estevez que os sobre os (aliás: elle) poos em Recepta, vos man- 
damos etc. e forma, dada em almeirym, a xxij de novembro el Rey o 
mâdou polo bispo da garda e polo vygairo de tomar etc, tristao (sic) 
doliveira por Joan Lourenço a fez âno de mill e b° xiij. 
(Livro de Legitimações, fl. 260 v.). 

IV. — Dom manuell etc. saúde, sabede que bramca gyll, molher 
velha e veuva, morador em lagos, nos emvyou dizer que ella com 
bOoa emtençft e por lhe pareçer que Em ello seruya a deus, bemzya 
alguus menynos e pessoas com bõas palauras e samtas de louuor de 
noso Sflor sem por elo leuar premeo nem outra cousa algua, saluo 
com bõoa emtemcam e por lho Rogarom alguuas pesoas e lhe parecer 
seruiço de deus e noso, comtras nossas hordenaçõees e defessas em 
comtrario dello feytas, por bem do quall amdaua amorada com the- 
mor das nossas Justiças ho por elo averem de prender; Emvyamdo 
nos elle sopricamte pydir por merçee que lhe perdoássemos nosa Jus- 
tiça se nos a ella Em alguua maneyra era theudo e obrigado por Ra- 
zam do que dito he; e nos vemdo o que nos elle asy dizer e pydyr 
emyiou se asy he como ela Recomta e hy majs nam ha, vysto huu 
noso praz me com ho nosso passe por ho quall nos proue perdoar a 
dita sopricãte. E queremdo lhe fazer graça e merçee Temos por bem 
e perdoamos lhe nossa Justiça a que nos ella era theuda e obrigada 
por Raza de asy bemzer as ditas pesoas e cryamças comtra nossas 
hordenações e defessas em comtrario dello feytas como dito he com- 
tamto que ella pagasse quinhentos reaes pera pyedade e por quamto 
ele loguo pagou os ditos quinhentos reaes pera pyedade a dom fran- 
cisco, bispo de fez, que ora por noso espyçiall mâdado tem carguo de 
noso esmoler, segundo dello fomos çerto por huu seu asynado e por 
outro de amtonio alvez, noso capeiam, scripvam do dito carguo, que 
os sobe elle pos em Recepta vos mandamos que daquy em dyamte a 
nft prendaes nem mandes prender etc. em forma, dada Em a nossa ci- 
dade de lixbõoa aos iiij 0 dias do mes de dezembro. El Rey ho mam- 
dou por dom amrrique coutynho, fidalguo da sua casa, E por ho dou- 
tor gonçalo dazeuedo, ambos do seu comselho E desembarguo e seus 
desembargadores do paço. Johan aluez a fez anno do nasçimento do 
nosso Snflor Jhuu x° de myll e b c e hu anno. 

(Liv. 37, fl. 18). 

V. — dom manuell etc. fazemos saber que afonso eanês sylmoso, 
morador em santa Caterina dos coutos d'alcobaça, nos emviou dizer 



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BENZEDOBES E FEITICEIROS 



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per sua piticam, como a sua noticia vyera que as Reformações de no- 
sas ordenações defemde que néhúa pesoa benza sem nosa autoridade, 
e por quanto ele sopricante benzia cõ ho synall da cruz em nome do 
padre e do filho e do esprito santo por entercessam da vergindade de 
nosa sra cõ a oraçã do pater noster, e que muytas pesoas de muytas 
emfermjdades Recebia saúde mediante a graça deujna, pello quall al- 
gúas pesoas se secoriam a ele, por bem do qual ele sopricâte andaua 
amorado cõ temor de ho prendere, emviando nos pidir por merçê que 
lhe perdoasymos nosa Justiça, se nos a ela por Rezam de asy benzer 
cõ as ditas palauras era teudo e obrigado ; e nos vemdo ho que ele 
asy dizer e pidir eviou, se asy he como ele djz e bj majs nõ ha, vis- 
to hum parece cõ ho noso pase, e queRendo lhe fazer graça e merçê 
temos por bem de lhe perdoarmos nosa Justiça, cõ tanto que ele pa- 
gase mjll reaes pera a piedade e por quãto ele loguo pagou hos ditos 
dinheiros a frey luis da costa, noso esmoler, segundo delo fomos cer- 
to por huu seu asynado e per outro de marcos esteves que hos sobre 
ele caregou em Recepta, vos mftdamos etc. é forma, dada e lixboa a 
onze dias do mes de Julho, el Rey ho m&dou pello- bispo da garda 
e pello vigayro de tomar etc. aluaro gonçalvez a fez de I b° xiij 
ânnos. 

(Livro de Legitimações, fl. 144 v.). 

VI. — Dom manuell etc. A quantos esta nosa carta virem, faze- 
mos saber que ha nos dise afonso da costa, Escudeiro dei Rey meu 
Snnor que deus aja, que noso Snnor por sua mysericordya E piedade 
posera Em ele vertude de bemzer com palauras que hele dezya aos 
moordidos de caees danados E asy quaeesquer anymalias E que por 
vertude de noso Snnor Recebyam saúde E asy daua agoas ê muitos 
logares neçesareos; E que husamdo das ditas cousas era Reprouado 
e Imjuriado e que ja por yso fora preso e foy solto per sentença, se- 
gundo vimos, Pedimdonos por merçe que lhe desemos alguu Remedeo 
E Justiça E nisto como nas palauras que o dito afonso da costa sabee 
e de que huusa sam muyto comformes a nosa samta fee, Mandamos 
a todolos noso Coregedores, Juizes e Justiças, oficiaees e pesoas ha 
que esta nosa carta for mostrada e o conhecimento delo pertemçer, 
per qual queer guisa que seja, que daquy avante leixem ao dito afon- 
so da costa liuremente huusar das ditas bençõoes e palauras samtas 
e posa bemzeer quaees quer pesoas cõ helas E asy anymalias E asy 
husar do achaméto das agoas, sem lhe por elo seer feito nenhuu nojo 
nem sem Razam, mas amtes, pois noso Snnor o proueo da tamta ver- 
tude E tam neçesarea, o omrrem E tratem e fauoreçam como cousa 
nosa e de que gramde carguo temos o que de asy comprirdees vos 
muyto agardeceremos e do comtrario nos desprasera e o dito afonso 
da costa nõ huusara dadeuinhador nem doutras palauras Reprouadas. 
dada é a nosa cidade de lixbboa a xxbiij 0 dias de Junho, el Rey e 
princepe o mãdou. E a Snnora Raynha sua Irmfta gouernador por ele 



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destes seus Reynnos e Snnorios asynou. Joam afonso a fez de mill e 
iiij 0 IR biij° annos. 

(Liv. 31, fl. 17 v.). 

VII. — Dom manuell etc. saúde, sabede que Violante gill, mora- 
dor Em a nosa villa de laguos, nos Emviou dizer que ella benzia húu 
minyno e asy outras vezes outros de que nom era acordada, o que 
ella fazia asy symprezmente por ser molher velha E nom dizia mais 
que ho patre nostre e o credo per do quall se timia das nosas Justi- 
ças de o por ello averem de premder E amdaua ora amorada; Em- 
viando nos ella sopriquftte pidir por merçee que lhe perdoasemos nosa 
Justiça a que nos ella era theuda e obrigada per Reza do caso e ma- 
lefício. E nos vemdo o que nos ella asy dizer e pidir eviou se asy he 
como ella dijs e hi mais nom ha, visto hú parece com huu noso pase 
e queremdo lhe fazer graça e merçee Temos por be e perdoamos lhe 
a nosa Justiça a que nos ela era theuda e obrigada por Reza do dito 
caso E malefício, comtanto que ella pagase dozemtos- Reaes pera pia- 
dade. E por quftto ella logup pagou os ditos dinheiros a dom francis- 
co, bispo de fez, que ora te carguo de noso esmoler, segumdo dello 
fomos certo per húu seu asynado e per outro damtoneo alvarez, noso 
capela, scripvam do dito cargo, e ausemçea dalvaro fernamdez, outro 
sy noso capela, scripva delle, que os sobre ho dito noso esmoler pos 
é Recepta vos mandamos que daquy em diâte ha nom premdaes nem 
mamdes prender etc. em fórma dada em & nosa cidade de lixboa aos 
xbiij dias do mes de nouembro. EIRey o mamdou perdom pero, bispo 
da guarda, seu capella moor etc. e pollo doutor gonçalo dazevedo, am- 
bos do seu comselho, e desembarguo e seus desembargadores do paço 
francisco dias a fez anno do nacimêto de noso Senhor Jhuu x.° de mill 
e b° e hu. 

(Liv. 46, fl. 97 v.). 

VIII. — Dom manuell etc. Saúde, sabede que briatjz vaqueira, 
molher de Joha vaqueiro, pedreiro, morador em a villa de laguos, nos 
emviou dizer per sua emformaça que afomso pirez, Juiz de fora em a 
dita villa, com poderes dalçada, ha mamdara premder por se dizer 
comtra Ella que bemzia meninos sem ter licença pera yso e por tam- 
to amdaua por ello amorada com themor das nosas Justiças por ello 
averem de premder, emviamdo nos ella sopriquate Pidir por merçee 
que por quanto seu padre c se finamdo lhe encomendara e mamdara 
que quamdo quisese bemzer huzagre, bemzese primeiro huua pouca 
daguoa é nome de deus padre e do filho e do samto esprito e tamto 
que a dita aguoa fose bemta, tomase hu molho desparto e bemzese a 
cryança que teue o dito huzagre, o que ella per algumas vezes asy 
fezera cimprezmente com a dita temçft booa, sem outro algúu embar- 
guo né maliçia, lhe perdoasemos nosa Justiça, se nos a ella c alguua 
maneira era theuda e obrigada por Rezam do que dito he. E a mam- 



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BENZEDORES E FEITICEIROS 



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dasemos soltar; e nos vemdo o que nos ella asy dizer e pydir emviou, 
se asy he como ella recomta e hy mais nom ha, visto húu noso praz 
me asynado per nos o quall nos prouue de perdoar a dita sopriquâte 
e a mandar soltar. E queremdo lhe fazer graça e merçee, Temos por 
be e perdoamos lhe a nosa Justiça a que nos ella era theuda e obri- 
gada por Rezfi de asy bemzer comtra nosas ordenações e defesas e 
contrario dello feitas, como dito he, comtamto que ella pagase mill 
rreaes pera piadade e por quâto ella loguo pagou os ditos mill rreaes 
a dom francisco, bispo de fez, que hora per noso especiall mamdado 
te carguo de noso esmoler, segundo dello fomos certo per huu seu asy- 
nado e per outro daluaro fernamdez, noso capellâ, scripvâ do dito 
carguo, que os sobre elle caregou é Recepta nos mamdamos que da- 
quy Em diante a nom premdaes nem mamdes premder etc. em forma, 
dada e a nosa cidade de lixboa aos seis dias do mes de nouembro. 
ELRey ho mamdou per dom pero, bispo da guarda, seu capellft moor 
etc. per dom amrrique coutinho, fidalguo da sua casa, do seu comselho 
e desenbarguo, anbos seus desembargadores do paço. joam aluarez a 
fez anno de mill e b c e húu annos. 
(Liv. 46, fl. 117). 

IX. — Dom manuell etc. fazemos saber a todolos corejedores, 
Juizes, Justiças de nosos Reynos, a que esta nosa carta for mostrada 
e o conhecimcto dela pretemçer, que bertolameu martjnz de firmjnham, 
morador na cjdade de viseu, nos emujou dizer que por sua molher ca- 
telyna pirez curar dargejros e os Juizes e veradores e porcurador e 
homes bomos da dita çidade lhe deram huu prjujlejo do quall o teor 
de verbo a verbo he o seginte : 

câ quamtos esta nosa carta de priujlejo virem, fazemos saber 
«que fernam dalurêz e amryque deluyro, escuderos fidalguos, cidadãos 
«de viseu e Juizes ordenajros e ela E gill de figredo e galdim páiz 
«E lopo afonso, escuderos cidadãos E veradores da dita cidade, E 
«vasco fernãdez, mercador E porcurador e ela do comselho da dita 
«cjdade, E vasco de moraees E gomçalo lopez e Joam do amarall E 
«pero montjro E Joam de flgeredo E Jirdâo paiz E dioguo afonso 
«tocho E diogo doreguõ, escuderos cidadãos da dita cidade, e homes 
«bos da camará dela, fazemos saber que pola graça que deus noso 
«senhor pos e deu a catelina pajz, molher de bertolameu martjnz, mo- 
«rador em framjnhão, termo desta cidade, acerqua de bemzer dos 
«olhos e tirar argejros que ela faz a todos aqueles que a chama e am 
«mester, per cuja causa ela foy ja reqerjda pera viuer em outras par- 
«tes, homde lhe faziam e mandauã fazer framqezas e libardades por 
«la jr viuer, porem a nos aproue e apraz que por ela e seu marjdo 
«viuerem no dito lugar de framjnham que he termo desta cidade, 
«homde pode aporujtar com a dita graça aos moradores desta cidade 
«e termo que a ouuerem mester, que ela e seu marjdo E todas suas 
«cousas sejam escusos de fintas, talhas etc. Em forma feita em lisboa 



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t(sic) a zbiij dias do mes de Janeiro Jorge Lourenço a fez anno de 
cmjU quinhentos anos». 

dada em a nosa cjdade de lisboa aos zij dias dagosto sym&o de 
matos a fez ano de mjl e b° e bij anos. 

(Livro 9, fl. 34 v.). 

X. — Dom manuel etc. 1 A quamtos esta carta de licemça virem, 
fazemos saber que a nos veo maria gomez, molher de Joham aluares, 
lavrador, morador na granja termo desta çjdade de lixboa, e nos disse 
que sabia curar com o synal da cruz e com muitas hervas de mujtaa 
doenças e que praticaram (sic) per lomguo tempo com hu mestre Ro- 
drigo do macheyal e pera sermos Emformado de sua pratica e do que 
ssabia, nos amostrou estromentos públicos com testemunhas neles pre- 
gumtadas de curas e Remédios que fezera; E que por que nom podia 
vsar de curar sem nosa carta, segundo nosa hordenaça, Nos pedia que 
lha m&dasemos pasar e vysto per nos os ditos estrométos, mãdamos 
ao noso fflziquo mór que a emgemjnase, segundo hordem e soficiencja 
de seu Regimento, a qual a emgymjnara e dise que achara çerta em 
muytos- Remédios e asy lhe dera synaes poios quaes conheçja mujtas 
doenças e abastava pera curar na dita aldeã e algus logares derador, 
homde nõ houvese fiziquo, e por assy achar çerta em muytos Remé- 
dios em a dita sua aldeã e algus logares derador, omde nõ vivia fisy- 
quo, e em quftto o hy nõ ouver, avera todalas homras, liberdades, 
proees, precalços que pera sua soficjemçia e exzame deve dauer e asy 
como o ham e de direito pertemçee as semelhantes pesoas de nosos 
Rejnos per honra de sua çjençja, poré, ela nõ vsârà berazer per hou- 
rello, por que vsando avera pena que mereçer per nosas hordenaço- 
mes, E ela Jurom (sic) em a nosa chancellaria aos samtos avamjelhos 
que com bõoa deligençja e asy bem e como deve esa comçjençja vse, 
vse (sic) de sua çjemçja e Remédios que sabe tam Juteiramete ... a 
serujço de deus e noso e bem do pouo ; e madamos a todolos oficjaes 
e pesoas a que o conhecimento pertemcer, que ajam em a dita aldeã 
por soflcjemte e auto pera curar e dar Remédios nõ avemdo hy fysy- 
quo. dada em lixboa a iiij 0 dias de ffeuerejro. eelRej o madou per o 
doutor mestre afonso, fysyquo môr todos seus Rejnos e senhorios, 
gomez eanes a fez de jb° xbij anos. 



XI. — Dom manuell etc. fazemos vos saber que mecia lopes, mo- 
rador na marmeleira, termo da cidade de cojmbra, nos enviou dizer, 
por sua pitiça, que ela bézia crianças de ventre caydo e quebranto e 
asy ornes e molheres e lhe poynha eprastos com hú ovo e farinha e 
quâdo asy bézya, dizia hún pater noster e hua ave maria e o credo 
e esto fazia por amor de deus, noso senhor, fazedo todo contra nosa 
defesa e ordenaça sobre tall caso feyta, pola quall Reza ela sopricate 

i Á margem do registo: maria gomez, ofícjo de fisyqua. 



(LÍV. 25, fl. 165 V.). 



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BENZEDORES E FKTICEIBOS 



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amdava amorada, com temor de nosas Justiças ho por elo préderé; 
eviâdo-nos ela sopricftte pedir por merçe que lhe perdoasemos nosa 
Justiça, se nos a ela, por Rezâ do dito caso, era theuda e obrigada. 
E nos vedo o que nos -ela sopricftte asy dizer e pedir éviou, se asy 
he, como ela diz e Recõta e hy mais nft ha, visto hu pareece por nos 
asynado e querendo lhe fazer graça e merçee, Temos por bc e nos 
praz de lhe perdoarmos nosa Justiça, a que nos ela por Rezft do dito 
caso era theuda e obrigada, livremente se que nada pagase etc. e 
forma, dada é almeirym, aos iiij dias de novembro, el Rey o mâdou 
pelo bispo da guarda. Xpuft (christovãq) Lourenço a fez por Johft Lou- 
renço de mjll eb fi e xiij annos. 

(Livro de Legitimações, fl. 244 v.). 

XII. — dom manuell etc. fazemos saber que alvaro pirez morador 
e alcoimpre (sic), nos éviou dezer per sua petiçam que elle sopricante 
fora preso na dita villa e acusado per francisco paez, meirinho das 
terras do marquez (Villa Real), por contra elle dezer que elle sopri- 
cante cõtra nosa defesa e ordenaçam talhada (sic) baço e figueira ba- 
foreira. per be do quall se proçesara tamto e seu feito que elle sopri- 
camte fora comdenado per vosa (sic) sentença de dous ftnos de degredo 
pera cidade de cêpta, com pergam naudiencia, E mais que pagase ao 
dito meirinho quereloso coatro mjll reaes de primcipal e custas, se- 
gundo ver poderjamos per a sentença de seu livrameto que peramte 
nos apresetar éviou esprita Em purgamjnho pasada pellos nosos ou- 
vjdores que ftdam é nosa corte e casa do civell E aselada cõ nosso 
sello pedete, a quall éxuquesft de degredo cõ pregft naudiencia e elle 
gopricamte fora feita, segundo o ver poderjamos per huu termo que 
nas costas da dita sentença vinha, que Recõtava ser feito e asynado 
per Joham martjnz publico tabelliam é a dita vila dalcoétre, aos de- 
zoito dias do mes de março do ano preséte b° xiij é o quall se cõti- 
nha que (em) elle sopricamte fora feita a dita éxuquiçft de degredo 
co pregft naudiencia, segundo e o dito termo era cõteudo, o quall prim- 
cipall e custas elle sopricante paguara, satisfezera, segundo outro sy 
ver poderíamos per hum conheçimento nas costas da dita sentença 
vinha que Recõtava ser feito per o sobre dito Joam martjriz e asy- 
nada per o dito francisco paez, meirinho, e asy por elle tabelliam aos 
xiij dias do mes de março do dito era e o quall e outro sy se cõtinha 
que elle dito autor meirinho Recebera delle sopricante todo o cõteudo 
na dita sentença a saber: per esta maneira que elle Recebera delle 
sopricante dous mjll Reaes que os outros i] Reaes e as custas lhe qui- 
tava per amor de deus, segundo é o dito conhecimento era cõteudo; 
E por quanto elle sopricante Recebia mujta perda da sua fazenda S 
jr comprir (pedia) por merçe que e embargo de nfto ter começado a 
servir o Relevasemos da servétia delles e nos vêdo o que nos ele asy 
dizer e pedir éviou, se asy he como elle diz e Recõta e hy mais nft 
ha visto a sentença de seu livrameto e o termo de como é elle fora 
feito éxuquiçft do pregft e satisfaça da parte e huu praz me cõ nosso 

REY. LUSIT., YOl. III, faSC. 4. 4 



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REVISTA LUSITANA 



passe e querédo lhe fazer graça, merçe; temos por bê e nos apraz de 
o Relevarmos como de feito Relevamos da serventia dos ditos doas 
annos de sen segredo, e que asy fora condenado pera dita cidade de 
cépta, se ebargo de nõ ter começado a servir cõtamto que elle pa- 
gasse outo mjl Reaes pera piedade e por quanto elle loguo pagou os 
ditos dinheiros a frey luis da costa, nosso esmoler, segundo dello fo- 
mos çerto per hun seu asynado e per outro de marcos estevez, espri- 
vfio do dito careguo, que os sobre elle pôs c Recepta, vos mãdamos 
etc. c forma, dada em lisboa a xiij dagosto. el Rey o m&dou pello 
bispo da garda etc. e pello vigayro de tomar etc. afomsso fernandez 
o fez de b c xiij. 

(Livro de Legitimações, fl. 174). 

XIII. — Dom manuell etc, fazemos sabêr que maria gonçaluez, 
molher veuva, morador em o llugar de carregoso do termo da cidade 
de vyseu, nos emujou dizer por sua pytiçam que avera ora dons an- 
nos, pouquo majs ou menos, que per noso mandado os Juizes da dita 
cidade tirará devasa sobre certos casos, amtre os quaaes era hum 
dellés sobre feytecerjas, e a quall devasa que asy tiraram cullparam 
ha ella sopricamte allgvmas pesoas, dizendo que ella sopricamte bem- 
zya de vemtre caydo e de bichoquo e do baço e que pasaua os doem- 
tes per hum arco de trovysquo e que semdo asy tirada a dita devasa, 
sem embargo delia, hum pero gomez de mello, mejrjnho que ora era 
em a dita cidade, querellara delia sopricante as nosas Justiças di- 
zemdo é sua quereUa que ella sopricamte era bemzedeira e bemzya 
comtra nosa defesa e ordenaçam e sem nosa Licença e do priorado e 
de seu vigairo e que por ello emcorrera em penna de Justiça, per 
vertude da quall querella e deuasa ella sopricante fora presa, como 
ora estaua e a dita cadea da cidade de viseu, e o dito pero gomez, 
meirinho, acusaua e dera comtra ella Ujbello e andaua a feito semdo 
Ja sobre ello proçeso ordenado e ella sopricamte dizia que era uer- 
dade que bemzera allgun tempo de bichoquo, que he bicho da parede, 
e asy de vemtre caido e do baço e allgúuas pesoas cfermas pasana 
per trovisqueiras atadas dizemdo a oraçâ do oremos omnipotes sem- 
piterna deos etc. e a oraçam do amjo sam grauuiell e asy aos êfermos 
punha emprasto no vemtre e letras de covas. Emvyamdo nos ella so- 
pricante pidir por merçee que sem embargo destar presa lhe perdoa- 
semos a nosa Justiça se nos a ella por Rezam do sobredito caso ê 
allguua guisa era tenda obrigada e nos vemdo o que nos ella sopri- 
cante dizer e pidir Enviou, se asy he como ella diz e Recomta e hy 
mais nam ha, visto hú praz me com noso pase e queremdo lhe nos 
fazer graça e merçe temos por bem e nos praz de lhe perdoarmos ha 
nosa Justiça sem embargo destar presa a que nos ella por Rezam do 
sobredito caso era teuda e obrigada com tamto que ella pagase dous 
mjll reaes pera piadade e por quanto ella Hogo pagou os ditos dinhei- 
ros a frey luys da costa, noso esmoller, segundo dello fomos certo por 
hú seu asynado e per outro de marcos esteuez, noso capellft, e scripvon 



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ÔENZEDORBS b feiticeiros 



do dito cónego, que hos sobre elle pos Recepta vos mandamos etc. 
em forma, dada en Uixboa a xix dias do mes de Janeiro, elRey o 
mandou pollo bispo de funchall e per dõ pero de menezes etc. afonso 
fernandez por Jordam lourenço a fez de mill b c xbij annos. 
(Liv. 47, fl. 1430). 

XIV. — Dom manuell etc. saúde sabede que vasco gonçalvez 
tores, morador é a vila de viana, nos èviou dizer per sua petiçam, 
que averia muitos ftnnos, que elle soprícamte vsaua e fazia a muitas 
pesoas doetes algúuas cousas cousas (sic) pera suas saúdes a saber: 
esfregado lhe os braços e pernas e outros nébros de seu corpo e asy 
lhe mamdaua por algúuas bymas demcenço e almocega e doutras cou- 
sas e asy algúuas pesoas e omees e molheres e criamças pequenas 
que erft doemtes de baço, e que lho talhaua e bemzia, pasamdo os por 
hun sylvam noue vezes e com noue pater nostres e noue avemarias, 
e que asy lhe fazia e mãdaua fazer peras ditas doéças alguns lej- 
toairos de aypo e de salsa e doutras cousas, e que as ditas pesoas 
se achauft bem; e lhe fazia todo por amor de deus, sem diso leuar 
nenhúu proueyto, ssomente se algúua das pesoas lhe dauft algúua era 
algúu queixo e cousa de comer por suas cortesyas, e que ora o mei- 
rinho da coreiçâ damtre tejo e o dyana querelara dele sopricante, por 
bem do quall elle andaua amorado cõ temor de ho prendere, emviamdo 
nos pidir que lhe perdoasemos nosa Justiça, a que nos era obrigado 
pello que dito he. E, nos vendo o que nos elle asy dizer e pidir 
Ivyou, se asy he, como elle diz, e hy majs nõ ha, visto hun prazme, 
e querendo lhe fazer graça e merçee, temos por bem, lhe perdoarmos 
todo, cõtanto que pagase líj reaes pera a piadade, e por quftto logo 
pagou os ditos dinheiros a frey lujs da costa, noso esmoler, segundo 
vjmos por huu seu asynado, e por outro do scripvam jde seu cargo 
que hos sobre elle pos c Recepta, vos mamdamos etc. em forma, dada 
é lixboa aos biij dias dagosto. el Rey o màdou pello bispo da guarda 
e pello vigairo de tomar, aluaro gonçallvez a fez de myll e b° xiij. 

(Livro de Legitimações, fl. 185). 

XV. — Dom manuel etc. fazemos saber que maria afonso, veuva, 
morador em a vila de sfttarem, nos eviou dizer per sua pitiçâ, que 
Indo ora ter a dita vila de sâtarê o noso coregedor da comarca, per 
via de coreyçâ, o meyrinho d&te ele querelara dela sopricante, dizendo 
que cõtra nosa ordenaçã e defesa benzia ornes e molheres e menjnos 
de quebranto e doutras dores, cõ palauras, cõpoedo, hú ouRinoll cheo 
dagoa e a cabeça cõ a boca per bayxo pera tirar ho soll, e asy hua 
tigela dagoa na cabeça cõ quatro goteyras dazeyte pera saber se era 
mall descõmúgado, e boçijava e abria a boca, dizedo que todo mall se 
metia no corpo e tirava do éfermo, e asy fazia outras muytas agu- 
zoes (? abusões) semelhantes; e ora ela sopricante por Rez& da dita 
queRela estava presa na cadea do dito coregedor, emviando nos ela 
sopricante pidir por merçê, que lhe perdoasemos nosa Justiça, se, nos 



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340 



REVISTA LUSITANA 



a ela por Rezft de asy bemzer e fazer as sobreditas cousas contra 
nosa defesa sé ebargo de estar presa, e algúa gujsa era tenda e obri- 
gada; e nos vendo ho que nos ela asy dizer e pidir emviou, se asy he 
como ela diz e Recõta e hj majs nã ha, visto hum praz me cõ noso 
pase, e queRendolhe nos fazer graça e merçê, temos por bem e nos 
apraz de lhe perdoarmos nosa Justiça, sem ebargo destar presa, cõ- 
tanto que ela pagase dez cruzados pera a piedade e seja degradada 
fora da dita vila por seys meses e por qu&fto) ela logo pagou a frey 
lujs da costa segúdo delo somos serto por hu seu asynado e por outro 
de maços (sic) esteves que hos sobre ele caregou ê Receyta vos mft- 
damos etc. c forma, dada e evra a xbiij dias de março. elRey ho mâ~ 
dou pello bispo da garda e pello vigayro de tomar etc. tristâ doli- 
veira a fez de mjll e b° xiij ânnos. 
(Livro de Legitimações, 19. 57 v.). 

XVI. — Dom manuell, etc. saúde sabede que branca ftnes, molher 
de Joham da lousada, morador em esta nosa cidade de lixbooa, nos 
emviou dizer que, per o dito seu marjdo lhe dar maa vida e andar cõ 
molheres, fezera dello queixume a alguas molheres e que hua das di- 
tas molheres lhe disera que lhe darja húa cousa, cô que fezese bõaa 
vida com elle e que lhe dera húa Imagem de çera, dizemdo que era 
sam lomgujuhos e lhe disera que a metesse de ssobacabeçeira da cama 
e ella o fezera asy e, temdo o dita Imagem de ssoba dita cabeçeira, 
o dito sseu marido a achara e a amostra^ a alguas p" (pessoas) da 
vizinhamça, péllo quall andaua ora amorada, cõ temor das nosas Jus- 
tiças de a por ello auerem de premder. Emujamdo nos ela ssobpricãte 
pidir por merçee que lhe perdoasemos a nosa Justiça, sse nos a ella 
em algua gujsa era theuda e obrjgada por Rezam do dito casso e 
mallafiçio etc. e nos vemdo o que nos ella ssobpricante asy dizer e 
pidir cviou, sse asy he como ella diz e hy mais nõ ha, visto huu praz 
me per nos asynado e querendo lhe fazer graça e merçee, temos por 
bem e nos praz perdoar, como de feito perdoamos aa dita ssobpricãte 
nosa Justiça, a que nos ella era theuda e obrjgada por Rezã por Re- 
zam (sic) do dito casso e mallafiçio, cõtanto que ella pagase tres mjll 
Reaes pera a piedade e por quanto ella logo pagou os ditos dinheiros 
a dom francisco, bispo de fez, que ora tem carrego de nosso esmoller, 
segundo dello fomos çerto por huu seu asynado e per outro daluaro 
fernandez, nosso capellam, escripuã do dito carreguo que hos sobre 
ell pos e Recepto, vos mamdamos que daquj c djante a nõ prendááes 
ne mandees prender e etc. em forma, dada e a nosa cidade de lixboa, 
aos xij dias do mes de mayo. el Rey o mâdou pello bispo da goarda, 
sseu capellam moor, e pêllo doutor gonçalo dazeuedo, ambos do sseu 
conselho e descbarguo e seus desembarguadores do paaço. francisco 
diaz a fez, ânno nacjmento de nosso Sflnor Jhu x°., de mjll e quj- 
nhentos e huu ãnos etc. 



(Liv. 45, fl. 122 v.). 



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ÉENZKDORKS Ú FK1TICÈ1KOS 



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XVII. — Dom manuell etc. saúde, sabede que margarida aluarez, 
molher de lujs gonçaluez, carpenteiro, morador em esta çidade, nos 
emviou dizer que estamdo huu dia a molher de Joham lousado em 
sua casa e asy outras mujtas molheres, por sseren suas vizinhas, a 
dita molher de Joham lousado lhes viera a fazer queixume, como 
leuaua maa vida cõ o dito sseu marjdo por Respeito de húua mam- 
ceba que tynha; e que hua xpfta (christã) noua que hy estaua lhe 
dissera que lhe emsynarja hua deuaçam, cõ que ella esteuesse bem 
cõ o dito sseu marjdo, e que, a cabo de dia, a dita xpâa noua man- 
dara a ella ssobpricante húa jmajem de çera com huu paujo e que 
ella sobpricâte a desse aa dita molher de Joham lousado, dizendo lhe 
que era sam longujnhos e que a metesse ella debaixo da cabeçeira ao 
dito sseu marjdo, dizendo lhe çertas auemarias aa honrra de nossa 
Sflra que Rogasse a deus que asy como per mjllagre abrjra os olhos 
de sam lomgujnhos, asy os abrjsse ao dito sseu marjdo que bem 
viuese com ella, pôilo quall vendo ela ssobpricante, como todo era 
pallauras de deuaçam, tomara a dita Immajem e a dera aa dita mo- 
lher de Joham lousado, dizendo lhe asy todo como a dita xp&a noua 
lhe disera que lhe disesse, o que ella dita molher de Joham lousado 
fezera e por ello lhe Era dito que alguas persoas a culparõ na de- 
uasa dizendo que ella ssobpricante cometera .é ello feitiçoos e por 
ello andava ora amorada, cõ temor das nosas Justiças de auerem de 
prender, emviando nos ella ssobpricante pidir por merçe que lhe per- 
doássemos a nosa Justiça, sse nos a ella em allgua gujsa Era theúda 
e obrjgada por Rezam do dito casso e mallefiçio; e nos vendo o que 
nos ella asy dizer e pidir emviou, sse asy he como ella diz e hy majs 
nam ha, visto hu praz me per nos asynado e querendo lhe fazer gra- 

v ça e merçe, temos por bem e nos praz perdoar, como de feito perdoa- 
mos nosa Justiça aa dita sobpricâte, a que nos ella Era theuda e 
obrjgada por Rezam do dito causso e maliafiçio, cõ tanto que ella pa- 
gase tres mjll Reaes pera a piedade e por quanto ella logo pagou os 
aitos dinheiros a dom francisco, bispo de fez, que ora tem carrego de 
noso esmoller, segudo dello fomos çerto per huu seu asynado e per 
outro daluaro fernandez, nosso capellã, escripuã do dito carreguo, que 
os sôbe elle pos é Recepta, vos mamdamos que, daquj ê djante, a nõ 
prendaaes, nem mamdees prender, etc. em forma, dada c a nosa çi- 
dade de lixboa, aos xbjj dias do mes de mayo. EIRey o mftdou pêllo 
bispo da goarda, sseu capellam moor, etc. E pêllo doutor gonçalo 
dazeuedo, ambos do seu conselho e dessembarguo e seus dessembar- 
gadores do paço. francisco diaz a fez anno do nacjmento do nosso 
Sílor Jhu x.° de mjll e qujnhentos e hu ãnos. 
(Liv. 45, fl. 117 v.). 

XVIII. — dom manuell etc. fazemos saber que Ines eânnes, mo- 
lher de gaspar aluarez, marynheyro que a tres annos que amda na 
índia em noso serujço, nos emviou dizer per sua pitiçam que por lhe 
futare (sic) certo dinheyro, ela sopricamte cõ outra lamcara húa Iueyía 



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á42 



àíVlSTA LUSITANA 



pera saber quem ho fartara e, que por quamto, lhe era dito que nos 
dávamos pena, a quem tal cousa fazia, parecedo lhe que por tal cou- 
sa nõ avia defesa algua, ela avia Reçeo e se temja de ser presa e 
andaua por elo amorado (sicj, emviando nos pedir por merçê que lhe 
perdoasemos nosa Justiça, se nos a ela em algua gujsa era teuda e 
obrigada por Rezam de asy lamçár sortes cõ a dita Jueyra; e nos 
vemdo, ho que nos ela sopricamte asy dizer e pidir emviou, se asy 
he como ela diz e hy majs nõ ha, visto hum pareçe cõ ho noso pase 
e queremdo lhe fazer graça e merçe, temos por bem e perdoamos lhe 
nosa Justiça a que nos ela era teuda e obrigada por Rezam das sor- 
tes que lamcou cõ hua Jueyra, cõ tamto que ela pagase jb* Reaes 
pera pyedade e por quanto ela logo pagou hos ditos jb c reaes a frey 
lujs da costa, noso esmoler, segundo delo fomos certo per hum seu 
asynado e per outro de marcos esteves a que hos sobre ela caregou 
em Recepta, vos mandamos etc. em forma, dada em lixboa aos bj dias 
do mes de Junho. EIRey ho m&dou per dom pedro, bispo da garda, 
etc. e pelo vygayro de tomar etc. djogo laço a fez de mjll e b 6 xiij 
annos. 

(Livro de Legitimações, fl. 73 v.). 

XIX. — Dõ manuell etc. fazemos saber que maria femãdez, presa 
no limoeiro desta cidade de lixboa, nos emviou dizer per sua pitiçft 
que poderia ora aver dous annos, pouco majs ou menos, que sendo 
ela solteira e queremdo bem hú orne e estamdo desavimda delle lhe 
diserft que húa branca martinz sabya lamçar sortes e lhe diria se lhe 
queria a ela alguu bem e ella sopricante, como molher moça e que na 
sabia nada nS de nosas hordenaçõees, se fora a ella e lhas lamçara e 
tâto que viera, ella sopricante as mostrara aas suas vizinhas, na cuy- 
dando que niso fazia alguu mall, e que logo dy a muito pouco se ca- 
sara cõ hu bombardeiro que hora he c noso serujço ê busca do ouro 
que foy tomado dos framçeses da caravella da mjna e sendo elle asy 
partido, per estas de vasas e que nos mftdamos tirar, as ditas suas 
vizinhas a culpara nas ditas sortes e por ello a prenderá e que por 
quanto naquelle tempo ella era solteira e agora he casada e asy por 
o dito seu marido ser e noso servjço e asy por ella fazer Inocemte- 
mente e agora estar muito doente a morte e por o dito seu marido a 
na achar por jso presa, nos pidia por merçe que lhe perdoasemos a 
nosa Justiça, a que nos ella hera teuda e obrjgada por Reza das di- 
tas sortes, sem ebargo destar por ello presa; e nos vemdo o que nos 
ella sopricante asy dizer e pidir Emviou, se asy he como ella diz e 
hy majs nõ ha, visto hú noso praz me per nos asinado e queremdo 
lhe fazer graça e merçe, temos por bem e nos praz perdoar a dita 
sopricamte, se ébargo de ser presa, cõtamto que hela pagase dous 
mjll reaes pera a piedade e por quamto ella logo pagou os ditos dous 
mjll reaes a frey lujs da costa, noso esmoler, que hos Recebeo se- 
gundo vimos por huu seu asinado e per outro de marcos estevez, noso 
capela, espriva do dito esmoler, que sobre elle os pos e caregou Em 



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BENZBDORES S rEITTGEIÉOg 



34á 



Receita, vos mamdamos etc. c forma dada em lixboa aos xxb dias do 
mes de Julho, el Rey o mftdou per dom pedro bispo da garda etc. e 
per dom diogo pinheiro, vigayro de tomar etc. diogo laso a fez de 
mjll e b° xiij. 

(Livro de Legitimações, fl. 158). 

XX. — dom manuell etc. fazemos saber que pero diaz, morador 
em a villa daueiro, nos éviou dizer por sua pitiçft que no ano de 
b e e bij, sendo visytador hú gonçaio da syllva, crelygo na dita villa 
mandara poer hua c. a (Caiharina) martinz, fcmyliqueta, e hua marja 
gonçalvez, pee de porquo, com corochas na Igreja da dita villa de 
sam migell com hum pregft dizemdo: 

Justiça que manda fazer o bispo de cojmbra que mamda degra- 
dar estas molheres por feiticeiras e alcovy teiras e defamadeiras de 
bõas molheres e filhas de bõos homées. 

e por que ele etam aly era ouujdor em ausência dos Juizes e nft acu- 
dir por nosa parte, ele ouuera por elo de nos perdam e no propyo 
ano, sendo preso huu aluareanes çurrador, que emtft era alcaide, por 
o mesmo caso, ele sopricamte fora testemunha S o feyto do dito al- 
caide, e que testemunhara que vira jr com sua pesoa as ditas molhe- 
res com o dito pregam e que hora o ano pasado de jb° e xiij sedo 
preso huu pero ferreira, tabaliâ, por a dita causa ele sopricamte tes- 
temunhara que tamto que vira deus logo se fora pera sua casa e 
nam vira mais, salvo quanto ouujra dizer, que fora com o dito pre- 
gam e nam testemunhara como fora em sua pesoa, como testemunhado 
tynha no publico testemunho do feito do dito aíuare eanes, alcaide, 
nã se lébramdo de como testemunhado tynha no dito feyto por aver 
muito tempo que ho testemunhara; e por be do dito testemunho ele 

sopricante ftdava amorado com temor de nosas Justiças Temos 

por be e nos apraz de lhe perdoarmos a nosa Justiça, a que nos ele 
por Rezft dos ditos testemunhos era theudo e obrigado, com t&to que 
ele pagase tres mill reaes pera a piedade e por quanto ele logo pa- 
gou os ditos dinheiros a diogo fernandez cabrall, noso capelâ, que 
hora te cargo de noso esmoler, segundo delo fomos çerto por huu seu 
asynado e por outro de marcos estevez, noso capelão, esprivâo do dito 
cargo, que hos sobre ele pos c Recepta, vos mftdamos etc. em forma, 
dada em sfttaré a iij dias de feuereiro el Rey o mandou pelo bispo 
da guarda etc. e pelo vigairo de tomaar etc. Xpuft (Christovão) lou- 
rcço a fez ano de mill e b° e xiiij. 

(Livro de Legitimações, fl. 289 v.). 

XXL — dom Manuell etc. saúde, sabede que pero ferreira, ta- 
belliam na vila daueyro, nos emviou dizer, per sua pitiçam, que ele 
he preso na dita vila, por hua querela que dele deu huu fernam da- 
fonso, morador ém mortagoa, dizemdo que hua maria gonçalvez e c. a 
(Catarina) martinz, que foram presas na dita uyla por feyticeyras, 
averia sete annos, as quais Joam da sylua, visitador bispo de coym- 



344 



ÊEVIST A LUSIÍANÁ 



bra, mandou por na Jgreyja com crochas na cabeça e dali as manda- 
ra lenar pela nyla com pregam que dizia: Justiça que manda fazer o 
bispo de cojmbra; e que ele soprícante fora por elas a cadea e asy 
fora lemdo hos pregões e autos, a qual querela ho dito fernam dafonso 
afirmara dar por eforraaçom da dita maria gonçalvez, como seu pa- 
rente que dizia que era, decrar&do a dita maria gonçalvez, per Jura- 
memto que lhe fora dado pelo Jujs, que tal nõ mamdara fazer né a 
(sic) conheçia e por se ho dito quereloso ausemtar e nõ ser achado, 
se posera libelo por parte de Justiça na nosa casa do çiveU e se pro- 
cedera tanto em seu feyto que fora comtra elle sopricamte dada sen- 
tença que cõ huu pregam na audiência, fose degradado húu anno 

pera ceyta dizédo majs ele sopricamte que por ele ser homem 

doemtio, mal desposto, ele no podya hir seruir o dito degredo 

Temos por bem e nos apraz Èeleuar ho sopricamte deste degredo e 
pregam, sem embargo de ser preso, cõtanto que ele pagase b Reaes 
pera a piedade e por quãto ele loguo pagou hos ditos dinheiros a frey 
lujs da costa, noso esmoler, que ho Recebeo, segundo vimos, per húu 
seu asynado e per outro de marcos esteues que hos sobre ele caregou 
é Recepta, vos mandamos etc. S forma, dada ê lyxboa a biij° dias de 
Junho EIRey ho mâdou pelo bispo da guarda e pelo vigairo de to- 
mar etc. diogo laço a fez de mjll b° xiij annos. 
(Livro de Legitimações, fl. 120). 

XXII. — Dom manuell etc. saúde sabede que gonçalo afon- 
so, morador em nugueira, termo da cidade de bragança, nos en- 
viou dizer que avera ora oito ou nove annos, pouco majs ou 
menos, que ell fora preso na cadea e prisã da dita cidade por 
o culparê em hua deuasa por feiticeiro dizendo que dava eruas co- 
lhidas dia de sam Joham aos homes pera averé graça cõ sseus se- 
nhores e as molheres cõ sseus marjdos e bê asy que bczia dolhado 
por be da quall devasa elle ssobpricamte fora preso e fora sseu feito 
asentenciado, no quall fora comdenado é pena da coutes publicamente 
e apellarõ os Juizes por bê da Justiça, o que todo asy pasara ê tempo 
dei Rey dom Johâm que deus te e que estamdo o feito nestes termos 
elle viera a fogir da dita cadea com outros pressos que é ella estavã 
e andara por todo amorado nos Regnos de castella e por sseer homé 
prove e velho de ydade lRb ou çem annos e de tall desposiçâ que 
sse nõ poderá mâteer sse viera e sse metera a servjr nosso sõr ê 
hua hermjda que chama santa maria da Ribeira, que he hú monte 
honde sse faz grande Romaje, e estevera hy ssejs annos continua- 
damente e estando asy na dita hermjda o prederõ outra vez e o trou- 
xerõ a prisâ da dita cidade homde ora estava presso e avera hú âno 
que estava na dita prisãao e que o tabeliam que o dito sseu feito 
tynha era Ja morto e o dito feito sse nom achava né Jso mesmo a 
apellaçft e estava ora sseu feito como o primeiro dia que fora presso ; 
énviando nos elle sobpricâte pidir por merçee que nos aprouvese vista 
sua ydade e maa desposiçã de lhe perdoarmos nosa Justiça, sse nos 



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BBNZEDORES K FEITICEIROS 



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a elle é algúa gjsa era theudo e obrjgado, asy por Rezõ dos ditos 
cassos e malleflcios, como polia fugida da cadea de que asy fugio 
como dito he e o mãdassemos soltar etc. e uos vemdo o que elle asy 
dizer e pidir eviou, sse asy he como elle diz e hy majs nõ ha visto 
hu praz me por nos asynado e queremdo lhe fazer graça e merçee 
termos por bc e perdoamos lhe a nosa Justiça a que nos elle era 
theudo e obrigado por Rezã dos ditos cassos e mallafiçios e fogida 
da cadea de que asy fogio, posto que seja presso, cõtamto que elle 
pague mjll Reaes pera piedade e por quanto ell logo pagou os ditos 
dinheiros a dom francisco, bispo de fez, nosso esmoller, segúdo dello 
fomos çerto per hú sseu asynado e peroutro dantonio alvez, nosso 
capellã e escripuã do dito carego que hem aussencia dalvaro fernandez 
ontro sy nosso capellã escripuã delles que os sobredito nosso esmol- 
ler pos ê Recepta vos mãdamos que daquj e djãte o nõ prendáaes 
majs por os ditos casos e mallafiçios e fugida da cadea de que asy 
fugio e o faze logo soltar sse por ali nõ he preso etc. é forma, dada 
ê a nosa cidade de lixbõoa aos tres dias do mes de fevereiro. £1 Rey 
o mâdou per dom pero, bispo da garda, sseu capellã mor etc. e pello 
doutor gonçalo dazevedo, âbos do sseu conselho e dessebargo e seus 
desebargadores do paço, francisco diaz de gouvea a fez ftno de nacj- 
mento de noso senhor Jhu x.° de mjll e b c ij anos. 
(Liv. 37, fl. 130). 

XXIII — dom manuell etc. A quantos esta nosa carta viré, fa- 
zemos saber que a nos disserão ora que antonio Ruyz noso meirinho 
na comarqua e correiçom da estremadura, fazera taes erros no dito 

seu oficyo per omde o com direito devya perder a saber 

e que demandava homeens por Joguos defesos e amte de seré côde- 
nados, se cõcertava cõ elles e lhe fazia cõfesar todo em Jujzo e per 
bem do dito cõfeso eram cõdenados e elle lhe levava toda a dita c3- 

ãenaçon per Juteiro e que na batalha se fora a hua Honor 

ajres, mulher de hu gonçalo Rujz tecelão, dizendo qúe avia de que- 
relar dela por barregãa de huu Joham de Leirea, frade, sendo ella e 
o dito frade muito velhos, e ella com medo e por se nõ ver em ver- 
gonha lhe dera dous f doi (cruzados) por que se calase. It. que de- 
mãdou huu moleiro que vive na Ribeira da batalha por feytyceiro' E 
semdo chegado a Joham doliuença, morador em Leirea, lhe falou por 
elle e elle o leixou de mâdar. E por yso levou quinhemtos rs. It. que 
na dita villa de leirea andava por as casas dos homês e molheres ca- 
sadas dizemdo que avia de querelar delias e de seus marydos por 
barregueiros e feitiçeiros e feitiçeiras por que lhe desem alguua cousa 
por ho leixar de fazer. E que sabemdo Rodrigo ajres, Jujz que em- 
tam era, tudo, mãdara diso fazer auto. It. que na Ribeira da maceira, 
termo da dita villa de Leirea, se fora a húa maria ftnes, hy morador, 
e lhe disera que lhe dese myll rs. se não que querelarja de seu ma- 
rydo por feytiçeiro e ella lhosdera. E que tamto que os teve lhe deu 
Juramento que o nõ disese a nynguen e dizemdo o ella a seu marjdo, 



346 



REVISTA LUSITANA 



querédo os elle demãdar, lhe posera tall medo por homde elle o lei- 
xara de fazer It que demãdava mujtas pesoas por dizer que cõpra- 
vom gados sem cartas de vyzynhâça e depois de çitados amte de aver 
sentença, se cõcertava cõ ellas E despois de aver o dinheiro do com- 
çerto os fazya jr cõfesar a Jujzo ; E por o dito confeso os cõdena- 
vom E elle lhes levava toda a dita condenaçam áiem do que tinha 
ávido do dito cõcerto, asy como fez ao teçelam, amo de pero barba, 
e a pero gonçalvez, tecelam de peças, E ao mazmarro e Jorge pirez, 
vinagreiro das cortes, E ao capateiro e carnjceiro da batalha e a ou- 
tros It que Recebe mujtas peitas de crelignos da dita cidade 

(Coimbra) por lhe nõ prender as mancebas asy como fez ao prior de 
botão que lhe levou bj° rs. por lhe nõ prender a mãçeba e pollos 

quaes erros perde pera nos o dito oficio E nos ho podemos cõ 

direito daar a esteva gonçalvez 

Dada em a nosa villa dalmejrjm a xxiij dias do mes de novem- 
bro amdre pirez a fez fino de noso senhor Jhn x° de j b c xiiij. 

(Liv. 15., fl. 179 v.). 

XXIV. — Dom manuell etc. saúde, sabede que alvaro gonçalvez, 
(morador) en sam Johft da pesqueira, nos enviou diser que sendo elle 
tomado do Immigo, como ajmda agora era e fazemdo cõ elo muitas 
travessuras, elle cõ desacordo e como homé que nõ estava e seu 
acordo, tomara hua pedra pera dar cõ ella a hú alvare anes, tendei- 
ro, Juiz que ent& era no dito logo de sã Johã, e que asi tomado do 
Imigo e sendo Juiz hú Joane anes de beja no dito logo o quisera 
prender por quebrantar, ele sopricamte tomara hua pedra pera lhe 
dar cõ ela sem a Reraesar né ao dito alvare anes, e que se temia de 
nosas Justiças do prenderS por ello e amdava por elo amorado e que 
por elle asy ser adorado e tomado do Imigo e os ditos Juizes sabe- 
rem que elle tomava as ditas pedras nõ estado em seu acordo lhe 
perdoaram segundo o ver poderíamos per dous estormentos p(ublic)os 
de perdã que perante nos apresentar éviou, que parecia ser feitos e 
asiuados per francisco anes, tabelliam na dita villa de sã nhoane de 
pesqueira aos xiiij dias do mes de Julho do ãno pasado de iiij* lRb 
ãnos nos quaes se comtinha, antre as outras cousas, que pelos ditos 
alvare anes e Joane anes, Juizes, fora dito que eles perdoava ao dito 
sopricãte e o nõ queriam acusar né demãdar por rrezã do dito male- 
fiçio etc. e asj se comtinha em outro estormento feito e asinado pelo 
dito tabelliam que ho dito sopricãte era adorado e tomado do Imigo 
etc. segundo mais cõpridamente nos ditos estormentos era contendo. 
Pidimdo o dito sopricamte por mercee que lhe perdoasemos a nosa 
Justiça, se nos a ela por rrezã dos maleficios é algua gisa era teudo, 
e nos vendo o que nos elle dizer e pedir enviou, se asy he como elle 
diz e hi mais nõ ha, vistos os perdoes das partes e a certidão de sua 
Sfermidade e querendo lhe fazer graça e mercee, Temos por bem e 
perdoamos lhe a nosa Justiça a que nos elle, por Resam dos ditos 
maleficios, era theudo cõtãto que elle pagase seiscentos Reaes pera 



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MISCBLLANEA 



347 



arca da piadade e por quanto ele logo pagou os ditos dinheiros a frey 
fernãdo, noso esmoler que tem cargo dos Receber, segumdo delo fo- 
mos certo por seu asinado e dalvaro fernandez, noso capeiam scrípuft 
do dito ofiçio, que hos sobre elle pos em Recepta mâdamos que daquy 
em diâte o nõ prendaes ne mãdes prender etc. em forma, dada em a 
nosa villa de palmeia biij dias do mes dabríll. el Rey ho mãdou po- 
ios doutores pero vaz seu capela moor e vigairo de tomar e fernft 
Roiz, daiã de coimbrã, ambos do seu conselho, desembargadores do 
paço. Johã afonso a fez ano de noso senhor. Jhú x.° de miliiij 0 lRbj. 
(Liv. 33, fl. 37). 



MISCELLANEA 



I 

UMA PASSAGEM ESCURA DO «CHRISFAL» 

Nas muito afamadas trovas de c Chrisfah, magistralmente reedita- 
das e commentadas por A. Epiphanio da Silva Dias \ ha uma estro- 
phe difflcil, que jà deu margem a diversas interpretações. E' a 42.* 
Nenhum dos críticos que se occuparam d'ella chegou a elucidà-la sa- 
tisfactoriamente, nem mesmo o cuidadoso erudito, cujo nome citei. 
Como, pela minha parte, me sinto habilitada a lançar luz sobre o seu 
ponto mais escuro, não esconderei por mais tempo aos leitores da 2fe- 
pista Lusitana a minha, jà hoje velha, descoberta. 

Ghrisfal está a sonhar. Um furacão, erguendo-o impetuosamente 
da terra, transporta-o contra a parte do norte, em direcção para a pai- 
sagem em que pensara velando. Durante a viagem aérea, de Portale- 
gre, através do Alemtejo, o vento (antes de o conduzir mais longe, 
transpondo o Mondego e seguindo contra o poente até attingir as 
montanhas do Lorvão, onde a sua Maria estava sequestrada) fá-lo pai- 
rar (ou pousar?) ao cahir da noite, passado o Tejo, para breve des- 
canso, rente aos altos cumes da grande serra da Estrella. D'ahi é que 
Chrisfal avista os campos e prados das encostas, distingue os curraes 
e o gado a pastar, emquanto ouve o ruido de chocalhos, o ladrar 
de cães, o piar do mocho e o coaxar das rãs, chegando até a com- 
prehender cantos e conversas de pastores e serranas. Entre ellas at- 
trahe-lhe a attenção o vulto isolado de uma pastorinha, que c carreava» 

i «Obras de Christovâo Falcão». Edição critica annotada por A. E, da Sil- 
va Dias. Porto, 1893. 109 pag. 



348 



REVISTA LUSITANA 



as suas cordeiras, fiando na roca, e cantava, deixando cahir o fuso de 
quando em quando, de saudosa e esquecida. 



Tendo parecer divino, 
para que melhor lhe quadre, 
cantar cantou d'elle dino: 
t Yo me yva, la mi madre, 
a saneia Maria dei pino >. 
O vestido lhe oulhei 
e vi que era hum brial 
de seda, e não de saial, 
a qual eu afigurei 
a Menga la dei boscal. 



Eis o teor da alludida estrophe na lição critica do snr. Epipha- 
nio. Ha nas suas dez linhas nada menos de quatro minudencias que exa- 
minar: l. a ) a formula d 7 elle dino da linha terceira; 2. a ) os versos cas- 
telhanos citados nas linhas immediatas; 3. a ) o pronome relativo a qual 
da linha nona; e 4.*) a identidade de Menga la dei boscal, nomeada 
no ultimo verso. 

Principiarei pelos pontos 2.° e 4.° 



O entendimento geral da decima não apresenta grande dificul- 
dade para quem lê a egloga toda: A serrana, de semblante divina- 
mente bello, canta um cantar também divinamente bello. Chrisfal, ao 
ouvir as palavras hespanholas, julga ter diante de si a pastora Menga, 
la dei boscal. Procura vêr o que veste; e descobrindo, em logar do 
burel grosseiro (ou saial) das verdadeiras serranas, um luxuoso brial 
de seda, começa a duvidar; torna a mirar e a escutar, e ouve então 
um longo monologo da cantora, de cinco estrophes (43 a 47), pelo 
qual fica sabendo ao certo que a cantora do vilhancico castelhano não 
era a serrana Menga la dei boscal, mas sim Elena, a sua conhecida, e 
amiga da sua Maria — uma das bellas da côrte de D. Manoel (ou 
D. João ni), e, por signal, uma das malmaridadas. 

0 snr. Epiphanio não deixou de reconhecer que Menga devia ser 
personagem conhecida da litteratura de então. O que porém não re- 
conheceu, foi, de um lado que esta Menga devia forçosamente estar em 
intima relação com os versos «To me yva*; e, em segundo logar, que 
a formula la dei boscal servia para especializar aquella figura, visto 
que a prole das Mengas ou Domingas, então celebradas pela poesia 
pastoril peninsular, era numerosíssima K Por ignorar isso, tenta mes- 

1 Ainda assim o snr. Epiphanio propõe, dubitativamente, a lição la dei Bot* 
cal, mostrando que também procurou ahi um nome próprio. 



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MIS CELLA NE A 



349 



mo salvar a lição manga larga no bocal, como continuando a descri- 
pçâo do vestuário da pastora. Com certa razão, porque esta variante 
occorre em duas edições diversas : na antiga impressão sem data, e na 
de 1619 (de onde passou para as posteriores). Depois de seguir as mi- 
nhas explicações até o fim, o leitor ficará acreditando que a dita phra- 
se foi iuventada por quem já não ligava ideia alguma ã formula ori- 
ginal Meng[u]a la dei boscal, julgando-a estropiada, muito embora tives- 
se sido aproveitada no relativamente correcto e fidedigno texto de 
Birkman, de 1559 x . 

Felizmente a litteratura conservou, e eu desenterrei, algumas 
lembranças da graciosa serrana Menga la dei Boscal, ou, mais corre- 
ctamente, Menga la dei Bustar. Ha poesias que lhe foram dedicadas, 
e entre ellas subsiste, exactamente, o vilhancico : 



Yo me yva, la mi madre, 
A Santa Maria dei Pino. 



Quem o quizer lêr, ou mesmo cantar na melodia c divinamente 
bella» que Christovam Falcão tinha ouvido na corte e tornou a ouvir 
entre sonhos, procure o Cancioneiro Musical de los siglos xv y xvi 
transcripto y comentado por Francisco Asenjo Barbieri (Madrid 1890). 
E abra-o a pag. 194 e 540, porque é ahi que encontrará o texto e as 
notas musicaes da seguinte poesia anonyma : 



Menga la del Bttstar, 
que yo nunca vi serrana 
de tan bonico bailar! 



yo he iba, la mi madre, 
a Sawta Maria del Pino; 
vi andar una serrana 
bien à cerca del camino. 
Saya trata pretada 
de un verde florentino. 
Bien allá la viera andar 
gurriando su ganado 
y diciendo este cantar: 



T hablaba y decia: 
€ Domingo; por qué no vienes 
pues que saltas bien y corres 
y en la lucha bien te tienes ? 
Contigo me quiero andar 
gurriando 5 este ganado 
y diciendo este cantar: 



i Th. Braga modificou apenas a graphia, pondo Mengna la del buscai. Na 
introducçâo declara que «manga larga no bocal» nào deixa de fazer certo sentido. 

* As linhas ponteadas não estão no Cane. Mus. Fui eu que as acerescentei. 

3 A palavra gurriar (que falta nos diccionarios e será nova para todos os 
leitores, como o foi para mim) está por hurriar, significa : guiar por meio do grito 
hurri, e provém d'esta interjecção (árabe?) que servia na linguagem pastoril para 
incitar o gado a andar. A prova está nos Autos Pastoris de Juan del Encina. A 
pag. 100 (da novíssima edição de 1894) temos sete vezes no vilhancico Bepaslemo* 



350 



RKYLBTA LUSITANA 



Tanto bien me pareciera 
que de amores la foi hablar. 
f Mi amor, quereis que os diga 
quien & mi hace penar? 
Grande amor que a mi fatiga 
de Miguel dei Colmenar 
que me oyô este cantar: 

c i [N. ê 380], 

O mesmo inapreciável Cancioneiro, no qual (como desde já vou 
annunciando] procurei e encontrei grande parte dos tLieder* que os 
palacianos portuguezes cantavam de preferencia, ao entrar o sécu- 
lo xvi \ fornece mais duas poesias relativas & nossa serrana, que por 
varias razões julgo util copiar. 

A primeira foi posta em musica pelo celebre compositor Millan. 
E diz, sem especificar que a Dominguilla festejada fosse realmente 
«la dei Buscar» : 

Serrana dei bel mirar, vi estar una serrana 

Dominguilla, vi lozana; cantando con gran porfia, 

enamoró-me su cantar. muy apuesta y muy galana, 

m qu'a mi muy bien parecia. 

Asi la viera estar 
Yendo-me por la majada mirando por su ganado 

do mi ganado tenia y diciendo este cantar: 

el ganado o eetríbilho característico : hurriallá ! A pag. 92 temos o verbo hurriar. 
Uma pastora recommenda ao zagal : 

Hete, viene um escudero. 
Vea que eres paetorcillo. 
Sacude tu caramillo, 
tu hondijo y tu cayado ; 
haz que aballas el ganado; 
silva ; hnrria ! dá gritillo ! 

Eu leio : silva ! hurria ! e entendo : assobia ! e grita hurri l — Cfr. arrbkiro, 
de arre. — Em outros vilhancicos que descrevem situações idênticas as pastoras ap- 
parecem mirando por su ganado ; guardando su ganado e carreando su ganado. A 
ediç&o sem data do Chrisfal emprega esta ultima formula na linha 4.» da estrophe 
41, onde diz «carreando huas cordeiras». Carrear (de carro) = guiar um carro, e 
só posteriormente guiar um rebanho t 

* De passagem direi que se ha meia dúzia de pessoas que encontrem algum 
interesse em inteirar -se do que o velho Portugal cantava nos Serões de D. Manoel, es- 
tou prompta a publicar em fórma de Caucionei rinbo a serie das respectivas poesias. 
Até hoje são conhecidas apenas pelas primeiras linhas, por virem citadas em autos 
e romances, ou, em parte, por terem servido de thema a voltas e glosas do Can- 
cioneiro de Resende e de outros álbuns lyricos do século xvi. — No próprio Chris- 
fal temos mais um exemplo : a satyra realista, ou antes picaresca, do « Velho maio», 
citada na estrophe 48.% como que fosse trauteada pela menina Elena antes de ella 
ter dado a mâo de esposa a um velho rico ; e al legada também por Camões no Rei 
Seleuco. Tanto o texto como a musica do curto dialogo entre mãe e filha subsis- 
tem (Barbieri, 460). A musica é de Sedano, mas o texto é anonymo. 



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KJSCELLÀNEA 



351 



Cantar 



que no vi en esta montafla 



c Garridica soy en el yermo 

y; para qué? 

pues tan mal me empleé? 



otra serrana tan bella 
que tanto fuese de amar, 
mirando por sn ganado 
y diciendo este cantar : 



Oiro cantar 



Que en el yermo do me veo 
mi tiempo muy mal empleo; 
si me veo y me deseo 
es porque 

mi vida tan mal empleé». 



c Madre; para que naci 

tan garrida, 

para tener esta vida?» 



fuéra-me llegando a ella. 
Cuando mas cerca llegaba 
relumbraba como estrella; 



Des que vi que se quejaba, 



fDe vivir muy descontente 
mi tristeza se acrecienta; 
ell alma siempre lamenta 
dolorida 



por tener tan triste vida». 
[N.° 346; pag. 176 e 512J. 



A segunda, de auctor igualmente desconhecido, é ainda mais va- 
liosa, porque nomeia positivamente a rústica heroina, e também por- 
que apresenta, de mais a mais, em logar de Bustar, a variante voscar 
com v minúsculo, e o na primeira syllaba. Pena é que seja incom- 
pleta, e diga apenas : 



Mas que quer dizer la dei voscar? ou la dei Bustar? A segunda 
fórma é a verdadeira, na minha opinião, e também na de Barbieri 
A outra fórma, que passou para a egloga de Falcfto, um pouco modifi- 

i Compare se ainda o n.° 351 de Garci-Munoz que principia : *Una montada 
pasando por cerca de un hino j ar serrana vimos cantando y decia este cantar». Este 
yillancico inclue dous cantarcillos. 

* Uma nota relativa ao n. 4 350 diz o seguinte : « Voscar dice el original, pero 
creo que deberia decir bustar (establo de bueyes), 6 mas bien Bustab, que es el 
pueblo de la Sierra, cerca de Torrelaguna, hoy llamado Bustar-viejo». A referencia 
ao n.° 380 (que era necessária) falta comtudo. 



La mas graciosa serrana 
(qu'en el mundo no hay su par) 

es Menga la dei voscar! 



* 



Con su zurrou y cayado 
la vi en somo la montafla 
que salia de su cabafla 
para guardar el ganado. 



[N.°350;pag. 178 e 521 »]. 



352 



REVISTA LUSITANA 



cada (com l por r, por causa das rimas brial, saial) deve ser uma va- 
riante, talvez dialectal, nascida por influencia de bosque. O castelhano 
Bustar e Busial significa, quando appellativo (tal qual como o portuguez 
bostal e o derivado bostaliza) o curral do gado vaccum, assim como 
as pradarias circumjacentes em que bois e vaccas pastam (vaccari- 
ças 1 ). E serve, ao mesmo tempo, de nome próprio, denominando vá- 
rios logarejos em differentes províncias da península. Em terras de 
Hespanha temos, além de uma villa Bustar (chamada hoje Bustar viejo) 
ao pé de Madrid, a que Barbieri se refere, mais outra localidade : um 
santuário perto de Carbonero-el-Mayor (districto de Segovia). A serrana 
Menga la dei Bustar, era, portanto, evidentemente, oriunda de um dos 
dois logares. Penso que do segundo, que é mais montanhoso [serra 
de Guadarrama], e visinha dos logarejos Lozoya, Bascafria e Colme- 
nares, que serviram de scenario a afamadas Serranilhas. Seria costu- 
meira designar a pastorinha por aquelle sobrenome, para diferenciá-la 
de outras Mengas, conforme já ' indiquei. 



E as relações de Menga la dei Buscar com Santa Maria dei Pino ? 
— Um instante julguei provável que o santuário de ao pé de Segovia 
tivesse um altar dedicado a Santa Maria dei Pino. Sei comtudo, hoje, 
que a padroeira da afamada egrejinha se chama simplesmente Nues- 
tra Senora dei Bustar; como sei que Santa Maria dei Pino ó nome 
de uma terra ao pé de Lugo, na Galliza. Supponho por isso que não 
ha relação directa entre os dois logares. 

0 auctor da primeira poesia pastoril que transcrevi (Yo me yba), 
quereria indicar apenas que encontrou durante a sua peregrinação a 
Santa Maria dei Pino, cujas aventuras vae narrando, a famosa Menga, 
que elle nos apresenta (se não me engano) como entoando jubilosa al- 
guns dos versos que tinham sido dedicados, talvez em justa poética, 
por vários trovadores de aldeia à sua própria belleza e deliciosa arte 
de bailar e cantar. 

Para comprehender o porquê da minha interpretação será bom 
relêr o vilhancico hespanhol. Barbieri acha-o defeituoso, e lamenta que 
o não encontrasse em outra parte, para o poder corrigir 8 . Com razão. 

1 Nas Glossas de Isidoro lê -se : Bostar — locus ubi stant boves (como que 
viesse de boo -f- starej. 

2 Conheço varias, p. ex. a Menga de Mançanares, amiga de Pasqual de Bus- 
tares! por uma das Serranilhas do Marquez de Santillana (a 4.*). — O prenome 
rústico Menga ou Minga de Domenga[à] Dominga[s] occorre, como é natural, nào 
sómente no Romanceiro castelhano que o snr. Epiphanio explorou, mas também e 
com frequência, na poesia pastoril, í. é, em vilhancicos, serranilhas e eglogas. — 
Cfr. Barbieri, 188, 369, 370 e 385 ; Sá de Miranda n.° 26 ; Camões, Redondilha 48, 
e em Gil Vicente. Citarei : 1) — Todos vienen de la vela y no viene Menga ! 2) — 
Esconjuro-te Domingas / 3) — Norabuena vengas f Menga, etc. — Os Mingos ou Do- 
mingos sâo mais vulgares ainda. 

3 «Por no hallar en otra parte este villancico no he podido corriçir los de- 
fectos que Be notan en bu poesia ; y es lástima, porque la música está bien hecha, 
y su melodia tiene muy buen sabor popular.» 



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MISCRLLANEA 



353 



O texto é realmente desconnexo, embora eu nao o considere mais es- 
curo do que na maioria das serranilhas. Entendo que, no nosso caso, 
podemos chegar a adivinhar o sentido, suppondo que o apostrophado 
Domingo da 2* estrophe, é o próprio poeta-pastor. A romeira Menga 
chama a Domingo, logo que o avista, e conversa com elle; mas quan- 
do este lhe falia de amor, declara que o seu coração pertence a ou- 
trem, Miguel do Colmenar. Assim, pelo menos, haveria ligação entre 
as tres scenas do pequenino drama. 

A fórma estrophica é que é irregular. Só as ultimas duas estan- 
cias se compõem, como é regra e costume nos vilhancicos, de sete linhas, 
subdivididas em uma quadra (X b X b) e um terceto (c X c), com cor- 
respondência de rima entre o terceto e o Mote. A primeira estancia, 
pelo contrario, tem duas linhas a mais, que, quanto ao sentido, poderiam 
ser cortadas [5 e 6]. Nao temos, todavia, o direito de riscál-as, porque 
as notas musicaes correspondentes fazem parte integrante do som. Além 
d'esta desigualdade falta no fim das tres estrophes narrativas o texto, 
assim como a musica dos Cantarcillos lyricos, que a serrana ia entoando. 

De duas uma : Ou estes cantares eram idênticos todas as tres ve- 
zes, e portanto um simples refram. Neste caso deviam consistir na 
repetição dos tres versos sobre Menga, antepostos ao vilhancico como 
Mote *. Ou então, elles divergiam, constituindo tres poesias, quer fossem 
do próprio auctor, quer alheias: cantigas da moda, que era costume in- 
tercalar em muitas bucólicas artísticas, desde os dias de D. Dinis *. 
Neste caso talvez conviesse introduzirmos os tres motes dedicados a 
Menga, que já copiei: 

1. °) Menga la dei Bastar 

2. °) La mas graciosa serrana 
e 3. # ) Serrana dei bel mirar? 

Todos teem o mesmo schema rhythmico; e a mesma rima (em tf), 
e todos teem no Cancioneiro a respectiva musica. Em ambas as hypo- 
theses a serrana Menga, de que a poesia trata, teria cantado, com com- 
prehensivel philaucia, louvores de si mesma 3 . 



Passemos agora aos pontos 1.* e 3.°, fallando em primeiro logar 
da phrase delledino. Ou por outra, vejamos a que género lyrico perten- 
cem os versos allegados por Chrisfal. Barbieri trata-os de mlhancico, 
e eu sou de igual parecer. Existe, comtudo, outra opinião diferente. 



i Neste caso nada faltaria á musica. 

8 Ha exemplos (Teste costume, importado de França, no Cane. da Vat. (n. 0- 
278, 102, 454); Cane. Col. Brancuti (n.° 469) ; Cane. Barbieri (n.° 346), e nas obras 
de Santillana (pag. 461 da ed. Amador de los Rios). 

s Possível é lambem que o poeta quisesse deixar a escolba dos Cantarcil- 
los ao ar bi trio dos cantantes. Comtudo, não ha exemplo de tal proceder. 

REY. LD8IT., VOl. III, faSC. 4. 5 



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354 



REVISTA LUSITANA 



Em tempos em que as duas linhas apparentemente iniciaes 



« Yo me iba, [la] mi madre, 
a Santa Maria dei Pino,* 



eram as únicas conhecidas, Theophilo Braga julgou ter ahi restos de 
um canto popular, medievico, de um género velho, que um côro de pe- 
regrinos, ou um individuo só, costumava entoar nas vigílias de santos 
ou em procissões e romarias. E deu a este género perdido o nome 
de Cantos de ledino, na firme fé de ter encontrado na própria obra de 
Falcão aquella designação que, neste caso, mereceria ser tratada de 
tradicional e fidedigna. Do grupo de lettras delledino ou deledino, 
que faz parte da 3. a linha da decima, é que deriva aquella hypothese 
e todas as ulteriores que foram forjadas com relação aos cantos de 
ledino. 

Que significam as oito lettras? 

A edição sem data, que passa por ser a mais velha das conheci- 
das, imprimiu cantar cantou em si dino, o que não dá sentido acceita- 
vel. A de 1659, que é indiscutivelmente a melhor, isto é, a menos ei- 
vada de erros, tem cantar canto (sic) de ledino, formula que Theophilo 
Braga acceitou, mudando-a porém em cantou canto de ledino, no intuito 
de rectificar o visível erro de imprensa A terceira lição cantou can- 
tar delle digno data (apparentemente) do folheto de 1619 (o qual de- 
riva, segundo o snr. Epiphanio, de cópia independente dos apographos 
que serviram para as impressões anteriores) e foi repetida no de 
1721 *. O novo editor preferiu esta ultima, corrigindo-a orthographi- 
camente, i. é, escrevendo phoneticamente dino (por causa da rima com 
pino e devino). A pag. 102 declara ainda decididamente que os pre- 
sumptivos Cantos de ledino nunca existiram senão na phantasia de 
Theophilo Braga. 

O que se infere da divergência das tres «fontes» é que o auto- 
grapho era aqui pouco claro. As quatro lettras dino lá estão> com- 
tudo, em todas as partes. E dous editores leram, em dous manuscrip- 
tos diversos, de le em logar de em si (?>fi) que um único apresenta. 
Torna-se portanto verosímil que a graphia originaria fosse deledino. 
E é este grupo de lettras que devia e deve ser interpretado pela cri- 
tica. 

0 editor de 1619 interpretou d-elle di(g)no 3 . Na typographia de 
Birkman sahiu de ledino. Mas, aconteceria que a syllaba le se soltasse 
por descuido do de antecedente e corresse para o dino immediato, ao 

1 Cantar cantou é que devia ter emendado. 

a Entre as duas edições ha outra intermédia, a de 1639, que existe, como 
provarei em outro logar. — Não alcancei ainda verificar se a de 1571 é mais do 
que um mytho, como penso. Só depois de ser conhecida, será possível dizermos 
se serviu ou nâo de modelo á impressão de 1619. 

* E* possível que a rima benigno em logar de devino seja uma substitui- 
ção arbitraria, provocada pela graphia erudita digno. 



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MISCELLANKA 



pôr-se a forma no prélo, em Colónia, ou seria realmente intencional e 
interpretatoria a separação de ledino? Só se em 1559 a formula ainda 
era conhecida e significativa. Mas se tal fosse, forçosamente devia de 
haver mais provas da sua existência — o que não acontece. 

Reproduzindo a lição do snr. Epiphanio, sem a modificar, e in- 
terpretando-a como tenho feito, jà indiquei que me inclino para a pri- 
meira conjectura, e duvido da authenticidade dos Cantos de ledino K 

Tentarei cimentar mais solidamente ainda este meu modo de vêr 
com duas breves analyses dos antigos cantos de romaria e dos versos 
a Menga dei Bustar, dizendo primeiro da sorte que tiveram os sup- 
postos Cantos de ledino, nascidos em 1559 por geração equivoca, e re- 
suscitados para a scienciá em 1871. Accrescen tarei também o pouco 
que se me offerece âcerca do tal vocábulo ledino. 



Ao acceitar e reproduzir em 1871 a lição «de ledino* de Birkman, 
Theophilo Braga não deduziu d'ahi theoria alguma. À única sentença 
«explicativa» que encontro no seu € Estudo sobre a vida, poesias e época 
de Christovão Falcão», refere-se ao idioma em que me iba* se can- 
tava em Portugal, e consiste na (de resto, falsa) asseveração que a 
influencia dos Cantos castelhanos em Portugal data dos últimos annos 
do reinado de D. Manuel 2 . Nada encontro também nos primeiros vo- 
lumes da Historia da LUteratura Portugueza. O volume dos Trovadores 
Galecio-Portugiiezes (1871) não adianta a questão, como tampouco o 
dos Bucolistas (1872), apesar de tratarem novamente da biographia e 
das poesias de Falcão. 

A «descoberta» ou, melhor, a ideia quasi ineluctavel de pôr em 
connexão o Carito de ledino: Yo me iba, com todas as antigas compo- 
sições de caracter popular dos antigos Cancioneiros peninsulares, a 
que muito indevidamente dão em Portugal o nome de serranilhas, 
nem mesmo pertence a Theophilo Braga. E' de F. A. Coelho, e tomou 
corpo em 1875 quando este erudito investigador, ao revêr as provas do 
Cancioneiro da Vaticana, chegou a lêr as poesias sobre o santuário 
de Santa Maria de Leça, e outras parecidas 3 . Só depois de enunciada 
por elle na Bibliographia critica (a pag. 319), é que Ernesto Monaci a 
fez sua e que Theophilo Braga a adoptou, desenvolvendo-a. O benemé- 
rito italiano, a quem devemos o Cancioneiro da Vaticana, e que então 
estava em estreitas relações scientificas com o seu collaborador Coe- 



i Já anteriormente me pronunciei no mesmo sentido no meu Quadro da Lit- 
ter atura Portuguesa (em Groeber : Grundriss n). 

* De facto data de 1457 (como já provei em outro logar), i. é, dos tempos de 
Juan de Mena e Santillana. 

3 A prova do que affirmo, está no artigo que Coelho dedicou á edição 
do Chrisfal de Theophilo Braga. A pag. 34 da Bibliographia critica nada diz so- 
bre os cantos de ledino. 



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356 



REVISTA LUSITANA 



lho, publicou pouco depois uma serie de Cantos de romaria, dando- 
lhes ostensivamente o titulo de Cantos de ledino \ 

Restringia assim, judiciosamente, o emprego da nomenclatura a 
certa espécie de poesias, guiado pelos versos Yo me iba, la mt madre, 
A santa Maria dei Pino. 

Quasi simultaneamente é que Theophilo Braga começou a formar 
e expôr novas theorias àcerca da lyrica dos séculos xm e xiv e as 
suas bases ethnicas, e em especial sobre o caracter popular dos gé- 
neros por elle* chamados serranilhas, cantos guayados, e cantos de le- 
dino — alargando-as posteriormente pouco a pouco, e refundindo-as 
mais de uma vez. Hoje accentua o caracter religioso, dos suppostos 
cantos de ledinp; àmanh* o seu feitio vulgar, leigo e erótico. Ora re- 
pete a ideia de Coelho, identificando cantos de ledmo e serranilhas (1. 
é tudo quanto tem caracter popular no Cane. da Vat.J, ora a de Mo- 
naci, applicando o titulo apenas ás cantigas de romaria. Em geral é 
a segunda opinifto que prevalece *: os incógnitos cantos de ledmo sâo 
definidos como «cantos sacros, próprios das vigílias de santos e roma- 
rias productos do elemento romano, modificado pelo culto Chnstâo, 
recebido da Africa, e que persistiram na tradição galleziana, sendo 
depois imitados nos Cancioneiros aristocráticos!» Quanto ao nome, tenta 
derivá-lo uma vez de ledania (litania 8 ); outras vezes do adjectivo 
k áo (=laetus) que occorre a miude nalguns cantos de romaria 
As mais das vezes propõe, comtudo, como étymon a palavra latino , 
explicando que as ledanias mais antigas deviam ser cantadas em Za- 
tino. Ou também, em sentido diametralmente opposto, que latino de- 
nominava a linguagem vulgar. Era tudo isso haverá ideias boas. O 
grave inconveniente, que as torna, porém, desaproveitáveis para a 
questão, é que a formula que, em caso melhor, seria um hapax lego- 
menon, é tão mal documentada como o leitor sabe. Em parte alguma 
encontro referencias a cantos de ledino, nem mesmo descobri até hoje 
a palavra isolada ledino (com e). 

i Infelizmente não possuo nem nunca vi o opúsculo, porque nao entrou no 
mercado, sendo apenas um brinde pelle nozze Stengel. 

Ignoro por isso se uma introducção, ou pelo menos uma nota, explica ao 
amigo o que Monaci pensava dos cantos de ledino. O pouco que sei da pequena 
obra, foi colhido nas notas do Cane. da Vat. relativas ás cantigas 734 a <Ò0. 
Dallas resulta que Monaci escolheu e publicou 16 cantos de romaria (os n." 
734 a 750, com exclusão do n .• 749), que todos sào dedicados a Sam Servando. 

a Quein quiser seguir os vaivéns das suas ideias, naturalmente oscillantes, 
ácerca dos Cantos de ledino, consulte, depois de se ter inteirado dos dizeres <*e Coe- 
lho e Monaci, o Manual, pag. 45-47 (1*75); a Antologia, pag. xv, § 53 (1876) ; o 
Parnaso, pag. xl e lvii (1877); o Cane. da Vat., pag. lvii, xcvi e xcix (1878) :a 
Theoria, pag 185 (1880); as Questões, pag. 30 e 33 35 (1881) e o Curso, pag. 82 
(1886). 

s «Phoneticamentc, ledino deriva-se de letania». 

4 Vid. Cane. da Vat., n." 739, 851 e 877. 

5 Coelho e Monaci pensaram, apparentemente, também na mesma etymo 

logia. 



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iíISCELLANEA 



0 único reflexo legitímo popular (ou semi-erudito) de latinus é na 
península o adjectivo ladino ! . Eo único sentido em que se emprega 
hoje, em Castella e Portugal, é o de astuto, sagaz, esperto, perspicaz, 
manhoso. Originalmente applicado ao mouro bilingue *, e portanto in- 
telligente, que além do seu árabe, ou berbere, fallava o romance da 
península que nos séculos viu a xi se chamaria ainda latino, passau 
depois a designar tudo quanto era intelectualmente «/?wo». Os textos 
mais velhos em que encontro phrases comprovativas sâo o Poema dei 
Cid, onde apparece (na linha 2:667) um moro latinado, a Chronica ge- 
neral (fl. 304), onde se diz de ura mouro que era ttan ladino que se- 
mejava christiano 3 > ; e a Crónica de Alfonso X, que falia de cartas 
escriptas tuna en arábigo e otra en ladino 4 ». 

Com relação a obras poéticas, vejo-o empregado algumas vezes. 
Um trovador do Cancioneiro de Baena diz: yo fise estríbotes trobando 
ladino [n.° 546»; vol. n, pag. 249]; um outro exclama: Johan Garcia 
muy ladina es mi arte [n.° 392, vol. n, pag. 99]; e um terceiro pede 
respuesta por lengua ladina [n.° 399, vol. ii, pag. 106], Todos os tres 
pensam — se nâo érro — na fórma culta, fina e artificiosa das poesias 
palacianas que cultivavam 5 . Cantos ladinos, se existissem, seriam 
portanto, — se é licito tirar conclusões dos poucos exemplos colligi- 
dos — , cantos bem feitos, de fórma artificiosa, i. é, de arte apurada, 
ou, para nos servirmos dos termos usados na poeáca peninsular, de 
arte maior, de marca maior, ou de mestria. 

Vejamos se os antigos cantos de romaria eram de mestria e pe- 
reciam o nome de cantos ladinos ou seja ledinos, porque de ladino para 
ledino a distancia é, realmente, pequena. Mas cantos de ledino ? Mesmo 
grammaticalmente este modismo é incorrecto. Só se elle quizesse di- 
zer cantos de um ladino (cfr. cantos de um villão? cantos de um 
truão) etc. ? 

Os cantos de romaria do Cane. da Vat. passam de meio cento. 
Repartem-se em uns 12 a 15 grupos. Cada um d'estes grupos é a 
obra individual de um poeta que, cheio de enthusiasmo local, nòmeia, 
na intenção de o festejar, o santo da sua terra, i. é, da sua devo- 
ção 6 . Não se julgue porém que ha nas respectivas poesias verdadeiro 

1 A variante portuguesa ladinho por ladlo, que seria realmente popular, é rara. 

* E não ao preio, como se costuma aflirmar em escriptos nacionaes. 

8 Cfr. D. Quixote, i, cap. 41, onde ladino serve de epitheto a um berbere re- 
lativamente perito em línguas. 

* Cap. 42. — Cfr. Chronica de D. Juan /, pag. 291, que menciona um moro 
ladino. 

8 £ não na phraseologia chã, clara e singela que Dante chama latina no seu 
Paraíso <m, 63). 

0 Ha apenas um trovador aristocrático, o rieo-homem D. Affonso Lopes de 
Baiam, que se ensaiou em cautos de romaria, dedicados a Santa Maria das Leiras 
[Vat, n. ot 339-342]. Todos os restantes eao de joglares, oriundos da Galliza ou do 



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358 



REVISTA LUSITANA 



fervor religioso, ou qne ellas sejam sacras pelo seu conteúdo. A igreja 
ou ermida, visitada em dia de romaria (ou sagraç ãô = Kirchwkihb) 
é festejada apenas como logar typico dos renckz-vous dos namorados, 
que, depois de «fazerem oração», iam bailar, cantar e conversar ao 
ar livre, emquanto as velhas continuavam a rezar, queimando candeias 
ou estadaes. Ora temos, em estrophes narrativas, recriminações e re- 
miniscências do passado; ora desejos, pedidos, projectos de entrevis- 
tas futuras. Quem falia é quasi sempre a namorada, que se dirige 
à mãe, âs irmãs ou ãs amigas. De vez em quando é também a mãe 
que vae instruindo a filha. Todas pertencem portanto, sem excep- 
ção, à eathegoria dos cantares de amigo (= Fbadenlikder), ideados 
por aulicos, burgueses e populares, como sahindo de bocca feminina. 
Quanto à fórma, ella varia bastante, sendo porém, sempre singela, de 
caracter popular: de refram e não de mestria. Temos em geral tres es- 
trophes curtas de quatro ou cinco linhas, com oito a doze syllabas cada 
uma. Só uma pequena minoria ostenta estrophes ainda mais primiti- 
vas de apenas dous versos, e juntamente o dualismo parallelistico que 
fórma o distinctivo das bailadas (falsamente denominadas Serrani- 
Ihas 1 J. O único traço fixo e geral dos cantos de romaria é que no 
corpo da cantiga ou no seu refram se nomeia o logar da romaria, ou 
seja o santo festejado, conforme já indiquei 2 ; em todo o resto asse- 
melham-se muito aos outros cantares de amigo. — Basta p. ex. que o 
logar da entrevista que fórma o verdadeiro assumpto da poesia, não 
seja sagrado — co*o acontece quando a namorada chama o amigo pará 
a praia, as ribas do lago, a fonte, o avellanedo, o pinheiral — ou que 
o dia marcado não seja santo, para que as tenuíssimas barreiras que 
separam os cantos de romaria dos outros cantos de amigo caiam por 
terra 3 . Será por isso que a antiga poética não possuia nome espe- 
cial para ellas 4 . 

norte de Portugal, i. é, das terras clássicas das romarias. Joham Servandõ celebra 
a egreja do seu santo padroeiro 8. Servando na serie importante de poesias que 
Monaci publicou (734-750) ; Fernam do Lago rezava a Santa Maria do Lago (898) ; 
Pero de Dardia a Santa Marta (709-712) ; Pedro de Veer falia de um santuário nâo 
especificado de Santa Maria (721-23) ; Nuno Fernandes é devoto de S. Cremente (805- 
808); Martim Pedrozellos de S. Salvador de Vallongo (845-851) ; Martim de Grijó 
queimou candeias a Santa Cecilia do Soveral (876-881) ; Martim Codax gostava de 
Vigo (884-890) ; Aires Paes foi a Santa Maria de Leça (891-892) ; Ijopo jograr a S. 
Leuter (857-860) ; Joham de lUqueixo a Santa Maria de Faro (894-898); Aires Cor- 
pancho a Santiago (265) ; Pero Vidães a S. Simon de Val de Prados (336) ; Joham 
de Cangas a S. Mamede (873-875); Golparro a S. Treezon (?) (872). 
i P. ex. n." 878 e 879. 

* A palavra romaria occorre também frequentes vezes (p. ex. nas cantigas 
734, 738, 741, 749. 841, 878 e 897.— Cfr. 356, 458 e 689), mas nâo é indispensá- 
vel. Temos sagraçom nos n.°' 731 e 832. 

8 Simples nomes de logar, sem indicação especial do santo ou da santa 

3ue abi era venerada, também occorrem. Temos Bonaval nas poesias 729 a 742 ; 
uilham, no n.° 720; Lugo, 903; e Crexente, 554, etc. 

4 O único manual doctrinario relativo á época dos trovadores que existe, é 
lacónico e fragmentário, e nada revela á cerca de cantos de ledino. Nas rubricas e 
nas próprias poesias também não ha indicação alguma. 



tírSCÉLLÁNÍA 353 



Falta o nome á espécie — e é realmente pena que falte. Mas nem 
por isso se pôde negar que linhas como « Yo me iba* sejam reminis- 
cências de formulas typicas antigas. Coelho, lendo 

*Fui eu, madr 9 , en romaria 
a Faro con meu amigo*, 

Ott *Fui eu a San Servand devia forçosamente lembrar-se do « Yo mê 
iba*, do Chrisfal, e era levado a adivinhar neste fragmentozinho 
um descendente directo das alludidas poesias do Cane. da Vat., que 
attestava a conservação de um typo archaico até ao 2.° ou 3.° decen- 
nio do século xvi. O parentesco era, e é, evidente. As differenças, fi- 
lhas de um desenvolvimento de dous séculos, sô estão patentes agora, 
depois da appariçfto do Cancioneiro Musical Peço ao leitor que com- 
pare qualquer das poesias citadas do Cane. da Vat, com os versos 
de Menga la dei Bustar. Eis uma que não é nem mais, nem menos 
parecida que as restantes: 

Fui eu, madr' en romaria 
a Faro con meu amigo, 
e venho dei namorada, 
por quanto falou comigo, 

ca mi jurou que morria 

por mi: tal ben mi queria! 



Leda venho da ermida, 

e d'esta vez leda serei, 

ca falei con meu amigo 

que sempre muito desejei, 
ca mi jurou que morria 
por mi: tal ben mi queria! 



D*u tn*eu vi con meu amigo 

vin leda, si deus mi perdon, 

ca nunca lhi cuid' a mentir 

por quanto m'el diss' enton, 
ca mi jurou que morria 
por mi: tal ben mi queria! (894) 



1 Cfr. fcinclai Quer* ir a Santa Maria de Leça.-* A Far* un dia irei, madre, 
se vus prougutr. — Quand eu a San Servando Fui un dia d'aqui fazel-la romaria. 

lr quer' hoj' eu, fremosa, de coração Por fazer romaria e oração. — Ora van a 

San Strvand donas fazer romaria. 



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360 



REVISTA LUSITANA 



Duas são as differenças prineipaes. O texto kespanhol nâo é um 
cantar de amigo l . Qaein ahi falia é evidentemente um homem que ga- 
ba a querida (tal qual antes as amigas costumavam gabar os seus ami- 
gos): um rapaz novo que narra as suas aventuras á própria m&e, como 
outrora as filhas costumavam fazer *. E estas aventuras, contadas na 
primeira pessoa, referem-se a uma serrana (nome que nâo occorre em 
nenhum dos antigos cantos de romaria), tendo além d'isso outros tra- 
ços typicos, que nos obrigam a classificar «Fo me iba> de serranilha. 
Mas serranilha transformada, que traja à maneira moderna, i. é, que 
se compõe de mote e voltas, como os vilancetes ou villancicos que se 
desenvolveram no século xv dos géneros preexistentes da poesia indí- 
gena, influenciados, quanto â fórma métrica, pelos rondeaux, lais, vire- 
lais, ballettes e chansonnettes da França do Norte. O canto de Menga 
de Bustar que Christovão Falcão cita, é, portanto, uma serranilha-vi- 
lanceie 3 , que pediu emprestado um traço (a designação de um santuá- 
rio) aos antigos cantos de romaria 4 . De mais a mais, ainda que o ra- 
paz seja o verdadeiro orador, elle vae citando textualmente os dize- 
res da amiga que introduz cantando. 

Não tenho de tratar aqui explicitamente do interessante thema 
serranilha-vilancete. Restrinjo-me a assentar que o nome serranilha 
deve, a meu ver, ficar reservado exclusivamente para os «pendants» 
peninsulares das pastoreias provençaes e francesas, de que infelizmen- 
te tão poucos exemplares se conservaram 5 , isto é, para as poesias 

1 lia, comtudo, cm Hespanha, no século xv, numerosíssimos exemplos de 
Fravcnlitder, tanto entre as cantigas populares como entre as creaçòes artísticas. 
Vejam-se por ex. no Cane. Mus. os n." 4, 209, 215, 227, 237, 401 e 402. 

& Na litteratura portuguesa não conheço exemplo algum d'estas estranhá- 
veis confidencias de rapaz. — Em Barbieri temos mais dous (48 e 11 5) . 

3 E' provável que houvesse muitas mais. Por ora só posso registrar mais 
dous fragmentos : Yo me iba, mi madre, A Villareale, recolhido por Salinas e ci- 
tado por Milá y Fontanals, e Yo me iba, mi madre, A la romeria, mencionado por 
Am. de los Rios. 

* Esta amalgamaçao pode ser antiga. Provém, a meu vêr, de certas pasto- 
relias franco-provençaes que indicavam como logar da acçào o «caminho francês» 
ao santuário de Santiago de Compostella ! 

5 Conheço duas dúzias de pastoreias castelhanas e apenas duas portuguesas : 
uma, antiga, de que resta apenas um parco fragmento de quatro linhas : 

A' terra de Cintra 
a par d'esta serra 
vi fia serrana 

que braadava guerra. (Vat. 410). 

e outra aproveitada por Gil Vicente (in, 214) : 

A serra é alta, 
fria e nevosa, 
vi vlir serrana 
gentil, graciosa. 

As bespanholas sao: quatro do Arcipreste de Fita (933,961,971 e 996) 5 de* 



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MISCELLANEA 



361 



narrativas em que um homem conta as suas entrevistas com pastoras- 
serranas, começando por indicar o logar da scena; passando a des- 
crever o traje da bella, e intercalando depois versos por ella canta- 
dos \ As cantigas de contextura parallelistica, i. é, as bellissimas bai- 
ladas conservadas no Cane. da Vat., no Cane. Musical, no Cancionero 
Patrimonial e nos Autos de Gil Vicente, o cossante de Diego Fur- 
tado de Mendoza, as poesias populares de Rebordainhos, as Muinhei- 
ras da Galliza, etc. — emfim, todas as poesias peninsulares em que a 
mesma ideia se repete duas vezes em fórma levemente variada com 
rimas divergentes, devem ser designadas com outro nome. Escolha- 
mos entre os termos cantos dualisticos; cantares parallelisticos ; cossan- 
tes; cantos de dama prima; bailadas portuguesas, mas em todo o caso 
demos-lhe um nome seu, distinctivo, que lhes seja mais adequado do 
que o de serranilha 2 . 

Resta explicar grammaticalmente as linhas 9 e 10, em que ha, 
segundo o snr. Epiphanio, cuma violência de construcção que não deixa 
bem a critica decidir-se», quer se leia com a edição sem data: o 
qual eu affigurei, ou, com as restantes impressões, a qual eu affigurei 
a Mengua la dei boscal. Se referirmos a qual como relativo a seda, 
sae-nos de facto um disparate lógico, porque Chrisfal não podia na 
sua imaginação reproductora vestir de seda a serrana Menga. O ex- 
pediente seria, pormos ponto final na linha antecedente (depois de 
saial), tomar a qual como demonstrativo, à maneira latina, e referil-o 
ao sujeito da estrophe 41.*, entendendo: hiia serrana queixosa. . ., 8 
a qual eu affigurei (ser) a Menga, la dei buscai. Neste caso a seria ar- 
tigo, e não preposição. Não o apoio, porém. Mais vale acceitarmos o 
relativo o qual, e referil-o a vestido (que era um brial de seda e não 
de saial). O modo de dizer o vestido que eu affigurei a Menga, ou, por 
outra, a construcçâo affigurar alguma cousa a alguém = representar 
na imaginação alguma cousa como pertencendo a certa pessoa (Je- 
mandem eine Sache andichten oder andenken), não me parece cousa mui- 

de Santillana *, umas poucas de Iíiigo Lopez de Mendoza, o Feio ; Diego Furtado 
de Mendoza; Francisco de Bocanegra; Carvajales, Eetufiiga e Reinosa. — As lin- 
das pastoreias palacianas do Cane. da Vat. (102, 137, 150, 278, 457, 554 e 689), em 
que uma pastor (sic) fala e canta, são de eatylo bem differente, meras imitações 
ae modelos transpyrenaicos. 

i Só a serranilha de Gil Vicente, que se afasta do typo commum, tem a 
fórma das Parallelstrophen-Lieder, nome allemâo empregado por Storck e que eu 
adoptei, introduzindo-o no meu Q/iadro da IAtteratura Portuguesa. 

* Na sua Anthologia Theophilo Braga deu uma definição muito razoável de 
serranilha : os exemplos, para que remette o leitor, nâo correspondem, porém, de ma- 
neira alguma, á definição. As outras definições e as etymologias do mesmo auctor 
contidas nos vários volumes da Hist. da Litt. Port. são sem valor. 

. * A estrophe 5.* offerece um exemplo do emprego de a qual como demon- 
strativo. Refere-se á pastora Joana, citada na estrophe 4.* 



362 



REVISTA LtmrfANA 



to estranha. Lembro uma phrase de Mousinho de Quevedo (que anda 
nos diccionarios) : o anjo a quem membros mortaes afiguramos. 
E disse. 

Porto, 14 Março de 1894. 



Nota final : 

Chamo a attençfto dos leitores que se interessam pela Egloga 
de Christovam Falcão para o pequeno artigo em que fallei aos lei- 
tores allemâes da excellente edição do snr. Epiphanio. Escripto pos- 
teriormente a esta noticia, jâ foi impresso no Literaturblatt, vol. xv, 
pag. 267 a 277. 



Airillustre Signora Carolina Micha&is de Vasconcellos, a propósito d'una soa eti- 
mologia portoghese contenuta nel dotto suo articolo : Ètymologias portuguesas 
(Revista Lusitana, v. i, n.° 2, pag. 124). 

Illustre Signora. 

Benchè io non abbia Ponore di conoscerla nè per relazione epi- 
stolare, nè di persona, senza essere però meno ammiratore delia sua 
dottrina única piuttostochè rara in donna, permetta che Le diriga la 
presente affine di prendere argomento ad alcune considerazioni moveu- 
do da una delle differenti etimologie addotte da V. S. dei verbo con- 
soar: mangiare qualcosa al fine d ? una vigília, e ancora: suonare in* 
sieme, cioè rimare (cfr. pure la voce consonante 1 ) dal latino con-sonare. 
In italiano abbiamo pure la voce : consonanza, nome che vale : accordo 
di voei, fig. : uniformità, conformità, corrispondenza ; consonare, verbo 
= concordare il suono delPuna voce con Paltra, fig. : confarsi, accordar- 
si; consono, agg. che ha consonanza, fig.: conforme. Questa etimologia 
é facilissima a spiegarsi foneticamente, dice V. S. a propósito di essa, 
ma impossibile di (chiarire?) historiar ragionevolmente in modo scien- 
tifico quanto aUo sviluppo dei significato. In nota poi Ella osserva 
che «non può citare il vero inventore di questa etimologia che udi 
enunciare parecchie volte in conversazioni famigliari. La notte dei Na- 
tale è per i fautori di questa etimologia una notte, in cui gli angeli 
intuonano leggiadri canti? O forse una notte, in cui non vi regna 
dissonanza, ma bensi dolce consonanza fra i presenti?» 

Benchè ancora come profano quasi nella Sua melodiosa língua e 

i Che ha consonanza, e lettera dell'alfabeto che suona insieme con la vocale, 
Ricarda l'immagined el Matthus : «Tutti hanno diritto diasaidersi al ban- 
chetto delia vita però non già solo come consumatori, ma ejiando come produttori». 



Carolina Michaslis de Vasconcellos. 



II 



LETTERA APERTA 




MlfiCELLANKA 



363 



un poco anche ospite nella scienza delia linguistica, senza pretesa però 
di voler accogliere in modo assoluto la detta etimologia, cbe riferirei 
alia prima delle due ipotesi delia nota, mi permetto però di fare alcu- 
ne considerazioni se non per colmare in modo assoluto la lacuna esis- 
tente fra mangiare e suonare insieme, almeno per attenuarla. 

E' indubitato che molti atti dei corpo spiegano altri atti dello 
spirito, sicchè come non si può concepire che il corpo viva senz'ali- 
mento, cosi pure lo spirito, onde nel Vangelo si legge: Non de solo 
pane vivit homo sed de omni verbo quod exit de ore ejus. La scienza 
poi è detta dal Divino Poeta: 

11 Pan degli Angeli dei quale 

Vivesi qui ma non sen vien satollo. (Parad. n, 11-12). 

Cosi pure il titolo delia nota opera di Dante Convito (titolo me- 
tafórico di banchetto di sapienza, comune anche anticamen te in Gré- 
cia) spetterebbe al precedente tropo, molto piu che si compone di can- 
zoni, che formano le vivande di questo banchetto, e di commenti in 
prosa che ne formano il pane 1 . E a propósito di quesfopera il Car- 
ducci con la sua usata arguzia pure scriveva press' a poco cosi: «Dan- 
te povero, meschino, privo quasi dei necessário a vivere generosa- 
mente con quesfopera â connazionali e coetanei imbandiva un lauto 
banchetto di sapienza, acciocchè appieno se ne potessero satollare 
quanti ne sostenevano grave inópia». E qui per non dilungarmi tra- 
lascio le molte similitudini di Dante tratte dalPidea dei cibo, dei pa- 
scolo; però non posso astenermi dal ricondare quella spettante al per- 
sonaggio politico adombrato nel Veltro allegorico dei i delFInferno : 

Questi non ciberà terra, nè peltro. 

cioè questi (forse Can Grande delia Scala) non sarà bramoso nè di 
potere politico, cioè non ambizioso, nè di oro, cioè non avaro. 

E qui a propósito delia predetta prima ipotesi circa il canto sin- 
fónico degli Angeli nella notte di Natale mi piace di notário in atti- 
nenza se non deiridea letterale di cibo, alimento, almeno in ordine 
alPidea figurata che testè abbiamo già toccato, salvo che sopra ri- 
guardo alia scienza e ora rispetto alParte, che interprete dei bello, 
il quale, piacendo oltremodo alio spirito che la vagheggia, si dice 
(con una metáfora comune in italiano e forse anche in portoghese e 
nelPaltre lingue neo-latine) ne formi appunto il grato pascolo, e so- 
prattutto Parte per eccellenza, la musica (identificata dai Greci con la 
scienza e perciò appellata pure acçía la maestria spiegata in essa), 

1 Cfr. pure il titolo figurato di Cene dato da A. F. Grazzini detto il Lasco 
alia raccolta di sue novelle, e quello di Merende a certe sue discussioni in forma 
dialogica date da Mauro Ricci (Frate Possidonio da Peretola), contenute nel suo 
gajo e dotto libro : VaUegra filologia. 



364 



BÂVíStA LUSITANA 



germana gemella delia poesia, onde Filippo Pananti nel poema eroi- 
comico il Teatro e Antonio Guadagnoli dopo in sua ode burlesca dis- 
sero: 



Del resto il nome delia poesia delPaffetto lírica (perchè già dis- 
posata al suono delia lira), Paccompagnamento che il suono dei plet- 
tro, delia mandola e delia guzla faceva alia poesia rapsodica, provenza- 
le e slava, come pure il melodramma moderno provano chiaro tale 
identità siccbè quanto si dice dei suono si possa identificais col canto 
e viceversa. E qui per provare vie meglio quanto pascolo efficace alia 
vita morale delPuomo e intellettuale dei popoli porgesse la musica mi 
piace il fatto bíblico dei re Saul, la cui fúria era acquetata dal suono 
delParpa di Uavid, e Paltro mitico di Orfeo e di Anfione, al suono 
delia cui lira si arrestava il corso dei fiumi, si mansuefacevano le 
fiere, si muoveano i sassi disponendosi a formare mirabilmente le mura 
di Tebe per indicare che la poesia primitiva disposata al suono delia 
musica porgeva tanto gradito pascolo a' popoli barbari primitivi che 
ne dirozzasse i costumi e dalla vita selvaggia e nómade li stimolasse 
alia vita civile, tantopiú che alia poesia primeva la filosofia, la legisla- 
zione, la religione, tutto lo scibile insomma si riducesse. 

Ecco il nesso tra la consonanza poética o musicale e il pascolo 
se non físico, almeno morale e intellettivo. E in prova di questo pri- 
ma di chiudere la presente citerò un passo dei Purgatório, canto n, 
v. 106-119 spettante al canto di Casella: Dante dice a Casella, suo 
amico : 



Se nuova legge non ti toglie 

Memoria o uso alPamoroso canto, 
Che mi solea quetar tutte mie voglie, 

Di ciò ti piaccia consolare alquanto 
LTanima mia, che con la sua persona 
Venendo qui, è affannata tanto. 

Amor che nella mente mi ragione, 
Cominciò egli allor si dolcemente 
Che la dolcezza ancor dentro mi suona, 

Lo mio maestro ed io e quella geute, 
Ch'eran con lui, parevan si contenti, 
Come a nessun toccasse altro la mente. 

Noi eravam tutti fissi ed attenti 
Alie sue note 



E appresso Dante v. 124 ricorre alia similitudine delia pastura 
de'colombi e la ragguaglia al pascolo dei canto di Casella, come il 
canto sinfónico degli angeli nella vigília di Natale si connetterebbe 
alPidea dei rompimento dei digiuno, cioè delPalimento preso in essa 
notte; ecco il passo rispettivo: 



Musica e poesia nacquer gemelle. 



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MISCELLANEA 



36 5 



Come quando cogliendo biada o loglio 
Gli colombi adunati alia pastara, 
Queti, senza mostrar 1'usato orgoglio, 

Se cosa appare, ond'elli abbian paura, 
Subitamente lasciano star Pesca, 
Perchè assaliti son da maggior cura; 

Cosi vid'io quella masnada fresca 
Lasciar il canto e fuggir ver la costa, 
Com'uom che va, nè sa dove riesca : 

Nè la nostra partita fre men tosta. 

Io non so veramente se queste mie chiaccliiere sconclusionate 
abbiano potuto concorrere a faria ricredere in parte, o no, circa la ve- 
rosimile accettazione delia prima sua etimologia, e se, menti»e prima 
ravvisava uma profunda lacuna tra le due idee, onde quella sola pa* 
rola consoar Le pareva suscettiva, dopo 1'abbia veduta scomparire o 
attenuarsi in parte dietro le osservazioni da me fatte. In ogni modo 
valga presso di Lei il concetto dei noto adagio latino : Voluntas pro 
facto recipitur, quantunque di buone intenzioni, come dice un altro ada- 
gio toscano, sia lastricato V inferno. 

Intanto pregandola di volermi concedere vénia delia soverchia 
prolissità delia presente La ossequio profondamente e mi raffermo 

Della S. V. Ill. ma 

Dev. m0 Servo 
Stanislao Pbato. 

Sessa Aurnnca, li 2 febbrajo 1894. 

A' attenciosa carta do ex. mo snr. Estanislao Prato, que muito 
agradeço, respondo o seguinte: 

Embora formulasse, com um sorriso nos lábios, a questão se os 
propugnadores da etymologia consoada > consonata pensariam nas con- 
sonancias musicaes do «Gloria in excelsis Deo* dos coros angelicaes, 
entoado todos os annos na noite das consoadas, ou se pensariam na 
concordância, conformidade e harmonia de sentimentos que animam en- 
tão as famílias reunidas em consoada — não neguei em absoluto a 
possibilidade de consonata ter produzido consoada. A vida das pala- 
vras é ás vezes tão entrecortada de peripécias imprevistas que não 
seria prudente negar a priori qualquer transformação semasiologica. 
O que eu quis dizer foi que me parecia impossível [impracticatel] his- 
toriar [= demonstrar por meio de textos documentaes] o desenvolvi- 
mento de consonare para comer de consum. E as considerações, de res- 
to muito interessantes, do meu cortês antagonista, não provaram o 
contrario. 

Continúo portanto a derivar consoada de * con-sub-un-ata, accres- 
centando apenas que este substantivo, que nos textos antigos tem sem- 



366 



REVISTA LUSITANA 



pre o sentido ainda nâo restricto de ^refeição nocturna em commum 
em qualquer dia do anno*, nos apparece nnm documento de 1448 na 
velha graphia: consooada [J. P. Ribeiro, Diss. Chron. n, 252], assim 
como assuadas apparece nnm texto de 1305 na graphia asouhadas 
[ib. i pag. 303]. 

Aproveito o favorável ensejo para avisar os estudiosos de que 
as fórmulas adverbiaes de-consu-um (cant. 398) e de-su-um (= con- 
juntamente e simultaneamente), assim como assuada (Cant. 15 e 369) 
(= motim) occorrem, como era de esperar, amiudadas vezes nas Can- 
tigas de Alfonso x. O editor não as entendeu, porém, nem lhes ligou 
importância alguma. Imprime ora dess uun (cant. 56,3; 95,9; 106,6; 
277; 311; 406; 420): ora des uun (65 e 393,8) ou des uum (224,6); 
ora dess huun (233), e pouquíssimas vezes : de snu (255) ou de so uun 
(255). No muito defeituoso Glosario, que acompanha a riquíssima edi- 
ção da Academia Hespanhola — e de que conto occupar os leitores 
em outra occasifto — todas aquellas fównulas estropeadas são traduzi- 
das correctamente por juntamente, en uno, mas figuram, no artiguinho 
dedicado a des: desde! i. é. à formula de-ex [de!]. 

Carolina Michaelis de Vasconcellos. 

Porto, 2 de abril de 1894. 

ra 

AMULETOS 

Da obra Pharmacopea Tubalense Chimico-Galenica, de Manoel Ro- 
drigues Coelho, Lisboa Occidental, 1735, extráio as seguintes notas 
que se referem a amuletos, usados uns em Portugal, outros em diver- 
sos países. 

1. Amuleto de dente 

tOs seus dentes (os das Carcharias, ou Cão do Mar, Tubarão, etc.) 
servem de amuleto aos meninos, porq lhe excitaõ o nascimento dos 
seusi (na America). — Pag. 168. 

2. Amuleto de cascavel 

cEste tal Cascavel (o da Cobra de Cascavel), trazido dependurado 
ao pescoço junto da carne, como Amuleto, affirmaõ os naturaes daquel- 
la terra (Brasil), que tem virtude de preservar de accidentes de got- 
ta-coral, e de vagados». — Pag. 170. 

3. Amuleto de osso 

«Sem embargo porém da dita Cobra (a Cobra Zuâii ou Zuiche 
ter esta maldade, comunicou-lhe Deos nos ossos do seu espinhaço, 



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MISCELLANRA 



367 



huma grande virtude, porque secaõ, e curaõ as alporcas, com tal con- 
diçaõ, que o enfermo os traga ao pescoço, junto da carne por tempo 
de hum anno. Para se privarem esses ossos da sua carne, depois de 
morta a Cobra, se enterra por tempo de quinze dias, dentro dos quaes 
lhe apodrece a carne, e com muita facilidade se despegaõ delia, e en- 
xutos se guardaõ, para se applicarem enfiados em hum cordaõ de re- 
troz, dependurados ao pescoço, para a sobredita queixa, ou para quem 
tiver dores de garganta» (em Angola). — Pag. 179. 

4. Amuleto de «pedra» de cobra 

«Serve (a «pedra de Cobra de moer, ou de Capelos)» misturada com 
vinho, e agua, para as mulheres que estão em parto; também para 
este effeito usaõ delia, atada na coxa da perna com hú panno, quan- 
do querem parir» (nos Cafres). — Pag. 182. 

5. Amuleto de cabeça de víbora 

«Depois de cortada a cabeça deste animal (a Vibora), lhe tiraõ a 
lingua para a trazerem ao pescoço como Amuleto, para a preserva- 
ção do máo ar» (em Portugal *). — Pag. 184. 

6. Amuleto de unha de «gram besta» 

«Também se usa delia (a unha da gram Besta), como Amuleto, 
para se preservarem do mesmo achaque (accidentes de gotta-coral, 
tremores, convulsoens, afectos dos nervos, e cabeça), humas vezes em 
anéis para os dedos, outras vezes pendurada ao pescoço ; e outras ve- 
zes atada ao pulso» (em Portugal).— Pag. 186. 

7. Amuleto de camphora 

«He a Camphora hum grande remédio para rebater as payxoens 
histéricas; também he bom para as febres intermitentes, trazendo-o 
dependurado ao pescoço, porque a sua volatibilidade, entrando insen- 
sivelmente pelos póros da Cútis, excita a rarefaçaõ, e transpiração do 
humor, que causa esta enfermidade» (em Portugal). — Pag. 193. 

A. Thomaz Pirrs. 



* [Na minha collecçâo de amuletos portugueses ha um d'estes, que obtive na 
Beira- Alta. — J. L. de V.]. 



368 



REVISTA LD8ITANA 



IV 



BTYMOLOGIAS POPULARES 



Numas listas de etymologias populares organizadas separadamen- 
te pelos srs. A. Coelho e J. Moreira, e publicadas no l vol. d'esta Re- 
vista, vem citado o nome duma rua da cidade do Porto. Segundo es- 
tes auctores, o nome da Rua da Fonte Taurina foi convertido na bocca 
popular em Rua da Fonte da Ourina. 

Na carta de perdão passada a Tristão Roiz de Figueiredo em 12 
de Maio de 1572 e registada no Liv. 18 de Legislaçfto de D. Sebas- 
tião e D. Henrique, fL 110 (na Torre do Tombo), vem já menciona- 
da a dita rua: — Rua da Fonte douryna. 

Outras etymologias populares antigas ha que juntar ás referidas 
listas, como Rua do Bemformoso (Paço do Boi Formoso) em Lisboa, 
Villa de Moncorvo (Mendo Coruo, Mecoruo) e ainda frontificações em 
um documento do tempo de D. João 4.° 



Aux intéressantes notes publiées ici même (t. i, p. 63) par M me 
C. Michaelis de Vasconcellos sur ce produit de Tindustrie portugaise, 
j'ajouterai qu'il se colportait en Espagne avec les toiles de Flandre, 
les hollandes de Cambrai, et que la vente de ces articles à domicile 
était presque un monopole du lenceiro portugais, 1'ami des femmes, 
à qui il vendait souvent à credit, et la terreur des maris ou des amants: 



Fr. Luis de Leon, dans son beau livre de la Perfecta casada, com- 
pare ce lenceiro au marchand cananéen de la Bible : mLienzo te jió, y 
vendiólo, franjas dió al cananeo (Prov. xxxi, 24). Cananeo llama (Sa- 
lomon) al raercader, y al que décimos casero, porque los de aquella 
nacion ordinariamente trataban de esto, como si dijesemos agora, al 
português 2 *. 

Le lenceiro colporteur se recrutait-il dans certames localités plu- 

i «Entremes famoso de la competência dei português y francês», dans les 
Verdores dei Parnaso, 1697, pag. 97. 
* Perftcia casada, § xiv. 



Pedro d' Azevedo. 



V 



CHILO PORTUGOÉS» 



Eu so, mi nina, eu so voso lenceiro, 
Traigola aqui à voacé aquella peza 
De Cambray. . . . 
— Hombre, passito l . 



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MISCELLANEA 



369 



tot que dans d'autres ? Je Fignore. Ce serait à rechercher. En tout 
cas, je ne pense pas que Fallusion suivante de Gongora à Olivença 
soit à prendre bien au sérieux : 

Dofía fulana . . . 



El quatrin no menos pilla 
De Oliveros de Castilla 
Que d un hilero de Olivença. 
Tenga verguença l . 



II fallait trouver une rime à verguença. 
Paris. 



A. Morel Fatio. 



VI 

SUPERSTIÇÕES POPULARES DO SÉCULO XYJH 

1. Amuleto de chifre 

No livro dos Idyllios de Antonio Dinis da Cruz e Silva (edição de 
1811), em o ldyllio xm, em que são interlocutores Tirse e Elpino, 
sendo as partes de Tirse do dr. Theotonio Gomes de Carvalho, e as 
de Elpino de Antonio Diniz, vem, a fl. 181, uma estrophe, em que se 
allude ao amuleto natural da ponta de chifre para preservar do mau 
olhado : 

«Tirse 

Ontem ao collo da malhada ovelha, 
Do rebanho esperança, a curva ponta 
De um cervo pendurei, porq o máo olho 
De invejosa pastora a não offenda. 
Feliz ovelha, pasce a molle relva, 
Feliz ovelha, que has de ser de Alcipe». 

2. Agouro da gralha 

No ldyllio iv, a fl. 61, faz-se allusâo ao agouro provocado pelo 
grito da gralha: 

«E mil vezes a gralha em rouco accento 
Me predisse cruel a desventura, 
De cuja triste agouro então zombava; 
Mas conheço em meu mal q me enganava». 

i Letrilla burlesca, commençant par: «Texto Je piernas de arafia». 
u*v. lubit., vol. iii, fase. 4. 6 



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370 



REVISTA LUSITANA 



3. 0 nardo agreste 



Nos Idyllios v, a fl. 63, e xiv, a fl. 189, apresenta-se o cnardo agres- 
te» como preservativo do mau olhado e da inveja: 



tFogo accende, e queimando puro enxofre 

O rebanho perfuma, porque fique 

De maligno contagio todo isento; 

E para que não possa a torpe Inveja 

Cos retorcidos olhos fascinallo, 

Das viçosas capellas, que tecido 

Do nardo agreste tenho, diligente 

Lhe cinge as duras pontas, doce Almeno». 

c Ah! croai-me, pastores companheiros, 
Pois estes pinhos com meu canto folgfto; 
De nardo me croai, porque má lingoa 
Ao poeta, que crece, não ofltenda*. 



No Idyllio xx, a fl. 263, faz-se allusfto ao loureiro como symbolo 
da inconstância: 



«Juraste, e de repente hum pé de vento 
Da raiz arrancou hum verde louro : 
De meu mal foi por certo claro agouro, 
E então nem tal me veio ao pensamento». 



(Romance que julgo medito, — colhido da tradição oral nas Caldas da Rainha) 



Indo o rei Traquilha á caça, 
Anoiteceu-lhe na caçada. 
Estando Grameneza (sic) à porta, 
Logo ficou assustada. 
Ella virou para dentro, 
Boa mesa apparelhada; 
Se boa era a mesa, 
Muito melhor era a cama. 
Accendeu-lhe doze tochas, 



4. 0 loureiro 



A. Thomaz Pires. 



vn 



O REI TRAQUILHA 



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MJSCKLLANKA 



371 



Pôs-lhe seis de cada banda. 

Lâ pela noite velha, 

Rei Traquilha alevantado. 

— O que é isto, rei Traquilha, 
Vossa Alteza alevantada ? 

— Sim, humilda-te aqui a mim, 
Senão morres degollada! 

— Pois mais vale a morte com honra 
Do que a vida malfadada. 

Isto sirva de exemplo 
A toda a mulher casada. 

Z. Consioubbi Pedroso. 

VIII 

IE AOS GAMBOZINOS 

Na Carrazeda d' Anciães havia o costume de convidar as pessoas 
simplórias para irem aos gambozinos. Se alguma d'ellas accedia, le- 
vavão-na uma noite sombria a um sitio escuro e medonho, e colloca- 
vão-na com um sacco aberto ao pé de um buraco, como para agarrar 
nelle os gambozinos, que costumavão sahir por alli; e assim deixa- 
vão ficar o incauto, ás vezes, até pela manhã, indo-se embora, sob 
qualquer pretexto, a/ pessoa que o lâ levou. 

Outras vezes maltratavão o sujeito ou amedrontavão-no ; e elle, 
ou fugia, ou, o que dizem ter acontecido, e não é incrível, ficava pros- 
trado por causa dos maus tratos ou do mêdo, ou de ambas as coisas, 
sendo preciso conduzirem-no a casa. 

Convém notar que d'este costume se não contão casos modernos, 
mas antigos, não se apontando mesmo ninguém que se tivesse sujei- 
tado a semelhante caçada. 

A. de Sequeira Ferraz. 

IX 

AMO 

A palavra amo significa hoje — o marido da mulher que dá leite 
a algum filho d'outra pessoa; mas nos tempos antigos significava — 
aio. Neste sentido usou d'ella Camões nos seus Lusíadas, m, 35, quan- 
do, fallando d'Egas Moniz, diz o seguinte: 

Mas com se offerecer à dura morte 
O fiel Egas, amo, foi livrado. 



372 



KK VISTA LUSITANA 



No mesmo sentido de aio he tomada nas Ordenações do liv. i, tit. 
xv, § 17; liv. n, tit. xlv, § 37; tit. xlix, § 4; tit lix, § 6 e 15; liv. 
m, tit. 28. pr.; liv. v, tit. xc, § 1, e tit. cxxxix, aliás cxxxvm, pr. 

A mesma palavra significa também — o conductor das obras de 
alguma pessoa; o que se vê na mesma ordenação. 



Exposição da pronúncia normal portuguesa para uso de nacionaes e es- 
trangeiros : memoria destinada á x sessão do Congresso Internacional dos Orien- 
talista* , por A. R. Gonçalves Vianna. Lisboa 1892, 106 pag. 

Em 1882 publicou o Sr. Gonçalves Vianna n-0 Positivismo, vol. ív, n.° 1 e 
2, uns artigos a propósito de um trabalho do Dr. Hugo Schuchardt, com os quaes 
como que inaugurava em Portugal o estudo scientifíco da phonetica physiologiea 
portuguesa. Esses artigos nâo são um trabalho geral de phonetica : esta sciencia 
vem ahi por incidente: mas archivâo-se lá vários factos interessantes da nossa 
pronúncia, e applica-se um methodo que até então se não havia ainda entre nós 
applicado com rigor. 

O trabalho capital do Sr. Gonçalves Vianna foi publicado em francês, no 
anno seguinte, no vol. xn da revista parisiense Bomania, e d'elle se fez separata 
em volume com o titulo de Essai de phonétique et de phonologie de la langue portu- 
gaise d'aprhs le dialecte actuei le Lisbonne, Paris 1883, 70 pag. Classificâo-se nessa 
obra os sons da nossa língua, indicando-se muitos d'elles pela primeira vez; des- 
crevem -se physiologicamente, e comparão-se com outros de línguas vivas; além 
d'isso estudâo-se as influencias dos sons contíguos, uns nos outros, e fazem-se di- 
versas observações á cerca da accentuaçao. 

Este trabalho tornou rapidamente conhecido lá fora o Sr. Gonçalves Vian- 
na, que mostrava não só particular aptidão para os estudos phonologicos, e segu- 
rança na applicação dos methodos scientifícos, mas também largo conhecimento de 
línguas. Com effeito o Sr. Gonçalves Vianna é ao mesmo tempo glottologo e poly- 
glotta: conhece mais de quinze línguas, entre vivas e mortas, f aliando algumas 
com tanta perfeição, que, uma vez, que foi a um congresso estrangeiro, onde se 
encontrou com muitos glottologos e homens de lettras, passou por ter differentes 
nacionalidades, suppondo-o hespanhol os hespanhoes, italiano os italianos, francês 
os franceses, etc. Todos os glottologos que se oceupão especialmente de phonolo- 



1 [Das Memorias colliyidas e relatadas, por Joaquim José Ferreira Gordo, pre- 
lado da Santa Igreja de Lisboa, tomo i, n.° 4. Ms. da Bibliotheca da Academia 

das Sciencias de Lisboa, Gab. 3, E Este auctor nasceu em 1758, e falleceu em 

1838. — J. L. de V.]. 



J. J. Ferreira Gordo l . 




LIVROS 



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BJBLIOGRAPHIÀ 



373 



gia o citáo e o aprecião, o que se pode vêr nos escritos de Storni, Schuchardt, Cor- 
nu, Príncipe Bonaparte, Passy, etc. 

Por occasiâo de se organizarem trabalhos para um congresso de Orientalistas 
que devia realizar-se em Lisboa, mas que não chegou a realizar-se, refundiu o Sr. 
Goncalves Vianna o referido Essai de phonétique, e publicou-o, ampliado, com o 
titulo de Exposição da pronúncia normal portuguesa. £ f d'este opúsculo que vou 
dizer em especial algumas palavras. 

Di vide -se em duas partes: I) Preliminares; e II) Pronúncia normal portu- 
guesa. 

A 1.* Parte é por assim dizer um pequeno tratado de phonetica geral. O au- 
ctor começa por dar indicações bibliographicas, apresentar algumas considera- 
ções sobre o mecanismo da voz, e classificar os sons ; depois trata das vogaes e 
estuda os accidentes intrínsecos e extrínsecos d'estas e das consoantes, e as permu- 
tações: considera em seguida a syllaba, o vocábulo e a pausa; por fim passa á 
transcripção phonetica das consoantes e exemplificação destas. 

Em toda a l. a Parte ha grande abundância de factos, e o Sr. Gonçalves 
Vianna manifesta, como sempre, muita delicadeza de nnályse acústica. 

Com relação ao methodo seguido, direi que me parecia melhor ter tratado 
primeiro das vogaes e das consoantes juntamente, do que assim em separado, pois 
classifica e descreve as consoantes, depois de ter tratado dos accidentes doestas; o 
inverso seria mais natural. Num ou noutro ponto secundário da sua exposição, eu 
poderia também dissentir, ou fazer alguma observação, mas não me alargo mais 
nisto, para que não pareça que com críticas de miudezas desejo encobrir o valor 
geral e real do opúsculo. 

A 2.* Parte, intitulada Pronúncia normal portuguesa, havia já sido publicada 
como introducção da edição annotada do canto 1.° d- O* Lusíadas, feita em 1892 
pelo Sr. Salles Lencastre. 

O auctor oceupa-se successi vãmente dos seguintes assumptos: sons e sua 
escrita, consoantes, vogaes, observações sobre as vogaes, influencia das vogaes 
protonicas nas accentuadas, conjugações e flexões dos verbos (em relação á pro- 
núncia das vogaes), reeapitulação da indicação do valor de cada lettra (com exem- 
plos numerosos), quantidade prosódica, accentuação (pronunciada e graphica). 

O trabalho termina com algumas considerações á cerca da pronúncia portu- 
guesa no sec. xri, segundo o entender particular do auctor, e com duas transcrí- 
pções phoneticas da proposição dos Lusíadas (uma, segundo a pronúncia actual, 
outra, segundo a pronúncia presumivel no sec. xvi, epocha em que o poema foi 
escrito). 

A 2. a Parte do trabalho do Sr. Vianna 6 particularmente importante para 
os estrangeiros que tiverem de aprender a nossa lingua, e para os professores 
d'ella. 

Vê-se que o novo trabalho do illustre glottologo e primeiro phoneticista por- 
tuguês constitue uma beila contribuição para o conhecimento e estudo da nossa 
lingua. Pena é que seu auctor, possuindo, como possue, tantos conhecimentos lin- 
guisticos, e estando senhor, como está, do methodo scientifico, — pois em todos os 
estudos scientificos o bom methodo é condição indispensável — , não queira entrar 
mais vezes nas lides da imprensa, proseguindo com assiduidade no desbravamento 
do vasto campo da glottologia portuguesa. 

Em verdade os escritos do Sr. Gonçalves Vianna não se limitão aos indi- 
cados : elle tem publicado apreciações críticas, notas sobre dialectos, e ainda ou- 
tros estudos; mas tudo isso é pouco, e eu, que conheço de perto as raras quali- 
dades e merecimentos do auctor, julgo-me auctorizado (pensando de mais a mais 
no diminuto número dos que em Portugal sabem trabalhar bem) a manifestar 
aqui o meu desejo de que o Sr. Gonçalves Vianna publique mais do que publi- 
ca, já que a falta do seu aturado concurso se torna muito sensivel no nosso meio 
scientifico. 

J. L. dk V. 



374 



REVISTA LUSITANA 



n 



PERIÓDICOS 



Revista de educação e ensino, N.° 4 (Abril de 1894) e n.° 5 (Abril 
do mesmo anno). — No n.° 4 publica o Sr. Bernardo Fernandes Monteiro a traduc- 
çâo do Evangelho de S. Lucas em mirandês, e no n.» 5 a traducçào da primeira 
epistola de S. Paulo aos Corinthios. Estes textos fôrâo revistos peio Sr. Gonçalves 
Vianna, que precedeu de algumas considerações pbilologicas o primeiro d T elles. O 
Sr. Fernandes Monteiro é natural da Póvoa, concelho de Miranda do Douro, e co- 
nhece por isso muito bem o seu dialecto natal. E' sempre muito diflicil escrever 
uma lingua pela primeira vez; nâo admira, pois, que, apesar do conhecimento ínti- 
mo que o Sr. Monteiro tem do mirandês, haja alguma discrepância entre a phone- 
tica viva e a orthographia : é assim que, por exemplo, o Sr. Monteiro escreve los 
por Vs, >õ em vez de -ou, etc. — Nào posso senão louvar, tanto o Sr. Fernandes 
Monteiro como o Sr. Gonçalves Vianna, pela feliz lembrança que ti verão de publi- 
car estas traducções; a língua mirandesa é ainda pouco conhecida, e convém pu- 
blicar textos em que ella se revele. — O mirandês offerece variedades. Os textos 

Ímblicados pelo Sr. Monteiro sâo na lingua da Póvoa, que se liga com a de Ma- 
nadas e Duas-Igrejas ; esta última é a que tem servido de base para os estu- 
dos que até hoje tenho dado a lume á cêrea do idioma da Terra de Miranda. 



Obras publicadas ultimamente : 

— Obras de Christovão Falcão, edição critica, annotada por A. 
Epiphanio da Silva Dias. Porto 1893. — Disse d'esta obra algumas palavras in 
Revista Nova, Lisboa 1894, n. e 3, pag. 35. — Cfr. supra, pag. 347; e infra, pag. 375. 

— UTote ethnographique sur les chiffres uses dans leu 
pressoirs d'olives dans 1'arrondissement d'Alcobaça, por M. 
Vieira Natividade, Alcobaça 1891. — O A. suppoe que esses signaes talvez repre- 
sentem costumes de alguma civilização esquecida. — O uso da cruz pode porém fa- 
zer inferir que nâo sejão muito antigos, e talvez sejào devidos aos frades bernar- 
dos que alli tinhão o seu principal mosteiro; todavia, antes de qualquer juizo, é 
necessário vêr se o mesmo uso existe noutros pontos do pais, e fora. 

— ©eschlehte der Portugiesischen Lltteratur (Historia da 
Litteratura Portuguesa), por D. Carolina Michaglis de Vasconcellos & Theophilo 
Braga, Estrasburgo 1894 (faz Darte do Grundriss der Roman. Philologie, publi- 
cado por G. Grober). — Valiosíssimo trabalho. 

— Zara, por Anthero de Quental, Lisboa 1894,— edição polyglottica. — Com- 
prehende uma poesia de Anthero de Quental com as traducções em muitas linguas 
e dialectos. Entre as traducçors vem uma em mirandês, feita pelo Sr. Padre Ma- 
noel Sardinha, natural de S. Martinho d'Angueira; temos pois aqui, além dos que 
citei acima, nesta mesma pagina, maiB um documento da litteratura mirandesa: e 
é por isso que faço neste logar menção do livro. 

— As «Lições de linguagem > do Sr* Candido de Figueire- 
do» por J. Leite de Vasconcellos, 2* ed. augmentada, Porto 1893. 

— O gralho depennado (réplica ás «caturrices pbilologicas» do Sr. 
Candido de Figueiredo), pelo mesmo, 3.» ed. muito augmentada, Porto 1894. 

— He «Margariti» villa in território Viinaranensi com- 
mentariolum, pelo mesmo. Oiisipone 1893. 

— Q,uid apud LusHanos verbum «aedeoii» significaverit, 
pelo mesmo, Oiisipone 1893. 



J. L. de V. 



m 



VARIA QUAEDAM 



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B1BLI0GRAPHIA 



375 



— Chartam alteram de villa quae «Hlargaride» appella- 
tur 9 pelo mesmo, Olisipone 1894. 

— Notas ao Cancioneiro de el-rei li. Dinis e STovas notas, 

pelo mesmo, Barcellos 1894 (2 opúsculos). 

— Grammatica portuguesa elementar, por Epipbanio Dias, Lis- 
boa 1894. — A' cêrca d'esta grammatica vid. o que escrevi no meu opúsculo As «Li- 
ções de linguagem» do Sr. Candido de Figueiredo, 2.» ed., pag. 14 seg. 

Vários trabalhos destinados ao Congresso de Orientalistas, que esteve para 
se realizar em Lisboa: 

— Os Ciganos de Portugal — com um estudo sobre o calão, por F. 
Adolpho Coelho, Lisboa 1892, 303 pag. O A. havia-se já oceupado d'este assum- 
pto na Revista Lusitana: foi até com um artigo do Sr. Adolpho Coelho, com 
aquellc mesmo titulo, que a Revista Lusitana abriu o 1.° fasciculo do seu 1.» vo- 
lume. O novo livro vem completar esse artigo. — Trabalho de muita erudição e 
importância, e que contribue excellentemeute para preencher uma lacuna na nossa 
litteratura. 

-Dcux faits de phonologic historique portugaisc 9 Sim- 
plifieation possible de la eomposition en caracteres árabes 

(2 opúsculos), por Gonçalves Vianna, Lisboa 1892. No primeiro trata- se dos sons 
attribuidos no sec. xn, no Sul de Portugal, ás lettras s e ç, e trata-se também da 
representação das gutturaes árabes pelo som / nas linguas da Península Hispâni- 
ca. O assumpto do segundo, o titulo o diz. — D'outro trabalho do mesmo A. fallo 
acima, pag. 372. 

— I*a eonnaissance de la Pén insule espagnole (sic) par les 
hoinmes du Nord, por A. K. Fabricius, Lisboa 1892. Refere -se aos Nor- 
mandos. 

— La premiére invasion des STorinands dans 1'JEspagne 
musulmane en 844, pelo mesmo, Lisboa 1892. 

— I/affinité étymologique des langues égyptienne et in- 
do~européennes 9 por Charles Abel, Lisboa 1892. 

— Passos dos Lusíadas estudados á luz da mitologia e 
do orlentallsmo, por Vasconcellos Abreu, Lisboa 1892. Reedição do inte- 
ressante opúsculo publicado anteriormente com o titulo de Fragmentos oVuma tenta- 
tiva de estudo scoliastico da Epopeia Portuguesa. 

— Inês de Castro, épisode des l«usiades 9 traduction en vers hé- 
breux, — par J. Bénoliel, Lisboa 1892. 

— Inscripções portuguesas que se encontram nas igrejas 
de £• Francisco de Cochiin, Lisboa 1892. 

— Sur les Religions de la I*usitanie 9 Sur les amulettes 
portugaises» Sur le dialecte portugais de Maca© (3 opúsculos), 
por J. L. de V., Lisboa 1892. 

Portugal mo estrangeiro: 

— No liiteraturblatt fttr german. und roman. Philologie 9 

n.° 8, 1894, publicou a Sr. a D. Carolina Michaèlis de Vasconcellos um extenso e 
erudito artigo á cêrea da magnifica edição critica das Obras de Christovâo Fal- 
cão feita pelo Sr. Eniphanio Dias. Cfr. supra, a pag. 362 e 374. 

— La tradition dEginhard et Km ma dans la poésie ro« 
mancesca de la Péninsule Hispanique 9 — essai folklorique par Haus 
Otto (extr. dos Modem language notes, Baltimore 1892). — Estudo metnodico e con- 
sciencioso do romance popular de Gerinaldo, que se baseia numa lenda do cyclo 
de Carlos Magno. A's versões portuguesas, indicadas pelo Sr. Otto, posso addicio- 
nar mais duas, publicadas nos meus Romances populares portugueses, Barcellos 
1881, n. 0 * xxm e xxiv. Também ouvi em Tras-os- Montes uma versão em hespanhol. 

— Na sessão de 15 de Março de 1894, no Columbia College de Nova-York, 
para commemorar o 1.° centenário de F. Diez, fundador da Philologia Românica, 
o sr. prof. H. Lang, nosso illustre collaborador, leu um artigo intitulado Diez and 



376 



REVISTA LUSITANA 



the study of Mediceval Portuguese Poetry.—Vià. The New- York Times de 16 de 
Março de 1894. 

Dl8TINCÇÃO MERECIDA : 

A antiga Universidade de Friburgo, no Gran-Ducado de Baden, fundada no 
sec. xv pelo archiduaue Alberto vi de Áustria, concedeu á Sr. â D. Carolina Mi- 
chaèlis de Vasconcelíos o titulo de doutora. 

O diploma diz isto: 

«Quod felix faustumque sit. Sub auspiciis summi principis Friderici magni 
ducis Badarum, ducis Zarinçiae, rectoris Academiae magnificentissimi, prorectore 
magnifico Ottone Hense, pmlosophiae doctore, litterarum antiquarum professore 
publico ordinário, ex auctoritate senatus academici, ex decreto ordinis philosopho- 
rum in Litterarum Universitate Alberto-Ludoviciana, promotor leçitime constitu- 
tus Aemilius Warburg, philosophiae doctor, physices professor pubhcus ordinaríus, 
dominae spectatisaimae Carolinae Wilbelmae Micbaelis de Vasconcelíos, mulieri 
rara doetnna praecellenti, quae de linguis litterisque et Lusitanorum et Hispano- 
rum investigandis egregie est inerita, atque philologiam romanicam quae dicitur 
libris commentationibusque doctissirais ornavit auxit amplificavit, bonoris causa, 
doctoris pbilosopbiae gradum jura privilegia rite contulit. Id quod publico hoc di- 
píomate declaratur Friburgi Brisigavorum die xx mensis Julii anni mdcccxciii. Dr. 
Otto Hense, H. T. Prorector. (L. S.) Dr. Aemilius Warburg, Ordinis Philos. H. T. 
Decanus». 

E' a Sr.» D. Carolina Michaêlis a terceira senhora a quem esta grande dis- 
tincçào se concede, seudo as outras Clara Schumann, feita doutora em Leipzig, 
e F. Mestorf, directora do Museu de Antiguidades, em Kiel. 

Dando ésta, embora tardia, noticia, a Revista Lusitana cumpre gostosamen- 
te um dever, e pratica um acto de cortesia, porque a Sr. a D. Carolina Michaélis, 
pelos riquissimos livros e artigos de que é auctora, oceupa um logar de honra na 
historia da philologia românica, e sobretudo da philologia portuguesa, e como col- 
laboradora da mesma Revista tem -lhe prestado extraordinário auxilio, abrilhan- 
tando constantemente as suas páginas. 

J. L. de V. 



ERR ATUM 

A pag. 245 transcrevi o fragmento de uma carta de um viajante inglês, na 
qual elle diz que vira começar a ser destruída a fachada da igreja conventual 
de Beja. 

Tanto por informações particulares que recebi, como pelo que, em rectifica- 
ção do trecho do meu artigo, se lê n-0 Bejense de 10 de Novembro de 1894, estou 
auctorizado a negar a afíirinativa do tal viajante. 

Para melhor elucidação, copio aqui as palavras d- O Bpjense: «O viajante 
inglês viu por terra parto do entablamento e da parede exterior da igreja da Con- 
ceição e entendeu que se tratava de destruir. Pois era o contrário. Apeou- se o 
rendado e demoliu- se a parede para se reconstruir, para se salvar da total ruina, 
a obra do rei Venturoso, como effeetivamente se salvou. A fachada da igreja, a 
coisa mais beUa na cidade de Pax Julia, está reconstrui da, e, contra os costumes 
da terra, reconstruída rigorosamente. Nem o mais pequeno detalhe soffreu alte- 
ração». 

Sinto ter dado crédito á carta do viajante inglês, e apresso-me a corrigir o 
meu êrro. Aos louvores que na citada página eu havia tecido ao povo de Beja, 
pelos desvélos que prodigaliza ao seu já hoje tão importante Museu Archeologico 
Municipal, tenho pois agora de acerescentar mais, pêlos novos serviços prestados 
á archeologia. Embora as minhas palavras não sejão auctorizadas, são porém sin- 
ceras. 

J. L. de V. 



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DECLARAÇÃO 



Declaro que a redacção e administração da Revista Lusitana são, 
e tem sido sempre, gerências absolutamente distánctas entre si, nfto 
intervindo nunca uma na outra. 

A meu cargo está apenas a direcção litteraria: escolha e natu- 
reza dos artigos, publicação d'estes, etc. Nfto me cabe pois a minima 
responsabilidade no que se refere à cobrança do preço das assignatu- 
ras, á maneira da distribuição dos fascículos, etc., — o que tudo está 
a cargo dos editores. 

Outrosim declaro que, em virtude de contracto prévio que cele- 
brei com estes, não tenho participação alguma nem nas despesas com 
a publicação da Revista, nem nos lucros (se os houvesse!). O meu 
trabalho, como o de todos os collaboradores, é completamente gra- 
tuito; apenas eu recebo alguns poucos exemplares da Revista, para 
trocas. Quando mesmo de alguns dos artigos nella publicados se fa- 
zem edições em separado, o gasto com isso é pago á custa dos aucto- 
res dos artigos, quer estes sejão dos collaboradores, quer meus. 

Lisboa, Dezembro de 1895. 



J. Leite os Vasconcellos. 



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ÍNDICE 



Artigos desenvolvidos: 

Contos populares portugueses — por D. Cecília Schmidt Branco ... 1 

Curso de língua portuguesa arckaica — por J. Leite de Vasconcellos , 19 

Ciganos portugueses do sec. XVI — por Pedro d' Azevedo . . 51, 121 e 315 

Dialectos trasmontanos — por J. Leite de Vasconcellos 57 

Algumas tradições populares — por A. Alfredo Alyes 74 

Visão de Tundalo (texto) — por F. M. Esteves Pereira 97 

Fragmentos elymologicos — por D. Carolina Miohaelis de Vasconcellos . 129 

Museu Ethnographico Português — por J. Leite de Vasconcellos . . . 193 

Phonetica histórica portuguesa — por J. Joaquim Nunes 251 

0 deus bracarense « Pongoenabiagus » — por J. Leite de Vasconcellos . 307 

Linguagem popular de Valpaços — por Joaquim de Castro Lopo • . . 325 

Benzedores e feiticeiros do tempo de el-rci D. Manuel — por P. d' Azevedo 329 

Miscellanea : 

Notas açorianas (H. R. Lang) 80 

Cerâmica popular portuguesa (Dr. Ferraz de Macedo) 82 

CoUocação do adjectivo em português (D. Carolina Michaèlis de Vascon- 
cellos) 84 

Tradições populares (Pedro d* Azevedo) 87 

Uma passagem escura do Chrisfal (D. Carolina Michaelis de Vasconcellos) 347 

Lettera aperta (Stanislao Prato) 362 

Amuletos (A. Thomaz Pires) 366 

Etymologias populares (Pedro d' Azevedo) 368 

Hilo português (A. Morel Fatio) 368 

Superstições populares do século XVIII (A. Thomaz Pires) .... 369 

O rei Traquilha (Z. Consiglieri Pedroso) 370 

Ir aos qambozinos (A. de Sequeira Ferraz) 371 

Amo (J. J. Ferreira Gordo) 371 

Bibliographia: 

I. Livros : 

Lautlehre zweier altportugiesischen Heiligenleben, von C. Radermacher 

(Gonçalves Vianna) 91 

Cancioneiro de musicas populares, de C. das Neves & Gualdino de 

Campos (J. L. de V.) 190 

Exposição da pronuncia normal portuguesa, de Gonçalves Vianna (J. 

L. de V.) 372 

II. Periódicos: 

Revista de sciencias naturaes e sociaes (J. L. de V.) 94 

Revista de educação e ensino ( J. L. de V.) . 374 

III. Varia quaedam : 

Astronomia popular, de Soeiro de Brito 95 

Cancioneiro popular politico e calendarío rural, de A. P. Pires . . 96 

Noções de grammatica portuguesa, de F. Adolpbo Coelho .... 96 
Camões e o sentimento nacional, As lendas christãs, As modernas ideias 

da litteratura portuguesa, de Theophilo Braga 96 

Obras de Christovão Falcão, de Epiphanio Dias 374 

Note ethnographique sur les chiffres usés dans les pressoirs d*olives, dans 

Varrondusement d 1 Alcobaça, de Vieira Natividade 374 



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380 



ÍNDICE 



Geschichte der Portugiesischen Litteratur, de D. Carolina MichaSlis & 

Theophilo Braga 

Zara, de Anthero de Quental 

As •Lições de lingtmgem» do Snr. Candido de Figueiredo (3. a ed.), O gra- 
lho depennado (3. a ed.), De Margariti villa, Quid apud Lusitanos ver- 
bum *aedeoli», Chartam alteram de villa quae Margaride appellatur, 
Notas ao Cancioneiro de D. Dinis e Novas Notas, de J. L. de V. 
Grammatico portuguesa elementar, de Epiphanio Dias 



Deux faits de phonologie, Simphfication possible de la composition en 

caracteres árabes, de Gonçalves Vianna 

La connaissance de la Péninsule par les hommes du Nord e La premikre 

invasion des Normands, de FaBricius 

Ijaffinité êtymologique des langues égyptienne et indo- européennes, de 

Charles Abel 

Passos dos Lusíadas estudados á luz da mitologia e do oricntalismo, de 

VasconcelloB Abreu 

Inês de Castro, épisode des Lusiades, de J. Bónoliel 

Inscripções portuguesas que se encontram nas igrejas de S. Francisco de 

Cochim 

Sur les Religions de la Lusitanie, Sur les amulcUee portugaises, Sur le 
dialecte portugais de Mamo, de J. L. de V 

Portugal no estrangeiro : 

Artigo de Epiphanio Dias in Berlin. Philolog. Wochenschr 

Artigo sobre a nossa litteratura in Academy . ' 

O português e o francês 

Trabalho de Storck 

Trabalho de Hiibner 

Artigo a respeito de um trabalho de Esteves Pereira 

Artigo á cêrca da edição de Falcão feita por Epiphanio Dias .... 

La tradition d 1 Eginhard 

Conferencia de Lang sobre a poesia portuguesa da idade-media . . . 

Diploma de doutora concedido á Sr.* D. Carolina Michaèlis de Vasconcel- 

los pela Universidade de Fribwrgo 

Erratum 

Declaração 



374 
374 



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96 
96 
96 
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96 
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376 
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3." ANNO 



NÚMEROS 3-4 



1894-1895 



Revista Lusitan, 

Arohivo de estudos philologloos e etimológicos 
relativos a Portugal 

DIRIGIDO 

POR 

J» Leite de Vasconcellos 



8UMMARIO 



Museu Ethnographico Português— por 

J. Leite de Vasconcellos. 
Phonetica histórica portuguesa— por J. 

. Joaquim Nunes. 

0 deus bracarense «Pongoenabiagus» 

— por J. Leite de Vasconcello». 

Ciganos portugueses 4o sec. XVI (con- 
clusão) — por P. cTAzevedo. 

Linguagem popular de Valpaços — por 
Joaquim de Castro Lopo. 

Benzedores e feiticeiros do tempo de 
el-rei D. Manuel— por P. d' Azevedo. 

Miscellanea: 

i Utnd passagem escura do Chrisfál — 
por D. Carolina MichaSlis de Vas- 
concellos; n Lettera aperta — por 
Stanislao Prato; m Amuletos — por 
A. T*. Pires ; iv Etyrnologias popu- 
lares — por Pedro d' Azevedo ; v 
Hilo português — por A. Morel Fa- 
tio; vi Superstições populares do 
sèc. xvm — por A. Thomaz Pires; 
vii O rei Traquilha — por Z. Consi- 
glieri Pedroso; viu Ir aos gambozi- 
nos — por A. de Sequeira Ferraz; 
íx Amo — por J. J. Ferreira Gordo. 

BIbliographia: 

i Livros: 

Exposição da pronúncia normal 



portuguesa, de Gonçalves Vian- 
na — por J. Leite de Vaecoricel- 

l08. 

ii Periódicos:- 

Revista de educação e ensino — por 
J. Leite de Vasconcellos. 

in Vabia quakdam: 

Obras de Ckristovão Falcão — de 
Epiphanio Dias; Note ethnogra- 
phique — de Vieira Natividade ; 
Geschichte der Portug. Litteratur 

— de D. Carolina Michaêlis e 
Theophilo Braga ; Zara — de A. 
de Quental ; As « Lições de lingua- 
gem», — O gralho depennado, —De 
v Margariti» villa f — Qttid apud 
Lusitanos verbum «aedeoli», 
Chartam alteram, — Notas e No- 
vas notas ao Cancioneiro de D. 
Dinia, — de J. Leite de Vascon- 
cellos (7 opúsculos); Grammati- 
co portuguesa, — de Epiphanio 
Dias; Publicação do Congresso 
dos Orientalistas ; Portugal no es- 
trangeiro; Distincção merecida, 

— por J. Leite de Vasconcellos. 

Erratum. 
Declaração. 



PORTO 

LIVRARIA PORTUENSE 

DE 

LOPES & C. a 

SoccesHoroa de Ciarei k €. a 



1895 



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Algumas obras de J. LEITE DE VASOONCELLOS 



Tradições populares de Portugal, xv — 320 pag., Porto, 1882 . . . 500 rs. 

Annuario para o estado das tradições populares portuguesas (collabo 

rado por todos os especialistas de Portugal), ív — 97 pag , Porto, 1882 100 rs. 

0 dialecto mirandês (premiado em concurso pela Sociedade das lingvaa 

românicas de França). 40 pag., Porto, 1882 ........ 300 rs. 

Flores mirandesas {texto em mirandês, com notas philologicas e vocabu- 
lário), 40 pag., Porto, 1884 . . 100 rs. 

Estudo ethnographico (acerca da ornamentação dos jugos e cangas dos 

bois no Entre-Douro-e Minho, — com estampas), 48 pag , Porto, 1881 200 rs. 

Portugal prehistorico (vol. da Bibliotheca do povo e das escholasj, Lis- 
boa, 1885 50 rs. 

Romanceiro português (vol. da mesma Bibliotheca), Lisboa, 1886 . . 50 rs. 

Bailadas do Occidente. Este vol. de versos divide- se em tres livros : 

i Lyrismo, n Epopeia, iii Drama, 342 pag , Porto, 1885 ... . 500 rs. 

Diccionario da choro graphia de Portugal, Porto, 1884 500 rs. 

A philologia portuguesa, 57 pag., Lisboa, 1888 200 rs. 

0 texto dos Lusíadas segundo as ideias do Sr. Gomes da Amorim, 

70 pag., Lisboa, 1890 250 rs. 

Poesia amorosa do povo português, 144 pag., Lisboa, 1890 .... 400 rs. 

As «Lições de linguagem» do Sr. Candido de Figueiredo, 2.* ed., 

Porto, 1893 250 rs. 

0 gralho depennado (réplica às caturrices philologicas do Sr. Candido 

de Figueiredo), 52 pag., 2.* ed., Lisboa, 1891 ....... 150 rs. 

Sur les amulettes portugaises, 12 pag., Lisbonne, 1892 150 rs. 

Sur les religions de la Lusitanie, 9 pag., Lisbonne, 1892 .... 150 rs. 

Sur le dialecte portugais de Macao, 9 pag., Lisbonne, 1892 .... 150 rs. 

A tenda na LIVRARIA PORTUENSE, Roa do Almada, 419 a 123 — PORTO; 
on na ANTIGA CASA BERTRNAD, Roa do Chiada, 75 — LISBOA. 

NO PRELO '. 

Religiões da Lusitânia (na parte que principalmente se refere a Portugal e ainda 

á Galliza), 3 volumes, com estampas. 
0 gralho depennado (3. a edição). 



REVISTA LUSITA3STA 

A Revista Lusitana, o único periódico que no seu género existe em Portu- 
gal, publica- se em fasciculos, do volume d'este, pouco mais ou menos. Sahem qua- 
tro por anno. 

i Portugal e Hispanha . 2&000 rs. 
Preço da assignalora annoai (franco de porte). ; No resto da Europa . 12 francos 

f Brasil 6£000 rs. fortes 

i Portugal e Hispanha . 600 rs. 
Preço de cada fascículo avulso . . . . No resto da Europa . 3 francos 

| Brasil 1 £800 rs. fortes 

Toda a correspondência litteraria deve ser dirigida ao director J, I*eite 
de Tasconcellos, — Bibliotheca Nacional — Lisboa. 

Toda a correspondência relativa a assumptos económicos deve ser dirigida 
aos editores Lopes & C.S — Rua do Almada n.° 119 a 123 — Porto. 

Recebem- se propostas para o estabelecimento d 'agencias d'esta publicação 

em todo o país e no estrangeiro. 



ADOLF WKIQ-KIi — tem livros antigos e modernos: Wintergartens- 
trasse, 4. — Leipzig. 



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